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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Como o Presidente Trump está a influenciar as ações climáticas globais?


Em 2024, pela primeira vez, a temperatura média global ultrapassou 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, tornando ainda mais urgente a necessidade de ações climáticas globais rápidas e coordenadas.

Em vez de apoiar uma eliminação rápida e justa dos combustíveis fósseis, o presidente dos EUA, Donald Trump, está a atacar de forma imprudente os esforços globais para combater as alterações climáticas de cinco formas:
  1. Retirando os EUA dos organismos climáticos globais;
  2. Promovendo uma campanha de desinformação contra a ciência climática;
  3. Recorrendo a medidas intimidadoras e coercivas para promover políticas pró-combustíveis fósseis;
  4. Enfraquecendo as proteções climáticas internas e cortando o financiamento da ciência climática;
  5. Restringindo o espaço cívico, o que prejudica o ativismo climático.
De que organismos climáticos globais os EUA se retiraram e qual o impacto?
A retirada dos EUA do histórico Acordo de Paris entrou em vigor a 27 de janeiro de 2026. Esta é a segunda vez que os EUA se retiram do acordo e vem na sequência da intenção declarada de se retirarem da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e do Fundo Verde para o Clima (GCF). Trump também pediu a saída dos EUA de mais de 60 outras organizações internacionais, incluindo várias relacionadas com as alterações climáticas, a biodiversidade e as energias renováveis, apelidando-as de “desperdiçadoras, ineficazes ou prejudiciais”.

Esses anúncios provavelmente acelerarão o corte de financiamento dos EUA a instituições e programas multilaterais e bilaterais importantes relacionados com o clima. O financiamento dos EUA a essas agências da ONU e ao seu trabalho deve terminar em breve. A ONU já enfrentava uma crise financeira, agravada no último ano pela recusa dos EUA em pagar a sua contribuição para o orçamento regular.

Trump também se recusou a gastar a verba aprovada pelo Congresso norte-americano para assistência externa – incluindo para agências da ONU -; desmantelou a Agência dos Estados Unidos da América para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e outras agências americanas que fornecem apoio direto a comunidades prejudicadas pelas alterações climáticas e atacou programas que abordam as alterações climáticas.

O que é o Acordo de Paris e por que é importante?
A 12 de dezembro de 2015, os países adotaram o quadro mais ambicioso do mundo para combater as alterações climáticas durante a Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas em Paris (COP21). No âmbito do Acordo de Paris, os governos concordaram, pela primeira vez, em tentar limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais para evitar os efeitos mais catastróficos das alterações climáticas. O acordo exige que todos os Estados estabeleçam metas atualizadas regularmente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, tanto a longo como a curto prazo, e partilhem os seus planos para as alcançar.

Qual será o impacto para perdas e danos?
Os EUA também se retiraram do conselho do Fundo das Nações Unidas para Responder a Perdas e Danos (FRLD). Criado após difíceis negociações na COP27 em 2022, o Fundo dedica-se a ajudar nações e comunidades de baixos rendimentos e vulneráveis às mudanças climáticas a recuperarem de desastres “não naturais” relacionados com as alterações climáticas. A 19 de novembro de 2025, um total de cerca de 684 milhões de euros tinha sido prometido ao FRLD, incluindo 14,5 milhões dos EUA. No entanto, não está claro se agora essa promessa modesta será sequer honrada.

A reunião do conselho do FRLD em julho de 2026 deverá concentrar-se na finalização da operacionalização do fundo. Cabe a todos os países que podem, especialmente aqueles mais responsáveis pelas alterações climáticas, dar um passo à frente e garantir que o fundo tenha recursos adequados. Quanto menos os países contribuírem, especialmente os países historicamente com altas emissões, incluindo os EUA, mais custará, a longo prazo, aos países na linha de frente dos danos climáticos lidar com as perdas e prejuízos relacionados com as alterações climáticas.

Qual a posição de Trump sobre as alterações climáticas e como está a incentivar a desinformação sobre a ciência climática?
Trump apelidou as alterações climáticas de “fraude” quando discursou na Assembleia Geral da ONU em 2025. Também chamou as políticas de energia sustentável de “a maior farsa da história” no Fórum Económico Mundial em Davos, em 2026.

Um novo relatório do Departamento de Energia dos EUA afirma que as projeções do aquecimento global futuro são exageradas. Isso faz parte de um esforço da campanha de desinformação do governo Trump para produzir uma narrativa falsa contrária à ciência climática global e ao consenso, e usar essa ciência sem fundamento como justificativa para revogar a regulamentação climática.

Os EUA também cancelaram um relatório histórico sobre as alterações climáticas – a sexta Avaliação Nacional do Clima – e retiraram inúmeras páginas sobre ciência climática de sites oficiais. A eliminação destes e de outros programas e instituições de ciência climática significa que há menos informações fiáveis disponíveis ao público e torna mais difícil aos cientistas de todo o mundo verificar informações enganosas sobre as alterações climáticas.

Como os EUA usaram táticas de intimidação para minar a cooperação global sobre o clima e o meio ambiente?
Mais de 430 milhões de toneladas de plástico são produzidas todos os anos, a maior parte feita a partir de combustíveis fósseis. Esse plástico rapidamente se transforma em resíduos que entopem aterros sanitários ou acabam nos oceanos. No entanto, as negociações para um histórico Tratado Global sobre Plásticos não chegaram a um consenso no ano passado, pois os EUA, juntamente com outros países produtores de combustíveis fósseis, deixaram claro que se opunham a cortes na produção de plástico.

A administração Trump também conseguiu arquivar uma taxa global sobre as emissões de carbono do transporte marítimo, que estava quase finalizada, ameaçando diplomatas envolvidos nas negociações e usando ameaças sobre o aumento das tarifas de importação para pressionar as nações.

Noutros fóruns, a pressão do lobby dos EUA prejudicou muito a diretiva de due diligence de sustentabilidade corporativa (CSDDD) da União Europeia, que exige que as empresas resolvam questões de direitos humanos e ambientais nas suas cadeias de abastecimento. Os EUA também procuraram ativamente alianças com partidos políticos na Europa que são contra a ação climática.

A compra do chamado gás “natural” produzido nos EUA tem sido usada como moeda de troca nas negociações tarifárias. Por outro lado, os bancos americanos retiraram-se das alianças de ação climática.

Qual tem sido o impacto das políticas anticlimáticas de Trump a nível interno?
A administração Trump desmantelou os esforços domésticos de ação climática e envolveu-se numa reversão sem precedentes das regulamentações que protegem as pessoas nos EUA da poluição por combustíveis fósseis e das alterações climáticas.

Destruiu agências governamentais que prestam assistência de emergência às pessoas afetadas por eventos climáticos extremos, que se tornaram mais prováveis e intensos devido às alterações climáticas; cortou o financiamento de programas de diversidade e clima em agências governamentais e universidades dos EUA, o que originou demissões em massa, congelamento de subsídios e ataques; aumentou os subsídios financiados pelos contribuintes à indústria de combustíveis fósseis; e ameaçou — em alguns casos com sucesso — os estados dos EUA com planos para reduzir as emissões de carbono para acabar com essas políticas.

A abordagem “perfura, baby, perfura” de Trump aumentou a produção de petróleo e gás e acelerou a mineração em águas profundas.

Desde que Trump voltou ao cargo, o governo dos EUA reduziu a disponibilidade e a recolha de dados sobre poluição atmosférica, clima e uma série de outros dados ambientais e climáticos que são usados nos EUA e em todo o mundo. A administração Trump também ameaçou diretamente a liberdade académica e o direito de acesso à informação, incluindo sobre as alterações climáticas, como parte de um padrão consistente com práticas autoritárias crescentes.

Os EUA também aumentaram as suas atividades militares, particularmente na América Latina e no Médio Oriente, que têm uma pegada de carbono pesada, sem mencionar os danos ultrajantes causados aos direitos humanos. No caso da Venezuela, o presidente Trump citou a indústria de combustíveis fósseis como parte da sua decisão de tomar medidas ilegais para destituir Nicolás Maduro.

Como a repressão de Trump ao espaço cívico prejudicou o ativismo climático?
O governo dos EUA reprimiu protestos e dissidências, incluindo a limitação da capacidade dos ativistas climáticos de exercerem os seus direitos à liberdade de expressão, associação e reunião pacífica através de intimidação, demonização e ameaças de mudanças nas leis.

O Departamento de Energia terá adicionado “alterações climáticas”, “verde” e “descarbonização” à sua crescente “lista de palavras a evitar”.[Guardian]

Os ativistas climáticos têm sido descritos como “ecoterroristas”, entre outros ataques públicos por parte das autoridades. Isso encorajou as empresas de combustíveis fósseis e outros intervenientes anti ação climática e levou a uma crescente ameaça de litígios judiciais contra ativistas climáticos.

A administração Trump também demonizou populações marginalizadas, usando retórica racial de formas que corroem o apoio público a serviços públicos essenciais — incluindo aqueles críticos para ajudar os americanos a prepararem-se e resistirem aos impactos das alterações climáticas.

O que deve ser feito?
As alterações climáticas transcendem fronteiras e afetam todas as pessoas, em todos os locais. Muitas vezes, são os menos responsáveis que são mais afetados. A cooperação global é essencial para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis de forma equitativa, apoiar uma transição justa para os trabalhadores afetados, proteger as comunidades vulneráveis e financiar a recuperação de perdas e danos. Uma abordagem fragmentada aprofundará os danos climáticos, como o aumento do nível do mar, a escassez de alimentos, incêndios florestais, tempestades e inundações extremas e a falta de acesso a água potável.

As pessoas e os governos em todo o mundo devem resistir a todos os esforços coercivos da administração Trump. Ceder terreno agora coloca em risco o nosso futuro coletivo. A humanidade deve vencer.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Os lobistas das grandes petrolíferas deveriam ser banidos das cimeiras do clima

COP27 no Egipto

À medida que incêndios, inundações e danos climáticos extremos continuam se acumulando, a grande questão é como sair da era dos combustíveis fósseis com justiça?

Enquanto as negociações climáticas preparatórias da ONU continuam em Bonn esta semana, uma nova pesquisa do Corporate Europe Observatory (CEO) e Corporate Accountability revela que as 5 grandes empresas de petróleo e gás trouxeram mais de 400 lobistas para as negociações climáticas da ONU desde que o Acordo de Paris foi assinado em 2015.

Embora a COP28 nos Emirados Árabes Unidos no final deste ano precise anunciar de uma vez por todas a eliminação justa de todos os combustíveis fósseis, a presença contínua de lobistas de petróleo e gás nessas cúpulas é um perigo claro e presente para atingir esse objetivo.

A nova medida antecipada da ONU pedindo a todos os participantes que divulguem publicamente para quem trabalham é um primeiro passo bem-vindo, mas precisa ir muito além.

Durante décadas, Shell, BP, TotalEnergies, ExxonMobil e Chevron - também conhecidas como as 5 grandes empresas de petróleo e gás - atrasaram, enfraqueceram e sabotaram a ação climática.

Apesar de sua lavagem verde pró-clima, cada um pretende expandir sua produção de combustíveis fósseis para impulsionar os balanços já volumosos.

Até 2025, seus planos combinados aumentariam as emissões em 6.674 milhões de toneladas de CO2, mais de duas vezes e meia as emissões da UE em 2021 — sem falar em dizimar ecossistemas e comunidades.

Eles estão colocando seus próprios lucros diretamente contra a meta do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura em 1,5 grau centígrado e proteger o planeta.

No ano passado, esses cinco gigantes obtiveram lucros recordes de quase US$ 200 biliões, com a BP posteriormente decidindo reduzir suas metas climáticas para se concentrar em ganhar dinheiro com o aumento da produção de gás.

É por isso que campanhas como Kick Big Polluters Out , que inclui mais de 450 grupos de todo o mundo representando milhões de pessoas, estão pressionando por negociações climáticas livres de fósseis e uma Estrutura de Responsabilidade mais ampla para proteger a formulação de políticas climáticas da influência indevida de todas as emissões. indústrias intensivas.

Eliminar essa influência é essencial se quisermos remover a maior barreira para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis.

Já temos algo semelhante para o tratado de tabaco da ONU, porque aceitamos que não devemos perguntar à indústria do tabaco como fazer as pessoas pararem de fumar.

Há um conflito de interesses flagrante
Portanto, vamos parar de perguntar à indústria de petróleo e gás como acabar com o vício em combustíveis fósseis.

Como primeiro passo, a divulgação pública dos interesses dos participantes é importante porque o público tem o direito de saber quem está na mesa de negociações.

Esta semana foi revelado que a TotalEnergies havia pago uma pseudo-ONG para trazer anonimamente vários delegados para a COP26 e 27.

Este ano, o diretor de gases de efeito estufa e mudanças climáticas da Exxon, Michael Gerard Cousins, entrou nas negociações em Bonn sem declarar para quem trabalhava.

Os participantes também devem ser obrigados a declarar quem está financiando sua participação nos processos climáticos da ONU.

Aqui em Bonn, a presença da Shell, Chevron e ExxonMobil aumenta a ótica existente da COP28 sendo administrada pela indústria de combustíveis fósseis.

Al Jaber, o novo presidente da COP28, também é o CEO da ADNOC, empresa estatal de petróleo e gás dos Emirados Árabes Unidos.

A influência da empresa de combustíveis fósseis sobre a presidência foi amplamente divulgada.

Ter um executivo do petróleo como presidente da COP é totalmente inaceitável, mas Al Jaber é apenas a ponta de um iceberg muito oleoso quando se trata de capturar a indústria das negociações sobre o clima.

Outros, como os EUA e a UE, passaram décadas promovendo os interesses da indústria de combustíveis fósseis em sua diplomacia climática e estão fazendo isso agora em Bonn.

Numa reunião com um negociador europeu, eles continuaram a argumentar que os lobistas dos combustíveis fósseis deveriam ter permissão para participar das negociações, apesar de admitirem que não tinham intenção de reduzir a produção de combustíveis fósseis.

Máquina de lobby
A nova pesquisa também expõe como as Big 5 também construíram máquinas de lobby impressionantes nos EUA e na UE desde a COP21, declarando um total combinado de quase 2.000 lobistas e mais de US$ 300 milhões investidos no referido lobby.

Naquela época, o CEO da ExxonMobil, Rex Tillerson, também se tornou secretário de Estado dos EUA, enquanto Shell, BP e TotalEnergies foram assessores importantes da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante a atual crise de energia, pressionando com sucesso por mais gás fóssil.

Soluções reais para a crise climática exigem ações ousadas para conter a obstrução da indústria de combustíveis fósseis nas negociações climáticas.

Os apelos do povo foram repetidos por mais de 130 legisladores de ambos os lados do Atlântico e de ambos os lados do corredor em uma carta recente ao presidente dos EUA, Joe Biden, von der Leyen, e ao secretário executivo da UNFCCC, Simon Stiell, também pedindo o fim da interferência dos combustíveis fósseis 

A luta para resolver os conflitos de interesse dos poluidores tem sido longa, mas para qualquer hipótese de a COP28 anunciar uma eliminação justa de todos os combustíveis fósseis, precisamos remover o maior obstáculo ao progresso: a influência da indústria de combustíveis fósseis.

A divulgação pública obrigatória é um primeiro passo decente, mas precisamos de uma estrutura robusta de conflito de interesses se quisermos expulsar os grandes poluidores.

Saber mais:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Dia Internacional do Solo


O Dia Internacional do Solo foi estabelecido durante o XXVII Congresso Mundial de Ciência do Solo, em Bangkog, Tailândia, em 2002, pela Sociedade Internacional de Ciência do Solo (IUSS). Foi escolhido o dia de 5 de dezembro como homenagem ao Rei da Tailândia, Bhumibol Adulyadej, em função da sua dedicação em promover a ciência do solo, enfatizando a conservação do solo como uma questão ambiental.

A campanha deste ano tem o mote: "Soils, where food begins" visa aumentar a sensibilização para a importância de manter ecossistemas saudáveis e o bem-estar humano, abordando os crescentes desafios na gestão do solo, aumentando a consciência do solo e encorajando as sociedades a melhorar a saúde do solo.


FAO: 33% dos solos do mundo estão degradados (dados de 2016)
Mesmo com três datas em sua homenagem o solo ainda sofre. Relatório da FAO (leia aqui) lançado em dezembro em Roma, revela que 33% dos solos do mundo estão degradados por erosão, salinização, compactação, acidificação e contaminação. Entre outros prejuízos, como selamento da terra – que agrava as enchentes – e perda de fertilidade, os solos degradados captam menos carbono da atmosfera, interferindo nas mudanças climáticas. Por outro lado, quando gerido de forma sustentável, o solo pode desempenhar um papel importante na diminuição das alterações climáticas, por meio do sequestro de carbono e outros gases de efeito estufa.

O referido relatório "Status of the World's Soil Resources" reúne o trabalho de cerca de 200 cientistas do solo de 60 países. 

Somente a erosão elimina 25 a 40 biliões de toneladas de solo por ano, reduzindo significativamente a produtividade das culturas e capacidade de armazenar carbono, nutrientes e água. Perdas de produção de cereais devido à erosão foram estimadas em 7,6 milhões de toneladas por ano. Se não forem tomadas medidas para reduzir a erosão, haverá a diminuição total de mais de 253 milhões de toneladas de cereais em 2050. Essa perda de rendimento seria equivalente a retirar 1,5 milhão de quilómetros quadrados de terras na produção de culturas - ou cerca de toda a terra arável da Índia.

"A perda de solos produtivos prejudica gravemente a produção de alimentos e a segurança alimentar, amplifica a volatilidade dos preços dos alimentos e, potencialmente, mergulha milhões de pessoas à fome e à pobreza. Mas o relatório também oferece evidências de que essa degradação pode ser evitada, "disse Diretor Geral da FAO, José Graziano da Silva.

O relatório constata que as mudanças climáticas - foco da conferência das Nações Unidas COP21 em Paris - é mais um forte motor da mudança do solo. Temperaturas mais altas e eventos climáticos extremos relacionados, tais como secas, inundações e tempestades impactam diretamente na quantidade e fertilidade do solo. As alterações no clima também têm reduzido a humidade e esgotando as camadas de solo rico em nutrientes. Também têm contribuído para um aumento na taxa de erosão do solo e recuo da costa, proporcionando o avanço do mar cada vez maior.

A acumulação de sais no solo reduz o rendimento das culturas e pode eliminar completamente a produção vegetal. Salinidade induzida por humanos afeta um número estimado de 760.000 quilómetros quadrados de terra em todo o mundo - uma área maior do que toda a terra arável no Brasil. 

Por fim, a acidez do solo é um grave obstáculo à produção de alimentos em todo o mundo. Os solos mais ácidos do mundo estão localizados em áreas da América do Sul que sofreram desmatamento e agricultura intensiva.

Documentos
Resolução 68/232 da AG da ONU sobre o Dia Mundial do Solo e o Ano Internacional do Solo [en] | ONU DESCARREGAR

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Noam Chomsky - Cooperação ou extinção

Clique na imagem para obter o e-livro

Cooperação ou extinção é a última novidade do linguista, filósofo, politólogo Noam Chomsky, também um dos ativistas mais influentes do mundo. Desta vez, trata-se de uma compilação de textos que nasce de um chamado "Encontro Chomsky" realizado em Boston e dedicado às ameaças à sobrevivência planetária, cujos três temas fundamentais são a emergência climática, a ameaça nuclear e o perigo que o enfraquecimento do sistema democrático representa. em todo o mundo. A solução passa, como indica Chomsky nestas páginas reveladoras, pelo ativismo social e internacional: uma série de movimentos populares que já estão sendo organizados por todo o globo para forçar acordos internacionais e enfrentar este desafio sem precedentes pela sobrevivência da civilização.

Projectos

sexta-feira, 10 de junho de 2022

A cimeira climática de Glasgow foi a mais poluente de sempre.



Com 131.556 toneladas de emissões equivalentes de dióxido de carbono, a COP 26 gerou 157% mais emissões do que a COP 25 realizada em 2019 em Madrid, e 205% mais do que a COP 21 em Paris em 2015, sublinha a Arup, consultora de sustentabilidade para a cimeira. O relatório concluiu também que a cimeira de Glasgow produziu o nível mais elevado de sempre de emissões de gases com efeito de estufa devido às viagens dos delegados, cerca de 79% do total das emissões. O enxame de jatos privados que desceram em Glasgow nos dias que antecederam a conferência, e no dia da abertura, contribuiu provavelmente para este volume de emissões. O relatório levanta questões sobre quanto o clima beneficiou de um acordo que envolveu muitas compensações de carbono, 40% das quais chegaram por cortesia de um paraíso fiscal offshore de credenciais duvidosas. A Arup descobriu que 58.839 tCO2e do total das compensações vieram através do investimento numa iniciativa de cozinhas limpas no Gana. O problema é que o Reino Unido adquiriu essas unidades através da ClimateCare Limited, uma empresa sediada em Jersey cujos "arranjos empresariais" surgiram através da divulgação dos Paradise Papers em 2017. "É preciso perguntar porque é que uma organização que supostamente se dedica a fazer o bem no mundo precisa de estar baseada num paraíso fiscal", disse Richard Dixon, antigo diretor da Friends of the Earth Scotland.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Documentário - "Viaje a los pueblos fumigados"



“Viagem às cidades fumigadas”: os estragos dos transgénicos na Argentina

Fernando (Pino) Solanas
Fonte: DW- 19.02.2018

O cineasta e senador argentino Fernando (Pino) ​​Solanas (Olivos, 1936) estreou seu último documentário, "Viagem às cidades fumigadas", na Berlinale, que recebeu aplausos após sua exibição fora de competição na seção Berlinale Special . Solanas, vencedor do Urso de Ouro com seu documentário "Memória do saque" em 2004, chegou à sala acompanhado pelo diretor do festival, Dieter Kosslick, e sua filha, Victoria Solanas, que produziu o filme que documenta os testemunhos dramáticos dos moradores , médicos e pesquisadores, os danos causados ​​pelo uso de agrotóxicos.

É um filme vibrante e investigativo do autor, que leva o espectador a uma viagem por sete departamentos da Argentina. Com a voz de Solanas na história, ela começa no norte do país, onde se vê o chamado deserto verde, as monoculturas de soja transgênica que se estendem por hectares onde não há outros seres vivos, nem pássaros, nem borboletas, nenhuma outra erva. Ao mesmo tempo, o desmatamento avança para estender as terras aráveis, florestas e árvores que levam centenas de anos para crescer são queimadas. "Uma destruição que não pode ser quantificada em dinheiro", diz um de seus protagonistas.

Indústria de exportação de petróleo

A viagem leva o espectador ao Porto de San Martin, às margens do Paraná, onde se estabeleceram todas as transnacionais que exportam óleo de soja, cerca de 120 milhões de toneladas por ano, cujo principal destino é o Sudeste Asiático. Quem controla o quanto eles declaram? Quanto da receita do Comércio Exterior que ficou nas mãos das multinacionais acabará em contas offshore? Solanas pergunta na narração.

O centro do filme é o drama da intoxicação da população que ingere alimentos vegetais frescos e embalados que contêm uma proporção significativa de agroquímicos que os fazem adoecer e matar. Um ativista da organização BIOS garante que a população tem pelo menos 3 agrotóxicos no sangue que são usados ​​na produção de alimentos, entre eles, o glifosato. Eles são encontrados nas uvas, no arroz, na alface, no tabaco. Entre os casos mais dramáticos está o envenenamento de duas crianças com endulfosan 2-4-D, enquanto brincavam na lama, substância proibida e ainda utilizada.


A Argentina, chamada de celeiro do mundo, optou por agroquímicos e transgênicos para aumentar seu volume de exportação, com consequências devastadoras para a população. Entre os depoimentos de cientistas, está o do pediatra e neonatologista do Hospital Universitário da Maternidade de Córdova, Medardo Ávila Vázquez, confrontado com casos crescentes de malformações, de crianças com problemas respiratórios, de comunidades onde o câncer se multiplica, casos que antes não foram vistos e que são derivados do uso crescente de agroquímicos.

Argentina, pioneira no cultivo de soja transgénica

"O compromisso com a soja começou com o Menem. Em 1996, a Argentina se tornou o primeiro país da América Latina a autorizar o cultivo de soja transgênica. Da Argentina, passou para Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia. os preços da soja transformaram a soja transgênica, uma plantinha que é muito resistente a tudo, e se não chover ainda vai resistir, em uma cultura economicamente muito rentável. foi um salva-vidas para todos. Ninguém queria ver as consequências que ia ter. O importante naquele momento era sair da crise", diz Solanas.

O cineasta ressalta que o problema é que na Argentina o Tesouro Nacional recebe importantes contribuições do campo para as taxas de exportação de cereais e, portanto, não se pensa em buscar um consenso para fazer uma transição para o abandono dessas culturas. "Estamos todos comprometidos com a soja e ninguém quer falar sobre isso porque empobreceria o país. Por isso, quando souberam que um filme meu chamado "Viagem às aldeias fumigadas" seria exibido em Berlim, eles enlouqueceu. Ontem não veio ninguém do Instituto Argentino de Cinematografia que tem estado aqui."

No entanto, o cineasta e senador afirma que o problema é universal. "Todos os países agrícolas usam agrotóxicos que são agrotóxicos", e lembra a infeliz decisão da Alemanha e da União Europeia que autorizaram o uso do glifosato em novembro passado por mais cinco anos. Uma decisão que foi seguida de perto na Argentina, que abre um mau precedente internacional.

O documentário conclui mostrando as consequências desse modelo sobre as mudanças climáticas. "O pampa húmido está inundado. A cada ano mais e mais. Apesar de na COP 21 de 2015 em Paris ter havido um compromisso internacional para reduzir os gases de efeito estufa, estes não foram reduzidos, aumentaram mais em 2016 e 2017 foi o mais quente ano na história. Estamos caminhando para uma catástrofe monumental, mas a humanidade não está ciente disso. É muito difícil parar porque os grandes centros industriais e tecnológicos do mundo teriam que ser desativados. As mudanças climáticas estão indo muito mais rápido do que a velocidade mudança industrial e tecnológica, do modelo de vida e de consumo no cotidiano, mas as pessoas acreditam que isso não as afetará. Elas acreditam que as catástrofes estão longe e que não as afetarão".

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A farewell to copitalism


The COP26 conference has failed to usher in a new era where capital is constrained to prevent catastrophic climate breakdown.

The future was supposed to be copitalism: a new global economic paradigm where national governments work together through the United Nations (UN) Conference of the Parties (COP) process to limit emissions and prevent runaway climate breakdown - while leaving capitalism otherwise intact.

The climate conferences have taken place annually for a quarter of a century. The aim is to negotiate global emissions targets that will be translated into national policies. The high-water mark was the Paris Agreement of COP21 when the worlds’ leaders agreed to limit global heating to 1.5C.

The mechanism agreed was "nationally determined contributions" (NDCs). This means national governments are responsible for submitting commitments to cut emissions to the UN. The COP process is also supposed to include a “ratchet mechanism” where those government commitments are made increasingly ambitious.

Credibility
In order to deliver on the NDCs each country would have to use a combination of carrot – investment, incentives, tax cuts – and stick – regulation and taxation – to move capital away from fossil fuels and towards “green” technology and infrastructure. The most obvious and effective means of reducing emissions is a limit or stop on the exploitation of coal, oil and gas.

Thus, "copitalism" is designed to maintain the status quo except where specific economic activity drives us towards climate breakdown. Capital accumulation remains the logic of our economies. Economic growth is maintained, or profit is delivered by the distribution of wealth from the poorest to the richest. Corporations continue to deliver profits for shareholders. Social inequality deepens. Poverty grinds.

The Glasgow conference, COP26, was the first deadline for presidents and prime ministers to hand in their Paris Agreement homework. The problem is, reducing fossil fuel exploitation involves a confrontation with the wealthiest, most entrenched monopoly corporations in human history.

And even on its own terms, the outcomes from the COP process over the last two weeks are catastrophic. As Climate Action Tracker (CAT) reported during the conference: "The projected warming from current policies - not proposals, what countries are actually doing – is...at 2.7 ̊C with only a 0.2 ̊C improvement over the last year and nearly one degree above the net-zero announcements governments have made."

The distressing truth is Copitalism should be a dystopian nightmare.
Bill Hare, the chief executive of Climate Analytics, a CAT partner organisation, has said: “It’s all very well for leaders to claim they have a net zero target, but if they have no plans as to how to get there, and their 2030 targets are as low as so many of them are, then frankly, these net zero targets are just lip service to real climate action. Glasgow has a serious credibility gap.”

The new promises emanating from Glasgow would reduce this warming by just 0.1C. As Climate Action Tracker has established, there is a “very big credibility gap” when it comes to net-zero policy. Life under such conditions will not be worth living for millions, if not billions, of people.

Damage
The primary weakness of the COP process is that even the best outcomes are, by design, not action but words. The conferences are focused on national governments setting out new commitments, always framed by deadlines years into the future. The politicians and their parties may not even be in power when those chickens come home to roost.

Those members of civil society paying the most attention - concerned citizens, protesters, charities and NGOs and the thousands of journalists - feel duty bound to celebrate and amplify the smallest successes from the COP process. There is a deep concern that the general public will become disheartened, climate anxiety will intensify and campaigners will switch off.

And so one of the major successes being touted at the conference is an agreement signed by 40 countries to phase out coal power by the 2030s for the coloniser economies and 2040s for the colonised, and to end all investment in new coal power generation. China has not agreed to reduce coal production and burning at home.

There has also been much fanfare about the surprise agreement between the United States – historically the largest contributor to climate breakdown – and China – currently the largest national contributor. But even here the response of many at COP26 has been characterised thus: "This was a stage-managed nothingburger. There was nothing new bar words, nothing on coal, finance or loss and damage."

The problem is, climate breakdown is a physical reality.

Share price
A total of 88m barrels of oil were produced per day globally in 2020. The historically unprecedented international shutdown of production as a result of the global pandemic did not come close to reducing our use of oil by the levels necessary to prevent climate breakdown. Indeed, production was at a historic high of 95m barrels per day in 2019. There is no reason to believe it will not return to these suicidal levels in the coming years.

Further, a total of 7,741,600,000 tonnes of coal were produced globally in 2020. Again, the pandemic slowdown resulted in a dip in mining. But, even so, coal production globally is higher today than when the gavel was struck to mark the signing of the Paris Agreement in 2016. And bear in mind that there remains 1,074,108,000,000 tonnes of proven coal reserves around the world.

The actual introduction of a copitalist economy would inevitably result in coal, oil and gas becoming stranded assets. Those companies that hold these assets would not be able to exploit them, turning assets into sales into profits into dividends for shareholders. The share prices might not collapse, but they would certainly move. If capitalism works on any level, then it is that those with capital will only invest in companies that deliver a return on that investment.

The share prices of the major energy companies tell the same story. ExxonMobil currently has a market capitalisation of $281 billion. A share in the company today is worth $64 - indistinguishable from the price on the opening day of COP26 and well above the $35 price from this time last year. ExxonMobil shareholders do not fear copitalism.

Likewise, the share price of the Peabody Energy Corporation - the world’s largest private coal company - remains steady at $11, almost three times its value last year. Closer to home, shares in BP have risen from £2.36 each to £3.41 in the course of the last year, as the company recovers from the pandemic.

Campaigners
The justification for this political project is that the need to avert climate breakdown is so urgent and critical, and the likelihood of a wider and deeper political transformation of our societies and our economies is so remote, that the capitalists must be appeased while being persuaded that climate mitigation is in their interests as much as anyone else’s.

The problem with the capitalist project is that capitalists are not running the capitalist system, but perversely the capitalist system runs the capitalists. The corporate leadership of any country does not choose what or how it produces but instead is the flotsam of our societies willing to do anything to ride the wave of capitalist wealth-making at any cost.

Ben van Beurden, the chief executive of Shell, is a moral vacuum. But this is not a personal failing of a human being who just happens to have risen through the ranks of his corporation through hard work and diligence.

A capitalist logic has promoted those executives who deliver results, deliver profits, precisely by grinding the most out of the human and natural resources they control. No amount of evidence or hectoring can change van Beurden’s mind. And if it does, he will be out of a job.

The assembled delegates, the surrounding banks of NGO campaigners and exhausted journalists try to understand the daily shocks and disappointments of the COP process. It is assumed that a failure of understanding on the part of a particular leader – usually someone else’s leader – is the cause of failure at the conference. We are wedded to the idea of human agency, of powerful saviours, of national leaders.

Billionaires
The delegates of COP26 negotiating our collective future are hidden away in a cordoned off zone within the Blue Zone. More than 500 of those delegates are either directly within the employ of fossil fuel companies or delegates for government departments working with Big Coal, Oil and Gas. The NGOs and the journalists accredited to the zone are locked out of the real discussions, relying on press conferences for any crumbs of information.

The Blue Zone itself feels like a military encampment on the banks of the River Clyde. The fences tower overhead with delegates rushing through turnstiles guarded by security. The Green Zone along the road is entirely separate, but here the pavilions are dominated by National Grid, Unilever, Sainsbury’s and Microsoft. The message – that corporations are the solution – is not subtle. The Green Zone is open to the public, and school children tour the science museum styled displays.

Civil society is represented in Glasgow. But the COP26 Coalition is both physically and metaphorically cast into the hinterland in venues scattered across the living centre of the city of Glasgow. Here the science of climate change is understood and accepted, and the reality of the actual change needed to prevent calamity is discussed. The attendees are actual people from Glasgow.

The discussions at the venue in Adelaide Place were wide ranging and meaningful, taking in the Green New Deal, degrowth, Indigenous traditions, the threat of green colonialism, food sovereignty, international trade, and more. But the event seemed only to coincide with the COP negotiations happening less than two miles away. There seemed no possibility of these debates influencing the proceedings.

Copitalism should be a dystopian nightmare. The COP26 conferences are a political project aimed at maintaining as much as possible of our current global economic system. The billionaires will continue to make gargantuan profits, fuelling their intergalactic fantasies. At the same time, 15 million people have likely died from coronavirus and billions are denied a cheap vaccine to maintain the profits of the pharmaceutical industry.

Monsters
But the experience of COP26 during the last few days suggests that copitalism itself is an unachievable utopian dream, as vacuous as Charles Fourier’s vision of the oceans turning to lemonade. There is, alas, no real need for a neologism. Capitalism cannot allow copitalism to exist, such is its rapacious need for mountains and oceans of coal, oil and gas.

Barack Obama when president of the United States was instrumental in defusing the Paris Agreement and now calls on young people to protest for climate action. During his speech on Monday he made the following confession: “There are times where the future seems somewhat bleak. There are times where I am doubtful that humanity can get its act together before it’s too late, and images of dystopia start creeping into my dreams.”

The reality is that COP26 is failing because capitalism cannot allow copitalism to supersede. We cannot postpone the work of ending capitalism until after we have moved to avert climate breakdown. Because capitalism is climate breakdown. Ta’Kaiya Blaney of the Tla A’min Nation, the Indigenous activist told People's Plenary meeting before a walkout today: “Cop26 is a performance. It is an illusion constructed to save the capitalist economy rooted in resource extraction and colonialism. I didn’t come here to fix the agenda – I came here to disrupt it.”

This argument does not have to be simplified for the public. We already know. As Cora, a 15-year-old member of Fridays For Future from Edinburgh said so eloquently this week: “Letting that kind of capitalist theatre run every COP? We are never going to see the change that we need now.”

But if copitalism is now an impossible utopia, is capitalism really the only game in town? Is it easier to imagine the end of the world than the end of the billionaire? Or is now the time for the climate movement to merge fully into the environment movement, the social justice movement, the (dare I say it) anti-capitalist movement so that we can aggregate our traumas, our grievances, our hopes, into something with the force and multitude that can begin to challenge the capitalist machine at the core of our misfortunes?

The famous quote from the Italian philosopher Antonio Gramsci also seems apposite right now. “The old world is dying and the new world struggles to be born. Now is the time of monsters.”

This Author

terça-feira, 9 de novembro de 2021

For A Worse Tomorrow

Extinction Rebellion activists hold a “die-in” protest in front of the Mercer building, as the UN Climate Change Conference (COP26) takes place, in Glasgow, Scotland, Britain, November 8, 2021.


With 98 months to halve global emissions by 2030, COP26, the world’s “last best hope” was—at best—disappointing.

The Cairo Review’s assistant editor, Ariana Bennett, spoke with journalist Dahr Jamail about the outcome of COP26, the death trap of fossil-fuel capitalism, and the uncertain future of our planet. Jamail has covered the climate crisis for Truthout and is the author of the book The End of Ice: Bearing Witness and Finding Meaning in the Path of Climate Disruption.

The 26th UN Climate Change Conference produced an outcome document that Jamail deemed a failure. While the outcome text made an unprecedented reference to the role of fossil fuels in global warming, progress was clouded by a last-minute change to phase “down” instead of phasing “out” coal, the largest source of carbon dioxide emissions, due to pressure from India and China.

Given the agreements included in the Glasgow Climate Pact, experts estimate warming will reach 1.8 to 2.4 degrees Celsius by 2100. Limiting warming to 1.5 degrees Celsius is a pipe dream, Jamail said. To remain in compliance with this target set by the 2015 Paris Agreement, the world needs to wean itself off fossil fuels and the resultant dependent economy. The world needs to reduce emissions by 45 percent to reach carbon neutrality by 2050. However, emissions are expected to rise 14 percent in the next nine years.

Parties will reconvene before the end of 2022 at COP27, set to be held in Sharm El-Sheikh, Egypt, to revisit their Paris Agreement commitments.

Cairo Review: Are these Conferences of the Parties (COPs) generally effective?

Dahr Jamail: “In general, I would say definitely not, as far as engaging or enforcing policies internationally that would actually bring carbon dioxide emissions down. In short, there is nothing binding in these agreements that cause them to be enacted in a physical way, which has to happen.”

Specifically pertaining to the Glasgow Climate Pact, he said, “[parties] admit that emissions must fall by nearly 50 percent from 2010 levels by 2030 for global warming to be kept at 1.5 degrees Celsius above pre-industrial baseline levels. And yet, under the existing emissions reduction pledges, emissions will be nearly 14 percent higher by 2030 than they were in 2010.”

Additionally, rich countries consistently avoid financial responsibility for their disproportionate share in causing the climate crisis, he said. The Glasgow Climate Pact commits developed countries to doubling climate financing within the 2021-2025 $100 billion annual target; however these same countries were unable to meet a similar goal set for 2020 in 2009.

These broken promises foster distrust among developing nations in COP summits. Countries can make pledges all day long but until binding commitments are agreed to, with penalties incurred if conditions are not met, pledges do not carry any substance, Jamail said.

CR: Given the disappointment following COP26, what made COP3 (Kyoto Protocol) and COP21 (Paris Agreement) successful?

DJ: “Define success…I would define success only as rich countries taking full responsibility for the havoc that they’ve caused to the planet, footing the entire bill for poor countries, and immediately bringing carbon dioxide emissions down, like the example we saw during the pandemic. Nothing short of that kind of global reaction is worth anything at this stage of the game.”

CR: Would you call the outcome of COP26 successful?

DJ: “I think it was a dismal failure, and I’m not using that adjective lightly. It couldn’t even get countries to pledge to phase out coal or reduce subsidies to the fossil fuel industry or to protect forests…I’ve heard it referred to as the COP-out 26, and I think that’s very applicable.”

CR: What are your thoughts on the media coverage surrounding COP26?

DJ: “Context is everything, and by and large the context of the coverage of COP26 is completely lacking the context of the scale of the emergency and how far along in the crisis we are.” Calling 1.5 degree warming a “fantasy,” Jamail said, “we’re still locked in to catastrophic changes by 2100. There’s nothing to indicate, with what’s on the table, that global temperature rise is going to be kept anywhere below 5 degrees Celsius…Everything we’re witnessing today is just from 1.2 degrees warming.”

The severity of the crisis is unparalleled. According to a 2019 study, humans are injecting carbon dioxide into the atmosphere at a rate ten times higher than it was during the paleocene eocene thermal maximum (PETM), a global warming event 56 million years ago to which there is no modern geologic equivalent. It is likely to be repeated within the next few hundred years, Jamail said.

“Three months after that study was published we hit 415 parts per million (ppm) of carbon dioxide in the atmosphere, and less than two weeks after that, the International Energy Agency announced global carbon emissions set a record in 2018, 2 percent higher than the previous year. Things are unravelling at a rate that is alarming, and coverage should be alarmist. In my opinion, it doesn’t go nearly far enough when you look at what’s actually happening to the planet.”

CR: What are some agreements you would have liked to see come out of the conference, from both developing and developed nations?

DJ: “I think developed countries have to foot more of the bill, if not the entire bill, of the costs developing countries are incurring from climate crisis-caused disasters. The developing countries are emitting almost negligible amounts of carbon dioxide compared to countries like the United States, India, China, and Russia, yet they are the ones paying disproportionate amounts of money to rebuild and keep themselves afloat as the disaster commences.”

He also highlighted the importance of putting an end to fossil fuel subsidies. At the conference, there were more than 500 lobbyists representing over one hundred fossil fuel companies—representation greater than any single country. In fact, despite claims of safety and inclusivity, COP26 campaigners warned the event would be the whitest and most privileged conference to date as attendees faced lack of access to vaccines and changing travel rules.

UN Secretary General Antonio Guterres acknowledged the plight of women, youth, indigenous communities, and those on the frontlines of the climate crisis, recognizing their disappointment in the face of insufficient commitments from national governments.

“I would imagine that the groups of people he issued that apology towards probably don’t want it,” Jamail said. “Talk is cheap.” Immediate action and compensation are what nations—who are literally going under water—desperately need, he emphasized.

CR: How do the discordant actions of policy leaders, such as taking a private jet to a climate conference, affect public perception of the climate crisis?

DJ: “It only breeds more cynicism and, I think, hopelessness when you see people continuing along the lines of business as usual while the planet literally burns.” The message sent to young people and activists is disheartening, he added. While Greta Thunberg opted to take a train to the conference, Jamail asked, “Could you imagine Joe Biden taking a boat, for example? I think it’s a pretty sad state of affairs when we have to rely on a Scandinavian schoolgirl to exhibit appropriate behavior during a crisis.”

CR: There’s been a larger emphasis recently on climate adaptation as opposed to merely mitigation, in light of the severe climate events of the past year. What do you think of this transition and how can countries implement both in tandem?

DJ: “I think the only thing left to do is move towards adaptation. That does mean taking radical steps, like abandoning the idea of the perpetual growth economy, and that means everything has to become a lot more local. Shipping goods around the globe is a dinosaur system. It’s going to go away whether we like it or not. The more actively countries can start adapting to that now, as opposed to being forced to, the easier that transition will be.” Increased local production, with the help of advanced manufacturing and automation, can help reduce maritime transport, which accounts for 2.5 percent of global greenhouse gas emissions.

Capitalism’s perpetual growth, driven by the fossil-fuel economy, is incompatible with emissions reductions targets, and euphemisms like “green capitalism” are merely “psychological protection,” Jamail argued. “The idea of perpetual growth is ridiculous; it’s impossible, and it’s insane,” he said. “Deep sacrifices have to be made, especially in developed countries.” Sacrifices, Jamail said, like those made during pandemic lockdowns, which proved that when necessity and government preferences align, changes can be made rapidly.

“Bottom line, there is no way we can maintain the global economy and lifestyles in developed countries that we have today. Full stop.”

CR: While adapting to climate change how will countries tackle the predicted influx of climate refugees?

DJ: “That is one of the biggest issues that governments face going forward, even in the United States. The Pentagon noted in their annual report that [climate refugees] are one of the biggest security threats going forward not just in the United States, but globally. We know, from studies that have come out, that the number of climate refugees every year is going to increase into the hundreds of millions going forward…We’re going to see displaced people in numbers we’ve never seen from any war or anything else before.”

CR: Was there a significant emphasis on the Middle East and North Africa region during COP26?

DJ: “The short answer is no, absolutely not….There was not nearly enough attention brought to the climate havoc that’s already being wrought upon countries in Africa and the Middle East.”

Poor countries and developing countries, who emit negligible amounts of carbon dioxide, bear the brunt of higher temperatures, droughts, wildfires, and infrastructure loss from climate disasters, he said.

CR: Saudi Arabia is praised for its fight against climate change in the region, yet wants to remain a leader in global energy markets while phasing out hydrocarbons. What do you think?

DJ: “How is that possible? Talk about speaking out of both sides of your mouth. You can’t have one without the other. If you are going to be serious about transitioning and getting off oil and gas and reducing your carbon dioxide emissions, you have to abandon the fossil fuel economy. Period.”

CR: Yet, Western countries also have a hand in perpetuating oil dependence in the region…

DJ: “Because all of our economies are fossil fuel-based. Without that deep, deep, deep collaboration, the global economy is not going to continue to function. The United States has a deep stake in the perpetuation of dictatorships and regimes in oil-rich countries so the United States maintains access to that oil and gas.”

A COP26 funeral was held on the conference’s last day by the international environmental activist movement, Extinction Rebellion, mourning the “failed process” of COP26—a harsh reminder of the hard work left to do. Jamail encourages people to start behaving according to the crisis we are in, where today is better than tomorrow. “It’s only going to keep intensifying,” he warned.

domingo, 29 de agosto de 2021

Fundo Verde para o Clima



A criação do Fundo Verde para o Clima em 2010, no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), gerou expectativas de investimentos constantes em projetos de adaptação climática em países em desenvolvimento. Por meio do Fundo, as nações desenvolvidas se comprometeram a viabilizar a disponibilidade de investimentos anuais de US$ 100 bilhões até 2020 para apoiar essas iniciativas.

A COP26, a ser realizada em novembro 2021 na cidade escocesa de Glasgow, permitirá que os países avaliem o progresso em relação aos compromissos firmados tanto em 2010 quanto em 2015, com o Acordo de Paris. O ritmo lento do avanço em relação à meta de US$ 100 bilhões anuais tem sido alvo de críticas, e vem propiciando a busca de novas metas para o financiamento do clima. Neste artigo, fazemos um resumo sobre o que esperar dessa análise.

O que é o Fundo Verde para o Clima?

Criado na COP21, realizada em 2010 no México, o Fundo Verde para o Clima (GCF na sigla em inglês) tem como objetivo alocar recursos em projetos e programas que visem limitar ou reduzir as emissões de gases de efeito estufa, em benefício de sociedades particularmente vulneráveis ao clima. Esses são os casos de países menos desenvolvidos, pequenos estados insulares em desenvolvimento e países africanos.

O principal objetivo do Fundo Verde é promover a mudança de paradigma em direção a caminhos de desenvolvimento de baixa emissão de carbono e aumento da resiliência ao clima.

Para garantir a eficácia dos investimentos, o fundo está desenhado para:
  • Maximizar a apropriação pelo país beneficiário
  • Estabelecer equilíbrio entre mitigação e adaptação
  • Seguir governança balanceada, com número igual de países contribuintes e recipientes em seu Conselho Diretor
  • Manter a diversidade de entidades acreditadas
  • Estabelecer diversidade de instrumentos financeiros
  • Ser o fundo mundial dedicado ao clima de maior escala
Como o Fundo Verde para o Clima Funciona?

Com sede em em Incheon, na Coreia do Sul, o Fundo Verde conta com um conselho independente. O grupo é formado por representantes dos 194 países participantes do UNFCCC, e guiado pela Conferência das Partes (COP). As diretrizes estabelecem uma estrutura de governança corporativa específica. O objetivo é garantir a tomada de decisão consensual entre países desenvolvidos e em desenvolvimento em relação à gestão dos recursos.

A diretoria é responsável pela tomada de decisão de investimentos, embora receba direcionamento da COP em questões relacionadas às normas, prioridades e elegibilidade aos recursos.

Buscando ser um catalizador de investimentos para países em desenvolvimento e financiamentos climáticos, incluindo setores público e privado, o fundo segue uma abordagem focada em países individualmente.

O Fundo funciona por meio de uma rede de parcerias que inclui mais de 200 instituições acreditadas, entre bancos comerciais nacionais e internacionais, organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento, fundos de participação societária, agências da ONU e organizações da sociedade civil.

Em seu processo de escolha de projetos para apoiar, o Fundo busca encontrar o equilíbrio entre as prioridades locais dos países onde estão localizados e o potencial impacto gerado, levando em consideração o custo total de cada projeto, sempre tendo a perspectiva de gênero como pano de fundo.

A gestão de recursos tem um perfil mais arrojado, com maior tolerância a risco para garantir suporte a projetos em estágio inicial, que teriam maior dificuldade de conseguir financiamento de fontes tradicionais. Isso norteia as decisões de investimento de forma a incentivar inovação em políticas públicas e em novas fronteiras tecnológicas e financeiras. Para reduzir o risco, o fundo se baseia num sistema de due dilligence secundário.

O Fundo Verde busca impactar oito principais áreas referentes a mitigação e adaptação:
  • Assegurar acesso a saúde, alimentação e água
  • Moradias de pessoas e comunidades
  • Geração e distribuição de energia
  • Transporte
  • Infraestrutura
  • Ecossistemas e serviços
  • Prédios, cidades, indústrias e aparelhos domésticos
  • Florestas e uso da terra
Até o momento, a área com o maior número de projetos é a de moradias populares, com 111 projetos totalizando US$ 1,1 bilhão em financiamentos. No entanto, o setor com o maior volume de recursos é o de geração e distribuição de energia, com 50 projetos totalizando US$ 2,6 bilhões.

Projetos financiados pelo Fundo Verde para o Clima

“Apesar de a meta anual de investimentos do Fundo Verde para o Clima ser de US$ 100 bilhões ao ano, o portfólio atual conta somente com US$ 33,2 bilhões em projetos aprovados, entre financiados e cofinanciados. “Isso faz com que um total de 177 projetos estejam se beneficiando desses recursos, evitando que aproximadamente 1,8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente sejam emitidas.

A América Latina e o Caribe têm 41 dos 177 projetos que entraram na lista de favorecidos pelo Fundo. Um exemplo de projeto financiado fica ao norte da Colômbia, em uma região chamada La Mojana, em que se buscava gerir e dar acesso a água potável para populações locais. Esse projeto foi enquadrado como adaptação. Já no setor de mitigação, outro exemplo foi o financiamento da construção de uma planta de energia solar no deserto do Atacama, no Chile.

Em todo o mundo, os projetos de mitigação foram os que mais receberam recursos, totalizando 66%, enquanto projetos de adaptação respondem por 34% dos recursos.

Os projetos são divididos entre micro (12%), pequenos (33%), médios (40%) e grandes (15%). Os recursos são repassados de maneiras distintas. A forma mais comum são empréstimos, totalizando 44%, seguido de concessões, com 42%. Outras modalidades são mais raras, como a participação societária (6% dos casos), pagamentos baseados em resultados (6%) e o oferecimento de garantias (2%).

Em 2020 foi registrado um recorde em termos de valores nominais de projetos aprovados, que totalizaram US$ 4,9 bilhões, divididos entre US$ 2,1 bilhões financiados diretamente pelo Fundo e outros US$ 2,8 bilhões provenientes de cofinanciamentos.

Situação atual e expectativas para a COP26

Ano do aniversário de dez anos da criação do Fundo Verde, 2020 estava previsto para ser o ano do clima, a partir de quando se esperava criar em todo o mundo um piso de investimentos em projetos sustentáveis, principalmente em países em desenvolvimento.

Era também o ano previsto para a realização da COP26, em Glasgow, considerada como o evento multilateral para o clima mais importante desde a realização da COP21, em 2015, que criou o Acordo de Paris.

No entanto, o ano passado acabou sendo marcado pela pandemia da Covid-19, o que desviou a atenção internacional e a mobilização de recursos para a área da saúde, comprometendo alguns esforços em favor do clima.

A meta de se atingir US$ 100 bilhões por ano em ações contra a mudança do clima ainda não foi atingida, e especialistas não acreditam que isso aconteça no curto prazo. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que ações voltadas para o clima levantaram em torno de US$ 80 bilhões em 2018. E com a pandemia os anos seguintes não devem ser muito melhores.

Ter o financiamento abaixo da meta gera problemas que vão além da direta falta de dinheiro e da incapacidade de países pobres de atingir suas próprias metas autodeterminadas. Pode gerar também uma crise diplomática que dificulta o avanço em negociações climáticas esperadas para a COP26, colocando em xeque inclusive importantes avanços já obtidos pelo Acordo de Paris.

Apesar das dificuldades, existe um ponto importante de otimismo: a mudança de governo nos Estados Unidos. O presidente norte-americano Joe Biden se apresenta como defensor do combate à mudança climática, e pode ser um importante catalizador de investimentos em sua tentativa de alçar novamente o país à posição de liderança climática, posto enfraquecido desde ao menos a não-ratificação do Acordo de Kyoto.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Como a definição de Floresta da FAO prejudica pessoas e florestas? Carta aberta à FAO

Fonte: WRM
Lançada no dia 21 de setembro de 2016, Dia Internacional de Luta contra as Monoculturas de Árvores

Em setembro de 2015, durante o XIV Congresso Florestal Mundial, milhares de pessoas foram às ruas de Durban, na África do Sul, para protestar contra a forma problemática em que a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) insiste em definir as florestas.(1) A definição da FAO basicamente considera as florestas apenas como “um monte de árvores”, enquanto ignora outros aspectos fundamentais, incluindo as suas muitas outras formas de vida, como outros tipos de plantas, animais e as comunidades humanas que dependem da floresta. Da mesma forma, a definição ignora a contribuição vital das florestas para os processos naturais que proporcionam solo, água e oxigênio. Além disso, ao definir “florestas” como sendo apenas uma área mínima de terra coberta por um número mínimo de árvores com um percentual mínimo de altura e copa, a FAO tem promovido ativamente o estabelecimento de muitos milhões de hectares de plantações industriais de árvores, principalmente de espécies não nativas e nos países do hemisfério Sul. Como consequência, apenas um determinado setor tem se beneficiado: a indústria de plantações de árvores. As plantações industriais de árvores têm sido a causa direta de muitos impactos negativos sobre as comunidades locais e suas florestas, os quais têm sido bem documentados. (2)

Na marcha de protesto que aconteceu em Durban, as pessoas tinham cartazes dizendo Plantações não são florestas!, e a manifestação terminou em frente à sede do Congresso Florestal Mundial, que foi organizado pela FAO. Em resposta a um chamado de líderes da sociedade civil na marcha, um membro do WFC saiu do prédio onde ocorria o Congresso para receber um abaixo-assinado com mais de 100.000 assinaturas de pessoas e grupos de todo o mundo. O documento chamava a FAO a alterar urgentemente sua definição de floresta e reconhecer as florestas por seu verdadeiro significado. Mas, mais uma vez, a organização não alterou a sua definição.

No entanto, algo novo aconteceu: ao contrário do silêncio diante das reivindicações anteriores para que a FAO mudasse sua definição equivocada de floresta, desta vez a organização reagiu ao protesto e enviou uma carta. Um ponto que consta da carta da FAO é particularmente interessante: “Na verdade, há mais de 200 definições nacionais de florestas que refletem uma variedade de interessados no tema…”. E continua: “… para facilitar a comunicação de dados…, é necessária uma categorização globalmente válida, simples e operacional das florestas”, que permita “comparações constantes, durante longos períodos, sobre o desenvolvimento e as mudanças florestais globais”. Ao escrever isto, a FAO tenta nos convencer de que o seu papel é apenas o de harmonizar as mais de 200 diferentes definições de florestas de diferentes países.

Mas será que a definição atual de floresta da FAO não influencia a forma como as 200 definições nacionais foram formuladas? E a FAO está correta ao afirmar que as muitas definições nacionais de floresta refletem uma variedade de interessados nesses países, novamente menosprezando sua própria influência?

Nós acreditamos no contrário. Para começo de conversa, a definição de floresta da FAO foi adotada há muito tempo, em 1948. De acordo com uma análise conjunta feita recentemente por diferentes autores de conceitos e definições florestais, “a definição da FAO, acordada por todos os seus membros [membros da ONU], é a primeira a ser usada por todos os países para fazer relatórios com padrões comuns; a definição de floresta adotada pela FAO continua sendo a mais usada hoje em dia”.(3)

Um bom exemplo para ver se a definição da FAO está sendo usada é o Brasil, o país com a maior cobertura florestal no Sul global e, de acordo com fontes oficiais, com quase 8 milhões de hectares de plantações industriais de árvores, principalmente monoculturas de eucalipto. Em sua publicação Florestas do Brasil, de 2010 (4), o Serviço Florestal Brasileiro (SBF), que faz parte do Ministério do Meio Ambiente e é responsável por questões relacionadas a florestas, “(…) considera como floresta as tipologias de vegetação lenhosas que mais se aproximam da definição de florestas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)”. Como consequência lógica do fato de que sua definição se baseia no que a FAO já definiu, afirma que “o Brasil é um país (…) de florestas naturais e plantadas”, onde a expressão “florestas plantadas” se refere aos 8 milhões de hectares de monoculturas, em sua maioria de eucalipto. A forma como o governo brasileiro define floresta, portanto, não é resultado de um processo que “…reflete uma variedade de interessados no tema”. Pelo contrário, é resultado do que a FAO já havia determinado.

Mas a influência da definição de floresta da FAO vai além de determinar as definições nacionais. Nestes tempos de mudanças climáticas, ela tem sido o principal ponto de referência para definir o que é uma floresta no âmbito da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU (UNFCCC). Ao adotar a definição estreita da FAO, baseada na madeira, a UNFCCC também promoveu uma visão da floresta como uma área de terra contendo apenas árvores. Para a UNFCCC, o mais importante em uma floresta são as árvores, por causa de sua capacidade de armazenar carbono à medida que crescem, e não as comunidades que dependem da floresta. Na maior parte, essas comunidades afetadas são impactadas negativamente pelas restrições impostas ao uso de recursos florestais por “projetos de compensação carbono florestal”, também chamados, muitas vezes, de projetos de REDD+ (5). Uma definição de florestas que trata apenas de árvores abre a porta para incluir “florestas plantadas” – leia-se: plantações industriais de árvores – uma forma completamente falsa de “redução do desmatamento e da degradação florestal” – como opção dentro da convenção de mudanças climáticas, através da qual o carbono pode supostamente ser sequestrado da atmosfera e armazenado permanentemente. Na prática, é apenas mais uma oportunidade para a indústria das plantações de árvores ganhar dinheiro e uma grande ameaça para as comunidades afetadas pela tendência de expansão dessas plantações como “sumidouros de carbono”.(6)

Na sequência das últimas negociações da UNFCCC, os países têm revisto suas leis florestais recentemente, na esperança de atrair o chamado “financiamento para o clima”. Previsivelmente, as definições usadas têm por base a definição de florestas da FAO. Em Moçambique, por exemplo, em um seminário sobre REDD+, um consultor propôs uma nova definição de floresta para o país. Assim como a da FAO, ela também se baseia na presença de árvores, dizendo que uma floresta é uma área onde há “… Árvores com potencial para alcançar uma altura de 5 metros na maturidade (…)”. Também na Indonésia, a apresentação do Ministério do Meio Ambiente e Florestas à Conferência da ONU sobre o Clima em 2015 declarou que tinha “… adaptado a definição de floresta da FAO…” para definir suas florestas. Mais uma vez, é uma formulação que define e valoriza uma floresta somente através de suas árvores e divide “florestas” em um número de diferentes categorias, incluindo “floresta natural” e algo chamado de “florestas de plantação”.

A definição de floresta da FAO também influencia as ações das instituições financeiras e de desenvolvimento que promovem atividades baseadas na madeira, como a extração industrial de madeira de florestas, as plantações industriais de árvores e a compensação de carbono por REDD+. O principal exemplo é o Banco Mundial (BM), o qual, como parte do conglomerado da ONU, tem feito parcerias com a FAO por décadas, em uma série de iniciativas relacionadas a florestas. Recentemente, eles uniram forças mais uma vez, em um dos planos mais ambiciosos lançados durante a COP 21 em Paris, a chamada Iniciativa para a Restauração da Paisagem Florestal Africana (AFR100) (7). A AFR100 visa cobrir com árvores 100 milhões de hectares de terras desmatadas e chamadas de “degradadas” em diferentes países africanos. O Banco Mundial vai disponibilizar um bilhão de dólares para o plano. Mas, para entender o que o Banco considera como “reflorestamento”, é crucial ver como ele próprio define uma floresta. Previsivelmente, sua definição também é emprestada da FAO, descrevendo uma floresta como “uma área de terra … com cobertura de copa de mais de 10% e que tenha árvores …”. (8) Ao definir florestas dessa forma, o Banco Mundial escancara as portas para que empresas de plantação da árvores expandam suas grandes monoculturas sobre os territórios comunitários na África e, assim, façam parte do ambicioso plano de “restauração” que ele está promovendo em conjunto com a FAO e outros parceiros. A proposta da AFR100 se parece muito com o fracassado Plano de Ação para a Silvicultura Tropical (TFAP) da década de 1980, que também foi idealizado pelo Banco Mundial em colaboração com a FAO.

Considerações finais

É urgente que a FAO pare de apresentar as plantações industriais de árvores como “florestas plantadas” ou “silvicultura”, pois governos nacionais, outras instituições da ONU e instituições financeiras, bem como os principais meios de comunicação, seguirão seu exemplo inadequado. Essa confusão deliberada de plantações de árvores com florestas está enganando as pessoas, porque as florestas em geral são vistas como algo positivo e benéfico. Afinal de contas, quem seria contra “florestas”?

Acima de tudo, a FAO deve assumir total responsabilidade pela forte influência que sua definição de “floresta” tem sobre as políticas econômicas, ecológicas e sociais globais. O abaixo-assinado de 2015, que foi apresentado à FAO em Durban, afirma que ela se apresenta, em seus princípios fundamentais, como um “fórum neutro, onde todas as nações se reúnem como iguais”. Para corresponder a essa afirmação, entre outras coisas, a FAO deve rever urgentemente sua definição de floresta, passando de uma visão que reflete as preferências e perspectivas de empresas de madeira, celulose/papel, borracha e comércio de carbono, para uma que reflita as realidades ecológicas, bem como os pontos de vista dos povos que dependem da floresta. Em contraste com a atual influência dominante que as indústrias baseadas na madeira exercem através da FAO, um processo transparente e aberto para estabelecer definições novas e apropriadas para florestas e plantações de árvores também deve envolver efetivamente essas mulheres e esses homens que dependem diretamente das florestas e por isso as protegem.

1 – “Terra com cobertura de copa (ou densidade equivalente) de mais de 10% e área de mais de 5 hectares (ha). As árvores devem ter potencial para atingir uma altura mínima de 5 metros na maturidade in situ”.
3 – Chazdon, R. L., Brancalion, P. H. S., Laestadius, L. et al. Ambio (2016). doi:10.1007/s13280-016-0772-y. When is a forest a forest? Forest concepts and definitions in the era of forest and landscape restoration (http://link.springer.com/article/10.1007/s13280-016-0772-y).