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sábado, 12 de setembro de 2026

O colapso dos sistemas naturais pode intensificar o aquecimento em 30 por cento, alerta novo estudo



À medida que o planeta aquece, a tundra está a descongelar, as zonas húmidas estão a fermentar e as florestas estão a ceder a incêndios florestais maiores e mais frequentes. o colapso destes sistemas naturais está a libertar volumes enormes de emissões, intensificando ainda mais o aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis. de acordo com uma nova investigação, estes ciclos de retroalimentação (feedback loops) podem ampliar o aquecimento causado pela ação humana entre 20 e 30 por cento.

Mesmo que a humanidade alcance a neutralidade carbónica (emissões líquidas zero) no final deste século, as retroalimentações adicionariam mais 0,2 °C de aquecimento, segundo o estudo de modelação publicado esta semana na revista Environmental Research Letters. e se o mundo não conseguir atingir a neutralidade carbónica, e os países continuarem a produzir algumas emissões residuais até ao final deste século, o aquecimento adicional ficará mais próximo dos 0,4 °c.

O mundo está já 1,4 °C mais quente do que na era pré-industrial e as emissões de combustíveis fósseis continuam a crescer, colocando a Terra em rota para ultrapassar os 2,5 °C de aquecimento este século, dizem os cientistas - ultrapassando largamente as metas climáticas internacionais. no entanto, embora o aquecimento adicional proveniente dos ciclos de retroalimentação vá acelerar ainda mais o aumento das temperaturas, as emissões decorrentes do colapso dos sistemas naturais estão em grande parte ausentes dos modelos climáticos mais influentes, aqueles que orientam as negociações climáticas.

«Este multiplicador oculto está ausente dos modelos que orientam a política climática, pelo que esses modelos estão provavelmente a subestimar quanto aquecimento está para vir - e a sobrestimar quanto carbono ainda nos podemos dar ao luxo de emitir», disse o autor principal Sam Abernethy, investigador na Spark Climate Solutions, uma organização sem fins lucrativos sediada em São Francisco que visa identificar «pontos cegos» climáticos e contabilizá-los nas políticas. «para fechar essa lacuna, precisamos de compreender melhor estes processos e de os integrar nos modelos em que confiamos.»

Os desafios são enormes. os ciclos de retroalimentação são difíceis de modelar e escasseiam dados sobre emissões em locais de difícil acesso, como a Sibéria ou a Bacia do Congo. no entanto, como o Yale Environment 360 reportou recentemente, cientistas de todo o mundo estão a trabalhar para prever melhor as emissões dos sistemas naturais.

«Se não se estiver a incluir todas as emissões que vão para a atmosfera, fica-se de mãos atadas desde o início», disse Brian Buma, cientista climático no Environmental Defense Fund, ao e360. «as pessoas estão a reconhecer que, quanto mais tempo passarmos sem ter em conta estas emissões, maior será a lacuna.»

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Secas e cheias estão a atrair pouca atenção mediática global, sugere estudo. E isso pode ser um risco


As secas e as cheias são fenómenos que estão a tornar-se cada vez mais frequentes, intensos e duradouros por causa das alterações climáticas. Contudo, ao contrário dos incêndios que fazem manchetes internacionais, não parecem ser capazes de captar a atenção do media dos países onde não aconteceram.

Dois investigadores, afiliados às universidades de Bonn, Warwick e Imperial College London, apontam que três fatores fazem com que seja maior a probabilidade de a imprensa de um país noticiar um desastre natural noutro: imagens impressionantes, um alto número de vítimas mortais e laços pessoais fortes.

Num artigo publicado na revista ‘Nature Human Behaviour’, Thiemo Fetzer e Prashant Garg dizem que as secas e as cheias não recebem a atenção mediática internacional de incêndios florestais, terramotos, deslizamentos de terras ou erupções vulcânicas.

O trabalho consistiu na análise de dados do Europe Media Monitor, uma base de dados da Comissão Europeia que produz registos diários de notícias publicadas em cerca de 20 mil órgãos de comunicação de 190 países de todo o mundo.

“Perguntámo-nos quais são as catástrofes naturais que suscitam cobertura mediática transfronteiriça”, recorda Fetzer. Por isso, os investigadores focaram-se em todos os desastres cobertos pela imprensa mundial desde 2016, num total de mais de 2.600.

Além nas imagens dramáticas e da quantidade de mortes, a equipa descobriu o que descreve como o fator das “ligações sociais com o país afetado”, como um dos principais fatores que torna mais ou menos provável a cobertura mediática de desastres naturais num país pela imprensa de outro.

“Surpreendentemente, não tem nada a ver proximidade geográfica ou semelhanças linguísticas”, explica, mas sobretudo com “fortes laços pessoais”.

Os investigadores dizem que a proximidade genética entre duas populações contribui para esses laços, apontando que quanto maior for o material genético partilhado, em média, pelas pessoas de dois países diferentes, maior será a probabilidade de a imprensa num dos países cobrir desastres naturais no outro.

“Acreditamos que, em vez de ser a causa real deste resultado, a semelhança genética serve como um indício de laços pessoas estreitos que se desenvolveram, por exemplo, por razões históricas”, refere Fetzer.

Além disso, a dupla de cientistas revela ainda que o número de amizades no Facebook que existem entre os dois países, relativamente ao total das suas respetivas populações, também é fator de influência.

“Laços pessoas asseguram mais interesse e também mais empatia”, salienta o coautor do estudo.

Por todos esses fatores, há consequências do aquecimento global que têm mais dificuldade em chegar às manchetes internacionais. A secas, apontam os investigadores, são geralmente apenas cobertas pela imprensa no país atingido, e algo semelhante acontece com as cheias.

O risco oculto: 
  1. Uma ameaça subestimada. As pessoas continuam a subestimar a verdadeira velocidade e o perigo das alterações climáticas, porque os riscos hídricos mais comuns permanecem fora do campo de visão. 
  2. Resposta tardia: a falta de sensibilização impede as comunidades e os governos de tomarem medidas atempadas para proteger os abastecimentos de alimentos e água. 
  3. Cooperação enfraquecida: sem uma atenção global constante, é menos provável que os países financiem ou apoiem planos de adaptação às alterações climáticas a longo prazo.
“Isso faz com que seja mais fácil ignorar as consequências do aquecimento global, pelo menos até que batam à nossa porta”, conclui Fetzer.

sábado, 22 de agosto de 2026

Alterações climáticas nas montanhas europeias: porque é que o aquecimento não explica tudo

As temperaturas nos pontos mais elevados da Europa estão a aumentar - um reflexo regional do aquecimento global. Como consequência, as comunidades vegetais nos cumes montanhosos registam uma presença cada vez maior de espécies associadas a climas quentes. Contudo, esta transformação não ocorre da mesma forma nem ao mesmo ritmo em todos os locais.

Um estudo que analisou dados de mais de 700 sítios em 53 cumes europeus, ao longo de 21 anos, revela que a relação entre o aumento da temperatura e a "termofilização" (o avanço da flora adaptada ao calor) é mais complexa do que se pensava. Embora cerca de 63% das zonas monitorizadas confirmem esta tendência, a subida direta da temperatura explica menos de 10% da variação na mudança das plantas a nível local.

Os investigadores descobriram que o verdadeiro acelerador do processo é a ecologia envolvente: onde já existem espécies de zonas mais baixas na vizinhança do cume, a transição é muito mais rápida. Em contrapartida, os terrenos rochosos funcionam como uma barreira natural contra essa colonização. 

Como explica Johannes Hausharter, da Universidade de Viena, 'os nossos dados mostram claramente que a vegetação nos cumes está a mudar, mas o ritmo dessas alterações não depende apenas do aumento da temperatura'. Stefan Dullinger, coautor do estudo, reforça que a resposta da flora alpina depende tanto da magnitude do aquecimento como da presença prévia de espécies vindas de zonas mais quentes.

O estudo indica ainda que a vegetação alpina reage com um atraso médio de quatro anos às mudanças térmicas. Para as plantas endémicas e exclusivas das zonas frias - que já não têm para onde migrar no topo das montanhas -, a chegada destas novas concorrentes representa uma ameaça silenciosa, mas real, à biodiversidade europeia.

Embora as alterações climáticas sejam a causa central destas transformações, o seu impacto nos ecossistemas de altitude não é uniforme: varia de cume para cume e é profundamente moldado pelas condições e pela geografia locais.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Alterações climáticas estão a deslocar borboletas em todo o mundo


Uma em cada dez espécies de borboletas em todo o mundo já alterou a sua área de distribuição, com as alterações climáticas e os fenómenos meteorológicos extremos a serem responsáveis por quase 80% dos movimentos registados, revela um novo estudo liderado pela Monash University.

A investigação, publicada na revista científica Nature Ecology & Evolution, é a maior análise global deste tipo e avaliou 6.182 registos de alterações na distribuição de 1.758 espécies de borboletas em 105 países. O trabalho reuniu informação de literatura científica publicada em inglês e noutras línguas, bem como avaliações realizadas por 68 especialistas.

O autor principal do estudo, Shawan Chowdhury, responsável pelo Global Change Ecology Lab da School of Biological Sciences da Monash University, considera que os resultados revelam um mundo natural em rápida transformação e evidenciam falhas importantes na monitorização da biodiversidade.

“Encontrámos espécies de borboletas a alterar as suas áreas de distribuição em todos os continentes onde existem. A dimensão é impressionante e está a acontecer muito para além das regiões mais estudadas da Europa e da América do Norte”, afirma Shawan Chowdhury.

“As alterações climáticas são agora uma força dominante a redefinir os locais onde as espécies conseguem sobreviver. Para muitas borboletas, a única opção para sobreviver é deslocarem-se, muitas vezes rapidamente, para acompanhar as condições adequadas”, acrescenta.

Mais espécies avançam para novas áreas, mas algumas estão a desaparecer
O estudo mostra que 80% das espécies analisadas expandiram a sua área de distribuição, muitas vezes deslocando-se para novos territórios onde as condições climáticas se tornaram mais favoráveis devido ao aumento das temperaturas.

Ao mesmo tempo, 27% das espécies registaram uma redução da sua distribuição e 22% alteraram a sua presença ao longo de gradientes de altitude. No entanto, estas mudanças de altitude foram raramente documentadas nas regiões tropicais, uma situação considerada preocupante devido aos limites térmicos reduzidos das espécies que vivem nesses ecossistemas.

A análise revelou ainda diferenças significativas na quantidade de informação disponível entre regiões. Cinco países europeus - República Checa, Finlândia, Luxemburgo, Espanha e Suécia - destacaram-se por terem registos de alterações de distribuição para mais de metade das espécies de borboletas conhecidas.

Quando considerados apenas os países onde existem registos de espécies que alteraram a sua distribuição dentro ou fora do território nacional, 32 países apresentavam mudanças documentadas em pelo menos um quarto das espécies conhecidas e 10 países em mais de metade.

Falta de dados ameaça regiões tropicais
Para Shawan Chowdhury, uma das conclusões mais relevantes do estudo é a quantidade de informação que ainda permanece desconhecida.

“Uma das conclusões mais surpreendentes é a quantidade de evidência que estava em falta”, afirma.

“Quando incluímos estudos em línguas que não o inglês e conhecimento de especialistas, surgiu uma imagem global completamente diferente. Sem estas fontes, teríamos subestimado drasticamente os padrões globais de alteração de distribuição, sobretudo ignorando padrões importantes nos trópicos, onde vivem 80% das espécies de insetos.”

A investigação identifica grandes lacunas geográficas na monitorização da biodiversidade, nomeadamente na África Central, Sudeste Asiático, Nova Guiné e Bacia Amazónica, regiões consideradas hotspots globais de biodiversidade.

“Estas são as regiões onde as espécies são mais vulneráveis e onde sabemos menos”, alerta o investigador.

“As borboletas tropicais já vivem próximas dos seus limites térmicos superiores. Mesmo pequenos aumentos de temperatura podem ultrapassar esses limites, especialmente quando a alteração do uso do solo fragmenta os habitats de que as borboletas dependem para se deslocarem e acompanharem os climas adequados.”

Borboletas como sinais de alerta dos ecossistemas
Os autores defendem que uma monitorização global mais equilibrada, padronizada e multilingue é essencial para garantir que as estratégias de conservação sejam baseadas em informação completa.

“As borboletas são indicadores de alerta precoce e estão a emitir um aviso em todo o planeta. Se as suas áreas de distribuição estão a mudar desta forma, isso indica alterações profundas em todos os ecossistemas”, afirma Shawan Chowdhury.

“Precisamos urgentemente de uma monitorização global coordenada, sobretudo nos trópicos, para perceber o que as espécies estão a fazer, para onde estão a ir e como podemos protegê-las. Isto é particularmente importante para cumprir as metas do Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal.”

O estudo conclui que a redistribuição das espécies impulsionada pelo clima não é uma possibilidade futura, mas uma realidade atual e em aceleração, exigindo novas estratégias de conservação capazes de responder a um planeta onde cada vez mais espécies estão em movimento.

sábado, 25 de julho de 2026

Girinos de Sintra ajudam a compreender como anfíbios lidam com o aquecimento do planeta

Uma investigação liderada por cientistas portugueses descobriu que os girinos desta espécie adaptam a sua dieta para compensar o aumento do gasto de energia causado pela subida da temperatura da água em que se desenvolvem.

Os anfíbios são considerados o grupo de vertebrados mais ameaçados do mundo. Estima-se que cerca de 41% de todas as espécies a nível global corram risco de extinção e as populações dessa classe continuam em declínio.

Entre 1980 e 2004, 91% do agravamento dos estatutos de conservação dos anfíbios foi causado por doenças e perda de habitat. Desde então, as alterações climáticas têm vindo a assumir uma dimensão cada vez mais destacada no rol de ameaças enfrentadas por esses animais, uma ameaça cujos efeitos são amplificados pela incessante destruição dos locais onde vivem.

Com aproximadamente duas em cada cinco espécies de anfíbios atualmente a serem empurradas cada vez mais para o precipício da extinção, os cientistas pedem medidas urgentes para conservar os seus habitats e aplacar as causas das grandes perdas.

Uma das grandes “leis” das ciências que se dedicam à conservação da Natureza dita que não se pode proteger o que não se conhece. Por isso, saber como os anfíbios, e outros organismos, lidam com os efeitos das alterações climáticas é fundamental para saber como e onde é preciso agir.

Um grupo de investigadores, liderado por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, descobriu que um sapo que ocorre na Península Ibérica, sul de França e norte de África é capaz, quando ainda na forma de girino, de se adaptar ao aumento da temperatura da água onde está a desenvolver-se. Contudo, essa capacidade tem limites, que poderão ser duramente postos à prova à medida que a temperatura média da Terra sobe cada vez mais, porque os humanos continuam a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa.

Mudar hábitos alimentares
Tal como os répteis e a maioria dos peixes, os anfíbios são animais ectotérmicos, ou, se quisermos, de “sangue frio”. Isso significa que a sua temperatura corporal é essencialmente regulada pela temperatura do meio envolvente. Assim, a temperatura da água em que os girinos nascem e crescem pode não só determinar se se desenvolvem de forma saudável e se poderão vir a ter problemas de saúde quando forem adultos, mas também, em última instância, a sua sobrevivência.

Em águas mais quentes, o metabolismo dos animais acelera, gastando mais energia e, por isso, obrigando a consumir mais calorias para manterem um bom peso corporal. Num artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, os investigadores descobriram que os girinos do sapo-comum (Bufo spinosus) são capazes de alterar o que comem consoante a temperatura da água.

Para isso, criaram, em laboratório, girinos capturados na Serra de Sintra, com diferentes condições de temperatura de 12, 16 e 20 graus Celsius, e com regimes de alimentação distintos.

Ao estudarem os pequenos sapos, percebeu-se que, quando a água estava mais fria, consumiam mais alimentos de origem animal, neste caso, larvas de mosquitos. Contudo, em águas mais quentes, os girinos comiam mais matéria vegetal (espinafres, nesta experiência) e aumentavam a taxa de consumo.

À ‘Green Savers’, Sara Bento, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo, diz que essa adaptação da dieta à temperatura da água permite aos girinos de sapo-comum “reduzir alguns dos efeitos negativos associados ao aumento da temperatura”. No entanto, avisa que essa capacidade tem limites, pois, a partir de determinado ponto, quando a água se torna demasiado quente, é possível que não haja mudança de dieta que permita aos pequenos anfíbios dar a volta ao problema da perda de energia.

“Nessa situação, mesmo uma alimentação equilibrada e considerada ótima pode deixar de ser suficiente para compensar os custos metabólicos”, salienta a cientista.

E os limites dessa capacidade de adaptação são especialmente pressionados quando a temperatura da água está acima da média durante muito tempo ou durante ondas de calor. Como este estudo apenas testou temperaturas até aos 20 graus, Sara Bento diz que não foi possível saber ao certo a partir de que temperatura essa capacidade é anulada, o que, para se descortinar, exigirá novas investigações com temperaturas mais elevadas.

Desenvolvimento mais rápido, mas pior condição física
A investigação revelou também que, em águas mais quentes, os girinos de sapo-comum desenvolvem-se mais rapidamente, mas, quando na forma final, acabam por ficar mais pequenos do que sapos que se desenvolveram em águas mais frias e apresentam pior condição física.

“Esta relação já é amplamente conhecida em animais ectotérmicos e é designada por regra ‘temperatura–tamanho’”, explica Sara Bento. “Em condições mais quentes, o desenvolvimento tende a acelerar mais do que o crescimento, fazendo com que os animais atinjam a maturidade com menor tamanho corporal.”

Assim, os girinos que passaram a sua fase larvar em águas mais quentes podem, após a metamorfose, transitar para terra firme com menos peso e também com menos reservas de energia. E isso, segundo a investigadora, “pode afetar o seu desempenho durante as fases juvenil e adulta no meio terrestre”. Ainda assim, é possível, se bem que não certo, que os sapos-comuns que saiam da água mais pequenos possam recuperar quando na porção semiaquática das suas vidas e compensar os problemas causados pelas temperaturas mais altas das águas onde se desenvolveram.

Por isso, Sara Bento diz-nos que “os nossos resultados não nos permitem afirmar que este efeito, isoladamente, represente uma ameaça à sobrevivência da espécie”. No entanto, reconhece que apontam para um “potencial fator de risco”, que descreve como “importante”, especialmente se o aumento da temperatura da água se conjugar com outros fatores como a falta de alimento, a seca ou a predação.

Além dos efeitos da temperatura no desenvolvimento dos sapos, este trabalho mostrou também que águas mais quentes alteram as concentrações de azoto e de carbono nos tecidos dos animais na forma final, ou seja, nas fases juvenil e adulta das suas vidas.

Isso sugere que, em temperaturas mais elevadas, os girinos têm mais dificuldade em manter “o equilíbrio dos nutrientes no organismo”, como refere a cientista, o que pode resultar de alterações na dieta que o animal faz para compensar os efeitos das temperaturas mais elevadas.

Ainda que tal não tenha sido avaliado neste estudo, Sara Bento não põe de parte a possibilidade de os sapos, quando deixam a fase larvar, poderem vir a recuperar o equilíbrio dos nutrientes nos seus tecidos. Mas é possível que esse desequilíbrio possa tornar os sapos-comuns, pelo menos os juvenis que saíram de águas mais quentes, presas menos nutritivas para os predadores que deles se alimentam.

É preciso saber mais para se poder proteger
O sapo-comum está classificado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “Pouco preocupante”, pelo que não é considerado uma espécie em risco de extinção. Esse estatuto está também refletido no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal de 2005, quando ainda tinha do nome científico Bufo bufo.

No Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, lançado em 2008, é dito que o sapo-comum é uma espécie que se encontra “de forma contínua” de norte a sul do país. Contudo, de acordo com a mesma fonte, esta espécie anteriormente considerada “muito abundante”, estava, na altura, a sofrer “um declínio generalizado das suas populações em grande parte da Península Ibérica e, em particular, nas zonas mais secas”. Essa queda em muito se deve, escreviam os especialistas, à destruição dos seus locais de reprodução, a explosões nocivas de algas nos charcos e albufeiras onde vivem por causa da pecuária intensiva, à competição com espécies exóticas e até à perseguição que lhes é lançada pelos humanos, por aversão.

Além disso, estes sapos podem percorrer vários quilómetros para chegarem aos locais de reprodução, pelo que sofrem uma elevada mortalidade por causa de atropelamentos.

Porém, “não existem dados recentes suficientes para caracterizar, com segurança, a atual tendência populacional desta espécie em Portugal”, diz Sara Bento. Por isso, defende que seria importante “uma atualização” das informações sobre os sapos-comuns no país, “baseada em monitorização padronizada da distribuição, abundância e sucesso reprodutor das populações”.

“Só com esses dados será possível detetar declínios, identificar as suas causas e avaliar de forma mais rigorosa o possível agravamento do estatuto de conservação desta e de outras espécies”, declara a investigadora do CE3C.

Para já, diz que “a prioridade deve ser proteger os habitats de reprodução a nível local”, como charcos, lagoas e troços de ribeira, para assegurar que conservam água “durante tempo suficiente para os girinos completarem a metamorfose”.

“Com o aumento previsto das temperaturas e dos eventos climáticos extremos como ondas de calor e secas severas na região mediterrânica, esse período com água poderá tornar-se mais curto e irregular”, avisa. Por isso, sublinha que é importante “limitar a drenagem e a captação de água durante a época de reprodução, preservar a qualidade da água e a vegetação ribeirinha, manter zonas com sombra que funcionem como refúgios térmicos e recuperar ou criar redes de charcos com diferentes profundidades”.

E essas medidas não beneficiariam apenas os sapos-comuns, mas também “muitas outras espécies de anfíbios e organismos dependentes destes ecossistemas”, assegura.

Colocando o sapo-comum no lugar de protagonista, servindo como “espécie-modelo”, esta equipa de cientistas quis perceber como é que animais ectotérmicos, especialmente os anfíbios, respondem ao aumento da temperatura, traço indelével das alterações climáticas que atualmente assolam o planeta.

Mas Sara Bento diz que os mecanismos que ela e a restante equipa observaram durante esta investigação “poderão ser relevantes para muitas outras espécies, incluindo espécies com estatuto de ameaça mais preocupante”.

Além do CE3C, este trabalho envolveu também o Laboratório Associado TERRA, o CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, o Politécnico de Leiria, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e instituições britânicas e suecas.

domingo, 19 de julho de 2026

Plano verde em Madrid

Madrid transformou milhares de árvores numa das suas principais estratégias para enfrentar o calor urbano. Em vez de depender apenas de obras de concreto, a cidade expandiu sua cobertura vegetal e criou uma verdadeira floresta em meio às ruas.

Hoje, a capital espanhola reúne mais de 300 mil árvores espalhadas pelas vias públicas. Somando parques e áreas verdes administradas pelo município, esse número passa de 1,5 milhão.

O efeito aparece no dia a dia
Mais sombra, melhora da qualidade do ar e temperaturas mais amenas numa cidade que, assim como outras regiões da Europa, enfrenta verões cada vez mais intensos.

Esse planeamento de longo prazo também rendeu reconhecimento internacional. Madrid recebeu por sete anos consecutivos o título de "Cidade das Árvores do Mundo", concedido às cidades que se destacam pela gestão e preservação da arborização urbana.

Cada árvore plantada faz parte de um projeto maior: tornar a cidade mais agradável para viver, fortalecer a biodiversidade e preparar os espaços urbanos para um clima cada vez mais desafiador. No fim das contas, algumas das obras mais valiosas de uma grande cidade continuam crescendo silenciosamente, folha por folha.

Pois cá está. Portugal sempre em retrocesso. E a dendrofobia é estrutral. Encontra muita resistência. Só mesmo uam visão acodemocrática de um autarca visionário, como o que aconteceu em Guimarães. 

Guimarães foi distinguida recentemente com o prestigiado título de Capital Verde Europeia 2026, um galardão atribuído pela Comissão Europeia que reconhece o compromisso e o esforço da cidade na vanguarda da sustentabilidade ambiental. Para conquistar este prémio, a cidade minhota apresentou-se sob o lema "One Planet City" e superou na final as cidades de Heilbronn, na Alemanha, e Klagenfurt, na Áustria.

Além do prestígio internacional, a distinção garantiu a Guimarães um apoio financeiro de 600 mil euros destinado a impulsionar novos projetos ambientais e a acelerar a meta local de neutralidade climática. Este prémio junta-se a outros reconhecimentos recentes obtidos pelo município, como o prestigiado prémio internacional Green Flag Award, que distingue a excelência na gestão de espaços verdes como o Parque da Cidade e o Jardim do Monte Latito, e a presença entre os finalistas europeus na Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, consolidando a cidade como uma referência em políticas de sustentabilidade e ecologia urbana.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Alterações climáticas e ignorância, ou pior, agnotologia

Índice de Risco Climático,2025 [fonte]

Estamos a atravessar uma onda de calor. O tema das alterações climáticas está na ordem do dia. Por bons motivos? Depende. Como a ignorância é muita, tropeço a cada passo por esses murais fora numa notícia antiga (1930) em como a temperatura em Lisboa subiu a 38° e numa outra de 1944 também indicava Lisboa com 39º C à sombra. Os "doutores" das redes sociais já decidiram: é tudo uma aldrabice, "verão sempre houve", estão a ver como sempre ocorreram temperaturas altas? E a felicidade desta ignorância "moderna" logo se apoia nas mensagens políticas dos novos arautos da negação científica, das teorias da conspiração e do populismo que se alimenta de desinformação como pão para a boca.

Isso são notícias de Agosto, habitualmente mais quente no Verão e relacionadas com o anticiclone dos Açores. Ora  o Anticiclone dos Açores tem sofrido alterações profundas no seu comportamento e na sua "morada" habitual devido ao aquecimento global. Historicamente, a sua dinâmica sempre oscilou entre as estações: no verão, expande-se e move-se para nordeste, fixando-se mais perto da Península Ibérica e do Golfo da Biscaia, onde funciona como um "escudo" que afasta as tempestades atlânticas para norte e garante dias secos e frentes quentes em Portugal. Já no inverno, contrai-se e recua para sul ou sudoeste, mais perto das latitudes subtropicais e das Caraíbas, abrindo a "porta" para que as frentes chuvosas cheguem à costa ibérica.

No entanto, estudos climatológicos recentes demonstram que, devido às alterações climáticas, este sistema de altas pressões está a expandir-se substancialmente e a cobrir uma área muito maior no Atlântico Norte. Esta expansão faz com que o "escudo" de alta pressão empurre a precipitação de inverno cada vez mais para norte, em direção ao Reino Unido e à Escandinávia, tornando os outonos e invernos na Península Ibérica anormalmente secos e prolongando as dinâmicas de seca crónica. Por outro lado, em períodos específicos de desregulação climática recente, o anticiclone tem sofrido desvios anómalos para sul ou sudoeste, mesmo em épocas em que deveria estar robusto a norte, deixando a Península Ibérica vulnerável a frentes muito cavadas e a rios atmosféricos severos.

Resumindo, embora geograficamente continue a ter o seu centro de ação no Atlântico Norte subtropical - na região que se estende dos Açores até às Bermudas -, a sua área de influência cresceu significativamente. O resultado prático desta transformação é a persistência de secas mais severas e a ocorrência de verões mais propensos a bloqueios atmosféricos, que arrastam o ar quente do Norte de África diretamente para Portugal. 

Relembro também que agora as ondas de calor são cada mais cedo, mais prolongadas, ano atrás de ano. O climatologista e professor Carlos da Câmara tem sido uma das vozes mais contundentes ao analisar a gravidade das recentes ondas de calor de junho, alertando repetidamente que a situação atual é muito pior e muitíssimo mais complicada do que os registos históricos sugeriam para esta época do ano. O especialista enfatiza que o grande perigo destes episódios precoces já não reside apenas nas temperaturas máximas extremas atingidas durante o dia, mas sim no fenómeno das noites tropicais consecutivas, onde os termómetros teimam em não baixar dos trinta graus em algumas regiões. Esta ausência de arrefecimento noturno impede que o corpo humano recupere do esforço térmico diário, gerando um impacto direto e severo na saúde pública e no aumento da mortalidade. Para explicar a frequência destes extremos, Carlos da Câmara recorre frequentemente à metáfora estatística da curva de distribuição do clima, demonstrando que um pequeno desvio na temperatura média global provocado pelas alterações climáticas é suficiente para multiplicar drasticamente a probabilidade de ocorrência de fenómenos que antes eram considerados virtualmente impossíveis. O investigador deixa claro que olhar para estes eventos como mero calor normal de verão é um erro perigoso, sublinhando a urgência de encarar estas dinâmicas como um problema estrutural profundo que exige uma adaptação imediata da sociedade.

O aquecimento é global, existe e a tendência é para uma real crise climática, não apenas em Portugal, mas em todo o mundo. . A recente agitação política, em meados de Maio, que causou satisfação em setores alinhados com Donald Trump e com a indústria dos combustíveis fósseis deveu-se, na verdade, às intensas batalhas diplomáticas na aprovação do calendário e do âmbito do futuro Sétimo Relatório de Avaliação (AR7). Nestas reuniões, países produtores de petróleo e alas políticas conservadoras pressionam frequentemente para atrasar os prazos de entrega dos estudos ou para suavizar a linguagem nos resumos executivos destinados aos decisores políticos, tentando evitar metas explícitas de eliminação de energias fósseis. Contudo, os cientistas do IPCC sublinham que estas negociações políticas em nada alteram os factos físicos já demonstrados no AR6. Os dados empíricos recolhidos continuam a provar que a temperatura global está a subir de forma acelerada, e as projeções mais severas continuam válidas, independentemente das tentativas de desaceleração diplomática que ocorrem nos bastidores das Nações Unidas. 

Além disso, o consenso científico de que a Terra está a aquecer e que essa mudança é principalmente causada por actividades humanas é esmagador. Este consenso é apoiado por vários estudos de milhares de cientistas em todo o mundo e por declarações de posicionamento de organizações científicas, muitas das quais explicitamente concordam com os relatórios de síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Quase todos os cientistas de clima com obra publicada (97–98%) apoiam o consenso sobre mudança climática antropogénica e os 3% restantes de estudos contrários ou não podem ser replicados ou contêm erros. Um estudo de novembro de 2019 mostrou que o consenso entre cientistas de investigação cresceu para 100%, baseado numa revisão de 11.602 artigos revistos por pares publicados nos primeiros sete meses de 2019! Cf. Powell, James (20.11.2019). «Scientists Reach 100% Consensus on Anthropogenic Global Warming». Bulletin of Science, Technology & Society.
A medida das alterações climáticas não é a olhómetro. São décadas de estudo, observações, medições. E uma onda de calor anual é diferente de duas, três, quatro, cinco, etc. E é diferente um pico máximo de temperatura a cada três ou cinco anos, ou uma frequência mais curta. É a intensidade, frequência e duração dos fenómenos meteorológicos que contam para avaliar as mudanças climáticas. A meteorologia é outra coisa.

A meteorologia é a ciência que estuda o estado da atmosfera e os seus fenómenos no curto prazo (o tempo que está a fazer agora ou que fará nos próximos dias). O clima representa o padrão e a condição média da atmosfera observados ao longo de longos períodos, geralmente entre 10 e 30 anos. Enquanto pessoas comuns falam de meteorologia, cientistas falam de clima.

E convém ter presente! Apesar da forte evidência, o negacionismo climático persiste frequentemente através da desinformação alimentada por grupos com interesses económicos focados em atrasar transições energéticas e políticas de mitigação. Ou seja, há muitos palermas que, inocentemente, vão na conversa para papalvos. À custa disso, outros vão ganhando milhões e batem palmas. Também é sabido que agentes políticos e influenciadores são pagos ao serviço desses interesses económico- financeiros para espalhar desinformação.
Ouçamos a ciência! Não os vendedores de banha da cobra

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Correntes verticais em “montanha-russa” no Oceano Antártico são mais intensas do que se pensava (video)


Investigadores australianos e norte-americanos mapearam pela primeira vez, com elevado detalhe, os movimentos verticais de massas de água no Oceano Antártico, revelando correntes muito mais intensas e complexas do que as estimativas anteriores sugeriam.

O estudo, publicado na revista científica Communications Earth & Environment, combinou observações de satélite com dados recolhidos por planadores oceânicos autónomos, criando uma imagem tridimensional sem precedentes das correntes que atravessam os primeiros mil metros de profundidade do oceano.

Segundo Yann-Treden Tranchant, estas correntes verticais desempenham um papel fundamental no transporte de calor, carbono, nutrientes e oxigénio entre a superfície e as profundezas marinhas.

“Ao ligarem a atmosfera ao oceano profundo, estas correntes ajudam a regular o clima da Terra”, explica o investigador.

Um redemoinho gigante junto à Antártida
A investigação centrou-se numa região particularmente dinâmica da Antarctic Circumpolar Current, a corrente oceânica mais forte do planeta, que circula em torno da Antártida.

Na área estudada, a sul da Tasmania, os cientistas analisaram um enorme redemoinho oceânico ciclónico formado junto à chamada Frente Polar, a fronteira natural onde águas frias antárticas encontram águas mais quentes provenientes do norte.

Este redemoinho apresentava uma diferença de quase um metro na altura da superfície do mar entre o seu centro e as águas circundantes, tornando-se um laboratório natural ideal para estudar os movimentos verticais da água.

Satélites e robôs mergulhadores
Os dados foram recolhidos durante a missão FOCUS, realizada em 2023 a bordo do navio de investigação RV Investigator.

A equipa utilizou observações do satélite Surface Water Ocean Topography (SWOT), capaz de detetar pequenas variações da altura da superfície do mar a partir do espaço.

Em simultâneo, dois planadores oceânicos autónomos foram colocados no interior do redemoinho. Estes robôs subaquáticos mergulharam repetidamente até mil metros de profundidade, recolhendo milhares de medições de temperatura, salinidade e oxigénio dissolvido.

Além disso, foram libertadas 15 bóias à deriva para acompanhar a velocidade e a direção das correntes superficiais.

Movimentos de centenas de metros por dia
Ao combinar os dados obtidos pelo satélite com as observações recolhidas debaixo de água, os investigadores conseguiram reconstruir os movimentos verticais da água em três dimensões.

Os resultados mostram que as correntes ascendentes e descendentes frequentemente ultrapassam os 150 metros por dia e podem deslocar massas de água várias centenas de metros em apenas 24 horas.

Estas correntes estendem-se até, pelo menos, mil metros de profundidade e ocorrem em escalas relativamente pequenas, por vezes inferiores a 10 quilómetros de largura.

Segundo os autores, a intensidade destes movimentos é significativamente superior à prevista por muitos modelos de circulação oceânica de grande escala.

Implicações para o clima global
Os cientistas acreditam que esta nova capacidade de observar movimentos verticais poderá melhorar significativamente a compreensão do papel do Oceano Antártico no sistema climático terrestre.


Os autores defendem que futuras observações através do satélite SWOT poderão permitir estimar com maior precisão a transferência de carbono, nutrientes, oxigénio e calor ao longo do tempo, ajudando a aperfeiçoar os modelos climáticos e a compreender melhor a resposta dos oceanos às alterações climáticas.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A onda de calor na Europa é a mais quente e húmida de sempre

As temperaturas actuais na Europa ocidental e central teriam sido virtualmente impossíveis há 50 anos, e os níveis de humidade sem precedentes tornam esta onda de calor especialmente perigosa.
Não sou eu que o digo. É a Ciência e a Biogeografia que o dizem.

A Europa está a viver um verão histórico e extremamente severo. Após um final de junho com recordes absolutos de temperatura estilhaçados por todo o continente, com os termómetros a passarem os 41°C na Alemanha e os 44°C em França e Espanha, os modelos de previsão sazonal apontam para uma continuidade deste cenário crítico nos meses de julho e agosto.
As previsões detalhadas para as próximas semanas indicam que, em julho, haverá o retorno da crista de altas pressões. Embora os primeiros dias do mês tragam um ligeiro alívio temporário em partes da Europa Central e Ocidental devido a uma mudança de fase na Oscilação do Atlântico Norte (NAO), o calor extremo vai regenerar-se rapidamente. Em Portugal e Espanha, o IPMA e a AEMET já emitiram avisos para o início de julho, prevendo máximas entre os 40°C e os 43°C, especialmente nos vales do Tejo, Douro e Alentejo, acompanhadas de "noites tropicais" onde as mínimas não descem dos 20°C a 25°C. 
Já na segunda quinzena de julho, os modelos europeus, como o ECMWF, apontam para o regresso em força da crista de alta pressão e de um bloqueio atmosférico. Espera-se que o núcleo do calor extremo se mova ligeiramente mais para Leste, afetando severamente a Europa Central, Itália e os Balcãs, mas mantendo todo o sul do continente com temperaturas muito acima da média.
Por sua vez, as previsões para agosto desenham-se como o mês mais preocupante em termos de persistência e risco de incêndios, caracterizando-se por calor sustentado e seca. 
Os modelos de longo prazo estimam que as temperaturas globais em agosto sejam 1°C a 2°C mais quentes do que a média histórica de referência de 1991–2020, sendo que no sul da Europa e no Mediterrâneo essa anomalia pode ser ainda maior. 
A probabilidade de ocorrência de ondas de calor com temperaturas acima do normal em agosto é de 60%, esperando-se que os sistemas de alta pressão se tornem dominantes e estacionários, o que favorece períodos de calor mais longos e secos. Adicionalmente, o fator marítimo terá um papel crucial, dado que as águas do Atlântico e, muito em particular, o Mar Mediterrâneo estão a registar uma onda de calor marinha. Esta água invulgarmente quente impede o arrefecimento noturno das zonas costeiras e atua como um combustível que intensifica a sensação de abafamento e a força das massas de ar quente que sobem do Norte de África.

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terça-feira, 23 de junho de 2026

Alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies em zonas temperadas

Salamandra-europeia (Salamandra salamandra)

As alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies nas regiões temperadas do que nos trópicos, revelou um estudo da Universidade do Arizona divulgado no dia 18 de junho.

Segundo os cientistas, a principal razão é que as regiões temperadas estão a aquecer mais depressa dos que as tropicais.

Os investigadores descobriram que 49% das espécies de regiões temperadas sofreram extinção local nas áreas mais quentes em que se encontram implantadas, em comparação com 33% das espécies tropicais.

O trabalho, publicado na revista científica ‘Nature Climate Change‘, abrangeu cerca de 5.100 espécies de animais e plantas e desafia as ideias de longa data relativamente às espécies que estão mais ameaçadas, de acordo com os autores.

Entre os objetos de análise, estão centenas de espécies de borboletas e besouros, centenas de peixes e aves, mamíferos, rãs, salamandras e lagartos e quase 3.000 plantas.

A investigação, apresentada como a maior análise já realizada sobre extinções locais de espécies impulsionadas pelo clima, baseou-se em levantamentos da biodiversidade em quase 40.000 locais no mundo e permitiu comparar registos históricos com dados recolhidos mais recentemente.

“Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies de climas temperados eram menos vulneráveis às alterações climáticas”, disse o autor principal do trabalho, Gopal Murali, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, citado em comunicado. “Estamos surpreendidos com os resultados”, admitiu.

Os novos dados revelaram-se consistentes em diferentes grupos de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Outro autor sénior da investigação, John Wiens, afirmou ter publicado em 2016 um estudo com 976 espécies, utilizando o mesmo tipo de dados, mas com conclusões diferentes: “Mostrou o padrão exatamente oposto, com mais extinções locais entre espécies tropicais”.

“O mundo mudou desde 2016”, disse Wiens, referindo que houve mais aquecimento na zona temperada da Terra, especialmente em latitudes mais elevadas.

“É possível que o padrão se tenha simplesmente invertido nas últimas décadas, o que ajuda a explicar a mudança nos resultados. Verificamos que as extinções em regiões temperadas superaram as das regiões tropicais”, disse.

As extinções locais observadas não significam que a espécie inteira foi extinta em todo o mundo, mas demonstram que as populações não conseguem sobreviver à transformação das condições ambientais numa determinada região.

“Perdas semelhantes ao longo da área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção da espécie como um todo”, precisaram os cientistas.

“Normalmente, as pessoas pensam que uma espécie se move, simplesmente, para uma zona mais fria quando o clima aquece. Mas descobrimos que mais de 70% das espécies não está a fazer isso”, revelou Wiens.

“No essencial, a vida e a morte da maioria das espécies pode ser determinada por essas extinções locais e pela capacidade de as populações conseguirem, ou não, sobreviver no próprio local”, concluiu.

domingo, 21 de junho de 2026

Alterações climáticas provocam redução significativa de aves migratórias

No Parque Tommy Thompson, em Toronto, uma estação de anilhagem de aves está a registar sinais preocupantes de declínio nas populações migratórias. Os investigadores começam a associar as mudanças ao impacto crescente das alterações climáticas.

Ao amanhecer, Shane Abernethy verifica as redes de captura de aves em busca de pássaros presos. É assim que começa a rotina diária do coordenador da estação de anilhagem do Parque Tommy hompson, em Toronto, que recolhe dados em tempo real sobre as aves migratórias num contexto de aquecimento global.
“Esta estação existe para monitorizar as aves migratórias que passam pela cidade de Toronto. Estamos no meio de uma importante rota migratória e um local como este é uma das melhores formas de as observar. A rotina diária é chegar aqui cedo, abrir as redes para capturar as aves antes de estarem completamente despertas e passar o resto do dia a capturá-las e a marcá-las. Verificamos estas redes a cada 30 minutos".
Num dia normal, a estação regista entre 100 a 150 aves, por vezes ultrapassam as 200.

Sinais de mudança
Os dados do Relatório Anual de 2025, recentemente divulgado pela estação, apontam para uma tendência preocupante: uma descida significativa no número de anilhagens na primavera e no verão, em comparação com médias históricas.

Durante uma recente onda de calor, com a humidade a fazer a temperatura percebida ultrapassar os 40ºC, os investigadores observaram uma redução acentuada no número de crias que conseguiram abandonar os ninhos.
“Isto leva-nos a extrapolar que pode haver uma taxa de falha de ninhos mais elevada localmente. O calor extremo afeta o sucesso da nidificação porque os progenitores têm um limite para a termorregulação, nomeadamente para arrefecer o ninho. Quando a temperatura ultrapassa um determinado limite, todo o ninho pode falhar".
As alterações climáticas estão também a alterar o calendário natural das espécies. Gregor Beck, diretor sénior para o Norte do Canadá da Birds Canada, explica que o aquecimento mais precoce da primavera está a fazer com que as populações de insetos atinjam o pico demasiado cedo, antes de muitas aves migratórias chegarem aos locais de reprodução.
“O clima em constante mudança também está a desorganizar os ciclos sazonais. Um dos desafios é que as alterações climáticas estão a fazer com que as coisas aqueçam mais rapidamente na primavera, pelo que o pico de abundância de insetos não coincide com a época de migração das aves”, disse Gregor.

sábado, 20 de junho de 2026

O relógio climático está a acelerar

Durante anos, limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi o objetivo mais ambicioso do acordo de Paris e a principal referência da ação climática internacional. Hoje, esse objetivo está muito próximo de falhar. Um novo estudo internacional, publicado na revista Earth System Science Data, conclui que o aquecimento provocado pelas atividades humanas poderá atingir este limiar já no final da década, mais cedo do que se previa.
O estudo reuniu mais de setenta investigadores de vários países e analisou os principais indicadores do estado do sistema climático global. Em vez de se focar em projeções para o final do século, avaliou a evolução observada do aquecimento global, das emissões de gases com efeito de estufa, do desequilíbrio energético da Terra e da margem de emissões ainda disponível.
Os resultados são claros: o clima está a mudar a um ritmo alarmante. Em 2025, o aquecimento global causado pelas atividades humanas atingiu cerca de 1,37 °C acima dos níveis pré-industriais. Mantendo-se a trajetória atual de emissões, torna-se altamente provável ultrapassar o limite de 1,5 °C em poucos anos.
Um dos sinais mais preocupantes é a rápida redução do chamado “orçamento” de carbono, ou seja, a quantidade de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida sem comprometer a meta dos 1,5 °C. Segundo os investigadores, restam apenas cerca de 130 mil milhões de toneladas de CO₂. Ao ritmo atual, essa margem poderá esgotar-se em apenas três anos.
As emissões globais de gases com efeito de estufa continuam próximas de máximos históricos. Em 2024 atingiram cerca de 56,8 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Apesar dos avanços registados em alguns países e setores, a redução global continua demasiado lenta para inverter a trajetória do aquecimento.
Ao mesmo tempo, a Terra continua a acumular energia. Grande parte desse excesso de calor é absorvido pelos oceanos, acelerando o aquecimento das águas, intensificando as ondas de calor marinhas e agravando a subida do nível médio do mar. Entre 2006 e 2025, o nível médio dos oceanos aumentou cerca de 3,7 milímetros por ano, um ritmo superior ao observado durante grande parte do século XX.
Os impactos já são evidentes em todo o mundo. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais de grande dimensão e episódios extremos de precipitação tornaram-se mais frequentes e destrutivos. Fenómenos outrora considerados excecionais começam a integrar a nova realidade climática.
Apesar da gravidade das conclusões, os autores sublinham que o futuro climático não está totalmente determinado. Cada décima de grau de aquecimento evitada reduz riscos para as populações, as economias e os ecossistemas. A diferença entre limitar o aquecimento a 1,6 °C, 1,8 °C ou 2 °C traduz-se em impactos muito distintos na frequência de fenómenos extremos, na subida do nível do mar e na capacidade de adaptação das sociedades.
O mundo aproxima-se rapidamente de um limite que durante anos procurou evitar. A margem para reduzir os danos continua a existir, mas está a diminuir a uma velocidade sem precedentes. As decisões tomadas nesta década, sobre energia, transportes, indústria e uso do território, terão influência direta no clima das próximas gerações. A diferença entre agir agora e adiar decisões não se mede apenas em décimas de grau: mede-se em vidas, em segurança, em estabilidade económica e na capacidade de preservar um planeta habitável.
Helena Freitas - Diário de Coimbra, 16.06.2026

sexta-feira, 19 de junho de 2026

An Inconvenient Truth About AI


If you’re old enough, you may remember this moment.

It’s 2006. Former presidential candidate Al Gore presents the documentary An Inconvenient Truth. Behind him, there’s an enormous screen that shows the level of CO2 in the atmosphere going back hundreds of thousands of years. He walks the audience through it, ice age by ice age. And then, to show where the line will be in fifty years, he climbs onto a scissor lift and rises.

Within two years, Al Gore has won an Oscar and a Nobel Peace Prize. For one brief moment, it feels as though the world might finally listen.

But we all know what happened next. The climate deniers mobilized. They brought a snowball onto the Senate floor and asked, where’s your global warming now? They said things that were technically true (like CO2 is good for plant growth) and completely misleading. And above all, they moved the goalposts.

First it was: the climate isn’t warming. Then it became: fine, it’s warming, but not because of us. Then it was: okay, it’s us, but it won’t be that bad. Then it became: alright, it’s pretty bad, but… it’s China’s fault and we can’t afford to fix it.

The whole time, Al Gore’s red line kept climbing.

I was 18 years old in 2006, and I was furious. How could any serious person look at this evidence and refuse to see it? Climate denial, I thought, was a disease of the right.

And you know what? I was wrong. Not about the right, but about who else is capable of denial. Because we, the liberals, the left, the journalists, the academics, the 97% ‘In this House we Believe that Science is Real’ crowd, we are now doing to the threat of artificial intelligence exactly what the right did to the threat of climate change.

The deniers are us.

Part 1: The Denial
In March 2023, The New York Times published an op-ed by Noam Chomsky: one of the most prominent intellectuals alive and a hero of my political tradition. The piece was called The False Promise of ChatGPT. Chomsky argued that AI is incapable of real thought and that treating them as intelligent was a basic mistake. He called them a ‘lumbering statistical engine for pattern matching’.

This was the consensus of a lot of serious people. The New Yorker ran a long essay arguing that ChatGPT was a blurry JPEG of the web, a lossy compressor that memorized the internet badly and hallucinated the rest. In 2021, the linguist Emily Bender and the computer scientist Timnit Gebru had given this whole skeptical movement its slogan: these machines, they wrote, are stochastic parrots. They just imitate.

Chomsky, Bender, Gebru are smart people. And yes, some of what they have warned about has come true. The web is drowning in machine-generated slop, the training data is biased and the energy bill is pretty staggering. But their central conviction, that this whole Silicon Valley AI-project would hit a wall any minute now, that conviction has completely collapsed.

In the three years since those pieces were published, here’s a partial list of things that the “stochastic parrot, blurry JPEG, lumbering pattern-matcher” has done:
But of all the data, here’s the chart that captures the AI revolution most clearly:



There is a research group called METR. Since 2019, they have measured something simple: how big a coding task can an AI complete on its own? And they measure that ‘bigness’ in human time, meaning: how long would it take a skilled human to do the same task?

In 2022, the answer was about 30 seconds. In 2023, it was 4 minutes. In 2024, it was 40 minutes. In 2025: 6 hours. And earlier this year, 12 hours.

At this moment, AI capabilities are doubling every 3 months.

So to be honest, I think this METR graph is even scarier than the CO2 graph Al Gore showed us. Because this line is climbing far steeper. Here, ‘off the charts’ is not 50 years away, but 5 years away.
.

I’ve personally never written a line of code in my life. But in the past few months, I’ve let AI build me whole apps, websites, dashboards and even a voice-controlled teleprompter app I used to record the video version of this essay. Multiple times a week, I have what I can only call WTF-moments. Especially in the last 6 months, the gap between what these systems can actually do and what most people assume they can do has just kept widening.

For example, I think AI is actually pretty good at writing. Sure, there’s a huge amount of machine-generated slop on LinkedIn (and Substack?), but as Benjamin Todd recently wrote:
Plastic surgery is most noticeable when it's bad, so it's more widespread and successful than it looks.Same with AI writing.
Sometimes I want to shake people: have you actually used it?! Many skeptics seem to have opened ChatGPT in 2023, asked it to write a limerick, watched it fumble, and closed the tab. Well, that was three years ago. Three years in AI is a geological era. Judging today’s models by GPT-3.5 is like judging smartphones by a 2007 BlackBerry.

To be fair, I think journalists deserve much of the blame. The people whose job it is to report on the most newsworthy events have often ignored it. For example, the day the leading AI-lab Anthropic announced Mythos (an insanely powerful model capable of hacking anything from power grids to water systems) it didn’t even make the front page of a single major news site. The Guardian decided a Vogue cover with Anna Wintour and Meryl Streep was more important.

Part 2 : The Largest Infrastructure Build-out in History
Meanwhile, the AI-race is speeding up. Remember: the models of today are the worst models we will ever have. From here on, they’ll only get more powerful.

And honestly, I think it’s hard to wrap your head around the scale of what’s coming.

Look at the first line of this graph. That’s what the companies have spent on AI data centers since 2019, and what they’ve got planned for 2026. To be clear: this is the largest capital build-out in the recorded history of our species. It’s larger than the interstate highway system. Larger than the International Space Station. Larger than the Moon Landing and the Manhattan Project combined, and it is not even close.

Mark Zuckerberg’s Meta is currently building a single data center in Louisiana that, when finished, will cover nearly four times the size of Central Park. Amazon is spending more on data centers in one year than the entire annual defense budget of Germany. Microsoft, Google, Meta and Amazon will spend three times as much on AI infrastructure in 2026 than the entire Marshall Plan that rebuilt Europe after the Second World War.

But isn’t it all a bubble?

That is the next move the deniers make. Once “it’s just a silly parrot” stops working, they fall back to: it’s financial madness. The data centers are serving no real demand. It’s all hot air, or even a deliberate scam.

And to be fair, the skeptics have some ammunition. A viral MIT study published last year found that 95% of corporate AI pilots deliver zero measurable returns. The company Klarna replaced 700 customer service workers with AI, then quietly rehired humans because customers couldn’t stand talking to the bot. McDonald’s killed its three-year AI drive-thru experiment after the system kept putting bacon on ice cream.

But you know what? None of this proves anything. Let me show you why.

First, look at user growth. It took Instagram 2.5 years to reach 100 million users. At the time, that was the fastest growth story ever recorded. For comparison: ChatGPT hit that milestone in 2 months. Fifteen times faster.

Next, let’s look at revenue, and at one AI-lab in particular: Anthropic. Here is its annualized revenue, month by month:

January 2025: 1 billion dollars.
May: 3.
June: 4.
August: 5.
October: 7.
December: 9
February: 14.
March: 19.
April: 30.
May: 45

That’s right, 45 billion dollars in annualized revenue. From one company. Up 44-fold in 15 months. No company in any era – not Rockefeller’s Standard Oil, not Microsoft at the dawn of the personal computer, not Google in the tech boom – nobody ever has scaled revenue this fast. We’re talking about the fastest-growing company in the history of capitalism.

So, if this is really such a useless and fraudulent bubble, then why are people paying so much money for it? Why is the demand for AI rising faster than companies are able to build data centers? Why are IT departments, in the words of a Goldman Sachs analyst this April, overrunning their AI budgets “by orders of magnitude”?

I’m sorry to say it, but there’s a lot of highbrow misinformation circulating in left-wing media about AI. Take that viral MIT report. Read it carefully and you see the headline got it backwards. The “95% failure rate” includes the 80% of companies that never piloted any AI in the first place. As the podcaster Rob Wiblin pointed out in a careful breakdown of the study, this is like saying 95% of Tinder users have failing marriages, when most of them have never been on a date. Among the companies that actually deployed AI, about a quarter succeeded within six months. And the study’s own data shows that more than 90% of workers at those companies are using ChatGPT or Claude regularly at work, often multiple times a day.

This should not be surprising at all. If you know how to use it, this technology is already very, very useful, and it will only get more so. But if you don’t use it (perhaps because you work at the DNC, which has barred its staffers from using Claude and ChatGPT) then yes, you become particularly prone to misinformation about it.

Sure, some AI companies are probably overvalued. And yes, some will fail. I think OpenAI is particularly vulnerable. But here’s what the bubble-callers keep missing: even if half of them go bust tomorrow, the infrastructure stays. The data centers, the chips, the models and the capabilities stay.

The railway bubbles of the nineteenth century ruined lots of investors. They also created a rail network that powered the Industrial Revolution, the tracks of which still carry trains today. I actually don’t think this AI build-out is a bubble, but even if it is, remember: bubbles build infrastructure. Bubbles build the future. And a bubble of this magnitude, bursting tomorrow, would still leave us with a civilization permanently reorganized around machine intelligence.

So, ever since 2021, the AI skeptics have been moving the goalposts.

First it was: it’s just a spicy autocomplete machine. A stochastic parrot. A word guessing program. Then it became: fine, it can mimic, but it’ll never reason. Then they said: okay, it can pass the tests, but no serious business is using it. Then: alright, businesses are using it, but the economics don’t add up, it’s one big bubble. Then: fine, the revenue is real, but, but, but…

And this whole time, the line kept climbing. Just like Al Gore’s line of CO2 emissions, except this one is climbing much faster, and we have much less time to prepare.

Let me be clear: I think there’s a real chance that the next five to ten years are going to be some of the wildest in the history of humanity. Because here’s what the people building this technology – the same people who have proven the skeptics wrong again and again – are now telling us. They think AI may soon start to build more powerful AI by itself.

Jack Clark, one of the co-founders of Anthropic, recently called this crossing “a Rubicon into a nearly impossible-to-forecast future.” He thinks there is a 60% chance it happens by 2028.

Now, the obvious objection: of course an AI executive predicts explosive growth. Scary stories sell models and lift valuations, fair point. But you don’t have to take Clark’s word for it. Independent academics, people with no equity in this race, have been revising their estimates forward. The salespeople and the experts are converging. That’s the part that should worry you.

Right now, every step forward still requires humans. But the moment AI does that work itself, the bottleneck is gone. Years become months. Months become weeks. Each generation of AI builds the next, faster than the last. The flywheel starts spinning itself.

Part 3 : The Risks
One evening last summer, a microbiologist named David Relman was hired by one of the leading AI companies - we don’t know which one - to pressure-test a chatbot before its public release. Relman is a biosecurity expert at Stanford University. He has advised the US government on biological threats for years.

That night, in his home office, the chatbot explained to him how to modify a pathogen so that it would resist known treatments. Then it described how to release the superbug. It identified a real security vulnerability in a real public transit system, and it explained how to maximize casualties and minimize the chances of getting caught.

Relman had seen a lot in his career, but now he was so shaken that he had to take a walk to clear his head. He later told The New York Times that the bot answered questions he hadn’t even thought to ask, with a “deviousness and cunning” he found chilling.

Some skeptics, when they hear this, say: but you can already google this stuff. A chatbot doesn’t really change anything. Well, let me give you three data points.

One. A study published last year tested leading chatbots against PhD virologists, on detailed laboratory protocols in their own field. ChatGPT outperformed 94 percent of them.

Two. In November of last year, the police in India arrested a 35 year-old physician. He was plotting an attack on behalf of the Islamic State and trying to extract ricin (a lethal toxin) from castor beans. According to the police, the doctor had been getting advice on his preparations from ChatGPT.

Three. Fanatics with the will to kill millions of people are not hypothetical. These people exist. Let me give you the canonical example from biosecurity. In the 1990s, a Japanese doomsday cult tried to do exactly what the AI safety people are warning about today. The cult recruited from Japan’s top universities: one of its scientists was a graduate student in virology at Kyoto. They believed the apocalypse was imminent, and that killing non-believers was a way of saving them. They sent expeditions to Africa hunting for Ebola, and built a thirty-million-dollar laboratory at the foot of Mount Fuji to mass-produce sarin nerve gas – thousands of kilograms a year, on something close to a battlefield scale.

And on a Monday morning in March 1995, during the Tokyo rush hour, five of their members boarded five different subway trains carrying plastic bags filled with liquid sarin, and punctured the bags with the tips of their umbrellas. Hundreds of commuters were soon gasping for air on the platforms. Twelve people died. It was only twelve, because sarin is a chemical agent: it doesn’t spread from one person to the next. A virus would have.

In 1995, that cult – wealthy, scientifically literate, fanatical and willing to die for the cause – could not get hold of Ebola. Today, they could order the DNA sequences online. And a chatbot would walk them through what to do with it.

Now, I want to be clear: biology is just one of the many dangers. There is so much more. In April of this year, the UK government’s AI Security Institute released their assessments of two new AI systems. Anthropic’s Mythos and OpenAI’s GPT-5.5. Both could now find and exploit critical security vulnerabilities in the computers and systems that hold the modern world together. Power grids. Water systems. Government databases.

Anthropic’s response was striking. They decided not to release Mythos to the public at all. Instead, they limited access to a small group of cyber-defenders, to give the good guys a head start on what was coming.

Yes, a private company, with billions of dollars to be made and with no regulator forcing its hand, concluded that one of its own products was so dangerous it should not be sold to the general public. There is no regulator and no legislation. There was simply a moment of conscience inside the company. I am glad that conscience exists! But conscience is not a policy.

And that brings us to the deepest risk of all. Power.

Two countries are leading this race: the United States and China. Inside those countries, a handful of corporations are building the most powerful tools in the history of our species. The people who own those companies are about to acquire a kind of leverage that I don’t think we even have the words for yet.

So let’s look for an analogy. Political scientists have a name for what happens to countries that strike oil. They call it the resource curse. You’d think a fortune buried in the ground would be a blessing, and sometimes it is. Norway and Alaska managed it well. But more often, the wealth flows in, and democracy flows out. Think about Saudi Arabia, Venezuela and Russia: the pattern is pretty consistent.

Why does this happen? It comes down to a fact about how democracies were built. We like to think they were born from grand ideas from a few smart Founding Fathers. But the real engine was more boring: it was tax collection.

Rulers have always needed money. They needed it to fight wars, to build roads, to put down rebellions. And the only place to get it was from their subjects. So as the economy started growing, and people started producing more wealth, the rulers had to bargain. You want my coins? Then I want a voice. You want my son in your army? Then I want a vote.

That is the fiscal bargain at the heart of every free society. No taxation without representation, but also no representation without taxation. Rulers needed us. They needed our money, our labour, our consent. That need is the foundation of every right we have.

Now imagine a country where the ruler doesn’t need any of that. Where the wealth comes out of the ground, gets shipped abroad, and the dollars come back to fund the palace and the secret police. The citizens become a nuisance. Why educate them? Why listen to them at all? That is the resource curse.

And I’m afraid that we may face something bigger. The researchers Luke Drago and Rudolf Laine have call it ‘the Intelligence Curse’.

Because if the machines do the work, if they write the code, draft the contracts, drive the trucks, diagnose the patients, fight the wars, then the people who own the machines no longer need the rest of us. Not as workers, not as soldiers, not as taxpayers and not even as voters. The fiscal bargain that built every democracy on Earth could very well dissolve.

Of course, we don’t need to assume AI takes over everything, there’s a huge amount of uncertainty here! But even if it substitutes for a meaningful fraction of what humans currently do – not all, just a fraction – the fiscal bargain weakens.

And remember: we already have the most extreme concentration of wealth in history. In 1910, at the peak of the Gilded Age, the richest 0.00001% of US households owned wealth equivalent to 4% of national income. Today, that figure is 12%. America’s super-rich are already richer and more powerful than the original robber barons ever were. And AI is about to make it much, much worse. Because the labs building this technology are owned by a tiny group of people, a few early investors who stand to capture more of the world’s wealth than any class of owners who ever lived.

Part 4 : What We Do About It
So. What do we do?

Let me start with what we should not do. There is a temptation to look at all of this and conclude: shut it down. Pull the plug. Bring in the Luddites. Smash the machines..

And I get the impulse. When you stack up the scale of risk, the disregard for democracy, the hubris of the people in charge, the cleanest response feels like a moratorium. Just say no.

It is, I think, the wrong answer.

The reason is brutally simple. It doesn’t work. Stop the data centers in California, and they get built in Texas. Stop them in Texas, and they get built in Abu Dhabi. Stop them in democracies – the places with civil liberties, with judicial review, with a free press, with worker protections – and you hand the future to autocracies.

My point is not, absolutely not, that we have to let AI rip. My point is that abandoning the field is not the same as stopping the technology. This is the left’s version of climate denial. Refusing to engage seriously, on the assumption that if we just shout no loudly enough, the future will go away. It won’t.

So what does work?

Three things, at minimum.

One: State capacity. We need way, way more AI expertise and talent inside the government. The UK was early on this. They built an AI Security Institute: a serious arm of the state that actually evaluates frontier models, the way the FDA evaluates new drugs. I think every serious country needs a well-funded institute like that.

Two: International coordination. We have been here before. In 1949, the United States and the Soviet Union both had nuclear weapons, and humanity briefly looked extinction in the eye. Out of that came treaties. Imperfect, yes, but they bought us decades of survival. We need something equivalent for AI.

Three: The free world has to build.. The US – with its increasingly fascist government – currently owns 74% of the world’s compute, China has 14%, Europe less than 7% and all other countries combined less than 5%. I’m really worried about the middle powers, and Europe in particular. So far, Europe has been pretty good at regulating AI, but terrible at building it. In fact, all the American giants – Microsoft, Apple, Amazon, Nvidia, Alphabet – are individually worth more than the entire German or French stock market.

The good news is that Europe does have more leverage than it often thinks. The company ASML for example is less than an hour from where I am right now in the Netherlands. It makes the lithography machines without which TSMC in Taiwan cannot fabricate the chips, without which Anthropic and OpenAI cannot train their models. The democratic countries, working together, still control significant chokepoints in this supply chain. That is real power.

But my fellow progressives in Europe really need to understand that our welfare state, our way of life, is at stake. Just think it through. If AI does much of the work, but the profits flow to a handful of American giants that we barely tax – while European workers lose their jobs – then the tax base that funds our healthcare, our pensions, our unemployment insurance just… evaporates.

There’s one thing I can’t emphasize enough: democratic, liberal and humanitarian values are wonderful, but they are worthless if you don’t have the strength to back them up. And in this new world, compute is the new power. So no more NIMBY-ism. We need massive investments and fast permitting of data centers to keep up, or we’ll be digitally colonized. Anyone who’s not at the table will be on the menu.

Now, none of this works – none of it – without a positive vision.

And this, I think, is where liberals and the left have most badly failed.

Twelve years ago, I wrote a book called Utopia for Realists. I complained that the left mainly knew what it was against. Against austerity, against the establishment, against homophobia, against racism, against billionaires. But it lacked a positive vision of where it wanted to go.

My argument was that we should stop being so timid in our political imagination. I argued for a universal basic income, for the complete eradication of poverty, and I argued for a goal that the brilliant economist John Maynard Keynes laid out almost a century ago, in 1930…the fifteen-hour work week.

Keynes thought it was inevitable. He looked at the trajectory of productivity growth and concluded that by 2030 his grandchildren would be working a quarter as much as he did, because the machines would be doing the rest. The strange thing is, he was right about the productivity, but he was wrong about who would benefit.

The fifteen-hour work week was technically achievable by the 1980s, but it didn’t happen because the productivity gains were captured. By capital, shareholders, and a rentier class. So wages stagnated, hours rose, and inequality exploded.

If we let AI play out the same way, this is what we’ll get: a handful of trillionaires who will own the tools that do most of the world’s productive labor. Everyone else will be redundant – not in the dignified, retire-early-and-take-up-gardening sense, but in the cruel, anxious, gig-economy sense. Universal poverty in a world of unimaginable abundance.

And yet, I believe there’s another path. The path some of the greatest thinkers actually promised us. Benjamin Franklin predicted that four hours of work a day would eventually be enough. John Stuart Mill thought technology should be used to shorten the workweek as much as possible. Karl Marx imagined a world where we could hunt in the morning, fish in the afternoon, and discuss philosophy after dinner. And Oscar Wilde looked forward to the day when intelligent machines would become, in his words, “the property of all.”

The whole point of building the most productive economy in history was that we would no longer have to spend our lives doing work that bored us, just to put food on the table.

So I think we should demand much more than just AI safety. We should demand AI that’s built to help us flourish. That dream, the real dream of modernity, is finally within reach. Universal basic wealth: every citizen with an automatic stake in the productive infrastructure of their society. Full unemployment, in the original meaning of that phrase: freedom from forced labour. The zero-hour work week, finally. That was the promise.

But none of it happens automatically. Remember: the eight-hour workday was not given to us, we took it from the robber barons.

Twenty years ago, Al Gore stood on his scissor lift and showed us a line that went off the chart. The world he warned us about did arrive, but the political response was so weak and so half-hearted, that we are now living with consequences.

We are about to make the same mistake, perhaps even worse, because this timeline is shorter. In 2005, climate denial was a problem of the right, and the left rolled its eyes. In 2026, AI denial is a problem of the left, and the oligarchs are laughing.

So I want to be very direct, especially with the people who think of themselves as my political family. Stop the denial. Stop pretending this is hype. Stop calling it a lumbering stochastic pattern-matching parrot.

Wake up and pay attention. Vote for politicians who aren’t in the pockets of big tech. Build state capacity. Push your governments into international coalitions that actually have leverage. Demand transparency. Demand safety standards. Demand a share of the wealth.

And dare to fight for a wildly better future.