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sábado, 22 de agosto de 2026

Hoje assinala-se o Dia Internacional de Homenagem às Vítimas de Atos de Violência Baseados em Religião ou Crença.

Marilyn Monroe "The Springtime of Life", near Mailbu, CA, 1946- foto de André de Dienes

Embora estas efemérides procurem proteger a liberdade de consciência, torna-se impossível ignorar o papel que a própria religião - ou a sua manipulação ideológica - desempenhou e continua a desempenhar na eclosão de conflitos e na perda de vidas humanas. Ao longo da história, dogmas religiosos têm sido instrumentalizados para alimentar um nacionalismo sectário, onde a fé deixa de ser uma busca espiritual individual e passa a funcionar como uma fronteira de exclusão política. Quando a identidade nacional se confunde com a ortodoxia religiosa, a divergência deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a ser vista como uma ameaça à soberania, pavimentando o caminho para a perseguição, a guerra e a violência estatal.

Acompanho, com muita apreensão, a aceleração e crescimento  galopante dos evangélicos e da manipulação em massa de gente nova a aderir a discursos evangélicos e pentecostais, os chamados "soldados/soldadas de Cristo". O movimento "Mulheres Conservadoras em Portugal" é o clímax de uma orquestração, que já vem detrás.  A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e estão no Parlamento Brasileiro. Imitam o Novo Conservadorismo norte-americano, constituindo, portanto, uma real ameaça à democracia. 

Contudo, os números são impressionantes. A liberdade de religião e de crença permanece um dos direitos fundamentais mais transgredidos no mundo contemporâneo, afetando cerca de 4,9 mil milhões de pessoas - o equivalente a mais de 60% da população global - que vivem sob regimes com limitações severas ou perseguição ostensiva à prática espiritual, segundo o relatório da Fundação ACN (Aid to the Church in Need). A violência motivada pela fé não se restringe a uma região ou dogma específico, distribuindo-se de forma heterogénea e vitimando comunidades de diversas matrizes.

Entre as populações mais afetadas, estima-se que mais de 365 milhões de cristãos enfrentem níveis elevados de discriminação ou opressão, registando-se perto de 5.000 assassinatos anuais por razões diretamente ligadas à sua fé, concentrados maioritariamente na África subsariana, com a Nigéria a responder por mais de 80% destas vítimas mortais, de acordo com os dados monitorizados pelo WWL da Open Doors International. Paralelamente, minorias muçulmanas sofrem repressão sistémica em várias geografias, como ilustrado pela detenção de mais de 1 milhão de Uigures em campos de reeducação em Xinjiang, na China, documentada pelo Relatório de Avaliação do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR), e pelo deslocamento forçado de cerca de 740.000 muçulmanos Rohingya forçados a fugir de Mianmar para o Bangladesh, segundo os registos do Portal de Dados Operacionais do ACNUR/UNHCR. O antissemitismo também tem apresentado surtos globais, com aumentos superiores a 300% em incidentes violentos e de intimidação registados em países ocidentais após a escalada de conflitos no Médio Oriente a partir do final de 2023, de acordo com as estatísticas da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA).

A gravidade do panorama estende-se ao enquadramento jurídico de vários Estados. Em cerca de 13 nações - localizadas maioritariamente no Médio Oriente, Norte de África e Sul da Ásia —, crimes como a apostasia e a blasfémia preveem formalmente a pena de morte, enquanto em mais de 80 países a renúncia à religião maioritária ou a crítica a dogmas resulta em penas de prisão efetiva, acusações criminais ou privação de direitos civis, como documenta a Humanists International no seu Freedom of Thought Report. Nestes cenários, a ausência de crença também é severamente punida, tornando ateus e agnósticos alvos frequentes de sanções estatais.

A esta realidade soma-se a expansão de novos movimentos de traço sectário que instrumentalizam o estatuto de liberdade religiosa para exercer coerção psicológica, exploração financeira ou violação de direitos individuais. O grande desafio da comunidade internacional e dos Estados de direito reside em equilibrar a salvaguarda da liberdade de consciência com a aplicação rigorosa da lei, garantindo que o pretexto da fé não sirva para legitimar abusos, nem que o poder estatal seja utilizado para silenciar a diversidade de crenças.

O Afeganistão sob o domínio do Taliban representa um dos exemplos mais radicais de como a instrumentalização da religião pode anular o Estado de direito e refundar a identidade de um país sob uma lógica de exclusão absoluta. Desde o regresso do grupo ao poder em agosto de 2021, a interpretação ultrafundamentalista da lei islâmica de matriz Deobandi foi erguida como a única fonte de soberania e legitimidade, transformando a fé num instrumento de controlo social totalitário.

Esta fusão entre dogma e governação resultou no apagamento prático da diversidade cultural e religiosa do país. Minorias históricas, como a comunidade Hazara (maioritariamente xiita, representando entre 10% a 15% da população afegã), enfrentam episódios recorrentes de violência, marginalização e deslocamento forçado sem qualquer garantia de proteção estatal, conforme documentado nos Relatórios sobre o Afeganistão da Amnistia Internacional. Ao mesmo tempo, o desvio da ortodoxia oficial, a conversão a outro credo ou o abandono da fé são classificados como apostasia — um crime punível com a pena de morte no enquadramento penal do regime, o que força qualquer dissidência espiritual ao anonimato absoluto sob risco de vida.

Paralelamente, a narrativa religiosa serve de justificação para uma segregação de género sem paralelo no mundo contemporâneo, frequentemente descrita por organismos internacionais como um sistema de apartheid. Mais de 1,4 milhões de raparigas afegãs foram deliberadamente privadas do acesso ao ensino secundário e universitário por decretos do regime, segundo o Relatório sobre a Situação da Educação no Afeganistão da UNESCO, enquanto mais de 80 diretivas executivas restringem o trabalho feminino, a frequência de espaços públicos e o direito das mulheres de circularem sem um tutor masculino (mahram), como detalhado nos Destaques da Situação das Mulheres da ONU Mulheres.

O cenário afegão ilustra como o extremismo religioso transcende a dimensão espiritual para dar lugar a um pseudo-nacionalismo dogmático. A pertença à nação deixa de assentar na cidadania ou no direito de nascimento e passa a depender da submissão a um código ideológico estrito, no qual a divergência não é apenas encarada como uma heresia, mas como uma ameaça à própria sobrevivência do Estado.

terça-feira, 17 de março de 2026

Mohommad Paktyawal, cidadão norte-americano, serviu o País durante a guerra do Afeganistão, morreu 24 horas depois, nas mãos do ICE

Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em veículos não identificados, cercaram Mohommad Nazeer Paktyawal em frente à sua casa, no Texas, quando ele se preparava para levar os filhos à escola. O homem de 41 anos, pai de seis filhos, que tinha servido ao lado do 3.º Batalhão das Forças Especiais do Exército dos EUA no Afeganistão, morreu sob custódia do ICE no dia seguinte.

After working with the U.S. military in Afghanistan, Mohommad Nazeer Paktyawal died in the country he spent years of his life helping.
The cruelty is endless.

Toda a história aqui e aqui
História detalhada aqui



terça-feira, 9 de abril de 2024

Música do BioTerra: Anohni - Drone Bomb Me

[Chorus 1]
Drone bomb me
Blow me from the mountains, and into the sea
Blow me from the side of the mountain
Blow my head off, explode my crystal guts
Lay my purple on the grass

[Verse 1]
I have a glint in my eye, I think I wanna die
I wanna die
I wanna be the apple of your eye

[Chorus 1]

[Verse 2]
Let me be the first
I'm not so innocent
Let me be the one
The one that you choose from above
After all, I'm partly to blame

[Chorus 2]
So, drone bomb me, I'm partly to blame
Blow me from the mountains, and into the sea
I'm partly to blame
Blow me from the mountains, and into the sea
I wanna die
I’m not so innocent
I'm partly to blame
Blow my head off
Explode my crystal guts

[Verse 3]
My blood, my blood, my blood
Choose me, choose me, choose me tonight
Choose me
Let me be the one
The one that you choose tonight
Choose me tonight, tonight

Acerca do Tema: Drone Bomb Me

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Documentário: "Longe de Cabul"


Há um país no mundo que proibiu uma prática inerente ao ser humano: a música. Há um país no mundo que baniu as raparigas das escolas.
O Afeganistão mergulhou no silêncio quando os talibã chegaram ao poder no Verão de 2021. "A música é a minha vida, é tudo para mim. Quando penso em viver sem música sinto que não posso respirar " declara Sevinch Majidi. Há mais de 2 anos que a estudante Sevinch não vê a família que ficou no Afeganistão. Ela estudava no ANIM - Instituto Nacional de Música do Afeganistão em Cabul. Agora vive no norte de Portugal, frequenta o Conservatório de Música Calouste Gulbenkian em Braga tal como muitos outros estudantes afegãos que tiveram de fugir de Cabul. "Tranquei o meu violino numa sala em Cabul para o deixar a salvo, mas não sei o que lhe aconteceu", confessa Al Sina Hotak.
Vivem em Braga com o pensamento a voar sempre para as famílias em Cabul que enfrentam uma severa crise económica e todas as outras restrições sociais e profissionais do regime talibã. Vivem em ansiedade permanente pelo que poderá estar a acontecer com as irmãs ou os irmãos, com as mães ou os pais.
Enfrentaram as diferenças de língua, comida, hábitos sociais, religião, cultura. Mantêm o sonho de amplificar a voz da música afegã. Foram a Genebra, tocaram no Palácio das Nações Unidas quando se evocavam os Direitos Humanos. Formam uma jovem orquestra no exílio à espera de conseguirem voltar a romper o silêncio no Afeganistão.
"Longe de Cabul" é um documentário da autoria de Cândida Pinto e Daniel Mota, com imagem de David Araújo e Daniel Mota, edição de Maria Azevedo e realização de Daniel Mota.

"Violaram valores". Talibãs detiveram mulheres por "mau hijab" em Cabul

domingo, 25 de junho de 2023

“Tenho muita dificuldade em ver um país muçulmano exemplar nos direitos humanos” – xeque Munir


O imã da Mesquita Central de Lisboa, xeque David Munir, admitiu hoje à agência Lusa que tem “muita dificuldade” em ver um país islâmico exemplar, sobretudo no domínio dos direitos humanos, afinal, um dos pilares do Islão.
“Na teoria, o regime islâmico é baseado na tolerância, na misericórdia e na igualdade. […] Mas a questão que se coloca é que, no Islão, à partida, para dizer a verdade, eu tenho muita dificuldade de ver um país Islâmico exemplar. Em tudo. Nos direitos humanos e, acima de tudo, em valorizar o próximo”, afirmou o xeque Munir.
Numa entrevista à agência Lusa, o imã, que sábado foi um dos oradores de uma conferência subordinada ao tema “A Reforma no Islão”, organizada pela Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), Observatório do Mundo Islâmico (OMI) e Centro Cultural Colinas do Cruzeiro (CCCC), frisou, porém, que o regime islâmico tem consagrado os direitos de igualdade, liberdade de expressão, liberdade de crença e tolerância.
“Cabe ao califa, que já não existe, ao emir, implementar. Tem de estar disposto a ouvir várias opiniões (…) na assembleia de pessoas, dos sábios ou dos mais entendidos ou dos líderes, os que têm a liberdade de dar a sua opinião”, explicou.
David Munir deu como exemplo o caso da democracia, quando, em eleições, um partido ganha eleições democraticamente com maioria absoluta, que lhe permite “fazer e desfazer”, sem dar hipóteses às restantes forças políticas representadas no Parlamento.
“Nos países islâmicos, temos militares e temos ditadores e temos pessoas que querem o poder e que não o querem deixar. Quando há uma pequena abertura para a possibilidade de haver um governo civil, há sempre golpes de Estado. Este é o mundo islâmico atual, em que a democracia não entra. Isto é assim, mesmo que a pessoa queira [mudar], não dura muito”, argumentou.
Para o xeque Munir, atualmente no Islão qualquer pessoa que levante a voz contra o regime, passa a ser considerado não islâmico, situação que lamenta.
"As opiniões das pessoas são válidas até a pessoa conseguir provar que não vai contra os princípios básicos do Islão. Mas, do outro lado, o que acontece nos dias de hoje, em termos gerais, qualquer pessoa que dê uma opinião diferente da do líder ou do partido que está no poder, não tem hipótese”, defendeu.
“Se for um país um pouco mais pacífico, tudo bem, tem o seu espaço, mas há pessoas que passam por represálias, põem a sua vida em risco, não se pode dizer nada, não se pode falar nada. Isto não tem nada a ver com o Islão”, acrescentou, admitindo que foi assim que surgiram movimentos extremistas, como o grupo Estado Islâmico, os Talibã ou o Al Shabbab.
“A falta de conhecimento, o querer o poder a todo custo, alguma influência também do Ocidente para criar uma certa instabilidade, enfim, se misturarmos tudo isto, temos uma boa refeição. No mundo Islâmico, ou em alguns países islâmicos, quando alguém sofre política, social e economicamente, quando se perde tudo, não tem razão de viver, então vai-se criando psicologicamente uma certa raiva, um certo ódio contra aqueles que estão no poder. Do outro lado, vem um grupo que usa o Islão e diz que vai manter a justiça ou igualdade. Dão alguma esperança à pessoa que perdeu quase tudo e esta acaba por se alinhar com alguma esperança. Mas depois, também acaba por ver que também não são diferentes dos outros”, explicou.
No entanto, na opinião de Munir, quem mais sofre com os grupos terroristas islâmicos “são os próprios muçulmanos”.
“A vida é sagrada para todos nós. Mas como há muçulmanos que não compactuam com a ideia deles e com a filosofia deles, passaram a ser inimigos também", afirma.
"Temos, infelizmente, vários grupos, vários 'lobos solitários' à solta e, quando um grupo é detido, desfeito, cada um faz aquilo que puder, na medida do possível, para manter a política, a filosofia, a ideia, a ideologia do grupo, e muitas vezes vai tentando influenciar o outro”, afirmou o imã da Mesquita Central de Lisboa.
“A falta de conhecimento faz com que as pessoas adiram sem saber porquê. E quando começam a estudar, quando começam a ler, abrem a mente e descobrem que, afinal, não é bem assim. E, ao abrirem a mente, quando começam a confrontar o líder, ou os líderes, são postos do lado”, justificou.
Questionado pela Lusa sobre quais os países muçulmanos que convivem num regime democrático, o xeque Munir admitiu ter “alguma dificuldade em responder”, uma vez que, apesar de já ter vivido em muitos países, não residiu em nenhum Estado muçulmano, pois sempre morou em Portugal, “no Ocidente”.
“O que eu sei sobre os países islâmicos é aquilo que sabemos das notícias. No entanto, os países que eu visitei, que não foram poucos, foram muitos, na prática não notei aquilo que eu gostava de notar. A justiça, a igualdade, a parte económica e social. Temos pessoas muito, muito ricas ou temos os muito, muito, muito pobres. Um dos pilares do Islão é a caridade obrigatória, 12,5%. Se todos dessem, iríamos melhorar muito a situação dos mais carenciados. Mas os ricos querem ficar mais ricos e os pobres vão ficar mais pobres. Esta desigualdade é social, mas também é islâmica”, explicou.
Admitindo que há ainda muito a fazer para pacificar o Islão no seu todo, o xeque Munir lembrou que “os grupinhos, grupos, líderes e congregações” que querem impor o radicalismo porque a leitura que fazem do Islão é muito limitada, não estão abertos a dialogar com os outros, mesmo sendo muçulmanos.
“Isso obriga a que o processo avance lentamente. Nalguns casos deram-se passos à frente e depois para trás e isso é um bocado complicado”, concluiu.

Sheik David Munir foi professor de Língua árabe no Instituto Oriental da Universidade Nova de Lisboa, na Universidade Independente e na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

É ainda membro do Conselho Consultivo Internacional da Fundação Paz e Democracia Monsenhor Martinho da Costa Lopes.

Tem como obras publicadas: “Deus que nunca o foi” (1987), “Ensinamentos Elementares do Islão” (1988) e “Da Ciência e Filosofia à Religião” (1996).

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Música do BioTerra: El Lebrijano com a orquestra Andaluz de Tânger - Dame la libertad


Dame la libertad del agua de los mares.
Dame la libertad de la tormenta.
Dame la libertad de la tierra misma.
Dame la libertad del aire.
Dame la libertad de los pájaros de las marismas,
vagadores de las sendas nunca vistas.

De noche mi corazón conmigo mismo pelea,
si esto no es morir de amor, que venga Dios y lo vea.
Al moro me fui a buscarte y en tu casa me metí
y ahora que estamos juntitos, a ver quién me aparta a mí.

Unos le rezan a Dios y otros le rezan a Alá
y otros se quedan callaos que es su forma de rezar.
A ver si llega la hora, a ver si tú te das cuenta
que lo que ya se ha perdío, ni se busca ni se encuentra.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Documentário: "Água e Não Armas - Pintar o Afeganistão de Verde"


A vida do Dr. Tetsu Nakamura foi dedicada à reconstrução do Afeganistão, até o dia em que foi tragicamente assassinado, a 4 de dezembro de 2019. Acreditando que armas e tanques não acabam com a guerra e que o renascimento da agricultura era a pedra angular da recuperação do país, o Dr. Nakamura despiu a bata branca e trabalhou ao lado do povo para construir um canal de irrigação.
Depois de anos de árduo trabalho, as planícies voltaram a ficar verdes e a vida quotidiana começou a regressar à normalidade. O documentário acompanha os 15 anos de esforços incansáveis deste médico humanitário para levar água, agricultura e civilização ao povo de uma nação devastada pela guerra para criar um futuro melhor.


Site:

Biografia:

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Luísa Sobral - Serei Sempre uma Mulher

“Sempre pensei que só houvesse um sentido no caminho para a igualdade de género e racial, em frente. Para mim seria impensável as mulheres poderem perder o direito a votar ou voltarem os transportes públicos divididos por zona de negros e zona de brancos. O mundo onde eu julguei habitar não era ainda igualitário mas caminhava nesse sentido, mesmo que por vezes com passos curtos e vagarosos e com ritmos diferentes em diferentes partes do mundo.

Foi então que assistimos a um retrocesso assustador nos direitos da mulher no Afeganistão. Perderam o direito à educação, perderam a liberdade de escolher cobrir ou não a cabeça e deixaram de poder andar sozinhas na rua. Caiu de novo o véu da invisibilidade sobre as mulheres afegãs.

Foi a pensar nessas mulheres que escrevi esta canção, sem saber que uns meses mais tarde morreria Mahsa Amini, uma mulher iraniana a quem foi retirada a vida por usar o hijab de forma inadequada. Nesse dia a minha canção tornou-se sobre ela também e sobre todos aqueles que quiseram vingar a sua morte com protestos, muitos deles perdendo a vida ao fazê-lo.

Esta é a minha forma de protesto, pela Mahsa, pelas mulheres iranianas e afegãs, e por todas as mulheres que nas suas vidas e profissões se sentem inferiorizadas. Porque ainda acredito que o caminho seja para a frente, mesmo que às vezes se dê dois passos atrás.“

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Pedofilia nos estados islâmicos


Infelizmente não é só na Igreja Católica que existe pedofilia e encontrar caminhos para que jamais volte a acontecer [ler artigo aqui]. O relatório da Internet Watch Fondation de 2021, concluiu que a cada dois minutos, uma página da web mostrava uma criança sendo abusada sexualmente.

Já uma reportagem da Revista Veja, da Editora Abril, edição nº 1982, ano 39, nº 45, de 15 de novembro de 2006, no escritório de advogados entrevistados já processaram pedófilos católicos, islâmicos, luteranos, mórmons, testemunhas de Jeová, protestantes e evangélicos.

Este livro " A Jóia de Medina" é fruto de extensa pesquisa e escrito com elegância pela jornalista americana Sherry Jones e mescla romance, história e aventura para narrar a emocionante saga da jovem A’isha, que se tornou a esposa favorita de Maomé e uma das mulheres mais reverenciadas do mundo islâmico. Na dura e exótica sociedade árabe do século XVII que presenciou a fundação do Islão, uma menina de 6 anos está prestes a dar o primeiro passo para se tornar uma das mulheres mais poderosas de sua época. A’isha bint Abi Bakr é a filha de um rico comerciante de Meca e acaba de ficar noiva do profeta Maomé. Quando se casa, aos 9 anos, ela se vê obrigada a confiar na própria inteligência e coragem. Agora é senhora de seu destino e deve estabelecer o seu lugar na comunidade, lutando contra a perseguição religiosa, intrigas políticas, ciúmes das outras esposas do harém e as próprias tentações. Conforme passa a amar Maomé, sua devoção e perspicácia fazem dela uma conselheira indispensável, tornando-a a mulher mais importante do Islão, uma defensora fervorosa das palavras e do legado do marido. Neste livro evoca a beleza e a árdua realidade da vida em uma época perdida no tempo, durante um tempo de guerra, aprendizado e iluminação. A primorosa descrição das origens da fé islâmica e de cenas da vida do profeta causou inquietação na comunidade muçulmana. Em agosto de 2008, a Random House, uma das maiores editoras do mundo, anunciou o cancelamento da publicação do romance, preocupada com uma eventual retaliação da comunidade muçulmana, gerando uma enorme onda de indignação pelo mundo. Salman Rushdie, o consagrado autor dos "Versículos Satânicos", classificou o episódio de “censura”. Depois de anunciar que publicaria a obra, Martin Rynja, editora da britânica Gibson Square, teve a sua casa atacada. Cercado de polémica, este livro é uma rara oportunidade de observar um relato histórico sobre o nascimento do Islão e o poder das mulheres através dos olhos de uma inesquecível heroína. 

Os estudiosos do Corão e da vida de Maomé estão divididos. Alguns dos hadiths (tradições do Profeta) em relação a idade de Aisha no tempo de seu casamento com o profeta são problemáticos. 
Uns apresentam evidências contra a aceitação das fictícias histórias de Hisham ibn ‘Urwah, para limpar o nome do Profeta como um homem velho irresponsável predando uma menina inocente [ler aqui]. Outros estudioso vêm Maomé pedófilo, guerreiro sanguinário e sem escrúpulos [ler aqui

A maioria dos países islâmicos têm leis para maioridade que variam dos 15 até os 21 anos. No entanto, alguns países afetados pela pobreza extrema, falta de infraestrutura social, pouca escolaridade e expectativa de vida baixa são mais propensos a terem números maiores de casamentos infantis. 

Relatos de muçulmanos que fazem sexo com meninos menores de idade também ocorrem. Um dos exemplos recorrentes são os casos dos bachar bazis no Afeganistão, que são meninos com traços mais femininos que são obrigados a dançar e servir como escravos sexuais para homens mais velhos. Embora isso seja parte da cultura do país, é considerado um crime pela lei islâmica e é passível de punição severa de acordo com a sharia.

Não é permitido obrigar os meninos a agirem como meninas e, de acordo com os relatos da vida do Profeta Muhammad, os estupros podem ser punidos com morte.

É comum que, em regiões mais pobres, os pais busquem emancipar os filhos cada vez mais cedo para aliviar as despesas da família. Não é por acaso que também há uma grande incidência de trabalho infantil nesses lugares. Além disso, a dificuldade em colocar e manter as crianças nas escolas faz com que o período da adolescência seja encurtado por causa das necessidades mais urgentes das famílias.

No entanto, podemos ver abaixo que alguns países islâmicos estão a tentar mudar esta realidade. Exemplos:
  1. No Egito, o casamento só é permitido pela lei após os 18 anos.
  2. Na Turquia, o casamento só é permitido pela lei após os 18 anos. O casamento aos 17 é permitido somente com o consentimento dos pais. Aos 16, é necessária uma autorização da justiça do país e, antes disso, é proibido.
  3. Na Arábia Saudita, o casamento só é permitido pela lei após os 18 anos.
  4. Nos Emirados Árabes Unidos, o casamento só é permitido pela lei após os 18 anos.
  5. Na Palestina, o casamento só é permitido pela lei após os 18 anos.
  6. Na Indonésia, o casamento só é permitido pela lei após os 19 anos.

sábado, 6 de agosto de 2022

O regresso das religiões em estado selvagem e os seus ímpetos belicistas

Por Carlos Esperança

Por todo o Mundo, a política está a ser capturada pelas religiões. As democracias secam ao som de cânticos ao Divino e anátemas às liberdades individuais. Clérigos de todas as fés assumem a relevância que os padres perderam na Europa com a repressão política de que foram alvo e que permitiu o surgimento da laicidade e das democracias liberais.

A igualdade entre homens e mulheres, a autodeterminação sexual da mulher, o respeito pela sua saúde reprodutiva, em suma, os Direitos Humanos, só foram possíveis com a separação do Estado e das Igrejas, contida a alegada vontade divina interpretada pelos funcionários de Deus.

O proselitismo e a luta entre religiões regressam em força à sombra das liberdades que a democracia exige, e bem, e da cumplicidade que os oportunismos eleitorais atraem.

A violência pia entrou numa espiral que subverte as democracias e reforça as ditaduras, desde os estados falhados aos mais avançados países do Planeta, das tribos medievais às democracias aparentemente consolidadas.

O Afeganistão é o caso mais dramático e grotesco, onde o mais implacável monoteísmo regressou recentemente ao poder numa brutal fusão com o tribalismo, na apoteose misógina que exonerou os direitos humanos e reconduziu as mulheres à escravatura.

Na Birmânia, o budismo, sob traje monástico ou dentro de botas e fardas militares, leva a cabo o genocídio dos rohingyas e impede o advento da democracia.

As teocracias muçulmanas no Médio Oriente, África, Europa, ou onde quer que medrem sob os escombros de democracias ou ditaduras laicas, erradicam religiões concorrentes e reduzem as mulheres à condição de propriedade dos homens.

Na Turquia, o Islão é o combustível que incinera a República laica de Atatürk e apoia o proto-califa Erdogan na difusão de mesquitas, na Europa e em África, e no genocídio dos curdos. A agência turca (Tika), com enormes recursos financeiros, é o instrumento do PR para renovar túmulos, santuários e mesquitas oriundos do Império Otomano nos Balcãs e projeta novos locais de culto na região, Macedónia do Norte, Kosovo, Albânia e Bósnia-Herzegovina para espalhar a fé e a espionagem através de imãs.

Na Rússia, a Igreja Ortodoxa abençoa guerras e benze canhões para todos os conflitos, na Síria, na Ucrânia ou onde o autocrata de turno quiser.

Na Índia, a “maior democracia do Mundo”, Modi é um ditador democraticamente eleito com folgadas maiorias graças à radicalização do nacionalismo hindu, exacerbado contra indianos muçulmanos, defensor da hierarquia das castas e ansioso do regresso à tradição de meter as viúvas na pira que incinera os maridos defuntos.

No Brasil e nos EUA a cruzada evangélica, de contornos nazis, causa inquietude quanto ao futuro das respetivas democracias depois de terem levado ao poder figuras repulsivas como Bolsonaro e Trump, com risco de reincidência. O fundamentalismo evangélico e o ódio aos direitos individuais exercem um proselitismo militante com futuro garantido no Supremo Tribunal dos EUA nas próximas décadas. 

domingo, 6 de março de 2022

A Ucrânia é Auschwitz da nossa geração

Em manifestação contra a guerra, russa pede desculpas aos ucranianos

A artista plástica Olga Ivanova, de 26 anos, deixou a Rússia há 5 por causa de Putin e participou de protesto nessa quinta-feira, em Barcelona




O medo é uma ficção. Um "bluff". Putin sabe que os direitos humanos estão no coração de cada pessoa de bem deste planeta, por mais que tenhamos aprendido a ignorar os migrantes afogados, os povos em fuga de guerras, ou pura e simplesmente os envenenados do Kremlin. Mas há limites: ver morrer em direto os ucranianos, hora a hora, na sua própria terra, invadida sem qualquer legitimidade, é um novo teste de indiferença que finalmente não vamos conseguir passar.

As Nações Unidas e a NATO têm de colocar em cima da mesa a "legítima defesa humanitária". Novos tempos exigem novos conceitos. Holocausto nuclear? Nós já estamos a perecer aos poucos neste holocausto da liberdade de um povo que podia ser qualquer país livre. Gente como nós, colocada num gigantesco campo de concentração - a sua própria terra.

Exige-se às Nações Unidas, ou à NATO, ou à União Europeia, ou a alguns dos países da União Europeia, o apoio aéreo a um povo indefeso: aviões com logística de sobrevivência, a par de outros para defesa de um espaço de exclusão militar nos céus da Ucrânia. E, se não funcionar, responder com a entrada em ação desses aviões para concretizarem essa "legítima defesa".

Zelensky roga esse mínimo: lutar em terra, na desproporção de 10 ou 20 ou 100 soldados russos por cada ucraniano, até morrerem todos os que defendem Kiev e o resto do país. Implora apenas uma batalha justa, sem ataques aéreos. A cobardia russa não autoriza. Nós obedecemos. E aguardamos a qualquer momento o óbvio massacre, inimaginável, das bombas e colunas de blindados de 50 km a desfazerem Kiev e as outras cidades. Lamentaremos então o horror, impossível de olhar. Será tarde demais.

O equilíbrio do mundo não tem forma de se manter. A mais pequena tentativa do Ocidente de defender Zelensky, ou a capital da Ucrânia, culminará numa resposta "legítima" de um homem que se considera detentor do "ethos" da guerra, da vontade dos vizinhos e arquiteto de fronteiras imaginárias. Não temos como evitar o confronto com Putin.

Na II Guerra Mundial, em Varsóvia, 1938, o Ocidente tolerou o gueto: era "apenas" um gueto. Eram "apenas" judeus. A seguir vieram os campos de concentração. Como não atuámos antes, não sabíamos até onde o mal pode ir. E continuamos a não aprender. Hoje dizemos: são "ucranianos". Porque não são da NATO - por medo nosso, não os deixamos ser. Portanto, podem morrer.

Ainda só passaram 10 dias. A desgraça é gigantesca e ainda nem sequer começou. Este é um momento decisivo na História: ou vencem os valores do Ocidente, com as pessoas e a democracia em primeiro lugar, ou perpetuamos ditadores globais no poder.

Não parecia crível que tivéssemos de enfrentar uma escolha tão medieval. Mas não podemos ter dúvidas. O nosso testemunho para as gerações vindouras é o de cairmos de pé ou triunfarmos sem medo. Não ceder a Putin, Xi Jinping, ao indiano Modi, ao ISIS, aos talibãs, não reeleger Trump, é uma resposta de cada um dos povos.

Mas a Ucrânia, neste momento de genocídio, é uma responsabilidade da humanidade.
Esta é a nossa oportunidade. Putin tornou isto cristalino. Porque connosco vivos não voltará a haver o império soviético. Mesmo que haja a hipótese ("bluff"?) de morrermos de frio e fome ou sobre bombas nucleares.
Um homem é apenas pó, terra, cinza, nada. Temer Golias é ignorar que uma pequena pedra o derrubará.

Ler mais:

Assistir a este debate:

Documentários para perceber a Guerra na Ucrânia

Cinco municípios PCP e PS, votam claramente contra a Invasão Russa da Ucrânia, em contraciclo com a Direção Nacional do PCP, que insiste na "ocupação territorial" e acusa a NATO e UE.

sábado, 11 de setembro de 2021

Como está o Mundo depois do 11 de Setembro?

O maior atentado terrorista da História mudou muito mais do que a paisagem de Nova Iorque. Mudou o Mundo. Mudou as pessoas. Mudou as políticas. Quais as principais consequências dos ataques ao coração da América e como está hoje o Mundo? As reflexões são do comentador da SIC, Nuno Rogeiro, do economista João Duque, do diretor executivo da Amnistia Internacional, Pedro A. Neto, e do jornalista Ricardo Costa.
                                    

Os atentados mais mortais da História

11 de setembro de 2001. O dia em que os EUA foram alvo de um ataque terrorista que atingiu vários símbolos do poder económico e militar do país. O Mundo assistiu em direto pelas televisões à destruição das Torres Gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, num atentado que também atingiu o Pentágono, perto de Washington.

O ataque mais mortal da História foi executado por 19 elementos da Al-Qaeda, que sequestraram e pilotaram quatro aviões com destino à Califórnia. Dois atingiram as Torres Gémeas, que colapsaram em menos de duas horas, e um terceiro fez explodir parte do Pentágono.

Um quarto avião, que presumivelmente tinha como alvo o Capitólio ou a Casa Branca, despenhou-se em Shanksville, na Pensilvânia, depois dos passageiros e a tripulação terem lutado com os sequestradores.

Não houve sobreviventes em qualquer dos voos. Morreram quase três mil pessoas.

Duas décadas depois, há imagens que não se esquecem e muitas foram as marcas que ficaram. O medo e a desconfiança tomaram conta do Mundo. Os Estados apostaram como nunca em políticas de segurança. Somos cada vez mais vigiados. Por isso, um ataque desta dimensão hoje é muito menos provável.
Uma ameaça que não se sabe qual era

Para Nuno Rogeiro, o 11 de setembro mudou claramente a segurança no Mundo. “A segurança física: passámos a ter mais polícia nas ruas, a segurança eletrónica, a segurança biométrica, as entradas e saídas nos aeroportos, as entradas e saídas nos aviões, a proteção das próprias tripulações dos aviões, e depois a criação de novos serviços" (muitas vezes exagerados), disse em declarações à SIC Notícias.

Para o comentador da SIC, “as sociedades foram treinadas para estarem mais vigilantes contra uma ameaça que não se sabe muito bem qual era.”

Em nome dessa ameaça, diz Ricardo Costa, “passou a ser normal o controlo das viagens e das telecomunicações” e “as sociedades deram tudo aos Estados de um dia para o outro”.

Pedro A. Neto, da Amnistia Internacional, concorda que o 11 de setembro fez crescer a vigilância, mas também o despertar para direitos de privacidade para os quais não tínhamos consciência. “Os governos estavam a fazer uma intromissão na nossa vida privada às custas do argumento securitário”.

“Passámos a perceber o outro como um potencial inimigo”

Além disso, acrescenta ainda que, depois dos atentados, o mundo fechou-se. “Passámos a perceber o outro, não como um ser humano, mas, muitas vezes, como um potencial inimigo”.

Uma ideia partilhada por Ricardo Costa. “Nós passámos a olhar com mais medo, receio e desconfiança para o outro, para o imigrante, para as pessoas que têm uma cultura diferente, sobretudo para as pessoas da religião islâmica. Há uma grande confusão entre o que é o Islão e o Islão radical. O Islão radical é uma pequena percentagem ínfima do Islão.”

Nuno Rogeiro não tem dúvida que as principais vítimas do 11 de setembro foram as pessoas, em especial as que fazem parte da “geração que cresceu sem parte da família”, devido aos atentados.
Quem é que vai voltar a andar de avião?

A imagem que se tem do 11 de setembro é de um ataque ao coração do capitalismo da América. Naquele dia o Mundo acorda sob o impacto dos aviões nos prédios e a bolsa treme. O mundo também treme "porque percebe que é frágil face a atentados terroristas”, explica João Duque. As pessoas tinham medo e perguntavam, por exemplo, "quem é que vai voltar a andar de avião?"

Vários setores da sociedade foram afetados. O da aviação foi o primeiro. Mas outros se seguiram. “A aviação, o turismo, que depende da mobilidade das pessoas, o setor dos seguros e até o setor financeiro, que financiava todas estas atividades", exemplifica.

Já o mercado de ações, recuperou rapidamente. “No final do ano já estava praticamente ao nível do pré-11 de setembro”.

As consequências financeiras do 11 de setembro

A recuperação foi lenta, mas aconteceu, as pessoas continuaram a andar de avião e o controlo dos movimentos financeiros passou a ser muito mais rigoroso. Por exemplo, “toda a lógica atual do controlo financeiro tem a ver com o 11 de setembro”, diz Ricardo Costa.
"O Daesh é um filho do 11 de setembro"

O Mundo continua, no entanto, a viver com fragilidades que derivam do 11 de setembro. "Essas fragilidades viram-se agora no Afeganistão, de uma forma mais atroz e grave. Voltou tudo ao ponto em que estava antes", afirma o diretor executivo da AI.

Nuno Rogeiro também considera que o Afeganistão pode vir a ser uma ameaça à segurança mundial. "O Daesh é um filho do 11 de setembro e da Al-Qaeda, que acha que o pai foi demasiado fraco". Por isso, "a nova geração quer um 11 de setembro ainda maior. A grande questão é saber se as sociedades estão preparadas para resistir".

Para o economista João Duque, "por muita segurança que se tenha, haverá sempre um dia que a firewall há-de deixar passar alguma coisa e nesse dia haverá estragos. O que se espera é que não se provoquem tantos estragos como anteriormente".

Fonte e mais imagens aqui

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domingo, 29 de agosto de 2021

Os Talibãs controlam agora um dos maiores depósitos de lítio do planeta



O mapa geopolítico do planeta muda constantemente. Associados a estas mudanças estão, quase sempre, lutas para controlar matérias-primas e bens essenciais para o mundo moderno.

Quando os Talibãs entraram em Cabul no dia 15 de agosto, não se limitaram a assumir o controlo do governo afegão. Eles ganharam também a capacidade de controlar o acesso a enormes depósitos de minerais, cruciais para a economia global de energia limpa.
Afeganistão tem uma das maiores fontes de lítio do planeta

O crescimento das tecnologias associadas às energias limpas leva a uma procura crescente de matérias-primas. Estas são escassas e concentram-se em alguns pontos do planeta, que assim se tornam em pontos críticos.

O Afeganistão é um dos poucos pontos onde é possível obter lítio, matéria essencial para a produção de baterias de carros elétricos e outros elementos de energia renovável. Um estudo realizado em 2010 revelou que o lítio presente valeria 1 bilião de dólares.

EUA perderam o acesso a esta fonte de riqueza importante

Passados estes anos, e depois de guerras constantes e outros problemas, toda esta riqueza está ainda por explorar. Espera-se que a procura por lítio cresça até 40 vezes nos próximos 20 anos e assim o Afeganistão pode tornar-se um player importante neste cenário futuro.

Com este peso, esta poderia ser a alternativa para os EUA dispensarem as suas fontes de matérias, focadas na China, o maior produtor mundial. Esta mudança que os Talibãs conseguiram vem colocar entraves grandes às suas pretensões e aos interesses económicos.

Talibãs não conseguem explorar o que têm em mãos

Tudo apontava para que fossem os EUA a conseguir os contratos para a exploração do lítio presente no Afeganistão, mas a mudança política deita agora tudo por terra. Estava implícita a presença militar na região, algo que já se sabe não vai acontecer.

Por outro lado, a presença dos Talibãs vem certamente mudar o rumo, os princípios e até as prioridades do país. Estão em falta estruturas básicas e estas não vão certamente ser apontadas para a exploração do lítio no Afeganistão.

O futuro não parece promissor para quem quiser explorar

A aproximação de alguns países poderá ser a solução, com a China a ser um dos mais relevantes. Mesmo este cenário poderá ser complicado, em especial pela falta de estruturas dedicadas a este propósito. Também as fações mais radicais dentro dos Talibãs poderiam vetar esta aproximação.

Com este cenário torna-se difícil ver um futuro imediato para a exploração desta matéria nobre no mercado atual. As reservas de lítio estão presentes e prontas a serem exploradas. Infelizmente toda a situação atual, assente em várias vertentes limita o acesso, quer pelos EUA, quer por outro país.

Nadia Nadim


Esta é a Nadia Nadim. Ela nasceu no Afeganistão. O pai dela foi assassinado pelos talibãs quando ela tinha 11 anos e a sua família fugiu para a Dinamarca na parte de trás de um camião.
Nadia marcou quase 200 golos no futebol profissional e representou a selecção dinamarquesa 98 vezes.
Concluiu a faculdade de medicina e está a estudar para se tornar uma cirurgiã reconstrutiva quando os seus dias de brincadeira acabarem.
Ela fala fluentemente 11 línguas e está na lista da Forbes das Mulheres Mais Poderosas no Desporto Internacional.
Se queres mostrar à tua filha um modelo, mostra-lhe Nadia Nadim.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

A riqueza mineral do Afeganistão nas mãos do Talibã


Até agora, o Taliban havia se financiado em grande parte com o negócio do ópio e da heroína. Agora eles controlam efetivamente um país que possui recursos valiosos, cobiçados pela China.

Em 2010, um relatório de especialistas militares e geólogos estimou que o Afeganistão tem recursos minerais no valor de cerca de 850 bilhões de dólares: ferro, cobre, lítio, cobalto e terras raras.

Na última década, a maioria desses depósitos não foi explorada. E o valor dessas matérias-primas, entretanto, disparou.

Outro relatório de 2017 do governo afegão estimou a riqueza mineral do país em cerca de US $ 3 trilhões, incluindo combustíveis fósseis.

China intensifica relações comerciais com o Afeganistão

O lítio, usado em baterias para carros elétricos, telefones celulares e laptops, tem uma demanda sem precedentes, com um aumento anual de 20%.

O documento do Pentágono chamou o Afeganistão de Arábia Saudita do lítio e calculou que seus depósitos poderiam ser iguais aos da Bolívia, que está entre os maiores do mundo. O cobre também se beneficiou da recuperação da economia global do ataque do COVID-19.
China e Paquistão mostram interesse

Enquanto o Ocidente ameaça isolar o Taliban após tomar Cabul, China, Rússia e Paquistão podem se preparar para fazer negócios com os novos governantes.

A China é um fator importante na demanda global por matérias-primas. E é provável que Pequim, que já é o maior investidor estrangeiro no Afeganistão, possa liderar a corrida para ajudar o país a construir um sistema de mineração eficiente para atender à sua necessidade insaciável de minerais.

"A tomada do poder pelo Talibã ocorre em um momento em que um suprimento restrito desses minerais se aproxima no futuro previsível, e a China precisa deles", disse Michaël Tanchum, do Instituto de Política Europeia e China, ao DW. Of Security, de Áustria.

O líder talibã, mulá Abdul Ghani Baradar, disse esperar que a China "desempenhe um papel importante na futura reconstrução e no desenvolvimento econômico do Afeganistão". Pequim já expressou sua disposição de manter relações amigáveis ​​e cooperativas com o novo regime afegão.

Problemas de segurança
A media chinesa já descreveu como o Afeganistão poderia se beneficiar da ambiciosa iniciativa de Pequim de construir rotas terríveis, ferroviárias e marítimas na Ásia e na Europa. Mas existem questões de segurança. Um surto de violência contra outros países da Ásia Central pode deixar a rede de oleodutos que abastece grande parte do petróleo e gás da China numa situação vulnerável.

Pequim também teme que o Afeganistão possa se tornar um refúgio para a minoria uigur e que seus interesses possam ser minados se a violência continuar em solo afegão.

O Paquistão também quer se beneficiar da riqueza mineral do Afeganistão. O governo de Islamabad, que apoiou o movimento Taliban quando este assumiu o poder em 1996, manteve laços com o grupo islâmico.

Mas o novo regime do Taliban enfrenta uma difícil tarefa para extrair as riquezas minerais do país. A criação de um sistema de mineração eficiente levará anos, e a economia afegã continuará a necessitar de ajuda estrangeira por muito tempo.

Mesmo que as preocupações com segurança sejam superadas, a corrupção pode continuar a assustar os investidores. Os Estados Unidos e a Europa enfrentam agora um novo dilema. Muitos investidores ocidentais têm relutado em se envolver em projetos de recursos naturais por medo da insegurança e de um quadro jurídico fraco. Se tentarem se dar bem com o Taliban, serão criticados por ignorar os abusos da democracia e dos direitos humanos. Do contrário, os negócios serão feitos pela China e pelos tradicionais aliados do Taliban.

The Taliban are sitting on $1 trillion worth of minerals the world desperately needs


London (CNN Business) The swift fall of Afghanistan to Taliban fighters has triggered a humanitarian crisis, with thousands trying to flee the country. It's also brought renewed focus on Afghanistan's vast untapped mineral wealth, resources that could transform its economic prospects if ever developed.
Afghanistan is one of the poorest nations in the world. But in 2010, US military officials and geologists revealed that the country, which lies at the crossroads of Central and South Asia, was sitting on mineral deposits worth nearly $1 trillion.
Supplies of minerals such as iron, copper and gold are scattered across provinces. There are also rare earth minerals and, perhaps most importantly, what could be one of the world's biggest deposits of lithium — an essential but scarce component in rechargeable batteries and other technologies vital to tackling the climate crisis.

"Afghanistan is certainly one of the regions richest in traditional precious metals, but also the metals [needed] for the emerging economy of the 21st century," said Rod Schoonover, a scientist and security expert who founded the Ecological Futures Group.
Security challenges, a lack of infrastructure and severe droughts have prevented the extraction of most valuable minerals in the past. That's unlikely to change soon under Taliban control. Still, there's interest from countries including China, Pakistan and India, which may try to engage despite the chaos.
"It's a big question mark," Schoonover said.

Huge potential
Even before President Joe Biden announced that he would withdraw US troops from Afghanistan earlier this year, setting the stage for the return of Taliban control, the country's economic prospects were dim.

As of 2020, an estimated 90% of Afghans were living below the government-determined poverty level of $2 per day, according to a report from the US Congressional Research Service published in June. In its latest country profile, the World Bank said that the economy remains "shaped by fragility and aid dependence."
"Private sector development and diversification is constrained by insecurity, political instability, weak institutions, inadequate infrastructure, widespread corruption, and a difficult business environment," it said in March.

Many countries with weak governments suffer from what's known as the "resource curse," in which efforts to exploit natural resources fail to provide benefits to local people and the domestic economy. Even so, revelations about Afghanistan's mineral wealth, which built on earlier surveys conducted by the Soviet Union, have offered huge promise.
Demand for metals like lithium and cobalt, as well as rare earth elements such as neodymium, is soaring as countries try to switch to electric cars and other clean technologies to slash carbon emissions.
The International Energy Agency said in May that global supplies of lithium, copper, nickel, cobalt and rare earth elements needed to increase sharply or the world would fail in its attempt to tackle the climate crisis. Three countries — China, the Democratic Republic of Congo and Australia — currently account for 75% of the global output of lithium, cobalt and rare earths.
The average electric car requires six times more minerals than a conventional car, according to the IEA. Lithium, nickel and cobalt are crucial to batteries. Electricity networks also require huge amounts of copper and aluminum, while rare earth elements are used in the magnets needed to make wind turbines work.
The US government has reportedly estimated that lithium deposits in Afghanistan could rival those in Bolivia, home to the world's largest known reserves.
"If Afghanistan has a few years of calm, allowing the development of its mineral resources, it could become one of the richest countries in the area within a decade," Said Mirzad of the US Geological Survey told Science magazine in 2010. He led the Afghanistan Geological Survey until 1979.

Even more obstacles
That calm never arrived, and most of Afghanistan's mineral wealth has remained in the ground, said Mosin Khan, a nonresident senior fellow at the Atlantic Council and former Middle East and central Asia director at the International Monetary Fund.
While there has been some extraction of gold, copper and iron, exploiting lithium and rare earth minerals requires much greater investment and technical know-how, as well as time. The IEA estimates that it takes 16 years on average from the discovery of a deposit for a mine to start production.
Right now, minerals generate just $1 billion in Afghanistan per year, according to Khan. He estimates that 30% to 40% has been siphoned off by corruption, as well as by warlords and the Taliban, which has presided over small mining projects.
Still, there's a chance the Taliban uses its new power to develop the mining sector, Schoonover said.
"You can imagine one trajectory is maybe there's some consolidation, and some of this mining will no longer need to be unregulated," he said.

But, Schoonover continued, the "odds are against it," given that the Taliban will need to devote its immediate attention to a wide range of security and humanitarian issues.
"The Taliban has taken power but the transition from insurgent group to national government will be far from straightforward," said Joseph Parkes, Asia security analyst at risk intelligence firm Verisk Maplecroft. "Functional governance of the nascent mineral sector is likely many years away."
Khan notes that foreign investment was hard to come by before the Taliban ousted Afghanistan's civilian Western-backed government. Attracting private capital will be even more difficult now, particularly as many global businesses and investors are being held to ever higher environmental, social and governance standards.
"Who's going to invest in Afghanistan when they weren't willing to invest before?" Khan said. "Private investors are not going to take the risk."
US restrictions could also present a challenge. The Taliban has not been officially designated as a Foreign Terrorist Organization by the United States. However, the group was placed on a US Treasury Department list of Specially Designated Global Terrorists and a Specially Designated Nationals list.

An opportunity for China?
State-backed projects motivated in part by geopolitics could be a different story. China, the world leader in mining rare earths, said Monday that it has "maintained contact and communication with the Afghan Taliban."

"China, the next-door neighbor, is embarking on a very significant green energy development program," Schoonover said. "Lithium and the rare earths are so far irreplaceable because of their density and physical properties. Those minerals factor into their long-term plans."
Should China step in, Schoonover said there would be concerns about the sustainability of mining projects given China's track record.
"When mining isn't done carefully it can be ecologically devastating, which harms certain segments of the population without a lot of voice," he said.
Beijing could be skeptical of partnering on ventures with the Taliban given ongoing instability, however, and may focus on other regions. Khan pointed out that China has been burned before, having previously tried to invest in a copper project that later stalled.
"I believe they will prioritize other emerging/frontier geographies well before Taliban-led Afghanistan," said RK Equity partner Howard Klein, who advises investors on lithium.
— Matt Egan and Charles Riley contributed reporting

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Bush-Era War Criminals Are Louder Than Ever



After the U.S. troop withdrawal established conclusively that the Afghan “government” with which they’d spent 20 years pretending to nation build was essentially a work of fiction — thus proving to the world that they’ve been lying to us this entire time about the facts on the ground in Afghanistan — you might expect those who helped pave the way for that disastrous occupation to be very quiet at this point in history.

But, far from being silent and slithering under a rock to wait for the sweet embrace of death, these creatures have instead been loudly and shamelessly outspoken.

The Tony Blair Institute for Global Change has posted a lengthy essay by the former prime minister who led the United Kingdom into two of the most unconscionable military interventions in living memory. Blair criticizes the withdrawal as having been done out of “obedience to an imbecilic political slogan about ending ‘the forever wars’,” bloviating about “Radical Islam,” and asking, “has the West lost its strategic will?”

Read Tony Blair’s article on Afghanistan and what needs to happen next.https://t.co/WLy5UcxMpU

— Tony Blair Institute (@InstituteGC) August 22, 2021

It’s essentially a 2,750-word temper tantrum, authored by the same man who fed the British people this load after 9/11:

“The starving, the wretched, the dispossessed, the ignorant, those living in want and squalor from the deserts of Northern Africa to the slums of Gaza, to the mountain ranges of Afghanistan: they too are our cause.

This is a moment to seize. The Kaleidoscope has been shaken. The pieces are in flux. Soon they will settle again. Before they do, let us re-order this world around us.”

Blair promised that by helping the Bush administration usher in an unprecedented new era of military expansionism they could seize this unfortunate event to “re-order the world” in a way that would benefit all the world’s most unfortunate people. Mountains of corpses and tens of millions of refugees later it is clear to anyone with functioning gray matter that this was all a pack of lies.

And now, like any sociopath whose reputation is under threat, Blair has begun narrative managing.

Tony Blair is paid around £1m a year as an international advisor to an organisation called the Mubadala Development Fund in the UAE

It has been reported that Mubadala has been developing a plan to mine US$1 trillion worth of resources in Afghanistan.

Skin in the game?

— Lowkey (@Lowkey0nline) August 22, 2021

Tony Blair is being paid £9m to advise the Saudi Arabian government. Yesterday the Saudis blew up a bus full of schoolchildren in Yemen. Reports suggest at least 29 children died. That works out at about £300,000 per child. Who says crime doesn't pay? https://t.co/hi4m5H79Bj

— Frank Owen's Legendary Paintbrush ????? (@WarmongerHodges) August 10, 2018

This is also why George W. Bush has released his own statement through his own institution. It’s also why Bush-era neocons like Paul Wolfowitz and John Bolton are doing media tours condemning the withdrawal, and why Bill Kristol, whose neoconservative influence played a key role in the Bush administration’s military expansionism, is now promoting the arming of proxy forces against the Taliban.

They’re narrative managing.

They’re narrative managing because they’ve been proven wrong, and because history will remember them as men who were proven wrong. Their claims that a massive increase in military interventionism would benefit the people of the world have been clearly and indisputably shown to have been false from top to bottom, so now they’re just men who helped murder millions of human beings.

It’s about preserving their reputations and their legacies. “No no, we’re not mass murdering war criminals, we are visionaries. Had we just remained in Afghanistan another 20 years, history would have vindicated us. If we would have just killed more people in Iraq, it would be a paradise right now. The catastrophe cannot possibly be the fault of the people directly responsible for orchestrating it. It’s got to be the fault of the officials who inherited it. It’s the fault of the ungrateful inhabitants of the nations we graciously invaded. It’s the people and their imbecilic desire to end ‘the forever wars.’ “

But of course it’s their fault. None of this needed to be this way, it was made this way by stupid people with no functioning empathy. They can try to re-frame and spin it however they like, but history will remember them for the monsters they are. The saner our society becomes, the more unforgiving our memory of their crimes will be.

Caitlin Johnstone is a rogue journalist, poet, and utopia prepper who publishes regularly at Medium. Her work is entirely reader-supported, so if you enjoyed this piece please consider sharing it around, liking her on Facebook, following her antics on Twitter, checking out her podcast on either Youtube, soundcloud, Apple podcasts or Spotify, following her on Steemit, throwing some money into her tip jar on Patreon or Paypal, purchasing some of her sweet merchandise, buying her books Notes From The Edge Of The Narrative Matrix, Rogue Nation: Psychonautical Adventures With Caitlin Johnstone and Woke: A Field Guide for Utopia Preppers.

This article is from CaitlinJohnstone.com and re-published with permission.