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segunda-feira, 5 de maio de 2025

Naomi Klein on Trump, Musk, Far Right & "End Times Fascism"


Uma aliança entre a extrema-direita e os oligarcas de Silicon Valley deu origem a uma forma de "fascismo do fim dos tempos", afirma a jornalista Naomi Klein, que detalha num ensaio recente escrito em coautoria com Astra Taylor como muitas elites ricas se estão a preparar para o fim do mundo, mesmo contribuindo para a crescente desigualdade, instabilidade política e crise climática. Klein diz que, enquanto os multimilionários sonham em escapar para enclaves isolados ou mesmo para o espaço, o presidente Donald Trump e outros líderes de direita estão a transformar os seus países em estados-fortaleza militarizados para manter os imigrantes do estrangeiro afastados e aumentar o controlo autoritário internamente.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Perovskite - a energia do futuro?

O silício tem sido o cavalo de batalha para o fabrico de painéis fotovoltaicos e a China tem o quase monopólio do seu fabrico, como aprendi numa viagem relâmpago a Hong Kong, no âmbito da Quimonda Solar.

A partir do silício fabricam-se as “wafers” que na sua maioria utilizam a tecnologia monocristalina. Mas as coisas podem estar a mudar.

Porque como sempre, vão aparecer alternativas. Uma delas são as células solares de perovskite. Um nome difícil de pronunciar. Perovskite é uma classe de minerais com estruturas cristalinas em cubo e diamante que foram descobertos há 170 anos nos Montes Urais. Verificou-se que é relativamente fácil de sintetizar perovskite a partir de elementos químicos comuns.

Uma das suas utilizações é para o fabrico de células fotovoltaicas. Em 10 anos a eficiência das células solares de perovskite subiu de 2,5% para 25%. Um avanço muito mais rápido do que o que se tinha verificado com as células de silício. Estas células têm várias vantagens: utilizam materiais baratos e abundantes, não precisam de terras raras e o fabrico exige pouca energia, que é recuperada em poucos meses de funcionamento.

Até há pouco tempo a sua utilização comercial não era viável, em virtude da sua baixa estabilidade, que lhes permitia pouco tempo de funcionamento. Mas agora começam a aparecer os primeiros produtos comerciais.

Uma das empresas que se está a evidenciar neste campo é a “Oxford PV”, que aposta na colocação de uma camada de perovskite sobre um célula clássica de silício. Estas células em “tandem” conseguem eficiências na ordem dos 30%, o que é perto do limite teórico de uma célula de silício.

Este aumento de eficiência é relevante sobretudo em aplicações onde o espaço é escasso, como é frequentemente o caso das instalações em telhados para autoconsumo. Mas a tecnologia ainda tem desafios pela frente, entre eles assegurar a sua longevidade.

Uma dúzia de outras empresas seguem o mesmo caminho do que a “Oxford PV”. Várias trabalham em projetos financiados pela União Europeia, que procura a forma de recuperar a tecnologia solar que perdeu para a China.

Cada vez mais estou convencido a energia fotovoltaica vai ser determinante para a transição energética. É já a tecnologia que produz a energia a menor custo, e o custo continua a descer. Para lá disso tecnologias como a perovskite permitirão fabricar células finas e flexíveis que poderão ser instaladas em qualquer superfície.

Se não forem as células de perovskite serão outras, porque a inovação não vai parar e a transição energética não vai interromper por falta de materiais.

A energia solar poderá permitir um Mundo com abundância de energia, o que a verificar-se nos vai obrigar a repensar a forma como irão funcionar no futuro os Sistemas Elétrico, que cada vez mais serão distribuídos com princípios de controlo próximos dos da Internet.

São temas que é importante seguir de perto porque nos esperam mudanças rápidas de paradigmas.

sábado, 18 de novembro de 2023

Corrupção, desastres ambientais e conflitos: organizações cívicas e cientistas alertam Bruxelas para cancelar mineração de matérias-primas críticas

Clicar na imagem para ver melhor

Bruxelas recebeu uma carta aberta, assinada por cerca de 1.000 organizações cívicas e 130 cientistas, no qual é requerido o cancelamento do Regulamento Europeu sobre as Matérias-Primas Críticas: a missiva, dirigida à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou os casos de corrupção e de incumprimento sócio-ambiental relacionados com diversas minas pela Europa. De acordo com os especialistas, a atual política de matérias-primas é insuficiente e inviável face à crise climática.

O Regulamento sobre as Matérias-Primas Críticas foi anunciado na passada segunda-feira, depois de um acordo político entre o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu: nesta proposta, Bruxelas pretende assegurar a segurança do aprovisionamento de 34 matérias-primas consideradas críticas para a transição energética. Para assegurar o objetivo, foram estabelecidas duas vertentes: o abastecimento a partir de novas parcerias estratégicas e novas explorações na Europa, que beneficiariam de um licenciamento acelerado.

No entanto, casos como a ‘Operação Influencer’, que provocou a queda do Governo português, sublinharam os grupos cívicos e cientistas, são sintomáticos em relação às deficiências da indústria extrativa e da sua governação, sobretudo em relação a riscos ambientais e sociais, bem como no que diz respeito ao incumprimento da legislação existente e à corrupção.

Na missiva, foram citados mais de 30 casos de corrupção e de desastres ambientais ligados à exploração e transformação mineira na Europa nos últimos 20 anos, em países como Espanha, Finlândia, Hungria, Macedónia, Portugal, Roménia, e Suécia.

“Infelizmente, o incumprimento parece ser a norma em Portugal, mesmo em casos bem documentados e conhecidos das autoridades. A tragédia de Borba, os rejeitados da mina da Panasqueira e, desde a semana passada, as águas ácidas em Aljustrel testemunham também o estado precário das autoridades competentes. A ‘Bolha’ de Bruxelas, que prevê licenciamentos em dois anos, parece muito longe da nossa realidade de projetos que já levam meia década no processo”, referiu Nik Völker, fundador da MiningWatch Portugal.

Na carta dirigida à Comissão, os signatários abordaram também o atual boom de projetos de prospeção e pesquisa e de exploração, causado pelas crises geopolíticas dos últimos anos e pela crescente procura de metais para a transição energética. Segundo os autores, existem cada vez mais conflitos entre modos de vida tradicionais, rurais e indígenas e projetos extrativos.

“O Parlamento Europeu e a Comissão tiveram a oportunidade de ir ao encontro das necessidades das comunidades locais com esta lei e falharam redondamente”, afirmou Bojana Novakovic do movimento contra a exploração mineira de lítio “Mars sa Drine”, na Sérvia. “Estamos fartos de implorar, apelar e negociar. A UE falhou connosco, por isso estamos a enviar uma mensagem clara – retirem a lei ou vão ver-nos nas ruas e em tribunal.”

Entre os 25 projetos listados encontram-se 8 com participação de entidades portuguesas, com um valor global de €56M: EXCEED (Savannah Lithium), GREENPEG (Universidade do Porto, Felmica), INFACT (Associação Portuguesa de Geólogos), S34I (Universidade do Porto), ION4RAW (Universidade de Coimbra), VAMOS (INSEC, Mineralia-Minas Lda, EDM), MIREU (NOVA ID FCT, CCDR-A), SEMACRET (FCIENCIAS / Universidade de Lisboa).

Em Portugal, a carta foi assinada pelas seguintes 28 organizações:
Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela – ASE; Associação Montalegre Com Vida; Associação Povo e Natureza do Barroso – PNB; AVE – Associação Vimaranense para a Ecologia; Bravo Mundo – Citizens Movement for a Safer Future; Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS) / Associação ALDEIA; Chaves Comunitária; Espaço A SACHOLA – Covas do Barroso; Extinction Rebellion Guimarães; FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade; Grupo de Investigação Territorial (GIT); Grupo pela Preservação da Serra da Argemela (GPSA); IRIS, Associação Nacional de Ambiente; MiningWatch Portugal; Movimento Amarante diz não à exploração de lítio Seixoso-Vieiros; Movimento Contra Mineração Penalva do Castelo, Mangualde e Satão; Movimento ContraMineração Beira Serra; Movimento Não às Minas – Montalegre; Movimento Seixoso-Vieiros: Lítio Não; Movimento SOS Serra d’Arga; Nao as Minas Beiras – Citizens Movement; Rede Minas Não; Rede para o Decrescimento em Portugal; Sciaena – Oceano # Conservação # Sensibilização; SOS – Serra da Cabreira; UDCB – Unidos em Defesa de Covas do Barroso; URZE – Associação Florestal da Encosta da Serra da Estrela.

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Dez Argumentos para Apagar já as Contas nas Redes Sociais


Da mente brilhante do «pai» da Realidade Virtual, um ensaio acessível e profundo sobre o lado mais nebuloso da tecnologia
Como era a nossa vida antes das redes sociais? Seremos atualmente capazes de viver sem elas? E se alguém dissesse que, a bem da nossa sobrevivência, devíamos apagá-las a todas já, quem o faria?
Em Dez Argumentos para Apagar já as Contas nas Redes Sociais, Jaron Lanier, um insider que continua a agir como a voz da consciência do sistema do qual foi um dos pioneiros, oferece-nos dez poderosas explicações para a necessidade urgente de todos nós deixarmos essas perigosas plataformas online. Num crescendo argumentativo bem construído e fundamentado, Lanier demonstra como as redes sociais trazem à tona o que há de pior nos seres humanos e, com o acordo tácito de milhares de utilizadores ignorantes, nos enganam com ilusões de popularidade e sucesso, distorcendo a noção de verdade, desligando-nos dos outros mesmo quando estamos mais «conectados» do que nunca, tudo para nos roubarem o nosso livre-arbítrio, bombardeando-nos com anúncios direcionados.
Num mundo onde estamos sob a vigilância e a estimulação contínuas de algoritmos geridos por algumas das corporações mais poderosas da história da humanidade, que ganham dinheiro a manipular o nosso comportamento, como reconhecer esses perigos? Sem que a exposição da malevolência que governa os modelos de negócios das redes sociais na atualidade o impeça de continuar otimista em relação à tecnologia, Lanier aponta um cenário humanista para o futuro das redes sociais, tendo como valor supremo o bem-estar e o progresso equilibrado do homem.

Críticas da Imprensa
«A consciência de Silicon Valley.»
GQ

«Lanier mostra o valor tático de apelar à consciência individual. Face aos seus argumentos sérios, senti uma intensa vergonha pela minha própria presença no Facebook. Atendendo ao seu apelo, apaguei a minha conta.»
The New York Times

«O título diz tudo. […] Lanier defende a desvinculação das redes sociais, que promovem o vício […] e, na maioria das vezes, nos fazem sentir pior e com mais medo uns dos outros e do mundo.»
Kirkus Reviews

terça-feira, 14 de março de 2023

Como as startups podem ser afetadas pela falência do Silicon Valley Bank

A falência do Silicon Valley Bank não é apenas um problema bancário, mas também um murro no estômago do ecossistema de startups que viu desaparecer um importante agente de financiamento da indústria.



A falência do Silicon Valley Bank (SVB) foi uma pedrada que se abateu no setor bancário norte-americano com réplicas pelo mundo fora. As bolsas caíram a pique, os receios de uma nova crise financeira a fazer relembrar a crise de 2008 tomaram conta de investidores e aforradores por todo o mundo, e os reguladores americanos e europeus atiraram-se rapidamente ao problema para estancar o medo e o pânico que corria nas ruas.

No centro da crise do SVB estiveram decisões de gestão erróneas da administração do banco que promoveram a construção de uma carteira de ativos completamente desalinhada com a estrutura de risco dos seus clientes. Esta realidade fez com que, numa situação inesperada como foi a galopante subida das taxas de juro, tivesse lugar uma desvalorização profunda dos ativos que assustou o mercado e que rapidamente escalou o problema para outra dimensão com o despoletar de uma corrida aos depósitos por parte dos clientes.

O impacto da falência do banco no Vale do Silício, na Califórnia, é tão grande que, no sábado, a reconhecida incubadora e aceleradora de startups Y Combinator estimava que o provável congelamento das verbas depositadas no SVB por parte de algumas das startups da sua comunidade poderia impactar o processamento de salários e o pagamento de contas de mais de 10 mil empresas e startups.

A atividade do Silicon Valley Bank não se resumia a apoiar as startups. Atuava também como investidor de fundos de venture capital.

No entanto, as réplicas deste drama bancário sentem-se para lá do setor financeiro. Têm-se feito sentir por todo o ecossistema de startups porque o SVB não era um simples banco depositário dos recursos das startups do Vale do Silício. Era um importante agente deste setor, atuando também como financiador destas empresas e da indústria.

O SVB chegou inclusive a assumir posições bem mais arriscadas que muitos fundos de capital de risco. É disso exemplo a concessão de créditos a startups por troca de futuras participações nas empresas, como sucedeu com a Airbnb, a Fitbit ou a Pinterest. Foi assim que levantou quase 14 milhões de euros no IPO da FitBit e, mais recentemente, quando assumiu os direitos de adquirir 400 mil ações a 1 dólar por ação na abertura ao capital da Coinbase em Bolsa – no primeiro dia de negociação, os títulos desta corretora de criptoativos fechou acima dos 325 dólares.

Não foi por isso de estranhar que mais de uma centena de empresas de capital de risco e de investidores individuais assinaram uma declaração de apoio ao SVB, também com o intuito de limitar as consequências do colapso do banco e evitar um possível “evento ao nível da extinção” para as empresas de tecnologia.

O SVB era um importante agente no ecossistema do Vale do Silício e do universo global de startups, como mostra uma breve lista de empresas com depósitos e créditos junto do SVB, publicada pela Reuters. Mas não só. A atividade do SVB não se resumia a apoiar as startups. Atuava também como investidor de fundos de venture capital dos poderosos Accel Partners ou Sequoia Capital.

A falência do SVB terá por isso impacto sobre todo o ecossistema, mais ainda porque como se viu na segunda-feira, os efeitos colaterais do colapso do SVB fizeram-se sentir com estrondo sobre todos os bancos com estruturas de capital e operações semelhantes ao SVB.

Além disso, é importante notar que a falência do SVB surge numa altura em que o ecossistema passa por um período de teste. Num relatório do SVB apresentado a 8 de março, a gestão do banco referia que os seus clientes (maioritariamente startups e fundos de venture capital) “estão a queimar dinheiro a um ritmo duas vezes superior aos níveis anteriores a 2021 e não se ajustaram ao ambiente mais lento de angariação de fundos.”

Essa realidade é bem visível pela queda a pique do volume de investimento por parte dos venture capital no último ano. “Os investimentos globais de venture capital diminuíram todos os trimestres [de 2022], terminando o ano com uma queda de 36% em relação a 2021” referem Andre Fernandes e Alice Leonard no relatório “Global Venture Capital Outlook: The Latest Trends“, da Bain & Company, publicado a 2 de março.


Estes números e as falências do SVB ou do Signature Bank (uma instituição com mais de 100 mil milhões de euros) não significa que o fim do ecossistema de startups e da indústria de venture capital. Significa apenas que “o venture capital vai sofrer”, refere Filipe Garcia, economista da IMF, sublinhando a normalidade desse cenário em função de todos os factos dos últimos dias. No entanto, refere também que “não vai morrer” e que “os investidores é que poderão ser mais seletivos e muitos projetos podem simplesmente desaparecer.“

O relatório da Bain & Company, por exemplo, revela que apesar da dimensão média dos negócios e o investimento realizado pelos fundos de venture capital terem diminuído na maioria das fases de financiamento em 2022, o financiamento em fase de seed aumentou 4% no último ano. “A inovação está a chegar e os investidores de venture capital estão a apostar nela, deslocando o seu foco para as fases de seed, enquanto esperam que a turbulência do mercado diminua.”

Cristina Fonseca, cofundadora da Talkdesk e general partner da Indico, uma sociedade que gere quatro fundos de capital de risco, vai mais longe. Destaca que a falência do SVB “não tem nada a ver com a nossa indústria, exceto que muitos clientes eram startups e fundos de Silicon Valley porque são da mesma região.”

sábado, 11 de março de 2023

SVB: do vale para o abismo


Na sexta-feira, o banco californiano Silicon Valley Bank (SVB) tornou-se o maior banco a falir desde a crise financeira de 2008. Num súbito colapso que chocou os mercados financeiros, deixou encalhados milhares de milhões de dólares pertencentes a empresas e investidores.

O SVB recebeu depósitos e fez empréstimos a empresas no coração do sector tecnológico da América. A US Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) está agora a atuar como consignatário. O FDIC é uma agência governamental independente que assegura os depósitos bancários e supervisiona as instituições financeiras, o que significa que liquidará os ativos do banco para reembolsar os seus clientes, incluindo depositantes e credores.

O que aconteceu ao SVB? E será isto um acontecimento isolado ou um sinal de que há mais desabamentos financeiros para vir? O desenvolvimento imediato foi o anúncio pelo SVB de que havia vendido com prejuízo um monte de títulos em que investira e que teria de vender US$2,25 mil milhões em novas ações para tentar reforçar o seu balanço. Isto disparou o pânico entre as principais empresas tecnológicas da Califórnia que mantinham o seu cash no SVB. Houve uma corrida clássica ao banco. Com uma velocidade relâmpago, o banco teve de impedir os depositantes de retirarem dinheiro. O preço das ações da empresa entrou em colapso, arrastando outros bancos para baixo com ele. A negociação de ações do SVB foi interrompida e a seguir o SVB abandonou esforços para angariar capital ou encontrar um comprador, o que levou o FDIC a assumir o controlo.

Apesar de pouco conhecido fora do Vale do Silício, o SVB estava entre os 20 maiores bancos comerciais americanos (o 16º maior), com 209 mil milhões de dólares em ativos totais no final do ano passado, de acordo com o FDIC. É o maior credor a falhar desde que o Washington Mutual entrou em colapso em 2008 durante o crash financeiro global. Assim, ao contrário de alguns relatos, o SVB não é um peixinho. Ele oferecia serviços a quase metade de todas as empresas de tecnologia e cuidados de saúde apoiadas por capital de risco nos EUA. O SVB detinha dinheiro para estes "capitalistas de risco" (aqueles que investem em novas empresas "em fase de arranque").

Mas também fez investimentos com os depósitos em dinheiro que obteve, concedendo por vezes empréstimos de risco pessoais a criadores de tecnologia, bem como às suas empresas. Mas os seus investimentos começaram a dar origem a perdas. A SVB apostara na compra de títulos do governo americano aparentemente seguros. Contudo, quando a Reserva Federal iniciou o seu ciclo de subida das taxas de juro para "controlar a inflação", o valor destes títulos do governo caiu drasticamente e o balanço do SVB começou a tomar água. Quando informou o mundo financeiro que estava a vender estes títulos com prejuízo para fazer face a retiradas de dinheiro por parte de clientes, a corrida ao banco ganhou proporções de inundação. Ao não conseguir obter financiamento adicional através da venda de ações, o SVB teve de declarar bancarrota e entrar em processo de concordata (receivership) junto ao FDIC.

Há quem tente afastar a ideia de que o colapso do SVB é um sinal do que está para vir. "O SVB era pequeno, com uma base de depósitos muito concentrada", disse o responsável da investigação europeia sobre ações da Amundi, Ciaran Callaghan. Não estava "preparado para saídas de depósitos, não tinha a liquidez disponível para cobrir resgates de depósitos e, consequentemente, foi um vendedor forçado de obrigações que impulsionava um aumento de capital e criou o contágio. Este é um caso muito isolado e idiossincrático".

Portanto, é um caso isolado. Mas será? O colapso da SVB deve-se a um acontecimento mais amplo, nomeadamente a subida agressiva das taxas de juro da Reserva Federal ao longo do ano passado. Quando as taxas de juro estavam perto de zero, bancos como o SVB carregaram-se com títulos do Tesouro a longo prazo, aparentemente de baixo risco. Mas como a Reserva Federal elevava as taxas de juro para "combater a inflação", o valor desses ativos caiu, deixando muitos bancos sentados sobre perdas não realizadas.

As taxas mais elevadas também atingiram o sector tecnológico de forma especialmente dura, subcotando o valor das ações tecnológicas e tornando difícil a angariação de fundos. Assim, empresas de tecnologia começaram a levantar os seus depósitos em dinheiro no SVB para satisfazerem as suas contas. Ed Moya, analista de mercado sénior da Oanda, comentou: "Toda a gente na Wall Street sabia que a campanha do Fed para a cobrança de taxas acabaria por quebrar algo e neste momento isso está a derrubar os bancos pequenos". O outro racha na parede bancária está nas criptodivisas. O cripto banco prestamista Silvergate também foi forçado a liquidar após o colapso do bitcoin e de preços de outras criptodivisas.

"Os desafios institucionais do SVB refletem uma questão sistémica maior e mais generalizada: a indústria bancária está sentada sobre uma tonelada de ativos de baixo rendimento que, graças a aumentos de taxas do ano passado, estão agora muito debaixo de água – e a afundarem", disse Konrad Alt, co-fundador do Grupo Klaros. Alt estimou que os aumentos das taxas "eliminaram efetivamente cerca de 28% de todo o capital da indústria bancária a partir do final de 2022".

O fracasso do SVB pode ser pontual, mas os crashes financeiros começam sempre com os mais fracos ou os mais imprudentes. Este é um banco que estava a ser esmagado pelas tesouras de uma queda iminente: queda dos lucros no sector tecnológico e queda dos preços dos ativos causada pela subida das taxas de juro. O SVB havia crescido para cerca de US$209 mil milhões em ativos com uma base de clientes concentrada entre empresas tecnológicas em fase de arranque, pelo que se revelou particularmente vulnerável ao impacto do rápido aumento das taxas de juro. Mas as perdas do SVB na venda de obrigações estão a repetir-se entre muitos outros bancos. O FDIC informou recentemente que os bancos norte-americanos estão sentados sobre US$620 mil milhões de perdas combinadas não realizadas nas suas carteiras de títulos.

Entretanto, após os últimos números relativos ao emprego terem continuado a mostrar um mercado de trabalho "apertado", a Reserva Federal parece estar determinada a continuar a aumentar as taxas de juro ainda mais depressa e mais alto do que os investidores financeiros esperavam. Dando testemunho ao Congresso dos EUA na semana passada, o presidente da Reserva Federal, Jay Powell, deixou claro que: "O emprego, os gastos dos consumidores, a produção manufatureira e a inflação inverteram parcialmente as tendências de abrandamento que tínhamos visto nos dados há apenas um mês atrás". E como Larry Summers, o guru keynesiano e ex-Secretário do Tesouro, afirmou: "Temos de estar preparados para continuar a fazer o que é necessário para conter a inflação". Possivelmente ao ponto de deitar abaixo partes do sector bancário e corporativo.

11/Março/2023

Ver também:

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Understanding "longtermism": Why this suddenly influential philosophy is so toxic


(L-R) Nick Bostrom Philosopher at the Future of Humanity Institute in Oxford, Tesla CEO Elon Musk and Sir Francis Galton the father of Eugenics (Photo illustration by Salon/Getty Images)


Perhaps you've seen the word "longtermism" in your social media feed. Or you've stumbled upon the New Yorker profile of William MacAskill, the public face of longtermism. Or read MacAskill's recent opinion essay in the New York Times. Or seen the cover story in TIME magazine: "How to Do More Good." Or noticed that Elon Musk retweeted a link to MacAskill's new book, "What We Owe the Future," with the comment, "Worth reading. This is a close match for my philosophy."

As I have previously written, longtermism is arguably the most influential ideology that few members of the general public have ever heard about. Longtermists have directly influenced reports from the secretary-general of the United Nations; a longtermist is currently running the RAND Corporation; they have the ears of billionaires like Musk; and the so-called Effective Altruism community, which gave rise to the longtermist ideology, has a mind-boggling $46.1 billion in committed funding. Longtermism is everywhere behind the scenes — it has a huge following in the tech sector — and champions of this view are increasingly pulling the strings of both major world governments and the business elite.

But what is longtermism? I have tried to answer that in other articles, and will continue to do so in future ones. A brief description here will have to suffice: Longtermism is a quasi-religious worldview, influenced by transhumanism and utilitarian ethics, which asserts that there could be so many digital people living in vast computer simulations millions or billions of years in the future that one of our most important moral obligations today is to take actions that ensure as many of these digital people come into existence as possible.

In practical terms, that means we must do whatever it takes to survive long enough to colonize space, convert planets into giant computer simulations and create unfathomable numbers of simulated beings. How many simulated beings could there be? According to Nick Bostrom —the Father of longtermism and director of the Future of Humanity Institute — there could be at least 1058 digital people in the future, or a 1 followed by 58 zeros. Others have put forward similar estimates, although as Bostrom wrote in 2003, "what matters … is not the exact numbers but the fact that they are huge."

In this article, however, I don't want to focus on how bizarre and dangerous this ideology is and could be. Instead, I think it would be useful to take a look at the community out of which longtermism emerged, focusing on the ideas of several individuals who helped shape the worldview that MacAskill and others are now vigorously promoting. The most obvious place to start is with Bostrom, whose publications in the early 2000s — such as his paper "Astronomical Waste," which was recently retweeted by Musk — planted the seeds that have grown into the kudzu vine crawling over the tech sector, world governments and major media outlets like the New York Times and TIME.

Nick Bostrom is, first of all, one of the most prominent transhumanists of the 21st century so far. Transhumanism is an ideology that sees humanity as a work in progress, as something that we can and should actively reengineer, using advanced technologies like brain implants, which could connect our brains to the Internet, and genetic engineering, which could enable us to create super-smart designer babies. We might also gain immortality through life-extension technologies, and indeed many transhumanists have signed up with Alcor to have their bodies (or just their heads and necks, which is cheaper) frozen after they die so that they can be revived later on, in a hypothetical future where that's possible. Bostrom himself wears a metal buckle around his ankle with instructions for Alcor to "take custody of his body and maintain it in a giant steel bottle flooded with liquid nitrogen" after he dies.

In a paper co-authored with his colleague at the Future of Humanity Institute, Carl Shulman, Bostrom explored the possibility of engineering human beings with super-high IQs by genetically screening embryos for "desirable" traits, destroying those that lack these traits, and then growing new embryos from stem cells, over and over again. They found that by selecting one embryo out of 10, creating 10 more out of the one selected, and repeating that process 10 times over, scientists could create a radically enhanced person with IQ gains of up to 130 points.

Nick Bostrom has explored the possibility of engineering "radically enhanced" human beings by genetically screening embryos for "desirable" traits, destroying those that lack these traits, and then growing new embryos from stem cells.

This engineered person might be so different from us — so much more intelligent — that we would classify them as a new, superior species: a posthuman. According to Bostrom's 2020 "Letter From Utopia," posthumanity could usher in a techno-utopian paradise marked by wonders and happiness beyond our wildest imaginations. Referring to the amount of pleasure that could exist in utopia, the fictional posthuman writing the letter declares: "We have immense silos of it here in Utopia. It pervades all we do, everything we experience. We sprinkle it in our tea."

Central to the longtermist worldview is the idea of existential risk, introduced by Bostrom in 2002. He originally defined it as any event that would prevent us from creating a posthuman civilization, although a year later he implied that it also includes any event that would prevent us from colonizing space and simulating enormous numbers of people in giant computer simulations (this is the article that Musk retweeted).

More recently, Bostrom redefined the term as anything that would stop humanity from attaining what he calls "technological maturity," or a condition in which we have fully subjugated the natural world and maximized economic productivity to the limit — the ultimate Baconian and capitalist fever-dreams.

For longtermists, there is nothing worse than succumbing to an existential risk: That would be the ultimate tragedy, since it would keep us from plundering our "cosmic endowment" — resources like stars, planets, asteroids and energy — which many longtermists see as integral to fulfilling our "longterm potential" in the universe.

What sorts of catastrophes would instantiate an existential risk? The obvious ones are nuclear war, global pandemics and runaway climate change. But Bostrom also takes seriously the idea that we already live in a giant computer simulation that could get shut down at any moment (yet another idea that Musk seems to have gotten from Bostrom). Bostrom further lists "dysgenic pressures" as an existential risk, whereby less "intellectually talented" people (those with "lower IQs") outbreed people with superior intellects.

This is, of course, straight out of the handbook of eugenics, which should be unsurprising: the term "transhumanism" was popularized in the 20th century by Julian Huxley, who from 1959 to 1962 was the president of the British Eugenics Society. In other words, transhumanism is the child of eugenics, an updated version of the belief that we should use science and technology to improve the "human stock."

It should be clear from this why the "Future of Humanity Institute" sends a shiver up my spine. This institute isn't just focused on what the future might be like. It's advocating for a very particular worldview — the longtermist worldview — that it hopes to actualize by influencing world governments and tech billionaires. And to this point, its efforts are paying off.

Robin Hanson is, alongside William MacAskill, a "research associate" at the Future of Humanity Institute. He is also a "men's rights" advocate who has been involved in transhumanism since the 1990s. In his contribution to the 2008 book "Global Catastrophic Risks," which was co-edited by Bostrom, he argued that in order to rebuild industrial civilization if it were to collapse, we might need to "retrace the growth path of our human ancestors," passing from a hunter-gatherer to an agricultural phase, leading up to our current industrial state. How could we do this? One way, he suggested, would be to create refuges — e.g., underground bunkers — that are continually stocked with humans. But not just any humans will do: if we end up in a pre-industrial phase again, it might make sense to stock a refuge [or bunker] with real hunter-gatherers and subsistence farmers, together with the tools they find useful. Of course such people would need to be disciplined enough to wait peacefully in the refuge until the time to emerge was right. Perhaps such people could be rotated periodically from a well-protected region where they practiced simple lifestyles, so they could keep their skills fresh.

In other words, Hanson's plan is to take some contemporary hunter-gatherers — whose populations have been decimated by industrial civilization — and stuff them into bunkers with instructions to rebuild industrial civilization in the event that ours collapses. This is, as Audra Mitchell and Aadita Chaudhury write, "a stunning display of white possessive logic."

Robin Hanson's big plan is to take people from contemporary hunter-gatherer cultures and stuff them into underground bunkers with instructions to rebuild industrial civilization if ours collapses.

More recently, Hanson became embroiled in controversy after he seemed to advocate for "sex redistribution" along the lines of "income redistribution," following a domestic terrorist attack carried out by a self-identified "incel." This resulted in Slate wondering whether Hanson is the "creepiest economist in America." Not to disappoint, Hanson doubled down, writing a response to Slate's article titled "Why Economics Is, and Should Be, Creepy." But this isn't the most appalling thing Hanson has written or said. Consider another blog post published years earlier entitled "Gentle Silent Rape," which is just as horrifying as it sounds. Or perhaps the award should go to his shocking assertion that 
"the main problem" with the Holocaust was that there weren't enough Nazis! After all, if there had been six trillion Nazis willing to pay $1 each to make the Holocaust happen, and a mere six million Jews willing to pay $100,000 each to prevent it, the Holocaust would have generated $5.4 trillion worth of consumers surplus [quoted by Bryan Caplan in a debate with Hanson]

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Filipa Fernandes quer mudar para sempre a nossa relação com os mosquitos (que vão pensar que nós somos plantas)


Trata-se de uma invenção com possibilidade de ter financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates

Uma ex-aluna da Universidade do Minho (UMinho) criou uma pulseira odorífera “que leva os mosquitos a julgar que os humanos são plantas”, prevenindo assim picadas associadas a doenças como malária, dengue ou zika, foi hoje anunciado.

Em comunicado, a UMinho refere que aquela tecnologia, chamada X-OCR e desenvolvida ao longo de cinco anos, está a ser alvo de patente e foi agora testada com 98% de sucesso em 300 pessoas no Brasil, prevendo-se para breve novo teste no Burkina Faso, com aval da Organização Mundial da Saúde.

A pulseira é produzida em Vila Verde, distrito de Braga, e começou a ser vendida este mês em seis cores, em style-out.com e em farmácias do sul do país, mas o foco principal está nas regiões tropicais e subtropicais.

“Podemos ajudar a diminuir a mortalidade destas doenças e, quiçá, a erradicar a propagação, além de permitir poupanças aos sistemas nacionais de saúde”, diz a investigadora Filipa Fernandes, autora da pulseira, citada no comunicado da Universidade.

Citando estudos, notou que os mosquitos “custam” 410 milhões de euros por ano ao Governo do Brasil e a cada 30 segundos morre uma criança africana por malária. “Mortes são casos extremos, mas importa contar ainda todos os doentes e os milhões de pessoas picadas”, sublinha.

Segundo a investigadora, cada pulseira tem um raio de ação de 60 centímetros e dura 30 dias.

“Só sentimos um leve aroma ao colocar a pulseira, ao contrário dos mosquitos, que até se podem aproximar e pousar em nós, mas não vão picar, pois desta vez julgam estar sobre uma planta e vão procurar alimento [sangue] noutros animais”, frisa.

Filipa Fernandes sublinha que a pulseira não danifica o ecossistema e também não é um repelente. A pulseira é feita de silicone medicinal e, no interior, de cera com compostos e derivados de plantas que, perante o calor corporal, liberta de forma controlada um odor que “confunde” os insetos.

As plantas utilizadas são citronela, neem e lavanda, a combinação que, segundo Filipa Fernandes, “se revelou mais eficaz para confundir” as espécies de mosquitos Anopheles e Aedes, transmissoras de doenças como malária, zika, dengue, febre amarela e chikungunha.

Os ensaios em contexto real arrancaram no Ceará, nordeste do Brasil. “Foi um sucesso e com inúmeros relatos de felicidade. Um jovem deu a sua pulseira à avó fragilizada para a proteger. Não é medicamento, mas claramente previne o contacto com mosquitos e doenças associadas e é uma esperança para quem vive nesses ambientes”, refere Filipa Fernandes.

Prevê-se novo ensaio na Unidade de Investigação Clínica de Nanoro, no Burkina Faso, com supervisão da Organização Mundial da Saúde, estando-se a aguardar financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates.

Outro desafio é o dispositivo poder camuflar também os humanos perante as espécies Culex, transmissoras da febre do Nilo, entre outras doenças.

“Cada espécie de mosquito tem repulsa por plantas específicas, como quando gostamos ou não de um perfume, e estamos a apurar a equação certa neste caso”, diz ainda a investigadora.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Federico Faggin - Consciousness As The Ground Of Being

Physicist Federico Faggin talks about his new theory which puts our inner experience and the desire to know ourselves at the centre of reality.

                                   

Federico Faggin is a physicist and entrepreneur who made his name – and his fortune – as the inventor of the world’s first microprocessor, the Intel 4004 chip, which is the device at the heart of all our computer technology. In his later life, he has turned his attention to the study of consciousness, and in 2011, with his wife, he founded the Federico and Elvia Faggin Foundation  which is dedicated to supporting research into its nature and origin. With Giacomo Mauro D’Ariano, he has now developed a new physical model of reality in which consciousness, not matter, is seen as the foundational principle. We have already reviewed his autobiography, Silicon, in the magazine (click here); in this interview, conducted by Richard Gault and Jane Clark via Zoom at his home in Silicon Valley, we had the chance to ask him further about his theory and its implications for our understanding of human life.

Entrevista aqui

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O naufrágio da economia verde


A pegada ecológica da extração e tratamento de metais raros é superior à dos combustíveis fósseis. O processo tem um grande consumo de água e de reagentes químicos altamente poluentes, destrói ecossistemas e polui o ar. Temos de encontrar tecnologias mais produtivas e soluções eficazes de reciclagem e reutilização destes metais

Os combustíveis fósseis fizeram a economia do século XX, tanto quanto os metais raros farão a economia do século XXI, por serem a matéria-prima chave das duas transformações deste século: a digital e a da sustentabilidade. Todos os nossos gadgets eletrónicos e de comunicação de uso quotidiano, assim como a geração de energia eólica ou solar, bem como a mobilidade elétrica, estão profundamente dependentes desse grupo de 17 elementos raros. Sem eles, o mundo parava e seria impossível alcançarmos o Acordo de Paris sobre o clima, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e o Pacto Ecológico Europeu.

Não é por acaso que se diz que os metais raros são o novo petróleo. A título de exemplo, só no primeiro trimestre deste ano, o irídio valorizou 131 por cento, superando de longe a valorização de 85 por cento da bitcoin, tendo atingido o valor de seis mil dólares a onça, mais do triplo da cotação do ouro. Já a procura de lítio espera-se que aumente 15 vezes nos próximos anos, sendo que o valor global dessa indústria já ascende a 45 mil milhões de dólares.

Obviamente, no domínio dos metais raros, a riqueza não está no Médio Oriente, mas sim na China, que detém as maiores reservas e atualmente assegura 75 por cento da produção global. Os Estados Unidos, por seu turno, dependem da China para 80 por cento das suas importações de metais raros – sendo que a China é bastante mais ambiciosa económica e geopoliticamente do que os países do Médio Oriente, procurando não vender apenas a matéria-prima, mas sim a tecnologia que a incorpora.

A descarbonização do planeta parece ser (e bem) consensual entre cientistas, políticos, jovens, idosos, ecologistas e, até, empreendedores de Silicon Valley. Porém, entre tanto consenso e entusiasmo, parecem ignorar-se os seus impactes, nomeadamente, que a pegada ecológica decorrente da extração e tratamento de metais raros é superior à dos combustíveis fósseis. Mais concretamente, o processo envolve um consumo de água brutal, reagentes químicos altamente poluentes, destrói paisagens e ecossistemas, e polui o ar. Para se ter uma noção da escala de destruição, são necessárias 16 toneladas de rocha para se obter um quilo de Cério, 50 toneladas para um quilo de Gálio, e 1200 toneladas para um quilo do metal mais raro: o Lutécio.

Mas o desafio não se coloca apenas ao nível dos metais raros. O exemplo do cobre é eloquente. Desde os primórdios da Humanidade, estima-se que tenham sido extraídas e transformadas cerca de mil milhões de toneladas de cobre. Ora, a manter-se a taxa atual de crescimento da procura, será necessária a mesma quantidade nos próximos 30 anos. E, quanto à sua pegada ecológica, a maior mina de cobre do mundo (no Chile) consome dois mil litros de água por segundo – ficando situada num deserto onde não chove há 500 anos.

A rápida transição para economias verdes e digitais, a par do aumento mundial da população e das classes médias, irá provocar um aumento exponencial do consumo de metais raros. Assim, é imperativo que, ao longo desta década, se encontrem materiais de substituição (renováveis), tecnologias mais produtivas e soluções eficazes de reciclagem e reutilização destes metais. Mas não basta. Será necessário, também, redistribuir melhor a riqueza e diminuir a pressão do consumo, por exemplo, incentivando soluções de economia da partilha no acesso aos bens.

Como escreveu Paul Valéry, para aprender a ser marinheiro é preciso já ter sido náufrago. Para que esta década seja mesmo a da transição para a sustentabilidade, há que começar por reconhecer a nossa condição de náufragos. Só assim teremos o olhar holístico, realista e determinado que o futuro nos exige.

João Wengorovius Meneses

Secretário-geral do BCSD Portugal

quinta-feira, 22 de julho de 2021

A corrida espacial dos bilionários é o símbolo máximo da decadência capitalista

Bilionários como Richard Branson, Jeff Bezos e Elon Musk são parasitas e socialmente inúteis. Mas eles precisam justificar os lucrativos contratos governamentais – uma das grandes ironias da indústria espacial privada é que ela depende de muito dinheiro público – e por isso estão fingindo ser astronautas.

                      

“Se pudermos fazer isso, imagine o que mais podemos fazer.” Essa foi a mensagem alegre de esperança e otimismo transmitida pelo mega-bilionário Richard Branson durante sua recente passagem no espaço, que não foi tão boa assim, a bordo do VSS Unity. Por razões diferentes daquelas que ele pretendia, tanto o slogan da façanha de Branson quanto as circunstâncias mais amplas que o cercam são, na verdade, um encapsulamento perfeito do real significado da missão e seu verdadeiro propósito.

Como as pessoas foram rápidas em apontar, há muito pouca novidade tecnológica, científica ou mesmo individual em jogo na atual disputa tripla entre Branson da Virgin Galactic, Elon Musk da Tesla e Jeff Bezos da Amazon (que realizou hoje o seu próprio voo).

Há cerca de vinte anos, o multimilionário Dennis Tito desembolsou US$ 20 milhões para viajar até a Estação Espacial Internacional, tornando-se o primeiro turista espacial oficial. Com apenas alguns minutos de duração, o vôo suborbital de Branson foi muito mais curto do que as quase duas horas que o cosmonauta soviético Yuri Gagarin gastou circulando a Terra em 1961. Na maioria dos sentidos que importam, então, a chamada corrida espacial dos bilionários é inócua em inovação ou no estabelecimento de algum precedente histórico.

O que é novo é a transformação do espaço em uma nova fronteira para a alta burguesia mundial: uma classe de pessoas cujas fortunas cresceram incompreensivelmente tanto que agora devem ser gastas em iates que contêm outros iates e expedições vaidosas à termosfera porque os símbolos tradicionais da opulência bilionária não são mais suficientes. Em contraste com o giro efusivamente futurista de sua assessoria de imprensa, a nova fronteira em questão é, portanto, tão mundana e terrestre quanto poderia ser – preocupada não com a democratização do espaço nem com a transcendência de nossa existência mundana, mas sim com uma versão de fantasia em escala da competição intra-capitalista genérica.

Seja qual for a sua marca, como escreve Edward Ongweso Jr do Motherboard, empreendimentos como o de Branson são principalmente um show apresentado para deslumbrar os investidores. Até certo ponto, eles também tratam de disputar contratos governamentais lucrativos – uma das grandes ironias da indústria espacial privada é que ela depende, literalmente, de bilhões de dólares em dinheiro público. O maior impulso para a corrida espacial dos bilionários, no entanto, é indiscutivelmente um aspecto familiar para os estudiosos da desigualdade histórica. Como Musk, Branson e Bezos, os monopolistas da Idade Dourada da América fizeram suas fortunas principalmente como rentistas em vez de inovadores, tornando-se barões neofeudais da expansão da infraestrutura industrial do país e colhendo as recompensas financeiras. Por sua própria natureza, esse tipo empresa deve sempre ser vendida como uma empresa preocupada com o bem comum – o mercado crescente de telecomunicações globais e aparelhos militares aterrorizantes que hoje ocupam o lugar outrora ocupado por navios a vapor, ferrovias e redes telegráficas.

De forma mais direta, a riqueza extrema na era capitalista está, por definição, envolvida em uma luta constante e desesperada por novas fontes de legitimidade ética. Os bilionários precisam de uma razão pública para existir e, pelo menos por enquanto, possuir os contratos certos e expropriar a mais-valia ainda não é suficiente. Se, por outro lado, atividades plutocráticas – e os estilos de vida impossivelmente decadentes que as cercam – podem ser empacotadas como extensões de um projeto mais humano, melhor ainda: ilhas privadas, propriedades de luxo e fábricas exploradoras do Vale do Silício agora imitam, com toda a pompa e um sombrio propósito, Neil Armstrong dando seu primeiro passo na superfície da lua.

Enquanto as temperaturas escalam e bilhões permanecem sem vacinação por mais de um ano em uma pandemia global, a declaração de Branson foi, portanto, o símbolo máximo da decadência capitalista na era neoliberal – um pseudo publicitário futurista com todos os adereços de uma orgia primaveril no Palácio de Versalhes em 1789. Qualquer que seja sua mensagem, esforços como os de Branson dificilmente sinalizará qualquer tipo de futuro real para a humanidade no espaço (e supondo que de alguma forma o fizessem, provavelmente se pareceria muito mais com Elysium do que com Jornada nas Estrelas).

O que eles sinalizam é um futuro de desigualdade cada vez mais profunda: um no qual os barões do capital do século XXI tentam nos bajular na ilusão de que seus interesses comerciais e empreendimentos pessoais são uma extensão de um propósito social comum, e não uma disputa mesquinha por riqueza e poder. A este respeito, as palavras de Branson – proferidas com uma efervescência espumante (“Se podemos fazer isso, imagine o que mais podemos fazer”) – também podem ser lidas como uma declaração direta sobre os privilégios agora exercidos por ele e a classe dos bilionários.

No entanto, se o mundo continuar assim, em breve, o resto de nós pode não ter mais que imaginar.

Fonte: Jacobin

domingo, 15 de novembro de 2020

Como sobrevivem os monopólios dos GAFAM

Fonte: aqui

Em 450 páginas e após 16 meses de investigação, o sub-comité para a concorrência do House Judiciary Committee arrasa o domínio monopolista da Apple, Amazon, Google e Facebook (GAFA) e as suas práticas comerciais.

O relatório “Investigation of Competition in the Digital Marketplace: Majority Staff Report and Recommendations” refere como os CEOs das empresas (Jeff Bezos, Tim Cook, Mark Zuckerberg e Sundar Pichai) deram respostas “frequentemente evasivas e indiferentes, levantando novas questões sobre se eles acreditam que estão para lá do alcance da supervisão democrática”.

Apesar das quatro empresas terem algumas diferenças, “analisar as suas práticas de negócios revelou problemas comuns”, refere o sub-comité.

Elas proporcionaram “benefícios claros à sociedade” mas isso “teve um preço. Elas normalmente gerem o mercado ao mesmo tempo que nele competem – uma posição que lhes permite escrever um conjunto de regras para os outros”, sem as aplicarem a si mesmas, ao mesmo tempo que definem “a sua própria quase-regulamentação privada que não é responsável para ninguém, excepto para si mesmas”.

Como existem actualmente, cada uma das empresas “possui um poder de mercado significativo sobre grandes áreas da economia. Nos últimos anos, cada empresa expandiu e explorou o seu poder de mercado de formas anticompetitivas”.

Para os responsáveis do relatório, “a nossa investigação não deixa dúvidas de que há uma necessidade clara e imperiosa para o Congresso e as agências de fiscalização da concorrência tomarem medidas que restabeleçam a concorrência, melhorem a inovação e salvaguardem a nossa democracia”.

O documento apresenta soluções possíveis para “restaurar a concorrência na economia digital, fortalecer as leis da concorrência e revigorar a fiscalização neste âmbito”.

Poder de mercado das GAFA em análise
Em termos de empresas, o relatório analisa com algum detalhes a sua influência no mercado, áreas de negócio e práticas comerciais.

Nesse sentido, a Google “domina de forma esmagadora o mercado das buscas online em geral”, sendo possível que “capture mais de 87% das buscas nos EUA e mais de 92% em todo o mundo”. E apesar das mudanças como a evolução do desktop para os dispositivos móveis, “a Google manteve esse domínio durante mais de uma década”.

Neste espaço de tempo, a empresa “beneficiou das economias de escala e das vantagens de auto-reforço dos dados, bem como das tácticas de negócios agressivas que utilizou em momentos importantes para impedir a concorrência”. Em resultado disso, a Google “desfruta agora de um poder de monopólio durável no mercado das buscas online” e, devido a vários factores, o seu poder é “imune à competição ou ameaça de entrada” de competidores.

Usando a integração e acordos contratuais, a Google usou “o seu domínio nas buscas para promover o uso do seu browser Chrome em computadores pessoais, portáteis e estações de trabalho”, enquanto nos dispositivos móveis, “impôs um conjunto de termos contratuais restritivos exigindo efectivamente que os fabricantes de dispositivos que usavam o seu sistema operativo Android pré-instalassem o Chrome e a Google Search.

Além disso, a Google paga à Apple uma quantia não revelada, estimada em 12 mil milhões de dólares por ano, para garantir as suas pesquisas nos dispositivos iOS”.

Entretanto, a Apple tem um “poder de mercado significativo e durável no mercado de sistemas operativos móveis e nas lojas de aplicações móveis, ambos altamente concentrados”. O seu sistema operativo iOS é um dos dois dominantes, juntamente com o Android da Google, nos EUA e globalmente.

A empresa “instala o iOS em todos os dispositivos móveis da Apple e não o licencia a outros fabricantes de dispositivos móveis”, mantendo um poder de mercado “durável devido aos altos custos de troca, dependência do ecossistema e fidelidade à marca. É improvável que haja uma entrada bem-sucedida no mercado para contestar o domínio do iOS e do Android”.

Quanto à sua App Store, ela “é o único método para distribuir apps de software em dispositivos iOS”, conseguindo uma posição “inatacável” e, segundo o seu CEO, Tim Cook, “a empresa não tem planos para permitir uma loja de aplicações alternativa”.

Este “poder de monopólio na distribuição do software em dispositivos iOS parece permitir que ela gere lucros supranormais da App Store e dos seus negócios em Serviços”. Cook “estabeleceu uma meta em 2017 para duplicar rapidamente o tamanho do negócio dos Serviços até ao final de 2020” mas essa meta foi conseguida em Julho, “seis meses antes do previsto”.

Relativamente ao ano fiscal de 2019, os Serviços conseguiram quase 18% da receita total e “cresceram mais rápido do que os produtos nos últimos anos, aumentando mais de 41% desde 2017”.

A Apple considera o crescimento desta área de negócios como “um factor importante de suporte às margens gerais da Apple, uma vez que as vendas de hardware desaceleraram ou diminuíram”.

O monopólio do Facebook ocorre nas redes sociais, afirma o relatório, onde consegue um “elevado alcance, tempo gasto e significativamente mais utilizadores do que os seus rivais neste mercado”. E apesar das mudanças tecnológicas, “o Facebook manteve uma posição inatacável no mercado de redes sociais durante quase uma década, demonstrando o seu poder de monopólio”, sendo “improvável” que sofra com “a pressão competitiva de novos participantes ou de empresas existentes”.

O mercado das redes sociais tem elevadas barreiras à entrada de concorrentes, “incluindo fortes efeitos de rede, altos custos de troca e vantagem significativa de dados do Facebook”.

A empresa contrariou ainda a concorrência por “uma série de aquisições de empresas que considerava ameaças competitivas e excluiu selectivamente os concorrentes de usarem a sua plataforma para se isolar da pressão competitiva. Juntos, esses factores levaram o mercado de redes sociais a um monopólio”.
Amazon

Por fim, a Amazon.com detém um “poder de mercado significativo e durável no mercado do retalho online dos EUA. A sua quota real (…) nos EUA é desconhecida fora da Amazon porque ela não informa o volume bruto das vendas de terceiros feitas no seu mercado”. A empresa de pesquisa de mercado eMarketer calcula que a quota de mercado da Amazon seja de 38,7% “mas a sua definição de comércio electrónico é excessivamente ampla”.

A estimativa do sub-comité é que possa chegar aos cerca de 50% ou mais nos EUA, uma percentagem “mais fiável ​​do que estimativas mais baixas de 30-40%”.

O poder de mercado vai dos produtos de retalho – incluindo os seus próprios que concorrem com outros que também comercializa – a toda a indústria do livro, incluindo vendas, distribuição e publicação. Só nos EUA, ela “responde por mais da metade das vendas de livros impressos e mais de 80% das vendas de livros electrónicos”.

A Amazon está ainda a ganhar poder de mercado nalguns mercados online “business-to-business” (B2B) através do Amazon Business.

[act.: respostas ao documento pela Apple, Amazon, Google e Facebook

Billion-Dollar Fines Don’t Hurt Tech Giants, Ex-EU Enforcer Says: Silicon Valley is more worried about being forced to change how it does business than mega antitrust fines, according to the European Union official who pushed through landmark decisions against Microsoft, Intel and Google.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Acha que já sabe tudo sobre inteligência artificial? Pense melhor...

A Inteligência Artificial já faz parte do dia a dia de muitas pessoas e empresas. Mas os perigos podem ultrapassar os benefícios, revelando um lado perverso e alarmante.

Fonte: Observador

Imagine que está a chegar a casa, depois de mais um dia no escritório que terminou com uma ida ao dentista. Estaciona longe de casa, chove a cântaros, mas recebe a notificação urgente para uma reunião de última hora, via Zoom, com o diretor-geral que está em Boston. Tem de correr.

Chega à porta da moradia e diz a senha à assistente virtual que controla o sistema de domótica. A porta não se abre. Repete a senha. E a assistente continua a dizer: “Repita, por favor.” Mas, o que se passa aqui? O efeito da anestesia que levou no dentista não o deixa articular a senha corretamente e você continua à chuva.

Este episódio, baseado em fatos reais, ilustra bem um dos perigos da nossa interação com máquinas autónomas. A tecnologia de reconhecimento vocal é, de facto, uma das mais importantes na área da inteligência artificial, e vai conhecer enormes desenvolvimentos nos próximos anos, permitindo-nos controlar muitas funcionalidades do nosso dia a dia.

Desde as , como a Alexa ou a Echo, aos sistemas de domótica inteligente, da agricultura até a exploração espacial, os sistemas de Inteligência Artificial aumentam as capacidades humanas através do poder da computação para níveis nunca vistos. Além disso, esta tecnologia tem sido fundamental nos avanços da ciência em geral, na medicina e biologia em particular, ajudando a desenhar soluções para alguns dos maiores desafios globais.

É importante sublinhar que o conceito de Inteligência Artificial surgiu muito, muito antes do primeiro computador. Crê-se que Aristóteles terá sido o primeiro filósofo a questionar sobre a possibilidade de atribuir inteligência a objetos. Estaria a pensar numa vassoura?

Numa das obras mais antigas da literatura, a Epopéia de Gilgamesh, um dos personagens é um humano artificial, criado pelos deuses para rivalizar com o protagonista. Esta ideia também ocorre na cultura judaica, através do Golem, um ser com forma humana, mas sem alma.

A inteligência artificial corresponde a um ramo da ciência da computação que se dedica à investigação sobre formas de replicar a inteligência do ser humano em máquinas, tornando-as capazes de realizar tarefas que, normalmente, exigem competências humanas. As funções programáveis mais comuns ​​de sistemas de Inteligência Artificial incluem aprendizagem, raciocínio, planeamento, solução de problemas e tomada de decisão.

O tema foi muito explorado durante todo o século XX, a partir das pesquisas conduzidas por cientistas e matemáticos na década de 1950. O mais influente e notável foi Alan Turing, considerado um dos pais da ciência da computação e da inteligência artificial. Ele criou um teste para avaliar a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente ao de um ser humano, tornando impossível distinguir um do outro.

Para explicar o teste de Turing num tweet, diria que se uma pessoa conversar com uma máquina durante cinco minutos sem perceber que ela não é humana, o computador passa no teste. Basicamente, trata-se de saber se uma inteligência artificial pode ser tão inteligente ao ponto de enganar um ser humano.

É precisamente nesta perda de controlo que se baseia o novo thriller da FOX, tão assustador quanto realista, sobre o poder maléfico da Inteligência Artificial. Chama-se NEXT  e tem estreia marcada para dia 2 de novembro, em episódio duplo, às 22h15, na FOX. No centro da ação, Paul LeBlanc (John Slattery), um pioneiro de Silicon Valley, e Shea Salazar (Fernanda Andrade), uma agente especial do FBI na luta contra o cibercrime, vão envolver-se numa trama intensa e cheia de suspense, criada por Manny Coto, argumentista premiado da série “24”.

A partir das preocupações levantadas por Stephen Hawking e Elon Musk acerca dos riscos da Inteligência Artificial, a série conta a história da primeira crise mundial de Inteligência Artificial, provocada por uma Assistente Virtual, rebelde e desonesta, com capacidade para se aperfeiçoar continuamente. Além das cenas de cortar a respiração e da análise concreta sobre o modo como deixamos a tecnologia invadir as nossas vidas, introduz um novo tipo de vilão cibernético que tem nas próprias pessoas a sua maior arma.

O enredo de NEXT promete encontrar formas inteligentes de ilustrar toda a amplitude de capacidades da Inteligência Artificial, no seu lado mais negro, com pessoas a correr, assustadas, sempre a olhar pelo canto do olho à procura das câmaras de segurança com leds vermelhos a piscar. A não perder, em novembro, na FOX.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

El dinero te vigila

Cada vez que usamos Internet cedemos inconscientemente parte de nuestra soberanía personal a un poder opaco, sin límites ni fronteras. La socióloga Shoshana Zuboff ha puesto nombre a ese fenómeno en un libro llamado a marcar época: 'La era del capitalismo de la vigilancia'


Facebook llegará a conocer todos los libros, todas las películas, todas las canciones que usted, lector de estas líneas, haya consumido en su vida, larga o corta. La información de la que dispone la empresa informática servirá para deducir a qué bar irá usted cuando llegue a una ciudad extraña, un bar en el que el camarero ya tendrá preparada su bebida favorita. Ello lo pronostica el creador y director ejecutivo de Facebook, Mark Zuckerberg, una de las personas más ricas del mundo, que la fundó en 2004. El presidente ejecutivo de Google, Eric Schmidt, no se queda atrás: “Si nos dais más información de vosotros mismos, de vuestros amigos, podemos mejorar la calidad de nuestras búsquedas. No nos hace falta que tecleéis nada. Sabemos dónde estáis, sabemos dónde habéis estado. Podemos saber más o menos qué estáis pensando”.

Ha nacido el capitalismo de la vigilancia. El 1984 de Orwell se queda antiguo.

Es como si un tiburón hubiera estado nadando silenciosamente en círculos bajo el agua del mar, justo debajo de la superficie en la que se estaba desarrollando la aburrida vida cotidiana, y hubiese saltado de repente con su piel reluciente, por fin a la vista de todos, para hacerse con un buen bocado de carne fresca. Con el tiempo ese tiburón ha revelado ser una nueva variante del capitalismo, desconocida hasta hace muy poco, una variante que se multiplica con extraordinaria rapidez y que se ha fijado el dominio como meta, la hegemonía respecto a otros capitalismos (comercial, industrial, financiero…), a través del conocimiento y monetización de nuestra pequeña existencia. Una forma de capitalismo sin precedentes se ha abierto paso a codazos, casi sin previo aviso, para entrar en la historia.
El dinero te vigila


El capitalismo de la vigilancia es, según lo define Shoshana Zuboff, profesora emérita de la Harvard Business School y autora del monumental libro La era del capitalismo de la vigilancia, la reivindicación unilateral, por parte de un selecto grupo de empresas provenientes de Silicon Valley, de la experiencia humana privada como materia prima para su traducción en datos. Estos datos son computados y empaquetados (del mismo modo que las célebres hipotecas subprime, origen de la Gran Recesión del año 2008) como productos de predicción y vendidos en los mercados de futuros de los comportamientos de la gente. Los servicios online gratuitos, las app que no cuestan nada, solo son un cebo, no un regalo que hacen media docena de empresas magnánimas creadas por jóvenes emprendedores, casi todos estadounidenses, divertidos y simpáticos, en nada parecidos a los grandes magnates encorbatados del pasado que posaban fumando un habano.



MÁS INFORMACIÓN


Lee un fragmento de 'La era del capitalismo de la vigilancia'

Capitalismo de plataformas: tres libros y un documental

A través de estos servicios digitales básicos comienza la extracción de datos de la vida de cada uno de los ciudadanos que utilizan Internet, la acumulación de sus comportamientos (cómo se visten, qué películas ven, qué comida engullen, los libros que leen, el deporte que practican, si son activos o jubilados…), que serán horneados para poner en bandeja un festín de predicciones listas para ser transformadas en dólares. Muchos de esos ciudadanos, desconocedores de esta realidad escondida, felices con la innovación tecnológica que hace sus vidas más cómodas, han abierto sin darse cuenta las puertas de sus casas y sus refugios más íntimos a estos monopolios que succionan nuestra información y con ella moldean nuestro futuro. El filósofo alemán de origen coreano Byung-Chul Han lo resume en esta certera frase: “Pienso que estoy leyendo un ebook, pero en realidad es el ebook el que me lee a mí”.

¿Le dice usted a su cónyuge que hoy le apetece comer paquetitos de pato crujiente con salsa hoisin y poco después, casi instantáneamente, aparecen en su teléfono móvil diversos mensajes de restaurantes chinos que se los pueden proporcionar?, ¿organiza el viaje familiar anual a San Petersburgo y Moscú, y le llueven las ofertas sobre el viaje, alojamiento y compras que puede hacer?, ¿mira en el ordenador, en la tableta o en el móvil un anuncio de camisas vaqueras que le gustan y la publicidad de las páginas web que visita habitualmente se llena de pantalones, parkas, gorras, zapatillas del mismo estilo? Este es el resultado del capitalismo de la vigilancia. Evgeny Morozov, un ensayista bielorruso experto en tecnología, que ha escrito una larguísima (y a veces despiadada) crítica al libro de Zuboff que a su vez es casi otro libro (Los nuevos ropajes del capitalismo), dice en ella: se nos está engañando por partida doble; en primer lugar, cuando hacemos entrega de nuestros datos a cambio de unos servicios relativamente triviales y, en segundo lugar, cuando esos datos después son utilizados para personalizar y estructurar nuestro mundo de una manera que no es transparente ni deseable. Se pierde cualquier atisbo de soberanía personal.

La nueva tiranía no necesita golpes de Estado. Se basa en nuestra gran dependencia de la tecnología

La experiencia humana como materia prima gratuita para una serie de prácticas comerciales la mayoría de las veces ocultas de extracción, predicción y ventas. Este es el nuevo y creciente capitalismo de la vigilancia, que plantea enormes contradicciones a la “democracia de mercado” en la que estábamos instalados. ¿Qué supondrá este cambio fundamental para nosotros, para nuestros descendientes, para nuestras imperfectas democracias, para “la posibilidad misma de que exista un futuro humano en un mundo digital”? (Zuboff). Para desarrollar esas antinomias, la autora se apoya en el concepto de “tiranía” utilizado por Hannah Arendt; la tiranía como perversión del igualitarismo, porque trata a todos los demás como seres igualmente insignificantes: “El tirano manda según su voluntad e interés propio (…) como uno contra todos, y los todos a los que oprime son todos iguales, es decir, carecen de poder”. La tiranía del capitalismo de la vigilancia no requiere de golpes de Estado clásicos, ni del látigo del déspota, ni de los campos de exterminio nazis, ni de los desaparecidos, ni de los gulags del totalitarismo. Es una especie de golpe incruento, aparentemente indoloro y parasitario, pero que llega al fondo de lo que pretende, la dependencia masiva de las obsesiones que nos inyecta.

Este es un libro importante. La era del capitalismo de la vigilancia es un texto multifacético. Es de economía conductista, pero también de psicología, de tecnología o —esencialmente— de pensamiento político. Tiene que encontrar sus lectores en los intersticios de esas profesiones y no ser marginado por los científicos sociales acostumbrados a las disciplinas unipolares. Es una intensa llamada de atención a la posibilidad de un golpe de Estado desde arriba y permanente, no como un derrocamiento puntual del Estado, sino más bien como un sumidero de la soberanía personal (y por acumulación, del conjunto de la ciudadanía) y como una fuerza muy poderosa en la peligrosa deriva hacia la “desconsolidación” y la falta de calidad de la democracia, que actualmente amenaza a los sistemas políticos liberales. Sus actividades representan un desafío al elemental derecho al tiempo que tenemos por delante, que comprende la capacidad del ciudadano de imaginar, pretender, prometer y construir un futuro.

La era del capitalismo de la vigilancia. Shoshana Zuboff. Traducción de Albino Santos. Paidós, 2020. 910 páginas. 38 euros. Se publica el 29 de septiembre.