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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

IA, geopolítica e fraude marcam cibersegurança em 2026


A cibersegurança em 2026 está a evoluir num contexto marcado pela aceleração da Inteligência Artificial (IA), pelo aumento das tensões geopolíticas e por desigualdades crescentes no acesso a recursos e competências, segundo o Global Cybersecurity Outlook 2026. O relatório do Fórum Económico Mundial conclui que a colaboração continua a ser um fator determinante para reforçar a resiliência coletiva num ambiente cada vez mais fragmentado.

Uma das principais conclusões do estudo, que se baseia num inquérito global a mais de 800 líderes de cibersegurança, executivos de topo e decisores públicos de 92 países, complementado por workshops e entrevistas com especialistas do Fórum Económico Mundial, revela que a IA assume um papel central na chamada “corrida ao armamento” da cibersegurança. Cerca de 94% dos inquiridos identificam a IA como o principal motor de mudança na cibersegurança no próximo ano. Embora a tecnologia esteja a ser usada para melhorar a deteção e resposta a incidentes, 87% dos participantes consideram as vulnerabilidades associadas à IA o risco de cibersegurança com crescimento mais rápido em 2025. Em paralelo, a percentagem de organizações que avaliam a segurança das suas ferramentas de IA subiu de 37% em 2025 para 64% em 2026.

Geopolítica no centro do risco
O relatório indica que a geopolítica surge como outro fator estruturante, com 64% das organizações já a considerarem ataques motivados por fatores geopolíticos nas suas estratégias de mitigação de risco. Entre as maiores organizações, 91% ajustaram as suas estratégias de cibersegurança em resposta à volatilidade geopolítica. Apesar disso, a confiança na preparação nacional para responder a grandes incidentes continua a diminuir, com 31% dos inquiridos a manifestarem baixa confiança na capacidade dos seus países para lidar com ataques a infraestruturas críticas.

A fraude digital assume também um peso crescente, visto que cerca de 73% dos participantes afirmam que eles próprios ou alguém do seu círculo foi afetado por fraude digital em 2025. Para os CEO, este tipo de fraude tornou-se a principal preocupação, superando o ransomware, enquanto os responsáveis de segurança continuam a destacar o ransomware e os riscos na supply chain como ameaças prioritárias.

O relatório evidencia ainda um fosso persistente na resiliência entre organizações e regiões. Embora 64% das entidades indiquem cumprir os requisitos mínimos de resiliência, apenas 19% consideram ultrapassar esse patamar. A escassez de competências em cibersegurança continua a ser um dos principais fatores de desigualdade, afetando sobretudo pequenas organizações, o setor público e regiões como a América Latina, Caraíbas e África subsaariana.

Ao longo de cinco edições, o Global Cybersecurity Outlook tem documentado a crescente interligação entre cibersegurança, economia e geopolítica. A edição de 2026 reforça que a cibersegurança deixou de ser uma função exclusivamente técnica para se tornar uma prioridade estratégica e económica, com impacto direto na confiança, na inovação e na estabilidade social.

O estudo conclui que reforçar a resiliência exige uma abordagem que vá além do investimento tecnológico, assente numa governação eficaz, no desenvolvimento de competências, na partilha de informação e na cooperação entre os setores público e privado, considerados essenciais para enfrentar um cenário de ciberameaças cada vez mais complexo e global.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Sharenting: quando os pais partilham demais nas redes sociais


Vivemos numa era em que o primeiro sorriso, os primeiros passos e até as birras dos filhos são partilhados em tempo real. Entre stories e likes, muitos pais transformaram as redes sociais num álbum digital da infância. Chama-se sharenting e apesar de parecer inofensivo, este hábito levanta questões sérias sobre a privacidade e a segurança dos mais novos.

O que é, afinal, o sharenting?
O termo sharenting resulta da união das palavras inglesas sharing (partilhar) e parenting (parentalidade). A prática refere-se ao hábito de pais, mães ou cuidadores de publicarem nas redes sociais fotos, vídeos e relatos sobre os filhos, de forma frequente e detalhada.

Embora o ato de registar momentos da infância não seja novo, por exemplo em diários, álbuns de fotografias ou registos familiares, o sharenting emergiu como uma consequência natural da expansão das plataformas digitais e das redes sociais.

Durante a década de 2010, plataformas como Facebook, Instagram e X (antigo Twitter) tornaram-se os palcos preferidos para registar e mostrar os marcos da infância, das primeiras palavras às festas de aniversário. Com o tempo, o sharenting deixou de ser apenas um fenómeno social para se tornar também um tema de estudo académico, para analisar as motivações, padrões e potenciais impactos sobre a privacidade e o bem-estar das crianças.

Porque muitos pais optam pelo sharenting
Apesar dos alertas sobre privacidade e segurança, muitos pais continuam a partilhar imagens e histórias dos filhos nas redes sociais, não por negligência, mas por razões profundamente humanas. Para muitos, o sharenting é uma forma de lidar com a intensidade da parentalidade, documentar etapas que passam depressa e encontrar sentido no caos do dia a dia familiar. Numa era em que a câmara está sempre à mão, a publicação torna-se quase uma extensão natural do momento vivido.

Um estudo conduzido por Blum-Ross e Livingstone (2017), da London School of Economics, concluiu que a partilha digital está muitas vezes associada à construção da identidade parental. As redes sociais funcionam como espaços onde os pais não só mostram o que fazem, mas também afirmam quem são enquanto cuidadores. Nessas comunidades digitais, os pais encontram reconhecimento, partilham experiências e comparam-se com outros que vivem desafios semelhantes.

Quando o sharenting se torna preocupação
Apesar das boas intenções, o sharenting pode tornar-se problemático quando feito sem consciência ou critério. A investigação científica tem vindo a identificar riscos reais associados à exposição digital excessiva de crianças, principalmente quando as publicações acontecem de forma recorrente, desprotegida ou sem limites claros.

Uma das maiores preocupações é a criação de uma pegada digital duradoura: aquilo que hoje parece um simples momento engraçado pode manter-se online por décadas, acessível a desconhecidos, reutilizável sem controlo e potencialmente prejudicial para a imagem da criança no futuro.

Além disso, muitas dessas partilhas incluem dados sensíveis, como o nome completo da criança, a escola que frequenta, os locais que visita com frequência, datas de nascimento ou até rotinas familiares. Quando combinadas, essas informações podem facilitar tentativas de contacto indesejado, roubo de identidade, casos de bullying e cyberbullying ou mesmo situações de exploração por terceiros.

A tudo isto junta-se uma dimensão emocional: muitas crianças, ao crescerem, relatam sentir desconforto ou vergonha em relação a conteúdos partilhados sem o seu consentimento. Um estudo conduzido pela Microsoft (2020) indica que 42% dos jovens consideram o conteúdo partilhado sobre si nas redes pelos pais como “embaraçoso” ou “indesejado”.

Como partilhar nas redes sem comprometer a privacidade
Para muitos pais, deixar de partilhar por completo não é uma opção e não precisa de ser. O importante é fazê-lo com consciência e respeito pela privacidade da criança. Há formas seguras de praticar o chamado sharenting consciente:
  1. Use perfis privados ou grupos fechados, limitando o alcance das publicações a pessoas de confiança;
  2. Evite imagens sensíveis, como aquelas em que a criança aparece nua, em sofrimento ou em contextos que revelem dados pessoais, como o nome da escola ou a localização.
  3. Peça consentimento à criança, sempre que possível e adaptado à sua idade, promovendo o respeito pela sua autonomia.
  4. Cuide da linguagem nas legendas, evitando mencionar hábitos, rotinas ou qualquer informação que possa expor a criança.
  5. Use plataformas privadas, como Google Photos ou Joomeo, para partilhas familiares mais restritas, longe do alcance público das redes sociais.
Partilhar sim, mas com consciência
A vontade de partilhar os momentos felizes da infância é natural, mas no mundo digital, onde tudo permanece, é essencial que cada publicação seja feita com ponderação. Proteger a privacidade das crianças é um gesto de amor tão importante quanto celebrá-las. O sharenting consciente não significa deixar de partilhar, mas sim escolher como, quando e com quem o fazemos.

Fontes utilizadas
  1. Blum-Ross, A., & Livingstone, S. (2017). Sharenting, parent blogging, and the boundaries of the digital self. Popular Communication, 15(2), 110–125. 
  2. Keskin, D., Sahin, D. S., & Yilmaz, S. (2023). Sharenting: Hidden pitfalls of a new increasing trend. Healthcare, 11(24), 3219. 
  3. Keskin, G., Şahin, D. S., & Yılmaz, S. (2023). Sharenting syndrome: An appropriate use of social media? Current Psychology, Advance online publication. 
  4. Kuczerawy, A., & Świerczyńska-Głownia, W. (2023). Sharenting: A systematic review of the empirical literature. International Journal of Environmental Research and Public Health, 20(13), 6242. 
  5. Microsoft. (2020). Digital civility: 2020 global report. Microsoft Corporation. 
  6. Tosuntaş, Ş. B., & Griffiths, M. D. (2024). Sharenting: A systematic review of the empirical literature. International Journal of Environmental Research and Public Health, 21(1), 112. 
  7. Walrave, M., Ponnet, K., & De Marez, L. (2023). Mindful sharenting: How millennial parents balance sharing and protecting children’s privacy. Frontiers in Psychology, 14, 1171611. 

domingo, 23 de novembro de 2025

O truque da chamada automática que desliga logo é perigoso


Todos nós já passámos por isto: o telemóvel toca duas ou três vezes, vês um número estranho e, quando atendes, a chamada cai. Se devolveres a chamada, ninguém atende ou ouve-se uma gravação esquisita. Parece só spam chato mas, em muitos casos, é muito mais do que isso. Assim cuidado com o truque da chamada automática.

O truque da chamada automática que desliga logo é perigoso
O primeiro passo é quase sempre automatizado. Sistemas de robocall fazem milhares de chamadas por dia, tocam dois ou três toques e desligam. Se atendes, o sistema marca o número como “válido” e “pessoa responde”. Se ainda por cima devolves a chamada, ganhas um selo de “alvo quente”: a partir daí, aumentam as hipóteses de receberes SMS fraudulentos, tentativas de vishing (chamadas em que alguém se faz passar por banco, seguradora, operador) ou mais chamadas de números suspeitos.

No esquema clássico, quando devolves a chamada, estás a ligar para um número com custo muito acima do normal. Ficas na linha a ouvir música de espera, gravações ou um “atendedor automático” que nunca mais passa a chamada. Cada minuto é dinheiro a sair da tua conta e parte dessa receita vai parar ao bolso dos burlões.

O que deves fazer, então, com estas chamadas que desligam logo?
A regra mais segura é simples: não devolver chamadas de números que não conheces, sobretudo se forem internacionais ou com prefixos estranhos. Se for importante, quem ligou volta a tentar, deixa mensagem de voz ou envia SMS identificando-se.

Se começares a receber muitas chamadas deste tipo, há mais alguns passos úteis:
  1. Bloquear os números diretamente no telemóvel.
  2. Ativar filtros anti-spam do teu operador, se existirem.
  3. Reportar à ANACOM, Portal da Queixa  ou linhas de cibercrime, se identificares padrão de burla.
A tentação de “só ver quem é” pode sair cara. Num mundo em que já precisamos de desconfiar de links, anexos e SMS duvidosos, as chamadas que desligam logo passaram a ser mais um aviso: alguém lá fora está a testar a tua curiosidade — e o saldo da tua conta.

sábado, 28 de dezembro de 2024

Como não cair nos golpes de vishing e smishing?



Com o avanço da tecnologia e a crescente dependência de dispositivos móveis e comunicação digital, os golpistas também evoluíram suas táticas de ataque.

Se você já ouviu falar em phishing, prepare-se para conhecer suas variações igualmente perigosas: o vishing e o smishing.

No texto a seguir, vamos explorar como esses golpes funcionam e, mais importante, como você pode se proteger.

Entendendo o contexto: o que é phishing?
Antes de mergulharmos nas variações mais recentes, é fundamental compreender o phishing. O termo deriva da palavra "fishing" (pescaria em inglês), fazendo uma analogia ao ato de "pescar" dados sensíveis dos usuários, ou seja, conseguir acesso a dados pessoais de maneira fraudulenta.

Nessa modalidade de golpe, criminosos se passam por instituições confiáveis através de links ou anexos em e-mails.

E o funcionamento é simples: se o clique acontecer, os golpistas conseguem capturar informações sensíveis para dar sequência no golpe, como senhas, dados bancários ou de um cartão de crédito, por exemplo.

Vishing: o golpe que usa sua voz contra você
O vishing (Voice Phishing) representa uma evolução sofisticada do phishing. Nesta modalidade, os criminosos utilizam chamadas telefônicas para aplicar seus golpes.

Os golpistas do vishing frequentemente utilizam tecnologias de manipulação de números telefónicos (spoofing) para fazer a chamada parecer que vem de uma fonte confiável, como seu banco ou uma empresa conhecida.

Eles podem até mesmo criar centrais telefónicas falsas completas, com músicas de espera e menus automáticos que imitam serviços legítimos.

Como funciona um ataque de vishing?
Um cenário típico de vishing começa com uma ligação telefônica em tom de urgência, em que o golpista pode se apresentar como um funcionário do seu banco, alertando sobre uma transação suspeita em sua conta.

Para dar credibilidade ao golpe, ele pode mencionar dados básicos sobre você, muitas vezes obtidos pelas redes sociais ou vazamentos de dados.

O objetivo é criar senso de urgência e medo, levando a vítima a agir impulsivamente. O criminoso pode pedir confirmação de dados pessoais, senhas ou até mesmo solicitar transferências bancárias para uma suposta "conta segura".

Lembre-se: instituições financeiras nunca solicitam dados sensíveis por telefone ou mensagem. Em caso de dúvida, sempre entre em contato com os canais oficiais. A segurança digital é uma responsabilidade compartilhada, e cada usuário tem um papel fundamental na prevenção destes golpes.

Smishing: quando as mensagens de texto se tornam ameaça
O termo smishing combina "SMS" com "phishing", representando ataques realizados via mensagens de texto. Com o aumento do uso de aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram, o smishing tornou-se ainda mais sofisticado e perigoso.

Funcionamento de um ataque de smishing
Os golpes de smishing geralmente começam com uma mensagem que parece legítima, como:

• Notificações de entrega de pacotes;
• Alertas bancários fora dos canais oficiais ou de cobranças de taxas e multas;
• Promoções imperdíveis;
• Comunicados governamentais ou de instituições conhecidas

Essas mensagens costumam conter links maliciosos que, quando clicados, podem:
• Redirecionar para páginas falsas que roubam dados;
• Instalar um aplicativo fraudulento (malware) e infectar o dispositivo com um vírus, por exemplo;
• Cobrar taxas por meio de Pix ou boletos falsos.

Como vishing e smishing se relacionam?
Frequentemente, criminosos combinam diferentes técnicas para tornar seus ataques mais convincentes. Por exemplo, um golpista pode enviar uma mensagem de texto (smishing) alertando sobre uma transação suspeita e fornecer um número para contato, iniciando assim um ataque de vishing quando a vítima liga para o número indicado.

Como se proteger contra vishing e smishing?
Os principais jeitos de se defender do vishing são:
- Desconfiar de chamadas não solicitadas: nunca forneça informações sensíveis por telefone, mesmo que o número pareça legítimo;
- Se receber uma ligação supostamente do seu banco, desligue e ligue diretamente para o número oficial da instituição:

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

A lavagem verde da COP28 por bots



Uma rede de pelo menos 1.900 bots no X (antigo Twitter) promove a COP28 em inglês e árabe, conclui uma análise de Marc Owen Jones, professor da Universidade Hamad bin Khalifa, no Catar. Os bots elogiam os Emirados Árabes Unidos e o presidente da polícia como heróis do clima.

“Identifiquei uma rede de cerca de 1.900 bots no Twitter/X fazendo lavagem verde da COP28. A rede está dividida em “asseclas” e “generais”. Os minions só aparecem para curtir e promover uma série de 'generais'. Os ‘generais’ publicam conteúdo original. Por exemplo, o ‘general’ Mazon é um bot com uma conta 'antiga/poucas', ou seja, foi criada em 2009 (conta antiga), mas só fez 1.352 postagens (poucas). O seu primeiro tweet é de 2022, o que significa que foi apagado e reaproveitado.

E quem são as ‘pessoas’ que gostam do tweet do Mazon? Os asseclas do ‘general’ são todos bots. As contas nesta rede têm uma caraterística distintiva: cada tweet de um general como Mazon recebe cerca de 100 gostos. Os seus rostos são gerados por inteligência articifial.

Esta rede é inteligente. Nem todos os bots retweetam 1.900 vezes. Eles estão divididos em unidades/células - e cada unidade irá gostar de um poste de um general específico, com algumas exceções. Provavelmente para evitar a deteção pelo Twitter/X. Portanto, nesta rede há cerca de 22 generais e 1.878 subordinados. Nem todos os generais são criados iguais e até alguns exibem o selo de verificação, como bint_jumeiraah e BkhetaElbasbosy, cujas contas são antigas, com número semelhante de tweets.

Muitos dos tweets elogiam o chefe do ADNOC e presidente da COP28, Sultan Al Jaber. Outros elogiam os Emirados Árabes Unidos e a COP28 em geral. A rede Atm tem a tarefa de promover a COP28, os Emirados Árabes Unidos e Al Jaber como bons para a catástrofe climática.

Em suma, pelo menos 1.900 bots/contas falsas estão envolvidas na promoção do greenwashing COP28, principalmente em inglês e árabe. Os bots estão ligados a uma rede muito maior de contas falsas, totalizando pelo menos 7.000, aparentemente alinhadas com a política externa dos Emirados Árabes Unidos.”