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sábado, 27 de junho de 2026

PJ Harvey - Voyager

Letra
Long years, far place
Dark nights, dark days
Frozen, silent
Bearing Earth-songs
Earth-songs

Force fields, high winds
Cold moons, bright rings
Hear my signal
Will you follow?

Look back at us
As a speck of dust
Darkness our home
Bear it through love

Last note, last sign
Neptune, Triton
Fading signal
Choose light, choose love

Voyager, look back
At a pale blue dot
All we don't know
A flake of snow

Dust in a sunbeam, blue dot
So far, so cold
Kindness, kindness
Care for
Our shelter, tender, tender


PJ Harvey lançou esta quarta-feira (24 de junho) um tema novo, ‘Voyager’.
O tema é inspirado pelo Programa Voyager, da NASA, iniciado em 1977. Foi composto durante as sessões de gravação para o próximo álbum de PJ Harvey, ainda sem data de lançamento definida.
Em comunicado à imprensa, a artista britânica disse-se “entusiasmada com o desafio de compor uma canção com a ‘voz’ da Voyager 2”, sonda lançada em agosto de 1977 e que se encontra, atualmente, fora do Sistema Solar. “Perguntei-me: que nos diria ela se pudesse?”. ‘Voyager’ conta, ainda, com uma citação do já falecido astrónomo Carl Sagan.

"Voyager", o single de PJ Harvey lançado em junho de 2026 a convite do físico Brian Cox para a sua digressão mundial Emergence, afasta-se do rock visceral de guitarras do início da sua carreira para abraçar uma sonoridade espacial, flutuante e de gravidade zero. A faixa insere-se no panorama do ambient e do art pop eletrónico, sendo construída sobre pulsações eletrónicas lentas e minimalistas e sintetizadores modulares, onde se destacam o Prophet-5 tocado por Harvey e o baixo de sintetizador Juno tocado pelo próprio Brian Cox. Há uma utilização intencional de efeitos que simulam distorções de fita e pequenas falhas de áudio, como se a música fosse um sinal de rádio enfraquecido a viajar pelo espaço, uma atmosfera que ganha uma imensa sensação de amplitude e grandiosidade cinematográfica graças aos arranjos de cordas criados por Dario Marianelli e executados pela Orquestra de Miraval. Sobre esta massa instrumental, a voz de PJ Harvey surge de forma etérea, fantasmagórica e descorporificada, acentuando uma profunda sensação de solidão cósmica.

O conceito central da canção é uma das propostas mais fascinantes da carreira da artista, uma vez que a letra é escrita e cantada sob a perspetiva da própria sonda espacial Voyager 2, lançada pela NASA em 1977 e que hoje navega pelo espaço interestelar, a milhares de milhões de quilómetros da Terra. Harvey revelou ter-se inspirado na questão de saber o que a espaçonave nos diria se pudesse falar, mimetizando os relatórios da sonda ao cruzar os limites do nosso sistema solar através de versos que mencionam forças de campo, ventos fortes, luas frias e anéis brilhantes. O significado da canção desdobra-se em camadas emocionais e filosóficas, prestando uma homenagem direta ao astrónomo Carl Sagan, que idealizou o Disco de Ouro da Voyager e poeticamente batizou o nosso planeta de "Ponto Azul Claro", uma ideia que a artista recupera ao usar metáforas que nos reduzem a um floco de neve ou a um grão de poeira na imensidão do cosmos. Ao olhar para a Terra através dos olhos da máquina distante, a música funciona como uma meditação sobre a nossa extrema pequenez e fragilidade, sugerindo que, diante do vazio absoluto do universo, os conflitos e as fronteiras humanas perdem totalmente o sentido. Apesar de mergulhada num ambiente frio e mecanizado, a mensagem final que PJ Harvey extrai dessa vastidão é profundamente humanitária e otimista, culminando num apelo urgente à sobrevivência e à união para a humanidade que ficou para trás, sintetizado no verso que nos incita a escolher a luz e a escolher o amor.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Manel Cruz com Clã - O Navio Dela


Letra
A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela

Não deseja ser o meu mundo
Mas tem-me em seus desejos
Eu noto nos seus olhos
A nítida presença
Das nossas aventuras

Voa com seus pássaros fantásticos
Agnósticos, simpáticos
Por campos de razões
E quando volta traz-me caramelos

Ela não se põe à janela
De corpo iluminado
Mas mostra o universo
Ao animais de caça
Quando desce ao mercado

Desce nos cabelos das estrelas
Bem nas barbas dos fantasmas
Que aprendeu a desmontar
E acaba a transformá-los em brinquedos

A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela

Ela é o capitão do seu navio

A junção de Manel Cruz com os Clã na interpretação de "O Navio Dela" — uma canção originalmente lançada pelo músico no seu álbum a solo Vida Nova, em 2019 — representa um dos momentos mais felizes da música portuguesa recente, expondo a cumplicidade de longa data entre estes artistas. Do ponto de vista do estilo musical, a versão original assenta numa folk-pop minimalista e acústica, guiada pelo ukulele e enriquecida por arranjos de sopros e violoncelo. Contudo, ao fundir-se com a identidade dos Clã, o tema ganha uma roupagem de pop-rock alternativo muito mais sofisticada, onde a energia instrumental, os teclados texturados e a precisão rítmica da banda abraçam a cadência poética e quase saltitante de Manel Cruz.

O significado da canção centra-se numa celebração absoluta da autonomia, da liberdade e da independência feminina. O tema desarma o ouvinte logo no primeiro verso ao afirmar que "a minha mulher não é minha, é da cabeça dela", desconstruindo de imediato a ideia patriarcal de posse nas relações amorosas. O "navio" funciona aqui como uma metáfora visual para a vida, os pensamentos e o destino dessa mulher, que assume o papel de única capitã da sua jornada. O eu lírico não demonstra qualquer desejo de controlo; pelo contrário, expressa uma admiração reverente por vê-la navegar livre e por testemunhar a sua capacidade de enfrentar os próprios fantasmas e transformá-los em brinquedos, resultando numa ode ao respeito pela individualidade dentro do amor.

Quanto ao seu enquadramento, "O Navio Dela" pode ser considerada uma canção de intervenção, embora se distancie do modelo clássico e histórico do género em Portugal. Enquanto os temas de intervenção tradicionais de figuras como Zeca Afonso ou Sérgio Godinho se focavam no combate político direto e na denúncia das injustiças sociais, esta composição alinha-se com uma abordagem moderna de intervenção cultural e de costumes. Em vez do tom de protesto agressivo, a música recorre à poesia, à sensibilidade e à subtileza do quotidiano para transmitir uma mensagem profundamente política sobre o feminismo e a igualdade de género. Ao atacar o conceito de que o amor legitima a posse, a canção intervém diretamente na desconstrução do machismo e das mentalidades conservadoras, provando que a música pode ser uma arma social através do afeto e da consciencialização.

domingo, 12 de abril de 2026

Afonso Cruz - O que a Chama Iluminou


Já tinha lido dois livros dele antes: "O Princípio de Karenina" e "Jesus Cristo bebia cerveja". Adorei os dois livros.
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é um livro que nasce de uma experiência-limite vivida por Afonso Cruz no Chile aquando dos protestos de 2019. Durante uma perseguição em Santiago, o autor escreve: “É desse lugar, em que a morte nos espreitava através do vidro escuro de um blindado, que quero escrever este livro. Dali, onde estava com R., suspenso entre a vida e a morte (…). Este livro nasce de um beco.” (p. 28). É a partir desse quase fim que o livro se abre para uma reflexão mais vasta sobre todos os fins que atravessam a existência.
A experiência pessoal funciona como detonador, mas Cruz não se encerra nela. Pelo contrário: amplia-a, desdobra-a, coloca-a em diálogo com outras formas de desaparecimento. O livro convoca o fim do amor, quando se perde o amado, o marido, o filho; o fim das palavras, quando a linguagem se gasta e já não nomeia; o fim dos povos indígenas, cuja cultura se esbate como poeira ao vento; o fim dos filhos e dos maridos desaparecidos, que as mulheres de Calama procuram com uma persistência que é, ao mesmo tempo, luto e resistência. Cada uma destas formas de fim é iluminada pela mesma chama: a consciência de que tudo é transitório, mas nada se perde totalmente. Até porque como o autor lembra “o fim pode também ser um princípio ou um recomeço (…). (p. 44)
Afonso Cruz cita vários autores que alimentam a ideia de que o fim de algo está na origem da beleza, da poesia, da arte em geral. Segundo Vicente Verdú “ O vazio é o principal luxo da arte (…) A negação, a dor, o mal, o vazio são eminentes criadores. Altamente ativos.” Estas referências surgem como parte de uma reflexão que se quer ampla e dialogante.
Em vários textos, Cruz recupera a ideia primordial de que somos feitos de pó e ao pó regressaremos, não como ruína, mas como continuidade. É aquilo que permanece quando a forma desaparece. O pó revela que o fim não é interrupção, mas transformação. Esta visão, profundamente serena, afasta o livro de qualquer sombra de medo. A morte não surge como ameaça, mas como claridade.
Outro elemento decisivo e que muito me agradou é a erudição do autor, que se manifesta nas citações, nos exemplos convocados, nas vozes que entram no texto como companheiras de pensamento. As referências funcionam como velas que iluminam diferentes ângulos da mesma questão seja ela filosófica, histórica, científica, poética e ampliam a experiência vivida.
O resultado é uma obra de não ficção que se lê avidamente. A escrita, depurada e aforística, agarra o leitor. Há silêncio entre as frases, entre os textos; há contenção; há uma serenidade que surpreende. Mesmo quando fala da morte, Cruz escreve com lucidez. A chama ilumina o fim, sim, mas ilumina também o que fica, o que continua: a memória, o gesto, o amor, a matéria que se transforma... “(…) todos morremos, mas de que lado da morte queremos estar?” (p. 130)
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é, por isso, um livro sobre o fim, mas também sobre a esperança. É um livro que nasce de um beco, mas abre-se para uma luz maior. Afonso Cruz oferece-nos uma reflexão íntima e universal, pessoal e ética, que transforma o susto em claridade e o desaparecimento em luz.

Saber mais:
Fernando Alvim conversa com Afonso Cruz sobre a eminência do fim, pessoal  e colectivo, daí resultando esta novela-ensaio, reflexão terna e desapiedada sobre o fim das coisas.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Guerras preventivas são proibidas." Ana Gomes diz que ataques de Israel e EUA ao Irão "são completamente ilegais"


Ana Gomes confessou, este sábado, "olhar com surpresa" para os ataques de Israel e dos Estados Unidos da América contra o Irão. Em declarações à TSF, antiga eurodeputada considerou que a ação militar de ambos os países "completamente ilegal".
"É uma atuação da Administração Trump, de Israel e de quem os apoiar completamente ilegal. Guerras preventivas são guerras proibidas no direito internacional", afirmou à TSF Ana Gomes.
A ex-eurodeputada argumenta também que a "desculpa" de uma "guerra preventiva" é "absolutamente ridícula", uma vez que os EUA "estavam em negociações com o Irão".

Os Estados Unidos e Israel iniciaram esta manhã um ataque conjunto ao Irão, que atingiu a capital, Teerão.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que os Estados Unidos iniciaram "grandes operações de combate no Irão" e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou que o ataque tem como objetivo "eliminar uma ameaça existencial representada" pelo regime iraniano.
Washington exige que o Irão cesse o enriquecimento de urânio e limite o alcance dos seus mísseis, que Teerão recusa, aceitando apenas cortes no seu programa nuclear em troca da suspensão das sanções em vigor.
Segundo as autoridades iranianas, os bombardeamentos já provocaram pelo menos 40 mortos e 48 feridos.
O Irão já respondeu, lançando mísseis sobre bases militares norte-americanas de vários países da região.

Cardinal Pizzaballa slams US-backed ‘Board of Peace’ for Gaza as ‘colonialist operation’


New photos and videos highlight close ties between Epstein and Trump

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Apesar do que diz o Governo, a barragem de Girabolhos “não será relevante para o controlo de cheias”


Na passada quarta-feira, depois de um dique no Mondego ter rompido, o Governo anunciou a “luz verde” para o concurso da barragem de Girabolhos. O Ministério do Ambiente disse que se trata de um projeto estruturante “com objetivos de controlo e mitigação de cheias”, mas as posições dos especialistas não corroboram essa posição.

À RTP Notícias, o hidrobiólogo Adriano Bordalo de Sá, investigador da Universidade do Porto que é defensor da construção dessa barragem, desmente a ligação entre essa estrutura e o controlo de cheias, explicando que “essa barragem não fica sequer perto do Baixo Mondego”.

“Para este controlo das cheias [a barragem] não é propriamente relevante. Ela está muito longe desta zona que é sistematicamente afetada por problemas estruturais do planeamento feito no passado”, disse o hidrobiólogo. “Não terá a influência que alguns políticos, porque foram informados incorretamente, pensam que poderá ter”.

Algumas narrativas lançadas na comunicação social procuram ligar a construção da barragem de Girabolhos à gestão de cheias. É o caso da notícia publicada pelo Jornal Económico, que diz que esta barragem “podia ter evitado cheias no Mondego está na gaveta há 20 anos”, acusando a 'geringonça' de cancelar o projeto. O ex-ministro Carmona Rodrigues foi mais longe e acusou o Bloco de Esquerda de ter incluído nas condições para apoiar o governo de António Costa em 2015 não se avançar com a construção desta barragem. Uma acusação que Catarina Martins, então coordenadora do partido, desmentiu à Rádio Renascença, afirmando que desses acordos não constava a barragem que na altura era contestada pelas populações e autarquias.

Na verdade, segundo o ex-deputado e ministro socialista João Galamba, a barragem de Girabolhos não andou para a frente por vontade da Endesa. Mas para além disso, a concessão da própria barragem não incluía a gestão de cheias, como a previsão do aproveitamento de Girabolhos não prevê também. Para a gestão de cheias, importa mais o projeto hidroagrícola do Baixo Mondego, que enfrenta falhas estruturais associadas aos principais problemas de gestão de água do Mondego.


A conclusão da obra hidroagrícola do Baixo Mondego, que poderia prevenir as cheias, foi mesmo levada a votação na Assembleia da República no Orçamento do Estado para 2025, tendo sido chumbada com os votos contra do PSD, CDS e IL, e com as abstenções do Partido Socialista e do Chega.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Jornalismo Florestal - Prémios PINUS distinguem reportagens da RTP e da Antena 1


O prémio pretende distinguir o trabalho jornalístico que, pela qualidade e originalidade, contribua para um maior conhecimento sobre a importância ambiental, económica e social das florestas.

Assim, o Primeiro Prémio de Reportagem Diária foi para um trabalho de Daniela Santiago, Manuel dos Santos, Fábio Siquenique e Joana Melo, sobre o valor da Floresta e o Circuito do Carbono

O Primeiro Prémio de Grande Reportagem foi para um investigação do programa A Prova dos Factos, de Emanuel Boavista, com Paulo Maio Gomes e Guilherme Terra, sobre o facto de as verbas europeias para a floresta não chegarem ao terreno.

A RTP recebeu ainda uma Menção Honrosa para outra peça do programa A Prova dos Factos sobre o abandono do Pinhal de Leiria, também de Daniela Santiago.

A reportagem da Antena 1 sobre as Florestas Miyawaki recebeu igualmente uma Menção Honrosa. Esta distinção foi atribuída à jornalista Arlinda Brandão.

Esta é considerada "uma oportunidade para reforçar o reconhecimento do jornalismo como serviço público e celebrar a importância da floresta", segundo o promotor da iniciativa.A cerimónia da 7ª edição do Prémio Centro PINUS - Jornalismo Florestal teve lugar no Clube de Jornalistas, em Lisboa.

O Prémio Centro PINUS de Jornalismo Florestal é atribuído bianualmente e, segundo a organização, "pretende homenagear os jornalistas e as peças que aproximem a floresta do cidadão através do rigor e da informação.

Paralelamente, reconhece o papel do jornalista na sua missão de serviço público e valoriza o jornalismo livre, independente e de qualidade".

Ver as reportagens aqui


sábado, 7 de junho de 2025

O que é streaming? Entenda como funciona a tecnologia e conheça as principais plataformas


Streaming é a tecnologia de transmissão ou recepção contínua de dados via internet. A tecnologia permite que usuários acessem a diferentes tipos de conteúdos alocados nos servidores das plataformas de serviço.

Existem três tipos de streaming: de vídeo, de áudio ou de jogos. E a reprodução de conteúdos acontece sob pedido ou em tempo real (como no caso de live streaming).

A tecnologia de streaming serve para acessar a conteúdos da internet de maneira simplificada, sem a necessidade de downloads locais nos dispositivos.

A seguir, entenda o que é streaming, veja como a tecnologia funciona, e confira as principais plataformas do mercado.

O que é streaming?
Streaming é uma tecnologia de transmissão ou recepção contínua de dados via internet, de um servidor para o usuário. Essa tecnologia permite que dispositivos (como smartphones, PCs, smart TVs, entre outros) possam acessar vídeos, músicas, jogos e outros tipos de conteúdo em tempo real ou sob demanda.

Qual é o significado de streaming?
O termo “streaming” é derivado da expressão em inglês “stream”, que significa “fluxo contínuo”. No âmbito tecnológico, a palavra se refere à transmissão contínua de dados via internet, a exemplo de conteúdos em vídeos, áudios e games.

Para que serve o streaming?
O streaming tem a função de transmitir ou receber dados de forma contínua pela internet. Do ponto de vista do usuário (receptor), o streaming é a tecnologia necessária para assistir a filmes ou jogar online, sem a necessidade de baixar os conteúdos no dispositivo.

Já do ponto de vista dos prestadores de serviços ou criadores de conteúdos, o streaming consiste no meio necessário para que os dados armazenados nos servidores sejam disponibilizados aos usuários, seja no modelo sob demanda ou em tempo real.

Como funciona o streaming
O funcionamento do streaming se baseia na tecnologia de cloud computing, em que as empresas armazenam seus conteúdos (em áudio, vídeo, entre outros formatos) na nuvem para disponibilização sob demanda. Em casos de live streaming, os sinais do streamer são enviados para os servidores, e então são distribuídos em tempo real.

Os usuários então conectam seus dispositivos à internet e acessam as plataformas de streaming, seja via software de aplicação (apps) ou plataforma web. Alguns serviços podem ser utilizados de forma gratuita e sem a necessidade de login, mas a maioria das plataformas exige uma conta e assinatura paga para uso.

Se a conta tiver as permissões necessárias, a plataforma vai receber os dados dos servidores para reproduzir os conteúdos. E vale destacar que a qualidade dos serviços de streaming pode variar, de acordo com a velocidade da internet, configuração de dados móveis, taxa de bits, e limitações das próprias plataformas.

Consigo usar streaming sem internet?
Não. A tecnologia de streaming necessita que dispositivos estejam conectados à internet para receber os dados dos servidores e acessar aos conteúdos. Logo, os processos de transmissão e recepção de informações só ocorrem em ambiente online.

Alguns serviços de streaming permitem uso offline, desde que os conteúdos sejam baixados previamente. Mas nesses casos, não há transmissão de dados em tempo real, e ocorre apenas a reprodução de dados armazenados localmente.

Preciso pagar para usar streaming?
Não necessariamente. YouTube e Spotify são exemplos de serviços de streaming gratuitos, que podem ser utilizados (com limitações) sem uma assinatura. Contudo, a maioria das plataformas de streaming costumam exigir assinaturas pagas para acessos ilimitados aos conteúdos e experiência completa dos serviços.

Quais são os tipos de streaming?
A tecnologia de streaming pode envolver diferentes finalidades, mas inclui três tipos de transmissão de dados:
  • Streaming de vídeo: serviços que disponibilizam acesso a filmes, séries, documentários e vídeos sob demanda ou em formato live streaming (transmissão em tempo real);
  • Streaming de áudio: tipo de streaming que oferece acesso a músicas e audiolivros (sob demanda) ou conteúdos em tempo real (como podcasts, rádios, entre outros);
  • Streaming de jogos: serviço de jogos via streaming, que fazem com que consoles, PCs, TVs e smartphones rodem jogos diretamente da nuvem.

Quais são as principais plataformas de streaming?
Há diversos serviços de streaming voltados para vídeo, áudio ou jogos, dos quais a maioria exige uma assinatura paga. As principais plataformas de streaming abrangem:
  • Netflix: plataforma paga focada em filmes, séries e documentários, além de oferecer jogos em dispositivos móveis;
  • Amazon Prime Video: serviço mediante assinatura da Amazon, que oferece um amplo catálogo de filmes, séries originais, canais adicionais e eventos em tempo real;
  • Disney+: streaming pago da Disney, com foco em filmes, séries e documentários do conglomerado;
  • HBO Max: serviço pago da Warner Bros. Discovery, que disponibiliza filmes, séries originais e documentários;
  • Apple TV+: plataforma de streaming da Apple mediante assinatura, focada em filmes e séries originais, e com disponibilidade de eventos ao vivo;
  • Globoplay: serviço da Rede Globo com planos pagos e conteúdos gratuitos, que inclui um catálogo de filmes, séries, programas de TV, e transmissões ao vivo do conglomerado;
  • Mubi: plataforma paga da Mubi com enfoque em clássicos do cinema e em filmes aclamados pela crítica;
  • YouTube: serviço do Google de uso gratuito ou pago, que inclui vídeos de entretenimento, videoclipes, músicas, podcasts, live streaming, aluguer de filmes, entre outros conteúdos audiovisuais;
  • Spotify: plataforma de streaming de áudio com planos gratuitos ou pagos, que reúne ampla biblioteca de músicas, audiolivros, podcasts e rádios;
  • Deezer: plataforma de áudio com catálogo recheado de músicas e podcasts, e que pode ser usada gratuitamente ou por meio de assinatura;
  • Tidal: serviço pago da Block focado em músicas, mas que também inclui videoclipes e conteúdos exclusivos de artistas;
  • Amazon Music: serviço de streaming de áudio mediante assinatura da Amazon, que inclui músicas, podcasts e outros áudios em seu catálogo;
  • Apple Music: plataforma de streaming de áudio da Apple mediante assinatura, que contém músicas, rádios, entrevistas e conteúdos exclusivos;
  • Xbox Cloud Gaming (xCloud): serviço pago de jogos em nuvem da Microsoft, com amplo catálogo de games e títulos rotativos;
  • GeForce Now: serviço de streaming de jogos da Nvidia, que inclui planos gratuitos ou pagos, e que permite rodar jogos já adquiridos diretamente na nuvem;
  • Amazon Luna: plataforma de jogos via nuvem mediante assinatura da Amazon, que inclui games do catálogo e títulos por assinatura;
  • Twitch: serviço focado em transmissão de conteúdo em tempo real, que pode ser usado gratuitamente ou com uma assinatura paga;
  • Kick: plataforma focada em live streaming, com opções de uso gratuitas ou pagas.
Quais são os principais benefícios do streaming?
A tecnologia de streaming inclui diversos benefícios de uso, principalmente em questões de praticidade e recursos de reprodução de conteúdos. As principais vantagens do streaming incluem:
  • Bibliotecas amplas de conteúdo: o universo de streaming reúne uma grande quantidade de conteúdos disponíveis para os usuários;
  • Economia de armazenamento local: o streaming é baseado em conteúdos armazenados em servidores, de modo com que usuários não precisem baixar os conteúdos nos dispositivos;
  • Autonomia de uso: o streaming permite que usuários utilizem as plataformas via app ou plataforma web, bastando uma conexão com internet;
  • Recurso de pausar e voltar: é possível pausar ou voltar a reprodução, seja em conteúdos sob demanda ou em live streaming;
  • Disponibilidade em múltiplos aparelhos: usuários podem acessar plataformas de streaming de diversos dispositivos, como smartphone, computador, videogames, tablets, entre outros aparelhos;
  • Recomendações com base em preferências: plataformas de streaming costumam recomendar conteúdos com base nas preferências e visualizações dos usuários.
Quais são as principais limitações do streaming?
O streaming apresenta limitações de uso especialmente ligadas à conexão com internet e planos para uso. Dentre as desvantagens da tecnologia, estão:
  • Dependência de internet: o uso de serviços de streaming é dependente de conexão com internet, e do bom funcionamento dos servidores das empresas de streaming;
  • Alto consumo de dados: a transmissão contínua de dados consome grande quantidade de dados de internet, aumentando consideravelmente o uso dos dados móveis;
  • Conteúdos muito diluídos: devido a questões de direitos de licenciamento, conteúdos costumam ser disponibilizados em múltiplas plataformas, o que pode exigir assinaturas em vários serviços;
  • Exigência de assinaturas: a maioria dos serviços de streaming exige planos pagos para uso ou para uma experiência completa.
Qual é a diferença entre streaming e live streaming?
Streaming é uma tecnologia de consumo responsável pela transmissão contínua de dados via internet. Quando conectados à internet, dispositivos eletrônicos podem usar o streaming para acessar plataformas de vídeo, áudio ou jogos, seja no formato sob pedido (como Netflix) ou em tempo real (a exemplo da Twitch).

Já live streaming é um tipo específico de streaming, em que a transmissão contínua de dados via conexão com a internet ocorre em tempo real. Em outras palavras, trata-se da transmissão ou recepção de dados de eventos ocorrendo naquele exato momento, como um jogo de futebol ou lives de criadores de conteúdo.

Em suma: nem todo formato de streaming é uma live streaming, mas toda live streaming se caracteriza como streaming.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Hoje é Dia Mundial da Rádio


Hoje é Dia Mundial da Rádio. Uma magia tecnológica, em que teve momentos críticos de audiência com o avanço das das plataformas digitais. Agora atingiu-se em pleno, em que até podemos ver os radialista em estúdio a fazer os seus simpáticos programas e cheios de curiosidades e que animam os ouvintes.

Eu próprio fiz rádio, nos anos 80, quando houve o boom de rádios clandestinas. Chamava-se Rádio Caos e fiz um programa intitulado "Terra-Mãe", de cariz ecologista, divulgando notícias sobre ambiente.

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Gaia Vince - We Are in a Post-Climate Change World


Gaia Vince é uma jornalista ambiental britânica freelance, radialista e autora de não ficção com cidadania britânica e australiana. Ela escreve para o The Guardian e numa coluna chamada Smart Planet, para a BBC Online. Anteriormente, ela foi editora de notícias da Nature e editora online da New Scientist.

O enquadramento da discussão em torno das alterações climáticas centra-se principalmente na mitigação do aumento das temperaturas, na descarbonização e na obtenção do “zero líquido”.

A autora e radialista Gaia Vince argumenta que, embora estas coisas sejam importantes, precisamos de nos concentrar em como lidaremos com o que já está a acontecer e que, com toda a probabilidade, ficará muito pior: enormes áreas do planeta tornar-se-ão inabitáveis, com 2 biliões de pessoas em que precisam encontrar um lugar novo para morar.

Ela defende que a solução para isto é uma reformulação drástica de como pensamos sobre a migração.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Protesto convocado por membros de movimentos de extrema-direita, em Lisboa - segue-se uma reflexão sobre o Chega, incitamento ao ódio (que é crime) e quem foi Salazar e o seu regime

O presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior pede aos residentes que não saiam de casa durante a manifestação. 
Um grupo de extrema-direita, que convocou um protesto contra muçulmanos no Martim Moniz para o próximo fim de semana, garante que vai sair à rua, apesar de não ter autorização da Câmara de Lisboa. Os imigrantes no Martim Moniz estão preocupados e prometem fechar as portas do comércio no dia da marcha. Saiba mais aqui


1º Ponto - O Tribunal Constitucional deve ilegalizar o Chega
O Tribunal Constitucional está a tentar (e bem) tudo por tudo para ilegalizar o Chega. Demora o seu tempo e entretanto o monstro cresceu com 16% de eleitorado, 3ª força política fascista e racista em menos de 4 anos.

2º Ponto - Um pouco de História do Salazar, pai do partido ilegal Chega
Salazar criou organizações repressivas para anular ou silenciar as oposições, retirando direitos e liberdades aos indivíduos que deviam obedecer ao chefe. Criou o Secretariado de Propaganda Nacional para difundir os ideais do Estado Novo, como o autoritarismo e/ou o totalitarismo, e mecanismos de controlo da população, que enquadravam as crianças e jovens, as mulheres e os homens.

O Estado Novo assentava em organizações repressivas e mecanismos de controlo da população criadas por Salazar, à semelhança do fascismo italiano, para garantir o culto da personalidade ou culto do chefe e a negação dos direitos e liberdades individuais.

Logo em 1933 foi criada a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE- futura PIDE) para controlar os opositores políticos ao regime, contando com uma vasta rede de informadores civis.

O preso político era detido, sem culpa formada e sem mandato, e sujeito a tortura física e psicológica, podendo a PVDE decidir alargar o tempo de prisão, que devia cumprir nas prisões políticas do Aljube, Caxias e Peniche.

A guerra civil espanhola (1936-39) fez endurecer o regime na defesa da ordem e disciplina, aumentando a repressão contra quem se opusesse ao Estado Novo. Em 1936 Salazar, com o intuito de perseguir sobretudo os comunistas e anarquistas, criou a Legião Portuguesa (milícia civil armada) e abriu o campo de concentração do Tarrafal.

Estabeleceu ainda a Censura prévia, conhecida como «lápis azul», sobre toda a produção intelectual, a rádio, a imprensa e o cinema, impedindo a divulgação de ideias contrárias ao regime e subordinando a cultura aos interesses do Estado.

O Estado Novo desenvolveu mecanismos de controlo da população, com o objetivo de difundir os valores do regime e influenciar a opinião pública.

Em 1933, foi criado o Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro, que promoveu a «Política de Espírito» procurando conciliar vanguarda e tradição. A face mais visível da ação do Secretariado de Propaganda eram os cartazes com mensagens de glorificação da infalibilidade do chefe e de exaltação das realizações do Estado Novo (denegrindo a 1ª República).

Para valorizar a cultura popular e a grandeza do império António Ferro promoveu concursos, festivais de folclore e exposições, destacando-se a Exposição do Mundo Português (1940). Organizou ainda desfiles e comícios, onde Salazar discursava, embora preferisse fazê-lo através da rádio, porque ao contrário de Mussolini, Salazar evitava banhos de multidão.

A reforma do ensino, de 1936, contribuiu para a redução da taxa de analfabetismo (ainda que lenta), mas orientava-se sobretudo para a transmissão dos valores do regime incutindo a crianças e jovens o espírito de obediência ao chefe e de defesa da Nação. Desde cedo aprendiam a valorizá-la acima das outras, numa lógica de nacionalismo exacerbado, que aliado ao patriotismo e ao imperialismo, fomentava a ideia de superioridade da Nação, da raça e da religião católica.

Privilegiavam-se certos períodos da História, como a Reconquista e os Descobrimentos e enalteciam-se os heróis, como o Infante D. Henrique ou Nuno Álvares Pereira. Para garantir que não havia desvios ao ensino pretendido pelo regime adotou-se um manual escolar único (o mesmo conteúdo para todos) e controlavam-se os professores, que assinavam uma declaração em como não professavam ideologias contra o Estado Novo.

Desde pequenos, meninos e meninas, mesmo que não frequentassem a escola, eram enquadrados na Mocidade Portuguesa, também criada em 1936, para a prática de exercício físico, numa lógica militarista de educação para a guerra, fomentando-se os valores de disciplina e respeito às hierarquias.

Salazar preocupou-se também em controlar os tempos livres dos trabalhadores e das suas famílias, sobretudo os dos meios urbanos, tendo criado, em 1935, a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) para a promoção de atividades culturais, desportivas e recreativas.

Foi também criada, em 1936, uma organização de enquadramento das mulheres – a Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) – para difundir o papel da mulher como mãe, zelosa da família e das tarefas domésticas e esposa obediente ao marido (chefe na família).

3º Ponto - Incitamento ao ódio (que é crime) 
O crime de incitamento ao ódio e à violência encontra-se previsto no n.º 2 do artigo 240.º do Código Penal e é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos. [Diário da República]

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Tel Aviv restringe ainda mais a liberdade de imprensa


Esta foto enviou-me um amigo meu Prof. Univ. em Tel Aviv. É o dia a dia. Constante presença militar. Diz ele que mesmo a alguns km, ouvem-se na capital os bombardeamentos dos sionistas na Cisjordânia. Os canais televisivos só passam o discurso de Netanyahu.
O governo israelita está a pressionar o jornal de esquerda Haaretz para apoiar o governo na sua condução da guerra na Faixa de Gaza. O ministro das comunicações, Shlomo Karhi, sugeriu a aplicação de multas ao jornal.
O Haaretz, que é um periódico independente (fundado em 1919) tem sido alvo frequente dos governos de direita em Israel. Em 20/10 , o governo promulgou regulamentações de emergência, permitindo o fecho temporário dos media estrangeiros considerados prejudiciais ao país.
O CPJ relata que 57 jornalistas e trabalhadores da mídia foram mortos desde o início do conflito. Isso inclui 50 palestinos, 4 israelitas e 3 libaneses. O Repórteres Sem Fronteiras posiciona Israel em 97º lugar em seu ranking de Liberdade de Imprensa de 180 países, acima da República Centro-Africana e abaixo da Albânia. E destaca: “Sob a censura militar de Israel, reportar sobre várias questões de segurança requer aprovação prévia das autoridades. Além da possibilidade de processos por difamação civil, os jornalistas também podem ser acusados de difamação criminal e "insultar um funcionário público".

Ler mais:

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Rádio Comercial: Homenagem Sérgio Godinho - O Primeiro Dia


“Sem palavras
Dizem-me várias vezes: tu és um homem das palavras, e eu sei que sim, como muitos são de outras formas. Sim, porque tenho uma paixão pelas palavras, e nomeadamente na sua concubinagem com a música. Mas tudo isto para dizer que agora fiquei mesmo sem palavras, perante este vídeo que me é oferecido pela Rádio Comercial, agregando as vozes de tantos músicos cantores, cada um e cada uma com a sua razão própria e generosa de me agradecer, cantando-me. E aí teria uma palavra, sim – obrigado. Que diz tudo. Nessa palavra cabe toda a força desta irmandade musical, que se estende a tantas praias e tantos horizontes. Cada um mergulhou no seu mar, nadou à sua maneira, flutuou, soube ir ao fundo e voltar. ‘Eu fui ao fim do mundo, vou ao fundo de mim...’ Obrigado por terem ido ao fundo de mim. Os tesouros e os despojos que talvez encontrem são vossos, todos vossos.”

Poema:

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Conectividade - Um ensaio de Michael Marder

A Lua Cheia está a chegar e eu encanto-me com leituras sobre conectividade, ecologismo, nossa Gaia, a tecnologia e o Universo.

"O mal-estar na civilização", um livro que Sigmund Freud escreveu há quase cem anos, começa com uma consideração sobre “o sentimento oceânico”, “um sentimento de algo ilimitado, ilimitado”, “um sentimento de um vínculo indissolúvel, de ser um com o mundo externo como um todo.” Freud, que confessou ser incapaz de descobrir esse afecto em si mesmo, certamente não cunhou o termo, que apareceu pela primeira vez numa carta de 1927 de seu amigo, o escritor francês e vencedor do Nobel Romain Rolland. O que o psicanalista propõe é uma interpretação original, segundo a qual a sensação de “ser um com o mundo externo como um todo” é um sintoma de desvanecimento das fronteiras do ego, lembrando o estado de uma criança no seio materno, ainda incapaz de “ser capaz de lidar”. distinguir seu ego do mundo externo como a fonte das sensações que fluem sobre ele.”

Na fusão primária e secundária com o mundo, porém, já não existe ou ainda não existe uma relação com esse mundo: fundir-se no outro é tão prejudicial para a lógica da relacionalidade como a separação e o desapego absolutos. Será que, como resultado, relações de qualquer tipo dependem de atos cuidadosos de calibração da distância (física ou não) entre o que se relaciona e o que se relaciona? Talvez, mas esta intuição deixa escapar algo crucial sobre relações e conexões que não são posteriores aos termos inter-relacionados nem limitadas às suas aproximações positivas. É necessário cavar ou aprofundar um pouco mais para começar a entender como eles funcionam.

A textura elementar do sentimento que Rolland expressa em palavras e sobre a qual Freud expressa as suas dúvidas é importante. O sentimento oceânico dissolve, ao liquefazer, as fronteiras entre o ego e o mundo. Hoje, outro tipo de sentimento está em ascensão, o “sentimento terreno”, que é o análogo do sentimento oceânico, desta vez direcionado para a terra. Tanto os críticos do Antropoceno como os defensores da ecologia profunda ou da teoria de Gaia têm este sentimento, tingido de um misto de nojo e fascínio, repulsa e atração. Ao contrário da água, a terra é um substrato duro para a existência física, mas também é múltipla na sua unidade, combinando, acomodando todos os outros elementos na sua superfície e nas suas profundezas. Não podemos nos fundir com ele por fusão, mas podemos decair nele, tornando-nos parte dele, como resultado, que é o que acontece na morte, pelo menos de acordo com alguns ritos funerários. E também podemos obstruí-lo com materiais não decomponíveis. Qualquer que seja a nossa posição, o século XXI obriga-nos a estabelecer uma relação com a terra e a clarificar a própria lógica da relacionalidade no processo.

Como é possível calibrar a nossa relação com a Terra numa situação em que estamos simultaneamente demasiado longe e demasiado perto dela?

A dificuldade da tarefa em questão é que a inclusão imanente no rebanho terreno do ser chamado “humano” (o grego antropos) é simultaneamente perturbada e exacerbada hoje. A era das viagens espaciais, pressagiada pelo movimento intelectual conhecido como cosmismo russo, coloca-nos à distância do planeta, mesmo que nunca tenhamos saído da sua superfície. O avanço tecnológico que nos permitiu ver a Terra tal como ela é vista do espaço exterior atribui-nos o papel de observadores externos, desvinculados do planeta. Na formulação contundente de Kelly Oliver, “as fotografias da Terra vistas do espaço provocam a reação de ‘ame-a ou deixe-a’ que alimenta a ilusão de controle e domínio ao sugerir que devemos, ou podemos, escolher um ou outro, mas não ambos. ” Ninguém pode deixar de ser afetado por esta provocação; até o príncipe William opina sobre o assunto. Por outro lado, o Antropoceno, com resíduos industriais incrustados nos estratos da Terra e presentes em todos os ecossistemas do planeta, sinaliza o envolvimento inextricável dos nossos “corpos tecnológicos” transgeracionais na geofisicalidade do planeta. Como é possível calibrar a nossa relação com a Terra numa situação em que estamos simultaneamente demasiado longe e demasiado perto dela? Não será a relação da Terra connosco, em última análise, desregulamentada e irregulável, apesar de toda a ousadia da geoengenharia?

sábado, 18 de novembro de 2023

Como era Portugal na Idade do Gelo?


Portugal não terá tido mais de 10 mil habitantes na idade do Gelo e o número deverá ter sido ainda menor nas fases mais antigas do Paleolítico. Metade dos europeus vivia na Península Ibérica. Mas, como viviam estes habitantes remotos no nosso território?
Neste «Da Capa à Contracapa», o investigador e autor do novo livro «Portugal na Idade do Gelo: Território e habitantes» João Zilhão e o arqueólogo Carlos Fabião explicam o que a arqueologia paleolítica já desvendou sobre este período histórico. 
Ouça o novo episódio e subscreva o podcast aqui


Este ensaio é uma excursão, com bases científicas, até à existência dos humanos mais remotos cujos genes nos foram transmitidos: a família da criança do Lapedo, os neandertais da Gruta da Oliveira ou os heidelbergensis da Gruta da Aroeira.

Nesta época, a atual Serra da Estrela estava coberta de gelo e da costa viam-se icebergues à deriva. Os bem menos de dez mil habitantes deste espaço eram caçadores-recolectores que conviviam com leões, hienas, rinocerontes e cavalos numa paisagem de charneca arborizada que recorda as da Escócia no presente.
Do que eles foram, comeram e fizeram, sobreviveram vestígios, cada vez mais decifrados pela arqueologia paleolítica. Venha descobrir como teremos sido por aqui, na Idade do Gelo.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Dia Mundial do Rock


Sell the kids for food
Weather changes moods
Spring is here again
Reproductive glands

He's the one
Who likes all our pretty songs
And he likes to sing along
And he likes to shoot his gun
But he knows not what it means
Knows not what it means
And I say he's the one
Who likes all our pretty songs
And he likes to sing along
And he likes to shoot his gun
But he knows not what it means
Knows not what it means
And I say yeah

We can have some more
Nature is a whore
Bruises on the fruit
Tender age in bloom

Para saber mais: Dia Mundial do Rock

Biografia e Discografia

Página Oficial

Youtube

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Cheias de 2022 - Lisboa e distrito

Haveria de chegar o dia em que Lisboa teria literalmente Sete Rios. Hoje só assim...


Mau tempo em Lisboa. Saiba o que está fechado, zonas mais afetadas, transportes suspensos [Rádio Renascença]

Tudo expectável. É o resultado de muitos atropelos ao ordenamento territorial. É muita falta de respeito pela natureza! É muita inconsciência. É a vida... E esperamos agora, ainda, mais tormenta durante a tarde.

Construções em leitos de cheias, rios entubados, habitações nas encostas quando deviam ser só de árvores (cidades-esponja, como agora se diz) e celebridades que insistem que não há aquecimento global.

sábado, 26 de novembro de 2022

Sobre Cold Wave, Darkwave e Cibergótico


O termo cold wave (onda fria) apareceu na edição de novembro de 1977 da revista musical inglesa Sounds. No texto de capa, mostrando Ralf Hütter e Florian Schneider do Kraftwerk podemos ler "New musick: The cold wave".Naquele ano, o Kraftwerk publicou o Trans-Europe Express. 


O termo foi repetido na semana seguinte no Sounds pela jornalista Vivien Goldman, num artigo sobre Siouxsie e os Banshees. Nesse artigo de Dezembro de 1977 descreveram a sua música como "fria, mecânica e apaixonada ao mesmo tempo", e a revista Sounds profetizou sobre a banda: "[eles] soam como uma fábrica industrial do século 21 [...] Ouça ao rugido das ondas frias dos anos 70 aos anos 80".

Essas influências aparecem em bandas como Joy Division, The Cure e Bauhaus.

KaS Product, Martin Dupont, Asylum Party, Norma Loy, Clair Obscur, Opera Multi Steel e Trisomie 21 são algumas das principais bandas representantes desta corrente musical.

Kraftwek e os Cabaret Voltaire foram os pais fundadores da darkwave. Como já referi o álbum Trans-Europa Express teve influencia na banda pós-punk Joy Division, tendo o seu baixista, Peter Hook, referido que: "conhecemos os Kraftwerk através de Ian Curtis, que insistia em tocar Trans Europe Express sempre que íamos entrar em palco."


Aliás, o álbum "Closer" (1980) é uma obra-prima da coldwave, pós-punk. Para sempre um álbum irrepetível. 

Dark wave (também escrito como darkwave) é um género musical que surgiu na Europa e Reino Unido no início da década de 1980 entre a  coldwave, rock gótico e a música eletrónica.

Dark wave é um termo usado para se referir a uma versão sombria da new wave (ou do synth-pop), sendo considerado uma antítese e uma resposta dark e melancólica da new wave que estava em alta na década de 1980. O género começou a aparecer no meio musical europeu, coincidindo com a ascensão popular da new wave e do synth-pop. Composições de dark wave são amplamente baseadas em tonalidades-chave menores (sonoridade sombria), bateria eletrónica, teclados, samplers, sequenciadores e sintetizadores que constroem uma instrumentação eletrónica e dançante, porém, gótica e atmosférica.

Após o surgimento do rock gótico na Inglaterra através da cena pós-punk, a música dark wave foi de principal importância para caracterizar a subcultura gótica na década de 1980 e seguintes. No Reino-Unido foi uma explosão de bandas, umas mais célebres que outras: Attrition, In The Nursery, Pink Industry, Alien Sex Fiend, Specimen, The Cure, Bauhaus, Christian Death, Sisters of Mercy, Current 93, etc.

O movimento underground da coldwave/darkwave disseminou-se pela Europa e um pouco mais tarde no resto do mundo. Bandas como Clan of Xymox (HOL), Mittageisen e Young Gods (SUI), Poesie Noire (BEL), Laibach (Eslovénia), Psyche (CAN) e The Awakening (África do Sul).

As bandas italianas The Frozen Autumn, Ataraxia, Nadezhda, Litfiba e Diaframma tiveram um relativo sucesso.

A coldwave francesa é muito melancólica, falam do infortúnio, das sombras e baseada em ritmos electrónicos espectrais e fantasmagóricos. Nesta levada estão incluídas bandas como: Corpus Delicti, Die Form, KaS Product, Martin Dupont, Asylum Party, Norma Loy, Clair Obscur, Opera Multi Steel, The Breath of Life e Trisomie 21.

Os grupos de dark wave na Alemanha dos anos 1980 misturavam cold wave com o rock gótico, ou usando elementos da Ambient music e do post-industrial music. Ficaram associados ao  movimento Neue Deutsche Welle, que incluía bandas como Asmodi Bizarr, II. Invasion, Unlimited Systems, Mask For, Moloko †, Maerchenbraut, Liaisons Dangereuses, Einstürzende Neubauten   e Xmal Deutschland. 

Entre 1987 e 1995, surgiram novas bandas darkwave, com outras temáticas góticas tais como tabús eróticos, religião e épicos. As sonoridades principais são dark-ambient, industrial, militar, electro-indsutrial: Die Form, Skinny Puppy, Front Line Assembly, Wumpscut,  Armageddon Dildos e  And One.

A forte influência na Alemanha
Após o desaparecimento das cenas grandes da new wave e do pós-punk em meados da década de 1980, o dark wave ressurgiu, entre 1993-95 como um movimento underground com bandas da Alemanha, como Deine Lakaien, Love Is Colder Than Death, Love Like Blood, Diary of Dreams, além de Project Pitchfork e Wolfsheim. Ao mesmo tempo, um grupo grande de artistas alemães, que incluía Das Ich, Relatives Menschsein e a banda Lacrimosa, desenvolveram um estilo mais teatral, inspiradas na poesia germânica e em letras mais metaforizadas, chamando essa subdivisão de Nova Arte Fúnebre Alemã . Outras bandas, como Silke Bischoff, In My Rosary e Engelsstaub misturavam o dark synthpop ou o rock gótico com elementos do Neofolk ou do Neoclassical Dark Wave.

Diversidade de estilos nos EUA
Após 1993, nos EUA, o termo dark wave (como variante do jargão darkwave) foi associado com a gravadora Projekt Records, pois esse era o nome usado em seus catálogos, além de ser usado para denominar artistas alemães nos EUA, como o Project Pitchfork. A gravadora tinha bandas como Lycia, Black Tape for a Blue Girl, e Love Spirals Downwards, todas caracterizados por ter vocais femininos. Essas bandas tocavam uma nova vertente do wave, de origem das bandas dos anos 80, como Cocteau Twins, sendo o estilo classificado como ethereal wave. A gravadora também listava uma longa associação com o Attrition, que havia aparecido nas suas primeiras compilações musicais. Outra gravadora americana nessa área foi a Tess Records, que gravava os discos do This Ascension e Faith and the Muse. Ainda nos EUA, a darwave é mais variada que a da Europeia. EUC, por exemplo incluem elementos psicadélicos. Um grande número de outras bandas americanas misturaram a dark wave e a ethereal wave com outros projetos na música eletrónica. Love Spirals Downwards, Collide, e Switchblade Symphony incorporaram elementos do trip hop, enquanto o The Crüxshadows combinava uma série de electronic dance music contemporâneo com elementos do rock alternativo baseado nos elementos do estilo synth. A dark wave disco, foi uma tentativa fundada em 2004 na cidade de Chicago com a intenção de mesclar a dark new wave music com o atual indie-electro music. Seu legado foi o ressurgimento da new wave e da brand new electro nights em Chicago. No começo dos anos 2000, Jay Reatard formou o híbrido prolífico de garage punk/dark wave chamado Lost Sounds. 

Em Portugal
A coldwave portuguesa não teve muita expressão. Não passaram de bandas de garagem. Sem o saber, alguns temas de António Variações. Algumas músicas iniciais do Paulo Bragança, enquadram-se no gótico (influências de Nick Cave, Birthday Party). Bandas darkwave que duraram pouco tempo: Croix Sainte, Anamar, Diva, Essa Entente, Linha Geral, SPQR, A Jovem Guarda, Linha Geral, Bye Bye Lolita Girl, Grito Final, Bastardos do Cardeal, Magudesi, Extrema Unção e Os Cães, A Morte & o Desejo.  Surgiram projectos muito interesantes e únicos- os Pop_Dell'Arte e  Mler Ife Dada.  Agora em termos rock gótico temos os Mãos Morta e Rádio Macau. Uma banda de rock indie e alternativo foram os Sétima Legião.

Surgiram novas tendências:  Emo; Dark electro; AggrotechElectro-industrial;  EBMFuturepop

No Japão surgiram as subculturas Visual keiLolita fashion; Cosplay e Otaku

Cibergóticos
O termo 'Cybergoth' foi cunhado em 1988 pela Games Workshop para o seu jogo de RPG- Dark Future. Surgiram, entretanto, vários video jogos retrofuturistas ou pelo contrário, futuristas, como Shadowrun

O cybergótico é uma combinação de elementos da estética industrial com "gravers" (ravers góticos). Mas o estilo de moda não existia até uma década depois. 

A estética Cybergoth teve o seu momento ao sol graças a um vídeo que se tornou viral nos primeiros dias do YouTube, que desde então se tornou um marco na cultura dos memes. A partir de 2000 era habitual encontrar então cibergóticos: é baseado em cores fluorescentes e usa pvc, vinil e outros materiais de aparência artificial para criar um estilo de aparência futurista. O cabelo é tingido em cores não naturais e adornado com mechas coloridas, também conhecidas como cyberlox, que podem ser feitas de lã, espuma, borracha ou tecidos. A androginia é comum.

Também comum:
  • Tecidos brilhantes/brilhantes ou foscos
  • Cabelos coloridos e extravagantes, com mechas sintéticas
  • Maquiagem com cores claras
  • Placas de circuito de LED
  • Modificação corporal (tatuagens/piercings)
  • Máscaras de gás
  • Óculos retro ou metalúrgicos 
  • Botas com salto
  • Calças ou coletes pretos apertados
  • Redes de pesca
  • Aquecedores de perna de pele falsa ("fofo")
Bandas famosas de cibergótico: Angels on Acid; Toxic Nation; Otto Dix; The Prodigy; Carmilla;V2A; Front 242; Naked Underrated; Black Elves; Test Dept e Clock DVA

A Alemanha produziu muitas bandas techno-punk /underground techno/ cibergótico: Salted Bomb; The Siren; Crossbow; Hilbert Space; Mayday; Roentgens; LF05 - Lukas Freudenberger; Dosis; I feel Youth; Numbers; Melodrama; Mind Grabber; Party Favors; Shelter of Sin; Eye of The Beholder e Cortechs.

As últimas tendências cibergóticas Deep Dark and Hard Techno podem ser descobertas no canal Fear N Loathing

Os cibergóticos (a sua indumentária e dança exuberantes) reflectem sobre a crise ecológica, questionam este mundo cheio de pesticidas, nanobiotecnológico, radioactivo (ficção gótica da era pós-apocalipse nuclear, posição crítica em relação à tecnologia HAARP e 5G), o progresso acelerado da inteligência artificial, o desdém/paixão pela robótica e perscrutam o alarme totalitário da Big Tech. Era comum o uso de máscaras. Não imaginávamos era que vinha mesmo aí a crise pandémica. E estamos na revolução 4.0 e "impreparados" para os seus efeitos. A ver.

Outras subculturas cibergóticas: Cyberpunk; Steampunk; Dieselpunk; Biopunk; Arcologia; Rivethead 

2022
Actualmente ainda estão no activo bandas darkwave consagradas: Laibach, And Also The Trees, Clan of Xymox, She Past Away, Young Gods, She Wants Revenge, The Knife, The Frozen Autumn, Lebanon Hanover e Drab Majesty.

Para estar actualizado de novas bandas góticas, sintonize Atmosphère - Radio Arverne

Saber mais:

The Story of Goth in 33 Songs

Sites interessantes:
Fantasporto - Oporto International Film Festival
Gothic Beauty Magazine
Gothic Culture Magazine
Goth Wiki
Subculture List
Urban Dictionary

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

25 de Novembro, o Dia Final Inteiro e Limpo


À medida que os anos passam, o 25 de Novembro de 1975 vai ocupando um lugar cada vez mais proeminente nas mitologias liberal e conservadora portuguesa. Não há partido de Direita que não se acotovele para demonstrar a sua incondicional adesão à data: se o Chega a quer ver comemorada no Parlamento, o CDS logo propõe que se condecorem “todas as personalidades envolvidas nos acontecimentos”, enquanto a Iniciativa Liberal faz afixar cartazes a dizer “25 de Novembro sempre, comunismo nunca mais”.

As razões para este entusiasmo são fáceis de perceber: confrontada com uma data que a Esquerda celebra todos os anos nas ruas, a Direita sentiu a necessidade de encontrar o seu “dia inicial inteiro e limpo”, com as respetivas palavras de ordem e iconografia.

Tornou-se para esse efeito necessário esboçar uma sinuosa simetria entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro, de resto com vantagens evidentes: celebrar as chaimites de Jaime Neves permite fazer o luto pelo PREC sem exigir um posicionamento claro em relação ao Estado Novo. Nesta incessante luta pela memória, a máquina mitológica posta a operar em torno da comemoração do 25 de Novembro procura, a um passo, diabolizar e exorcizar o processo revolucionário. Não é por isso de estranhar que a sua narrativa corra quase sempre no sentido de resgatar o passado ditatorial e a sua peculiar encenação de normalidade, feita de miséria, repressão e censura.

Evidentemente, semelhante exercício dispensa qualquer tipo de consistência lógica ou rigor interpretativo. Procurando contornar um conjunto de interrogações cruciais acerca dos acontecimentos, a Direita Novembrista dedica-se invariavelmente a inflacionar o simbolismo da data, sobrecarregando-a de um significado unívoco e removendo de cena tudo aquilo que possa criar ruído. Não basta ignorar as clivagens no interior do MFA, o incessante alinhamento e realinhamento das suas facções, ou a contagem de espingardas que marcou o outono de 1975. É igualmente necessário passar por cima dos acontecimentos do próprio dia, bem como do complexo equilíbrio de forças que dele resultou.

Tudo isto constitui, é certo, matéria difícil de resumir num parágrafo, mas basta ler os jornais da época, ou escutar os testemunhos dos seus protagonistas, para perceber que tudo é infinitamente mais complicado do que se pretende fazer crer. Veja-se o caso da Constituição: ouve-se frequentemente dizer que o 25 de Novembro foi essencial para que fossem respeitados os resultados das eleições para a Assembleia Constituinte. Mas o texto da Constituição foi, desde a sua aprovação, objeto de incessante contestação pelos partidos de Direita, que questionaram a legitimidade dos militares que triunfaram no dia 25 de novembro para impor condições aos deputados.

Quanto à ideia, recorrente, de que se teria assistido a uma vitória dos “moderados” sobre os “radicais”, basta ler o “Documento dos Nove”, peça-chave do enredo contrarrevolucionário, para tropeçar na enfática recusa “do modelo de sociedade social-democrata em vigor em muitos países da Europa Ocidental”, ou na adesão a um “projeto político de esquerda” apontado à “construção de uma sociedade socialista”. Existem, em suma, vários obstáculos de monta no caminho das celebrações do 25 de Novembro.

Servem estas observações para introduzir uma interpretação um pouco mais cautelosa e um pouco menos definitiva, um pouco mais rigorosa e um pouco menos fantasiosa, um pouco mais informada e um pouco menos instrumental, do que aconteceu a 25 de novembro de 1975. Por limites de espaço, as linhas que se seguem serão dedicadas sobretudo à dimensão militar dos acontecimentos, remetendo para segundo plano as movimentações de outros protagonistas, como os partidos políticos.

Uma Rebelião a Meio-Gás
Na madrugada de 24 para 25 de novembro de 1975, destacamentos de paraquedistas ocuparam quatro bases da Força Aérea Portuguesa (Tancos, Ota, Monte Real e Montijo), juntamente com o comando da 1ª Região Aérea e as instalações do GDACI (Grupo de Deteção, Alerta e Conduta da Intercepção), em Monsanto.

Ainda que Tancos (onde ficava a Base-Escola de Tropas Paraquedistas [BETP]) tenha sido o epicentro da operação, a BA-5 (Montijo) foi ocupada por uma companhia de paraquedistas aí estacionada, enquanto as instalações de Monsanto ficaram sob o controlo da Companhia de Paraquedistas 121, aquartelada no Depósito Geral de Adidos da Força Aérea (DGAFA), ao Lumiar. Concretizada praticamente em simultâneo, a ocupação das bases iniciou-se às 06h00 e ficou concluída em menos de duas horas.

A operação foi apresentada como um protesto contra a dissolução da unidade, anunciada pelo Chefe de Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), General Morais e Silva, a 18 de novembro. Os seus antecedentes imediatos são de tal forma embaraçosos que a comissão não-oficial para a celebração do 25 de Novembro costuma estender sobre eles um manto de silêncio.

Os paraquedistas, que haviam sido utilizados pelos spinolistas no 11 de Março, compunham uma unidade de elevada capacidade operacional, conhecida pela sua disciplina e espírito de corpo. Isso tornou-os, aos olhos de Morais e Silva, o instrumento ideal para pôr cobro às emissões da Rádio Renascença, ocupada pelos trabalhadores e que emitia por conta própria um alinhamento noticioso e musical enfaticamente revolucionário. As suas instalações haviam sido seladas em outubro, por decisão do VI Governo Provisório (no qual o PS e o PPD detinham a maioria das pastas), mas o Comando Operacional do Continente (COPCON), liderado pelo Brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho, tomara a iniciativa de a devolver aos ocupantes, que retomaram a emissão.

Confrontado com este desafio, o Conselho da Revolução optou pura e simplesmente por destruir o posto emissor, situado na Buraca. A operação, a todos os títulos insólita, foi confiada à Companhia de Paraquedistas 121, estacionada no Lumiar. Na madrugada de 7 de novembro, cerca de sessenta paraquedistas deslocaram-se à Buraca, acompanhados por um efetivo da PSP, neutralizando o piquete de militares e civis aí estacionado e fazendo detonar duas cargas explosivas de elevada potência, que destruíram por completo as instalações. À exceção do Capitão Barroca Monteiro, que os comandava, nenhum dos paraquedistas envolvido estava a par da natureza da operação.

Condenada à esquerda e à direita – vários membros do Conselho da Revolução afirmaram, a posteriori, desconhecer os contornos concretos da operação – a operação bombista espoletou um conflito há muito latente no interior da BEPT. Dois dias depois, os Sargentos da unidade recusaram-se a participar numa sessão de esclarecimento com o General Morais e Silva, à qual compareceram apenas os oficiais, optando por realizar um plenário próprio. Na sua sequência, 123 dos 124 oficiais da unidade abandonaram a Base, denunciando num comunicado as manobras de uma minoria de Sargentos alinhados com a esquerda revolucionária. Os paraquedistas ficaram a partir daí, para todos os efeitos, em autogestão, obedecendo a uma cadeia de comando composta pelos Sargentos e colocando-se, por iniciativa própria, sob a alçada do COPCON.

Ao início da manhã, quando a notícia da ocupação das bases já circulava, o Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS, situado na Encarnação) estabeleceu um dispositivo de defesa que abarcava a Autoestrada do Norte, o Depósito de Material de Guerra (DGM, em Beirolas) e o Aeroporto da Portela, enquanto destacamentos da Escola Prática de Administração Militar (EPAM, no Lumiar) tomavam conta das instalações da RTP e um contingente do Regimento de Polícia Militar (RPM, Ajuda) ocupava os estúdios da Emissora Nacional.

É difícil descortinar em tudo isto um assalto ao poder. A regra essencial de qualquer insurreição é tomar os principais pontos-chave – telecomunicações, centrais elétricas, meios de transporte – a par dos centros do poder. Escusado será dizer que, com a exceção das estações de rádio e televisão, nada disto aconteceu a 25 de Novembro.


Se o leitor espera descrições detalhadas das movimentações características de um golpe militar ou de uma insurreição, ficará provavelmente desiludido, uma vez que, ocupadas estas posições, os sublevados limitaram-se a usar os meios de comunicação ao seu dispor para ler um comunicado, a exigir a demissão do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, o General Morais e Silva, e do Comandante da Primeira Região Aérea, o General Pinho Freire, bem como dos dois representantes da Força Aérea no Conselho da Revolução, o Tenente-Coronel Costa Neves e o Major Canto e Castro.

Note-se desde logo a diferença em relação ao 25 de Abril, que se desenrolou segundo um plano de operações meticuloso, coordenado através de uma cadeia de comando pré-definida, com objetivos estratégicos claramente delineados. O “Relatório preliminar do Conselho da Revolução ao 25 de Novembro” (doravante referido simplesmente como o “Relatório”), ainda que visivelmente empenhado em atribuir responsabilidades ao PCP e à extrema-esquerda, reconhece que as forças envolvidas “na conjura do dia 25” não haviam “definido claramente as suas ações”, faltando-lhes “um posto de comando centralizado”.

Os únicos esforços práticos para apoiar a sublevação partiram do Major Diniz de Almeida, segundo comandante do RALIS, que por iniciativa própria enviou aos paraquedistas estacionados em Monsanto um blindado e algumas peças de artilharia (a juntar aos quatro canhões sem recuo que já lhes tinha disponibilizado dias antes).

À hora a que a operação começou, Otelo Saraiva de Carvalho estava em casa a dormir, tendo-se apresentado no Palácio de Belém pelas 15h30, após uma curtíssima passagem pelas instalações do COPCON (no Alto do Duque, em Lisboa). O Almirante Rosa Coutinho e o Comandante Martins Guerreiros, membros do Conselho da Revolução e dois dos mais eminentes oficiais da “Esquerda Militar”, acorreram igualmente ao Palácio de Belém durante manhã, aí permanecendo ao longo de grande parte do dia.

Tanto o Partido Comunista Português (PCP) como os partidos à sua esquerda convocaram os militantes para defender as respetivas sedes, ao mesmo tempo que um grande número de civis se concentrava nas imediações do Forte de Almada, do Quartel do Regimento de Infantaria 11, em Setúbal, do RALIS e da Polícia Militar, solicitando armas. O Relatório afirma que terão sido distribuídas armas no RALIS e à Polícia Miltar, mas Diniz Almeida, o comandante de facto do RALIS, negou-o repetidamente.

É à primeira vista difícil descortinar em tudo isto um assalto ao poder. A regra essencial de qualquer insurreição é permanecer, tanto quanto possível, na ofensiva, tomando os principais pontos-chave - como as telecomunicações, as centrais elétricas e os meios de transporte - a par dos centros de governo propriamente ditos. Escusado será dizer que, com a exceção das estações de rádio e televisão, nada disto aconteceu a 25 de novembro.

Basta pensar na proximidade física do Palácio de Belém (onde o Conselho da Revolução permaneceu reunido durante o dia inteiro, guardado por um efetivo relativamente pequeno) em relação a quartel do Regimento de Polícia Militar (quase dois mil soldados e um número considerável de veículos blindados), para se tornar difícil descortinar em tudo isto uma tentativa de tomada do poder, uma vez que teria bastado descer a Calçada da Ajuda com alguns blindados para o tomar.

No final do dia 28 já a situação se havia decidido a favor dos "moderados". Aos vencedores esperava-lhes a gestão da correlação de forças no seio das Forças Armadas, onde o Grupo dos Nove era agora o setor mais à esquerda. O MFA deixara de existir.

Otelo, que havia sido o autor do Plano de Operações do 25 de Abril, conhecia perfeitamente o tipo de manobra necessária para assegurar uma supremacia militar indiscutível em Lisboa e dispunha às suas ordens de meios e efetivos largamente superiores aos que podiam ser mobilizados para o enfrentar.

O facto é que o dia 25 decorreu sem que fosse disparado um único tiro. E se a operação dos paraquedistas começou por apanhar quase toda a gente de surpresa, o efeito esgotou-se rapidamente, visto que o General Pinho Freire, detido nas instalações do 1º Comando Aéreo, conseguiu aceder a um telefone e informar Morais e Silva do que estava a acontecer.

Reunido em Belém o Conselho da Revolução, o Presidente da República, General Costa Gomes procurou encontrar uma solução política para superar o impasse. Começou por estabelecer um canal de comunicação com os paraquedistas, através do Capitão Costa Martins, um dos poucos oficiais da Força Aérea pertencentes à Esquerda Militar, que acabava de ser colocado no COPCON depois de ter sido afastado do Conselho da Revolução. Costa Gomes ofereceu aos revoltosos a garantia de que a unidade não seria dissolvida e ficaria às ordens do COPCON.

Entretanto, foi contactando com as chefias das várias Regiões militares e com as principais unidades, para tomar o pulso à situação. Recebeu do Grupo dos Nove, logo pelas 10h00, a informação de que havia um plano para responder à sublevação, contando-se para esse efeito com o Regimento de Comandos, a Escola Prática de Infantaria (EPI) e o Centro de Instrução de Artilharia Anti-Aérea de Cascais (CIAAC). Depois de alguma hesitação, não tendo obtido de Costa Martins qualquer resposta, por volta das 16h00 o Presidente da República optou por declarar o estado de sítio e chamar a si o comando das unidades da Região Militar de Lisboa (RML), que delegou no Major Vasco Lourenço e no Tenente-Coronel Ramalho Eanes.

Por essa altura, já havia obtido de Álvaro Cunhal e da Intersindical a garantia de que tudo fariam para desmobilizar os civis concentrados nas imediações dos quartéis, para além de ter solicitado ao Almirante Rosa Coutinho e ao Comandante Martins Guerreiro que tentassem desmobilizar as unidades da Marinha que se inclinavam a intervir a favor dos sublevados. Estes só sairiam de Belém ao fim da tarde, deslocando-se à Base do Alfeite, onde terão demovido os Fuzileiros de se envolverem nas movimentações em curso

Uma vez obtida a anuência de Costa Gomes, Ramalho Eanes seguiu imediatamente para o quartel do Regimento de Comandos, na Amadora, onde já estava instalado posto de comando, com um sistema de radiotransmissão previamente preparado pelo Capitão Garcia dos Santos.

Além de ter obtido um significativo reforço de meios nos meses precedentes (incluindo peças de artilharia e blindados), o Coronel Jaime Neves, que chefiava o Regimento de Comandos, conseguira autorização para constituir duas Companhias com homens escolhidos entre os que haviam combatido consigo em África. Foi com esses efetivos que cercou os paraquedistas em Monsanto, conseguindo obter a sua rendição ao início da noite (não sem que algumas dezenas tivessem conseguido furar o cerco, seguindo para o RALIS).

A emissão da RTP, onde o Capitão Manuel Duran Clemente (EPAM) apelara à mobilização popular em apoio aos paraquedistas, seria redirecionada para os estúdios do Porto pouco depois, aproveitando o facto de a antena, localizada perto das instalações do Comando da 1ª Região Aérea, ter sido igualmente tomada pelos Comandos.

Durante a madrugada, o Major Diniz de Almeida apresentou-se em Belém, onde ficaria detido. Já de manhã, e como os oficiais do Regimento de Polícia Militar não tivessem obedecido à ordem de Costa Gomes para se apresentarem em Belém, um destacamento de Comandos subiu a Calçada da Ajuda, tendo-se verificado uma troca de tiros do qual resultaram três mortos (dois atacantes e um defensor), concluída com a rendição da unidade e a detenção dos três oficiais superiores (Campos Andrada, Mário Tomé e Cuco Rosa).

Nessa altura já as bases da Ota e de Monte Real estavam desocupadas, tendo-se-lhes seguido a do Montijo. Os paraquedistas regressaram a Tancos, onde se viriam a render no dia 28, tendo sido imediatamente passados à disponibilidade.

No dia anterior, vários oficiais do COPCON (com a exceção de Otelo, que ficou inicialmente em liberdade e acabaria por ser preso mais tarde) haviam sido detidos por um destacamento de Comandos, nas instalações do Alto do Duque, onde se encontravam a recolher os seus papéis e pertences pessoais.

A situação político-militar havia-se clarificado decisivamente a favor do Grupo dos Nove e dos seus aliados de ocasião da Direita Militar. Aos vencidos esperava um longo período na prisão de Custóias. Aos vencedores, a gestão de uma delicada correlação de forças no seio das Forças Armadas, onde o Grupo dos Nove era agora o setor mais à esquerda. O MFA deixara, para efeitos práticos, de existir.

Documentário: 19 Meses Depois
Entrevista de Álvaro Cunhal a Oriana Fallaci (excertos aqui)