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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Microplásticos detetados em quase todos os cérebros analisados em estudo internacional



Um estudo internacional revelou a presença de microplásticos e nanoplásticos em quase todas as amostras de tecido cerebral analisadas, levantando novas questões sobre como estas partículas entram no organismo humano e quais poderão ser os seus efeitos na saúde.

A investigação analisou amostras de cérebro de 113 pacientes com tumores cerebrais e 35 doações post-mortem de indivíduos sem doença oncológica. Os resultados indicam que foram detetados microplásticos ou nanoplásticos em 99,4% das amostras com doença e em 100% das amostras de cérebros saudáveis.

Os investigadores observaram ainda concentrações mais elevadas de nanoplásticos nas áreas próximas de tumores, o que poderá sugerir uma maior permeabilidade da chamada barreira hematoencefálica em contextos de doença, facilitando a entrada destas partículas no tecido cerebral.

A barreira hematoencefálica é um mecanismo natural de proteção que regula a passagem de substâncias entre o sangue e o cérebro, sendo essencial para manter o sistema nervoso central isolado de toxinas e agentes externos.

Apesar dos resultados, os autores sublinham que ainda há grande incerteza científica sobre a forma como os microplásticos chegam ao cérebro e sobre os seus impactos reais na saúde humana. Os métodos atuais de deteção apresentam resultados inconsistentes, o que limita a interpretação dos dados.

Os investigadores defendem a necessidade de desenvolver tecnologias mais precisas para rastrear microplásticos no organismo e compreender melhor a sua distribuição nos tecidos humanos.

Embora a presença destas partículas seja agora amplamente confirmada, permanece por esclarecer se estão diretamente associadas ao desenvolvimento de doenças ou se a sua acumulação tem efeitos clínicos significativos.

Saber mais:

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Contaminação por raticidas ameaça aves de rapina em Portugal



Mais de 80 por cento das aves de rapina portuguesas podem estar contaminadas por raticidas anticoagulantes, ameaçando a conservação de várias espécies.

Este é um alerta lançado por um grupo de investigadores de Portugal e de Espanha num estudo publicado na revista ‘Science of The Total Environment’.

Coordenado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e pela Universidad de Las Palmas de Gran Canaria, em colaboração com o centro de investigação CIBIO e o centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens (RIAS), o trabalho incidiu sobre 210 aves de 15 espécies, entregues em centros de recuperação no continente e na Madeira. Em comunicado, as instituições chamam a atenção para uma exposição generalizada a compostos usados no controlo de roedores, revelam as instituições em comunicado.

Do total de aves analisadas entre 2017 e 2024, 83% apresenta sinais de pelo menos um raticida anticoagulante no fígado. Em quase 60% dos casos positivos surgiam dois ou mais compostos, aumentando o risco de efeitos cumulativos e potencialmente fatais.

Ana Carromeu-Santos, a ecóloga do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), da Universidade de Lisboa, que conduziu a investigação, salienta que “os estudos de monitorização de envenenamento secundário por raticidas são recorrentes em vários países europeus, mas este é o primeiro realizado em Portugal”.

Na Madeira, o problema é ainda mais grave, mostra o estudo. Quase 90% das aves apresentam contaminação múltipla, com concentrações médias superiores às registadas no continente, sugerindo um uso mais intensivo de raticidas no controlo de pragas na ilha.

Explica a equipa que os raticidas anticoagulantes são usados para controlar roedores, provocando hemorragias internas fatais ao impedir a coagulação do sangue. Como persistem nos tecidos, acumulam-se em predadores que consomem presas contaminadas, representando um risco para aves de rapina.

Por sua vez, nas aves estes compostos podem provocar hemorragias internas, fraqueza, perda de coordenação e, em casos extremos, a morte. Mesmo em doses não letais, avisam os investigadores, reduzem a capacidade de caça, aumentam o risco de acidentes e comprometem a reprodução.

Entre os compostos detetados destacam-se o Brodifacoum e a Bromadiolona, substâncias altamente persistentes e tóxicas. As aves mais velhas revelam maiores concentrações, evidenciando o efeito de bioacumulação ao longo dos anos.

Espécies comuns como o peneireiro-de-dorso-malhado (Falco tinnunculus) e a coruja-das-torres (Tyto alba) podem servir como “sentinelas”, permitindo acompanhar a evolução da contaminação devido à sua ampla distribuição e dieta baseada em pequenos roedores.

Sofia Gabriel, investigadora do CE3C e principal coautora do artigo, alerta que “estes resultados demonstram que os raticidas utilizados no controlo de pragas de roedores estão a entrar nas cadeias alimentares da fauna selvagem, o que coloca estas espécies em risco e exige medidas de mitigação para reduzir os impactos”.

O estudo confirma que o impacto dos raticidas “já não é pontual”, salientam os cientistas, mas sim “um fenómeno persistente e transversal”, que afeta várias gerações de aves e fragiliza populações já vulneráveis.

As consequências para a biodiversidade são significativas, podendo comprometer o equilíbrio dos ecossistemas se espécies essenciais diminuírem drasticamente ou desaparecerem de determinadas regiões.

Os autores defendem medidas urgentes, incluindo monitorização regular, restrições ao uso indiscriminado de raticidas e promoção de alternativas mais seguras no controlo de roedores, fundamentais para proteger a fauna selvagem.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

"Não há um único pesticida inócuo, que possa garantir a segurança das populações”, diz toxicologista


A entrevista concedida pelo toxicologista Ricardo Dinis-Oliveira ao jornal Expresso, em fevereiro de 2024, traz um alerta contundente sobre os impactos dos pesticidas na saúde pública e no ambiente, motivada pelo recuo da Comissão Europeia na proposta de reduzir o uso destes químicos na agricultura. O especialista, que é Professor Catedrático e Presidente da Associação Portuguesa de Ciências Forenses, defende convictamente que não existe nenhum pesticida totalmente inócuo. Segundo o investigador, mesmo quando estes produtos são aplicados dentro das doses e margens legais permitidas pelas autoridades, o conceito de "risco zero" não passa de uma ilusão, uma vez que a exposição crónica e cumulativa a estas substâncias acarreta perigos reais que a legislação atual ainda não consegue travar eficazmente.

Um dos principais focos de preocupação apontados por Ricardo Dinis-Oliveira prende-se com a segurança das populações que residem ou circulam próximo de zonas agrícolas. O toxicologista explica que o fenómeno da deriva — ou seja, a dispersão dos químicos pelo vento e pelo ar — acaba por expor populações vulneráveis em locais como escolas, habitações e hospitais, sem que estas tenham qualquer ligação direta à atividade agrícola. Esta exposição contínua e invisível está cientificamente associada ao desenvolvimento de patologias graves a longo prazo, tais como distúrbios no sistema endócrino, doenças neurodegenerativas como o Parkinson, problemas de fertilidade e uma maior incidência de determinados tipos de cancro.

Outro argumento central do especialista reside no chamado "efeito cocktail", que representa um enorme desafio para a toxicologia moderna. Ricardo Dinis-Oliveira sublinha que a avaliação de segurança é habitualmente feita para cada substância isolada, ignorando o facto de que as pessoas estão expostas a uma mistura diária de múltiplos resíduos químicos através do ar, da água e dos alimentos. A combinação destas diferentes moléculas pode gerar um efeito sinérgico, tornando a mistura muito mais tóxica do que a soma dos seus componentes individuais. Perante este cenário, o toxicologista critica a decisão política de recuar nas metas ecológicas, lamentando que os interesses económicos de curto prazo tenham sido colocados à frente da proteção da saúde humana e da sustentabilidade dos ecossistemas.

No dia 5 de julho de 2023, foi divulgado o relatório de Avaliação de Impacto e Anexos (SWD(2023) 417 final) que acompanha a proposta da Lei de Monitorização do Solo. Os documentos originais podem ser consultados no portal oficial da Comissão Europeia - Documento sobre o Solo. [1]

A 6 de fevereiro de 2024, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, discursou no Parlamento Europeu. O momento central foi marcado por uma forte tomada de posição política e pelo reconhecimento da agricultura como pilar da segurança alimentar. [1, 2]

terça-feira, 13 de julho de 2021

O seu protetor solar está a afetar os oceanos? Evite marcas com estas substâncias

Todos os anos, milhares de toneladas de cremes solares vão parar ao mar. E muitos têm químicos nocivos para a vida marinha. Alguns estudos identificaram os piores

Os protetores solares são imprescindíveis para nos defender da radiação ultravioleta. Mas o que nos protege a nós não protege necessariamente outros seres vivos. Ao longo dos últimos anos, tem sido estudado o efeito em organismos marinhos de diferentes substâncias presentes nos cremes, e as notícias não são boas: vários destes químicos têm impactos destrutivos.

A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (dos EUA, mais conhecida pela sua sigla, NOAA), uma das entidades que mais se tem debruçado sobre estes efeitos, tem uma lista “oficial” de químicos com potencial para afetar a vida marinha: 3-benzilideno cânfora, 4-metilbenzilideno cânfora, octocryleno, benzofenona-1, 2 e 8, oxibenzona (também chamada benzofenona-3 ou BP-3), p-aminobenzoato de octilo dimetilo (OD-PABA), dióxido de nano-titânio, óxido de nano-zinco e octinoxato. Se se preocupa com os impactos ambientais das suas escolhas, leia a lista de ingredientes e evite estas substâncias.

Os efeitos mais negativos destes químicos são variados. Podem provocar uma redução de fertilidade nos peixes fêmeas, danificar os sistemas reprodutores e imunológicos dos ouriços-do-mar adultos e causar deformações nos juvenis (o que também acontece nos mexilhões), prejudicar o processo de fotossíntese das algas e acumularem-se nos tecidos dos golfinhos (e transmitirem-se para as crias). Os piores impactos, no entanto, são nos corais. As substâncias acumulam-se nos tecidos destes organismos e conseguem alterar o seu ADN, provocando deformidades e branqueamento (a principal causa de morte dos corais).

Algumas estão já interditas na União Europeia (o 3-benzilideno cânfora, por exemplo não pode ser usado em qualquer produto cosmético desde 2016). Mas outras continuam a ser usadas. Entre essas, as que levantam mais preocupações são a benzofenona-2, a oxibenzona e o octinoxato, ingredientes comuns nos protetores solares.

A primeiro, a benzofenona-2, presente em muitos tipos de cremes e sabonetes, mata jovens corais rapidamente e mesmo em baixas concentrações, de acordo com um estudo publicado em 2013 na revista científica Ecotoxicology. Além disso, provocada branqueamento e mutações nos organismos maduros. A oxibenzona tem os mesmos efeitos, a que se juntam deformidades no crescimento dos corais, segundo um estudo publicado na Archives of Environmental Contamination and Toxicology, em 2015. Outra investigação, publicada em 2008 na Environmental Health Perspectives, reportou que tanto a oxibenzona como o octinoxato eram responsáveis por fenómenos de branqueamento em recifes de coral nos três oceanos onde existem, o Atlântico, o Índico e o Pacífico.

Os protetores minerais podem ser uma forma de proteger a pele sem passar ingredientes nocivos para o mar (desde que tenham dióxido de titânio ou óxido de zinco não-nanotizados, ou seja, com pelo menos 100 nanómetros). Mas vários testes realizados pela organização de consumidores americana Consumer Reports concluíram que estes não são tão eficazes a proteger dos raios ultravioleta como os outros.

A alternativa é minimizar a quantidade de protetor que aplicamos. A NOAA sugere que, na praia, usemos camisolas com fator de proteção ultravioleta e que procuremos sempre a sombra, sobretudo nas horas mais críticas. Mesmo usar uma simples tshirt pode ser uma solução, já que deixa menos pele exposta ao sol.

E atenção – em alguns protetores solares, a lista de ingredientes surge em inglês. Nesse caso, procure por estes nomes, para (tentar) evitá-los: oxybenzone, octinoxate, octocrylene, benzophenone-1, 2, e 8, OD-PABA, 4-methylbenzylidene camphor, 3-benzylidene camphor, nano-titanium dioxide e nano-zinc oxide.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Portugal não ratificou convenção sobre os riscos do uso de mercúrio


Em comunicado, a associação Zero refere que a convenção começa a sua aplicação depois de ter sido assinada por 128 países, em outubro de 2013. A entrada em vigor do documento contra o uso de mercúrio dependia da ratificação formal do texto por pelo menos 50 países, meta que só foi atingida em maio deste ano (128 signatários, 78 ratificaram o documento).

A Convenção de Minamata sobre Mercúrio tem a sua origem nas discussões que ocorreram no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), sobre os riscos para a saúde humana e ambiental do uso de mercúrio. A convenção de Minamata sucede às convenções de Basileia, Roterdão e Estocolmo com vista à redução do impacto dos químicos e dos resíduos no meio ambiente.

Segundo a Zero, 26 países da União Europeia já assinaram a convenção, só Portugal não assinou. Vários também já a ratificaram, sendo que a “União Europeia é signatária desde outubro de 2013 e aprovou a convenção em maio deste ano”.

No comunicado da associação ambientalista lê-se: “A Zero lamenta profundamente que Portugal seja o único país da UE (a par com o Reino Unido) que ainda nem sequer assinou a Convenção”.

“A Zero apela para que o Governo Português retifique a situação portuguesa e assine e ratifique rapidamente a Convenção de Minamata, a bem da saúde humana e da proteção do ambiente”, destaca o comunicado.

A Zero explica que a convenção de Minamata pretende “proteger a saúde humana e o ambiente de libertações de mercúrio”, prevendo a proibição de abertura de novas minas de mercúrio, ao mesmo tempo que pretende o encerramento faseado das minas existentes.

Por outro lado, a convenção pretende o fim da utilização de mercúrio em produtos e processos, definindo medidas para controlar as libertações deste metal. A convenção também estabelece o fim da utilização deste metal, através da implementação de planos nacionais para a redução da utilização de mercúrio no campo da exploração artesanal e no de pequena escala industrial de ouro.

“Procura ainda reduzir o comércio e promover práticas corretas de armazenamento e deposição final, resolver os problemas de locais contaminados e reduzir a exposição a esta neurotoxina perigosa”, refere a Zero.

A primeira conferência dos países signatários terá lugar entre 24 e 29 de setembro de 2017, em Genebra, na Suíça.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Mercúrio triplica nos oceanos e ameaça vida marinha


A conclusão consta de um novo estudo publicado nesta semana na revista Nature.

A contaminação ambiental pelo metal altamente tóxico é uma realidade mundial. Mas só agora começou a ser dimensionada. E os resultados preocupam. Além disso, o lançamento de esgoto sem tratamento na água também pode criar condições que potencializam os efeitos da substância ao torná-la mais solúvel.

O estudo destaca que a concentração do mercúrio triplicou nas camadas de águas superficiais, onde a presença de vida marinha é grande.

Uma das características do mercúrio que mais preocupam os cientistas é a sua capacidade de biomagnificação. Ele acumula-se ao longo da cadeia alimentar, fazendo com que as espécies mais altas na cadeia sejam expostas a uma maior concentração tóxica, o que aumenta, eventualmente, a exposição humana ao metal.

No entanto, falta quantificar essa acumulação nos animais aquáticos e os seus possíveis efeitos, incluindo os riscos para os seres humanos.

O nosso impacto
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Simon Boxall, professor de Universidade de Southampton, afirmou que é difícil dizer, a partir da investiação, o tamanho do dano que já foi feito para a vida marinha.

"Eu não iria parar de comer peixe por causa disso", ponderou. "Mas esse aumento de mercúrio é um bom indicador do nosso impacto no meio ambiente marinho. É um alerta para o futuro", ressaltou.