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domingo, 25 de julho de 2021

Carlos Fiolhais: «A cultura científica é condição de cidadania nas sociedades modernas»


Carlos Fiolhais é uma figura incontornável da cultura portuguesa contemporânea, detentor de uma inteligente curiosidade insaciável e apaixonada pelo conhecimento. A propósito da sua última lição na Universidade de Coimbra, que tem lugar na tarde desta segunda-feira, 12 de Julho, aqui fica uma entrevista que percorre brevemente a sua vida e os seus principais interesses.

Qual a recordação mais antiga que tem de si mesmo?

Carlos Fiolhais (CF) – É muito difícil responder, pois não me foco muito no passado.
Mas lembro-me de morar na Ajuda, em Lisboa, e de andar a brincar nos Jardim da Praça do Império frente aos Jerónimos e a correr na Rosa dos Ventos, junto ao Padrão dos Descobrimentos.
Eu era muito novo no Restelo, espero nunca me tornar um “velho do Restelo”.
Vim para Coimbra aos 7 anos, onde já me lembro bem da escola dos Olivais e do liceu D. João III, incluindo do exame da quarta classe e da prova de admissão aos liceus.

O seu “entrelaçamento” com a ciência e com a Física ocorre quando?

CF – Fui descobrindo a ciência, em particular a Física, nos anos liceais. Não tanto através das aulas e dos professores (a quem, de resto, muito devo e sem os quais não seria quem sou), mas mais através dos livros de divulgação da ciência, na biblioteca da escola e na Biblioteca Municipal de Coimbra.
Requisitava três livros de cada vez, que era o máximo permitido, e passados poucos dias ia lá buscar mais três.
Entre eles estavam os livrinhos da coleção “Ciência para Gente Nova” de Rómulo de Carvalho, que mais tarde conheci pessoalmente e que é hoje o patrono de um centro Ciência Viva que fundei.
Tomei aí consciência que a ciência, isto é, a busca pelos seres humanos de conhecimento sobre o mundo, era uma aventura na qual também eu podia participar.
Depois de entrar na Universidade comecei, ainda que de forma modesta, a fazê-lo e tomei-lhe o gosto.

Tem um papel incomensurável na promoção da cultura científica em Portugal. É possível haver uma suficiente literacia científica na sociedade sem haver boa educação de ciências nas escolas? Qual o papel dos comunicadores de ciência neste desafio?

CF – Tenho participado na medida em que sei e posso, em larga medida com outros colegas, em processos, bastante variados, de comunicação da ciência para toda a gente, mostrando que ela faz parte da cultura humana.
A cultura científica pode começar na escola, mas não acaba aí.
O ensino formal é um meio indispensável, mas o ensino informal, que se faz todos os dias através da imprensa, da rádio, da televisão, da Internet, dos museus, dos jardins e parque naturais, dos sítios geológicos, da observação dos céus, etc., é um complemento essencial.
Na escola, a ciência pode ser mais forte, designadamente começando mais cedo.
E, na vida, temos de estar mais atentos à ciência que está por todo o lado.
Os comunicadores de ciência, as pessoas que sabem e gostam de transmitir ciência, são mediadores imprescindíveis entre a ciência e os cidadãos. O seu papel entre nós pode e deve ser maior.
Oxalá se criem as condições para isso

Qual o papel da cultura científica e tecnológica na democracia portuguesa?

CF – A cultura científica é condição de cidadania nas sociedades modernas. Hoje, ninguém pode estar verdadeiramente apto a participar na sociedade, sem ter uma base mínima de conhecimentos da ciência e do método que os proporciona.
Vivemos num tempo da inteligência artificial, da edição genética, da nanotecnologia, etc. em que se abrem novas possibilidades tecnológicas que interferem nas nossas vidas, levantando por isso questões éticas e legais sobre as quais todos somos chamados a participar.
Vivemos também num mundo em que há ameaças como as pandemias e as alterações climáticas cuja solução nos desafia a todos.
Além disso, e mais em geral, vivemos num mundo ameaçado por notícias falsas, no qual temos de exercer racionalidade, isto é, temos continuadamente de saber distinguir entre a verdade e a mentira.
Ora, a ciência é fonte do exercício de espírito crítico, que tão necessário é hoje para a nossa vida.

Os órgãos de comunicação social, nomeadamente a imprensa escrita, desempenham um papel fulcral para uma boa saúde democrática da sociedade. Onde “cabe” a ciência nos média?

CF – Os média, incluindo a imprensa escrita, são o “cimento” da sociedade, ao assegurarem a comunicação de notícias e opiniões. Permitem a coesão e também o diálogo democrático.
Como boa parte da nossa vida tem hoje a ver com a ciência e a tecnologia que lhe está intimamente associada – bastará referir a saúde, as comunicações, etc. -, é natural que a ciência esteja presente nos média.
Os jornais de referência, internacionais e nacionais, têm-na desde há muito nas suas páginas e, felizmente, o mesmo tem acontecido mais recentemente com os jornais regionais.

Sabemos da sua enorme paixão pela literatura, pelos livros. Se tivesse de levar só cinco livros para uma viagem interplanetária, quais levaria?

CF – É um desafio muito difícil, mas vou tentar, limitando-me apenas a livros de divulgação da coleção “Ciência Aberta”, da Gradiva, que dirijo. Poderia dar-se o caso de encontrar extraterrestres, que não soubessem tanta ciência como nós… “Cosmos”, de Carl Sagan; “A Nova Aliança”, de Ilya Prigogine e Isabelle Stengers; “Os três primeiros minutos”, de Steven Weinberg; “O que é uma lei física”, de Richard Feynman; e “Quando as Galinhas Tiverem Dentes”, de Stephen Jay Gould.
Foram livros que me marcaram e que poderiam marcar os extraterrestres…

Acaba de terminar uma etapa da sua vida, como professor universitário de Física. Publicou várias dezenas de livros. Enquanto investigador, tem um dos artigos científicos mais citados de cientistas portugueses (mais de 24 mil citações). E agora o futuro? Pode destapar-nos o véu dos seus próximos horizontes?

CF – Hoje é apenas o primeiro dia do resto da minha vida. Espero continuar a viver, tendo agora mais tempo para ler, escrever e espalhar a ciência.
Só deixei as aulas e alguma investigação, dando o lugar aos mais novos, mas esperando continuar a fazer investigação na área da História da Ciência e a aprofundar a cultura científica.
Só deixo de ser funcionário, ao fim de 44 anos de atividade ininterrupta desde os 21 anos, mas espero continuar a funcionar…

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Podcast "Assim Fala A Ciência"- Ângela Crespo e o combate do sistema imunitário contra a covid-19





Quais são as “armas” usadas pelo sistema imunitário para combater o coronavírus? O que sabemos acerca da imunidade após infecção por SARS-CoV-2? Quem nos responde é a bióloga Ângela Crespo, investigadora no Boston Children’s Hospital (EUA), que se tem dedicado, no último ano, a investigar os processos de inflamação associados à covid-19. Em conversa com o bioquímico David Marçal, Ângela Crespo explica os mecanismos desencadeados pelas actuais vacinas contra a covid-19 e as características dos medicamentos aprovados para o combate a esta doença, que pode provocar uma resposta “exagerada” do sistema imunitário.

Assim Fala a Ciência é o podcast de ciência do PÚBLICO. A cada duas semanas, aos sábados, o físico Carlos Fiolhais e o bioquímico David Marçal conversam com investigadores da rede GPS - Global Portuguese Scientists, dando voz à ciência para furar o ruído da desinformação.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Hubert Reeves lançou um novo livro


Hubert Reeves, por muitos considerado como o “Poeta do Espaço”, lançou um novo livro. A obra do astrofísico canadiano “O Banco do Tempo que Passa – Meditações Cósmicas” está nas bancas desde Julho.

Nascido em 1932 na cidade de Montreal, no Canadá, Hubert Reeves tem-se destacado como um dos mais prolíficos e populares divulgadores de astronomia e astrofísica a nível mundial.

Com mais de uma dezena de livros de divulgação científica publicados em diversos países, que alcançaram muito sucesso, Reeves destaca-se pela sua escrita translúcida e acessível, mas que mantém o rigor científico, escrita pautada com um estilo poético que o caracteriza e que, por isso, é por muitos considerado como o “Poeta do Espaço”.

Entre nós, as obras de Hubert Reeves têm sido publicadas pela editora Gradiva, principalmente na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta”. O primeiro, “Um pouco mais de Azul”, publicado em 1983, foi logo o número 2 desta colecção. O leitor encontra na “Ciência Aberta” os outros títulos deste autor, cuja leitura continua sempre interessante e actual.

Em Julho, foi publicado o mais recente livro deste cativante astrofísico, o número 228 da colecção “Ciência Aberta” da Gradiva.

Com tradução de Tiago Marques e revisão científica de Carlos Fiolhais, este novo livro de Hubert Reeves é destinado a todos os que se questionam sobre a natureza do Universo, sobre as questões imemoriais e primordiais da Humanidade, sobre as novas questões que o conhecimento científico tem feito desabrochar, sobre as questões que ainda não têm resposta e que nos inquietam.

Como escreve Hubert Reeves no preâmbulo, «este livro destina-se a todos os que se interrogam sobre o grande mistério da realidade na qual o nascimento nos pôs a viver durante algum tempo». É um livro para todos.

Ao longo de 336 páginas, Hubert Reeves partilha connosco as suas reflexões e a sua visão do Universo em que coabitamos e convida-nos a participar nesta aventura Humana, que é a de sermos capazes de nos interrogar sobre a nossa própria existência, sobre as nossas origens e o nosso destino.

Com uma liberdade de pensamento genuína e livre de preconceitos, mantendo uma consciência lúcida sobre a incompletude do conhecimento científico e o papel crucial da dúvida, do erro e da incerteza na ciência, com uma humildade que advém da consciência da ainda muita ignorância que detemos sobre como o Universo “funciona”, Reeves reflete connosco sobre a existência de Deus, sobre a necessidade de humanizar a Humanidade, sobre as alterações climáticas, sobre a evolução do Universo desde o Big Bang até ao aparecimento da consciência neste planeta azul, sobre o papel do acaso na evolução e no aumento da complexidade do Universo, entre muitos outros assuntos com que todos somos confrontados ao longo da nossa viagem pela vida.

Carlos Fiolhais escreve que este «é o livro dos livros de Reeves: uma súmula dos seus pensamentos sobre o Universo e sobre nós próprios». E é, de facto, um privilégio podermos partilhar com o Hubert Reeves o seu conhecimento e a sua cultura, o seu fascínio pela música e outras formas de arte que são, segundo o astrofísico, as expressões mais maravilhosas da evolução da vida no nosso planeta.

Sentemo-nos com Hubert Reeves neste seu “Banco do Tempo que Passa” e enriqueçamo-nos com os diálogos que ele estabelece com o leitor. Um livro para ler e reler ao acaso da nossa liberdade de escolha e interesse.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2005

ARCA - Associação de Repórteres de Ciência e Ambiente



Uma iniciativa que há muito era por mim desejada!! Muitos anos de vida à ARCA.

Jornalistas portugueses de ciência e ambiente criam associação
A preocupação de formar melhor os jornalistas portugueses que tratam de assuntos ligados à ciência e ao ambiente levou à constituição de uma associação, apresentada hoje em Lisboa, que pretende seguir alguns exemploseuropeus .Criada por um grupo de jornalistas de vários órgãos de comunicação social, a ARCA - Associação de Repórteres de Ciência e Ambiente recebeu já o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, do British Council, da embaixada dos EUA e da Fundação Luso-Americana, que se mostraram disponíveis para ajudar em programas ou acções de formação. O jornalista do PÚBLICO Ricardo Garcia, da direcção da ARCA, afirmou que em Portugal existem muito poucas acções de formação para jornalistas de ciência e ambiente, ao contrário do que acontece noutros países europeus. Ao todo, trabalham em Portugal nestas duas áreas 30 jornalistas, de acordo com a ARCA. Um diagnóstico reforçado pela intervenção do presidente da União Europeia de Associações de Jornalistas de Ciência, Istvan Palygai, que apontou o exemplo da Escandinávia, onde este tipo de formação é paga pelo Governo. Palygai chamou ainda a atenção para a dificuldade do trabalho dos jornalistas de ciência nalguns países da Europa comparativamente com os EUA, onde existe maior noção da importância da comunicação científica. "A ciência é tão importante para a imprensa generalista como o desporto, o entretenimento ou as artes", disse, exortando os jornalistas presentes na conferência a adoptar novos métodos, estilo, truques, que os faça sair "do gueto".Ricardo Garcia estimou, no entanto, que a cobertura das notícias de ciência e ambiente em Portugal tem melhorado, apesar das dificuldades que por vezes têmos jornalistas em "conseguir comunicar com o público", com os cientistas e também com os editores, que têm de ser "convencidos da importância dos temas"."Esse será também um dos objectivos da ARCA: tentar fazer com que a ciência e o ambiente ganhem mais espaço nos jornais e conseguir comunicar melhor com o público", acrescentou. Formar melhor os jornalistas ajudará a "passar melhor a mensagem", o que ajudará à divulgação científica, frisou. Para justificar a junção das duas áreas na mesma associação, Ricardo Garcia deu os exemplos da co-incineração, das alterações climáticas ou até mesmo da seca ,temas à partida de ambiente, mas que exigem aos jornalistas que compreendam "a ciência que está por detrás". Para isso é necessário contactar os especialistas, interpretar a ciência e tentar passá-la para o público em geral. Também presente na apresentação, o investigador Carlos Fiolhais fez um apanhado da cobertura noticiosa do tsunami que devastou o sudeste asiático, apresentando um balanço positivo das notícias produzidas desde 26 de Dezembro, que serviram nomeadamente para alertar para algumas falhas na prevenção e aumentar os conhecimentos científicos do público sobre o tema. Ainda assim, o professor de Física da Universidade de Coimbra apontou aspectos negativos como o sensacionalismo e a falta de exactidão.

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