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sábado, 19 de setembro de 2026
A praga dos amontoados de pedras na Torre: tradição das mariolas ou destruição do Parque Natural?
Recentemente o Pedro Sarda viajou com os seus filhos até à “Torre”, o ponto mais alto de Portugal Continental. Já não ia à Torre há bastante tempo. Partilho a sua indignação.
"No essencial não tinha mudado assim tanto desde a minha última visita ao mesmo local.
No entanto desta vez fui confrontado com um espectáculo verdadeiramente decadente. Ao que parece virou moda amontoar pedrinhas em montes simulando as chamadas “mariolas”.
As mariolas originais têm um contexto, uma história e sobretudo uma finalidade.
As chamadas mariolas eram (talvez cada vez menos) “marcas” deixadas na paisagem, habitualmente por pastores, com a finalidade de marcar o caminho.
Esses pequenos amontoados de pedras eram colocados em locais estratégicos para que quem fosse a caminhar pudesse ter noção da direcção certa a seguir, em particular em períodos de fraca visibilidade.
A “modinha” de começar a amontoar pedras só porque alguém se lembrou que é giro, ou só porque “sim”, não só não tem qualquer finalidade como tem até diversos impactos negativos.
Desde logo, o mais evidente, para quem tiver o mínimo de sensibilidade, é o paisagístico. O cenário era em pouco ou nada diferente de uma autêntico cemitério. Aqueles amontoados de calhaus pareciam verdadeiramente sepulturas. O que, pode-se afirmar, até faz um pouco sentido já que ali parecia “jazer” o que outrora era uma paisagem relativamente natural.
Por isso a meu ver a designação mais adequada não é de “mariolas” mas neste caso de “merdiolas”. Suponho que se nota o tom demasiado “irritado” nas minhas palavras o que se deve justamente a estar... profundamente irritado.
Nas proximidades da entrada para uma das galerias de lojas com Produtos Regionais encontrei um autocolante bastante discreto onde se apelava ao bom senso dos visitantes (apelar ao bom senso em Portugal?) justamente no sentido de não adoptarem essa prática. As razões (impactos negativos da remoção das pedras do solo) transcritas no “aviso” eram:
- Deixa o solo exposto a ventos fortes, evaporação e erosão
- Desprotege a vegetação do vento e do solo
- Modifica o habitate da fauna endémica
- Altera o equilíbrio ecológico de habitats e paisagens protegidas (convém não esquecer que estamos neste caso a falar de um Parque Natural)
- Deixa uma profunda marca humana na paisagem natural
- O equilíbrio precário dos amontoados torna-os perigosos para animais ou crianças que deles se aproximem.
- As “mariolas” (pequenos amontoados de pedras) têm, em ambiente de montanha, a função tradicional de marcar a direcção correcta em caminhos pedestres. Reproduzi-las aleatoriamente inutiliza a função essencial das originais.
Como mencionei o autocolante era efectivamente bastante discreto. Ainda assim, creio que mesmo com um autocolante mais visível ou até um cartaz o resultado não seria assim tão substancialmente diferente. Face à dimensão da estupidez e parolice “humanas” suponho que só medidas mais radicais têm a capacidade de surtir algum efeito.
Um amigo do Sabugal (relativamente próximo da Torre), quando partilhava com ele a minha indignação perante aquele cenário decepcionante, contou-me que algumas escolas de Seia, creio, desenvolveram uma acção de sensibilização com os alunos na qual procederam á remoção de vários desses amontoados tentando repor a paisagem natural e sensibilizando obviamente para o problema.
Não sei exactamente quando é que decorreu a acção mas entretanto muitas hordas de turistas terão passado pela torre fazendo questão de deixar a sua “assinatura” pindérica.
Também os meus filhos, quando chocados com o panorama, derrubaram alguns dos pequenos mamarrachos mas ainda foram criticados por uns parolos, por sinal franceses, que devem ter um apurado sentido de gosto artístico assim como um ainda maior conhecimento das coisas do mundo natural. Provavelmente terão também lá deixado a sua Torre Eifel feita de calhaus. (Parece que a estupidez é mesmo das coisas mais universais que existem).
De qualquer forma, mais do que esta triste situação em particular, acredito que a situação está bastante para além desta situação em específico e que se prende com questões porventura mais profundas e diria até... filosóficas.
O Toque de Tânatos porque parece que onde quer que o ser humano chegue, faz questão de onde toca... o transformar em Merda. Por outras palavras, faz questão de estragar. Uma realidade ou “fenómeno” que tende a ser tanto mais provável quanto mais animais da espécie humana chegarem a determinado local. Como se não bastasse...parece que tudo o que basta para começar uma qualquer moda estúpida, com impacto para os habitats locais, é... simplesmente alguém começar. Depois com a banalização das redes sociais e afins é uma questão de tempo (muito pouco tempo) até se espalhar como um vírus.
É importante falar das redes sociais pois, ao que parece, os “artistas” (pimba) fazem questão de “postar” com todo o orgulho as suas “obras de arte”.
Este é um daqueles momentos em que o meu desencantamento com a espécie humana é de tal ordem que invejo Thoreau que decidiu isolar-se numa cabana no bosque. (o livro é Walden ou a Vida nos Bosques de Henry David Thoreau).
Creio que, no que a esta questão diz respeito (assim bem como a muitas outras), não se pode esperar que subitamente as criaturas que seguem a “modinha” dos montes de calhaus adquiram consciência e deixem de o fazer.
Pelo que percebi, a Torre é um território muito particular administrado de forma conjunta por vários municípios da região (vem-me, assim à cabeça, Seia, Manteigas...). Parece-me fundamental a colocação no local de placas de considerável dimensão a dissuadir da prática em questão. Como provavelmente não será o suficiente, creio que faria todo o sentido a afectação de um pequeno corpo de “Guardas” responsáveis por zelar pelo espaço, nomeadamente proibindo determinantemente a prática. No caso de simples presença dos Guardas não ser suficiente, creio que é um daqueles casos em que passar multa se justifica plenamente e é na verdade necessário. Por vezes é esse o único local onde doí verdadeiramente aos portugueses: no bolso!!!"
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
A ciência da quietude: nictinastia e ritmos naturais
A quietude que se sente no solo da floresta ao anoitecer não é uma ilusão provocada pela penumbra, mas sim um processo biológico ativo. Cenoura-brava (Daucus carota), prestes a despertar no matagal: rodeada por botões no meio de uma densa folhagem, uma única flor branca suspendeu o seu desabrochar até ao amanhecer, repousando lado a lado com pequenas flores roxas companheiras (talvez violetas) no sub-bosque húmido e sombreado.
Esta reação dinâmica à transição entre o dia e a noite ocorre através da nictinastia - um movimento funcional em resposta à ausência de luz e à descida de temperatura. As células das plantas da família Apiaceae alteram a sua pressão de turgor (a pressão da água no seu interior), fazendo com que a umbela e os seus botões imaturos se dobrem ou se fechem hermeticamente. Este mecanismo protege os delicados órgãos reprodutivos contra o frio e a humidade noturnos. Enquanto o mundo dorme, toda a flora parece descansar e desacelerar, respeitando em silêncio os ciclos ancestrais da Terra.
Entre o Sinal e o Silêncio
Enquanto a rede pulsa em cabos de luz,
e o ecrã consome o olhar distraído,
a terra, em segredo, a si se reduz,
num ritmo antigo, calmo e esquecido.
Procuramos o mundo num brilho irreal,
hiperconectados, em febre e desterro,
esquecidos do sopro do chão ancestral,
presos à ilusão do vidro e do ferro.
Mas lá fora, na sombra, a flor sabe esperar.
A cenoura-brava dobra o seu manto,
suspende o desabrochar até o sol voltar,
coberta de orvalho, de noite e de encanto.
Sem pressa, sem rede, sem código ou sinal,
a vida recolhe na sua quietude profunda.
O verdadeiro mistério do mundo real
é o silêncio da terra quando a noite o inunda.
Poema de João Soares, 03.08.2026
«A ilusão da falta de vida é apenas isso: uma ilusão. Em todo o lado há a garantia de que o ciclo se cumpriu, contendo em si os meios para a sua própria renovação.» - Rachel Carson in O Mar que Nos Cerca
domingo, 30 de agosto de 2026
Arcade Fire - No Cars Go
A banda canadiana Arcade Fire, formada em Montreal, no Quebec, junta o indie rock ao baroque pop e ao art rock. A canção "No Cars Go" destaca-se precisamente pelo seu arranjo orquestral épico, fundindo cordas, acordeão e instrumentos de sopro com a energia do rock elétrico.
Embora tenha sido lançada como single do álbum Neon Bible (2007) - após uma versão inicial integrar o EP de estreia da banda em 2003 -, não existe um videoclipe narrativo gravado oficialmente para o tema. A promoção assentou antes em atuações ao vivo marcantes e num visualizer focado na identidade gráfica do disco.
Tematicamente, a canção aborda o escapismo, a procura por um refúgio intocado pela modernidade e a busca por um estado de inocência ou utopia. O espaço "onde nenhum carro vai" simboliza um local inacessível às pressões da vida adulta, ao ruído urbano e à tecnologia, funcionando como um apelo à libertação coletiva através da música e da imaginação. Essa mensagem fica clara em versos como "Hey! Us and them / Going nowhere between here and there / Where no cars go".
- Esta visão constrói-se sobre diversas influências literárias e filosóficas:
- Maurice Sendak (Onde Vivem os Monstros): a viagem até um território imaginário espelha a literatura infantil escapista, onde a mente da criança ergue um porto de abrigo distante da realidade.
- Existencialismo e romantismo: contrapõe-se a alienação da sociedade industrial ao desejo romântico de regresso à natureza, procurando um espaço existencial neutro - "entre o aqui e o ali" - centrado na ligação humana.
- Utopismo transcendente: o tema dialoga com o transcendentalismo de Henry David Thoreau, defendendo o afastar das distrações mecânicas da civilização para alcançar um estado espiritual elevado.
Em relação ao vídeo do YouTube indicado (da conta ForecastmazyFilms), trata-se do teledisco não oficial mais famoso e associado à canção desde 2007. O autor editou cenas da curta-metragem de animação Where the Wild Things Are (1973), de Gene Deitch, adaptada diretamente do livro de Maurice Sendak. Como o livro de Sendak é a principal inspiração literária da letra, este vídeo de fãs tornou-se a representação visual perfeita e mais emblemática do tema.
Já tinha publicado aqui a versão de Noiserv
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sexta-feira, 28 de agosto de 2026
A abertura na copa das árvores
Céu Tecido
Um campo de ondulações de espuma cinzenta e suave
estende-se amplamente pela atmosfera,
onde o ar e a humidade tecem um lar temporário,
mantendo perto a luz e a sombra.
Correntes invisíveis curvam-se e erguem-se,
arrefecendo o vapor em formas silenciosas,
um presente subtil, flutuante e vivo
antes da chegada das tempestades.
Nenhuma parte está separada do chão,
nenhuma gota existe fora do todo;
em cada sopro flutuante encontra-se
o ritmo de uma única alma.
João Soares, 28.08.2026
domingo, 24 de maio de 2026
Homem, corço, prado: a mesma pele
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| Corço, fotografado em Groningen, Holanda |
Entro nas canas altas e húmidas do mundo,
E sinto-me contido numa pele maior.
A terra húmida respira sob os meus pés,
Um pulmão antigo que exala verde, selvagem e vasto.
Este é o trabalho que reconecta -
Permanecer imóvel até que a fronteira entre o solo e o ser
Se dissolva como o nevoeiro da manhã.
Ali, no meio da planície vibrante,
Ergue-se uma sentinela silenciosa, um corço esculpido de sol e sombra.
Ele é um nativo desta hora, perfeitamente em casa,
Sem nada pedir ao Estado, sem pagar impostos ao vento,
Vivendo deliberadamente na erva profunda,
Um pequeno e silencioso templo de solidão com quatro patas e uma coroa de osso.
Ele olha para mim e, no seu olhar, os séculos sossegam.
Eu vejo-te, irmão! Celebro-te e canto-me a mim mesmo!
Não és uma coisa separada, nenhum estranho num campo distante,
Mas o próprio sangue do cosmos a saltar a vala.
Os mesmos átomos que moldam o teu olho firme e escuro
Vagueiam pela erva, pelos telhados de colmo, pelas nuvens cinzentas e pesadas,
E pelo coração que bate dentro do meu próprio peito.
Cada folha de erva é uma obra-prima das estrelas,
E tu és a sua obra de arte esta noite.
Permanecemos suspensos - o corço, o prado e eu -
Enraizados na grande teia em movimento de todas as nossas relações,
Vivos, despertos e infinitamente livres.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Encontros Improváveis - John Muir
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| Parque Natural do Alvão |
John Muir: o profeta da natureza
John Muir (1838–1914) foi o catalisador que mudou a percepção do mundo ocidental sobre a vida selvagem, movendo-a da exploração utilitária para a veneração espiritual.
"Wilderness is a necessity... there must be places for human beings to satisfy their souls." – John Muir
John Muir, frequentemente aclamado como o "Pai dos Parques Nacionais", foi uma das figuras mais influentes na formação da consciência ecológica moderna. O seu pensamento não era apenas uma teoria académica, mas uma filosofia vivida, profundamente enraizada numa visão espiritual e holística da natureza. Para Muir, o mundo natural não era um recurso a ser explorado, mas um templo sagrado onde a humanidade poderia encontrar renovação e verdade.
O panteísmo naturalista
No cerne da filosofia de Muir reside a convicção de que Deus e a Natureza são indissociáveis. Influenciado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, Muir via em cada glaciar, árvore ou tempestade uma manifestação direta do divino. Ele rejeitava a visão antropocêntrica — a ideia de que a Terra existe apenas para servir o Homem - e argumentava que todas as espécies possuem um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a civilização.
Preservacionismo vs. Conservacionismo
Muir é o principal rosto do preservacionismo. Esta postura diferenciava-o de contemporâneos como Gifford Pinchot, que defendia o "conservacionismo" (a gestão eficiente dos recursos naturais para uso humano). Enquanto Pinchot olhava para as florestas como madeira em potencial, Muir via-as como essenciais para a saúde espiritual e psicológica da humanidade. Para ele, a natureza selvagem (wilderness) deveria ser mantida intacta, protegida de qualquer intervenção comercial.
Pontos-Chave do Pensamento de Muir
- Interconectividade: Muir antecipou conceitos da ecologia moderna ao afirmar que, quando tentamos isolar algo na natureza, descobrimos que está "preso a tudo o resto no Universo".
- A Natureza como terapia: Ele acreditava fervorosamente que o contacto com o mundo selvagem era a cura para os males do materialismo industrial, descrevendo a ida para as montanhas como um "regresso a casa".
- Ativismo político: a sua filosofia traduziu-se em ação direta, resultando na fundação do Sierra Club e na criação de parques icónicos como Yosemite, Mount Rainier e Sequoia.
"Milhares de pessoas cansadas, de nervos abalados e demasiado civilizadas, estão a começar a descobrir que ir para as montanhas é ir para casa; que a vida selvagem é uma necessidade." — John Muir
A herança de Muir continua viva hoje, servindo de base para o movimento ambientalista global e para a compreensão de que a preservação do planeta é, em última análise, a preservação da nossa própria essência.
domingo, 26 de novembro de 2023
Coração Verde. Green Heart
“Este mundo curioso que nós habitamos é mais maravilhoso do que conveniente, mais bonito do que útil, mais para ser admirado e apreciado do que usado.”
Henry Thoreau (1817-1862)
“O bem-estar e o florescimento da vida humana e da não-humana sobre a terra têm valor em si próprios (valor intrínseco, valor inerente). Esses valores são independentes da utilidade do mundo não-humano para os propósitos humanos.”
Arne Næss e George Sessions (1984)
“Em suma, o papel da ecologia profunda na sociedade contemporânea é libertador, transformador e questionador. Há uma utopia na ecologia profunda, uma utopia baseada não na contínua e intensificada conquista ou domínio da natureza não-humana pelo homem, mas baseada na busca pela auto-realização.”
Bill Devall (1980 - artigo científico no Journal of Natural Resources)
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segunda-feira, 13 de novembro de 2023
Sempre Henry David Thoreau
![]() |
| Eco-caminho Maia |
"Os homens dizem muito conhecer
Mas, vede, quanta fantasia-
Ciências, artes , os saberes,
Mil utensílios de sabedoria,
Mas o sopro do vento
É tudo o que o corpo entende."
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quarta-feira, 6 de setembro de 2023
Henry David Thoreau
"Every morning was a cheerful invitation to make my life of equal simplicity, and I may say innocence, with Nature herself." –Henry David Thoreau
segunda-feira, 29 de maio de 2023
Problemas modernos requerem perspetivas antigas
Aqueles que buscam uma educação ecológica olham para as vozes do passado e não desprezam as suas perceções da realidade, por mais deslocadas que estas estejam das inclinações sociopolíticas da época. Se as ignorarmos acabaremos seguramente mais sós, num mundo repleto de cicatrizes, cravadas justamente pelas nossas próprias mãos.
“Uma das consequências de uma educação ecológica é que se vive sozinho num mundo de cicatrizes.”
Um ano após a sua morte em 1948, estas palavras viriam a fazer parte do grande êxito póstumo de Aldo Leopold, ‘A Sand County Almanac and Sketches Here and There’ (1949).
Para um homem que começou carreira como responsável pela gestão de predadores que ameaçavam o gado (eufemismo para “diminuição ou extermínio de populações locais”), a epifania de Leopold continua a proporcionar um caso dramático de redenção.
Leopold reconheceu o papel fundamental das espécies de predadores, que deveria caçar, desempenhavam nas comunidades bióticas, o que o levou a desafiar a ortodoxia da época. Um dos exemplos mais célebres é a aniquilação de carnívoros, como o lobo ou o urso, o que levou ao aumento do número de herbívoros que, por sua vez, alterou a vegetação, através do sobrepastoreio.
Aquilo que era naturalmente ‘selvagem’ deveria permanecer intacto
Palavras como as que abrem este artigo ecoavam uma narrativa recalcada pelo silêncio, na sequência da perda de outras espécies, e de uma pegada humana cada vez mais dominante. Leopold percebeu que aquilo que era naturalmente ‘selvagem’ deveria permanecer intacto de forma a desempenhar o seu papel num todo interligado e complexo.
O problema agravava-se com o cerco perene que a humanidade mantinha numa biosfera que, manifestamente, estava a fracassar na sua resistência contra esta força em contínua expansão. Porém, através das suas observações (e do trabalho de outros cientistas da época), uma nova ética ambiental, bem como um movimento de conservação do meio selvagem, emergiram, influenciando profundamente ambientalistas da época e de gerações futuras.
Considero-me entre aqueles que foram não só influenciados por Leopold, mas por outros nomes da velha guarda conservacionista, como John Muir, Henry David Thoreau ou George Perkins Marsh. Todos eles, em alguma altura da sua vida, se pronunciaram contra a narrativa antropocentrista e do avanço implacável da civilização humana sob a égide do progresso, em detrimento daquilo que é natural e selvagem. As suas visões vieram a moldar a insurreição ambientalista do pós-guerra, que contava agora com outros contributos teóricos como os de Rachel Carson, Paul R. Ehrlich, William Vogt, Garrett Hardin, Herman Daly, Kenneth Bouding e o Clube de Roma.
Entre eles, estes autores chamaram à atenção para um manancial de questões. A fragilidade do meio natural face à atividade humana crescente, o efeito multiplicativo de todos os problemas ambientais subjacentes a uma população em crescimento e o dilema de providenciar um estilo de vida mais abastado a toda a população, que por sua vez gera maior impacto ambiental per-capita. Também foi destacado o movimento de populações de países com economias em desenvolvimento para outras sobre desenvolvidas, tendendo a adquirir os seus padrões de consumo mais elevados, e os limites intrínsecos dos sistemas planetários, que serão ultrapassados enquanto se mantiver o crescimento tanto da economia como da população.
O movimento ambiental nas décadas de 70 e 80
Em poucas palavras, nas décadas de 70 e 80, era perfeitamente normal para o movimento ambiental advogar a contração da população mundial, restrições migratórias para países sobre desenvolvidos, a necessidade de um novo sistema económico baseado num modelo estacionário e a consciência que não poderia existir tal coisa como crescimento perpétuo num sistema finito e interligado como o nosso planeta.
Uma das equações que sustentava este movimento ambiental era a avançada por Ehrlich & Holdren, em 1971. Esta descrevia, claramente, que o Impacto ambiental (I) era o resultado do tamanho de uma População (P), que teria um certo nível de consumo ou Afluência (A), que por sua vez era determinado pela intensidade de produção aliada à Tecnologia (T), ou I = PAT.
Quando o impacto ultrapassasse a capacidade de carga (‘carrying capacity’, outro tema popularizado por Leopold) dar-se-ia uma sobrecarga (overshoot), um estado de degradação ecológica que não só leva a um reequilíbrio no tamanho da população, mas também a uma redução da capacidade de carga total, para um nível inferior ao inicial.
A questão que se coloca aqui é: quando é que foi a última vez que o movimento ambiental moderno se pronunciou relativamente a estes pilares da ecologia e sustentabilidade? É sabido que o Sierra Club - uma das primeiras organizações não governamentais dedicadas ao ambiente e fundada por John Muir no final do século XIX – manteve uma posição de restrição migratória para os Estados Unidos, em prol da conservação, durante a maior parte da sua história. Em 1980 a organização defendia:
“É óbvio que o número de imigrantes que os Estados Unidos aceitam afeta o tamanho da sua população e rapidez de crescimento. É possivelmente menos conhecido que uma política migratória, ainda mais que o número de crianças por família, é determinante para o número futuro de americanos.”
Esta posição manteve-se até 1996, quando pressões por parte de ativistas e disputas internas levaram a uma reforma total e ao abandono da mesma, a favor de convicções que geravam menos reprovação e repúdio por parte de membros e da sociedade em geral (o que também principiou um fenómeno de aumento de doações, que veio a determinar que tipo de projetos estas organizações estavam dispostas a manter).
O discurso ambiental sofreu uma metamorfose profunda e vincada nas alterações climáticas
O que se está a verificar com o Sierra Club é apenas um exemplo de um problema mais disseminado. São raros os casos em que organizações não governamentais ligadas ao ambiente se pronunciam sobre os temas acima descritos, preferindo, em alternativa, outros mais paroquiais e, aparentemente exequíveis, como a responsabilidade ambiental através da conservação de água, da triagem de resíduos domésticos ou a mobilidade responsável - tudo em nome das alterações climáticas.
De facto, o discurso ambiental sofreu uma metamorfose tão profunda e vincada nas alterações climáticas que, já em 2018, uma investigação reportava que por cada 20 notícias sobre a crise climática, somente uma era sobre a perda de biodiversidade. Da minha perspetiva, estes resultados são demasiado conservadores, e a realidade deverá ser um ratio muito mais divergente, visto que os ativistas dos nossos dias que continuam o legado de Leopold ou Muir, parecem ser uma espécie em vias de extinção.
É visível que o movimento ambiental aparenta ter-se reinventado, tendo tornado a luta climática como a sua missão cardinal. Se considerarmos as prioridades deste ativismo moderno, percebemos que este se transformou numa série de exigências destinadas a ‘resolver’ (em inglês usa-se o termo ‘fix’) o clima, convertendo-o num desafio de engenho e inovação.
Os exemplos mais familiares incluem a descarbonização das economias através da eletrificação das frotas automóveis, a integração de sistemas energéticos alimentados por fontes renováveis e a eficiência energética das habitações e eletrodomésticos. Contudo, existem muitas outras propostas tecnológicas como o vertical farming, o sequestro de carbono, uso de inteligência artificial e data centres para criar smart cities, ou mesmo a geoengenharia, que têm vindo progressivamente a ser acomodadas por fações mais tecno-otimistas.
Adicionalmente, uma grande parte do ativismo climático/ambiental tem vindo a adotar questões de índole social como a criação de empregos climáticos, transições justas e desenvolvimento sustentável. Muitas vezes, em simultâneo com questões de afirmação pessoal e sexual, e políticas identitárias e raciais.
Independentemente do valor intrínseco destas e outras causas, teremos certamente de admitir que as mesmas são, no mínimo, distintas, e no máximo, contraditórias à mensagem que acompanhou o advento do movimento ambiental de há meio século - a necessidade de contração de tudo o que era associado com o projeto humano, devido a limites biofísicos do planeta.
Ficaremos reféns de abordagens que têm de explorar e monopolizar o mundo natural
Não será aqui que se fará um escrutínio dos prós e contras destas ‘soluções’. Irei unicamente frisar que aquelas que estão dependentes de desenvolvimento económico e tecnológico, ou que se baseiam em melhorias de eficiência, não poderão resolver crise climática nenhuma enquanto o paradigma de crescimento da economia e da população não for desafiado. Caso contrário, ficaremos reféns de abordagens que têm de explorar e monopolizar o mundo natural de forma a providenciarem as necessidades de uma população em crescimento, que deseja subir na hierarquia de consumo e riqueza material.
A título de exemplo, as energias renováveis estão profundamente dependentes de processos industriais que não operam sem combustíveis fósseis, com cadeias de produção globais, e extração de recursos e ocupação/destruição do meio natural para sua instalação, levando a uma perda gradual do estado íntegro que Leopold favorecia.
Como o ambientalista Max Wilbert comenta num artigo recente do New York Times:
“Explodir uma montanha não é ‘verde’, por mais marketing que lhe tentem dar”.
Por outro lado, parecemos ignorar o facto que qualquer redução de custos provenientes de aumentos de eficiência não resulta em ganhos para o ambiente. A verdade é que quando as pessoas adquirem um eletrodoméstico ou umas lâmpadas mais eficientes, o dinheiro resultante dessas poupanças é investido ou gasto noutro lado, invariavelmente contribuindo para o crescimento económico e como tal, para a emissão de mais gases de efeito de estufa.
Outro processo semelhante, e que é descrito pelo Paradoxo de Jevons, revela que, quando, por exemplo, o preço da eletricidade baixa, as pessoas não tendem a reduzir o seu uso, mas sim a ser menos diligentes com a sua poupança – o que aumenta o consumo num todo.
O projeto civilizacional que a humanidade conheceu nos últimos 70 anos tem de ser abandonado
É notório que as temáticas defendidas nos primórdios do movimento ambiental, e que continuam a ser pilares da sustentabilidade, encontram-se excessivamente em falta nos nossos dias. É preciso dizer que as mesmas caíram fora de moda porque o movimento ambiental deixou de querer apregoar teses profundamente politizadas, e a deixar claro que existem sempre trade-offs em todas as nossas escolhas.
É obviamente mais fácil transmitir uma mensagem que tudo ficará bem se eliminarmos os subsídios aos combustíveis fósseis, se fizermos as maiores empresas responsáveis pagarem por uma transição “verde”, e se todos começarmos a conduzir um Tesla e a obter a nossa eletricidade de fontes renováveis. Tudo isso é mais fácil do que é dizer às pessoas que o projeto civilizacional que a humanidade ergueu e que conheceu nos últimos 70 anos, é não só prejudicial para o meio natural, como é totalmente insustentável, pelo que tem de ser abandonado (seguramente de forma involuntária).
Concisamente, os ambientalistas modernos assimilaram uma narrativa de mudança, que está profundamente dependente de tecnologias que requerem a invasão e monopolização do meio natural para que possam ser proporcionadas a uma população que não para de aumentar, e que busca, naturalmente, um estilo de vida mais confortável e abastado. De forma a distanciar-se de verdades inconvenientes, este movimento moderno pactua com ficções de desenvolvimento e progresso intermináveis, menosprezando a realidade de que habitamos um astro circunscrito por limites biofísicos.
Porém, para aqueles que decretam que a sua lealdade está para com o meio natural, este caminho só poderá resultar num cerco que não será levantado, independentemente de quantos painéis solares e eólicas forem instaladas. Aqueles que buscam uma educação ecológica olham para as vozes do passado e não desprezam as suas perceções da realidade, por mais deslocadas que estas estejam das inclinações sociopolíticas da época. Se as ignorarmos acabaremos seguramente mais sós, num mundo repleto de cicatrizes, cravadas justamente pelas nossas próprias mãos.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2023
Estética e Megaprojectos Eólicos e Fotovoltaico
A principal razão para nos opormos à proliferação actual de instalações solares e fotovoltaicas é de ordem estética. Pode parecer uma frivolidade, mas vamos demonstrar que não o é.
A política energética segue a tese de que a quantidade de energia gasta está correlacionada com o nível de bem-estar. Esta crença é consistente com a ideia moderna da história, que assume que o curso da humanidade consiste, basicamente, na luta para extrair da natureza os recursos que necessita para evitar uma vida de privação. Graças a existências penosas intermináveis, como se fosse uma verdadeira penitência, a humanidade tem vindo a alcançá-la agonizantemente. Chamamos-lhe “trabalho”, abstração cardeal que aglutina tarefas e ofícios muito diversos, com implicações muito diferentes. A moderna noção de “trabalho” foi criada durante o século XVIII, mas as pessoas hoje assumem-na como sendo a coisa mais natural, aceitando como evidente a ideia que fazer roupas, bonecas ou auto-estradas, por exemplo, é o mesmo: “trabalho” é “produzir”.
É o mito do Crescimento da Economia que dá sentido ao quadro institucional da sociedade industrial e proporciona às massas industrialistas petulância etnocêntrica, fundamentalmente porque dispõem de artefactos tecnicamente mais sofisticados do que os seus avós. As hierarquias do industrialismo promovem megaprojectos invocando mitos, e inundam as paisagens. A natureza colossal destas obras atordoa as pessoas comuns, mas estas aceitam-nas com gratidão, uma vez que carregam o mito nas veias. É inoculado pelos aparelhos educativos e publicitários dirigidos pelas mesmas hierarquias que executam os megaprojetos. Assim, a maioria acredita que estas obras insanas contribuirão positivamente para o “crescimento da economia”, ergo do seu bem-estar e dos seus descendentes. E, finalmente, aplaudem entusiasticamente as liturgias industriais, como as inaugurações de barragens gigantescas, etc. Nesta linha de pensamento, não deve haver dúvidas de que o sonho da tecnocracia especializada (engenheiros, agentes de desenvolvimento, gestores…), treinado na busca ansiosa de prémios e emolumentos, é coroar os picos do mundo com moinhos tão gigantescos que deixam as pirâmides dos antigos impérios ridiculamente pequenos. Trata-se de uma simples questão de escala, embora os exegetas do Produtivismo justifiquem as obras colossais de hoje, em contraste com as antigas: as de agora são úteis, porque são feitas para produzir; as de antigamente, sumptuárias, porque serviam para adorar os deuses.
Mas este mito do Crescimento da Economia foi respondido desde o início, quando Smith, Malthus e Marx completaram o seu cânone. Segundo Marx, a chave para a humanização e a civilização é a supracitada abstração do “trabalho”, não a palavra, nem a poesia, nem a peça e o devaneio artístico, como se acreditava, pelo menos desde Aristóteles. De acordo com esta mais antiga cosmologia, que repele as noções de Produção e Trabalho, a palavra, ao significar tudo, retira os humanos do ambiente (reino biológico) e coloca-os no mundo (reino simbólico), o lugar em que, irrevogavelmente, habitamos. A palavra não nasce do indivíduo, mas da comunidade, e nela as pessoas falam. Portanto, a condição humana é tornar-se comunidade (zoom politikon), e a questão essencial é o estar, que determina e dá sentido à existência. De acordo com esta permissa, os impulsos da comida, do abrigo e do sexo não determinam nada, mas são determinados pela identidade e ligação, e convertidos em formas de comunicação, ocasiões para o reconhecimento. Portanto, a condição humana não é determinada materialmente, mas pela identidade e ideais. É isso que explica a cultura humana na sua diversidade, não na luta pela existência.
Questionar o mito da Produção leva-nos a desafiar as suas hierarquias, que fingem ser fornecedores solventes das nossas “necessidades materiais”; e noções que pareciam inabaláveis parecem agora absurdas para nós, como a da “classe adequada” e da “classe trabalhadora”. Ou a da “matéria-prima”, que os economistas definem como qualquer coisa que só adquire valor se for usada na Produção. A noção atual de matéria-prima provém dos alquimistas, quando se acreditava que a Terra era praticamente infinita. Sabemos hoje que não é esse o caso, mas a noção permanece incólume, porque não deriva de provas, mas sim da fé tecnológica. É a idolatria da técnica (tecnolatry), e reduz-se a isto: a sofisticação técnica salvará a humanidade. Lançamentos de foguetes lunares, corridas de velocípedes ou exposições electrónicas da China são exemplos de cerimoniais deste culto.
Mais concretamente, as autoridades voltam agora à carga anunciando a “estratégia das matérias-primas críticas”. É a revitalizada litania da Produção, pregada durante o século e meio por capitalistas e socialistas, agora envernizada como “verde”, “circular” e “sustentável”. Esta idolatria sombria deve ser denunciada por respeito à justiça, à bondade e à beleza. E recuperar outros significados para as “matérias-primas” que o jargão económico enterrou, ou renomeá-los. Por que não bens comuns em vez de matérias-primas? Temos de deixar para trás o olhar pedestre da Economia, para recuperar o sentido de admiração, ao qual Rachel Carson apela, contemplar a maravilha do mundo, e depois compreender que as plantações solares e eólicas são horrores nocivos a que valem a pena opormo-nos.
A cosmologia da produção concebe noções de justiça, bondade e beleza de acordo com uma versão da ideia antiga da identidade dos opostos (a “dialéctica”, disse Marx). É por isso que os economistas insistem em que esses bens mais elevados só serão alcançados amanhã, negando-lhes o hoje. Por exemplo, na estética, pregam um prosaísmo orgulhoso e um modesto adiamento do belo.
Mas, uma vez que o que está em jogo aqui é negar a Produção, vamos fazê-lo precisamente a nível estético. Pensador@s dos últimos dois séculos compreenderam o crucial debate estético para sancionar ou invalidar a teoria da Produção. O romantismo e as suas derivações, bem como as tradições místicas (de Willian Blake a Octavio Paz ou Ludovico Einaudi, de Willian Turner a Martin Buber, Gandhi ou María Zambrano) ridicularizam a lógica sacrificial da Produção, com o seu rescaldo da fealdade e da devastação. Mas, ao mesmo tempo, há notáveis apologistas (todos masculinos) das paisagens industriais insanas, que nascem na mina moderna e se desdobram em impressionantes excrescências de tubos, fornos infernais e secreções tóxicas. E agora, além disso, moinhos gigantes e planícies de metal. Aspiram ao solene dos loucos, como símbolo do poder redentor.
H. D. Thoreau considerou as pirâmides um precedente do gigantismo industrial. Referindo-se a eles, escreveu em Walden (1854):
Não há nada para se surpreender tanto como o facto de poder haver tantos homens degradados para passar a vida a construir a sepultura de um tolo ambicioso…
Um século depois, E. F. Schumacher também escolheu a crítica estética do gigantismo industrial para desacreditar a cosmologia da Produção. O seu trabalho mais conhecido, Small is Beautiful, é um apelo contra a Produção.
A linha oposta de justificação estética do excesso de produto é bem capturada, por exemplo, J. M. Keynes, que, nas Possibilidades Económicas dos Nossos Netos, admoesta:
… pelo menos por mais cem anos temos de simular… que o belo é sujo e o sujo é bonito… Porque só [o sujo pode] guiar-nos para fora do túnel da necessidade económica para a clareza do dia.
Na homilia deste Pai da Economia é rastreável, embora no registo anti-literário, o simbolismo da travessia do deserto, que Deuteronomi, com respiração poética, descreve da seguinte forma:
Grande e inspiradora selva, com serpentes venenosas e escorpiões e com solo sedento que não tem água (Deuteronômio 1:19; 8:15).
Não há dúvida de que a soteriologia do industrialismo deve muito a estas metáforas antigas para expressar a lógica sacrificial e expiatória que o encontrou. Nesta linha, o grande profeta da modernidade foi, sem dúvida, Karl Marx, que avisa a humanidade de que terá de atravessar o inferno do capitalismo para ascender ao socialismo definitivamente progredido. A sua escrita enigmática e entediante, que atinge o seu clímax em O Capital, já contém a mensagem subjacente de que os feios, os sujos e os ininteligíveis anunciam, dialéticamente, a verdade, a beleza e a bondade. Após a consagração do trabalho destes Pais, é já uma convenção que a escrita antipoética e abstrusa e a ingenuidade técnica titânica e insana são um caminho de martírio, no entanto, necessário para a verdade, a bondade e a beleza.
Simone Weil, que escreveu talvez o apelo mais lúcido contra o inferno industrial (“Reflexões sobre as causas…”, 1934), desafia todos estes Pais – embora dirigindo-se expressamente a Marx – com apenas duas perguntas: como poderiam pensar que a propagação da fealdade e da devastação traria beleza e abundância?
Portanto, de acordo com uma simples razão estética, rejeitamos megaprojetos de vento e fotovoltaicos.
sábado, 9 de julho de 2022
Livro - Andar a Pé
A classificação, que divide os seres em viventes e não viventes, diferencia os primeiros destes últimos pelas propriedades de nascer, alimentar-se, digerir, crescer, reproduzir-se, morrer e sobretudo movimentar-se. É, portanto, o movimento uma das características principais daqueles que têm vida. Na verdade, jamais alguém viu uma pedra movimentar-se sozinha. Rola de ladeira abaixo ou é carregada pela correnteza, mas nunca se move por si mesma, de moto próprio. Se alguém procurar uma filosofia aos profissionais da educação física, encontrará esta: o movimento é inerente e necessário a todo ser que tem vida; “mover-se é viver”.
A ausência do movimento é um estado mórbido, daquele que está tendente ao falecimento, prestes a perder a vida. Esta talvez seja a maior razão de tanta gente, que não anda, obrigar-se a longas caminhadas a pé, tentando compensar o desuso dessa extremidade do corpo no seu quotidiano. Esse desuso está sempre atrelado ao uso excessivo do automóvel, que, como uma maca, leva o comodista até ao lugar onde possam passar os paralamas dianteiros do seu indispensável veículo, como se fosse sua cativa cadeira de roda. Enfim, não anda; sempre é carregado, como se o natural fosse ter duas rodas e não dois pés. O ser vivente cada vez mais sedentário, parado, inerte, torna-se, mais e mais, não vivente. Ele não se leva, geralmente é levado como a pedra.
Andar a pé é a melhor e mais adequada forma de gastar a energia que adquirimos quando nos alimentamos. Ou seja: queimamos as calorias que ingerimos para sermos capazes do movimento. Por isso, nutrição e movimento são propriedades comuns e indispensáveis aos seres viventes. Os outros animais, quando não se movimentam voando, nadando ou correndo, andam. Não existe modo mais natural de mantermos a forma saudável de vida. Viver é movimentar-se; o contrário é a morte.
“Andar a pé”, de Henry David Thoreau (1817 a 1862), tem sido uma das obras referenciais, que nos fala, de forma poética e extensiva, sobre essa temática. No entanto, jamais poderemos esquecer a beleza do texto, em Émile (1762), “Il faut aller à pied” (é preciso andar a pé), de Jean Jacques Rousseau. Esse filósofo, ao abordar, de modo subliminar, os ideais da Revolução Francesa, adverte-nos que “é preciso andar a pé”. Primeiramente, estaremos sempre livres para parar, onde quisermos: “liberté” (liberdade); depois, ao caminharmos como os outros, seremos iguais a eles: “egalité” (igualdade); finalmente, poderemos saudá-los, cumprimentando-os como irmãos: “fraternité” (fraternidade).
Andar a pé é coisa de andarilho, semelhante a peregrinos, em caminhos sagrados como os de Santiago de Compostela, na Espanha e, também no Brasil, de Aparecida, Juazeiro do Padim Cícero ou nos Passos de Ibiapina. Foi o que fez Iveraldo Lucena, que criou o grupo de caminhantes “Andarilhos pés no chão”, para, através de estradas, praias e matas, reencontrarmos a verdadeira cidade. Enquanto isso não acontecia, éramos caminhantes a respirar o iodo do mar, o ar puro das florestas; a ouvirmos o cantar dos pássaros, o grito dos animais, as cascatas das águas; a sentirmos o aroma virginal da mata, o cheiro da terra, o perfume das flores. Em todos esses momentos, admiramos a beleza que Deus criou, da qual vivemos distanciando-nos, montados em carros e arranha-céus, e à qual somos tão cruelmente indiferentes: a nossa mãe Natureza.
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
Sobre Desobediência Civil
"Todos os homens reconhecem o direito à revolução, isto é, o direito de recusar lealdade e o de resistir ao governo quando a tirania e a ineficácia deste ultrapassam os limites do suportável. Quase todos afirmam que não é esse o caso neste momento." - Henry David Thoreau
sábado, 3 de julho de 2021
Nos limites da (des)obediência, por Viriato Soromenho-Marques
Os 26 jovens, entre os 17 e os 28 anos, detidos numa recente ação de protesto junto ao aeroporto de Lisboa recolocam a necessidade de responder à pergunta formulada por Henry David Thoreau em 1849: estarão os cidadãos obrigados a abdicar da sua consciência perante leis e atos de governo que violam direitos humanos fundamentais? Thoreau tinha-se recusado a pagar impostos como forma de protesto contra a escravatura nos EUA. Por isso foi encarcerado em 1846. O título original do ensaio onde Thoreau pensou essa experiência intitulava-se Resistência ao Governo Civil, mas as edições póstumas imortalizaram as suas ideias sob a designação de "desobediência civil". Os 26 jovens, acusados de "desobediência qualificada", nessa ação promovida pelo movimento cívico Climáximo (centrado na luta contra as alterações climáticas), recusaram ficar pelo julgamento sumário. Fizeram bem. Isso permitirá uma apreciação substantiva da sua causa nos tribunais, ultrapassando o filtro amnésico da voragem dos dias.
O que é que está em causa no protesto desses jovens? A acusação de que as políticas públicas em Portugal (e a nível global) não estão a fazer o suficiente para combater a escalada de impactos negativos que as alterações climáticas já estão a provocar. Uma demonstração parcial disso encontra-se no privilégio conferido ao transporte aéreo (que se estima ter contribuído em 6% para as emissões de gases de efeito estufa em 2019). Na verdade, em toda a UE as companhias aéreas continuam a não pagar impostos sobre o combustível e não precisaram da "bazuca" europeia para serem resgatadas pelos Estados, com custos pesados para o erário público. No caso português, a teimosia em construir um novo aeroporto em contraciclo, e violando regras básicas de proteção ambiental e de segurança aérea, torna o quadro ainda mais sombrio. Por outro lado, basta olhar para o desprezo a que a ferrovia - o menos poluente dos modos de transporte - tem sido votada, para perceber que o protesto não carece de fundamento. Em acréscimo, hoje, a cidade do Porto será testemunha da hipocrisia institucional face às alterações climáticas. A deslocação de 16 500 fãs de dois clubes ingleses que cá vêm disputar uma final do futebol europeu, além de ser uma agressão ambiental e um risco sanitário, é uma atitude de subserviência que nos envergonha (Londres recusou o jogo dos seus dois clubes devido à pandemia!). Por outro lado, apesar de toda retórica do Pacto Ecológico Europeu, os pequenos gestos traem a falta de sinceridade dos compromissos. Como se compreende que o Parlamento Europeu continue a fazer 12 viagens anuais, de armas e bagagens, entre Bruxelas e Estrasburgo, com todos os custos ambientais e económicos a que tal nomadismo irracional obriga?
Há semanas, Faith Birol, o diretor da oficialíssima Agência Internacional de Energia, alertava para o facto de que só neste ano o aumento da procura de carvão cresceu mais de 60%, esmagando os ganhos das energias renováveis. As emissões de gases de efeito estufa no final do ano aumentarão em 1,5 mil milhões de toneladas, roçando os valores pré-pandémicos de 2019.
O regresso à "normalidade", por este caminho, acentuará o princípio de destruição mútua assegurada que comanda o capitalismo carbónico dominante. Quando os 26 jovens responderem pelo seu gesto em defesa do direito à vida, para si e para as gerações futuras, perceberemos que os verdadeiros criminosos não são aqueles que se sentam no banco dos réus.
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Viriato Soromenho Marques
terça-feira, 2 de março de 2021
As minhas mãos
As minhas mãos
Já abraçaram imensas árvores
Texturas e cascas
Teixos, castanheiros, figueiras, bétulas, faias, as sete palmeiras magníficas do Palácio de Cristal
Abraço ainda ao liquidâmbares e os castanheiros-da-Índia da Fundação de Serralves
Já abraçou imensos Alunos, amigos, familiares e doentes
Já acenderam velas por Tibete, Etiópia, Sudão, Síria, Sara Ocidental, Líbano
Sarajevo, Guerra do Golfo Pérsico e vítimas do 11 de Setembro, Chile e EUA
E velas em memória das vítimas dos atentados bombistas em Paris, Bruxelas e Londres
Já abraçaram imensas árvores
Texturas e cascas
Teixos, castanheiros, figueiras, bétulas, faias, as sete palmeiras magníficas do Palácio de Cristal
Abraço ainda ao liquidâmbares e os castanheiros-da-Índia da Fundação de Serralves
Já abraçou imensos Alunos, amigos, familiares e doentes
Já acenderam velas por Tibete, Etiópia, Sudão, Síria, Sara Ocidental, Líbano
Sarajevo, Guerra do Golfo Pérsico e vítimas do 11 de Setembro, Chile e EUA
E velas em memória das vítimas dos atentados bombistas em Paris, Bruxelas e Londres
Acendo ainda velas pela Palestina, pelo Tibete e pelos Refugiados
pedindo Paz
Já fizeram bolos, muitos, pão e cerveja
Já plantei árvores, carvalhos por Valongo, Serra da Freita e Marão
Na minha infância pegava na enxada e plantei morangos, batatas
Semeei favas e ervilhas
Lia e leio atentamente o Seringador
Trepei a árvores, era mais magro e subia a laranjeiras e figueiras
Colhi muitas vezes frutos
laranjas, tangerinas, morangos, uvas, dióspiros, castanhas
Faço as refeições com as mãos
Na minha infância, a minha mãe foi vítima de violência doméstica
O meu pai usava bengala e vergastava a minha mãe
Quantas vezes lhe tirei a bengala e o meu pai caía no chão
Terminando com o pesadelo e o horror
Parti pinhões, avelãs e nozes para fazer o bolo rei
Parti pinhões e nozes e pão de cacete para fazer os formigos
A minha mãe viu o jeito que tinha para desenhar e pedia-me para copiar
Os desenhos naturalistas de revistas de bordados
Quantas vezes enovelei resmas de cordões de lãs e
A minha mãe fazia camisolas
Aplauso vivamente em concertos de rock, indie e música do mundo ao vivo, em espaços abertos e nos Coliseus e na Casa da Música e Meo Arena
Aos vinte anos tocava teclados numa banda de garagem
Os Lilás Postes Mórbidos
Influenciados por The Cure, Joy Division, Bauhaus e Birthday Party
Tocamos em alguns espaços conhecidos no Porto
E bares em Gaia
Dancei e danço coreografias góticas imitando as aves da noite
O mocho-real, a coruja-das-torres
E sei dançar valsa e tango
Já fiz rádio
Na faculdade e no curso de Biologia colhi plantas silvestres para fazer um herbário
Fiz anilhagem de dois grifos e de um abutre-negro
Fiz castelos de areia e cidades medievais na praia com o meu filho
Com ele pegamos e tocamos e sentimos a pele das lagartixas, da cobra-de-água, das rãs
Das verrugas do sapo comum
Pegamos em tartarugas, aranhas, tarântulas e tocamos em golfinhos e focas
Pegamos em búzios e caranguejos-eremitas e devolvíamos ao mar
Ensinei-o a abraçar árvores
Fizemos pizzas caseiras, ensinamos a fazer folares da Páscoa e saladas diversas
Hoje uso ainda muito as minhas mãos
Para comunicar, gesticulo, para acentuar assuntos e ideias e conceitos
Quantas vezes escrevi no quadro escolar
Mapas de conceitos, diagramas, tabelas
Para os meus Alunos
Desenhei imensos acetatos quando só havia retroprojectores
Ensinei os meus alunos a fazer dobras, falhas e interior das células bacterianas,
Células animais e vegetais em plasticina
Depois vieram os computadores
E faço belos powerpoints com animações
E escrevo no computador e projecto no ecrã
As tabelas resumo da matéria leccionada e mais uma vez mapas de conceitos por preencher
Abracei prisioneiras quando dei aulas na prisão da secção feminina de Custóias
Conduzir também me dá prazer, seja de carro, seja de bicicleta
Nadei em vários rios e conheço o Atlântico de lés a lés do meu País e do Norte de Espanha
Nadei em Veneza
A poesia está em mim, mas vai-se embora durante alguns tempos
Escrevi imensos poemas para aniversários ou aniversários de casamentos dos meus amigos e familiares
Poemas e mensagens de Natal
Agora tenho vontade de escrever poemas
As minhas mãos cuidaram dos meus sobrinhos quando eram bebés
As minhas mãos afagaram e alimentaram cães e gatos ao longo destes anos
Recordo os meus cães e a sua alegria em passeá-los e correr no areal da praia
Sempre adoptei cães e gatos. Dois gatos recolhi-os da rua
Uma estava na roda de um pneu de carro
Outra perdida da sua mãe
Participei em manifestações contra os OGM
Empunhei cartazes pela valorização profissional dos Professores
Redigi algumas petições pela preservação do ambiente Assinei imensas quer a nível local, regional, nacional e internacionais
pedindo Paz
Já fizeram bolos, muitos, pão e cerveja
Já plantei árvores, carvalhos por Valongo, Serra da Freita e Marão
Na minha infância pegava na enxada e plantei morangos, batatas
Semeei favas e ervilhas
Lia e leio atentamente o Seringador
Trepei a árvores, era mais magro e subia a laranjeiras e figueiras
Colhi muitas vezes frutos
laranjas, tangerinas, morangos, uvas, dióspiros, castanhas
Faço as refeições com as mãos
Na minha infância, a minha mãe foi vítima de violência doméstica
O meu pai usava bengala e vergastava a minha mãe
Quantas vezes lhe tirei a bengala e o meu pai caía no chão
Terminando com o pesadelo e o horror
Parti pinhões, avelãs e nozes para fazer o bolo rei
Parti pinhões e nozes e pão de cacete para fazer os formigos
A minha mãe viu o jeito que tinha para desenhar e pedia-me para copiar
Os desenhos naturalistas de revistas de bordados
Quantas vezes enovelei resmas de cordões de lãs e
A minha mãe fazia camisolas
Aplauso vivamente em concertos de rock, indie e música do mundo ao vivo, em espaços abertos e nos Coliseus e na Casa da Música e Meo Arena
Aos vinte anos tocava teclados numa banda de garagem
Os Lilás Postes Mórbidos
Influenciados por The Cure, Joy Division, Bauhaus e Birthday Party
Tocamos em alguns espaços conhecidos no Porto
E bares em Gaia
Dancei e danço coreografias góticas imitando as aves da noite
O mocho-real, a coruja-das-torres
E sei dançar valsa e tango
Já fiz rádio
Na faculdade e no curso de Biologia colhi plantas silvestres para fazer um herbário
Fiz anilhagem de dois grifos e de um abutre-negro
Fiz castelos de areia e cidades medievais na praia com o meu filho
Com ele pegamos e tocamos e sentimos a pele das lagartixas, da cobra-de-água, das rãs
Das verrugas do sapo comum
Pegamos em tartarugas, aranhas, tarântulas e tocamos em golfinhos e focas
Pegamos em búzios e caranguejos-eremitas e devolvíamos ao mar
Ensinei-o a abraçar árvores
Fizemos pizzas caseiras, ensinamos a fazer folares da Páscoa e saladas diversas
Hoje uso ainda muito as minhas mãos
Para comunicar, gesticulo, para acentuar assuntos e ideias e conceitos
Quantas vezes escrevi no quadro escolar
Mapas de conceitos, diagramas, tabelas
Para os meus Alunos
Desenhei imensos acetatos quando só havia retroprojectores
Ensinei os meus alunos a fazer dobras, falhas e interior das células bacterianas,
Células animais e vegetais em plasticina
Depois vieram os computadores
E faço belos powerpoints com animações
E escrevo no computador e projecto no ecrã
As tabelas resumo da matéria leccionada e mais uma vez mapas de conceitos por preencher
Abracei prisioneiras quando dei aulas na prisão da secção feminina de Custóias
Conduzir também me dá prazer, seja de carro, seja de bicicleta
Nadei em vários rios e conheço o Atlântico de lés a lés do meu País e do Norte de Espanha
Nadei em Veneza
A poesia está em mim, mas vai-se embora durante alguns tempos
Escrevi imensos poemas para aniversários ou aniversários de casamentos dos meus amigos e familiares
Poemas e mensagens de Natal
Agora tenho vontade de escrever poemas
As minhas mãos cuidaram dos meus sobrinhos quando eram bebés
As minhas mãos afagaram e alimentaram cães e gatos ao longo destes anos
Recordo os meus cães e a sua alegria em passeá-los e correr no areal da praia
Sempre adoptei cães e gatos. Dois gatos recolhi-os da rua
Uma estava na roda de um pneu de carro
Outra perdida da sua mãe
Participei em manifestações contra os OGM
Empunhei cartazes pela valorização profissional dos Professores
Redigi algumas petições pela preservação do ambiente Assinei imensas quer a nível local, regional, nacional e internacionais
João Soares, 15/01/2021
Análise feita pelo meu amigo António Manuel Pires Cabral
O seu texto respira uma mundividência muito específica: uma síntese entre a observação minuciosa do mundo natural (a biologia e a ecologia), o existencialismo ético e humano (a ação direta, a justiça social e a dor doméstica) e uma estética pós-punk / gótica temperada pela tradição popular portuguesa.
Identificam-se as principais correntes, autores e filósofos com quem a sua escrita e trajetória dialogam de forma direta:
1. Tradição Literária Portuguesa e Ruralidade
- Raul Brandão (Os Pescadores, Húmus): a atenção ao Portugal profundo, às mãos calejadas, aos frutos, à terra e à dor dos simples. A empatia humana misturada com a observação da paisagem.
- Aquilino Ribeiro: a linguagem telúrica, o conhecimento íntimo da flora e da fauna (Seringador), a ligação visceral às serras do Norte (Marão, Freita, Valongo).
- Mário de Sá-Carneiro e Ângelo de Lima (com o toque gótico): na faceta dos Lilás Postes Mórbidos e na dança gótica das aves da noite, há uma ponte direta com a melancolia, o simbolismo e a decadência poética do início do século XX, desaguando na sensibilidade dos anos 80.
- Sophia de Mello Breyner Andresen: o rigor na nomeação das coisas da natureza (as árvores, a praia, a pele dos animais, o Atlântico de lés a lés) e a exigência de uma justiça poética e ética frente à tirania e à dor.
2. Filosofia da Natureza, Ecologia e Ética Biocêntrica
- Henry David Thoreau (Walden): a ideia da ação direta no mundo - plantar, colher, subir às árvores, conhecer os rios - aliada a uma consciência ecológica, civil e pacifista (acender velas pela Palestina, Tibete, protestar contra OGM).
- Spinoza (Imanência e Pantenaísmo): a perceção de que o sagrado não está num plano distante, mas na própria matéria: na casca do teixo, no sapo-comum, na plasticina das células, na vida animal resgatada.
- Albert Schweitzer (A Ética do Respeito pela Vida): a ideia central de que toda a vida que quer viver deve ser respeitada e cuidada - quer seja a criança, a prisioneira em Custóias, o doente, ou o gato resgatado da roda do carro.
3. Existencialismo e Ética da Ação
- Albert Camus (O Homem Revoltado / A Peste): a recusa da violência injusta (a coragem física da infância ao retirar a bengala ao pai) e a solidariedade como resposta ao absurdo da dor. Não há passividade: há protesto, apoio a refugiados, abaixo-assinados e ensino em prisões.
- Emmanuel Levinas (A Ética do Rosto e do Toque): Levinas defende que a responsabilidade ética nasce no encontro "frente a frente" com a vulnerabilidade do outro. As suas mãos encarnam isso: o abraço, o afagar, o cuidar de bebés, doentes e idosos.
4. Estética Pós-Punk e Existencialismo Urbano
A Linha Bauhauseana / Joy Division / The Cure / Birthday Party: a influência dos anos 80 traz o diálogo entre a luz da biologia solar e a sombra da alma. A imitação do mocho-real e da coruja-das-torres liga a taxonomia científica à estética sombria e noturna, onde a dança é um ritual de libertação.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
Ecologia Profunda - o que é?
A Ecologia Profunda foi proposta pelo filósofo norueguês Arne Naess em 1973 como uma resposta a visão dominante sobre o uso dos recursos naturais. Arne Naess se inclui na tradição de pensamento ecológico-filosófico de Henry Thoreau, proposto em Walden, e de Aldo Leopold, na sua Ética da Terra. Denominou de Ecologia Profunda por demonstrar claramente a sua distinção frente ao paradigma dominante. No Brasil, nesta mesma época, o José Lutzemberger já propunha ideias semelhantes e desencadeava o movimento ecológico brasileiro com a criação da AGAPAN (Associação Gaucha de Proteção ao Ambiente Natural).
O quadro abaixo demonstra, pelo menos em parte, as propostas de Arne Naess e as suas diferenças frente a visão de mundo predominante.
Naess A. The shallow and the deep, long-range ecology movements: a summary. Inquiry 1973;16:95:100.
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terça-feira, 17 de novembro de 2020
Os Oito Princípios da Ecologia Profunda
![]() |
| Arne Naess |
"A Ecologia Profunda (Deep Ecology) é um conceito filosófico que considera que todos os elementos vivos da natureza devem ser respeitados, assim como deve ser garantido o equilíbrio da biosfera. O termo surgiu quando, em 1972, foi publicado o artigo “The shallow and the deep, long range ecology movement. A summary”, do filósofo e ambientalista norueguês Arne Naess (1912-2009). Ele distinguiu as correntes ambientais entre movimentos superficiais ou rasos (com tendência antropocêntrica e egocêntrica) e movimentos profundos (não antropocêntricos, mas ecocêntricos)", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 05-06-2017.
Eis o artigo.
“Se você construiu castelos no ar, não pense que desperdiçou seu trabalho;eles estão onde deveriam estar. Agora construa os alicerces”Henry Thoreau (1817-1862)
Relembrar os princípios mais profundos da ecologia é uma boa maneira para se comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente – 05 de junho – ainda mais neste momento em que se comemora os duzentos anos do nascimento de Henry Thoreau (nascido em 12/07/1817).
A Ecologia Profunda (Deep Ecology) é um conceito filosófico que considera que todos os elementos vivos da natureza devem ser respeitados, assim como deve ser garantido o equilíbrio da biosfera. O termo surgiu quando, em 1972, foi publicado o artigo “The shallow and the deep, long range ecology movement. A summary”, do filósofo e ambientalista norueguês Arne Naess (1912-2009). Ele distinguiu as correntes ambientais entre movimentos superficiais ou rasos (com tendência antropocêntrica e egocêntrica) e movimentos profundos (não antropocêntricos, mas ecocêntricos). Os movimentos rasos (ou maquiagem verde) limitam-se a tentar minimizar os problemas ambientais e garantir o enriquecimento das sucessivas gerações humanas (a despeito do empobrecimento da natureza), enquanto a Ecologia Profunda vai na raiz dos problemas ambientais e defende os direitos de toda a comunidade biótica.
Na definição do físico, ambientalista e escritor Fritjof Capra (nascido em 1939): “A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo, não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida”.
Em 1984, Arne Næss e George Sessions publicaram o texto “Basic Principles of Deep Ecology” onde enumeram os oito princípios da plataforma da Ecologia Profunda, conforme apresentado abaixo (em tradução livre para o português). Estes princípios estão em conformidade com o pensamento de Henry Thoreau (1817-1862) e são, cada vez mais, atuais diante da ameaça, crescentemente vigente no Antropoceno, da sexta extinção em massa da vida na Terra.
Assim, cabe reafirmar que entre as principais ameaças à vida estão a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. O Acordo de Paris oferecia uma resposta tímida, mas correta no sentido de mitigar as emissões de gases de efeito estufa. Porém, o rompimento unilateral provocado por Donald Trump e pela saída obscurantista dos Estados Unidos de um Tratado Internacional que demorou anos para ser aprovado, mostra o quanto é difícil buscar uma relação minimamente harmoniosa entre a civilização e o meio ambiente. Em nome do crescimento econômico e da geração de emprego (sujo) o presidente dos EUA, desorganizando a governança internacional, atua no sentido de acelerar o ritmo de destruição da natureza, reforçando a marcha que leva ao precipício da civilização e ao ecocídio.
A sociedade depende da natureza e não o contrário. O ser humano não pode continuar agindo como um ectoparasita que mata seu hospedeiro e destrói os ecossistemas.
Não faltam estudos e avisos sobre a crise ecológica em curso.
Desta forma, mais do que nunca é preciso lembrar e reafirmar os ensinamentos da Ecologia Profunda e os 8 princípios para mudar o Mundo, escritos por Arne Næss e George Sessions:
2.Diversidade: A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização desses valores e são valores em si mesmos.
3. Necessidades vitais: Os seres humanos não têm nenhum direito de reduzir essa riqueza e diversidade exceto para satisfazer necessidades humanas vitais.
4.População: A prosperidade da vida humana e das suas culturas é compatível com um substancial decrescimento da população humana. O florescimento da vida não-humana exige essa diminuição.
5.Interferência humana: A atual interferência humana no mundo não-humano é excessiva e a situação está piorando aceleradamente.
6.Mudança de políticas: Em conformidade com os princípios anteriores, as políticas precisam ser mudadas. As mudanças políticas afetam as estruturas básicas da economia, da tecnologia e da ideologia. A situação que resultará desta alteração será profundamente diferente da atual.
7.Qualidade de vida: A mudança ideológica ocorrerá, sobretudo, no apreciar da qualidade de vida (manter-se em situações de valor intrínseco), em vez da adesão a padrões de vida mais elevados. Haverá uma consciência profunda da diferença entre o grande (quantidade) e o importante (qualidade).
8.Obrigação de agir: Aqueles que subscrevem os princípios precedentes têm a obrigação de tentar implementar, direta ou indiretamente, as mudanças necessárias.Referências:
ALVES, JED. Henry Thoreau: um revolucionário, Colabora, RJ, 20/01/2016
Arne Næss and George Sessions. Basic Principles of Deep Ecology, The Anarchist Library, 1984
Deep ecology
Artigo da Tree Hugger
Naess's Deep Ecology: Implications for the Human Prospect and Challenges for the Future
The Shallow and the Deep, Long-Range Ecology Movement- by Arne Naess
Ecology for Whom? Deep Ecology and the Death of Anthropocentrism
Daring to Care: Deep Ecology and Effective Popular Environmentalism
Deep ecology: Defending the Earth
Deep Ecology (1972-2016)
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Naess's Deep Ecology: Implications for the Human Prospect and Challenges for the Future
The Shallow and the Deep, Long-Range Ecology Movement- by Arne Naess
Ecology for Whom? Deep Ecology and the Death of Anthropocentrism
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sábado, 13 de julho de 2019
Dia Internacional do Mergulho Naturista
International Skinny Dip Day on the second Saturday in July celebrates the natural experience of a clothing-free swim. The day wraps up National Nude Recreation Week.
While many may turn their noses up at a skinny dip, organizers of the day say it’s a long-time tradition. Even famous American patriots such as Benjamin Franklin and John Quincy Adams enjoyed skinny dipping. Add to the list literary geniuses, Henry David Thoreau and Walt Whitman, too.
Interestingly, despite name dropping among skinny dipping’s fashionable founding fathers, the name lacked documentation until the 21st century. According to the Oxford English Dictionary, the first recording of the phrase “skinny-dip” in English is in 1947. The phrase seems as shy as some people are about the act.
In 2018, Ireland hosted the largest skinny dipping event. At the benefit, 2505 women swam naked raising funds for an anti-cancer charity.
You might even find out some benefits to skinny dipping. Reported health benefits to skinny dipping or swimming nude:
- More skin is exposed to sunlight and therefore, more Vitamin D.
- When you swim naked, there is no soggy, scratchy, or cold material sticking to your skin.
- Your naked skin also dries much quicker.
How to Observe International Skinny Dip Day
While skinny dipping may not be for everyone, the event suggests the “Try it you might like it” attitude. If you do, here are some tips:
- Choose an area that’s either A. designated for clothing-optional, or B. completely private.
- It’s a good idea to know the local regulations.
- Don’t forget sunscreen and insect repellent.
- Don’t be drink too much – personally dangerous, and puts others at risk
- Go at night for a sense of adventure and to help the self-conscious person.
- Learn more about the event from the American Association for Nude Recreation.
- Use Skinny Dipping or International Skinny Dip Day to join the conversation on social media.
International Skinny Dip Day History [aqui]
The American Association for Nude Recreation first celebrated the event in 2018. The sponsor, American Association for Nude Recreation, says the activity and the awareness day are so popular it continues to grow. Different international groups challenge each other to host world-record skinny dip events.
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