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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

She Past Away - Ritüel e o filme The Craft (1996)

Melhor som aqui e aqui

Ritual noturno: por que "The Craft" é a trilha sonora visual ideal para os She Past Away
Este tema formidável Ritüel dos turcos "She Past Away" tem inspirado fãs a elaborar videoclipes, uma vez que a banda não tem um videoclipe oficial. Desta feita, as cenas são do filme The Craft (1996), de Andrew Fleming, que moldou uma geração.

A estética e o som dos She Past Away - o influente duo turco de post-punk e darkwave formado por Volkan Caner e Doruk Öztürkcan - habitam na intersecção perfeita entre o luto, a escuridão e o esoterismo existencial. A sua obra-prima, a faixa "Ritüel", desenrola-se como uma dança hipnótica de submissão e dor, pontuada por sintetizadores frios e uma linha de baixo grave que ecoa a necessidade humana de transformação e pertença. Nenhuma obra cinematográfica encarna essa mesma energia ritualística e sombria tão perfeitamente quanto o clássico de culto de 1996, The Craft (Jovens Bruxas).

O filme dirigido por Andrew Fleming conta a história de Sarah Bailey, uma adolescente conturbada com dons psíquicos inatos que se muda para Los Angeles e encontra abrigo num trio de jovens ostracizadas: Nancy, Bonnie e Rochelle. Juntas, formam um coven de quatro bruxas - uma para cada ponto cardinal e elemento da natureza. O grupo recorre à magia para tentar curar traumas pessoais e desferir vingança contra um ambiente escolar tóxico, invocando a entidade criadora Manon. No entanto, a espiral de ganância e loucura desencadeada por Nancy transforma a busca por poder num duelo trágico, no qual a magia deixa de ser um refúgio para se tornar numa maldição.

Sob a superfície do melodrama jovem dos anos 90, The Craft carrega influências literárias e filosóficas profundas. O filme herda o fascínio do Romantismo Gótico presente nas obras de Mary Shelley e Edgar Allan Poe, onde a beleza surge intrinsecamente ligada à decadência e a figura marginalizada encontra a sua força naquilo que a sociedade teme. Do ponto de vista filosófico, a fita traduz o conceito de alteridade e a angústia existencial teorizada por Jean-Paul Sartre, usando a magia como uma tentativa desesperada de recuperar o controlo sobre a própria vida. A narrativa é também fortemente guiada pela Lei do Retorno espiritual, uma variação do princípio kármico que dita que as intenções lançadas ao universo voltam multiplicadas para quem as originou. Ou seja "A Lei de Três" (Rule of Three), que dita que tudo o que envias para o mundo -seja bem ou mal - retorna a ti triplicado. O filme serve como uma parábola moral sobre a hbris (arrogância) e a responsabilidade ético-espiritual.

Essa profunda ancoragem na feitiçaria real não foi acidental: The Craft tornou-se um marco geracional precisamente porque a produção contratou Pat Devin, uma sacerdotisa real da Covenant of the Goddess, para garantir a autenticidade das encantações, dos rituais e do simbolismo em cena. Ao afastar-se das caricaturas históricas de bruxas com verrugas e chapéus pontiagudos, o filme deu voz à revolta adolescente e ao empoderamento feminino através de uma estética goth inconfundível - marcada por maquilhagem escura, crucifixos, gargantilhas de veludo e botas militares. Como resultado direto, a longa-metragem funcionou como a porta de entrada de milhares de jovens para o Wicca, uma religião neopagã contemporânea sistematizada na primeira metade do século XX por Gerald Gardner. O Wicca caracteriza-se pela celebração dos ciclos da natureza, o culto à Deusa Tripla e ao Deus Chifrado, o respeito ao livre-arbítrio e a ausência de dogmas punitivos ou estruturas hierárquicas rígidas.

É neste ponto que a música dos She Past Away e o universo de The Craft se fundem em simbiose absoluta. Quando Volkan Caner canta "Acıyı hisset! Benimle dans et" ("Sinta a dor! Dance comigo") nos versos de "Ritüel", ele convoca o mesmo transe noturno em que as quatro protagonistas do filme se entregam na praia à beira-mar. Ambas as obras tratam o ritual não como um truque superficial, mas como uma purga emocional, um espaço seguro onde os desajustados dançam com as suas sombras, transformando a dor e a exclusão num espetáculo de pura libertação visual e sonora.

1. O filme completo está aqui
2. Banda sonora do filme aqui e toda informação aqui
4. Tudo sobre Wicca

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Over the Ocean - God In My Own Image

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Over the Ocean: história, estilo e o significado de God In My Own Image
Os Over the Ocean foram uma banda norte-americana originária de Norfolk e Virginia Beach, no estado da Virgínia. Neste momento, o grupo já não se encontra no activo; após o lançamento do seu aclamado segundo álbum, Be Given to the Soil (2013, pela Spartan Records), e de uma breve contribuição para uma compilação em 2014, a banda entrou num hiato prolongado que culminou no fim do projecto.

O seu estilo musical enquadra-se no post-rock atmosférico, indie rock e shoegaze, caracterizando-se por uma forte dinâmica de contrastes entre momentos subtis de grande silêncio e explosões sonoras crescentes (quiet/loud). O som do grupo combina guitarras expansivas repletas de reverb e delay, atmosferas ambientais e, em certas faixas mais intensas, incursões viscerais pelo post-hardcore e screamo.

A canção "God In My Own Image" representa um dos momentos mais densos e catárticos de Be Given to the Soil. O seu significado central reside na crise de fé e na desconstrução da projecção espiritual. A letra e o tom dilacerante da interpretação confrontam a tendência humana de criar um "deus" moldado à medida do próprio ego, dos desejos e dos preconceitos individuais - reduzindo o divino a um mero espelho das imperfeições do próprio indivíduo, em vez de aceitar o mistério e a transcendência da realidade.

Em termos de influências filosóficas e literárias, a temática da canção e do álbum em que se insere bebem do existencialismo cristão e da filosofia da dúvida. Na filosofia, ecoa o pensamento de Soren Kierkegaard (a angústia e a necessidade do salto de fé), a perspectiva de Friedrich Nietzsche sobre o olhar para o abismo e a desconstrução dos ídolos, e o tom de inquietação moral do livro bíblico de Eclesiastes ou das provações de Jó. Na literatura, a escrita do vocalista Jesse Hill e o tom narrativo do trabalho aproximam-se do realismo espiritual e sombrio de autores como Fiódor Dostoievski, Flannery O'Connor e Frederick Buechner - obras onde a dor, a culpa, a busca pela verdade e a graça emergem precisamente através do confronto com a escuridão humana.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Pixies - Gouge Away: uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock

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Letra

[refrão]
Gouge away
You can gouge away
Stay all day
If you want to

Missy aggravation
Some sacred questions
You stroke my locks
Some marijuana if you got some

[refrão]

Sleeping on your belly
You break my arms
You spoon my eyes
Been rubbing a bad charm with holy fingers

[refrão]

Chained to the pillars
A three day party
I break the walls
And kill us all with holy fingers

[refrão]

Entre o templo e o abismo: a anatomia de "Gouge Away" dos Pixies
Lançada em 1989 como a faixa de encerramento do lendário álbum Doolittle, "Gouge Away" sintetiza a genialidade dos Pixies em equilibrar o belo e o grotesco, o sagrado e o profano. Através de uma poética cortante, a canção utiliza o mito bíblico de Sansão e Dalila, extraído do Livro dos Juízes, não como uma pregação moralista, mas como uma violenta alegoria sobre a autodestruição, a traição e a codependência. Ao retratar a mutilação física do herói hebreu - cujos olhos foram arrancados pelos filisteus após ter o seu segredo revelado pela amante -, o compositor Black Francis despe a narrativa de qualquer heroísmo épico. Em vez disso, ele foca-se no realismo visceral do abuso físico e psicológico, aproximando-se da estética do surrealismo cinematográfico ao transformar a dor extrema numa metáfora para a cegueira emocional e a apatia diante do próprio fim.

Filosoficamente, a faixa ressoa com um existencialismo niilista e flerta abertamente com a pulsão de morte freudiana. No apelo masoquista do refrão - onde o eu lírico convida o agressor a continuar a tortura por quanto tempo desejar -, revela-se um indivíduo que encontra uma mórbida libertação na entrega absoluta ao seu carrasco. Essa tensão psicológica é perfeitamente traduzida pela arquitetura musical da banda, que pavimentou o caminho para a revolução do rock alternativo dos anos 1990. Estruturada sobre a icónica dinâmica de "sussurro e grito", a canção transita do minimalismo sombrio dos seus versos - guiados apenas por uma linha de baixo hipnótica e vocais contidos - para a explosão catártica e distorcida do seu refrão. O contraste entre os gritos desesperados de Black Francis e os coros doces e melódicos de Kim Deal funciona como um diálogo espectral de sedução e ruína, consolidando "Gouge Away" como uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock.

Versão acústica
Versão indie pop/ synth pop /new wave/ minimal synth dos Nation of Language

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Os muçulmanos eram historicamente menos tolerantes do que os cristãos?

A resposta curta é: não. E também não é verdade o contrário.

A História raramente cabe em slogans.

Se olharmos para o território que hoje é Portugal, entre os séculos VIII e XIII, encontramos uma realidade bem mais complexa. Durante o domínio islâmico, cristãos e judeus podiam manter a sua religião mediante o pagamento de impostos específicos e com algumas limitações legais. Não tinham igualdade de direitos, mas também não eram automaticamente expulsos ou obrigados à conversão. Houve discriminação, sim; mas também houve séculos de convivência, comércio e intercâmbio cultural.

Depois da Reconquista cristã, a situação inverteu-se. Os muçulmanos que permaneceram em território português (os mudéjares) continuaram inicialmente a existir em comunidades próprias, mas a sua liberdade foi sendo progressivamente restringida. Muitas mesquitas foram transformadas em igrejas, surgiram mourarias segregadas e, com o passar dos séculos, aumentaram as pressões para a conversão. No final do século XV e início do XVI, Portugal deixou praticamente de admitir a existência pública do Islão e do Judaísmo.

Ou seja: houve períodos de maior tolerância e períodos de maior intolerância dos dois lados.

Também é importante lembrar que o conceito moderno de liberdade religiosa simplesmente não existia. Tanto reinos cristãos como Estados muçulmanos entendiam a religião como parte da ordem política. A tolerância, quando existia, era normalmente pragmática e limitada, não baseada na igualdade entre cidadãos.

A História de Portugal mostra precisamente isso: nem um paraíso de convivência, nem uma guerra permanente de civilizações. Houve guerras, massacres, discriminações, mas também séculos de coexistência, acordos e influência mútua.

Outro exemplo que mostra como a História é mais complexa do que slogans é a Palestina.

Antes da criação de Israel, em 1948, a Palestina sob o Mandato Britânico tinha comunidades muçulmanas, cristãs e judaicas. Havia tensões e episódios de violência entre elas, mas também coexistência em muitas cidades. A liberdade religiosa existia, embora condicionada pelo contexto político e pelos conflitos crescentes entre comunidades.

Depois de 1948, e sobretudo após 1967, a situação tornou-se muito mais complexa. A ocupação israelita da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental trouxe restrições de circulação que afetam o acesso de muçulmanos e cristãos aos seus locais sagrados em determinados períodos. Ao mesmo tempo, Israel garante liberdade de culto dentro das suas fronteiras reconhecidas, embora organizações internacionais tenham documentado restrições relacionadas com segurança, discriminação e acesso aos locais santos.

Quem procura provar que "uma religião foi sempre mais tolerante do que a outra" está normalmente a usar o passado para alimentar debates do presente (e não a fazer História).

Fontes:

terça-feira, 7 de julho de 2026

A rutura espinosana com o teísmo judaico-cristão e a defesa da liberdade de consciência


O texto aborda a profunda rutura filosófica de Baruch de Espinosa com o teísmo judaico-cristão tradicional, contrastando a sua visão com a de Blaise Pascal. Enquanto Pascal defendia o Deus da fé, da revelação e das Escrituras - o "Deus de Abraão, Isaac e Jacob"-, Espinosa propôs uma desconstrução radical desse modelo antropomórfico (que atribui características humanas a Deus).

Segundo Espinosa, a superstição e o medo são utilizados pelas religiões tradicionais para instituir uma "interdição do pensar", transformando a fé em obediência cega e servindo como ferramenta de controlo político e social. Em contrapartida, o filósofo introduz o conceito de Deus sive Natura ("Deus ou a Natureza"), defendendo que Deus não é um monarca transcendente que julga ou faz milagres, mas sim a própria substância única, infinita e imanente do universo, que opera segundo leis racionais e necessárias.

O ensaio sublinha que, ao destronar o Deus punitivo e providencial, Espinosa liberta a razão humana das amarras do medo, transformando o conhecimento e o "amor intelectual a Deus" na verdadeira via para a liberdade. Adicionalmente, o seu pensamento surge como uma defesa pioneira e intransigente do Estado laico, da democracia e da liberdade de consciência e de expressão.

Podes ler o ensaio completo na sua plataforma de publicação original através da seguinte ligação:

segunda-feira, 29 de junho de 2026

The New Division & Podsongs - Idols

Melhor som aqui

Letra
[verso1]
Prayers to fill the silence of the void
Notions of control have been destroyed
When enveloped and caressed
Doubt collapses under its duress

[Chorus 1]
It goes on and on and on and on, we go,
We start and stop, we speed and slow
Now we know we're all we ever had
We all worship idols good and bad 

[verso 2]
Preaching to the prophets in the crowd
Heretics and loyals all allowed
Every leader's worshipped like a God
Hanging on the words they offer us

[Chorus 2]
We go on and on and on and on, we go,
We offer up, we cast below
Do we know we're all we ever had?
When we worship our idols good and bad 

O conceito de "Idols" nasceu de uma forma muito curiosa. O Podsongs é um podcast gerido por Jack Stafford onde músicos entrevistam personalidades inspiradoras (filósofos, cientistas, ativistas) e criam uma música inédita baseada nessa conversa.

Para esta faixa, John Kunkel entrevistou o filósofo e teólogo norte-irlandês Peter Rollins. O debate girou em torno da ideologia moderna, do vazio existencial, das contradições humanas e do que Rollins chama de "a tirania da felicidade" (a cobrança social implícita para estarmos sempre bem).

O tema central aborda as contradições humanas, o vazio existencial e aquilo que Rollins designa como a "tirania da felicidade", questionando a tendência da nossa sociedade para transformar líderes, figuras públicas ou conceitos em ídolos, como se fossem divindades capazes de nos oferecer respostas definitivas. Através de uma letra que explora a futilidade da nossa procura por controlo e a constatação de que, no fundo, somos tudo o que temos, a música acaba por ser um manifesto filosófico disfarçado de tema para a pista de dança.

terça-feira, 31 de março de 2026

Forrest Dickison


Forrest Dickison é um conceituado ilustrador e pintor norte-americano, nascido em 1989 em Moscow, Idaho, onde reside e mantém o seu atelier até hoje. A sua formação é marcada por uma sólida base técnica no storytelling visual e na pintura tradicional a óleo, o que lhe permitiu transitar com naturalidade entre as Belas Artes e o mercado editorial. Academicamente, Dickison consolidou o seu conhecimento em artes narrativas, atuando hoje também como professor no Camperdown Writers' Kiln.

O seu estilo artístico é dual: na ilustração, apresenta um traço lúdico e dinâmico que remete à estética clássica da animação, com cores vibrantes e personagens expressivos; já na pintura de paisagem (fine art), adota uma abordagem impressionista e atmosférica, focada na técnica en plein air. Os seus temas principais dividem-se entre a captura da luz dramática e das vastas formações de nuvens das colinas de Palouse e das montanhas de Montana, e a criação de mundos de fantasia para a literatura infantil.

Embora muitas vezes associado a comunidades religiosas pelo seu local de residência, Dickison não é mórmon. Ele é um artista de confissão cristã evangélica reformada, mantendo uma colaboração estreita com a editora Canon Press e com o autor N.D. Wilson, com quem desenvolveu projetos de grande sucesso, incluindo a série Hello Ninja (adaptada para a Netflix) e diversas obras de narrativa épica e histórica.

domingo, 15 de março de 2026

Jiddu Krishnamurti - a reforma que vale é a reforma do indivíduo


Quando os modelos estão experimentados e falham gradualmente na criação multilateral e igual de abundância e prosperidade, uma sociedade informada, sensata e consciente, deve começar a procurar novos sistemas e modelos, para que prevaleça e prospere .Ou neste caso concreto, ir buscar os exemplos onde está a sabedoria maior , na Natureza, que em muitos bilhões de anos já fez todas as experiências difíceis e criou modelos tão complexos e eficientes, que com toda a nossa tecnologia e estudo empírico, ainda só afloramos superficialmente.
A sabedoria da Natureza está em tudo o que acompanha o nosso quotidiano. Não inventamos nada, só vamos conseguindo ler e reproduzir , com o engenho e criatividade.
Este processo, seja na escala de consciência individual ou colectivo, transversalmente a tudo, deveria ser a base da nossa conduta, aceitando humildemente aquilo que não sabemos e aceitar a sabedoria da natureza, reproduzindo então com estas nossas capacidades que são o que de melhor temos.

Não somos sábios, mas a criatividade e engenho são dos nossos melhores atributos, como espécie .
Estes mesmos atributos trouxeram a um ponto que podemos construir ou destruir a escalas globais. Resida aqui a tal encruzilhada de escolhas .
Não querendo ser pessimista, porque não o sou, mas se não conseguirmos interiorizar isto primeiro e depois aplicar, temo que possa ser cheio de incertezas e perigos, o nosso futuro enquanto espécie neste maravilhoso e fascinante planeta e cosmos .
E que cada um vá dando o seu contributo, na sua escala e realidade, pode ser muito mais significativo do que se pensa .

Seguindo uma frase que diz que o pior erro é não fazer nada por acharmos que é pequeno ou os outros o farão.
Parece-me claro que estamos cada vez mais próximo de uma encruzilhada determinante .
E parece também que ao invés de aprendermos, só reproduzimos os mesmos erros e cada vez com mais consequências drásticas. É exponencial a capacidade que temos de destruir ou construir .
É uma escolha feita de muitas escolhas.

E-Livros de Jiddu Krishnamurti

Todos os livros traduzidos aqui

sexta-feira, 6 de março de 2026

Invasão do Irão - a complexa teia de conflitos no Médio Oriente: um contributo histórico e teológico


Este cartoon que circula na net é pura desinformação e demonstrativo que há muita ignorância sobre o Islamismo,  o papel dos EUA, Palestina, Irão e Israel e Arábia Saudita e o extremismo muçulmano.
Vamos por partes: 

O Irão era um país governado por xiitas. Uma minoria no mundo muçulmano. 

Geografia
O termo "países sunitas" geralmente se refere a nações onde a maioria da população muçulmana segue o Sunismo, que é o maior ramo do Islão (estimado em 85% a 90% de todos os muçulmanos do mundo).

Diferente do Xiismo, que tem uma concentração geográfica muito clara (principalmente Irão e Iraque), o Sunismo está distribuído por quase todo o mundo islâmico.

Principais países de maioria Sunita
Estes países são centros políticos, culturais ou demográficos do mundo sunita:
  1. Arábia Saudita: considerada o "berço do Islão", abriga Meca e Medina. É a principal potência sunita no Médio Oriente
  2. Indonésia: o país com a maior população muçulmana do mundo, predominantemente sunita.
  3. Egito: sede da Universidade de Al-Azhar, a instituição de ensino sunita mais prestigiada do mundo.
  4. Turquia: embora laico é uma potência regional com uma longa tradição histórica sunita (herança do Império Otomano).
  5. Paquistão: possui uma das maiores populações sunitas globais.
  6. Nigéria: tem a maior população muçulmana da África Subsariana, maioritariamente sunita.
  7. Palestinos são maioritariamente sunitas.
Além disso existem países onde os xiitas não são a maioria absoluta, mas controlam o destino da nação:
  1. Líbano: não há um censo oficial recente, mas estima-se que os xiitas sejam o maior grupo religioso individual (cerca de 30-35%). Através do Hezbollah, os xiitas exercem um poder militar e político que muitas vezes supera o do próprio estado libanês.
  2. Iémen: cerca de 35-42% da população é Zaidita (um ramo do xiismo, como discutimos sobre os Houthis). Eles controlam atualmente a capital, Sanaa, e grande parte do norte do país.
  3. Síria: o país é majoritariamente sunita (70%), mas é governado pela família Al-Assad, que pertence aos Alauítas (um ramo minoritário e místico do xiismo). Por serem uma minoria xiita governando uma maioria sunita, o Irão é o seu aliado mais vital para se manterem no poder.
As diferenças teológicas entre sunitas e xiitas
A divisão entre Sunitas e Xiitas é a maior e mais antiga cisão do Islão. Embora ambos partilhem os pilares fundamentais — como a crença em um único Deus (Allah), no Alcorão e no Profeta Muhammad — a divergência começou como uma disputa política de sucessão que, ao longo dos séculos, ganhou camadas teológicas profundas. A separação ocorreu logo após a morte do Profeta Muhammad em 632 d.C.
  1. Sunitas: acreditavam que o líder (Califa) deveria ser escolhido por consenso entre os membros da comunidade e os seus companheiros. Eles apoiaram Abu Bakr, um amigo próximo do Profeta.
  2. Xiitas: acreditavam que a liderança era um direito divino e deveria permanecer na linhagem direta do Profeta. Eles apoiaram Ali, primo e genro de Muhammad, afirmando que ele foi designado pelo próprio Profeta. 
Com o passar dos séculos, essa disputa política evoluiu para divergências teológicas fundamentais. A principal delas reside no conceito de Imã. Para os sunitas, o Imã é um líder religioso e de oração, um homem respeitável, mas sem poderes sobrenaturais ou infalibilidade. Já para os xiitas, o Imã é uma figura divinamente inspirada e infalível, que possui um conhecimento esotérico do Alcorão inacessível aos homens comuns. A vertente majoritária do xiismo acredita em uma linhagem de doze Imãs, sendo que o último teria entrado em ocultação e retornará no fim dos tempos como o Mahdi, o salvador da humanidade.

Essas visões de mundo também alteraram a estrutura de autoridade. O Islã sunita é historicamente menos hierarquizado, focando na interpretação de textos por diversos juristas. O Islã xiista, por sua vez, desenvolveu uma hierarquia clerical muito forte e organizada — como os Aiatolás no Irão — onde os fiéis buscam orientação em líderes vivos que representam a autoridade do Imã oculto. 
Até mesmo nos rituais há nuances: embora ambos rezem voltados para Meca e sigam os cinco pilares do Islão, os xiitas costumam tocar a testa numa pequena pedra de argila (turbah) durante a prece e celebram datas de martírio, como a Ashura, com uma intensidade emocional e ritualística que não existe no mundo sunita.

Os Houthis (oficialmente conhecidos como Ansar Allah) trazem uma camada extra de complexidade a essa conversa. Eles são muçulmanos, mas pertencem a um ramo específico e diferente do que discutimos até agora.

Aqui está o "RX" religioso e político dos Houthis:
1. Eles são Xiitas, mas "Diferentes"
Os Houthis pertencem ao Zaidismo (ou Xiismo de Cinco Imames).O que isso significa? O Zaidismo é um ramo do xiismo que existe quase exclusivamente no Iémen.
Proximidade com os Sunitas: teologicamente, os zaiditas são considerados o ramo do xiismo mais próximo dos sunitas. Eles não acreditam na infalibilidade dos Imames da mesma forma que os xiitas do Irão (Duodecimanos) e não partilham a mesma hierarquia clerical rígida.
2. A Relação com o Irão
Embora os Houthis sejam zaiditas e os iranianos sejam xiitas duodecimanos, eles se tornaram aliados próximos por razões estratégicas- O "Eixo de Resistência": O Irão fornece armas, drones e treino aos Houthis.
Inimigo Comum: Ambos se opõem fortemente à influência dos EUA e da Arábia Saudita (que faz fronteira com o Iémen e interveio militarmente contra os Houthis).

Onde eles se encaixam no mapa que montamos?

Para facilitar a visualização de quem é quem nas alianças atuais:

Grupo radical/País

Ramo Religioso

Principal Aliado

Hamas (Palestinos)

Sunita

Irão (Apoio financeiro/militar)

Hezbollah (Líbano)

Xiita (Duodecimano)

Irão (Alinhamento total)

Houthis (Iémen)

Xiita (Zaidita)

Irão (Apoio militar/logístico)

ISIS e Al-Qaeda (Arábia Saudita)

Sunita 

EUA / Países do Golfo


Curiosidade: o Lema Houthi
Se você vir imagens dos Houthis, verá frequentemente uma bandeira com frases escritas em árabe (o Sarkha). O lema deles é bastante agressivo e reflete sua ideologia política: "Deus é o maior, morte à América, morte a Israel, maldição sobre os judeus, vitória para o Islão".

Política e gestão estratégica petróleo e nuclear
Na política do Médio Oriente, prevalece a regra de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. A Arábia Saudita, de liderança sunita, e o Irão, de maioria xiita, disputam a hegemonia da região há décadas, e o Irão é visto pelos sauditas como uma ameaça muito mais direta e existencial do que Israel. Como Israel também é o maior adversário do Irão, a Arábia Saudita e Israel tornaram-se aliados informais, trocando inteligência e cooperação militar de forma discreta para conter a influência iraniana.

Somado a isso, há a aliança estratégica com os Estados Unidos, já que a Arábia Saudita é um dos maiores parceiros americanos no mundo e o seu exército é quase inteiramente equipado com tecnologia dos EUA. Como Israel é o aliado número um de Washington, uma invasão saudita a Israel seria um suicídio diplomático e militar, pois os Estados Unidos cortariam todo o apoio à monarquia e possivelmente interviriam para proteger o Estado judeu.

O Paquistão consolida-se como uma das nações mais complexas do cenário global, sendo o país com a segunda maior população muçulmana do mundo, atrás apenas da Indonésia. Sua identidade é intrinsecamente ligada ao Islão, tendo sido fundado em 1947 como um refúgio para os muçulmanos do subcontinente indiano — um projeto liderado por Muhammad Ali Jinnah, que, curiosamente, era de origem xiita. Embora o país tenha nascido sob um ideal de união muçulmana contra o domínio britânico e a maioria hindu da Índia, a realidade interna contemporânea é marcada por uma profunda divisão sectária. A vasta maioria da população (cerca de 80-85%) é sunita, predominantemente da escola Hanafi e dividida entre os tradicionais Barelvi e os rigorosos Deobandi. No entanto, o Paquistão também abriga a segunda maior comunidade xiita do planeta (10-15%), o que representa um contingente expressivo de até 30 milhões de pessoas.

Essa composição demográfica coloca o Estado em uma posição diplomática delicada, funcionando como um pêndulo entre as influências da Arábia Saudita e do Irão. Enquanto os sauditas atuam como pilares económicos, fornecendo petróleo e suporte financeiro, o Irã é um vizinho geográfico direto com o qual o Paquistão precisa manter uma estabilidade fronteiriça pragmática. Essa dualidade frequentemente transborda para conflitos internos, onde grupos radicais sunitas realizam ataques sectários alimentados por rivalidades externas. O que eleva drasticamente o peso dessa instabilidade interna é o fato de o Paquistão ser a única nação do mundo islâmico a possuir um arsenal nuclear comprovado, o que torna sua segurança institucional uma prioridade de vigilância global.

Diferente de Estados laicos, a "República Islâmica" integra a Sharia em seu sistema judicial e exige constitucionalmente que seus líderes máximos sejam muçulmanos. Em 2026, o desafio do país permanece o mesmo: equilibrar uma economia fragilizada e as pressões de grupos extremistas internos com a responsabilidade de ser uma potência nuclear em uma das regiões mais voláteis do mapa. A manutenção deste equilíbrio é o que define não apenas a sobrevivência do Estado paquistanês, mas a própria segurança regional no Sul da Ásia.

Neste cenário de equilíbrios delicados, a Turquia desempenha um papel de "irmã estratégica" e modelo político alternativo. Ao contrário do modelo teocrático iraniano ou da monarquia absoluta saudita, a Turquia — historicamente laica, mas sob uma liderança que busca resgatar o prestígio islâmico — oferece ao Paquistão uma parceria baseada na cooperação militar e tecnológica. Ancara é um dos principais fornecedores de hardware militar para Islamabad (incluindo navios de guerra e drones), ajudando o Paquistão a modernizar suas defesas sem depender exclusivamente do Ocidente ou da China. Além disso, a Turquia utiliza o "soft power" cultural, como suas produções televisivas de temática histórica islâmica, para fortalecer laços com a juventude paquistanesa, promovendo uma visão de liderança sunita moderna e resiliente.

Essa aproximação com a Turquia permite ao Paquistão reduzir sua dependência histórica de Riade, embora os sauditas continuem sendo os principais financiadores económicos e fornecedores de petróleo. Enquanto o Irã permanece como um vizinho geográfico que exige uma convivência pragmática para evitar conflitos de fronteira, a Turquia surge como o parceiro ideal para o desenvolvimento industrial e a projeção de voz nos fóruns internacionais. Em 2026, o desafio do governo paquistanês é navegar por esse triângulo de potências (Arábia Saudita, Irão e Turquia) enquanto gere uma economia fragilizada e garante que seu poderio nuclear permaneça sob controle firme, evitando que as tensões sectárias internas alimentadas por rivalidades externas desestabilizem o Estado.

Israel, Arábia Saudita e Estados Unidos
Atualmente, o foco saudita mudou sob a liderança do Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman, que lançou o plano Visão 2030 para modernizar a economia e reduzir a dependência do petróleo. Ele sabe que uma guerra regional destruiria os planos de atrair turistas e empresas de tecnologia, pois a estabilidade é melhor para os negócios do que o conflito ideológico. Esse caminho da diplomacia ficou evidente com os Acordos de Abraão, onde a Arábia Saudita estava muito perto de reconhecer oficialmente Israel antes do conflito em Gaza em 2023. Para os sauditas, a causa palestina funciona hoje mais como uma ferramenta de negociação para obter concessões do que como um motivo real para uma guerra aberta.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O dia em que um filósofo se irritou e salvou a sua vida: Espinosa, o autor judeu português que vivia à frente do seu século XVII


Um dos mais influentes historiadores do Iluminismo, Jonathan Israel, professor britânico que integrou o Institute for Advanced Study de Princeton, publicou recentemente “Spinoza, Life and Legacy”, uma impressionante biografia de Bento Espinosa, a quem Israel atribui o título de verdadeiro fundador do Iluminismo Radical — corrente filosófica que lançou as bases das ideias modernas de democracia.

Baseando-se nas mais de 1300 páginas desta extensa obra, Rui Tavares detém-se num episódio que Israel optou por omitir: aquele em que Espinosa, ao confrontar um crime bárbaro de motivação política, revela uma faceta intensamente humana e apaixonada, perdendo as estribeiras.

Que evento terá provocado tamanha irritação no autor do “Tratado Teológico-Político”? Neste episódio, somos convidados a redescobrir a biografia, o pensamento e a pertinência do legado filosófico e político de Espinosa, trazendo à luz uma reflexão que ressoa nos desafios contemporâneos.

O Episódio: o massacre dos Irmãos de Witt
O evento ocorreu em 1672, o "Ano do Desastre" para a Holanda. O país estava a ser invadido pela França e pela Inglaterra. A turba enfurecida e manipulada por fanáticos religiosos culpou os líderes liberais do país, Johan e Cornelis de Witt, que eram amigos e protetores de Espinosa, tendo sido eleito  Príncipe de Orange - Guilherme III
Os irmãos foram arrastados por uma multidão linchadora em Haia, assassinados de forma bárbara e os seus corpos foram mutilados (reza a lenda que partes foram inclusivamente comidas pelos agressores).
Ao saber do horror, Espinosa — que raramente perdia a compostura — teve um surto de indignação. Preparou um cartaz onde escreveu:

"Ultimi Barbarorum" (Os Últimos dos Bárbaros)

Ele pretendia levar o cartaz até ao local do massacre e exibi-lo diante da multidão enfurecida. Teria sido um suicídio certo. O que salvou a vida de Espinosa foi o seu senhorio que, percebendo o perigo, trancou a porta da casa à chave e impediu o filósofo de sair. Graças a essa tranca, Espinosa viveu mais cinco anos para terminar a sua obra-prima, a Ética.


O pensamento de Espinoza
O pensamento de Espinosa exerce um fascínio duradouro sobre intelectuais de diversas áreas devido à sua visão revolucionária da realidade e da natureza humana. O ponto central da sua filosofia é a ideia de que Deus e a Natureza são a mesma coisa, uma substância única e infinita que segue leis necessárias, o que remove a figura de um Deus justiceiro e coloca a racionalidade no centro da existência. Esta perspectiva atraiu figuras como Albert Einstein, que afirmava acreditar no "Deus de Espinosa". Além disso, o filósofo substituiu a moral baseada na culpa e no pecado por uma ética da alegria e da potência, onde o bem é aquilo que aumenta a nossa capacidade de agir e pensar, enquanto o mal é o que nos diminui. Ao defender que a liberdade nasce da compreensão das causas que nos determinam e ao ser um pioneiro na defesa da democracia e da liberdade de expressão, Espinosa tornou-se o filósofo da libertação intelectual e emocional, mantendo-se atual tanto na ciência como na política contemporânea.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Saigyō - Sankashū (séc. XII)


“O som do vento nos pinheiros não mudou desde o passado, mas as formas dos homens de hoje são tristes de se ver.”

Saigyō e sua obra Sankashū

Saigyō (1118–1190) foi um dos mais célebres poetas japoneses do período Heian tardio e início do período Kamakura. O seu nome completo era Saigyō Hōshi, sendo "Hōshi" um título budista que indica sua condição de monge. Ele nasceu como Satō Norikiyo, numa família de samurais ligada à corte imperial, mas renunciou à vida mundana aos cerca de 23 anos para se tornar monge budista, adoptando uma vida de reclusão e contemplação da natureza.

Vida e Influências
Saigyō viveu durante uma época de grande transformação social e política no Japão, com a ascensão da classe guerreira (samurais) e o declínio da aristocracia cortesã. Essa tensão entre o mundo secular e o espiritual está presente nos seus poemas. Embora fosse monge, a sua poesia revela um forte apego ao mundo natural, com emoção humana intensa e sensível.

Ele é muitas vezes visto como um precursor do ideal estético japonês chamado yūgen (幽玄), que valoriza o mistério e a profundidade subtil, e do sentimento de sabi (寂), ligado à solidão, simplicidade e beleza melancólica.

Sankashū (山家集) – "Coleção da Montanha e da Cabana"
O Sankashū, literalmente "Coleção da Montanha e da Cabana", é a principal antologia poética de Saigyō, reunindo cerca de 1.550 poemas do tipo waka (poemas curtos de 31 sílabas na métrica 5-7-5-7-7).

Temas principais:
  1. Natureza e estações do ano – Flores de cerejeira, neve, luar, pinheiros, montanhas e rios são frequentes. A natureza é vista como espelho das emoções humanas.
  2. Solidão e retiro – A vida isolada nas montanhas como forma de busca espiritual e de contemplação estética.
  3. Impermanência (mujō) – A transitoriedade da vida, inspirada pelo budismo, especialmente pela escola da Terra Pura (Jōdo-shū), muito influente na sua época.
  4. Conflito entre o mundo e o caminho espiritual – Apesar de ser monge, Saigyō frequentemente lamenta os seus apegos emocionais e estéticos ao mundo.
Legado
Saigyō influenciou profundamente a poesia japonesa posterior, incluindo poetas como Bashō, o mestre do haicai no século XVII, que via em Saigyō um modelo ideal de poeta viajante e contemplativo. Sua obra continua sendo estudada e admirada pela sua beleza lírica, sua profundidade espiritual e sua capacidade de unir estética e religiosidade.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Diferença entre ecologia integral e ecologia espiritual

E-Livro aqui

A ecologia integral e a ecologia espiritual são conceitos que se interligam, mas possuem focos distintos. Abaixo explico as principais diferenças:


🌱 Ecologia Integral

  • Origem e conceito: Popularizada pela encíclica Laudato Si’ (2015) do Papa Francisco.

  • Perspectiva: Holística, interdisciplinar.

  • Abrangência:

    • Integra as dimensões ambiental, social, econômica, cultural e espiritual.

    • Defende que tudo está interligado: ser humano, natureza, estruturas sociais e economia.

  • Foco principal: Justiça socioambiental. Mostra que os problemas ambientais estão conectados com as injustiças sociais e a degradação humana.

  • Exemplo de aplicação: Uma política de desenvolvimento sustentável que respeite tanto o meio ambiente quanto os direitos dos povos tradicionais.


🕊️ Ecologia Espiritual

  • Origem e conceito: Enraizada em tradições espirituais e filosóficas (cristãs, indígenas, orientais etc.).

  • Perspectiva: Contemplativa, ética, interior.

  • Abrangência:

    • Foca na relação interior do ser humano com a natureza, o cosmos e o sagrado.

    • Desenvolve uma consciência espiritual ecológica — sentimento de reverência, gratidão e interdependência com a vida.

  • Foco principal: Transformação interior e reconexão com o sagrado na natureza.

  • Exemplo de aplicação: Retiros ecológicos, práticas meditativas na natureza, espiritualidade ecológica indígena.


📌 Em resumo:

Aspecto Ecologia Integral Ecologia Espiritual
Ênfase Sistémica, ética social Interior, contemplativa
Origem Encíclica Laudato Si’ e pensamento holístico Tradições espirituais e religiosas
Objetivo Justiça ecológica e social Reconexão com o sagrado na natureza
Aplicação Políticas públicas, educação ambiental Retiros, meditação, espiritualidade ecológica

terça-feira, 1 de julho de 2025

O Mundo de Edena


Antes de entrar na obra em si, cabe falar um pouco sobre o autor, Jean “Moebius” Giraud. Foi um artista francês que trabalhou com quadrinhos e também cinema. Começou a sua carreira desenhando um faroeste chamado Blueberry poduzido em parceria com Jean-Michel Charlier. Sua obra de maior reconhecimento, O Incal, foi feita em parceria com Alejandro Jodorowsky.

"O Mundo de Edena" (no original, Le Monde d'Edena) destaca-se pelo seu visual onírico, simbolismo filosófico e abordagem existencialista, sendo considerada uma das obras-primas do autor.

📘 Visão geral da série
Autor: Moebius (Jean Giraud)
Género: Ficção científica, espiritualidade, aventura, utopia/distopia
Publicação inicial: 1983 (como álbum completo em 1988 e uma republicação em 2022)

Volumes: 6 principais
📚 Livros da série
  1. Na Estrela (Sur l'Étoile) – Introdução ao universo de Edena
  2. Os Jardins de Edena (Les Jardins d’Edena) – Primeiras explorações do planeta
  3. A Deusa (La Déesse) – Transições psicológicas e metafísicas
  4. Estrela (Stel) – Mudanças interiores e busca de sentido
  5. Sra. (Sra) – Reflexões sobre identidade e género
  6. Os Consertadores (Les Réparateurs) – Última fase da jornada
🧑‍🚀 Enredo
A história segue Stel e Atan, dois viajantes espaciais que caem num planeta desconhecido. À medida que exploram Edena, são forçados a abandonar a tecnologia e confrontar a natureza, os seus corpos e a própria consciência. Ao longo da saga, Moebius aborda temas como:
  1. Regresso à natureza
  2. Sexualidade e identidade
  3. Autoridade e opressão
  4. Iluminação espiritual
🎨 Estilo artístico
Moebius usa um traço claro e detalhado, com cores suaves e paisagens surreais que evocam tanto o maravilhamento quanto a estranheza. A arte é simbólica e muitas vezes onírica, convidando o leitor a interpretações múltiplas.

💡 Curiosidades
A série foi inspirada por experiências pessoais de Moebius com meditação, dieta macrobiótica e busca espiritual.
Edena começou como uma história promocional para a Citroën (!), mas foi rapidamente expandida numa saga ambiciosa.
A personagem Stel representa o Eu espiritual e consciente; Atan representa o Eu condicionado e apegado à norma.

📚 Edições em português
A série foi publicada em português por diferentes editoras, como a ASA (Portugal) e outras no Brasil. Em anos recentes, algumas editoras lançaram edições integradas com todos os volumes.

Biografia completa aqui

domingo, 22 de junho de 2025

Dia Nacional do Diálogo Inter-Religioso em Portugal, em conjunto com o Dia Nacional da Liberdade Religiosa


Celebrar a liberdade religiosa é celebrar a democracia e a defesa dos direitos humanos. É celebrar a criação de pontes entre diferentes Estados, povos e civilizações. É celebrar a diversidade e a riqueza que a mesma comporta.

Comemora-se hoje o 6º Dia Nacional da Liberdade Religiosa e do Diálogo Inter-religiosa, instituído pela Resolução da Assembleia da República n.º 86-A/2019, aprovada por unanimidade.

Enquanto Deputado Constituinte, o (agora) Presidente da República aprovou a Constituição de 1976 que consagrou a liberdade religiosa como direito fundamental, com um regime jurídico reforçado, próprio dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.

Enquanto Presidente eleito, Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de começar os seus dois mandatos através de uma celebração com todas as confissões religiosas.

Num mundo em que o multilateralismo nem sempre tem conseguido perseverar e em que lidamos com ameaças e desafios emergentes, é cada vez mais relevante estarmos conscientes da relação que existe, por um lado, entre o livre exercício dos direitos humanos nos países democráticos (incluindo a liberdade de religião ou crença) e, por outro lado, a coesão social e a estabilidade política. Bem como do importante papel que o diálogo inter-religioso e intercultural pode desempenhar na promoção da paz a nível mundial.

Não é por acaso que a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece o direito à liberdade de religião ou crença. E que a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável reconhece a importância da liberdade religiosa para o desenvolvimento sustentável.

Portugal é normalmente apontado como um dos países mais tolerantes em termos de liberdade religiosa e isso deve ser um motivo de orgulho para todos os portugueses. O nosso país tem sido escolhido para sede de diversas instituições internacionais que visam promover o diálogo entre religiões e culturas.

E tivemos a honra de ter como Alto Representante para a Aliança das Civilizações das Nações Unidas o antigo Presidente Jorge Sampaio, que exerceu uma liderança inovadora e visionária, permitindo-nos renovar a esperança num mundo melhor.

Que essa esperança nunca se perca e que consigamos continuar a aprofundar o diálogo com todas as comunidades, nunca deixando ninguém para trás.

Conheça ainda o Relatório Internacional sobre Liberdade Religiosa no Mundo 2023, da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre. 

sexta-feira, 28 de março de 2025

Teilhard de Chardin, uma das figuras mais fascinantes do século XX

Por José Tolentino de Mendonça

Pierre Teilhard de Chardin é uma das figuras mais fascinantes e complexas do pensamento do século XX. Sua obra, que se encontra na intersecção entre ciência, teologia e filosofia, representa uma tentativa ousada de integrar a evolução cósmica com uma visão espiritual do universo. Em sua vida e em seus escritos, surge uma síntese original que desafia as dicotomias tradicionais entre fé e razão, natureza e espírito, tempo e eternidade. Este volume se propõe a explorar o pensamento de Teilhard em profundidade, oferecendo uma perspectiva penetrante sobre seu legado intelectual e espiritual.

Mercè Prats, professora e documentarista da Fondation Teilhard de Chardin, é conhecida pelos acadêmicos por ter conseguido reconstruir a circulação clandestina dos escritos do pensador jesuíta francês. Ela consultou arquivos até então inacessíveis, reconstruindo a transmissão em estilo cíclico de seus textos. Esses escritos, que frequentemente apresentavam perspectivas teológicas inovadoras e, às vezes, controversas, foram copiados e distribuídos de forma privada durante décadas, alimentando uma rede de leitores e apoiadores.

O que torna este volume particularmente original em comparação com outros estudos sobre Teilhard de Chardin é também a abordagem inovadora e interdisciplinar adotada pela autora. Prats não apenas examina as ideias de Teilhard em seu contexto histórico e filosófico, mas também as relê à luz dos desafios do mundo contemporâneo. Essa capacidade de dialogar com questões atuais, como a crise ecológica, a globalização e a busca de significado espiritual na era tecnológica, confere ao seu trabalho uma relevância e um frescor extraordinários.

Outra característica distintiva do texto de Prats é sua capacidade de tornar conceitos complexos do Teilhardi acessíveis a um público amplo. Por meio de um estilo claro e envolvente, a autora consegue traduzir as profundas intuições de Teilhard numa linguagem compreensível sem sacrificar a sua profundidade.

Teilhard de Chardin foi um jesuíta, um paleontólogo e um místico. Sua vida foi marcada por uma busca incessante de significado, alimentada tanto pela observação científica quanto pela contemplação espiritual. Nascido em 1881 na França, ele cresceu num ambiente rico em estímulos culturais e espirituais. Sua formação jesuíta lhe proporcionou uma sólida base teológica, enquanto seu trabalho como cientista o colocou frente a frente com as grandes questões da evolução e da natureza do homem. A fé e a ciência moldaram o seu pensamento, que se distingue por sua capacidade de integrar diferentes perspectivas em uma visão de mundo unificada.

O ponto central do pensamento de Teilhard é a ideia de que o universo está evoluindo constantemente em direção a uma maior complexidade e a uma consciência mais profunda. Essa “teologia da evolução”, como foi frequentemente chamada, é uma de suas percepções mais originais e provocativas. Para Teilhard, a evolução não é simplesmente um processo biológico, mas um movimento cósmico que envolve toda a criação. O universo, em sua visão, é animado por uma força interna que o conduz ao ponto ômega, um termo cunhado por Teilhard para denotar o ápice da evolução, onde a consciência humana e a divina se unem em harmonia.

O pensamento de Teilhard – como Mercè Prats ilustra muito bem – provocou muitos debates, tanto na comunidade científica quanto no âmbito teológico. Por um lado, sua visão da evolução como um processo intrinsecamente orientado para o transcendente levantou questões sobre a compatibilidade de suas ideias com a teoria darwiniana. Por outro lado, sua ousadia em reinterpretar a fé católica à luz das descobertas científicas provocou reações contrastantes dentro da Igreja. Apesar das controvérsias, ou talvez por causa delas, o seu pensamento continua exercendo uma profunda influência, inspirando novas gerações de pensadores e fiéis.

O Papa Francisco recordou a figura de Teilhard em setembro de 2023, durante sua viagem à Mongólia, no vizinho deserto de Ordos, exatamente onde, cem anos antes, o jesuíta rezou sua famosa “Missa sobre o mundo”. Francisco pronunciou as palavras dessa oração e depois disse: “Esse padre, muitas vezes incompreendido, intuiu que ‘a Eucaristia é sempre celebrada, em certo sentido, no altar do mundo’ e é ‘o centro vital do universo, o centro transbordante de amor e de vida inesgotável’, mesmo em uma época como a nossa, de tensões e de guerras”. Dessa forma, Francisco quis comemorar e enaltecer a figura desse pensador cristão a quem o então Santo Ofício impôs um Monitum em 1962, mas que também foi citado por vários Pontífices ao longo do tempo.

Um aspecto particularmente significativo do pensamento de Teilhard, que Prats explora com grande sensibilidade, é seu profundo otimismo. Numa época em que o progresso é frequentemente associado a riscos e perigos, Teilhard nos convida a ver a evolução não apenas como uma fonte de conflito, mas também como uma oportunidade de crescer como espécie e como indivíduos. Seu otimismo não é ingênuo, mas está radicado em uma profunda confiança na capacidade do homem de colaborar com as forças criativas do universo.

Outra contribuição significativa de Teilhard é sua reflexão sobre o amor como uma força cósmica. Para Teilhard, o amor não é apenas um sentimento ou uma virtude moral, mas uma força fundamental que guia a evolução em direção a uma maior união e complexidade. Esse aspecto de seu pensamento, que Prats desenvolve com grande profundidade, oferece uma nova perspectiva sobre a natureza do amor e seu papel em nossa vida pessoal e coletiva.

O volume de Mercè Prats é uma contribuição importante não apenas para os estudiosos de Teilhard de Chardin, mas também para qualquer pessoa interessada em refletir sobre as grandes questões da existência. A capacidade da autora de tornar conceitos complexos acessíveis e de entrelaçar o pensamento de Teilhard com os desafios de nosso tempo faz deste livro uma leitura desafiadora, porém importante.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

A vida dos Amish nos EUA


Uma vida como era há 300 anos: a dos Amish nos EUA. Vivem de acordo com as suas próprias regras, rejeitam os avanços tecnológicos, vestem roupas tradicionais e usam carroças puxadas por cavalos. Um encontro com os Amish é como viajar no tempo.

Originários do sul da Alemanha e da Suíça, os Amish levaram a sua cultura e língua para o Novo Mundo. Profundamente enraizados na sua fé, os Amish seguem códigos rígidos e rejeitam a tecnologia moderna. Para quem vê de fora, estas regras podem parecer estranhas. Deslocam-se pelas suas comunidades rurais em carroças puxadas por cavalos, mas se a distância for muito grande, podem recorrer a um serviço de transporte. Não utilizam telefones, a não ser que seja para fins comerciais e o aparelho esteja fora de casa.

Espera-se que as crianças ajudem nas tarefas domésticas, mesmo quando estão na escola. Mas antes de serem batizados como jovens adultos e de finalmente se tornarem parte da comunidade Amish, é-lhes permitido experimentar o chamado rumspringa: um período em que são encorajados a comportar-se como adolescentes comuns — antes de decidirem qual o estilo de vida que preferem. Aqueles que optam por uma existência convencional e moderna são exilados. O filme lança luz sobre um mundo fascinante governado pela tradição.

Regidos por um conjunto estrito de regras conhecido como Ordnung, os Amish são facilmente reconhecidos pelas suas roupas tradicionais, pelas barbas longas dos homens casados e pela rejeição deliberada de grande parte da tecnologia moderna. Atualmente, estima-se que existam cerca de 370 mil Amish espalhados pelo país, com grandes concentrações em estados como o Ohio, o Indiana e a Pensilvânia. A vida nesta comunidade gira em torno da fé, da terra e da família, começando o dia muito cedo, por volta das quatro e meia da manhã, com as tarefas agrícolas e a ordenha dos animais.

Embora evitem a tecnologia nas suas habitações para proteger a harmonia familiar, os Amish demonstram um pragmatismo surpreendente no que toca ao trabalho, alcançando taxas de sucesso empresarial superiores a 80%. Para conseguirem competir no mercado moderno e sustentar as suas numerosas famílias — que têm em média seis filhos —, as regras comunitárias permitem o uso regulado de eletricidade proveniente de geradores ou baterias nas oficinas, bem como o uso de telefones comerciais fora de casa. No entanto, o uso de computadores continua proibido, pelo que dependem de intermediários do mundo exterior para receberem encomendas em papel. O cavalo e a carroça continuam a ser o meio de transporte oficial e espiritual do grupo, mas para distâncias muito longas que cansariam os animais, é comum a utilização de bicicletas elétricas ou a contratação de motoristas não-Amish.

A estrutura social é rigidamente patriarcal e baseia-se numa interpretação literal das escrituras sagradas, onde o homem assume o papel de sustentar a família fora de casa, enquanto a mulher cuida do lar, da horta e da confeção de vestuário, sendo o divórcio e o aborto estritamente proibidos. No que toca à saúde, os Amish recusam qualquer tipo de seguro ou apoio financeiro do governo. Em vez disso, guiam-se pelo conceito de Gelassenheit, que promove a submissão dos desejos individuais em prol do bem comum. Quando um membro necessita de tratamentos médicos dispendiosos, a comunidade organiza leilões de solidariedade onde são doados e licitados bens para cobrir na totalidade os custos médicos.

O documentário aborda também a transição para a idade adulta através da Rumspringa, um período que se inicia aos 16 anos onde os jovens ficam temporariamente isentos das regras da Ordnung. Durante esta fase, têm a liberdade de experimentar o mundo exterior, o que inclui vestir roupas modernas, conduzir automóveis, fumar ou consumir álcool. No fim deste período, os jovens enfrentam a decisão mais importante das suas vidas: submeterem-se ao batismo e comprometerem-se com o estilo de vida Amish para sempre, ou abandonar a comunidade, arriscando-se à excomunhão e ao corte de laços com as suas próprias famílias.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Andrei Tarkovsky - Stalker (1979)


Considerada uma das obras mais enigmáticas e visualmente arrebatadoras da sétima arte, Stalker (1979) é a exploração definitiva de Andrey Tarkovsky sobre a crise da fé e a busca humana por sentido num mundo desolado. Livremente inspirado no romance Piquenique à Beira da Estrada, dos irmãos Strugatsky, o filme distancia-se da ficção científica convencional para se tornar uma meditação filosófica. A narrativa acompanha um guia, o Stalker, que conduz dois homens — o Escritor, em busca de inspiração, e o Professor, movido pela curiosidade científica — através de um território misterioso e proibido conhecido como "A Zona". No coração deste lugar, alegadamente criado por uma visita extraterrestre ou um fenómeno inexplicável, existe "O Quarto", um espaço onde os desejos mais profundos e inconscientes de quem nele entra se tornam realidade.

A estética do filme é marcada por uma transição visual profunda: a realidade exterior, urbana e opressiva, é filmada num sépia monocromático e lamacento, enquanto a entrada na Zona é revelada através de cores naturais, embora densas e saturadas. Esta mudança sinaliza que, para Tarkovsky, o mundo espiritual e o desconhecido possuem mais vitalidade do que a existência materialista. A Zona não apresenta perigos físicos visíveis, mas sim armadilhas metafísicas que se moldam ao estado psicológico dos viajantes, forçando-os a confrontar a sua própria hipocrisia e o vazio das suas ambições.

A produção de Stalker foi marcada por dificuldades quase intransponíveis e uma aura de tragédia. Após um ano de filmagens, um erro no processamento da película destruiu grande parte do material original, obrigando Tarkovsky a recomeçar do zero com um orçamento severamente limitado. Além disso, o local escolhido para as filmagens na Estónia, perto de centrais hidroelétricas e zonas industriais poluídas, é frequentemente apontado como a causa das doenças graves que vitimaram vários membros da equipa, incluindo o próprio realizador. Ironicamente, o filme acabou por antecipar visual e tematicamente o desastre de Chernobil, consolidando o seu estatuto como uma obra profética.

Assistir a Stalker exige do espectador uma entrega ao tempo cinematográfico lento, onde cada plano longo e cada som ambiente convidam à introspeção. O filme não oferece soluções fáceis para os dilemas da humanidade; em vez disso, deixa-nos com a imagem de um mundo que perdeu a sua capacidade de crer, onde a figura do Stalker surge como uma espécie de "santo louco" que tenta preservar o último reduto de esperança e milagre. É um testamento sobre a necessidade de vulnerabilidade e a consciência de que, por vezes, aquilo que verdadeiramente desejamos é o que mais tememos enfrentar.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Citação da Semana- Jiddu Krishnamurti

"We never look deeply into the quality of a tree; we never really touch it, feel its solidity, its rough bark, and hear the sound that is part of the tree. Not the sound of wind through the leaves, not the breeze of a morning that flutters the leaves, but its own sound, the sound of the trunk and the silent sound of the roots."



quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Qual é a diferença entre misticismo e mística?

A diferença entre misticismo e mística é sobretudo de ênfase e uso, embora os termos estejam intimamente ligados e muitas vezes sejam confundidos.

Mística
Refere-se à experiência direta de união, contacto ou comunhão profunda com o sagrado, o absoluto ou a realidade última.
É algo vivencial e interior, normalmente descrito como uma experiência transformadora.

Exemplo:
  1. A experiência de união com Deus em Teresa d’Ávila
  2. O êxtase espiritual em tradições cristãs, sufis ou budistas
Em resumo: mística é a experiência vivida.

Misticismo
Refere-se ao conjunto de ideias, doutrinas, práticas ou correntes de pensamento que explicam, organizam ou valorizam essas experiências místicas.
Pode ser estudado filosoficamente, teologicamente ou historicamente.

Exemplo:
  1. O misticismo cristão
  2. O misticismo islâmico (sufismo)
  3. O misticismo na filosofia neoplatónica
Em resumo: misticismo é o sistema, a tradição ou o discurso sobre a mística.

Referências bibliográficas 

1. Livros

Almond, P. C. (1982). Mystical experience and religious doctrine: An investigation of the study of mysticism in world religions. Mouton.

Alston, W. P. (1991). Perceiving God: The epistemology of religious experience. Cornell University Press.

James, W. (2002). The varieties of religious experience: A study in human nature (Edição original publicada em 1902). Routledge.

Pike, N. (1992). Mystic union: An essay in the phenomenology of mysticism. Cornell University Press.

Stace, W. T. (1960). The teachings of the mystics. New American Library.

2. Capítulos de livros académicos
  • Gellman, J. I. (2009). Mysticism and religious experience. In W. J. Wainwright (Ed.), The Oxford handbook of philosophy of religion (pp. 529–553). Oxford University Press.
  • Katz, S. T. (2008). Exploring the nature of mystical experience. In T. T. Kelly & J. A. Quigley (Eds.), The Cambridge companion to religious experience (pp. 34–55). Cambridge University Press.

3. Artigos em revistas científicas

4.  Artigos académicos em português


5. Enciclopédias académicas
Gellman, J. I. (2020). Mysticism. In E. N. Zalta (Ed.), The Stanford encyclopedia of philosophy (Winter 2020 ed.). Metaphysics Research Lab, Stanford University.