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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Pequena Garça - Anima Mundi

Garça-caranguejeira (Ardeola ralloides)
𝑨𝒏𝒊𝒎𝒂 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒊
Há uma inteligência sem nome
na curvatura destas asas ocres e luminosas,
uma física precisa onde o ar não é vazio,
mas corpo, suporte e abraço.

Irmão Vento, que sopras sem pedir licença,
carregas a poética do espaço em cada pena.

A matéria acorda do seu longo sono:
a pedra que um dia sonhou ser planta,
a planta que ansiou pela vertigem do movimento,
até que a luz, semente da Noosfera,
revelou a consciência suspensa no azul.

Pequena Garça, não voas sobre a Terra -
és a própria Terra que ganha céus e olhares.
Não há rutura entre a tua garra amarela
e a humidade dos juncos lá em baixo:
o ecossistema é uma só teia,
uma teia profunda onde tudo o que existe,
respira o mesmo sopro.

O teu peito avança, alento puro e luz,
na metamorfose contínua da forma.
Sem artifício, sem esforço,
apenas o ser na sua mais pura,
simples e indivisível presença.
𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑆𝑜𝑎𝑟𝑒𝑠, 13.08.2026

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O despertar da Consciência Cósmica na música e na natureza


J.S.Bach : Gigue, BWV 1006, alto recorder 




Video original aqui

O despertar da Consciência Cósmica na música e na natureza
Sob o abóbada de pedra onde as eras repousam em cinza silencioso,
Uma palheta de madeira ganha fôlego e põe a luz a brincar.
O ar transforma-se em melodia, um fio de prata a dançar,
Tecido através da quietude onde o passo sagrado é dado.

A luz do sol jorra pelo arco antigo e encontra o campo aberto,
Onde a terra e o céu cedem num padrão contínuo.
O vento lá fora, o tubo de madeira, o pulsar do coração na sala,
São fios de uma teia profunda que rompe a sombra na penumbra.

Uma criança senta-se perto com olhos tranquilos, atenta em pensamento suave,
O seu espírito unido a cada fio que a graça da música teceu.
Ela não ri, mas escuta profundamente, descansando sem sobressaltos —
Um eu tão vasto como todo o cosmos, fundindo-se com o sonho.

Pois a matéria não é poeira pesada, nem estrutura fria ou sem vida,
Arde em fogo interior, ascendendo em chama.
A Natureza é o espírito visto, uma visão trazida à luz,
E o espírito é a terra silenciosa transformada em luz viva.

Cada nota desdobra uma arquitetura, folha por flor a crescer,
Um fluxo mórfico de harmonia que flui para sempre em liberdade.
A sala expande-se com ar dinâmico, um santuário amplo,
Onde a consciência cósmica desperta e não deixa nenhum coração de fora.

A canção dissolve-se no silêncio, sagrada e completa,
Deixando o universo em louvor onde a terra e o altar se encontram.

João Soares, 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O Sopro do Sagrado em Serrabona


O 'Preludio' da suite em mi para violino: é uma das obras mais conhecidas de J.S. Bach, tão popular e maravilhosa que foi transcrita para quase todos os instrumentos. A versão em fá funciona às mil maravilhas na flauta de bisel alto. 
Local: o Prioriado de Serrabona - uma obra-prima do século XI, perdida nas montanhas catalãs perto de Perpignan
A piece  of Bach a day keeps the doctor away

O Sopro do Sagrado em Serrabona

Nas pedras seculares de Serrabona,
onde o tempo esquece a pressa dos homens,
a flauta suspende um sopro primordial
e desperta o sagrado no mais fundo.

Não há fronteira entre o templo e a terra,
entre a madeira que vibra e o espaço que ressoa;
a aragem que cruza as serras catalãs
é a mesma que se molda em harmonia.

Pelas mãos do mestre, o génio de Bach
deixa de ser nota e torna-se prece.
Cada frase musical é um degrau de silêncio,
um fio invisível tecido na matéria da vida.

Na memória do granito e no eco que se esvazia,
revela-se uma ordem discreta, um rasgo de luz pura:
auscultar essa arquitetura no cume dos Pirenéus
é sentir o pulso do cosmos na própria rocha.

João Soares, 12.08.2026

Página oficial do flautista 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Natureza não é um mero recurso - é onde o humano se reconecta

Toutinegra-de-bigodes-ocidental (Curruca iberiae)

Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra, esquecida no tronco das árvores só serve para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com as borboletas.

Manoel de Barros, in "O Livro das Ignorãças" (1993)

O poema de Manoel de Barros, extraído de O Livro das Ignorãças, constitui um hino à sensibilidade, à infância e à capacidade de o ser humano se libertar da lógica puramente racional para se fundir com o mundo natural. Ao longo dos versos, o autor convida-nos a compreender o mundo através daquilo que apelida de "desimportâncias", valorizando o olhar sensível em detrimento da rigidez utilitária do quotidiano.

No centro da narrativa encontramos o "estágio de ser árvore". Esta expressão não evoca uma metamorfose literal, mas sim um profundo exercício de empatia, silêncio e contemplação, onde o irmão do poeta adota o tempo e o ritmo da própria terra. É através desta simbiose que surge uma crítica subtil ao ensino tradicional e dogmático. Ao afirmar que o irmão aprendeu mais sobre o sol, a lua e a santidade no tronco de uma árvore do que na escola ou no internato com os padres, o poeta exalta o saber sensorial e a vivência direta. A comunhão com o meio ambiente revela-se a verdadeira escola da vida, capaz de aproximar o indivíduo daquilo que designa como o "perfume de Deus".

Manoel de Barros foca-se também na utilidade do que parece inútil. A imagem da casa vazia da cigarra, esquecida no tronco e que "só serve para poesia", ilustra perfeitamente a sua filosofia: numa sociedade focada no lucro e na funcionalidade, a arte e a poesia residem precisamente naquilo que foi abandonado e que perdeu a sua função prática. Ao mesmo tempo, o autor humaniza a natureza ao atribuir vaidade e ciúmes à árvore, esbatendo as fronteiras entre o Homem e o meio que o rodeia, celebrando uma amizade pura com as borboletas e os pássaros.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Notícia triste da madrugada: Papa Francisco morre aos 88 anos


Primeiro pontífice latino-americano deixa legado de tolerância e diálogo. Promoveu reformas importantes, acolheu minorias e deu prioridade aos pobres.
O pontífice também ficou marcado por discursos políticos durantes sermões. Não poupou críticas a líderes de países em guerra, como o russo Vladimir Putin e o israelita Benjamin Netanyahu. Ele também apontou o dedo para a União Europeia ao citar a crise dos refugiados, que começou durante o seu papado, em 2015.
Numa das imagens mais impressionantes e sem precedentes na Igreja Católica, rezou sozinho na sempre lotada Praça São Pedro, no Vaticano, quando a Covid-19 se espalhou pelo mundo e fez vários países decretarem quarentena.
Mas o combate à pobreza sempre foi a sua prioridade. Ao ser apontado como o novo papa, ele escolheu o nome de seu novo título em homenagem a São Francisco de Assis, protetor dos pobres. O lema de seu papado foi "Miserando atque eligendo" — "Olhou-o com misericórdia e o escolheu", em português.
As reformas da Igreja Católica também foram outra marca do papado de Francisco. Ele iniciou um processo de reforma das estruturas da Cúria, que é o governo do Vaticano, com atenção especial para a parte económica e financeira.
A modernidade também levou Francisco a lidar com outros assuntos delicados para a Igreja, como os direitos LGBTQIA+ e o sexismo.
Ele foi elogiado por avanços como o de permitir bênçãos de padres a casais do mesmo sexo, colocar mulheres em cargos mais altos no Vaticano e permitir que elas votassem no Sínodo dos Bispos — a reunião em que os bispos debatem e decidem questões ideológicas e regimentos internos.
Mas também foi criticado por não avançar menos do que o esperado na questão feminina. Francisco terminou seu papado sem permitir sacerdotes do sexo feminino, reivindicação histórica de parte das católicas.
O papa defendia que apenas cristãos do sexo masculino poderiam ser ordenados para o sacerdócio, usando como base a premissa da Igreja Católica de que Jesus escolheu homens como apóstolos.
Em termos ecológicos, foi um Papa dinâmico e estimulou o movimento ambientalista global. Em 2015, lançou a encíclica Laudato si', um apelo a uma maior gestão ambiental que apelava a mudanças nos estilos de vida e nas políticas de combate às alterações climáticas.
DEP Papa Francisco, brincalhão, muito culto, de gestos e hábitos simples e que lutou para mudar a Igreja. Um excelente Papa!
Só temos de estar gratos pela sua passagem, a sua intervenção social e ecológica e o seu legado.
E há seres imortais, porque não se apagam da nossa memória.

sábado, 4 de novembro de 2023

Alfredo Sendim: “O que está em causa não é o planeta nem a natureza, somos nós”

Food is the currency of Life
Como é que podemos explicar a alguém que vive a maior tempo na cidade e tem pouco contacto com o mundo rural o que é a agrofloresta?
A agrofloresta é essencialmente a ideia de coabitar com o sistema natural – ou ecossistemas – que nos criaram e estão à nossa volta e dos quais nós ainda hoje dependemos integralmente. Somos completamente dependentes dos recursos que eles produzem. E nós não sabemos de forma alguma, por muita capacidade e engenho que tenhamos, supri-los de outra forma sem ser através do sistema natural.

É muito fácil percebermos o modelo da agricultura, que passa essencialmente por termos uma relação com o que está à nossa volta, eliminando o sistema natural, um conjunto de elementos relacionados entre si e uma capacidade de auto-regeneração única. No fundo aprendemos a canalizar a energia deste sistema apenas para poucos elementos, que obviamente são interessantes para nós, sejam eles cereais, eucaliptos ou olivais. Quando o espaço é muito grande e o número de utilizadores é pequeno, esta fórmula até pode ser bastante razoável, por que se as pessoas destruírem um bocadinho de natureza e quando voltarem ao mesmo sítio já tudo tiver sido regenerado ecologicamente, não há qualquer problema. O problema é que esta modalidade acabou por arrombar o sistema, que deixou de ser capaz de produzir a energia que o faz funcionar.


E a Agrofloresta pode esta inverter essa realidade?
A agrofloresta é uma forma diferente de nos inserirmos na natureza, que já foi desenvolvida em Portugal na Idade Média, com aquele sistema que nos orgulhamos tanto, chamado montado. Este não é mais do que uma evidência, como que dizendo “vamos lá reagir, depois de termos destruído a natureza e os ecossistemas todos”. Aconteceu uma vez no Neolítico, outra, muito mais forte, a seguir ao Império Romano, e uma terceira depois de todo o período dos visigodos, seguido pelos árabes. Às tantas houve alguém que bateu com a mão na mesa e disse: e se nós tentássemos viver com o sistema?

O montado, por exemplo, é um sistema muito simplificado e muito domesticado, adaptado às nossas necessidades, mas é um sistema. A agrofloresta não é portanto mais do que a ideia de viver com um sistema natural, compreendendo-o e sendo nós também parte dele. Diria mesmo que a agrofloresta é hoje uma das expressões mais profundas da ética da agroecologia.

Em que sentido?
Por se opor a uma ética antropocentrada, muito maioritária no pensamento ocidental, que nos diz que não somos natureza, porque a natureza é violenta e selvagem e nós, por oposição, afastamo-nos dela, numa tentativa de nos divinizar. A natureza existe para a ordenarmos e para podermos usufruir dela. A ética da agroecologia é diferente, pois pressupõe umas determinadas capacidades para o homem, que os outros seres não têm, e isso dá-nos não só uma enorme responsabilidade, como nos coloca ao nível dos outros elementos da natureza, como parte dessa mesma natureza. Essa evidência é personalizada pela a árvore, o elemento vegetal que dura mais e é o motor deste sistema. São estes seres que, de forma bastante eficiente, conseguem fazer o milagre de transformar a luz do sol em matéria orgânica. Por isso, todos os outros reinos – o animal, os fungos, as bactérias, os protozoários – são complementares à árvore e ao reino vegetal. Um sistema que não tem este elemento central não é um sistema.

Fala-se muito do solo vivo e da sua importância para a humanidade, mas continuamos sem perceber que não há solo sem árvore. Quem alimenta o solo são as árvores e o sol funciona como uma bateria, pensada neste sistema para ser carregada através de um painel fotovoltaico que se chama biodiversidade e é formado por todos estes seres interrelacionados entre si.

E agricultura tradicional não permite o funcionamento desse regime?
Não porque inventámos uma outra forma de alimentar essa bateria, partindo o painel solar da biodiversidade, através de meios mecânicos e químicos, para a podermos usar de uma forma especulativa, muito contrária aos interesses das novas gerações.
É por isso que a agroecologia é uma ética e não um mero conjunto de técnicas. Mas é também uma abordagem prática, porque implica que aprendamos a viver com o sistema, e quem vive com o sistema é recolector, não é produtor.
Trata-se talvez da expressão mais atual dessa visão sistémica de não arrombar o sistema, mas sim perpetuá-lo, adaptando-o às nossas necessidades, mas sendo o homem, também um elemento ao seu serviço.

Há aqui duas ideias opostas, uma é que a ideia de domínio sobre a natureza, em oposto à agroecologia, é sinónimo de abundância. E depois há esta nova abordagem aos seres vivos e à importância que têm as plantas silvestres e os animais selvagens terão no sistema, de modo a garantir essa mesma abundância a longo prazo.

O mais possível. Na perspectiva antropocentrada o homem é o centro e só ele conta. Há uma ideia muito simples, que é a de imaginarmos que a dado momento chega um ser mais capacitado, com uma atitude perante a humanidade semelhante à que temos com a maioria dos nossos congéneres do reino animal. É um exercício simples e que pouca gente faz.

Acima de tudo é importante perceber a nossa iliteracia ecológica. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a ecologia não é uma mera ideologia de esquerda, mas sim uma ciência, criada precisamente para estudar o sistema que nos criou. E ao não reconhecermos isso ou ao não partilharmos esse conhecimento, assumimos uma posição apenas arrogante. E grande parte destas questões têm precisamente a ver com esse desconhecimento profundo da forma como o nosso sistema de vida e o planeta funcionam.

E como funciona afinal esse sistema?
Todos os ecossistemas são cíclicos, e todos eles vão acabar num estádio que designamos de deserto. O deserto é praticamente só minério, sem vida, porque não há matéria orgânica no solo. Os ecossistemas de deserto evoluem para um outro extremo que é o clímax, mas passando por uma fase intermédia que se chama acumulação. O clímax não significa maior quantidade, porque muitas vezes na fase de acumulação até há maior libertação de recursos, mas é seguramente a fase da eficiência. É importante percebermos que a atitude antropocentrada, ligada à agricultura industrial de monocultura, é a principal responsável pela delapidação destes recursos. E isto são dados científicos comprováveis, pois a parte terrestre do nosso planeta tem mais de 80% em condições de deserto, enquanto há doze mil anos, no Holoceno, tínhamos o quadro inverso, com 80% do planeta em estado de clímax.

Como é o caso do montado, que já referiu como exemplo desse conceito…
O montado é completamente uma agrofloresta, hoje muito querida por todas as pessoas que gostam deste tipo de conceitos, mas é também um símbolo. Foi criado na Idade Média e entretanto foi sendo aperfeiçoado até atingir esta última versão. é o que se chama um modelo de “sucessão dinâmica”, que serve não só para instalar o sistema e viver com o sistema, como também pretende e permite transformar rapidamente desertos em clímax. O sobreiro é um ser de clímax, que precisa de um sistema muito complexo, assim como o humano, para poder viver. E nós não percebemos estes conceitos básicos, assim como também não percebemos que, no Neolítico, entrámos pelo interior de Portugal e matámos tudo aquilo que se chama a megafauna, ou seja todos os animais maiores que nós, sem percebermos que estávamos a suprir uma ferramenta absolutamente essencial dos ecossistemas.

É curioso perceber que os miúdos conhecem os dinossauros todos mas não sabem os nomes dos animais que aqui viviam há quinhentos anos. Sem o sabermos, roubámos instrumentos fundamentais aos ecossistemas. Manipulámos os animais e os outros seres, vegetais, em função das nossas necessidades. Uma vaca, hoje, não é um instrumento num ecossistema, e cada vez que a domesticamos mais, mais lhe retiramos as capacidades de promoverem serviços no ecossistema.

Referiu que dois terços de Portugal são mato, mas que podem ser úteis. O que é possível fazer nessa parte do território?
Antes devemos perguntar-nos porque é que esses dois terços são mato, há quanto tempo o são e o que eram antes. A consequência desta abordagem não sistémica, de assaltar a natureza e de fazer agricultura é o mato, porque o mato é o deserto.

As plantas e os seres que nós vemos no mato são seres pioneiros, que estão a recuperar aquilo que nós estragámos. O drama disto é que em função das condições de clima e de sol cada uma destas etapas pode levar sete a setenta mil anos, e nas nossas condições de Mediterrâneo são mais para setenta do que para sete. Se apenas nos pusermos quietinhos a olhar para o mato à espera que regenere, vai demorar cinquenta mil anos. Não temos tempo para isso.

Aliás, a ideia que o homem só é capaz de destruir, não é capaz de regenerar activamente, não faz sentido. Não há nenhuma razão para que assim seja, por muito que haja algumas correntes de pensamento que gostem e utilizem essa ideia da origem maléfica da nossa espécie. Pelo contrário, somos tão capazes de destruir como de fazer coisas absolutamente maravilhosas. Esses dois terços já foram terras férteis, com florestas e bosques. Porque é que não comemos, por exemplo, plantas e frutos silvestres? A grande razão tem a ver com a agricultura. A agricultura do Neolítico levou à existência de mais humanos no Neolítico final. Mas esse entusiamo levou-nos à razia do ecossistema da Península Ibérica. O que se seguiu foram mais de dois mil anos de caos, de lei do mais forte, que apenas terminou com a chegada dos romanos, que convenceram os povos peninsulares que a comida do mato e do bosque, desse supermercado aberto que não podia ser taxado, não era boa. Fomos convencidos que a única comida boa era a domesticada e nunca mais se comeram bolotas nem produtos silvestres. Ou seja, virámos costas a uma diversidade enorme.

Tendo em conta o modelo económico que temos, como é que podemos encarar o consumo de bolota e de outros frutos silvestres no futuro?
Em primeiro lugar é preciso perceber que ninguém come trigo à dentada, na espiga. O trigo é um alimento extraordinário depois de transformado e processado em farinhas e noutro tipo de alimentos, portanto com a bolota há que se fazer o mesmo, aprender a processá-la e a transformá-la com utilidade prática. A questão da bolota é muito simples: no Mediterrâneo, uma área com carvalhos, por exemplo azinheiras e sobreiros, produz, mesmo com uma densidade baixa de árvores, mais quantidade de alimento do que qualquer cereal e sem gastar energia nas mobilizações de solo, sem provocar erosão, sem adubos, sem barragens e sem tubos. A bolota é tão interessante para a alimentação humana como qualquer cereal.

E a ideia de que se tem estar sempre a limpar, que sentido faz, tendo em conta que se devia aproveitar aquela biomassa?
Numa abordagem de monocultura, a limpeza não é mais do que retirar elementos do sistema para o poder controlar melhor. Normalmente aquilo a que chamamos limpezas são elementos do sistema que vão alimentar o solo. Quando comecei a fazer agricultura nos Açores, os meus colegas começaram a perguntar algo muito interessante, sobre a ração que eu tinha para o solo naquele ano, porque ali a noção que o solo, se não for alimentado – e não é com adubos – vai acabar.

Ou seja, para alimentar o mundo não é preciso recorrer aos transgénicos.
De forma alguma. Para alimentar o mundo é preciso, em primeiro lugar, percebermos o que é que comemos. Essa variável é fundamental. Outra questão é percebermos que somos a única espécie que não atende aos recursos quando pensa em multiplicar-se. Isto vem da tal divinação do ser humano. Se calhar temos de ter a consciência que com o planeta em 20% de clímax e 80% de deserto, se calhar não podemos ser tantos quantos gostaríamos de ser.

A não ser que se reverta...
E que nós caminhemos para a abundância. Mas mesmo assim temos de ter uma bitola para percebermos conscientemente e com métodos libertários, que nenhum ser neste planeta atua como nós. Não há nenhuma espécie que não atenda à forma como se reproduz em relação aos recursos que existem.

Se não houver recursos, vamos sofrer. Sendo que a questão fundamental passa pelo relacionamento entre nós próprios. Como diz o Papa Francisco é uma questão social. Nós nunca vamos reverter esta posição de domínio perante a natureza se não a invertermos entre nós próprios. Não somos iguais a um mosquito, porque temos funções diferentes no ecossistema, mas como São Francisco de Assis tão bem nos mostrou, também não somos nem mais nem menos que um mosquito, pelo que não podemos ter a arrogância de matar milhões de mosquitos apenas porque interessa fazer negócio.

Saber mais:

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

O Papa Francisco e a Ecologia Integral


No documento de trabalho Pacto Educativo Global: Instrumentum Laboris (“O contexto”), o Papa Francisco afirma que há “necessidade de uma educação ecológica integral”, que pense a natureza na sua relação e interdependência com o ser humano e que esta educação faz parte do Pacto Educativo Global.

A crise ecológica atual, que compromete o futuro das gerações e do planeta, resulta da quebra de relação do ser humano com a natureza e é um problema essencialmente antropológico. No Ocidente e, sobretudo a partir da Modernidade, considera-se “a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida”, como sendo exterior ao ser humano e podendo ser usada como recurso ou instrumento, numa lógica extrativa e cumulativa que conduziu ao individualismo e desequilíbrio ambiental:

“Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. […] Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (Génesis 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos” (Laudatio Si § 2) [2].

A ecologia integral “nasce da plena consciência de que ‘tudo está interligado’, ‘tudo está relacionado’”, que o ser humano é parte da natureza. Desta consciencialização decorre um compromisso com as futuras gerações e as pessoas mais pobres - as mais afetadas pela crise ambiental - e com o planeta e uma mudança no estilo de vida. De acordo com esta abordagem, é possível redescobrir “um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre. O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a ação de Deus [ou da transcendência] na alma, mas também chegar a encontra-Lo em todas as coisas (LS§ 233)”.

Laudato Si’/ “Louvado Sejas” é uma encíclica, carta pública, do Papa Francisco dirigida a “todas as pessoas que habitam este planeta” (LS § 3) e resulta da contribuição de números cientistas, filósofos, teólogos e organizações sociais.

Principia com os versos do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis que lembra que devemos respeitar a Terra e louvar e honrar Deus através da sua criação: “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”.

A Encíclica divide-se em seis capítulos, dos quais gostaríamos de destacar o primeiro, “O que está a acontecer à nossa casa”, possível fonte de reflexão e discussão dos jovens, que faz um diagnóstico dos problemas atuais: poluição atmosférica que “produz uma vasta gama de efeitos sobre a saúde, particularmente dos mais pobres, e provocam milhões de mortes prematuras” (LS 20) e poluição produzida pelos resíduos:

“Produzem-se anualmente centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, eletrónicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioativos. A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”.

Estes problemas decorrem de uma “cultura do descarte” e do desperdício, gerada pelo consumismo e atitude de indiferença pelo bem comum. Afeta “tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo. […] Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos recursos não-renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os” (LS § 22).

Reconhece que “O clima é um bem comum” e, neste contexto, lembramos que, a 8 de outubro de 2021, o Conselho de Direitos Humanos da ONU reconheceu (resolução 48/13) que “ter um meio ambiente limpo, saudável e sustentável é um direito humano”.

Por conseguinte, clima e ambiente são da responsabilidade de todos: ”Quem possui uma parte é apenas para administrá-la em benefício de todos “(LS, § 95). Sublinha que “A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento [global] ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam” (LS 23). E destaca que os países em vias de desenvolvimento são os mais afetados (LS 25), apelando a uma ética do cuidado e à cooperação internacional - problemas ambientais têm um âmbito transfronteiriço, global.

Aborda a questão da água: o acesso a água potável e segura, negado a muitas pessoas pobres – “é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas” (LS § 30) - e a da sua qualidade – “Entre os pobres, são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por microrganismos e substâncias químicas” (LS § 29).

Levanta o problema da perda de biodiversidade: florestas - “implica simultaneamente a perda de espécies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes não só para a alimentação, mas também para a cura de doenças e vários serviços” (LS § 32) e milhares de espécies da flora e da fauna, devido à atividade humana (LS § 33) – “Visto que todas as criaturas estão interligadas, deve ser reconhecido com carinho e admiração o valor de cada uma, e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros” (LS § 42).

A abordagem ecológica “deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS § 49) e sugere que os países privilegiados, que mais recursos extraíram e mais CO2 produziram, deem assistência financeira aos mais pobres para que eles possam fazer a transição para práticas sustentáveis (LS § 25).

A ecologia integral assenta em valores como o respeito com a natureza, a finitude/ sobriedade, a solidariedade universal e o futuro da sociedade/ intergeracionalidade. É uma componente da educação integral que ajuda a formar pessoas comprometidas com o cuidado da casa comum e com a justiça ambiental e social.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Francisco de Assis - Filme de Liliana Cavani


São Francisco de Assis, o excêntrico e corajoso rapaz italiano, de família rica, que há mais de 800 anos se pôs literalmente a nu, se despiu das veste nobres e assumiu publicamente uma vida despojada, praticando o amor por todas as criaturas vivas.
Amar a todos é mesmo para corajosos. 
São Francisco é padroeiro dos animais e da Ecologia, o ramo da Biologia que estuda as relações de interdependência entre os seres vivos e a sua relação com o meio em que vivem na "Casa Comum".

domingo, 19 de dezembro de 2021

António Guterres pede acção urgente para reverter destruição da natureza



O secretário-geral da Organização das Nações Unidas recebeu o prémio Lâmpada da Paz de São Francisco, atribuído pela Igreja Católica.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, recebeu o prémio Lâmpada da Paz de São Francisco, atribuído pela Igreja Católica, e apelou a acções urgentes para reverter a destruição da natureza.

Outras formas para atingir a paz, segundo António Guterres, são a justiça económica, investimentos na inclusão social de todos os grupos e a rejeição de “figuras religiosas e políticas que exploram as diferenças”, num contexto em que as sociedades estão a tornar-se “multiétnicas, multireligiosas e multiculturais”.

O antigo primeiro-ministro português, que se reafirmou como católico crente no discurso de aceitação de prémio, de forma virtual durante a cerimónia de entrega do galardão em Assis, Itália, considerou que “o santo padroeiro da ecologia”, São Francisco, “tem muito a ensinar sobre como fazer as pazes com a natureza”.

“Os nossos hábitos insustentáveis de produção e de consumo estão a provocar uma tripla crise planetária: uma disrupção do clima, uma perda catastrófica de biodiversidade e níveis de poluição que matam milhões de pessoas todos os anos”, destacou o secretário-geral.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Francisco de Assis- Filme "Irmão Sol, Irmã Lua" de Franco Zeffirelli


A vida de São Francisco de Assis foi o primeiro filme católico que vi na minha jornada de fé. As cenas de Francisco tirando a roupa e beijando um leproso encheram-me de lágrimas. O Espírito Santo inundou meu coração.



Sobre o filme aqui

terça-feira, 6 de julho de 2021

As Cigarras, por José Tolentino Mendonça


Expresso, 04.07.2020

Em Portugal, que eu saiba, o melhor lugar para ouvir as cigarras é a poesia de Eugénio de Andrade. Ao menos para mim representou o sítio onde verdadeiramente as escutei pela primeira vez. Mas nesta época em qualquer recanto, por onde quer que se vá, elas tornam audível o verão. Basta um jardim, um matagal humilde, um esconso ao aberto, um atalho mesmo que urbano, umas traseiras, um metro quadrado de calor e silêncio. Ou basta simplesmente um ouvido disponível. Coisa que depois, percebemos, não é afinal tão simples.

Já Alberto Caeiro recordava: “Não basta abrir a janela/ Para ver os campos e o rio./ Não é bastante não ser cego/ Para ver as árvores e as flores./ É preciso também não ter filosofia nenhuma./ Com filosofia não há árvores: há ideias apenas./ Há só cada um de nós, como uma cave./ Há só uma janela fechada...” Ideias, caves e janelas fechadas são um arsenal mais comum do que pensamos. E é fácil deslocarmo-nos para um sítio distante do nosso mundo habitual, chegarmos a uma estação diferente e continuar aprisionados às mesmas visões ou dentro do mesmo campo acústico. Para ouvir temos, de facto, de arriscar abrir a janela, praticando uma hospitalidade para com a vida que nos surpreende com novos vozeios, nos obriga a contactar com múltiplas linguagens e a acolher outras formas de conhecimento. O verão, por exemplo, como se conhece? Num dos seus poemas, Eugénio escreve: “Conhecias o verão pelo cheiro,/ o silêncio antiquíssimo/ do muro, o furor das cigarras”. O verão tem cheiros, tem cores, come-se à mesa, espera que o escutemos. Na verdade, o mundo torna-se para nós cada vez mais desconhecido se apenas giramos com a nossa portátil filosofia e deixamos de aplicar à realidade os nossos sentidos, indispensáveis para construir aquilo que significa uma experiência.

O fascínio pelas cigarras tem raízes antigas. Em “Fedro”, de Platão, cabe a Sócrates recuperar o seu mito de origem, explicando que elas, antes de terem sido cigarras, eram homens, com uma existência em tudo igual à nossa. E que isso vigorou até ao nascimento das musas. Depois aconteceu que o obsidiante canto das musas provocou neles tal transtorno que aqueles homens não voltaram a comer ou a beber, acabando por se transformar naquilo que escutavam. Nem o estômago vazio nem a secura da garganta interromperam mais neles a dedicação à arte de cantar.

É verdade que a fábula da cigarra e da formiga arrasa com o prestígio das cigarras. Enquanto a primeira canta despreocupada, a incansável formiga acumula provisões. Quando avança o inverno, a cigarra desprovida bate à porta da formiga a mendigar um pouco de grão, mas nada obtém. Pobre cigarra que tem então de compreender, através da penúria, o preço de viver só a cantar. A fábula narra obviamente o triunfo de uma visão utilitarista do mundo, que rapidamente se disseminou por todas as dimensões da vida. O século XVII de La Fontaine afastou-se (e afastou-nos) daquela sabedoria que o medieval Francisco de Assis recomendava aos seus frades. Francisco pedia que reservassem na horta um espaço livre, não cultivado, para que pudessem brotar flores, e, desse modo, o zelo pelo útil não excluísse o perfume que lhe acrescenta o inútil. São Francisco de Assis não podia, por isso, criticar as cigarras. Pelo contrário dizia-lhes: “Vem cá, minha irmã cigarra... canta minha irmã cigarra o Deus que te criou.” A tradição monástica vai pegar nesta imagem e os monges serão chamados cigarras, pois a sua vida contemplativa não procura outra função que o louvor. Ensinam-nos tanto as cigarras. Boa escuta.

sábado, 6 de março de 2021

É possível a fraternidade humana universal e com todas as criaturas? Parte 2




Por Leonardo Boff, 20/01/2021

Há um ano, em fevereiro de 2019 o Papa Francisco, ao visitar os Emirados Árabes assinou em Abu Dahbi importante documento com o Grão Imã Al Azhar Amad Al-Tayyeb “Sobre a fraternidade humana em prol da paz e da convivêncis comum”. Em sequência a ONU estabeleceu o dia 4 de fevereiro o Dia da Fraternidade Humana.

Todos são esforços generosos que visam senão a eliminar, pelos menos a minimizar as profundas divisões que imperam na humanidade. Almejar uma fraternidade universal parece um sonho distante mas sempre desejado.

O grande obstáculo à fraternidade: a vontade de poder
O eixo estruturador das sociedades mundiais e de nosso tipo de civilização, já o refletimos anteriormente é a vontade de poder como dominação.

Não há declarações sobre a unidade da espécie humana e da fraternidade universal bem como a mais conhecida Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, enriquecida com os direitos da natureza e da Terra que conseguem impor limites à voracidade do poder

Bem o entendeu Thomas Hobbes em seu Levitã (1615):” Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”. Jesus foi vítima desse poder e foi judicialmente assassinado na cruz. Nossa cultura moderna se assenhoriou da morte, pois com a máquina de extermínio total já criada, pode eliminar a vida sobre a Terra e a si mesmo. Como controlar o demônio do poder que nos habita? Onde encontrar o remédio?

A renúncia a todo o poder pela radical humildade
Aqui São Francisco nos abriu um caminho: a radical humildade e a pura simplicidade. A radical humildade implica pôr-se junto ao húmus, à terra, onde todos se encontram e se fazem irmãos e irmãs porque todos vieram do mesmo húmus. O caminho para isso consiste em descer do pedestal onde nos colocamos como senhores e donos da natureza e operar um radical despojamento de qualquer título de superioridade. Consiste em fazer-se realmente pobre, no sentido de tirar tudo o que se interpõe entre o eu e o outro. Ai se escondem os interesses. Estes não podem prevalecer, pois são entraves para o encontro com o outro, olho a olho, rosto a rosto, de mãos vazias para o abraço fraterno entre irmãos e irmãs, por diferentes que sejam.

A pobreza não representa nenhum ascetismo. É o modo que nos faz descobrir a fraternidade, juntos sobre o mesmo húmus, sobre a irmã e mãe Terra Quanto mais pobre mais irmão do Sol, da Lua, do do pobre, do animal, da água, da nuvem e das estrelas.

Francisco palmilhou humildemente esta senda. Não negou as obscuras origens de nossa existência, do húmus (de onde vem homo em latim) e desta forma se confraternizou com todos os seres, chamando-os com o doce nome de irmãos e irmãs, até o feroz lobo de Gubbio.

Um outro tipo de presença no mundo
Temos a ver com uma nova presença no mundo e na sociedade, não como quem se imagina coroa da criação estando em cima de todos, mas como quem está ao pé e junto com os demais seres. Por esta fraternidade universal, o mais humilde encontra sua dignidade e sua alegria de ser por sentir-se acolhido e respeitado e por ter seu lugar garantido no conjunto dos seres.

Leclerc obstinadamente coloca sempre de novo a pergunta como quem não está totalmente convencido: "Será que a fraternidade é possível entre os seres humanos? Ele mesmo responde:
”Somente se o ser humano se colocar a si mesmo com grande humildade, entre as criaturas, dentro de uma unidade de criação (que inclui o ser humano e a natureza como um todo) e respeitando todas as formas de vida, inclusive as mais humildes, ele poderá esperar um dia formar uma verdadeira fraternidade com todos os seus semelhantes. A fraternidade humana passa por esta fraternidade cósmica”(p.93).
A fraternidade vem acompanhada pela simplicidade Esta não é nenhuma atitude piegas ou carola. Trata-se de um modo de ser, afastando tudo o que é supérfluo, todo tipo de coisas que vamos acumulando, fazendo-nos reféns delas, criando desigualdades e barreiras contra os outros e negando-se a conviver solidariamente com eles e a contentar-se com o suficiente, compartilhando-o com os outros.

Esse percurso não foi fácil para Francisco. Sentia-se responsável pelo caminho da radical pobreza e fraternidade. Ao crescer o número de seguidores, aos milhares, impunha-se uma organização mínima. Havia belos exemplos do passado. Francisco tinha verdadeira ojeriza a isso. Chega a dizer: "não me falem das regras de Santo Agostinho, de São Bento ou de São Bernardo; Deus quis que eu fosse um novo louco nesse mundo (novellus pazzus)”. É a clara afirmação da singularidade de seu modo de vida e de seu estar no mundo e na Igreja, como um simples leigo, que toma absolutamente a sério o evangelho, no meio e junto dos pobres e invisíveis e não como um clérigo da poderosa Igreja feudal.

A grande tentação de São Francisco
Entretanto, num dado momento de sua vida, entra numa profunda crise, pois via que seu caminho evangélico de radical pobreza e fraternidade estava sendo-lhe arrebatado. Amargurado, se retira numa ermida e no bosque, por dois longos anos, acompanhado pelo seu íntimo amigo Frei Leão “a ovelhinha de Deus”. É a grande tentação que as biografias pouco relevância lhe conferem, mas essencial para se entender a proposta de vida de Francisco.

Por fim, despoja-se deste instinto de posse espiritual. Aceita um caminho que não é o seu mas que era inevitável. Onde dormiriam os frades? Como se sustentariam? Prefere salvar a fraternidade que seu ideal próprio. Acolhe jovialmente a férrea lógica da necessidade. Já não pretende mais nada. Despojou-se totalmente até de seus desejos mais íntimos a ponto que seu biógrafo São Boaventura o chamar de vir desideriorum (homem de desejos).

Agora, totalmente despojado em seu espírito, deixa-se conduzir por Deus. O Espírito será o senhor de seu destino. Ele mesmo não se propõe mais nada. Está à mercê daquilo que a vida lhe pedir, vendo-a como vontade de Deus. Sente nisso a maior liberdade de espírito possível que se expressa por uma alegria permanente a ponto de o chamarem “o irmão sempre alegre”. Ele não ocupa mais o centro. O centro é a vida conduzida por Deus. E isso basta.

Volta ao meio dos confrades e recupera a jovialidade e a plena alegria de viver. Mas seguindo o chamado do Espírito, como nos inícios, volta a conviver com os leprosos, que chama de “meus cristos” em profunda comunhão fraterna. Jamais abandona a profunda comunhão com a irmã e Mãe Terra. Ao morrer, pede que o coloquem nu sobre a Terra para a ultima carícia e a total comunhão com ela.

A unidade da criação: todos irmãos e irmãs, os humanos e a natureza
Francisco buscou incansavelmente a unidade da criação mediante a fraternidade universal, unidade que inclui seres humanos e seres da natureza. Tudo começa com a fraternidade com todas as criaturas, amando-as e respeitando-as. Se não cultivarmos esta fraternidade com elas, vã será a fraternidade humana que passa a ser meramente retórica e continuamente violada.

Curiosamente, o renomado antropólogo Claude Lévy Strauss que muitos anos lecionou e pesquisou no Brasil e aprendeu a amá-lo (veja seu livro “Saudade do Brasil”) confrontado com a crise aterradora de nossa cultura sugere o mesmo remédio de São Francisco:” o ponto de partida deve ser uma humildade principal: respeitar todas as formas de vida…preocupar-se do homem sem preocupar-se com as outras formas de vida é, quer queiramos ou não, levar a humanidade a oprimir-se a si mesma, abrir-lhe o caminho da auto-opressão e da auto-exploração”(Le Monde 21-22 de janeiro de 1999). Face às ameaças planetárias também afirmou: "A Terra surgiu sem o ser humano e poderá continuar sem o ser humano”.

Voltemos ao nosso momento histórico: o confinamento social nos criou as condições involuntárias para colocarmos esta questão fundamental: O que é essencial: a vida ou o lucro? O cuidado da natureza ou sua ilimitada exploração? Finalmente que Terra queremos? Que Casa Comum desejamos habitar? Somente nós seres humanos ou junto com todos os demais irmãos e irmãs da grande comunidade de vida, realizando a unidade da criação? 

O Papa durante a pandemia tomou-se o tempo para refletir sobre esta momentosa questão. Expressou-a em termos graves, quase desesperadores na Fratelli tutti embora, como homem de fé, mantivesse e reafirmasse sempre a esperança.

O sobrevivente do campo de extermínio nazista, Eloi Leclerc, a recolocou de forma existencial e permanentemente angustiada mas com acenos de esperança, dentro de frequentes sobressaltos causados pela memória inapagável dos horrores sofridos nos campos de extermínio nazista.

Se não pode ser um estado, a fraternidade pode ser um novo tipo de presença no mundo
Francisco viveu em termos pessoais a fraternidade universal. Mas em termos globais fracassou. Teve que compor-se com a ordem e com o poder. E o fez sem amargura, reconhecendo e acolhendo sua inevitabilidade. É a tensão permanente entre o carisma e o poder. O poder é um componente da essência do ser humano social. O poder, não é uma coisa (o estado, o presidente, a polícia) mas uma relação entre pessoas e coisas. Ao mesmo tempo assume a forma de uma instância de direção social. Contudo, devemos qualificar a relação e a direção. Ambos estão a serviço do bem de todos ou a de grupos que então se revela como como exclusão e dominação? Para evitar esse modo (o demônio que o habita), prevalente na modernidade, deve ser sempre colocado sob controle, ser pensado e vivido a partir do carisma. Este representa um limite ao poder para garantir seu caráter de serviço à vida e ao bem de todos e evitar a tentação da dominação e até do despotismo. O carisma é sempre criativo e coloca em xeque o poder instituído.

Respondendo à questão se é possível uma fraternidade universal, diria: dentro do mundo em que vivemos sob o império do poder-dominação sobre pessoas, nações e sobre a natureza, ele vem sempre inviabilizado e até negado. Por aquí no hay camino.

No entanto, se ele não pode ser vivido como um estado permanente, ele pode se realizar como como um espírito, como uma nova presença e como um modo ser que tenta impregnar todas as relações mesmo dentro da atual ordem que é uma desordem. Mas isso somente é possível à condição de cada pessoa ser humilde, de colocar-se junto ao outro e ao pé da natureza, superar as desigualdades e ver em cada um, um irmão e uma irmã, colocados sobre o mesmo húmus terrenal onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos.

O Tempo de São Francisco e o nosso tempo
Francisco de Assis, no quadro conturbado de seu tempo, no tramontar do feudalismo e no alvorecer das comunas, mostrou a possibilidade real de, ao menos a nível pessoal, criar uma fraternidade sem limites. Mas seu impulso o levava para mais longe: criar uma fraternidade global ao unir os dois mundos de então: o mundo muçulmano do sultão egípcio Al Malik al-Kâmil com quem nutriu grande amizade com o mundo cristão sob o pontificado do Papa Inocêncio III, o mais poderoso da história da Igreja. Desta forma realizaria seu sonho maior: uma fraternidade realmente universal, na unidade da criação, confraternizando o ser humano com outros seres humanos, mesmo de religiões distintas mas unidos com todos os demais seres da criação.

Esse espírito, no contexto das forças destrutivas do antropoceno e do necroceno reinantes, se confronta com uma situação, totalmente diversa daquela vivida por Francisco de Assis. Nela não se questionava se a Terra e a natureza tinham futuro ou não. Pressupunha-se que tudo estava garantido. O mesmo ocorreu na grande crise económico-financeira de 1929 e mesmo na de 2008. Ninguém colocava em questão os limites da Terra e de seus bens e serviços não renováveis. Era um pressuposto dado como evidente pois, para todos, ela comparecia qual baú cheio de recursos ilimitado, base para um crescimento também ilimitado. Na Laudato Si o Papa chama este conceção de mentira.

Hoje não é mais assim. Tudo se desvaneceu, pois sabemos que nos podemos destruir e abalar as bases físicas, químicas e ecológicas que sustentam a vida.

O espírito de fraternidade como exigência para a continuidade de nossa vida no planeta
Não estamos face a uma opção, que podemos assumir ou não. Mas face à uma exigência da continuidade de nossa vida nesse planeta. Encontramo-nos numa situação ameaçadora para a nossa espécie e a nossa civilização.

O Covid-19 que afetou a inteira humanidade cabe ser interpretado como um sinal da Mãe Terra de que não podemos continuar com a dominação e devastação de tudo o que existe e vive. Ou fazemos, como adverte o Papa Francisco de Roma à luz do espírito e do um novo de ser no mundo de Francisco de Assis, “uma radical conversão ecológica”(N.5) ou pomos em risco o nosso futuro como espécie:" As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Nosso estilo de vida e o nosso consumismo insustentáveis só podem desembocar em catástrofes”(Laudat Si n.161). Na Frateli tutti é mais contundente: ”Estamos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos”(n.32). Trata-se de uma derradeira cartada para a humanidade.

O surgimento das condições para uma fraternidade universal
Mas eis que surge uma nova alternativa possível, pois a história não é retilínea. Ela conhece rupturas e saltos. Assim estaríamos face a um salto no estado de consciência da humanidade. Pode chegar a um momento em que ela se torna plenamente consciente de que pode se auto-destuir seja por uma fenomenal crise ecológica, social e sanitária (atacada por vírus letais) seja por uma guerra nuclear. Entenderá que é preferível viver fraternalmente na mesma Casa Comum do que entregar-se a um suicídio coletivo. Será obrigada a convencer-se de que a solução mais sensata e sábia consiste em cuidar da única Casa Comum, a Terra, vivendo dentro dela, todos, como irmãos e irmãs, a natureza incluída. Seguramente a humanidade não está condenada a se autodestruir, nem pela vontade de poder-dominação nem pelo aparato bélico, capaz de eliminar toda vida. Ela é chamada a desenvolver as incontáveis potencialidades que estão nela, como um momento avançado da cosmogênese.

Será, então, um dado da consciência coletiva aquilo que as encíclica Laudato Si e Fratelli tutti repetem de ponta a ponta: todos estamos relacionados uns com os outros, todos somos interdependentes e só sobreviveremos juntos. Tudo será relacional, também as empresas, gerando um equilíbrio geral assentado sobre o amor social, o sentido de pertença fraterna, o altruísmo, a solidariedade e o cuidado comum de todas as coisas comuns (água, alimentação, moradia, segurança, liberdade e cultura etc).

Todos se sentirão cidadãos do mundo e membros ativos de suas comunidades. Haverá um governo planetário plural (de homens e mulheres, representantes de todos os países e culturas) que buscará soluções globais para problemas globais. Vigorará uma hiperdemocracia terrenal. A grande missão coletiva é construir a Terra, como já no deserto de Gobi, na China, nos idos de 1933, anunciava Pierre Teilhard de Chardin. Assistiremos ao surgimento lento e sustentável da noosfera vale dizer, das mentes e corações sintonizados dentro do único planeta Terra. Este é o nosso ato de fé.

Agora serão dadas as condições do sonho de Francisco de Assis e de Francisco de Roma: uma real fraternidade humana, de um verdadeiro amor social junto com os demais irmãos e irmãs da natureza.

Cabe a nós como pessoas e como coletividade pensar e repensar com a maior seriedade, colocar e recolocar esta questão: Dentro da situação mudada de Terra e da humanidade e das ameaças que pesam sobre elas não representa puro sonho e utopia inviável buscar um espírito da fraternidade universal entre os humanos e com todos os seres da natureza e realizá-lo coletivamente. Esta será a grande saída que nos poderá salvar. O Papa Francisco crê e espera que este é o caminho. Pode ser tortuoso, conhecer obstáculos e fazer desvios, mas segue pelo rumo certo.

Somos urgidos a responder, pois o tempo do relógio corre contra nós. Ou acolhemos a proposta da figura mais inspiradora do Ocidente, o humilde Francisco de Assis, como o chama Tomás Kempis, autor da Imitação de Cristo e retomada na Fratelli tutti pelo Francisco de Roma e repensada por Leclerc e Lévy Strauss ou poderemos trilhar um caminho já percorrido pelos dinossauros há 67 milhões de anos. Mas cremos não ser este o destino da humanidade.

Só nos resta palmilhar este caminho da fraternidade universal e do amor social porque então poderemos continuar, sob a luz benfazeja do sol, sobre esse pequeno planeta, azul e branco, a Terra, nosso querido lar e Casa Comum. Dixi et salvavi aninam meam.

*Leonardo Boff é ecoteólogo brasileiro e escreveu: ”O covid-19: um contra-ataque da Terra contra a humanidade”(Petrópolis-Rio, 2020/21).

É possível a fraternidade humana universal e com todas as criaturas? Parte 1



Por Leonardo Boff, 15/01/2021

Na encíclica social Fratelli tuttiI (2020) o Papa Francisco apresenta seu “sonho” de uma nova humanidade fundada na fraternidade universal e no amor social (n.6), inspirado na figura e no exemplo de São Francisco de Assis, o irmão universal.

Esse tema da fraternidade universal foi a insistente preocupação de um dos melhores conhecedores do espírito de Assis: Elói Leclerc em várias de suas obras ,especialmente, na Sabedoria de um Pobre (Paris 1959,Braga 1968) e no O Sol nasce em Assis (Pars 1999, Vozes 2000). Ele não fala teoricamente mas a partir de um aterradora experiência pessoal. Jovem frade francês, mesmo não sendo judeu, foi levado para a Alemanha e mergulhou no inferno dos campos de extermínio nazista de Buchenwald e de Dachau. Conheceu a banalidade do mal, as matanças feitas pela SS pelo simples gosto de matar, as torturas e as humilhações que marcaram sua alma como ferro em brasa.

Abalado na fé no ser humano e duvidando de todo o ideal de uma fraternidade humana, buscava desesperadamente um raio de luz que não lhe vinha de nenhum lugar, Mesmo depois de sua libertação pelos aliados em 1945 começou a ter medo de todo o ser humano. Confessa: "de noite, acordava sobressaltado, o suor escorrendo e a alma tomada de pavor; aquelas imagens de horror sempre voltavam e me perseguiam; eu não podia apagá-las”(p.33). E continua: "Que o Senhor me perdoe, se às vezes de noite, esse homem velho que me tornei, levante os olhos inquietos ao céu, à busca de um pouco de luz”(p.31).

Carregava dentro de si os carrascos nazistas que o perseguiam e lhe suscitavam questões terrificantes sobre o destino humano e sua capacidade de destruir vidas indefesas. Esse mesmo trauma, mais que psicológico, pois invade e destrói todo ser humano por dentro e por fora, foi vivenciado pelo dominicano brasileiro Frei Tito Alencar, barbaramente torturado pelo delegado Fleury. Internalizou sua imagem perversa de tal forma que se sentia sempre perseguido por ele até que, não aguentando mais, deu fim à sua vida, preferindo morrer do que viver uma permanente tortura. Essa experiência terrível foi vivenciada também por Frei Eloi Leclerc, que longa e sofridamente refletida, nos entregou uma trêmula luzinha apontando a possibilidade de uma fraternidade universal, inspirada no pobre de Assis.

Foi o encontro com essa figura e com seu exemplo que lhe fez nascer de novo o sol em sua alma obnubilada e conseguiu resgatar o sentido secreto de todo o sofrimento. Narra um fato misterioso que ocorreu no trem descoberto e carregado de prisioneiros que por 28 dias de Buchenwald viajava de um lugar ao outro ate parar em Dachau nos arredores de Munique. Eram três confrades, um deles agonizante. No meio do inferno, irrompeu algo do céu. Sem saber por quê, movidos por uma força superior, começaram a cantar com vozes quase inaudíveis o Cântico das Criaturas de São Francisco. As densas trevas não puderam impedir a luz do senhor e irmão Sol e a generosidade da mãe e senhora Terra. No Cântico se celebra o encontro da ecologia interior com a ecologia exterior e o esponsal do Céu com a Terra, do qual nascem todas as coisas. A pergunta que sempre lhe atravessava a garganta: será que a fraternidade entre os humanos e com os demais seres da criação é possível? Essa experiência entre agonia e deslumbramento, não poderia conter uma eventual resposta esperançadora? Abriu-se pelo menos um trêmulo clarão. Tal choque existencial o motivou a estudar e a aprofundar qual seria a singularidade desta figura absolutamente excepcional dentro do conjunto das agiografias.

Leclerc descreve, então, o processo de construção da fraternidade universal na trajetória de Francisco de Assis. Filho de um rico comerciante de tecidos, considerado o rei da jeneuse dorée da cidade que vivia em farras e algazarras, de repente começou a dar-se conta da futilidade daquela vida. Passava horas na capelinha de São Damião, contemplando o rosto doce e terno de um crucifixo bizantino. Algo semelhante fazia Dostoievsky que uma vez ao ano viajava até Dresden na Alemaha para na igreja contemplar, por horas, a beleza de um quadro de Maria extraordinariamente deslumbrante. Precisava desta contemplação para apaziguar sua alma atormentada. No romance Os Irmãos Karamasov deixou esta instigante frase: "é a beleza que salvará o mundo”.

Assim foi a doçura e o olhar misericordioso do Cristo bizantino, à semelhança com Dostoievsky, que conquistou aquele jovem em profunda crise existencial e lhe mudou o destino da vida. Convenceram-no a fé no Criador que criou uma fraternidade fundamental, fazendo que todos os seres, pequenos e grandes, também os humanos e o próprio Jesus de Nazaré, fossem todos tirados do pó, do húmus da Terra. Todos têm a mesma origem, formam uma fraternidade terrenal.

São Paulo aos Efésios lembrava aos seguidores: "Tende os mesmos sentimentos que Cristo teve. Sendo Deus, não fez caso de sua condição divina; fez-se um nada e assumiu a condição de servo por solidariedade com os seres humanos; apresentou-se como simples homem; humilhou-se- obedientemente até à morte e à morte de cruz”(o mais humilhante dos castigos impostos aos subversivos: Flp 2,5-8).

À luz destas matutações, Francisco esqueceu sua situação de filho de um rico mercador, descobriu a origem comum de todos os seres, do pó da Terra, de seu húmus e contemplou também a humildade de Cristo retratada no rosto sereno e doce do crucifixo bizantino. Como era prático e resoluto em tudo o que se propunha, tirou logo uma conclusão: vou solidariamente unir-me àqueles que mais próximos estão do Crucificado: os leprosos e com eles, vou viver aquilo que nos faz pela criação irmãos e irmãs e criar uma uma radical fraternidade com eles. Confessa em seu testamento: “aquilo que antes me parecia amargura agora emergia como doçura”. Conhecemos o resto da saga do Sol de Assis como o chama Dante na Divina Comédia.

Entretanto, Eloi Leclerc não se contentou com a experiência iluminadora do Cântico das Criaturas. A angustiante pergunta não lhe dava sossego: qual é o grande obstáculo que impede a fraternidade humana e com todas as criaturas e que cria espaço para os massacres e a eliminação sumária de pessoas, tidas inferiores ou sub-humanas como ocorreu nos campos de extermínio? Chegou à conclusão: é a vontade de poder.

Como C.G.Jung já havia percebido, a vontade de poder constitui o mais perigoso arquétipo do ser humano, pois lhe dá a ilusão de ser como Deus, dispondo como quiser da vida e da morte dos outros. E arrematava: "onde predomina o poder aí não há mais ternura nem amor”. Quando se torna absoluto, o poder se mostra assassino e elimina a todos os que fazem ouvir outra voz (p.30). Ora, nossas sociedades históricas (à exceção dos povos originários) se estruturam ao redor da vontade de poder e de dominar tudo o que se apresente: o outro, os povos, a natureza e a própria vida. Ela introduz a grande divisão entre aqueles que têm poder e aqueles que não têm poder.

Enquanto prevalecer o poder como eixo estruturador de tudo jamais haverá fraternidade entre os humanos e com a criação. Como este arquétipo é humano, ele está latente dentro de cada um de nós. Em nós se esconde um Hitler, um Stalin, um Pinochet e um Bolsonaro. O próprio Lclerc confessa: "Senti despertar em mim mesmo, a besta com sua sede de vingança”(p.32). Temos que colocar sob severo controle essa figura funesta que mora em nós, se quisermos manter a nossa humanidade. Se nos entregamos à sedução do poder, quebramos todos os laços e a indiferença, o ódio e a barbárie podem ocupar todo o espaço da consciência, como está ocorrendo em vários países no mundo, especialmente entre nós no Brasil. Emergem então as figuras sinistras e até necrófilas referidas.

Quem diria que num país da velha cristandade que nos deu tantos gênios como Mozart e Bethoven, Goethe, Freud, Einstein, Marx, Heidegger, Brecht e outros tantos pudessem ter liberado o inimus homo latente dentro deles?

Esse fato dramatiza ainda mais a questão ousadamente proposta pelo Papa Francisco na Fratelli tutti: uma fraternidade universal e um amor sem fronteiras. Talvez porque desta vez, como tem repetido várias vezes: "Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Pode ser que nos é oferecida pela própria Terra, quem sabe, pelo próprio universo, uma derradeira chance: ou mudamos ou a Terra seguirá girando ao redor do sol, mas sem nós. ( continua)


Leonardo Boff é ecotólogo e filósofo e escreveu: O Covid-19: um contra-ataque da Mãe Terra contra a humanidade, Vozes 2.ed,2020/21.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Cuidar da Mãe Terra e amar todos os seres, por Leonardo Boff


O amor é a força maior existente no universo, nos seres vivos e nos humanos. Porque o amor é uma força de atração, de união e de transformação. Já o antigo mito grego o formulava com elegância: “Eros, o deus do amor, ergueu-se para criar a Terra. Antes, tudo era silêncio, desprovido e imóvel. Agora tudo é vida, alegria, movimento”. O amor é a expressão mais alta da vida que sempre irradia e pede cuidado, porque sem cuidado ela definha, adoece e morre.
Humberto Maturana, chileno, um dos expoentes maiores da biologia contemporânea, mostrou em seus estudos sobre a autopoiesis, vale dizer, sobre a auto-organização da matéria da qual resulta a vida, como o amor surge de dentro do processo evolucionário. Na natureza, afirma Maturana, se verificam dois tipos de conexões (ele chama de acoplamentos) dos seres com o meio e entre si: uma necessária, ligado à própria subsistência e outro espontânea, vinculado a relações gratuitas, por afinidades eletivas e por puro prazer, no fluir do próprio viver.
Quando esta última ocorre, mesmo em estágios primitivos da evolução há biliões de anos, ai surge a primeira manifestação do amor como fenômeno cósmico e biológico. Na medida em que o universo se inflaciona e se complexifica, essa conexão espontânea e amorosa tende a incrementar-se. No nível humano, ganha força e se torna o móvel principal das ações humanas.
O amor se orienta sempre pelo outro. Significa uma aventura abraâmica, a de deixar a sua própria realidade e ir ao encontro do diferente e estabelecer uma relação de aliança, de amizade e de amor com ele.
O limite mais desastroso do paradigma ocidental tem a ver com o outro, pois o vê antes como obstáculo do que oportunidade de encontro. A estratégia foi e é esta: ou incorporá-lo, ou submete-lo ou eliminá-lo como fez com as culturas da África e da América Latina. Isso se aplica também para com a natureza. A relação não é de mútua pertença e de inclusão mas de exploração e de submetimento. Negando o outro, perde-se a chance da aliança, do diálogo e do mútuo aprendizado. Na cultura ocidental triunfou o paradigma da identidade com exclusão da diferença. Isso gerou arrogância e muita violência.
O outro goza de um privilégio: permite surgir o ethos que ama. Foi vivido pelo Jesus histórico e pelo paleocristianismo antes de se constituir em instituição com doutrinas e ritos. A ética cristã foi mais influenciada pelos mestres gregos do que pelo sermão da montanha e prática de Jesus. O paleocristianismo, ao contrário, dá absoluta centralidade ao amor ao outro que para Jesus, é idêntico ao amor a Deus. O amor é tão central que quem tem o amor tem tudo. Ele testemunha esta sagrada convicção de que Deus é amor(1 Jo 4,8), o amor vem de Deus (1 Jo 4,7) e o amor não morrerá jamais (1Cor 13,8). E esse amor incondicional e universal inclui também o inimigo (Lc 6,35). O ethos que ama se expressa na lei áurea, presente em todas as tradições da humanidade: “ame o próximo como a ti mesmo”; “não faça ao outro o que não queres que te façam a ti”. O Papa Francisco resgatou o Jesus histórico: para ele é mais importante o amor e a misericórdia do que a doutrina e a disciplina.
Para o cristianismo, Deus mesmo se fez outro pela encarnação. Sem passar pelo outro, sem o outro mais outro que é o faminto, o pobre, o peregrino e o nu, não se pode encontrar Deus nem alcançar a plenitude da vida (Mt 25,31-46). Essa saída de si para o outro a fim de amá-lo nele mesmo, amá-lo sem retorno, de forma incondicional, funda o ethos o mais inclusivo possível, o mais humanizador que se possa imaginar. Esse amor é um movimento só, vai ao outro, a todas as coisas e a Deus.
No Ocidente foi Francisco de Assis quem melhor expressou essa ética amorosa e cordial. Ele unia as duas ecologias, a interior, integrando suas emoções e os desejos, e a exterior, se irmanando com todos os seres. Comenta Eloi Leclerc, um dos melhores pensadores franciscanos de nosso tempo, sobrevivente dos campos de extermínio nazista de Buchenwald:
”Em vez de enrijercer-se e fechar-se num soberbo isolamento, Francisco deixou-se despojar de tudo, fez-se pequenino, colocou-se, com grande humildade, no meio das criaturas. Próximo e irmão das mais humildes dentre elas. Confraternizou-se com a própria Terra, como seu húmus original, com suas raízes obscuras. E eis que a “nossa irmã e Mãe-Terra” abriu diante de seus olhos maravilhados um caminho de uma irmandade sem limites, sem fronteiras. Uma irmandade que abrangia toda a criação. O humilde Francisco tornou-se o irmão do Sol, das estrelas, do vento, das nuvens, da água, do fogo e de tudo o que vive e até da morte”.
Esse é o resultado de um amor essencial que abraça todos os seres, vivos e inertes, com carinho, enternecimento e amor. O ethos que ama funda um novo sentido de viver. Amar o outro, seja o ser humano, seja cada representante da comunidade de vida, é dar-lhe razão de existir. Não há razão para existir. O existir é pura gratuidade. Amar o outro é querer que ele exista porque o amor torna o outro importante. "Amar uma pessoa é dizer-lhe: tu não poderás morrer jamais” (G.Marcel); “tu deves existir, tu não podes ir embora”.
Quando alguém ou alguma coisa se fazem importantes para o outro, nasce um valor que mobiliza todas as energias vitais. É por isso que quando alguém ama, rejuvenesce e tem a sensação de começar a vida de novo. O amor é fonte de suprema alegria.
Somente esse ethos que ama está à altura dos desafios face à Mãe Terra devastada e ameaçada em seu futuro. Esse amor nos poderá salvar a todos, porque abraça-os e faz dos distantes, próximos e dos próximos, irmãos e irmãs.
30/03/2014

Por Leonardo Boff é autor de O cuidado necessáro, Vozes 2013.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Música do BioTerra: Annie Lennox - Dido’s Lament



Annie Lennox e London City Voices executam uma versão coral de 'Dido's Lament' de Henry Purcell, retirada da edição do 10º aniversário de 'A Christmas Cornucopia'.

Donativos para a  Greenpeace
Com o agradecimento especial ao  London City Voices, um coro comunitário sem audição com sede em Londres

“Foi uma honra e um privilégio poder criar este evento único em colaboração com o London City Voices Choir durante este período sem precedentes da pandemia de Covid-19 de 2020. Estou profundamente tocada e grata ao meu amigo e co-produtor Mike Stevens e ao maestro Richard Swan por tornar isso possível. Além disso, a cada membro do coral que participou de suas casas por meio do 'Zoom'. Como apoiadora de longa data do Greenpeace, estou profundamente preocupada com a crise climática global, que sinto é o desafio mais urgente que todos temos pela frente, principalmente no que diz respeito à sustentabilidade para as gerações futuras. Espero muito poder contribuir, chamando a atenção para esta questão vital. Além disso, sinto uma enorme empatia e preocupação por todos que perderam um amigo querido ou membro da família este ano e espero que esta gravação possa oferecer um momento de luto coletivo partilhado por aqueles cujas vidas foram ceifadas." -Annie Lennox
Escute a 10ª edição do álbum ‘A Christmas Cornucopia’ 

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