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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Alterações climáticas podem tornar Portugal mais seco, sem praias e sem turismo, alerta Rajendra Pachauri


Nobel da Paz Rajendra Pachauri alertou, nesta segunda-feira, para as alterações climáticas que afectarão as praias, a agricultura, a pesca e até o vinho.

Portugal pode mudar drasticamente em meio século, com as alterações climáticas a tornarem o país mais desértico, a afectarem as praias, a agricultura, a pesca e até o vinho, alertou nesta segunda-feira o Nobel da Paz Rajendra Pachauri.

Pachauri, que foi Nobel da Paz em 2007, foi nesta segunda-feira um dos oradores numa conferência sobre alterações climáticas no âmbito do ciclo Conferências do Estoril.

O responsável foi presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, e é o fundador e mentor do movimento Protect Our Planet (POP).

Nesta segunda-feira, perante uma sala cheia de jovens na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, falou do projecto POP e começou por salientar que a melhor forma de lidar com as alterações climáticas é envolver os jovens, exortando-os depois a consumir menos e comer melhor (“Comam menos carne, serão mais saudáveis e é bom para o planeta”) e a plantarem árvores, para que a Península Ibérica não tenha no futuro o clima que hoje tem o Norte de África.

O especialista lembrou aos presentes que as temperaturas e o nível do mar (com tsunamis mais devastadores) têm vindo a subir desde meados do século passado, à medida que as emissões de gases com efeito de estufa também aumentaram, e salientou que situações climáticas extremas observadas desde 1950 estão relacionadas “com a interferência humana”.

“O Árctico deixará de ter gelo”
E depois, acrescentou, se nada for feito em relação a essas emissões, no futuro os fenómenos extremos serão mais frequentes e intensos e, por exemplo, o Árctico deixará de ter gelo. “Já imaginaram isso? Vai ser no vosso tempo”, disse.

E o Sul da Europa, onde Portugal se inclui, vai ver o avanço do mar, mudanças no turismo e na agricultura, o mar terá peixes diferentes dos que se costumam consumir agora, a vinha vai mudar e haverá mais mortes e doenças.

“O que é que estamos a fazer ao nosso planeta? Não temos outro sítio para onde ir”, disse Rajendra Pachauri, que se afirmou, ainda assim, um optimista e que salientou três acções que terão de ser tidas em conta desde já para mitigar os efeitos das alterações climáticas: o uso mais eficiente da energia, usar energias limpas e reduzir a desflorestação.

As alterações climáticas são reais, estão a afectar-nos, são más, são comprovadas cientificamente e ainda há esperança, disse, centrando o seu optimismo no combate às alterações que está a ser feito um pouco por toda a parte.

“Gostaria que o meu país, a Índia, fizesse mais”, disse, concluindo que sem mudanças para reduzir as emissões de gases, a vida no planeta vai tornar-se “muito mais difícil”.

Na mesma linha, o secretário de Estado adjunto e do Ambiente, José Mendes, lembrou que Portugal está a sentir os efeitos das alterações climáticas, como as altas temperaturas, os grandes incêndios ou a erosão costeira, mas salientou que “ninguém no planeta” deixa de ser afectado.

“O tempo de agir é agora”
“Este é o momento para a acção. Já temos o diagnóstico, o tempo de agir é agora. E a acção é a adaptação (às alterações) e a mitigação”, disse, salientando a necessidade de se viajar de forma mais sustentável e de se aumentar a eficiência energética dos veículos. E depois, concluiu, é preciso proteger o planeta, mas proteger também as pessoas mais vulneráveis.

Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, que encerrou a conferência, alertou para o facto de as alterações climáticas não serem algo que vai apenas afectar as pessoas do futuro. “Já são os meus netos que serão prejudicados, se não fizermos nada, não é ninguém desconhecido”, disse.

Rajendra Pachauri já tinha também chamado a atenção para a proximidade temporal dos efeitos maiores das alterações. E sempre focado nos jovens deixou um último recado: “Os jovens têm se ser parte da solução, não do problema.”

quinta-feira, 31 de março de 2016

Rajendra Pachauri, ex-chefe do IPCC acusado de assédio sexual, morre aos 79 anos


O ambientalista indiano Rajendra Kumar Pachauri, sob cuja liderança um painel da ONU sobre alterações climáticas partilhou o prémio Nobel da paz de 2007, morreu após uma recente cirurgia cardíaca. Ele tinha 79 anos.

A morte de Pachauri foi anunciada na noite de quinta-feira pelo Instituto de Energia e Recursos (TERI), grupo de pesquisa que ele chefiou até 2016 em Nova Délhi.

Ele presidiu o painel do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas de 2002 até renunciar em 2015, depois que um funcionário da sua empresa de pesquisa o acusou de assédio sexual .

Rajendra Pachauri, ex-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, que negou as acusações de assédio sexual.

O IPCC e o antigo vice-presidente dos EUA, Al Gore, receberam o Nobel de 2007 pelos seus esforços para expandir o conhecimento sobre as alterações climáticas antropogénicas e lançar as bases para as combater.

Pachauri passou por uma cirurgia num hospital de Nova Delhi esta semana. Ele morreu em sua casa na quinta-feira, informou o Press Trust of India.

Pachauri ganhou prémios civis do governo da Índia em 2001 e 2008.

O presidente da TERI, Nitin Desai, elogiou a contribuição de Pachauri para o desenvolvimento sustentável global. “A sua liderança no Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas lançou hoje as bases para as discussões sobre as alterações climáticas”, disse Desai.

As acusações contra Pachauri incluíam alegações de que ele enviou mensagens de texto, e-mails e mensagens de WhatsApp sugestivas para assediar uma funcionária de 29 anos da sua organização.

Pachauri negou as acusações e os seus advogados alegaram que suas mensagens foram hackeadas na tentativa de caluniá-lo. A polícia de Nova Deli apresentou queixa em tribunal, mas o julgamento não pôde ser concluído.

O professor Jean-Pascal van Ypersele, vice-presidente do IPCC de 2002 a 2015, disse que, vindo de um país em desenvolvimento, Pachauri deveria ser creditado por chamar a atenção, muito antes de outros, para a importância de encontrar sinergias entre as políticas climáticas e a agenda de desenvolvimento sustentável. “Infelizmente, ele era por vezes demasiado confiante, como quando se recusou a reconhecer e corrigir rapidamente o erro insignificante que estava presente num relatório do IPCC. Isso levou a críticas crescentes e indevidas à organização que ele presidiu”.

Pachauri deixa esposa, um filho e uma filha.