Mostrar mensagens com a etiqueta Estatística. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Estatística. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

sábado, 4 de julho de 2026

Criminalidade. Revisão da população mostra país ainda mais seguro

A taxa de criminalidade foi revista em baixa nos últimos anos, na sequência das alterações do INE. O país vive um dos períodos com menor incidência da criminalidade em quase trinta anos. Este artigo integra a rubrica Visão Periférica.
4 Julho 2026, 11h00

Muita tinta já correu na sequência da disrupção estatística provocada pela revisão populacional do INE. Mas não ficará por aqui. Esperam-se outras repercussões nos próximos tempos, tendo em conta que estão a ser revisitados vários indicadores que dependem da população, como a riqueza anual por habitante ou dados relativos ao emprego e à saúde. Um deles - a taxa de criminalidade - já foi atualizado esta semana pelo INE, mas passou despercebido.

Os novos dados mostram que houve 32 crimes por cada mil habitantes em 2025, uma subida face a 2024 (31,2), mas abaixo de 2023 (33,2). Estes últimos dois valores (tal como os dos dois anos anteriores) são já reflexo da revisão do INE — antes, estavam em causa mais dois crimes por mil habitantes (33 e 35, respetivamente, segundo as contas do Jornal Económico).

Isto significa que a taxa de criminalidade do ano passado é a quinta mais baixa desde 1998. E a taxa de 2024 passa a ser a terceira. Nesta comparação, estão incluídos os anos de 2020 (28,7 crimes) e 2021 (28,4) - períodos em que houve confinamentos e, por arrasto, menos oportunidades para várias tipologias de crime. Dito de outro modo, se não contássemos com este período de excepção, o valor de 2024 teria sido o mais baixo em pelo menos 28 anos. E a taxa de 2025 seria a terceira mais baixa.

Convém notar que a incidência da criminalidade em Portugal, nos últimos anos, já se encontrava em níveis reduzidos quando comparada com outros períodos da história recente. Mesmo antes desta revisão, o pico de 2023 era inferior a qualquer taxa entre 1999 e 2013.

Os valores mais elevados foram registados entre 2008 e 2010 (na casa dos 40 crimes), período que coincide com a crise financeira global. Nos anos seguintes, durante a Troika, houve uma progressiva redução, com quatro descidas consecutivas a partir de 2011 (até atingir 33,8 em 2014), num contexto de queda da população (menos 163 mil pessoas em quatro anos). E depois estabilizou: em seis dos últimos oito anos (com exceção do período da pandemia), andou sempre entre 31 e 32 crimes por mil habitantes.


Claro que nem todos os crimes são iguais, mas a análise por categoria não altera as conclusões. Nos crimes contra a integridade física, a taxa de criminalidade está em 5 por 1.000 habitantes, o valor mais baixo desde pelo menos 2011. O mesmo se aplica aos furtos de veículo e em veículo motorizado (2,4) e aos furtos e roubos por esticão e na via pública (0,6) — neste caso, ao mesmo nível do período 2021-2023. Os crimes contra o património (16,2) só não são o valor mais reduzido porque na pandemia houve menos (de 2020 a 2022 oscilou entre 14 e 15 por mil habitantes).

As duas únicas categorias em que a taxa de criminalidade não está em níveis historicamente baixos dizem respeito ao comportamento na estrada: a condução com taxa de álcool igual ou superior a 1,2 g/l é de 2 por cada mil (tinha sido inferior entre 2017 e 2021 e em 2024) e a condução sem habilitação (1,3), que supera nove dos últimos 15 anos.

Os imigrantes
Comparando com os dados imediatamente anteriores à pandemia, houve um aumento de 9% na criminalidade registada entre 2019 e 2025: mais 30 mil, para um total de 365 mil crimes, segundo as contas do JE, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), publicado no final de março. Só que, sabemos agora, este aumento ocorreu enquanto a população crescia 10,1%, cerca de um milhão de pessoas desde 2019, sobretudo imigrantes.

Numa altura em que os cidadãos estrangeiros representam 14% da população, a incidência da criminalidade é uma das mais baixas em quase três décadas, comparando bem com o pré-pandemia (32,3 crimes por mil habitantes em 2019) e com o registo de há uma década (os mesmos 32 crimes em 2016). Nesses anos, porém, os cidadãos estrangeiros representavam apenas entre 3% e 4% dos residentes. Ou seja, o peso dos imigrantes duplicou no país, mas os níveis de criminalidade mantiveram-se estáveis em relação à população, contrariando as narrativas populistas.

domingo, 21 de junho de 2026

Investigadores portugueses estudam ligação entre poluição do ar e desigualdades ambientais

A poluição do ar é considerada o maior risco ambiental para a saúde humana, segundo entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e a Agência Europeia do Ambiente.

Contudo, persistem lacunas no conhecimento de como a poluição do ar se relacionada com outras dimensões centrais para a compreensão devida do problema, como o facto de nem todas as pessoas e comunidades são afetadas da mesma forma.

Grupos humanos mais vulneráveis podem estar mais expostos à poluição do ar do que outros, os impactos podem ser mais fortemente sentidos em certas áreas ou regiões e não tanto noutras, levantando questões relacionadas com desigualdades e justiça ambientais.

Foi essa constatação que levou um grupo de investigadores, liderado por membros de instituições académicas e centros de investigação portugueses, a rever o conhecimento existente para perceber se, e também como, conceitos relacionados com desigualdades e justiça ambientais são tidos em conta em avaliações dos impactos da poluição do ar na saúde.

O trabalho, liderado pela Universidade de Aveiro em colaboração com a Universidade de Coimbra, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes (LASI), sediado na Universidade do Minho, e também a University of the West of England (Reino Unido), analisou 99 artigos científicos. Nesse exame, foram tidos em conta diferentes aspetos como o enquadramento conceptual, a região estudada, a escala temporal, os dados e indicadores utilizados e os métodos de análise aplicados, sejam estatísticos, numéricos ou baseados em inquéritos.

Os resultados, revelados num artigo publicado na revista ‘Heliyon’, mostram que os estudos sobre justiça ambiental associados à poluição do ar foram realizados em 21 países, sendo os Estados Unidos da América responsáveis pela maioria das investigações (53%). Seguem-se Canadá (6%) e China (5%).

Em termos temporais, mais de metade dos estudos foram publicados nos últimos cinco anos, o que os investigadores dizem refletir “um crescimento recente do interesse científico neste tema”. A maioria das investigações analisa impactos de longo prazo da poluição atmosférica.

Relativamente aos dados que são utilizados, a maior parte dos trabalhos centra-se nas partículas finas PM2.5, um dos poluentes mais associados a riscos para a saúde. No entanto, apenas cerca de metade dos estudos inclui explicitamente dados sobre saúde ou níveis de exposição, avança esta equipa.

Todos os artigos analisados abordam questões de justiça ambiental relacionadas com estatuto socioeconómico ou raça/etnia. Entre os indicadores socioeconómicos mais utilizados, mostra este estudo, destacam-se os dados de rendimento (99%), seguidos de indicadores de caracterização populacional e de habitação.

O método de análise mais frequente é a análise estatística, utilizada em 71% dos estudos. Cerca de 14% recorrem a inquéritos e 15% utilizam modelos de simulação para explorar cenários.

Com base na revisão, os autores deste artigo consideram que ainda existe margem para o desenvolvimento de novos estudos, especialmente na Europa e noutras regiões menos representadas. Os investigadores, é avançado em comunicado da Universidade de Aveiro, defendem a utilização de modelos estatísticos “mais robustos e métodos mistos”, que sejam capazes de lidar com “a complexidade das múltiplas variáveis envolvidas neste tipo de investigação”.

Em escalas geográficas mais pequenas, os autores recomendam também a realização de estudos apoiados por inquéritos, que permitam “integrar indicadores socioeconómicos tanto individuais como contextuais”. A revisão destaca ainda que poucos estudos abordam perceções sociais ou o envolvimento dos cidadãos nas questões relacionadas com a poluição do ar.

A equipa conclui que é preciso aprofundar o conhecimento sobre as dimensões sociais da poluição atmosférica, algo que permitirá contribuir de forma importante para políticas ambientais e de saúde pública mais equitativas.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa


A Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) é uma oportunidade para reunir governos e a sociedade civil para ação orquestrada em prol da melhoria de vida das pessoas idosas.

A violência contra idosos é um problema subnotificado mundialmente que existe tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos. Embora a extensão dos maus-tratos contra idosos seja desconhecida, sua importância social e moral é incontestável.

Por isso, a ONU instituiu o dia 15 de junho de 2006 como o Dia Mundial da da Consciencialização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa para definir abordagens culturalmente contextualizadas para detectar e lidar com a violência contra esse grupo populacional.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou nos últimos cinco anos 8.540 pessoas idosas vítimas de crime e violência, o que representa uma média de cinco por dia, divulgou hoje a instituição.
Os dados estatísticos da APAV indicam um aumento de 26,5% no número de idosos apoiados entre 2021 e 2025, sendo que a ajuda foi dada em resposta a 15.804 crimes e outras formas de violência
A violência doméstica continua a ser o crime mais frequentemente registado, representando 78,9% das situações acompanhadas pela APAV, o que corresponde a 12.465 crimes.

Seguem-se a ameaça ou coação (3,7%), a ofensa à integridade física (3,7%), a difamação ou injúria (3%) e a burla (2%).
A maioria das vítimas apoiadas era do sexo feminino (76,3%), tinha entre 65 e 74 anos (49,4%) e nacionalidade portuguesa (92,7%), sendo mais de metade (55,9%) dos agressores do sexo masculino.
A APAV assinala que "a violência contra pessoas idosas ocorre maioritariamente em contexto familiar, sendo a pessoa agressora, na maioria das situações, filha ou filho da vítima (32,3%), seguida do cônjuge (21,5%)", acrescentando que 29,8% dos agressores tem entre 25 e 64 anos.
A associação salienta também que "mais de metade das vítimas apoiadas (53,6%) encontravam-se em situação de vitimação continuada", entre as quais 23,4% que viveram situações de violência durante um período compreendido entre dois e seis anos antes de procurar apoio.
Quase metade das vítimas (46,6%) não apresentou queixa nem viu a sua situação denunciada às autoridades.
Para a instituição, "estas estatísticas reforçam a necessidade de continuar a investir na prevenção, deteção precoce e apoio especializado às pessoas idosas vítimas de crime e violência, bem como na sensibilização da sociedade para uma realidade frequentemente invisível".
A APAV, criada em 1990, presta apoio jurídico, psicológico e social, gratuito e confidencial, por telefone, através da Linha de Apoio à Vítima 116 006, 'online', no Chatbot APAV, e presencialmente nos seus gabinetes espalhados pelo país.




Veja mais

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cerca de 290 lobos em Portugal e quase 400 prejuízos comunicados este ano

Quase 400 comunicações de prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico já chegaram este ano ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O número foi avançado ontem, na Assembleia da República, durante uma audição sobre a proteção da espécie e os impactos na pecuária, e aproxima-se das 511 comunicações registadas em todo o ano anterior.
A audição, requerida pelo PAN e pelo Chega, decorreu na Comissão de Agricultura e Pescas e teve como pano de fundo o Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Ministério do Ambiente e Energia. Em debate estiveram as medidas de conservação do lobo-ibérico, mas também a resposta aos produtores pecuários afetados por ataques ao gado.
O ICNF associou o aumento das comunicações à atualização dos valores das compensações, admitindo que muitos produtores que anteriormente já não participavam os prejuízos poderão ter voltado a fazê-lo. O instituto defendeu ainda que o Programa Alcateia foi construído com entidades envolvidas no processo e que foram realizadas ações de comunicação para o fazer chegar aos interessados.
Mas os números abriram uma discussão mais larga sobre a eficácia das respostas no terreno. A Rewilding Portugal defendeu a criação de uma linha telefónica dedicada no ICNF para criadores sem meios digitais, a possibilidade de participação presencial nas juntas de freguesia, GNR ou serviços municipais, melhor articulação entre plataformas como IFAP e SENIRA e vistorias no próprio dia da comunicação. A entidade lembrou ainda que os valores das compensações foram atualizados em 2025 pela primeira vez desde 2017, após oito anos sem revisão.
A dimensão da população de lobo-ibérico em Portugal também entrou na discussão. A Palombar indicou que a espécie tem uma população pequena, fragmentada e em regressão, com uma redução de cerca de 20% da área de presença nas últimas duas décadas. O efetivo nacional foi estimado entre 190 e 390 animais, com uma média aproximada de 290 lobos.
A mesma associação defendeu que a coexistência passa por equipas de proximidade nas zonas onde surgem conflitos, apoio técnico às explorações, valorização da pastorícia, cães de proteção de gado e melhor prevenção. Segundo a Palombar, quando bem aplicadas, as medidas preventivas podem reduzir em 95% o número de ataques.
O BIOPOLIS/CIBIO alertou para a necessidade de análises forenses e genéticas que permitam identificar a origem dos ataques ao gado. A investigadora Raquel Godinho sublinhou a presença de cães errantes no território e o risco de hibridação entre cão e lobo, defendendo monitorização sistemática para distinguir ataques de lobos, cães ou híbridos.
O Grupo Lobo apontou o furtivismo como um dos principais problemas para a conservação da espécie e defendeu equipas de intervenção rápida, cães de proteção de gado, dispositivos de prevenção, melhoria do habitat e promoção de presas silvestres, como o corço. A associação admitiu o pagamento de prejuízos em caso de dúvida, mas rejeitou subsídios de risco generalizados, defendendo antes a valorização dos produtores que aplicam medidas de prevenção.
Da audição saiu um conjunto de prioridades: compensações mais rápidas, menos burocracia, equipas no terreno, controlo de cães errantes, combate ao furtivismo, melhor monitorização científica e apoio direto aos produtores em zonas de presença do lobo.
Em regiões como Trás-os-Montes, o Barroso e o Alto Tâmega, onde a pecuária extensiva mantém peso económico e social, a aplicação prática destas medidas será determinante para compatibilizar a conservação do lobo-ibérico com a atividade das explorações agrícolas.

terça-feira, 10 de março de 2026

What are the world’s deadliest animals, and can we protect ourselves against them?

O artigo explica que, embora tenhamos medo de tubarões ou lobos, os animais que mais matam humanos são os mosquitos (cerca de 700.000 a 1 milhão de mortes/ano por doenças) e as cobras. O gráfico do Our World in Data mostra que o risco real está muito mais ligado à exposição a doenças e parasitas do que a ataques diretos de grandes animais.

One and a half million people are killed by animals every year. Almost one million by other animals, and more than half a million from direct conflict among ourselves.

Almost all of these deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

In the chart above, we’ve brought together estimates of the number of people killed by different animals.

These numbers are estimates, and some come with significant uncertainty. That’s why we’ve published a detailed methodology explaining our sources and how they compare. Despite this uncertainty, we feel confident about the relative orders of magnitude across different animals.1

The biggest killers, by far, are mosquitoes. They have been one of our biggest threats for millennia, and still kill approximately 760,000 people every year.2 Over 80% of those deaths are the result of malaria, which is transmitted and spread by the Anopheles mosquito. Malaria still kills close to half a million children every year.

Another 100,000 people die every year from other mosquito-borne diseases, including dengue fever and yellow fever (spread by the mosquito species Aedes aegypti) and Japanese encephalitis.

Almost all deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

Snakes are one of the most common phobias, and you can see why. They are the second largest killers. The death toll from venomous snakes is surprisingly uncertain, as many of these deaths occur in rural areas where death records are often poor.3 But the figure is likely to be around 100,000 deaths per year. That means snakes kill more than all animals below them on the list combined.4

Most of those remaining deaths are caused by dogs, the animals that humans have grown to love as domesticated pets. The majority are due to rabies, rather than direct wounds.

Near the bottom of the list, we reach the animals that dominate our nightmares — sharks and wolves. They make for gripping headlines and blockbuster films. But in reality, shark and wolf attacks are very rare.

Of course, they don’t kill fewer people because they’re less dangerous. We’d rather be locked in a room with a mosquito than a lion. The real difference is exposure: it’s much easier to avoid large predators than it is to avoid disease-carrying insects and parasites.5

The good news is that most deaths from animals — especially the largest killers — are preventable. We have bednets and insecticide sprays to reduce exposure to mosquitoes, and medication to treat malaria if someone does become infected. New techniques, such as the Wolbachia method, have been developed to stop the spread of dengue fever. Antivenoms can often save someone from a potentially fatal snakebite.6

The problem is that not everyone has access to these preventive and treatment methods when they need them.7 If these small killers received the same global attention as large predators, more effort might go into stopping them. That is one reason why these comparisons are useful: as a reminder of what people are actually dying from, and where the most lives could be saved.There are other diseases — in particular, neglected tropical diseases — that could also be dramatically reduced with better access to treatment.

In many regions, deaths from mosquitoes have decreased dramatically. Malaria was once prevalent in countries that are now free of it. If we could achieve this in all parts of the world, the number of deaths caused by other animals would be almost six times smaller.8

If we were to also eliminate deaths from snakes through the use of antivenoms and better diagnostics, the death toll would be again reduced by almost two-thirds.9


Methodology

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Tendências recentes sobre o tráfico ilegal de marfim


1. Tendência global recente (2015–2024)
👉 Antes da COVID-19 (2015-2019):
O tráfico de marfim atingiu níveis muito elevados, com grandes apreensões de várias toneladas partindo sobretudo de África para a Ásia. Em 2019, houve apreensões recorde de marfim representando dezenas de toneladas. Wildlife Justice Commission+1


👉 Impacto da pandemia (2020-2024):
A pandemia de COVID-19 disrompeu fortemente as cadeias de tráfico, levando a:

  1. queda substancial no número de grandes apreensões de marfim;
  2. menor volume total reportado de apreensões em comparação com o período pré-pandemia;
  3. mercados ilegais aparentemente mais estáveis, porém em níveis mais baixos do que antes de 2020. Wildlife Justice Commission+1

📉 2. Estatísticas de apreensões recentes
✔ Entre 2023 e abril de 2025, cerca de 25 toneladas métricas de marfim foram confiscadas mundialmente, com a maior parte de grandes apreensões ainda sendo relatadas
👉 No entanto, especialistas observam que:
  1. pode haver menos detecções porque as redes criminosas estão melhorando as técnicas de ocultação e/ou mudando métodos operacionais;
  2. ou simplesmente porque a ação contra o tráfico tem sido mais eficaz em certos pontos. 
  3. Portanto, o volume de apreensões sozinho não fornece o quadro completo - mudanças nas técnicas de tráfico podem ocultar tendências reais.
🐘 3. Poaching e impacto sobre elefantes
📍 Estimativas anteriores (antes de 2018) mostraram que o tráfico de marfim estava ligado à morte de dezenas de milhares de elefantes por ano (ex.: até cerca de 40 000 elefantes mortos anualmente em alguns períodos históricos).
👉 Estas estimativas variam muito ao longo do tempo e dependem de dados de campo e modelagens, mas indicam o enorme impacto histórico do tráfico sobre populações de elefantes.

🌍 4. Factores que influenciam as tendências
📌 Redução da procura legal
Proibições e encerramentos de mercados domésticos (como na China e em outros países) reduziram a compra aberta de marfim, afetando a dinâmica global do tráfico
📌 Online e mercados ocultos
Apesar das proibições, vendas ilegais online continuam ativas, com plataformas sociais facilitando oferta e procura em alguns mercados regionais. 
📌 Ações de fiscalização e legislação
Leis mais duras e operações internacionais (como apreensões e cooperação policial) têm contribuído para reduzir algumas rotas de tráfico - embora redes criminosas ainda se adaptem

📊 Em resumo
Período Tendência do Tráfico de Marfim2015–2019

Queda significativa e estabilização 
Wildlife Justice Commission2023–2025 - Apreensões ainda grandes, mas menor que antes da pandemia 

Artigo Científico

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mão de obra imigrante é nove anos mais jovem do que a portuguesa – estudo


Os imigrantes que trabalham em Portugal são, em média, nove anos mais novos que a força de trabalho portuguesa, segundo uma análise estatística hoje divulgada.

De acordo com uma pesquisa da plataforma Prepara Portugal, com base nos dados cruzados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), “em 2023, a idade mediana dos trabalhadores estrangeiros era de 33 anos, enquanto a dos trabalhadores portugueses atingia os 42 anos”, um sinal de que os imigrantes contribuem para o “rejuvenescimento do mercado de trabalho nacional”.

Por outro lado, o estudo indica que mais de 85% da população estrangeira residente em Portugal encontra-se em idade ativa, muito acima da população portuguesa.

“Entre os nacionais, o grupo com 65 anos ou mais representa mais de 24% da população, enquanto entre os imigrantes esse valor não ultrapassa 8,5%”, refere Higor Cerqueira, diretor pedagógico do Prepara Portugal, uma plataforma destinada a estudantes internacionais e imigrantes que procuram inserção profissional no mercado português.

Segundo o estudo, cuja versão final será apresentada em janeiro, os imigrantes “estão fortemente inseridos em setores estratégicos como construção civil, turismo, restauração, agricultura, serviços administrativos e tecnologia da informação, áreas que enfrentam escassez estrutural de mão de obra nacional”.

De acordo com Pedro Stob, formador do curso de Análise de Dados e Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão, do Centro de Formação Prepara Portugal, o objetivo final foi formar “alunos a trabalhar com dados reais, interpretar fenómenos sociais complexos e comunicar conclusões com impacto para a sociedade”.

“O estudo aponta ainda para uma integração progressiva dos imigrantes no mercado laboral, refletida na melhoria das taxas de emprego e no aumento gradual das remunerações médias ao longo do período analisado, apesar da persistência de desafios como diferenças salariais, reconhecimento de qualificações e estabilidade contratual em alguns setores”, referem os autores.

sábado, 13 de dezembro de 2025

A fuga de talento jovem continua, apesar da narrativa ‘cor-de-rosa’


A ideia de que Portugal deixou para trás o problema da emigração jovem e da fuga líquida de talento não resiste a uma análise séria dos dados completos.

Esta crónica procuro desmontar uma narrativa recente — e agora convenientemente repescada — que retrata a economia portuguesa como estando numa trajetória excecionalmente favorável. Trata-se de uma leitura profundamente deslocada da realidade e enviesada, assente em dados incompletos e interpretações apressadas. Entre os seus argumentos mais repetidos está a ideia de que Portugal estaria finalmente a inverter o seu padrão de especialização, alegadamente sustentado por fluxos migratórios positivos e pelo regresso de jovens emigrantes altamente qualificados. Se tal fosse verdade, significaria que o país teria ultrapassado o problema estrutural da emigração jovem e da contínua fuga de talento.

Nada poderia estar mais distante dos factos. O saldo migratório positivo recentemente observado é essencialmente temporário e artificial, resultando de fatores extraordinários e não de uma mudança estrutural do modelo económico. A fuga de talento não só persiste como continua a refletir o baixo perfil de especialização da economia portuguesa, incapaz de oferecer, de forma consistente, oportunidades qualificadas e bem remuneradas. As leituras otimistas que sugerem o contrário assentam em dados incompletos e em análises que ignoram dimensões essenciais do fenómeno migratório.


Publicidade
Infelizmente, este retrato “cor-de-rosa” está muito longe de corresponder à realidade. Como mostrarei de seguida, a evidência aponta no sentido inverso, revelando um quadro que contraria de forma quase absoluta essa visão simplista e auto-complacente. E a verdade é dura, mas incontornável: Sem reformas profundas que elevem o perfil de especialização da economia e criem oportunidades qualificadas em todo o território, Portugal continuará a perder jovens e qualificados, prolongando a sangria demográfica e comprometendo o seu potencial de desenvolvimento.

Saldo migratório dos ‘naturais’ positivo apenas conjuntural, já diminuto e dependente de apoios
Decompor o saldo migratório total — entradas menos saídas — entre o contributo dos estrangeiros e o dos nacionais, que inclui tanto os nascidos em Portugal como os que adquiriram a nacionalidade pelos mecanismos previstos na lei, com destaque para a naturalização, não é tarefa simples. Mais difícil ainda é isolar, dentro desse conjunto, o saldo migratório daqueles que efetivamente nasceram em Portugal, a que me refiro ao longo desta crónica como “naturais”.

Os principais resultados da análise encontram-se representados nas Figuras 1 e 2. Os valores dos saldos migratórios — não incluídos nas Figuras — podem ser consultados na parte C da Tabela 1 (que passarei a designar Tabela 1C), construída a partir dos dados de imigrantes (Tabela 1A) e de emigrantes (Tabela 1B). A Tabela 1 apresenta ainda (nas suas três partes), na última linha antes dos dados, o detalhe dos cálculos efetuados, e é acompanhada de notas explicativas, incluindo sobre as assunções relevantes utilizadas.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Australia banned social media for under-16s. Could other countries do so?

Australia is cracking down on social media for kids under 16, and Denmark  looks set to follow with a ban for under-15s.

From Wednesday, Australia is set to enforce a world-leading social media ban for anyone under 16, as concern grows that kids are getting too swept up in a digitised world of harmful content and commercial interests.

After Australia's first-of-its-kind social media ban for adolescents under the age of 16 came into effect in December, more countries in Europe and elsewhere are taking steps to implement their own restrictions. According to Statista research, France and the United Kingdom have gotten furthest, with laws passing in one chamber each of the countries' bicameral legislatures as of early February. While the latter country is also aiming to ban social media for kids under the age of 16, France's proposed law targets only those under the age of 15.

Six more nations have seen country leaders announce initiatives aiming to ban social media access for adolescents. While Indonesia, Malaysia, New Zealand and Spain all have more restrictive regulations in mind, excluding those under the age of 16, Greece is aiming to exclude those under the age of 15 and Austria those under the age of 14 from social media.

Social media, including personalized algorithms and the possibility to scroll endlessly, is receiving scrutiny for its effect on mental health, especially in younger people. Social media addiction can affect any age group, but it is seen as especially harmful in adolescents which are still developing social behaviors, body image and time management skills.

Two more planned bans announced in Europe, by Portuguese and Danish leadership, are reportedly willing to leave a back door open for parental consent, putting them in a different category that already exists in several nations like France, Italy and, since recently, Brazil, where children of the applicable ages can access social media sites if their parents are in agreement.

While outright bans like the Australian one often plan implementation via a strict official age-verification mechanism, parental consent regulation can work by linking parents accounts, for example. Instagram has meanwhile already rolled out this feature in Europe, the U.S., Australia and Canada, with teenagers between the ages of 13 to 15 only in the position to disable a special restricted account mode with the consent of their parent's account. Like other platforms, Instagram accepts users from the age of 13, but this restriction is so far not tied to verification. In the EU, social media sites are since 2018 under further restrictions concerning the use of personalized ads for minors.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Como é que os fatores ambientais contribuem para as doenças cardiovasculares na Europa?

Uma em cada cinco mortes por doenças cardiovasculares na UE poderia ser evitada com a melhoria do ambiente, de acordo com um novo relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA).

As doenças cardiovasculares são a causa mais comum de morte na UE, segundo a Sociedade Europeia de Cardiologia.

Em 2022, mais de 1,7 milhões de pessoas morreram na sequência destas doenças, representando um terço de todas as mortes no bloco nesse ano.

Contribuem também significativamente para a incapacidade, a reforma antecipada e o absentismo, o que diminui a qualidade de vida e reduz a esperança de vida.

Além do custo humano, as doenças cardiovasculares custam à UE mais de 282 mil milhões de euros anualmente devido à diminuição da produtividade e da produção económica, segundo a Comissão Europeia.

Para além das características pessoais, como a idade e o historial familiar, os fatores ambientais também desempenham um papel fundamental nas doenças cardiovasculares.

Na UE, estima-se que factores como a poluição atmosférica, as temperaturas extremas e os produtos químicos causem pelo menos 18% de todas as mortes por doenças cardiovasculares.


Em contraste, a Finlândia e a Suécia registaram as taxas mais baixas, com 9,72% e 10,01%, respetivamente.

A poluição atmosférica causa cerca de 8% das mortes por doenças cardiovasculares na UE por ano, segundo a Rede Europeia do Coração.

As partículas finas — provenientes de fontes como as emissões dos veículos, os processos industriais e a queima de combustíveis fósseis — o dióxido de azoto e o ozono são os três principais poluentes associados às doenças cardiovasculares na Europa.

Em 2022, a Polónia (82,32%) e a Irlanda (81,83%) foram os Estados-Membros com as taxas mais elevadas de mortes prematuras devido à exposição a partículas finas no bloco.

Por outro lado, a Finlândia e a Estónia registaram as percentagens mais baixas, com 5,48% e 11,21%, respetivamente.

A exposição prolongada a estes poluentes contribui significativamente para a mortalidade prematura e para as doenças cardiovasculares crónicas, incluindo ataques cardíacos, AVC e insuficiência cardíaca.

Estima-se ainda que cerca de 66.000 mortes prematuras anuais na UE sejam atribuíveis à exposição ao ruído dos transportes, sendo mais de 30% devido a causas cardiovasculares.

As políticas e regulamentos da UE, que visam combater a poluição atmosférica, estão, no entanto, a surtir efeito. A poluição atmosférica diminuiu em toda a UE, resultando num menor número de mortes prematuras atribuíveis.

Ainda assim, 95% dos residentes da UE, particularmente os que vivem em zonas urbanas, continuam expostos a níveis de poluição inseguros.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Quase metade de imigrantes recentes em Portugal sobrequalificados para trabalho que fazem


Foi divulgado esta segunda-feira o relatório da OCDE International Migration Outlook 2025. Entre vários dados apresentados relativamente ao fenómeno migratório em Portugal consta o cálculo de que 41% dos imigrantes recentes em Portugal são sobrequalificados para o trabalho que estão a fazer. Esta percentagem nos trabalhadores portugueses situa-se nos 12%, sendo assim um dos maiores fossos dos países analisados.

O nosso país é assim um dos destaques por ter uma taxa de sobrequalificação dos imigrantes “particularmente elevada” junto com a Itália, Noruega e Suécia. Isto contrasta com baixas taxas na Áustria e Alemanha e com uma taxa “praticamente nula no Canadá e nos Estados Unidos”.

Elencam-se explicações gerais para o desfasamento entre qualificações e emprego como os obstáculos no reconhecimento de qualificações e licenças profissionais, barreiras linguísticas e desajuste entre mercado de trabalho e qualificações.

No caso português salienta-se que 57% dos imigrantes são remetidos para a economia dos baixos salários dos setores do turismo, restauração e construção.

O estudo qualifica como imigrantes recentes” os que chegaram entre 2006 e 2015 e define sobrequalificação como o facto de o trabalhador deter um diploma de ensino superior e ter um trabalho que apenas exige qualificações médias ou baixas.

Portugal tem ainda uma das mais altas taxas de imigrantes empregados, 76%. E estes, quando entram no “mercado de trabalho” nacional ganham em média menos 28% do que os trabalhadores portugueses da mesma idade e sexo.

No país, o número de entradas de imigrantes de longa duração está a baixar. Entre 2023 e 2024 desceu 1,9%, sendo no total de 138.000. Neles se incluem 28% de imigrantes beneficiários de livre circulação, 44% de migrantes laborais e 14% de familiares, para além de estudantes internacionais do ensino superior que terão sido pelo menos 9.000.

Em termos gerais, a migração no espaço da OCDE desceu 4% em 2024, com um total de 6,2 milhões de novos migrantes de longa duração. No espaço da União Europeia este decréscimo é mais acentuado, nos EUA a tendência é de crescimento.

No conjunto dos países analisados, as razões familiares continuam a ser a maior causa, tendo a imigração laboral caído 21% e a humanitária aumentado 23%. Já a migração laboral estabilizou em 2,3 milhões e os estudantes do ensino superior foram 1,8 milhões, menos 13%.

O número de requerentes de asilo aumentou 13%. Na maior parte dos países até caiu, mas isso foi mais do que compensado por aumentos nos EUA, Canadá e Reino Unido. Na União Europeia, o número de deteções de passagens ilegais de fronteiras desceu 37% e nos EUA 48%. A percentagem de pessoas nascidas no estrangeiro nos países da OCDE situa-se nos 11.5%.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Israelitas concentram 40% das nacionalidades adquiridas em 2023

Das 41.393 pessoas que receberam passaporte português em 2023, os mais representados foram os Israelitas, com 16.377 cidadãos a adquirirem nacionalidade. Estes 40% de israelitas naturalizados são descendentes de judeus sefarditas. Esta informação consta nos últimos dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Do número total de estrangeiros naturalizados em 2023, 24.408 não vivem no país, ou seja, 60% dos cidadãos estrangeiros que adquiriram a nacionalidade portuguesa vivem fora de Portugal.

Os dados divulgados pelo INE revelam também que apenas um quarto de todas as nacionalidades adquiridas foi concedida a estrangeiros que residiam em Portugal há pelo menos seis anos. Destes, 30% são de países de língua portuguesa, como Brasil e Cabo Verde, com uma grande representação de ucranianos e nepaleses no número total de casos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Helsínquia cumpre um ano sem mortes na estrada: lições para Portugal



Helsínquia, capital da Finlândia, registou um feito histórico: entre julho de 2024 e julho de 2025 não houve mortes por atropelamento ou acidente rodoviário. A jornalista Adele Porters destacou, num artigo da revista Fast Company, o impacto das políticas de mobilidade urbana na prevenção de tragédias.

Este resultado deve-se sobretudo a um conjunto de medidas implementadas ao longo das últimas décadas. Entre elas destacam-se a exigência na formação de novos condutores, a adoção de métodos rigorosos de fiscalização e, sobretudo, a redução progressiva dos limites de velocidade dentro da cidade. Atualmente, cerca de 60% das vias de Helsínquia têm limite máximo de 30 km/h, um valor bastante inferior ao praticado em muitas capitais europeias.

Redução de velocidade: a chave para salvar vidas
A redução foi sendo feita de forma gradual: na década de 1970, a velocidade máxima era de 50 km/h na maioria das vias; já no início dos anos 2000, tinha baixado para 40 km/h. Esta mudança tem um impacto direto na sobrevivência das vítimas de acidentes. De acordo com o relatório Literature Review on Vehicle Travel Speeds and Pedestrian Injuries, do Departamento de Transportes dos Estados Unidos, uma pessoa atropelada por um veículo a 50 km/h tem oito vezes mais probabilidades de morrer do que alguém atingido por um automóvel a 30 km/h.

Outro fator determinante para a segurança rodoviária na Finlândia é a formação dos condutores. O processo inclui aulas teóricas e práticas, semelhantes às existentes em Portugal, mas com algumas diferenças de aplicação. Após a obtenção da carta, os condutores finlandeses entram num período probatório de dois anos, durante o qual não podem cometer mais de duas infrações graves. Caso contrário, perdem a licença e são obrigados a repetir os exames.

O regime probatório em Portugal: semelhanças mas resultados diferentes
Em Portugal, também existe um regime probatório, mas com duração de três anos. Durante esse tempo, os condutores estão sujeitos a regras mais restritivas: a taxa de álcool permitida é zero (0,0 g/l), o limite de velocidade nas autoestradas e vias reservadas é de 90 km/h (em vez dos habituais 120 km/h), e a acumulação de duas infrações graves ou de uma muito grave implica a revogação da carta, sendo necessário repetir todo o processo de obtenção do título de condução.

Apesar das semelhanças legislativas, os resultados práticos são bastante distintos. Em Portugal, as estatísticas continuam a revelar números preocupantes. Segundo o relatório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), entre 1 de janeiro e 15 de dezembro de 2024 registaram-se 453 mortes em acidentes rodoviários a nível nacional. Lisboa e Porto foram os distritos mais afetados, com 54 vítimas mortais cada um. Só no distrito de Lisboa, em 2024, ocorreram quatro mortes por atropelamento, número superior ao registado nos anos anteriores (duas mortes em 2022 e duas em 2023).

Resumo dos dados relativos a Lisboa em 2024: 54 mortes em acidentes rodoviários entre 1 de janeiro e 15 de dezembro; 4 mortes por atropelamento durante o ano (em separado das anteriores).

O segredo para o trânsito mais seguro em Helsínquia
O segredo das medidas para um trânsito seguro em Helsínquia está, em grande parte, no planeamento urbano. As vias públicas estreitas — com uma largura média de apenas 3,3 metros — e a plantação de árvores junto aos passeios criam uma sensação de espaço mais limitado, incentivando os condutores a reduzir a velocidade.

Os engenheiros de tráfego da cidade analisam regularmente acidentes com vítimas mortais para compreender se a conceção das vias pode ter contribuído para os mesmos. Sempre que um cruzamento é considerado perigoso para condutores, peões ou ciclistas, as autoridades intervêm, ajustando o espaço para aumentar a segurança.

Alternativas ao carro e transporte público eficiente
Com passeios largos e várias ciclovias, muitos habitantes de Helsínquia conseguem deslocar-se diariamente para o trabalho sem recorrer ao automóvel. Ao contrário de outras grandes cidades que desmantelaram as frotas de elétricos e reduziram investimentos em ferrovias em favor das estradas, a capital finlandesa manteve e reforçou a sua rede de transporte público, tornando-a amplamente utilizada.

A fiscalização é rigorosa e inclui uma rede de câmaras que multam automaticamente os veículos que excedam os limites de velocidade. Quem circula mais de 20 km/h acima do permitido enfrenta uma multa proporcional ao rendimento. Em 2023, um milionário foi multado em 121 mil euros por esta razão, tornando-se num dos casos mais comentados do país.

A comparação entre Helsínquia e Lisboa mostra como a combinação de políticas públicas consistentes, fiscalização eficaz e limites de velocidade adequados pode ter um impacto direto na preservação de vidas humanas. Enquanto a capital finlandesa celebra um ano sem vítimas mortais no trânsito, Portugal enfrenta ainda o desafio de reduzir significativamente as suas estatísticas rodoviárias.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Projecto Invisíveis


"Pronta para o 2º turno?
Depois do expediente, começa o segundo turno.
O que não dá dinheiro, mas dá dores nas costas.
Que não tem horário, mas ocupa tempo.
Que não conta para a reforma,
mas conta e muito na desigualdade.

Em casa, as mulheres trabalham três vezes mais.

Trabalho sem contrato, sem aplausos,
sem fim-de-semana:
cozinhar, limpar a casa,
cuidar dos filhos, tratar dos pais,
organizar tudo e ainda sorrir.

Sim, é trabalho.
Mesmo quando feito com amor, é trabalho.
Mesmo quando é invisível, tem valor.
E é preciso fazer esse tempo aparecer, agora:
porque se o mundo parasse para ver
quem realmente o sustenta…
O Mundo mudava.

Se fosse contabilizado, o trabalho não pago de cuidado e doméstico teria um valor na economia de 78 mil milhões de euros. Mais do triplo do sector do turismo.

Por isso, queremos algo tão simples, mas que parece revolucionário:
justiça.

"Tarefa de mulher” é um conceito antigo e ultrapassado.
Responsabilidade partilhada é justiça e também inteligência.

Homem que “ajuda” em casa não é moderno.
É mal informado.

Queremos horários flexíveis,
redes públicas de creches e lares,
apoios domiciliários
e empresas que percebam que
igualdade é produtividade.

Queremos que cada mulher
possa ser mais dona do seu tempo.
Não para fazer tudo.
Mas para fazer o que quiser.

Cuidar de si, estar com os filhos,
crescer na carreira, respirar com calma,
fazer política ou fazer nada.
Porque tempo livre também é um DIREITO.
E não devia ser um luxo.

Conheça o Projeto Invisíveis, cuidado doméstico e de cuidado não pago.
Estação de Metro do Cais do Sodré, Lisboa.

Visita virtual em www.coracoescomcoroa.org.

terça-feira, 17 de junho de 2025

HOJE - 17 de Junho é o Dia da Desertificação e da Seca, criado pela ONU em 1994


Para aumentar “a consciencialização e promover soluções para a desertificação, degradação da terra e seca”. Em Portugal a desertificação avança mas o Núcleo Regional de Combate à Desertificação do Centro, coordenado pelo ICNF, está inactivo. 

“Mais de metade do PIB global depende de ecossistemas saudáveis. No entanto, todos os anos, uma área do tamanho do Egipto é degradada, provocando a perda de biodiversidade, aumentando o risco de seca e deslocando as comunidades. Os efeitos colaterais são globais - desde o aumento dos preços dos alimentos à instabilidade e à migração". [Fonte]

Neste ano, o lema das Nações Unidas é “Restaurar a Terra. Desbloquear as Oportunidades”.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres


O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, assinalado a 25 de novembro, constitui um marco no combate à violência exercidas contra as mulheres, alertando os decisores políticos bem como toda a sociedade para os vários casos de violência praticada contra mulheres, nomeadamente: casos de abuso ou assédio sexual, maus tratos físicos e psicológicos, e sensibilizando a sociedade para a importância da prevenção e combate de casos de violência doméstica.

📊 Assinalado este dia, a APAV divulga as suas estatísticas relativas às vítimas no feminino. Entre 2022-2023, a APAV apoiou 23.808 vítimas do sexo feminino, sendo:
👉 3.434 crianças e jovens;
👉 14.505 entre 18 e 64 anos de idade;
👉 2.446 eram pessoas idosas.
📉 Relativamente à caracterização do/a autor/a da vítima, dos 23.862 autores/as identificados, a maior parte era do sexo masculino (68,5%), com idades compreendidas entre os 36 e 55 anos, sendo que 47,3% dos/as autores/as estão ou estiveram numa relação de intimidade com a vítima. 
❗Das 22.808 vítimas do sexo feminino apoiadas pela APAV entre 2022-2023, no total, foram alvo de 45.787 crimes e outras formas de violência, com particular destaque para crimes como violência doméstica (37.153).

domingo, 14 de julho de 2024

Em apenas dez anos morreram em solo dos EUA quase tantos americanos como aqueles que morreram na segunda grande guerra mundial


Recentemente em 2022, na sequência de um massacre numa escola dos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump discursou na convenção da poderosa Associação Nacional do Rifle (NRA), principal financiadora do lobby das armas no país, e afirmou que a melhor solução contra a violência é armar ainda mais a população.
De 2021 a 2023 houve mais de 600 tiroteios em massa nos EUA, quase dois por dia em média, segundo a organização americana GunViolence.
Devido ao porte de arma generalizado nos EUA, de 2021 a 2023 morreram quase 60.000  pessoas no país (excluindo suicídios com recurso a arma), o que dá a espantosa média de quase 20.000 mortes por ano nos três últimos anos.
Desses 60.000 cerca de 4800 eram crianças ou adolescentes, o que dá uma média de 1.600 mortes dentro dessas faixas etárias nos três últimos anos.
Já os suicídios com uso de arma de fogo rondam em média as mais de 26.000 mortes nos três últimos anos, ou seja, cerca de 78.000 pessoas suicidaram-se nos EUA nestes três últimos anos recorrendo a armas de fogo.
De 2021 a 2023, armas de fogo foram directamente responsáveis por quase 140.000 mortes nos EUA!
Para termos uma noção, morreram nas duas guerras do Iraque cerca de 9.000 soldados americanos. No Afeganistão morreram cerca de 2.400.
Cerca de 36.500 soldados americanos morreram durante a Guerra da Coreia. 
Aproximadamente 58.220 soldados americanos morreram na Guerra do Vietname.
116.516 soldados americanos morreram durante a Primeira Guerra Mundial.
Apenas na segunda guerra mundial morreram mais americanos do que nos EUA em tempo de paz de 2021 a 2023. Nesse conflito cerca de 405.000 soldados americanos morreram, estando nós a falar do conflito mais mortífero alguma vez ocorrido no planeta.
Se no entanto alargarmos esta estatística para os últimos dez anos, aproximadamente 400.000 americanos morreram devido a armas de fogo, considerando homicídios, suicídios e acidentes.
Em apenas dez anos morreram em solo dos EUA quase tantos americanos como aqueles que morreram na segunda grande guerra mundial.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Portugal é o único país a alcançar presidência da Comissão Europeia, Conselho e ONU


Com a eleição do ex-primeiro-ministro António Costa pelos chefes de Estado e de Governo da União Europeia, Portugal torna-se o único país a ter alcançado a liderança do Conselho Europeu, da Comissão Europeia e das Nações Unidas.

O ex-primeiro-ministro português, o socialista António Costa, foi ontem eleito pelos chefes de Estado e de Governo da União Europeia como presidente do Conselho Europeu para um mandato de dois anos e meio, foi anunciado em Bruxelas.

De acordo com fontes diplomáticas, a decisão foi adotada numa reunião do Conselho Europeu, em Bruxelas, na qual os líderes da União Europeia (UE) propuseram também o nome de Ursula von der Leyen para um segundo mandato à frente da Comissão Europeia, que depende porém do aval final do Parlamento Europeu, e nomearam a primeira-ministra da Estónia, Kaja Kallas, para Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, sujeita à eleição pelos eurodeputados de todo o colégio de comissários.

Um feito que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, atribuiu esta semana a uma “capacidade extraordinária de Portugal”, que alcançou “apoio e reconhecimento suficientes para o desempenho de altas funções em organizações internacionais variadas e de reputada importância”.

O antigo chefe do Governo socialista António Guterres desempenha atualmente o segundo mandato como secretário-geral das Nações Unidas, cargo que iniciou em janeiro de 2017.

José Manuel Durão Barroso, antigo primeiro-ministro social-democrata, liderou a Comissão Europeia durante dois mandatos, entre 2004 e 2014.

“E houve outras alturas em que tivemos lugares importantes”, salientou Montenegro, dando os exemplos do antigo comissário europeu António Vitorino (PS) à frente da Organização Internacional das Migrações (2018-2023), da presidência do Eurogrupo exercida pelo antigo ministro das Finanças do PS Mário Centeno (2018-2020), ou, atualmente, do antigo ministro social-democrata Jorge Moreira da Silva, que dirige a UNOPS (agência da ONU para as infraestruturas e gestão de projetos).

“É o reconhecimento da qualidade dos nossos cidadãos que se disponibilizam para o exercício de funções políticas, e obviamente de todos os serviços e acompanhamento de retaguarda, incluindo a nossa rede diplomática e todos os funcionários que temos em várias instituições”, referiu o primeiro-ministro esta quarta-feira, no parlamento, durante o debate preparatório do Conselho Europeu.

“O facto de termos um país com uma grande história, termos demonstrado ao longo dos séculos a nossa capacidade, termos uma das línguas mais faladas do mundo - tudo isso tem sido reconhecido”, comentou Luís Montenegro.

Para o chefe do Governo, estas nomeações de portugueses para cargos de topo são uma “oportunidade de não sermos aquilo que às vezes somos, demasiado pessimistas sobre nós próprios”.