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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O Nó Cego da Habitação: A Ilusão da Poupança e a Cumplicidade Política em Portugal e na Europa

A narrativa moralista que aponta a falta de poupança dos jovens como causa da incapacidade de aceder a uma habitação própria ou arrendada desmorona-se perante o choque indiscutível dos factos. Em Portugal, onde o salário médio líquido mal permite cobrir as despesas básicas do dia a dia, exigir ao trabalhador jovem que "poupe" para comprar ou arrendar casa num mercado liberalizado é uma falácia que mascara um problema profundamente estrutural. O gráfico que coloca Lisboa no topo europeu da asfixia financeira - com impressionantes 72% do salário médio líquido canalizados unicamente para a renda de um T1 - é o sintoma mais agudo de um modelo económico desenhado não para garantir o direito à habitação, mas para rentabilizar o imobiliário como ativo financeiro e turístico.   

Esta realidade portuguesa é a expressão extrema de um fenómeno amplamente disseminado pela Europa. Após a crise financeira de 2008, impulsionados por anos de taxas de juro excecionalmente baixas e pela procura de rentabilidade rápida, grandes fundos de investimento e capitais internacionais varreram as metrópoles europeias. Cidades como Amesterdão, Milão ou Barcelona registam encargos com a renda que absorvem entre 65% e 68% do rendimento médio. 

A desregulamentação do Alojamento Local, a expansão de plataformas turísticas e a criação de regimes fiscais agressivos para atrair "capital estrangeiro" e nómadas digitais converteram os centros históricos de todo o Sul e Centro da Europa num parque temático para o turismo e numa bolsa de mercadorias para a especulação.   

No entanto, a razão pela qual Portugal lidera esta crise de acessibilidade prende-se com uma assimetria dramática: enquanto cidades do centro da Europa viram as suas rendas subir lado a lado com salários substancialmente mais elevados e parques habitacionais públicos consolidados (como acontece em Viena, onde a habitação pública mitiga a pressão do mercado e fixa o encargo nos 35%), Portugal permitiu que os preços do imobiliário convergissem com a média europeia mantendo os salários estagnados no patamar mais baixo do continente. 

Com uma taxa de habitação pública irrelevante - a rondar os 2%, em comparação com a média europeia de 9% -, o país entregou a totalidade do seu território à lei da oferta e da procura desregrada, isentando de impostos (como IRC e IMI) os fundos imobiliários e os proprietários em centros históricos e viabilizando o aumento vertiginoso dos preços através dos Vistos Dourados.   

É neste cenário que a acusação política interna ganha total legitimidade e urge ser apontada diretamente aos decisores políticos, designadamente ao PSD e ao Chega. Em vez de combaterem a causa da crise e imporem regras de controlo ou um choque de oferta pública, estas forças políticas persistem em defender uma agenda legislativa abertamente favorável aos grandes proprietários e aos interesses imobiliários. 

A recente concertação e aprovação parlamentar de medidas que facilitam os despejos, travam o controlo do preço das rendas e removem tetos de proteção aos inquilinos revela uma opção clara de classe: prefere-se garantir a rentabilidade dos senhorios e aprovar incentivos a empreendimentos com rendas e preços inalcançáveis para a larga maioria dos cidadãos do que proteger a população trabalhadora. 

A passividade e a cumplicidade ideológica do PSD e do Chega perante o negócio da especulação não só aprofundam a gentrificação e o esvaziamento das cidades, como legitimam uma gritante desigualdade de tratamento social - onde o direito ao lucro de uma minoria sobrepõe-se, impunemente, ao direito fundamental a uma casa decente para a maioria.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Portugal tem 1,6 milhões de estrangeiros. Mais de um terço são brasileiros

Para quem grita apavorado que o Islão vai tomar conta da nossa Lusitânia...digamos que estão um pouco equivocados, não? Parece que em termos religiosos, o islão não é o problema, mas antes os evangélicos que em termos de retrocesso civilizacional, aparenta ser muito mais complicado. 


Dados do INE revelam também que há mais homens do que mulheres imigrantes

Dos 1,6 milhões de estrangeiros residentes em Portugal, 574 mil são brasileiros, uma contagem global que continua a indicar mais homens do que mulheres imigrantes, segundo dados divulgados pelo INE em 22 de junho deste ano.

De acordo com os dados das estimativas da população residente em 2025, hoje apresentadas pelo INE, a população residente de nacionalidade estrangeira em Portugal “foi estimada em 1.597.539 pessoas, das quais 913.249 (57,2%) homens e 684.290 (42,8%) mulheres, representando 14,0% do total da população residente”.

No que diz respeito às nacionalidades, o INE estima que residiam em 2025 um total de “574.195 cidadãos de nacionalidade brasileira, o que corresponde a 35,9% da população estrangeira residente”, mas do que duplicando o número em relação a 2021 (106,5%), com um acréscimo de 296.086 pessoas.

“A nacionalidade angolana era, em 2025, a segunda principal nacionalidade estrangeira, abrangendo 103.140 pessoas (6,5% do total de estrangeiros), o que representa igualmente um acentuado aumento em comparação com 2021 (33.099)”.

Seguem-se os indianos (93.683 pessoas, com 37.914 em 2021), cabo-verdianos (76.099), nepalês (56.866), cidadãos do Bangladesh (56.724) e guineenses (53.555).

A seguir a estas nacionalidades, seguem-se os ucranianos (53.555), são-tomenses (47.731), paquistaneses (39.638), cidadãos do Reino Unido (38.640), italianos (32.784), franceses (26.549), chineses (23.439) e alemães (21.635), na lista publicada pelo INE.

Numa comparação entre os dados de 2021 e 2025, segundo o INE, os são-tomenses constituem o grupo de imigrantes que mais aumentou em termos percentuais (mais 263%), seguindo-se os cidadãos do Bangladesh (230%), do Paquistão (215%) e angolanos (212%), as únicas nacionalidades que triplicaram o seu volume.

Numa análise a partir das regiões-plano (NUT2), o Norte é a região “onde reside o maior número de pessoas (3.790.554), concentrando 33,2% do total da população, seguida pela Grande Lisboa (2.415.261) e pelo Centro (1.771.259), onde residem, respetivamente, 21,1% e 15,5% da população total”.

“Em 2025, a região Grande Lisboa, onde residiam 546.419 pessoas de nacionalidade estrangeira, concentrava 34,2% do total de estrangeiros em Portugal, seguindo-se a região Norte, com 311.095 residentes de nacionalidade estrangeira e representando 19,5% do total”, pode ler-se nas conclusões do INE

Numa análise proporcional, os Açores são a região com menor número de população estrangeira (apenas 0,6% do total) enquanto “o Algarve, com 161.556 estrangeiros, destacou-se como a região com maior peso de população estrangeira no total de residentes na região, com 27,9%”, seguindo-se Lisboa (22,6%) e Península de Setúbal (18,3%).

A presença de imigrantes também contribuiu para um aumento da população ativa, contrariando a redução da população jovem.

“Entre 2021 e 2025, a proporção de jovens (população dos 0 aos 14 anos de idade) diminuiu de 13% para 12,4% da população total” e a ”percentagem de pessoas em idade ativa (população dos 15 aos 64 anos de idade) aumentou, de 63,7% para 64,3%, contributo dos fluxos migratórios recentes que tendem a concentrar-se nesta idade”, refere o INE.

Consultar ainda a AIMA : 2022- último relatório disponível

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Sobre a acampada no Porto pela Habitação Justa

PONTO PRÉVIO
1.´Em Portugal, existem cerca de 773 mil trabalhadores por conta própria (trabalhadores independentes/recibos verdes). 
2. Segundo o relatório da EAPN, Portugal ocupa a 3.ª pior posição da UE no que toca ao risco de pobreza especificamente entre os trabalhadores independentes e outras situações que excluem o trabalho por conta de outrem
3. O risco de pobreza geral dos empregados no país desceu de forma consolidada, fixando-se em 8,6% (dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento do INE). No entanto, a média nacional dos trabalhadores esconde a enorme disparidade enfrentada pelos "recibos verdes", cuja taxa de pobreza é historicamente duas a três vezes superior à dos trabalhadores com contrato.
4. Dependência Económica (Falsos Recibos Verdes): um dos fatores estruturais que explica a fragilidade contínua é que mais de 14% dos trabalhadores por conta própria dependem economicamente de um único cliente (que representa 75% ou mais dos seus rendimentos), inserindo-se naquilo que comummente se designa por "falsos recibos verdes".
Fonte [Sete Margens]

A acampada que desde sábado tem estado na Praça D. João I, no Porto, vai permanecer e volta a montar acampamento.

A organização apela ainda a que as pessoas continuem a doar tendas ao movimento, como têm feito, existindo neste momento uma reserva de tendas que poderá ser utilizada esta noite. 

A concentração de hoje, pelas 19:00, arrancou com "Grândola, Vila Morena", de José Afonso, um espelho da canção que os manifestantes cantavam pouco antes da carga policial da última madrugada.

As cerca de duas mil pessoas presentes empunhavam cartazes contra o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, e a reivindicar o direito à habitação, entoando palavras de ordem como "O povo unido jamais será vencido" e "Pedro Duarte, demissão".

O Movimento pela Habitação que tem protestado no Porto denunciou hoje uma carga policial, esta madrugada, que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave.

De acordo com o movimento, entre os feridos está uma pessoa com deficiência e vários participantes na concentração foram hospitalizados.

Os participantes voltaram a instalar tendas durante a noite, que foram retiradas pela polícia, depois de o presidente da Câmara do Porto ter dito na quarta-feira que seria “absolutamente implacável com qualquer tentativa de colocação de tendas” na Praça D. João I”.

O movimento apresenta seis reivindicações principais: “abaixo a lei das rendas; fim dos despejos; fim da compra de imóveis por fundos abutres; mais habitação pública; recuperação de imóveis devolutos para habitação; tetos às rendas”.

A discrepância entre a liderança política e a realidade social do país é evidente. Por um lado, o Primeiro-Ministro detém um património imobiliário substancial - incluindo uma residência de grandes dimensões envolvida em polémicas urbanísticas e dezenas de imóveis de rendimento , garantindo uma estabilidade financeira familiar partilhada pela sua rede de contactos. 

14 membros do governo têm interesses imobiliários, que passaram para testas de ferro quando foram para o governo.

Por outro lado, o panorama do país revela dados alarmantes: um décimo da população vive em pobreza persistente (com estimativas informais a apontarem para valores significativamente superiores), 10% da população encontra-se em risco sério de pobreza prolongada e cerca de 15 mil pessoas vivem em situação de sem-abrigo. Perante este cenário, as críticas do executivo, que qualifica os protestos da população de 'egoísmo', claro que geram mais indignação e hipocrisia.

Entretanto a alegada de Pedro Duarte falou, o artigo 18.º do Decreto-Lei n.º 310/2002, de 18 de dezembro, estabelece que os acampamentos ocasionais fora dos locais próprios para campismo dependem de licença municipal. Porém O direito de reunião e manifestação em locais públicos não carece de qualquer autorização ou licença prévia das câmaras municipais.

Força Porto, força país inteiro, Europa e todos os países que vivem dominados por gente indiferente e que desrespeita o seu povo!

domingo, 27 de setembro de 2026

Por que Portugal é mais seguro que Espanha no Global Peace Index?


A diferença de posicionamento entre Portugal, em sexto lugar no ranking europeu e sétimo a nível mundial, e Espanha, em décimo nono lugar no ranking europeu e vigésimo quinto a nível mundial, no Global Peace Index deve-se principalmente à forma como os vinte e três indicadores do índice são calculados e ponderados. Embora ambos os países partilhem elevados padrões de segurança e qualidade de vida na Europa do Sul, Portugal supera Espanha no índice por três fatores estruturais.

O primeiro fator reside na instabilidade e tensão política interna. O Global Peace Index avalia fortemente a coesão e a estabilidade política de cada nação. Espanha perde pontos devido a tensões regionais históricas, como os movimentos separatistas na Catalunha e no País Basco, além de um ambiente de maior polarização partidária e manifestações políticas de grande dimensão. Em contrapartida, Portugal mantém indicadores de estabilidade política interna muito elevados, com ausência de movimentos separatistas e um clima de paz social contínuo.

O segundo fator prende-se com a militarização e os gastos com defesa. Sendo uma das maiores economias da União Europeia e um membro com capacidades militares significativas, Espanha apresenta gastos absolutos mais elevados em defesa, um maior volume de forças armadas e exportações de armamento e equipamento militar superiores às de Portugal. Já Portugal regista um perfil militar significativamente mais reduzido em termos absolutos e de exportação de equipamento de defesa, o que lhe permite pontuar substancialmente melhor nos indicadores do domínio de militarização do índice.

Por fim, o terceiro fator envolve a criminalidade percebida e os fatores de segurança societal. Apesar de Espanha ser um país muito seguro para o turismo e para o quotidiano, as suas cidades de grande dimensão registam taxas absolutas mais elevadas de furtos e pequenas infrações em pontos turísticos, além de uma perceção ligeiramente superior de risco em áreas urbanas de grande densidade. Por outro lado, Portugal apresenta taxas baixíssimas de crimes violentos, uma legislação sobre armas bastante rigorosa e níveis muito reduzidos de perceção de insegurança por parte da população no dia a dia.

A ausência da Noruega e da Suécia no Top 20 europeu explica-se pelos critérios específicos do Global Peace Index (GPI), um índice que mede o nível de paz global através de métricas amplas e não apenas com base na criminalidade do dia a dia.

No caso da Suécia, a queda no ranking deve-se ao crescimento da violência associada a gangues organizados, com um aumento notório de tiroteios e explosões, o que elevou a perceção de insegurança e o impacto do mercado ilegal de armas.

Já a Noruega, apesar de manter níveis altíssimos de segurança no quotidiano e taxas residuais de crimes violentos, acaba por ser penalizada no pilar da militarização. O país regista um volume considerável de exportação de material militar por habitante e assume despesas significativas em defesa e missões internacionais, fatores que influenciam negativamente a sua pontuação final no índice.

Fontes


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Inquérito põe leitura por lazer atrás do uso das redes sociais em Portugal


Um inquérito apresentado hoje pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) revela que menos de dois terços dos participantes dizem ler por lazer como ocupação dos tempos livres, muito atrás do uso das redes sociais.
Em comunicado divulgado hoje pela APEL, dia em que abre a quarta edição do evento Book 2.0 em Lisboa, é indicado que a lista das atividades para ocupação de tempos livres é encabeçada pelo convívio com amigos (91%), seguindo-se as redes sociais (85%), com o cinema e audiovisual por ‘streaming’ em terceiro lugar (75%) e o desporto a seguir (66%). A leitura por lazer é a atividade seguinte, com 62% de respostas dos inquiridos.
De acordo com o mesmo texto, entre os que não leem “a falta de interesse é o principal obstáculo (43%), seguida pela falta de tempo (38%) e pela preferência por outras atividades (33%)”.
No comunicado, a APEL realça que “os resultados reforçam a necessidade de Portugal assumir a leitura e a literacia como prioridades nacionais”, lembrando que “o livro é uma ferramenta essencial de cidadania, pensamento crítico, desenvolvimento humano, acesso ao conhecimento e participação democrática”.
De acordo com os resultados do inquérito – feito pela GfK através de entrevistas a 1.000 pessoas com mais de 15 anos -, 78% dos inquiridos dizem ter lido pelo menos um livro em 2025, no que é o valor mais alto dos últimos três anos, mas 62% responderam ter comprado pelo menos um livro no ano passado, abaixo do número de 2023 (65%).
Segundo o inquérito, também a média de livros por comprador continua a cair, de 7,5 em 2023, para 7 em 2024, e agora 6,9 em 2025, algo que também acontece nos livros para oferta.
“Os resultados sugerem que o crescimento do setor observado a partir da evolução do painel de retalho não se traduziu numa intensificação generalizada do consumo de livros pelas famílias portuguesas”, pode ler-se no comunicado.
Em 2025, a venda de livros em Portugal cresceu 6,9% em relação ao ano anterior, o que se traduziu num total de quase 15 milhões de livros vendidos, um aumento muito impulsionado pelos livros de colorir e infantis, segundo dados divulgados pela APEL em janeiro.
No entanto, no segundo trimestre deste ano, a venda de livros caiu quase 2%, comparativamente ao mesmo período de 2025, registando a primeira quebra desde a pandemia, apesar de ter coincidido com a realização da Feira do Livro de Lisboa.
Os dados do inquérito hoje divulgado pela associação do setor indicam ainda que perto de um em cada cinco portugueses leem sem compra, “o que aponta para a crescente importância de vias de acesso como o empréstimo, as bibliotecas, a oferta, o digital e outras formas de circulação de livros que exigem que o setor compreenda melhor de que modo a expansão da leitura pode também contribuir para a sustentabilidade da cadeia de valor do livro”.
Ainda assim, a APEL assinala que, entre os que se dizem leitores digitais, mais de dois terços recorre a conteúdos gratuitos, que podem ir desde as plataformas de armazenamento em ‘cloud’ a redes como Whatsapp e Telegram.
“Estes canais podem incluir utilizações legítimas – como empréstimos autorizados, obras em acesso aberto ou partilha pessoal de ficheiros –, mas são também compatíveis com a partilha ilegal e não autorizada de conteúdos. A compreensão deste fenómeno é essencial para proteger autores, editores, livreiros e todos os profissionais que integram a cadeia do livro, bem como para perceber até que ponto a expansão da leitura digital ocorre por via de oferta legal ou da circulação de conteúdos fora dos canais comerciais”, acrescentou a associação.
O encontro Book 2.0 – O Futuro da Leitura começa hoje, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e até quarta-feira vai juntar figuras nacionais e internacionais para debater o papel do livro e da leitura.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O tempo despendido no consumo de conteúdos digitais e as suas implicações sociológicas: atomização social, alienação e o declínio da intervenção cívica

O ecossistema digital consolidou-se como o eixo central da vida quotidiana, com os utilizadores de internet em Portugal a demonstrarem uma ligação cada vez mais profunda às plataformas online. Os dados do relatório Digital 2026, elaborado pela We Are Social em parceria com a Meltwater, revelam que mais de 7,5 milhões de portugueses utilizam redes sociais, representando cerca de 8 em cada 10 internautas no país. Em média, o tempo despendido nas redes sociais situa-se nas 2 horas e 10 minutos por dia, com o TikTok a liderar no tempo médio de utilização (1 hora e 23 minutos diários por utilizador ativo) e o YouTube a destacar-se pelo alcance massivo. No entanto, o consumo apresenta uma forte assimetria geracional: os jovens dos 15 aos 24 anos lideram o tempo de ecrã com 2 horas e 25 minutos diários, ao passo que a faixa dos 25 aos 44 anos regista 1 hora e 45 minutos e os utilizadores com mais de 45 anos fixam-se em 1 hora e 15 minutos. Este comportamento mobile-first - impulsionado por 95,9% dos utilizadores que acedem à rede via smartphone - estende-se ao processo de compra, onde 65% dos jovens dos 16 aos 24 anos usam as redes para pesquisar marcas, e à integração massiva da Inteligência Artificial generativa, utilizada diariamente por mais de 40% dos internautas portugueses. 

À escala global, o estudo aponta para 6 mil milhões de utilizadores de internet e 5,66 mil milhões nas redes sociais (68,7% da população mundial), num cenário onde a publicidade social já ultrapassa a televisão e os motores de busca como principal meio de descoberta de marcas entre os 16 e os 34 anos.

A transição massiva para este ecossistema digital contínuo traz consigo profundas implicações sociológicas. A submersão em formatos de vídeo vertical e a personalização extrema por algoritmos favorecem a atomização social, um fenómeno em que os indivíduos se isolam em bolhas informacionais e de entretenimento hiperpersonalizado, fragilizando o tecido comunitário e as interações no espaço público físico.

Este consumo compulsivo acarreta igualmente riscos de alienação social, na medida em que a mediação do mundo real por ecrãs substitui a experiência interpessoal direta por laços parassociais e validação digital. Por sua vez, a saturação de estímulos rápidos e efémeros correlaciona-se com uma diminuição do escrutínio crítico e com uma baixa intervenção cívica, transformando o debate democrático num espetáculo de consumo individual e imediato, onde o ativismo muitas vezes se reduz ao slacktivism de redes sociais, distanciando os cidadãos do envolvimento comunitário tradicional e da ação política participativa.

Fontes e Hiperligações dos Estudos

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia. 

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics. 

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

sábado, 4 de julho de 2026

Criminalidade. Revisão da população mostra país ainda mais seguro

A taxa de criminalidade foi revista em baixa nos últimos anos, na sequência das alterações do INE. O país vive um dos períodos com menor incidência da criminalidade em quase trinta anos. Este artigo integra a rubrica Visão Periférica.
4 Julho 2026, 11h00

Muita tinta já correu na sequência da disrupção estatística provocada pela revisão populacional do INE. Mas não ficará por aqui. Esperam-se outras repercussões nos próximos tempos, tendo em conta que estão a ser revisitados vários indicadores que dependem da população, como a riqueza anual por habitante ou dados relativos ao emprego e à saúde. Um deles - a taxa de criminalidade - já foi atualizado esta semana pelo INE, mas passou despercebido.

Os novos dados mostram que houve 32 crimes por cada mil habitantes em 2025, uma subida face a 2024 (31,2), mas abaixo de 2023 (33,2). Estes últimos dois valores (tal como os dos dois anos anteriores) são já reflexo da revisão do INE — antes, estavam em causa mais dois crimes por mil habitantes (33 e 35, respetivamente, segundo as contas do Jornal Económico).

Isto significa que a taxa de criminalidade do ano passado é a quinta mais baixa desde 1998. E a taxa de 2024 passa a ser a terceira. Nesta comparação, estão incluídos os anos de 2020 (28,7 crimes) e 2021 (28,4) - períodos em que houve confinamentos e, por arrasto, menos oportunidades para várias tipologias de crime. Dito de outro modo, se não contássemos com este período de excepção, o valor de 2024 teria sido o mais baixo em pelo menos 28 anos. E a taxa de 2025 seria a terceira mais baixa.

Convém notar que a incidência da criminalidade em Portugal, nos últimos anos, já se encontrava em níveis reduzidos quando comparada com outros períodos da história recente. Mesmo antes desta revisão, o pico de 2023 era inferior a qualquer taxa entre 1999 e 2013.

Os valores mais elevados foram registados entre 2008 e 2010 (na casa dos 40 crimes), período que coincide com a crise financeira global. Nos anos seguintes, durante a Troika, houve uma progressiva redução, com quatro descidas consecutivas a partir de 2011 (até atingir 33,8 em 2014), num contexto de queda da população (menos 163 mil pessoas em quatro anos). E depois estabilizou: em seis dos últimos oito anos (com exceção do período da pandemia), andou sempre entre 31 e 32 crimes por mil habitantes.


Claro que nem todos os crimes são iguais, mas a análise por categoria não altera as conclusões. Nos crimes contra a integridade física, a taxa de criminalidade está em 5 por 1.000 habitantes, o valor mais baixo desde pelo menos 2011. O mesmo se aplica aos furtos de veículo e em veículo motorizado (2,4) e aos furtos e roubos por esticão e na via pública (0,6) — neste caso, ao mesmo nível do período 2021-2023. Os crimes contra o património (16,2) só não são o valor mais reduzido porque na pandemia houve menos (de 2020 a 2022 oscilou entre 14 e 15 por mil habitantes).

As duas únicas categorias em que a taxa de criminalidade não está em níveis historicamente baixos dizem respeito ao comportamento na estrada: a condução com taxa de álcool igual ou superior a 1,2 g/l é de 2 por cada mil (tinha sido inferior entre 2017 e 2021 e em 2024) e a condução sem habilitação (1,3), que supera nove dos últimos 15 anos.

Os imigrantes
Comparando com os dados imediatamente anteriores à pandemia, houve um aumento de 9% na criminalidade registada entre 2019 e 2025: mais 30 mil, para um total de 365 mil crimes, segundo as contas do JE, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), publicado no final de março. Só que, sabemos agora, este aumento ocorreu enquanto a população crescia 10,1%, cerca de um milhão de pessoas desde 2019, sobretudo imigrantes.

Numa altura em que os cidadãos estrangeiros representam 14% da população, a incidência da criminalidade é uma das mais baixas em quase três décadas, comparando bem com o pré-pandemia (32,3 crimes por mil habitantes em 2019) e com o registo de há uma década (os mesmos 32 crimes em 2016). Nesses anos, porém, os cidadãos estrangeiros representavam apenas entre 3% e 4% dos residentes. Ou seja, o peso dos imigrantes duplicou no país, mas os níveis de criminalidade mantiveram-se estáveis em relação à população, contrariando as narrativas populistas.

domingo, 21 de junho de 2026

Investigadores portugueses estudam ligação entre poluição do ar e desigualdades ambientais

A poluição do ar é considerada o maior risco ambiental para a saúde humana, segundo entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e a Agência Europeia do Ambiente.

Contudo, persistem lacunas no conhecimento de como a poluição do ar se relacionada com outras dimensões centrais para a compreensão devida do problema, como o facto de nem todas as pessoas e comunidades são afetadas da mesma forma.

Grupos humanos mais vulneráveis podem estar mais expostos à poluição do ar do que outros, os impactos podem ser mais fortemente sentidos em certas áreas ou regiões e não tanto noutras, levantando questões relacionadas com desigualdades e justiça ambientais.

Foi essa constatação que levou um grupo de investigadores, liderado por membros de instituições académicas e centros de investigação portugueses, a rever o conhecimento existente para perceber se, e também como, conceitos relacionados com desigualdades e justiça ambientais são tidos em conta em avaliações dos impactos da poluição do ar na saúde.

O trabalho, liderado pela Universidade de Aveiro em colaboração com a Universidade de Coimbra, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes (LASI), sediado na Universidade do Minho, e também a University of the West of England (Reino Unido), analisou 99 artigos científicos. Nesse exame, foram tidos em conta diferentes aspetos como o enquadramento conceptual, a região estudada, a escala temporal, os dados e indicadores utilizados e os métodos de análise aplicados, sejam estatísticos, numéricos ou baseados em inquéritos.

Os resultados, revelados num artigo publicado na revista ‘Heliyon’, mostram que os estudos sobre justiça ambiental associados à poluição do ar foram realizados em 21 países, sendo os Estados Unidos da América responsáveis pela maioria das investigações (53%). Seguem-se Canadá (6%) e China (5%).

Em termos temporais, mais de metade dos estudos foram publicados nos últimos cinco anos, o que os investigadores dizem refletir “um crescimento recente do interesse científico neste tema”. A maioria das investigações analisa impactos de longo prazo da poluição atmosférica.

Relativamente aos dados que são utilizados, a maior parte dos trabalhos centra-se nas partículas finas PM2.5, um dos poluentes mais associados a riscos para a saúde. No entanto, apenas cerca de metade dos estudos inclui explicitamente dados sobre saúde ou níveis de exposição, avança esta equipa.

Todos os artigos analisados abordam questões de justiça ambiental relacionadas com estatuto socioeconómico ou raça/etnia. Entre os indicadores socioeconómicos mais utilizados, mostra este estudo, destacam-se os dados de rendimento (99%), seguidos de indicadores de caracterização populacional e de habitação.

O método de análise mais frequente é a análise estatística, utilizada em 71% dos estudos. Cerca de 14% recorrem a inquéritos e 15% utilizam modelos de simulação para explorar cenários.

Com base na revisão, os autores deste artigo consideram que ainda existe margem para o desenvolvimento de novos estudos, especialmente na Europa e noutras regiões menos representadas. Os investigadores, é avançado em comunicado da Universidade de Aveiro, defendem a utilização de modelos estatísticos “mais robustos e métodos mistos”, que sejam capazes de lidar com “a complexidade das múltiplas variáveis envolvidas neste tipo de investigação”.

Em escalas geográficas mais pequenas, os autores recomendam também a realização de estudos apoiados por inquéritos, que permitam “integrar indicadores socioeconómicos tanto individuais como contextuais”. A revisão destaca ainda que poucos estudos abordam perceções sociais ou o envolvimento dos cidadãos nas questões relacionadas com a poluição do ar.

A equipa conclui que é preciso aprofundar o conhecimento sobre as dimensões sociais da poluição atmosférica, algo que permitirá contribuir de forma importante para políticas ambientais e de saúde pública mais equitativas.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa


A Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) é uma oportunidade para reunir governos e a sociedade civil para ação orquestrada em prol da melhoria de vida das pessoas idosas.

A violência contra idosos é um problema subnotificado mundialmente que existe tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos. Embora a extensão dos maus-tratos contra idosos seja desconhecida, sua importância social e moral é incontestável.

Por isso, a ONU instituiu o dia 15 de junho de 2006 como o Dia Mundial da da Consciencialização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa para definir abordagens culturalmente contextualizadas para detectar e lidar com a violência contra esse grupo populacional.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou nos últimos cinco anos 8.540 pessoas idosas vítimas de crime e violência, o que representa uma média de cinco por dia, divulgou hoje a instituição.
Os dados estatísticos da APAV indicam um aumento de 26,5% no número de idosos apoiados entre 2021 e 2025, sendo que a ajuda foi dada em resposta a 15.804 crimes e outras formas de violência
A violência doméstica continua a ser o crime mais frequentemente registado, representando 78,9% das situações acompanhadas pela APAV, o que corresponde a 12.465 crimes.

Seguem-se a ameaça ou coação (3,7%), a ofensa à integridade física (3,7%), a difamação ou injúria (3%) e a burla (2%).
A maioria das vítimas apoiadas era do sexo feminino (76,3%), tinha entre 65 e 74 anos (49,4%) e nacionalidade portuguesa (92,7%), sendo mais de metade (55,9%) dos agressores do sexo masculino.
A APAV assinala que "a violência contra pessoas idosas ocorre maioritariamente em contexto familiar, sendo a pessoa agressora, na maioria das situações, filha ou filho da vítima (32,3%), seguida do cônjuge (21,5%)", acrescentando que 29,8% dos agressores tem entre 25 e 64 anos.
A associação salienta também que "mais de metade das vítimas apoiadas (53,6%) encontravam-se em situação de vitimação continuada", entre as quais 23,4% que viveram situações de violência durante um período compreendido entre dois e seis anos antes de procurar apoio.
Quase metade das vítimas (46,6%) não apresentou queixa nem viu a sua situação denunciada às autoridades.
Para a instituição, "estas estatísticas reforçam a necessidade de continuar a investir na prevenção, deteção precoce e apoio especializado às pessoas idosas vítimas de crime e violência, bem como na sensibilização da sociedade para uma realidade frequentemente invisível".
A APAV, criada em 1990, presta apoio jurídico, psicológico e social, gratuito e confidencial, por telefone, através da Linha de Apoio à Vítima 116 006, 'online', no Chatbot APAV, e presencialmente nos seus gabinetes espalhados pelo país.




Veja mais

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cerca de 290 lobos em Portugal e quase 400 prejuízos comunicados este ano

Quase 400 comunicações de prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico já chegaram este ano ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O número foi avançado ontem, na Assembleia da República, durante uma audição sobre a proteção da espécie e os impactos na pecuária, e aproxima-se das 511 comunicações registadas em todo o ano anterior.
A audição, requerida pelo PAN e pelo Chega, decorreu na Comissão de Agricultura e Pescas e teve como pano de fundo o Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Ministério do Ambiente e Energia. Em debate estiveram as medidas de conservação do lobo-ibérico, mas também a resposta aos produtores pecuários afetados por ataques ao gado.
O ICNF associou o aumento das comunicações à atualização dos valores das compensações, admitindo que muitos produtores que anteriormente já não participavam os prejuízos poderão ter voltado a fazê-lo. O instituto defendeu ainda que o Programa Alcateia foi construído com entidades envolvidas no processo e que foram realizadas ações de comunicação para o fazer chegar aos interessados.
Mas os números abriram uma discussão mais larga sobre a eficácia das respostas no terreno. A Rewilding Portugal defendeu a criação de uma linha telefónica dedicada no ICNF para criadores sem meios digitais, a possibilidade de participação presencial nas juntas de freguesia, GNR ou serviços municipais, melhor articulação entre plataformas como IFAP e SENIRA e vistorias no próprio dia da comunicação. A entidade lembrou ainda que os valores das compensações foram atualizados em 2025 pela primeira vez desde 2017, após oito anos sem revisão.
A dimensão da população de lobo-ibérico em Portugal também entrou na discussão. A Palombar indicou que a espécie tem uma população pequena, fragmentada e em regressão, com uma redução de cerca de 20% da área de presença nas últimas duas décadas. O efetivo nacional foi estimado entre 190 e 390 animais, com uma média aproximada de 290 lobos.
A mesma associação defendeu que a coexistência passa por equipas de proximidade nas zonas onde surgem conflitos, apoio técnico às explorações, valorização da pastorícia, cães de proteção de gado e melhor prevenção. Segundo a Palombar, quando bem aplicadas, as medidas preventivas podem reduzir em 95% o número de ataques.
O BIOPOLIS/CIBIO alertou para a necessidade de análises forenses e genéticas que permitam identificar a origem dos ataques ao gado. A investigadora Raquel Godinho sublinhou a presença de cães errantes no território e o risco de hibridação entre cão e lobo, defendendo monitorização sistemática para distinguir ataques de lobos, cães ou híbridos.
O Grupo Lobo apontou o furtivismo como um dos principais problemas para a conservação da espécie e defendeu equipas de intervenção rápida, cães de proteção de gado, dispositivos de prevenção, melhoria do habitat e promoção de presas silvestres, como o corço. A associação admitiu o pagamento de prejuízos em caso de dúvida, mas rejeitou subsídios de risco generalizados, defendendo antes a valorização dos produtores que aplicam medidas de prevenção.
Da audição saiu um conjunto de prioridades: compensações mais rápidas, menos burocracia, equipas no terreno, controlo de cães errantes, combate ao furtivismo, melhor monitorização científica e apoio direto aos produtores em zonas de presença do lobo.
Em regiões como Trás-os-Montes, o Barroso e o Alto Tâmega, onde a pecuária extensiva mantém peso económico e social, a aplicação prática destas medidas será determinante para compatibilizar a conservação do lobo-ibérico com a atividade das explorações agrícolas.

terça-feira, 10 de março de 2026

What are the world’s deadliest animals, and can we protect ourselves against them?

O artigo explica que, embora tenhamos medo de tubarões ou lobos, os animais que mais matam humanos são os mosquitos (cerca de 700.000 a 1 milhão de mortes/ano por doenças) e as cobras. O gráfico do Our World in Data mostra que o risco real está muito mais ligado à exposição a doenças e parasitas do que a ataques diretos de grandes animais.

One and a half million people are killed by animals every year. Almost one million by other animals, and more than half a million from direct conflict among ourselves.

Almost all of these deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

In the chart above, we’ve brought together estimates of the number of people killed by different animals.

These numbers are estimates, and some come with significant uncertainty. That’s why we’ve published a detailed methodology explaining our sources and how they compare. Despite this uncertainty, we feel confident about the relative orders of magnitude across different animals.1

The biggest killers, by far, are mosquitoes. They have been one of our biggest threats for millennia, and still kill approximately 760,000 people every year.2 Over 80% of those deaths are the result of malaria, which is transmitted and spread by the Anopheles mosquito. Malaria still kills close to half a million children every year.

Another 100,000 people die every year from other mosquito-borne diseases, including dengue fever and yellow fever (spread by the mosquito species Aedes aegypti) and Japanese encephalitis.

Almost all deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

Snakes are one of the most common phobias, and you can see why. They are the second largest killers. The death toll from venomous snakes is surprisingly uncertain, as many of these deaths occur in rural areas where death records are often poor.3 But the figure is likely to be around 100,000 deaths per year. That means snakes kill more than all animals below them on the list combined.4

Most of those remaining deaths are caused by dogs, the animals that humans have grown to love as domesticated pets. The majority are due to rabies, rather than direct wounds.

Near the bottom of the list, we reach the animals that dominate our nightmares — sharks and wolves. They make for gripping headlines and blockbuster films. But in reality, shark and wolf attacks are very rare.

Of course, they don’t kill fewer people because they’re less dangerous. We’d rather be locked in a room with a mosquito than a lion. The real difference is exposure: it’s much easier to avoid large predators than it is to avoid disease-carrying insects and parasites.5

The good news is that most deaths from animals — especially the largest killers — are preventable. We have bednets and insecticide sprays to reduce exposure to mosquitoes, and medication to treat malaria if someone does become infected. New techniques, such as the Wolbachia method, have been developed to stop the spread of dengue fever. Antivenoms can often save someone from a potentially fatal snakebite.6

The problem is that not everyone has access to these preventive and treatment methods when they need them.7 If these small killers received the same global attention as large predators, more effort might go into stopping them. That is one reason why these comparisons are useful: as a reminder of what people are actually dying from, and where the most lives could be saved.There are other diseases — in particular, neglected tropical diseases — that could also be dramatically reduced with better access to treatment.

In many regions, deaths from mosquitoes have decreased dramatically. Malaria was once prevalent in countries that are now free of it. If we could achieve this in all parts of the world, the number of deaths caused by other animals would be almost six times smaller.8

If we were to also eliminate deaths from snakes through the use of antivenoms and better diagnostics, the death toll would be again reduced by almost two-thirds.9


Methodology

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Tendências recentes sobre o tráfico ilegal de marfim


1. Tendência global recente (2015–2024)
👉 Antes da COVID-19 (2015-2019):
O tráfico de marfim atingiu níveis muito elevados, com grandes apreensões de várias toneladas partindo sobretudo de África para a Ásia. Em 2019, houve apreensões recorde de marfim representando dezenas de toneladas. Wildlife Justice Commission+1


👉 Impacto da pandemia (2020-2024):
A pandemia de COVID-19 disrompeu fortemente as cadeias de tráfico, levando a:

  1. queda substancial no número de grandes apreensões de marfim;
  2. menor volume total reportado de apreensões em comparação com o período pré-pandemia;
  3. mercados ilegais aparentemente mais estáveis, porém em níveis mais baixos do que antes de 2020. Wildlife Justice Commission+1

📉 2. Estatísticas de apreensões recentes
✔ Entre 2023 e abril de 2025, cerca de 25 toneladas métricas de marfim foram confiscadas mundialmente, com a maior parte de grandes apreensões ainda sendo relatadas. 
👉 No entanto, especialistas observam que:
  1. pode haver menos detecções porque as redes criminosas estão melhorando as técnicas de ocultação e/ou mudando métodos operacionais;
  2. ou simplesmente porque a ação contra o tráfico tem sido mais eficaz em certos pontos. 
  3. Portanto, o volume de apreensões sozinho não fornece o quadro completo - mudanças nas técnicas de tráfico podem ocultar tendências reais.
🐘 3. Poaching e impacto sobre elefantes
📍 Estimativas anteriores (antes de 2018) mostraram que o tráfico de marfim estava ligado à morte de dezenas de milhares de elefantes por ano (ex.: até cerca de 40 000 elefantes mortos anualmente em alguns períodos históricos).
👉 Estas estimativas variam muito ao longo do tempo e dependem de dados de campo e modelagens, mas indicam o enorme impacto histórico do tráfico sobre populações de elefantes.

🌍 4. Factores que influenciam as tendências
📌 Redução da procura legal
Proibições e encerramentos de mercados domésticos (como na China e em outros países) reduziram a compra aberta de marfim, afetando a dinâmica global do tráfico. 
📌 Online e mercados ocultos
Apesar das proibições, vendas ilegais online continuam ativas, com plataformas sociais facilitando oferta e procura em alguns mercados regionais. 
📌 Ações de fiscalização e legislação
Leis mais duras e operações internacionais (como apreensões e cooperação policial) têm contribuído para reduzir algumas rotas de tráfico - embora redes criminosas ainda se adaptem. 

📊 Em resumo
Período Tendência do Tráfico de Marfim2015–2019

Queda significativa e estabilização 
Wildlife Justice Commission2023–2025 - Apreensões ainda grandes, mas menor que antes da pandemia 

Artigo Científico

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mão de obra imigrante é nove anos mais jovem do que a portuguesa – estudo


Os imigrantes que trabalham em Portugal são, em média, nove anos mais novos que a força de trabalho portuguesa, segundo uma análise estatística hoje divulgada.

De acordo com uma pesquisa da plataforma Prepara Portugal, com base nos dados cruzados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), “em 2023, a idade mediana dos trabalhadores estrangeiros era de 33 anos, enquanto a dos trabalhadores portugueses atingia os 42 anos”, um sinal de que os imigrantes contribuem para o “rejuvenescimento do mercado de trabalho nacional”.

Por outro lado, o estudo indica que mais de 85% da população estrangeira residente em Portugal encontra-se em idade ativa, muito acima da população portuguesa.

“Entre os nacionais, o grupo com 65 anos ou mais representa mais de 24% da população, enquanto entre os imigrantes esse valor não ultrapassa 8,5%”, refere Higor Cerqueira, diretor pedagógico do Prepara Portugal, uma plataforma destinada a estudantes internacionais e imigrantes que procuram inserção profissional no mercado português.

Segundo o estudo, cuja versão final será apresentada em janeiro, os imigrantes “estão fortemente inseridos em setores estratégicos como construção civil, turismo, restauração, agricultura, serviços administrativos e tecnologia da informação, áreas que enfrentam escassez estrutural de mão de obra nacional”.

De acordo com Pedro Stob, formador do curso de Análise de Dados e Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão, do Centro de Formação Prepara Portugal, o objetivo final foi formar “alunos a trabalhar com dados reais, interpretar fenómenos sociais complexos e comunicar conclusões com impacto para a sociedade”.

“O estudo aponta ainda para uma integração progressiva dos imigrantes no mercado laboral, refletida na melhoria das taxas de emprego e no aumento gradual das remunerações médias ao longo do período analisado, apesar da persistência de desafios como diferenças salariais, reconhecimento de qualificações e estabilidade contratual em alguns setores”, referem os autores.

sábado, 13 de dezembro de 2025

A fuga de talento jovem continua, apesar da narrativa ‘cor-de-rosa’


A ideia de que Portugal deixou para trás o problema da emigração jovem e da fuga líquida de talento não resiste a uma análise séria dos dados completos.

Esta crónica procuro desmontar uma narrativa recente - e agora convenientemente repescada - que retrata a economia portuguesa como estando numa trajetória excecionalmente favorável. Trata-se de uma leitura profundamente deslocada da realidade e enviesada, assente em dados incompletos e interpretações apressadas. Entre os seus argumentos mais repetidos está a ideia de que Portugal estaria finalmente a inverter o seu padrão de especialização, alegadamente sustentado por fluxos migratórios positivos e pelo regresso de jovens emigrantes altamente qualificados. Se tal fosse verdade, significaria que o país teria ultrapassado o problema estrutural da emigração jovem e da contínua fuga de talento.

Nada poderia estar mais distante dos factos. O saldo migratório positivo recentemente observado é essencialmente temporário e artificial, resultando de fatores extraordinários e não de uma mudança estrutural do modelo económico. A fuga de talento não só persiste como continua a refletir o baixo perfil de especialização da economia portuguesa, incapaz de oferecer, de forma consistente, oportunidades qualificadas e bem remuneradas. As leituras otimistas que sugerem o contrário assentam em dados incompletos e em análises que ignoram dimensões essenciais do fenómeno migratório.

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Infelizmente, este retrato “cor-de-rosa” está muito longe de corresponder à realidade. Como mostrarei de seguida, a evidência aponta no sentido inverso, revelando um quadro que contraria de forma quase absoluta essa visão simplista e auto-complacente. E a verdade é dura, mas incontornável: Sem reformas profundas que elevem o perfil de especialização da economia e criem oportunidades qualificadas em todo o território, Portugal continuará a perder jovens e qualificados, prolongando a sangria demográfica e comprometendo o seu potencial de desenvolvimento.

Saldo migratório dos ‘naturais’ positivo apenas conjuntural, já diminuto e dependente de apoios
Decompor o saldo migratório total - entradas menos saídas - entre o contributo dos estrangeiros e o dos nacionais, que inclui tanto os nascidos em Portugal como os que adquiriram a nacionalidade pelos mecanismos previstos na lei, com destaque para a naturalização, não é tarefa simples. Mais difícil ainda é isolar, dentro desse conjunto, o saldo migratório daqueles que efetivamente nasceram em Portugal, a que me refiro ao longo desta crónica como “naturais”.

Os principais resultados da análise encontram-se representados nas Figuras 1 e 2. Os valores dos saldos migratórios — não incluídos nas Figuras — podem ser consultados na parte C da Tabela 1 (que passarei a designar Tabela 1C), construída a partir dos dados de imigrantes (Tabela 1A) e de emigrantes (Tabela 1B). A Tabela 1 apresenta ainda (nas suas três partes), na última linha antes dos dados, o detalhe dos cálculos efetuados, e é acompanhada de notas explicativas, incluindo sobre as assunções relevantes utilizadas.