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terça-feira, 14 de julho de 2026

A inteligência artificial pode provocar um colapso no mercado de ações?

Nos últimos anos, os índices do mercado de ações internacional, particularmente os americanos, têm experimentado um ciclo ascendente acentuado, o que certamente agradou a um grande número de investidores.
De acordo com o consenso dos analistas, espera-se que as ações de tecnologia, assim como as ações de energia e industriais, que compõem o índice S&P 500 dos EUA, gerem lucros recordes novamente em 2026 e 2027.
No entanto, a valorização das ações se baseia quase que inteiramente num único fator: o desenvolvimento da inteligência artificial (IA), que supostamente impulsionará a produtividade e os lucros das empresas.
Qual é o problema? As avaliações das empresas atingiram níveis muito elevados, observa Russ Mould, colunista económico do jornal britânico The Telegraph.
Segundo o jornalista, as ações de empresas americanas listadas em bolsa estão sendo negociadas, em média, a 41 vezes seus lucros anuais  - ou seja, cada dólar de lucro é avaliado pelo mercado em 41 dólares.
Para efeito de comparação, a relação preço/lucro é superior ao nível de 32,5 observado pouco antes da quebra da bolsa de valores de 1929 e da Grande Depressão dos anos seguintes.
Além disso, o Investing observa que o nível médio de avaliação das ações tem sido historicamente em torno de 17,3, o que é 2,5 vezes menor que a mínima atual.
Esses indicadores levam alguns analistas a crer que a atual euforia do mercado de ações poderá, como frequentemente ocorreu no passado, ser seguida por uma correção brutal.
"Com uma avaliação mais que o dobro da de seus pares britânicos e europeus, e a mais alta desde o auge da bolha da internet, as ações americanas estão prestes a enfrentar uma década turbulenta", afirma Russ Mould.
"Essa diferença entre o que os investidores aplicam e o que ganham é, de certa forma, o equivalente financeiro ao recuo repentino do mar antes de um tsunami", descreve a revista Slate.
Alguns analistas estão preocupados com a discrepância entre as promessas da IA e a possibilidade real de ganhos de produtividade.
"Uma contradição desta magnitude só pode ser resolvida de duas maneiras: ou os benefícios realmente alcançam as fantasias utópicas ligadas à IA, ou o mercado fecha a lacuna entre a avaliação financeira e a produtividade pelo caminho mais difícil", analisa a Futurism.
Como destaca o The Telegraph, os ganhos de produtividade associados à IA continuam, nesta fase, a justificar a hipótese de uma subida acentuada e sustentada dos mercados de ações.
No entanto, o desenvolvimento dessa tecnologia exige investimentos muito pesados, o que pode reduzir as margens e os lucros das empresas do setor.
Lucros decepcionantes em relação aos investimentos realizados podem gerar desconfiança entre os investidores e causar o estouro da bolha. Além disso há problemas geopolíticos.
A história do mercado de ações está repleta de exemplos de tecnologias, como a internet na década de 1990, que geraram um entusiasmo notável no mercado de ações antes de uma violenta reversão da tendência.
Em geral, a tecnologia acaba sendo adotada em larga escala no médio prazo. No entanto, as oscilações do mercado de ações costumam deixar um rasto de perdas para empresas e investidores.
A implementação da IA deve, de fato, impulsionar a produtividade da economia. No entanto, os níveis atuais de avaliação das ações também são motivo de preocupação. Especialistas sugerem cautela.

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Boom da IA que sustenta mercados pode causar próxima queda, alertam bancos centrais


No seu Relatório Económico Anual, publicado no domingo, o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais, alertou que o enorme volume de gastos em IA está a acumular vulnerabilidades financeiras que podem amplificar qualquer choque futuro e propagar-se dos mercados à economia em geral.
Ao apresentar as conclusões, o diretor-geral do BIS, Pablo Hernández de Cos, afirmou que a mensagem é de "urgência", apelando a que os decisores políticos atuem antes de qualquer inversão tornar o ajustamento final mais doloroso.
No centro do alerta está a dimensão do investimento, apesar de o forte fluxo de capitais ter sustentado o crescimento mundial no último ano.
Os cinco maiores "hyperscalers", os gigantes tecnológicos que correm para construir a infraestrutura de IA, deverão comprometer mais de 1 bilião de dólares (878 mil milhões de euros) em investimento ligado à IA em 2025 e 2026, a um ritmo que ultrapassa os lucros e o fluxo de caixa livre e leva alguns a endividarem-se fortemente para acompanhar.
O BIS considera que esta corrida é alimentada pela convicção de que apenas um pequeno número de atores dominantes acabará por prevalecer, o que incentiva as empresas a canalizar dinheiro para projetos cuyos retornos permanecem profundamente incertos.

Ecos de manias passadas
O relatório compara o boom atual da IA com uma longa sucessão histórica, da mania dos canais na década de 1830 e da mania ferroviária britânica nos anos 1840 à eletrificação dos anos 1920 e à bolha das dotcom.
Cada episódio começou com uma verdadeira inovação tecnológica que atraiu mais capital do que os retornos comerciais justificavam, assinala o BIS, tendo todos terminado "com uma eventual inversão do investimento, que desencadeou recessões em toda a economia".
A agravar o risco estão cotações esticadas e esquemas de financiamento pouco transparentes.
O BIS destaca a proliferação de "financiamento circular", em que fabricantes de chips e gigantes da computação em nuvem tomam participações em laboratórios de IA que se comprometem depois a comprar os seus chips e capacidade de computação, reciclando na prática o dinheiro de volta para os investidores originais sob a forma de receitas.
Grande parte do financiamento passa agora por fundos de cobertura e veículos de crédito privado sujeitos a uma supervisão mais leve do que os bancos.
Segundo Zhang Tao, representante-chefe do BIS para a Ásia e o Pacífico, essa dependência de canais não bancários significa que uma desaceleração da IA pode transformar-se numa correção mais acentuada e rápida do que uma crise bancária tradicional.

Custos ocultos dos centros de dados
Para lá dos mercados financeiros, críticos defendem que o verdadeiro custo da expansão da IA está a ser escondido à vista de todos.
Uma preocupação central, analisada pelo Wall Street Journal, é a forma como os gigantes tecnológicos registam contabilisticamente os seus centros de dados.
Ao assumirem que o equipamento dispendioso no interior destes centros permanecerá útil durante mais tempo, as empresas podem diluir o seu custo por mais anos, reduzindo a depreciação registada contra os lucros em cada período e fazendo com que os resultados pareçam mais saudáveis do que o real consumo de caixa sugere.
Mas os chips especializados que estão no coração destas instalações podem tornar-se obsoletos muito mais depressa do que esses calendários prolongados pressupõem, abrindo um fosso entre os lucros reportados e a realidade económica e deixando o balanço mais exposto do que aparenta, caso a procura decepcione ou surjam necessidades significativas de substituição de hardware.

A dimensão física é impressionante.
O economista da Universidade de Columbia Stijn Van Nieuwerburgh estima que esta expansão poderá custar cerca de 8 biliões de dólares (7 biliões de euros) nos próximos seis anos, financiados em parte através de acordos fora de balanço do tipo que o BIS assinalou.
Os custos também já não se limitam às contas das empresas.
Alguns economistas alertam agora para uma chamada "terceira vaga" de inflação, após a pandemia e as tarifas, alimentada desta vez pela expansão da IA. À medida que os fabricantes de chips dão prioridade às peças de maior margem para servidores de IA, a pressão sobre memória e armazenamento repercute-se na eletrónica de consumo.
Na semana passada, a Apple aumentou os preços dos MacBooks, iPads e outros dispositivos, citando um "surto extraordinário de procura de memória e armazenamento" e afirmando nunca ter visto "um aumento do preço de componentes tão elevado, em tão pouco tempo".
As ações da empresa caíram cerca de 6%, a sua pior sessão em mais de um ano, numa altura em que a Microsoft, a Nintendo e a Sony também tomaram medidas semelhantes.
A recente queda da SpaceX, que perdeu mais de 600 mil milhões de dólares em valor de mercado num espaço de três dias, representa um evento de proporções históricas que cruza a volatilidade financeira com a alta geopolítica.
Para lá dos custos ocultos e das pressões inflacionistas, o impacto poderá sentir-se de forma mais alargada na energia.
A Goldman Sachs prevê que os centros de dados representem quase metade do crescimento da procura de eletricidade nos Estados Unidos até 2030, com os preços da energia para os consumidores a deverem subir cerca de 6% ao ano em 2026 e 2027.
O próprio BIS assinala que a fome de eletricidade desta expansão já está a pressionar preços e custos de produção, com possíveis efeitos sobre a inflação, embora sublinhe, tal como muitos economistas, que a IA poderá ainda revelar-se desinflacionista se as prometidas melhorias de produtividade se materializarem.

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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Perdeu tudo: Musk não é mais trilionário após ações da SpaceX caírem

Menos de duas semanas depois da estreia da SpaceX na Bolsa de Nova Iorque, as ações da empresa afundaram, numa altura em que os mercados recuam nas grandes tecnológicas. Elon Musk viu 350 mil milhões de dólares, cerca de 306 mil milhões de euros, desaparecerem do seu património líquido.

As ações da SpaceX dispararam depois da Oferta Pública Inicial de 12 de junho, subindo de um preço de abertura de 150 dólares para um máximo histórico ligeiramente acima dos 225 dólares — o que levou a capitalização bolsista da empresa a aproximar-se dos 3 biliões de dólares, e tornou Elon Musk o primeiro trilionário da História.

Segundo análise da ONG humanitária Oxfam, ele será mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial juntos, cerca de 3,8 bilhões de pessoas.

Se Musk gastasse 1 milhão de dólares por dia, levaria 2.740 anos para gastar 1 trilhão de dólares, supondo que esse valor não rendesse nenhum juro.

"Essa concentração extrema de riqueza é sintomática de décadas de políticas pró-bilionários que lhes permitiram ditar as regras econômicas a seu favor", afirmou a Oxfam em nota.

Nabil Ahmed, diretor sénior de justiça económica da Oxfam América, disse que a ascensão do magnata ao status de trilionário "é um novo marco para a oligarquia e um dia sombrio para a democracia".

Mas, nos dias seguintes, muitos investidores começaram a perder confiança, dissipando centenas de milhares de milhões de dólares em valor à medida que as ações desciam - primeiro lentamente, depois com uma aceleração cada vez mais acentuada.

Só na segunda-feira, as ações afundaram quase 17%, o pior desempenho diário da empresa até à data, nota o Futurism.

Na manhã de terça-feira, a viagem inaugural de 11 dias da SpaceX em bolsa ficava simbolicamente encerrada com as ações a caírem abaixo do preço de abertura, atingindo um mínimo histórico pouco acima dos 147 dólares.

Por outras palavras, a SpaceX perdeu oficialmente todos os ganhos registados desde a entrada em bolsa. Mais tarde, as ações recuperaram para valores intermédios da casa dos 150 dólares, um nível que teria sido impensável apenas alguns dias antes.

Com a queda das ações da SpaceX, 350 mil milhões de dólares desapareceram do património líquido de Elon Musk — que a Forbes estima que tenha atingido, após a OPI e a valorização inicial, os 1,4 biliões de dólares.

Saber mais:

Análise
A recente queda da SpaceX, que perdeu mais de 600 mil milhões de dólares em valor de mercado num espaço de três dias, representa um evento de proporções históricas que cruza a volatilidade financeira com a alta geopolítica. Apesar do impacto numérico impressionante, que equivale à economia inteira de vários países, a empresa ainda retém uma capitalização superior a dois biliões de dólares, mantendo-se acima do preço da sua recente OPI. Para compreender este fenómeno, é necessário analisar o cenário através de duas lentes interligadas: a económica e a política.

Do ponto de vista económico, este recuo acentuado reflete uma forte correção de mercado após a euforia inicial da OPI. Um dos principais fatores técnicos para esta oscilação foi a baixa flutuação de ações no mercado, uma vez que apenas uma pequena percentagem do capital total da empresa foi disponibilizada para negociação pública. Quando a oferta é muito reduzida e a procura por parte de pequenos investidores é maciça, o preço sobe de forma artificialmente rápida, mas o reverso da medalha é que qualquer movimento de venda em massa faz o valor desabar com o mesmo impacto. Além disso, o grande gatilho para a desconfiança dos investidores foi o anúncio de que a SpaceX irá emitir títulos de dívida para angariar pelo menos 20 mil milhões de dólares, com o objetivo de refinanciar empréstimos de curto prazo associados à aquisição e integração da xAI, a empresa de inteligência artificial de Elon Musk. Como a SpaceX passou a ser avaliada também como um conglomerado de inteligência artificial, a empresa acabou por ser severamente castigada pelo ceticismo geral que atualmente afeta o setor tecnológico global, onde persistem receios de uma bolha tecnológica e de potenciais subidas de juros.

No plano político, o tombo financeiro ganha contornos ainda mais complexos devido ao papel estratégico que a SpaceX desempenha na infraestrutura de segurança e exploração espacial dos Estados Unidos. Em primeiro lugar, esta perda afetou diretamente a fortuna pessoal de Elon Musk, retirando-lhe o estatuto temporário de trilionário, o que tem impacto na sua capacidade de autofinanciamento e na sua influência geopolítica direta, frequentemente exercida através de tecnologias como a rede Starlink. Em segundo lugar, o governo norte-americano, através da NASA e do Pentágono, depende quase exclusivamente da SpaceX para missões críticas de Defesa e exploração espacial. Uma volatilidade financeira desta magnitude numa empresa que detém um monopólio de infraestrutura vital gera apreensão em Washington, levantando dúvidas sobre se o endividamento para financiar projetos de inteligência artificial poderá, a longo prazo, desviar o foco dos programas espaciais essenciais. Por fim, ao misturar a atividade aeroespacial fortemente regulada com investimentos de alto risco em inteligência artificial, Musk atrai um escrutínio redobrado por parte de reguladores e opositores políticos, que questionam a enorme concentração de contratos estatais nas mãos de uma entidade privada exposta a tanta volatilidade. Em suma, esta perda bilionária não sinaliza a falência da SpaceX, mas sim um ajuste drástico de expectativas que prova como as finanças privadas, a inteligência artificial e a segurança nacional estão hoje indissociavelmente ligadas.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O efeito de ilha de calor de dados: quantificação do impacto dos centros de dados de IA num mundo em aquecimento.



O "Efeito de Ilha de Calor de Dados" (Data Heat Island Effect) refere-se ao aumento localizado na temperatura da superfície terrestre causado pela dissipação massiva de calor dos centros de dados voltados para Inteligência Artificial (IA). Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Tecnológica de Nanyang quantificou globalmente este impacto, demonstrando que estas instalações alteram os microclimas à sua volta. [1, 2, 3]
Abaixo estruturam-se as principais conclusões e métricas avançadas pela investigação. [1, 2]

Métricas de impacto térmico
O estudo analisou dados de satélite da NASA recolhidos entre 2004 e 2024, cobrindo mais de 6.000 localizações fora de áreas densamente urbanizadas para isolar o efeito das infraestruturas de dados: [1, 2, 3]
  • Aumento médio: a temperatura da superfície da terra aumenta 2°C em média após o início das operações de um centro de dados de IA. [1]
  • Casos extremos: foram registados picos de aquecimento extremo de até 9,1°C na proximidade imediata de algumas infraestruturas. [1]
  • Raio de influência: o efeito térmico propaga-se através do espaço, sendo detetável a uma distância de até 10 quilómetros da instalação. [1]
  • Degradação da intensidade: a intensidade do calor gerado reduz-se para cerca de 30% quando atinge um raio de 7 km de distância. [1]
Dinâmica e Causas do Fenómeno
Os centros de dados focados em modelos de IA operam com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) de alto desempenho a funcionar continuamente sob cargas de trabalho extremas. Esta arquitetura gera duas fontes principais de perturbação térmica: 
  • Exaustão direta [1]: Os sistemas de refrigeração industrial extraem calor do interior dos edifícios, expelindo massivamente ar quente e vapor de água para a atmosfera circundante. [1, 2]
  • Pegada da construção: As próprias características físicas do complexo (grandes telhados, superfícies de asfalto e betão) absorvem a radiação solar e criam um efeito semelhante ao das ilhas de calor urbanas tradicionais. [1, 2, 3]
Populações e regiões afetadas
Estima-se que mais de 340 milhões de pessoas vivam em zonas sob o raio de influência térmica destas instalações a nível global. Os investigadores apontaram que anomalias de temperatura anteriormente difíceis de justificar coincidem diretamente com a expansão de grandes polos de dados em regiões como: 
  • Aragão (Espanha)[1]
  • Bajío (México)
  • Teresina, Piauí (Nordeste do Brasil) [1, 2]
Caminhos para Mitigação
Para conter o aparecimento destas zonas microclimáticas sem travar a inovação tecnológica, o ecossistema aponta soluções em duas vertentes principais: 
  • Otimização de hardware e refrigeração[1, 2]: integração de tecnologias de refrigeração líquida avançada de ciclo fechado e reaproveitamento do calor residual para sistemas de aquecimento residencial local ou processos industriais. [1, 2, 3, 4]
  • Eficiência de software: desenvolvimento de algoritmos e modelos de IA estruturalmente focados em eficiência energética e sustentabilidade desde a sua conceção, reduzindo o esforço computacional bruto. [1]
A notícia já tinha sido avançada aqui

sábado, 20 de junho de 2026

Nobel defende imposto sobre mais ricos para diminuir desigualdades


O Prémio Nobel da Economia de 2019 Abhijit Banerjee considerou, em entrevista à agência Lusa, que se deve tributar os mais ricos para diminuir a desigualdade e possibilitar mais margem orçamental para medidas de combate à pobreza.

Para o economista, desde a pandemia da Covid-19 tem havido uma série de choques que prejudicaram os rendimentos das famílias mais pobres, que têm vindo a estagnar.

"Até à pandemia, os rendimentos reais dos mais pobres estavam a aumentar e agora, em muitos sítios estão a estagnar", o que considerou não ser surpreendente tendo em conta a subida dos preços da alimentação, bem como as mudanças no mercado de trabalho.

Para Abhijit Banerjee, "há algo que mudou depois de 2019 no mundo e isso é mau para os mais pobres", disse.

O economista apontou ainda que se tem espalhado uma ideia de que o Estado-social talvez seja "demasiado generoso", nomeadamente pelos partidos de direita, mas ainda assim, "a desigualdade está a explodir por todo o mundo".

"Não entendo por que esta ideia tem recebido alguma legitimidade", confessou, salientando que "muitos países têm sistemas de providência social bem desenvolvidos na Europa, por exemplo, e poderiam fazer mais através desse sistema".

No entanto, tal pode não acontecer porque o envelope orçamental está a ser gerido da forma errada, "principalmente porque não estamos a conseguir taxar os ricos".

O Nobel considerou que há uma oportunidade para fazer este avanço, ainda que constatando que "os muito ricos são muito bons em desinformar as pessoas e tentar criar 'loop holes' (lacunas)", fingindo que não têm rendimentos nenhuns por forma a não serem taxados.

"Não estão a pagar taxas, está-se a cortar tudo o resto" e isso "parece insustentável", afirmou, sinalizando esperança de que "as pessoas realmente aceitem que isso é insustentável".

Os impostos sobre os mais ricos dariam margem orçamental para o Estado-social, tendo em vista mitigar as desigualdades, mas também para fazer face às consequências da implementação da Inteligência Artificial no mercado de trabalho, em particular na classe média, defendeu.

Quanto às medidas para mitigar as desigualdades, afiançou que não é preciso inventar políticas, mas sim assegurar que chegam às pessoas certas, apontando que em Espanha, onde foi feito um estudo, "muitas pessoas pobres não aproveitam os subsídios porque o acesso é muito complicado".

"A questão não é desenvolver mais complicações, mas ser relativamente generoso, especialmente no mundo de hoje com desigualdade e raiva social", apontou, acrescentando que "qualquer Governo que realmente queira ter durabilidade e bom impacto tem de pensar em como fazer bem o Estado-social".

"E isto não é sobre reduzir o Estado-social, é sobre aumentar os fundos e voltar a aplicar tributação aos mais ricos", concluiu.

Abhijit Banerjee recebeu o prémio Nobel da Economia de 2019, em conjunto com Esther Duflo e Michael Kremer. Os três economistas foram premiados pela "abordagem experimental para aliviar a pobreza global", segundo a Real Academia de Ciências da Suécia. 

Os trabalhos conduzidos pelos laureados "introduziram uma nova abordagem para obter respostas fiáveis sobre a melhor maneira de reduzir a pobreza no mundo", adiantou a Academia.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

An Inconvenient Truth About AI


If you’re old enough, you may remember this moment.

It’s 2006. Former presidential candidate Al Gore presents the documentary An Inconvenient Truth. Behind him, there’s an enormous screen that shows the level of CO2 in the atmosphere going back hundreds of thousands of years. He walks the audience through it, ice age by ice age. And then, to show where the line will be in fifty years, he climbs onto a scissor lift and rises.

Within two years, Al Gore has won an Oscar and a Nobel Peace Prize. For one brief moment, it feels as though the world might finally listen.

But we all know what happened next. The climate deniers mobilized. They brought a snowball onto the Senate floor and asked, where’s your global warming now? They said things that were technically true (like CO2 is good for plant growth) and completely misleading. And above all, they moved the goalposts.

First it was: the climate isn’t warming. Then it became: fine, it’s warming, but not because of us. Then it was: okay, it’s us, but it won’t be that bad. Then it became: alright, it’s pretty bad, but… it’s China’s fault and we can’t afford to fix it.

The whole time, Al Gore’s red line kept climbing.

I was 18 years old in 2006, and I was furious. How could any serious person look at this evidence and refuse to see it? Climate denial, I thought, was a disease of the right.

And you know what? I was wrong. Not about the right, but about who else is capable of denial. Because we, the liberals, the left, the journalists, the academics, the 97% ‘In this House we Believe that Science is Real’ crowd, we are now doing to the threat of artificial intelligence exactly what the right did to the threat of climate change.

The deniers are us.

Part 1: The Denial
In March 2023, The New York Times published an op-ed by Noam Chomsky: one of the most prominent intellectuals alive and a hero of my political tradition. The piece was called The False Promise of ChatGPT. Chomsky argued that AI is incapable of real thought and that treating them as intelligent was a basic mistake. He called them a ‘lumbering statistical engine for pattern matching’.

This was the consensus of a lot of serious people. The New Yorker ran a long essay arguing that ChatGPT was a blurry JPEG of the web, a lossy compressor that memorized the internet badly and hallucinated the rest. In 2021, the linguist Emily Bender and the computer scientist Timnit Gebru had given this whole skeptical movement its slogan: these machines, they wrote, are stochastic parrots. They just imitate.

Chomsky, Bender, Gebru are smart people. And yes, some of what they have warned about has come true. The web is drowning in machine-generated slop, the training data is biased and the energy bill is pretty staggering. But their central conviction, that this whole Silicon Valley AI-project would hit a wall any minute now, that conviction has completely collapsed.

In the three years since those pieces were published, here’s a partial list of things that the “stochastic parrot, blurry JPEG, lumbering pattern-matcher” has done:
But of all the data, here’s the chart that captures the AI revolution most clearly:



There is a research group called METR. Since 2019, they have measured something simple: how big a coding task can an AI complete on its own? And they measure that ‘bigness’ in human time, meaning: how long would it take a skilled human to do the same task?

In 2022, the answer was about 30 seconds. In 2023, it was 4 minutes. In 2024, it was 40 minutes. In 2025: 6 hours. And earlier this year, 12 hours.

At this moment, AI capabilities are doubling every 3 months.

So to be honest, I think this METR graph is even scarier than the CO2 graph Al Gore showed us. Because this line is climbing far steeper. Here, ‘off the charts’ is not 50 years away, but 5 years away.
.

I’ve personally never written a line of code in my life. But in the past few months, I’ve let AI build me whole apps, websites, dashboards and even a voice-controlled teleprompter app I used to record the video version of this essay. Multiple times a week, I have what I can only call WTF-moments. Especially in the last 6 months, the gap between what these systems can actually do and what most people assume they can do has just kept widening.

For example, I think AI is actually pretty good at writing. Sure, there’s a huge amount of machine-generated slop on LinkedIn (and Substack?), but as Benjamin Todd recently wrote:
Plastic surgery is most noticeable when it's bad, so it's more widespread and successful than it looks.Same with AI writing.
Sometimes I want to shake people: have you actually used it?! Many skeptics seem to have opened ChatGPT in 2023, asked it to write a limerick, watched it fumble, and closed the tab. Well, that was three years ago. Three years in AI is a geological era. Judging today’s models by GPT-3.5 is like judging smartphones by a 2007 BlackBerry.

To be fair, I think journalists deserve much of the blame. The people whose job it is to report on the most newsworthy events have often ignored it. For example, the day the leading AI-lab Anthropic announced Mythos (an insanely powerful model capable of hacking anything from power grids to water systems) it didn’t even make the front page of a single major news site. The Guardian decided a Vogue cover with Anna Wintour and Meryl Streep was more important.

Part 2 : The Largest Infrastructure Build-out in History
Meanwhile, the AI-race is speeding up. Remember: the models of today are the worst models we will ever have. From here on, they’ll only get more powerful.

And honestly, I think it’s hard to wrap your head around the scale of what’s coming.

Look at the first line of this graph. That’s what the companies have spent on AI data centers since 2019, and what they’ve got planned for 2026. To be clear: this is the largest capital build-out in the recorded history of our species. It’s larger than the interstate highway system. Larger than the International Space Station. Larger than the Moon Landing and the Manhattan Project combined, and it is not even close.

Mark Zuckerberg’s Meta is currently building a single data center in Louisiana that, when finished, will cover nearly four times the size of Central Park. Amazon is spending more on data centers in one year than the entire annual defense budget of Germany. Microsoft, Google, Meta and Amazon will spend three times as much on AI infrastructure in 2026 than the entire Marshall Plan that rebuilt Europe after the Second World War.

But isn’t it all a bubble?

That is the next move the deniers make. Once “it’s just a silly parrot” stops working, they fall back to: it’s financial madness. The data centers are serving no real demand. It’s all hot air, or even a deliberate scam.

And to be fair, the skeptics have some ammunition. A viral MIT study published last year found that 95% of corporate AI pilots deliver zero measurable returns. The company Klarna replaced 700 customer service workers with AI, then quietly rehired humans because customers couldn’t stand talking to the bot. McDonald’s killed its three-year AI drive-thru experiment after the system kept putting bacon on ice cream.

But you know what? None of this proves anything. Let me show you why.

First, look at user growth. It took Instagram 2.5 years to reach 100 million users. At the time, that was the fastest growth story ever recorded. For comparison: ChatGPT hit that milestone in 2 months. Fifteen times faster.

Next, let’s look at revenue, and at one AI-lab in particular: Anthropic. Here is its annualized revenue, month by month:

January 2025: 1 billion dollars.
May: 3.
June: 4.
August: 5.
October: 7.
December: 9
February: 14.
March: 19.
April: 30.
May: 45

That’s right, 45 billion dollars in annualized revenue. From one company. Up 44-fold in 15 months. No company in any era – not Rockefeller’s Standard Oil, not Microsoft at the dawn of the personal computer, not Google in the tech boom – nobody ever has scaled revenue this fast. We’re talking about the fastest-growing company in the history of capitalism.

So, if this is really such a useless and fraudulent bubble, then why are people paying so much money for it? Why is the demand for AI rising faster than companies are able to build data centers? Why are IT departments, in the words of a Goldman Sachs analyst this April, overrunning their AI budgets “by orders of magnitude”?

I’m sorry to say it, but there’s a lot of highbrow misinformation circulating in left-wing media about AI. Take that viral MIT report. Read it carefully and you see the headline got it backwards. The “95% failure rate” includes the 80% of companies that never piloted any AI in the first place. As the podcaster Rob Wiblin pointed out in a careful breakdown of the study, this is like saying 95% of Tinder users have failing marriages, when most of them have never been on a date. Among the companies that actually deployed AI, about a quarter succeeded within six months. And the study’s own data shows that more than 90% of workers at those companies are using ChatGPT or Claude regularly at work, often multiple times a day.

This should not be surprising at all. If you know how to use it, this technology is already very, very useful, and it will only get more so. But if you don’t use it (perhaps because you work at the DNC, which has barred its staffers from using Claude and ChatGPT) then yes, you become particularly prone to misinformation about it.

Sure, some AI companies are probably overvalued. And yes, some will fail. I think OpenAI is particularly vulnerable. But here’s what the bubble-callers keep missing: even if half of them go bust tomorrow, the infrastructure stays. The data centers, the chips, the models and the capabilities stay.

The railway bubbles of the nineteenth century ruined lots of investors. They also created a rail network that powered the Industrial Revolution, the tracks of which still carry trains today. I actually don’t think this AI build-out is a bubble, but even if it is, remember: bubbles build infrastructure. Bubbles build the future. And a bubble of this magnitude, bursting tomorrow, would still leave us with a civilization permanently reorganized around machine intelligence.

So, ever since 2021, the AI skeptics have been moving the goalposts.

First it was: it’s just a spicy autocomplete machine. A stochastic parrot. A word guessing program. Then it became: fine, it can mimic, but it’ll never reason. Then they said: okay, it can pass the tests, but no serious business is using it. Then: alright, businesses are using it, but the economics don’t add up, it’s one big bubble. Then: fine, the revenue is real, but, but, but…

And this whole time, the line kept climbing. Just like Al Gore’s line of CO2 emissions, except this one is climbing much faster, and we have much less time to prepare.

Let me be clear: I think there’s a real chance that the next five to ten years are going to be some of the wildest in the history of humanity. Because here’s what the people building this technology – the same people who have proven the skeptics wrong again and again – are now telling us. They think AI may soon start to build more powerful AI by itself.

Jack Clark, one of the co-founders of Anthropic, recently called this crossing “a Rubicon into a nearly impossible-to-forecast future.” He thinks there is a 60% chance it happens by 2028.

Now, the obvious objection: of course an AI executive predicts explosive growth. Scary stories sell models and lift valuations, fair point. But you don’t have to take Clark’s word for it. Independent academics, people with no equity in this race, have been revising their estimates forward. The salespeople and the experts are converging. That’s the part that should worry you.

Right now, every step forward still requires humans. But the moment AI does that work itself, the bottleneck is gone. Years become months. Months become weeks. Each generation of AI builds the next, faster than the last. The flywheel starts spinning itself.

Part 3 : The Risks
One evening last summer, a microbiologist named David Relman was hired by one of the leading AI companies - we don’t know which one - to pressure-test a chatbot before its public release. Relman is a biosecurity expert at Stanford University. He has advised the US government on biological threats for years.

That night, in his home office, the chatbot explained to him how to modify a pathogen so that it would resist known treatments. Then it described how to release the superbug. It identified a real security vulnerability in a real public transit system, and it explained how to maximize casualties and minimize the chances of getting caught.

Relman had seen a lot in his career, but now he was so shaken that he had to take a walk to clear his head. He later told The New York Times that the bot answered questions he hadn’t even thought to ask, with a “deviousness and cunning” he found chilling.

Some skeptics, when they hear this, say: but you can already google this stuff. A chatbot doesn’t really change anything. Well, let me give you three data points.

One. A study published last year tested leading chatbots against PhD virologists, on detailed laboratory protocols in their own field. ChatGPT outperformed 94 percent of them.

Two. In November of last year, the police in India arrested a 35 year-old physician. He was plotting an attack on behalf of the Islamic State and trying to extract ricin (a lethal toxin) from castor beans. According to the police, the doctor had been getting advice on his preparations from ChatGPT.

Three. Fanatics with the will to kill millions of people are not hypothetical. These people exist. Let me give you the canonical example from biosecurity. In the 1990s, a Japanese doomsday cult tried to do exactly what the AI safety people are warning about today. The cult recruited from Japan’s top universities: one of its scientists was a graduate student in virology at Kyoto. They believed the apocalypse was imminent, and that killing non-believers was a way of saving them. They sent expeditions to Africa hunting for Ebola, and built a thirty-million-dollar laboratory at the foot of Mount Fuji to mass-produce sarin nerve gas – thousands of kilograms a year, on something close to a battlefield scale.

And on a Monday morning in March 1995, during the Tokyo rush hour, five of their members boarded five different subway trains carrying plastic bags filled with liquid sarin, and punctured the bags with the tips of their umbrellas. Hundreds of commuters were soon gasping for air on the platforms. Twelve people died. It was only twelve, because sarin is a chemical agent: it doesn’t spread from one person to the next. A virus would have.

In 1995, that cult – wealthy, scientifically literate, fanatical and willing to die for the cause – could not get hold of Ebola. Today, they could order the DNA sequences online. And a chatbot would walk them through what to do with it.

Now, I want to be clear: biology is just one of the many dangers. There is so much more. In April of this year, the UK government’s AI Security Institute released their assessments of two new AI systems. Anthropic’s Mythos and OpenAI’s GPT-5.5. Both could now find and exploit critical security vulnerabilities in the computers and systems that hold the modern world together. Power grids. Water systems. Government databases.

Anthropic’s response was striking. They decided not to release Mythos to the public at all. Instead, they limited access to a small group of cyber-defenders, to give the good guys a head start on what was coming.

Yes, a private company, with billions of dollars to be made and with no regulator forcing its hand, concluded that one of its own products was so dangerous it should not be sold to the general public. There is no regulator and no legislation. There was simply a moment of conscience inside the company. I am glad that conscience exists! But conscience is not a policy.

And that brings us to the deepest risk of all. Power.

Two countries are leading this race: the United States and China. Inside those countries, a handful of corporations are building the most powerful tools in the history of our species. The people who own those companies are about to acquire a kind of leverage that I don’t think we even have the words for yet.

So let’s look for an analogy. Political scientists have a name for what happens to countries that strike oil. They call it the resource curse. You’d think a fortune buried in the ground would be a blessing, and sometimes it is. Norway and Alaska managed it well. But more often, the wealth flows in, and democracy flows out. Think about Saudi Arabia, Venezuela and Russia: the pattern is pretty consistent.

Why does this happen? It comes down to a fact about how democracies were built. We like to think they were born from grand ideas from a few smart Founding Fathers. But the real engine was more boring: it was tax collection.

Rulers have always needed money. They needed it to fight wars, to build roads, to put down rebellions. And the only place to get it was from their subjects. So as the economy started growing, and people started producing more wealth, the rulers had to bargain. You want my coins? Then I want a voice. You want my son in your army? Then I want a vote.

That is the fiscal bargain at the heart of every free society. No taxation without representation, but also no representation without taxation. Rulers needed us. They needed our money, our labour, our consent. That need is the foundation of every right we have.

Now imagine a country where the ruler doesn’t need any of that. Where the wealth comes out of the ground, gets shipped abroad, and the dollars come back to fund the palace and the secret police. The citizens become a nuisance. Why educate them? Why listen to them at all? That is the resource curse.

And I’m afraid that we may face something bigger. The researchers Luke Drago and Rudolf Laine have call it ‘the Intelligence Curse’.

Because if the machines do the work, if they write the code, draft the contracts, drive the trucks, diagnose the patients, fight the wars, then the people who own the machines no longer need the rest of us. Not as workers, not as soldiers, not as taxpayers and not even as voters. The fiscal bargain that built every democracy on Earth could very well dissolve.

Of course, we don’t need to assume AI takes over everything, there’s a huge amount of uncertainty here! But even if it substitutes for a meaningful fraction of what humans currently do – not all, just a fraction – the fiscal bargain weakens.

And remember: we already have the most extreme concentration of wealth in history. In 1910, at the peak of the Gilded Age, the richest 0.00001% of US households owned wealth equivalent to 4% of national income. Today, that figure is 12%. America’s super-rich are already richer and more powerful than the original robber barons ever were. And AI is about to make it much, much worse. Because the labs building this technology are owned by a tiny group of people, a few early investors who stand to capture more of the world’s wealth than any class of owners who ever lived.

Part 4 : What We Do About It
So. What do we do?

Let me start with what we should not do. There is a temptation to look at all of this and conclude: shut it down. Pull the plug. Bring in the Luddites. Smash the machines..

And I get the impulse. When you stack up the scale of risk, the disregard for democracy, the hubris of the people in charge, the cleanest response feels like a moratorium. Just say no.

It is, I think, the wrong answer.

The reason is brutally simple. It doesn’t work. Stop the data centers in California, and they get built in Texas. Stop them in Texas, and they get built in Abu Dhabi. Stop them in democracies – the places with civil liberties, with judicial review, with a free press, with worker protections – and you hand the future to autocracies.

My point is not, absolutely not, that we have to let AI rip. My point is that abandoning the field is not the same as stopping the technology. This is the left’s version of climate denial. Refusing to engage seriously, on the assumption that if we just shout no loudly enough, the future will go away. It won’t.

So what does work?

Three things, at minimum.

One: State capacity. We need way, way more AI expertise and talent inside the government. The UK was early on this. They built an AI Security Institute: a serious arm of the state that actually evaluates frontier models, the way the FDA evaluates new drugs. I think every serious country needs a well-funded institute like that.

Two: International coordination. We have been here before. In 1949, the United States and the Soviet Union both had nuclear weapons, and humanity briefly looked extinction in the eye. Out of that came treaties. Imperfect, yes, but they bought us decades of survival. We need something equivalent for AI.

Three: The free world has to build.. The US – with its increasingly fascist government – currently owns 74% of the world’s compute, China has 14%, Europe less than 7% and all other countries combined less than 5%. I’m really worried about the middle powers, and Europe in particular. So far, Europe has been pretty good at regulating AI, but terrible at building it. In fact, all the American giants – Microsoft, Apple, Amazon, Nvidia, Alphabet – are individually worth more than the entire German or French stock market.

The good news is that Europe does have more leverage than it often thinks. The company ASML for example is less than an hour from where I am right now in the Netherlands. It makes the lithography machines without which TSMC in Taiwan cannot fabricate the chips, without which Anthropic and OpenAI cannot train their models. The democratic countries, working together, still control significant chokepoints in this supply chain. That is real power.

But my fellow progressives in Europe really need to understand that our welfare state, our way of life, is at stake. Just think it through. If AI does much of the work, but the profits flow to a handful of American giants that we barely tax – while European workers lose their jobs – then the tax base that funds our healthcare, our pensions, our unemployment insurance just… evaporates.

There’s one thing I can’t emphasize enough: democratic, liberal and humanitarian values are wonderful, but they are worthless if you don’t have the strength to back them up. And in this new world, compute is the new power. So no more NIMBY-ism. We need massive investments and fast permitting of data centers to keep up, or we’ll be digitally colonized. Anyone who’s not at the table will be on the menu.

Now, none of this works – none of it – without a positive vision.

And this, I think, is where liberals and the left have most badly failed.

Twelve years ago, I wrote a book called Utopia for Realists. I complained that the left mainly knew what it was against. Against austerity, against the establishment, against homophobia, against racism, against billionaires. But it lacked a positive vision of where it wanted to go.

My argument was that we should stop being so timid in our political imagination. I argued for a universal basic income, for the complete eradication of poverty, and I argued for a goal that the brilliant economist John Maynard Keynes laid out almost a century ago, in 1930…the fifteen-hour work week.

Keynes thought it was inevitable. He looked at the trajectory of productivity growth and concluded that by 2030 his grandchildren would be working a quarter as much as he did, because the machines would be doing the rest. The strange thing is, he was right about the productivity, but he was wrong about who would benefit.

The fifteen-hour work week was technically achievable by the 1980s, but it didn’t happen because the productivity gains were captured. By capital, shareholders, and a rentier class. So wages stagnated, hours rose, and inequality exploded.

If we let AI play out the same way, this is what we’ll get: a handful of trillionaires who will own the tools that do most of the world’s productive labor. Everyone else will be redundant – not in the dignified, retire-early-and-take-up-gardening sense, but in the cruel, anxious, gig-economy sense. Universal poverty in a world of unimaginable abundance.

And yet, I believe there’s another path. The path some of the greatest thinkers actually promised us. Benjamin Franklin predicted that four hours of work a day would eventually be enough. John Stuart Mill thought technology should be used to shorten the workweek as much as possible. Karl Marx imagined a world where we could hunt in the morning, fish in the afternoon, and discuss philosophy after dinner. And Oscar Wilde looked forward to the day when intelligent machines would become, in his words, “the property of all.”

The whole point of building the most productive economy in history was that we would no longer have to spend our lives doing work that bored us, just to put food on the table.

So I think we should demand much more than just AI safety. We should demand AI that’s built to help us flourish. That dream, the real dream of modernity, is finally within reach. Universal basic wealth: every citizen with an automatic stake in the productive infrastructure of their society. Full unemployment, in the original meaning of that phrase: freedom from forced labour. The zero-hour work week, finally. That was the promise.

But none of it happens automatically. Remember: the eight-hour workday was not given to us, we took it from the robber barons.

Twenty years ago, Al Gore stood on his scissor lift and showed us a line that went off the chart. The world he warned us about did arrive, but the political response was so weak and so half-hearted, that we are now living with consequences.

We are about to make the same mistake, perhaps even worse, because this timeline is shorter. In 2005, climate denial was a problem of the right, and the left rolled its eyes. In 2026, AI denial is a problem of the left, and the oligarchs are laughing.

So I want to be very direct, especially with the people who think of themselves as my political family. Stop the denial. Stop pretending this is hype. Stop calling it a lumbering stochastic pattern-matching parrot.

Wake up and pay attention. Vote for politicians who aren’t in the pockets of big tech. Build state capacity. Push your governments into international coalitions that actually have leverage. Demand transparency. Demand safety standards. Demand a share of the wealth.

And dare to fight for a wildly better future.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Valter Hugo Mãe - O Século dos Imbecis


No ano em que assinala três décadas de vida literária, Valter Hugo Mãe debruça-se sobre o paradoxo de "vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento". Povoado pelos sete pecados mortais, "O século dos imbecis" poderia, inclusive, ter-se chamado "o século dos pecadores". No entanto, e na ótica do escritor, "o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade".

Isto porque, ainda que "morrer de burro [seja] algo que se faz desde que há gente", o espanto reside "em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido". Aliás, conforme admitiu Valter Hugo Mãe ao Notícias ao Minuto, basta observar a forma como muitas lideranças políticas "se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente".

Ao encetar um ciclo de obras chamado Crimes e Vindouros, "O século dos imbecis" joga com as virtudes, a moralidade, a fé e a justiça, evidenciando que, "enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas", no advento da Inteligência Artificial (IA) e da "substituição de quem somos", o que culminará com a descida "à condição de animal, ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana".

O que é que o motivou a escrever esta obra, tendo em conta que a sociedade atual, de facto, tem tanto de informação como de desinformação?
O que me motiva neste trabalho é criar uma certa reflexão em torno deste paradoxo, que é vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento; não garantir que a informação produzida e que o acesso à informação se expresse através do conhecimento. Então, parece-me trágico que, num tempo de tanta preparação, de tanta oportunidade, estejamos a claudicar em tantos sentidos com uma certa folia pela facilidade e por aquilo que é mais destituído. É como se o mesmo gesto que abre a porta para um esplendor humano pudesse perigar por propor também um retrocesso. Eventualmente, seria de esperar que, podendo ser melhores, estejamos meio interessados em facilitar de tal maneira a nossa vida ao ponto de nos destituirmos de capacidades e nos tornarmos piores.

Até com o advento da Inteligência Artificial (IA)...
Sim, a tecnologia está a oferecer algo que é propenso a ser maravilhoso, mas que, perversamente, também sugere ou também seduz para uma abundante, uma larga desistência. E dá-me a sensação de que tudo quanto seja desistir de uma sofisticação do fazer e uma sofisticação do pensar é um passo dado no retrocesso da humanidade. É como se a tecnologia tivesse tudo para nos sofisticar enquanto gente, mas a tentação é usá-la para que nos simplifique e nos retire, em última análise, até a condição humana.

Sim, a IA devia ser usada para coisas como limpar a casa, curar doenças, mas está a ser usada para produzir arte, música… Como é que se explica isto?
Para criar uma espécie de substituição de quem somos. Que possa haver ali uma substituição de muito do que fazemos é uma coisa. Agora, que nos possa interessar uma substituição de quem somos é trágico, porque significa que não nos consideramos à altura e que não estamos predispostos a um esforço para estar à altura correspondendo àquilo que consideramos o que devíamos ser. É muito terrível, inclusive, porque mesmo para que as tecnologias substituam muito do que fazemos, isso acarreta perigos, porque fazer significa também melhorarmos quem somos. É a partir do fazer que as nossas capacidades se comprovam e se podem testar e, inclusive, podemos arriscar melhorar e potenciá-las. Se nos destituirmos do fazer, da condição de fazedores, eventualmente podemos destituir-nos das capacidades do fazer.

Linearmente encontrarmos um gadget qualquer que nos aspire a casa está muito bem, mas chegar ao limite de encontrar um gadget que substitua as nossas necessidades de cálculo, de avaliação… Eventualmente, até a nossa humanidade será reduzida, até a potência humana será reduzida, o que significa que descemos mais à condição de animal ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana.

Agilulfo morre de burro, como consequência do divertimento dos outros. Estamos a condenar vários ao mesmo destino, devido às redes sociais e à propaganda de que somos alvo? Estamos em risco de morrer de burros?
De algum modo, sempre se morreu de burro, porque a sofisticação do pensamento, a educação, digamos assim, é esplendorosa ou pode ser esplendorosa porque nos protege em relação a todos os males e a todos os perigos. Por isso, em última análise, numa vida minimamente normal, convencional, o conhecimento já é uma cura para muitas doenças, porque a pessoa escapa de muitas doenças por aprender a comer. Até a simples aprendizagem da travessia de um lado da rua para o outro já é uma salvação da vida ou, eventualmente, da saúde. Tudo o quanto nos instrui propende para nos salvar a vida, propende para cuidar da nossa saúde, por isso, cuida do lado material da vida, cuida do corpo. E tudo o quanto não nos instrui, por deferência, obviamente, propende para perigar o nosso corpo e para perigar a nossa vida. Por isso, morrer de burro é algo que se faz desde que há gente. Agora, o espanto está nisto, está em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido. E é só ver muitas lideranças políticas… A maneira como se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente. Para mim, isso traz um espanto grotesco, diria.

Depois, os seus apoiantes vão atrás e, mesmo confrontados com os factos, negam-nos completamente.
A única maneira destas ignorâncias imperarem é através do fanatismo, através de uma posição obstinada que não quer provas, que não precisa de provas e vive assente em emoções muitas das vezes justificadas por preconceitos. Significa que são posições na vida ou são visões na vida que não pretendem qualquer relação com noções de justiça, por exemplo. O que querem é uma imposição de uma vontade imperativa, despótica e, normalmente, excludente, o que é tudo ao avesso do projeto ou do ideal humano. É tudo ao avesso do que devia ser, do que, eticamente, devia ser. É mais do que uma bizarria, é um perigo. É um perigo porque, pela primeira vez, parece que se propõe uma mudança no paradigma humano que vai meio no sentido de acabar com o humano propriamente dito.

Lá está, quando Agilulfo sobe à torre e adquire todo o conhecimento, profere uma palavra que ninguém compreende, mas à qual é dado um significado aleatório e que todos fingem ter entendido logo. É este o estado da sociedade? Alguém diz alguma coisa e, para não sermos as ovelhas negras, concordamos sem questionar ou compreender o que está em causa?
Sim, é uma padronização de um conhecimento que não é conhecimento nenhum, que é algo que se propaga e que já não se consegue questionar por inteiro, que se instala com um sentido algo dogmático, e é a partir dos dogmas que o fanatismo pode ser levantado. Por isso, para um lado ou para o outro da barricada, as posições vão-se estremando a partir das suas convicções, que são quase convicções de fé.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro

Devo confessar que achei esta parte deliciosa porque, durante o julgamento, a defesa de Omobon e Omobestia disse, e passo a citar, que "queria apresentar as condolências à família daquele que não evitou a trágica consequência de perder a vida". O primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse isto em fevereiro, no rescaldo das intempéries.

Ai disse? Não sabia.
Não sabia?

Não.
Disse precisamente que queria apresentar as condolências "às famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida". A minha pergunta era se foi de propósito, se não foi de propósito.

Oh, meu Deus! Foi uma coincidência, talvez no meu subconsciente tenha ficado a expressão… Não sei, não saberia dizer a expressão de cor, mas é eventualmente um lamento que acontece, que as pessoas fazem em relação a quem não evita perder a vida.

E é idêntica, portanto é muito engraçado ter sido uma coincidência.
Uma coincidência terrível.

Acha que vão interpretar mal?
Acho que vão entender que é algo que não se deve dizer. Que é algo muito estranho, atribuir a culpa à vítima. É elementarmente estranho.

Mas foi esse o seu objetivo, ou não?
Claro. É uma denúncia, é uma discordância. Discordo profundamente com culpar-se as vítimas. É uma boca, é uma provocação, é uma resposta. É uma resposta que a literatura cria em relação à contemporaneidade concreta, à mais concreta contemporaneidade. Sou licenciado em Direito. Não é possível que se estabeleça como justo um princípio que culpa a vítima. Não é possível. É mais do que um paradoxo, é uma imbecilidade.

Um bocadinho nessa linha, Omobon acaba com uma pena mais severa, mesmo mostrando-se arrependido, porque "à bondade exige-se responsabilidade". Considera que isso também acontece na nossa sociedade? Os bons e honestos são mais penalizados?
É, porque dos bons esperamos uma lisura, esperamos resultados condizentes. Dos maus, já de alguma forma os demitimos de servirem de exemplo para alguma coisa. E por isso há uma ironia, ou há um sarcasmo associado. Aliás, todo o livro é sarcástico, mas há um sarcasmo tremendo associado a essa condenação porque, de facto, tendemos a sofrer um desgosto muito maior quando vemos os bons falharem. E isso vai ao encontro do que Martin Luther King dizia, que mais do que temer o ruído dos maus, temia o silêncio dos bons. É um pouco isso. A passividade dos bons, perante uma hipótese de derrocada da humanidade, torna-se profundamente obscena, como se os bons fossem os culpados. Não bastará ser bom, é essencial agir no sentido de fazer com que a bondade seja um princípio ativo. Eu entendo muito assim. Até no foro dos ativismos, digamos assim, acho que estamos num tempo em que não podemos achar que somos só indiferentes a determinadas torpezas. Temos de ser ativamente contra essas torpezas. Por exemplo, não basta eu dizer que não sou racista; é preciso ser ativamente antirracista.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro. É um pouco o que está em causa entre os bons e os maus. Os bons, não basta que sejam bons, é preciso que sejam ativamente agentes do bem, que produzam o exercício do bem como uma obrigação coletiva.

É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo?
Até porque, depois da pandemia, ou durante a pandemia, dizia-se que as pessoas iam ficar mais próximas, mais solidárias, e estamos a ver um pouco o contrário, não é? Estamos cada vez mais individualistas.

Era uma coisa que a história também já explicava, que depois das pandemias voltam as guerras e voltam as atomizações e todos os oportunismos e avançam todos os sentidos de imperialismo e de domínio de uns perante os outros. A história explica que, com cada pandemia, há um ciclo que se inicia e que tem uma tramitação, digamos assim, que é repetida. Quem leu alguma coisa já sabia que era inevitável passarmos por esta fase. A candura que se criou no período da pandemia, que fez com que as pessoas achassem que, quando pudéssemos estar juntos, quando pudéssemos voltar às ruas e normalizar um pouco as nossas vidas, haveríamos de ser muito mais fraternos, estaríamos todos saudosos de nos vermos e de nos abraçarmos… Essa candura é exatamente um dos instrumentos mais valiosos para o oportunismo, porque as pessoas entorpecem, digamos assim, os sentidos, ficam iludidas com uma fantasia e acabam por estar meio predispostas para serem enganadas em todas as situações. Por isso é que a história também comprova que é nesse instante de candura universal que os malfeitores avançam.

Não deixa de ser estranho... Como é que a história já mostrou isso tantas vezes e, mesmo assim, continuamos repeti-lo?
É como se individualmente fôssemos todos muito capazes, mas coletivamente somos sempre um pouco mais falhos. É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo? É estranho, porque cada um de nós sozinho não tem interesse nenhum em seguir essa direção, mas no coletivo fazemo-lo. Enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas.

A Marquesa, mulher bicuda e propensa a diarreias que acha que "o povo é estúpido", tem um final aberto, associado ao cofre de Agilulfo. O cofre representa o quê exatamente? O desconhecido, o ideal da informação? A soberba?
O cofre, para mim, é um mistério que não é aceite, que algumas personagens não conseguem aceitar. É um mistério que acontece às vezes nos meus livros. É uma equação irresoluta, que não tem solução à vista. E, depois, as pessoas distinguem-se entre aquelas que tomam a rédea das suas vidas independentemente de tudo ou as outras que não conseguem avançar em sentido algum enquanto uma resposta não lhes for dada. Por isso, a Marquesa não consegue existir para lá daquela resposta e a Criada existe para lá daquela resposta.

Torna-se a patroa, não é?
É e, por isso, de alguma maneira, as pessoas ficam distintas, são distintas por esta atitude em relação a uma equação irresolúvel. Ou achamos que a vida é justa independentemente de nos responder ou não, ou, então, não aceitamos o facto de não nos responder e estabelecemos a vida como impossível.

Tendo em conta as referências à religião, às tantas dei por mim a tentar identificar os sete pecados mortais. Foi propositado ou eu é que levei a minha análise demasiado a fundo?
Não, tem, porque há um jogo com as virtudes no livro e, por isso, todos os pecados estão presentes, de alguma forma. Podia ser o século dos pecadores, mas o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade. Mas existe o uso das iniquidades todas.

Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta

Falou há pouco sobre a justiça. No livro escreveu que, "quanto mais se propagava a justiça, mais se notavam as falhas de carácter e o quanto a informação, afinal, não podia nada contra o prejuízo dos gestos" e que "a população aumentava de emoção, […] decidia por sentir e não por pensar". É um pouco isto que estamos a viver, não é?
É seguir as perceções. O sentimento é um bocadinho criado por uma perceção que pode ser completamente fantasiosa e que não se fundamenta por completo. Por isso, é uma espécie de ciência do achismo, que faz com que as pessoas se movam e tomem decisões a partir de um ponto de vista pessoalíssimo e normalmente errado – muitas vezes errado. De facto, uma das tragédias da contemporaneidade é fazermos ascender o sentimento à ciência, é confundirmos sentimento com ciência.

Até que os personagens criam uma nova santa.
Há uma Nossa Senhora que vai exatamente ser criada ao arrepio daquilo que as pessoas sentem. Em última análise, a religião é um sentimento, não consegue ser uma ciência, não fornece respostas concretas. Estabelece apenas dogmas, que é um bocadinho o que os sentimentos também vão fazendo. Vão criando em nós uns certos dogmas, umas certas inclinações para achar que as coisas são assim ou assado. E a religião é feita de dogmas e está cheia de decisões que temos de tomar e que têm que ver com acreditar em alguma coisa que não é minimamente comprovável e, às vezes, nem plausível. Então, achei interessante que o sentimento destas pessoas desse origem à criação de uma nova santa.

Às vezes, a religião é necessária para sobreviver, para suportar a vida, mas também cria bastante resistência ao conhecimento.
Sim. Tudo o quanto pode, a partir do ponto de vista do estabelecimento de um dogma, que não deixa de ser um preconceito, porque é um pré-conceito, um conceito prévio, acaba por ser modo de eventualmente perigar o conhecimento ou perigar a ciência. Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta.

Ao longo destes 30 anos enquanto escritor, que momentos colocaria no seu top três?
A edição do meu primeiro livro, que é um livro do qual eu hoje não gosto, mas que foi um livro que surge na minha vida um pouco de surpresa, sem que eu o tivesse procurado, mas que encontrei, digamos assim. Em 1996, foi absolutamente mudador, foi uma concretização tão gratificante que nunca esperaria que pudesse acontecer. Não tinha a convicção de que isso me pudesse acontecer. Depois, eventualmente, o instante de ganhar o Prémio Saramago, que me retira de uma lonjura e que me oferece a oportunidade de participar um pouco do teatro literário nacional. Diria, depois, a publicação no Brasil. A passagem por um grande festival no Brasil e a recetividade dos leitores brasileiros em relação à minha obra acabam por retificar ou legitimar, diria, uma relação forte que tinha com a cultura brasileira e que faz com que hoje me sinta balançando entre os dois países de um modo muito gratificante.

E faria tudo igual?
Talvez, se fazer tudo igual me trouxesse a este dia, a esta hora, desta maneira, sim, faria, sim. Não saberia fazer de outra maneira, porque o que decidi foi o que soube decidir. Estou muito feliz, sobretudo estou muito feliz com os livros que escrevi, com os livros que escrevo, com o novo livro, de maneira que este foi o percurso que me garantiu a possibilidade de escrever este livro, então foi o percurso certo.

Que outros projetos é que tem em mãos?
Este livro começa um ciclo chamado Crimes e Vindouros, por isso já estou com a cabeça no próximo romance. À partida será uma tetralogia também; gosto de funcionar por ciclos de quatro livros. Estou com a cabeça nestes assuntos, do que podem ser os grandes crimes de hoje, herdados pelas pessoas do futuro; que crimes estamos nós a deixar para que as pessoas do futuro herdem. É nisso que estou metido.

Gosto muito da imagem do Albuquerque Mendes, que é um mestre pintor português, um grande amigo, e que, ao longo da escrita do livro, me foi ouvindo falar sobre ele. Enquanto escrevia, falámos quase todos os dias, e fui contando ao Albuquerque o que estava a acontecer. Ainda antes de ler o livro, ele conseguiu criar essa imagem, que me parece perfeita para o clima do livro, para a desconfiança entre a Marquesa e a Criada, entre as mulheres, a presença da máquina de costura, e o fantasma do Agilulfo deitado como sombra delas mesmas. Então, foi muito especial ter uma imagem do Albuquerque Mendes neste livro, porque surge da nossa amizade e dessa partilha de uma coisa que ainda não acontece, ou que está a acontecer, mas que ainda não existe por inteiro. Ele ajudou-me a ver o livro antes que o livro estivesse completo. É muito especial ter esses bonecos, digamos, esses desenhos na capa do livro.

Sim, é muito bonita. É a cena em que estão a vender os vestidos.
Vendem os vestidos e estão, de alguma forma, transformadas em colegas de trabalho, e assim, meio que aldrabando a clientela, meio que impingindo à clientela a tralha que têm para vender.

Mais tarde ainda é pior, porque usam trapos e cortinados.
Exatamente, depois perdem a cabeça. É o desespero, é a fome.