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sábado, 1 de agosto de 2026

Vígundr - Draumspaki


A tradução do título Draumspaki vem do nórdico antigo, sendo a junção das palavras draumr (sonho) e spaki (sabedoria ou dom da profecia), resultando em termos como "Sabedoria dos Sonhos", "Adivinhação pelos Sonhos" ou "Aquele que interpreta sonhos". Na tradição nórdica antiga, os sonhos eram encarados como visões proféticas enviadas pelas Fylgjur (espíritos protetores) ou pelos próprios deuses para antecipar o destino imutável (Örlög). Como a música do Vígundr não possui uma letra convencional - utilizando apenas vocalizações atmosféricas, cânticos guturais, sussurros e instrumentos ancestrais -, o vídeo funciona como um poema audiovisual focado no estado de transe e na viagem astral. Ele retrata o limiar entre o sono e a vigília, evocando as antigas práticas de feitiçaria e xamanismo nórdico (Seiðr), onde o isolamento na natureza, o fogo e a fumaça servem de conduíte para desligar a mente do mundo físico e navegar pelo inconsciente.

Musicalmente, a obra transita pelo Pagan e Dark Ambient, com fortes traços de Neofolk e Dungeon Synth, priorizando drones contínuos, tambores xamânicos e texturas soturnas para criar uma atmosfera hipnótica e meditativa, muito alinhada a uma vertente mais abstrata do folk nórdico. Suas influências conceituais bebem diretamente da literatura das Sagas e da Poética Edda - em especial relatos como Baldrs Draumar, onde os sonhos prenunciam o inevitável -, mas também dialogam com a Psicologia Analítica de Carl Jung, tratando o sonho como a linguagem pura dos arquétipos e do inconsciente coletivo. Além disso, há um fundo do Romantismo Sombrio e do Existencialismo, expressos pelo fascínio pela solidão, pelo sublime da natureza selvagem e pelo confronto do indivíduo com o mistério e com a sua própria sombra.
Mary Anlezark vive e produz o seu trabalho a partir da Austrália.

Vale a pena rever e ouvir:
Viktor Orri Árnason - Hino da Terra

sábado, 25 de julho de 2026

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Beowulf & Grendel (2005)

A versão original do filme Beowulf & Grendel (2005) é, de facto, em língua inglesa, contando com um elenco de várias nacionalidades, onde se destaca o ator escocês Gerard Butler no papel do herói e o sueco Stellan Skarsgård como Rei Hrothgar. Quanto à sua origem, a obra é uma coprodução internacional entre o Canadá, a Islândia e o Reino Unido, tendo sido realizada pelo cineasta canadiano de origem islandesa Sturla Gunnarsson. Rodada na íntegra nas paisagens austeras e vulcânicas da Islândia, a produção enfrentou condições meteorológicas extremas para construir um estilo visualmente cru, realista e visceral. Afastando-se do espetáculo de efeitos visuais habitual em Hollywood, o filme adota um tom naturalista e desconstruído, marcado pela presença constante da lama, do sangue e de um ambiente gélido que reflete a dureza do período medieval.

O enredo reinterpreta a lenda clássica ao dar uma motivação humana e trágica ao conflito. Na infância, Grendel presenciou o assassinato injustificado do seu pai pelas mãos do rei dinamarquês Hrothgar. Anos mais tarde, transformado num gigante de força descomunal, o «monstro» regressa para cobrar vingança contra o rei e os seus guerreiros. Quando o heroico Beowulf atravessa o mar com a sua comitiva para libertar o reino, acaba por investigar o passado e aproxima-se de Selma, uma bruxa marginalizada pela comunidade. Ao compreender que a fúria de Grendel deriva de um trauma e de um desejo de justiça contra a crueldade do próprio rei, Beowulf vê-se mergulhado num profundo conflito moral sobre a verdadeira natureza da sua missão e do seu código de honra.

Apesar de a narrativa assentador em elementos lendários, o enquadramento histórico remete para a Escandinávia do século VI, retratando o quotidiano de tribos como os Danos e os Geats no atual território da Dinamarca e da Suécia. O filme reflete com precisão a estrutura social de clãs da época, onde a honra e as vinganças de sangue eram centrais para a sobrevivência. No plano mitológico, a obra opta por desmistificar as lendas nórdicas: Grendel deixa de ser um demónio e passa a ser retratado como um ser de carne e osso, uma espécie de neandertal ou hominídeo pré-histórico que a ignorância dos homens rotulou de «troll». Além disso, explora-se o momento de transição religiosa em que o paganismo ancestral e o culto à natureza começam a ser confrontados com a chegada do Cristianismo.

As influências literárias e filosóficas do filme combinam a tradição antiga com a crítica moderna. A base fundamental é o poema épico anónimo Beowulf, uma das obras basilares da literatura em inglês antigo, mas a grande inspiração concetual vem do romance Grendel (1971), escrito por John Gardner, que deu voz e subjetividade à criatura. Do ponto de vista filosófico, o filme abraça o relativismo moral e explora a alteridade, questionando quem é o verdadeiro monstro . se a criatura que reage à violência ou a civilização que comete atrocidades em nome da glória. Subverte-se assim o mito do herói imaculado, demonstrando como a história oficial costuma ser moldada pelos vencedores para encobrir a sua própria barbárie.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Leonard Cohen - Happens to the Heart


Depois da deslumbrante “The Goal”, “Happens To The Heart” é a nova e lindíssima canção extraída de “Thanks For The Dance”. O álbum póstumo de Leonard Cohen, compilado e produzido pelo seu filho, chega dia 22 de Novembro.

Quando Leonard Cohen morreu em 2016, deixou-nos a imensa riqueza de uma vasta e luxuosa discografia. Essa riqueza irá ser aumentada. Dia 22 de Novembro é a data de chegada de um novo álbum póstumo, “Thanks For The Dance”. Depois da curta, mas deslumbrante canção “The Goal”, o primeiro single deste trabalho, estreou hoje a lindíssima “Happens To The Heart”.

A canção está acompanhada de vídeo realizado por Daniel Askill. Nele, seguimos uma figura, que pretende evocar o próprio Cohen, através de um bosque. No decorrer do vídeo descobrimos um jovem que se despe das roupas de Cohen e, ao encontrar um monge, assume roupas monásticas orientais, dirigindo-se então a um precipício onde se senta em meditação.

“Happens to the Heart é uma reflexão final de Leonard Cohen sobre a própria vida, unindo espiritualidade, memória, amor e mortalidade. A canção funciona como um testamento íntimo em que Cohen revisita diferentes versões de si mesmo — o monge zen, o poeta, o amante, o homem falho — e tenta compreender o que realmente acontece ao coração depois de tudo aquilo que nos forma e nos destrói. Ele fala da busca sincera pela iluminação e da constatação inevitável das próprias imperfeições, reconhecendo que, apesar de ter trilhado caminhos espirituais rigorosos, nunca conseguiu escapar totalmente do ego e da vaidade. O amor também surge como força central: ora ilumina, ora fere, deixando marcas que moldam o coração ao longo da vida. A pergunta repetida, “What happens to the heart?”, sintetiza a dúvida essencial do fim da vida: o que resta de nós quando as paixões, as ambições e as ilusões se esgotam? Escrito quando Cohen já estava muito doente, o poema-musical transmite um olhar terno e lúcido sobre as memórias, as falhas e o legado pessoal, revelando um homem que busca não respostas definitivas, mas aceitação.

“Thanks For The Dance” foi compilado e produzido por Adam Cohen, filho do cantor. O álbum conta com as participações de Feist, Beck, Damien Rice, Richard Reed Parry, Bryce Dessner (dos National) e Daniel Lanois, entre outros.

I was always working steady
But I never called it art
I was funding my depression
Meeting Jesus reading Marx
Sure it failed my little fire
But it's bright the dying spark
Go tell the young messiah
What happens to the heart

There’s a mist of summer kisses
Where I tried to double-park
The rivalry was vicious
And the women were in charge
It was nothing, it was business
But it left an ugly mark
So I’ve come here to revisit
What happens to the heart

I was selling holy trinkets
I was dressing kind of sharp
Had a pussy in the kitchen
And a panther in the yard
In the prison of the gifted
I was friendly with the guard
So I never had to witness
What happens to the heart

I should have seen it coming
You could say I wrote the chart
Just to look at her was trouble
It was trouble from the start
Sure we played a stunning couple
But I never liked the part
It ain’t pretty, it ain’t subtle
What happens to the heart

Now the angel’s got a fiddle
And the devil’s got a harp
Every soul is like a minnow
Every mind is like a shark
I've opened every window
But the house, the house is dark
Just say Uncle, then it's simple
What happens to the heart

I was always working steady
But I never called it art
The slaves were there already
The singers chained and charred
Now the arc of justice bending
And the injured soon to march
I lost my job defending
What happens to the heart

I studied with this beggar
He was filthy he was scarred
By the claws of many women
He had failed to disregard
No fable here no lesson
No singing meadow lark
Just a filthy beggar blessing
What happens to the heart

I was always working steady
But I never called it art
I could lift, but nothing heavy
Almost lost my union card
I was handy with a rifle
My father's 303
We fought for something final
Not the right to disagree

June 24, 2016

"Happens to the Heart" é uma meditação profunda e desiludida sobre o balanço final de uma vida dedicada à arte, ao espírito e ao desejo. Nesta canção, Leonard Cohen apresenta-se não como um mestre iluminado, mas como um sobrevivente exausto que, após percorrer todos os caminhos possíveis — a religião, a política, o sexo e a fama —, conclui que nada disto o poupou ao desgaste inevitável da existência.

A letra funciona como um inventário de máscaras que ele usou. Quando ele diz que "vendia quinquilharias sagradas" ou que "andava bem vestido", está a admitir, com uma ironia fina, que a sua imagem de poeta espiritual era também uma espécie de encenação. Ele descreve a sua busca por respostas (citando o encontro entre o sagrado de Jesus e o materialismo de Marx) como uma tentativa fútil de "financiar a depressão", sugerindo que as ideologias foram apenas distrações para uma dor interna que nunca desapareceu.

Um dos pontos centrais da música é a ideia da perda de inocência e a aceitação do fracasso. Cohen fala de um "mendigo imundo" com quem estudou, que foi incapaz de resistir às tentações das mulheres, servindo como um espelho do próprio Cohen: um homem que, apesar de procurar a transcendência, nunca deixou de ser escravo da sua natureza humana e dos seus apetites. Não há aqui uma lição moralista ou um final feliz; há apenas a constatação de que o coração, ao longo do tempo, é inevitavelmente marcado, endurecido e "ferido" pelas experiências.

O uso de termos como o "cartão do sindicato" ou o "rifle do pai" reforça a ideia de que ele encarou a vida e a escrita como um trabalho braçal, uma luta constante ("working steady"). No fim, a casa está escura e todas as janelas estão abertas, simbolizando um homem que já não tem segredos nem defesas. A canção é, em última análise, um gesto de rendição elegante. Cohen diz-nos que, independentemente do sucesso que alcancemos ou da sabedoria que acumulemos, o destino final é sempre o mesmo: a aceitação estóica do dano que a vida inflige ao coração.

sábado, 29 de novembro de 2014

Aafje Heynis: Return, o God of hosts (Samson) by Haendel


Samson é considerado um dos melhores trabalhos dramáticos de Händel. 
Uma canção de Handel por dia, nem imagina o bem que lhe fazia.

"Return, O God of hosts! Behold
Thy servant in distress,
His mighty griefs redress,
Nor by the heathen be it told."

A obra "Samson" de George Frideric Handel é um oratório dramático que retrata os últimos momentos de vida e o sacrifício final do herói bíblico Sansão. Ao contrário de outras versões que se focam nas suas proezas físicas, Handel dedica-se a explorar a jornada espiritual e o tormento psicológico de um homem que perdeu tudo, mas que encontra a redenção através da fé.

A narrativa começa com Sansão num estado de profunda humilhação: está cego, acorrentado e condenado a trabalhos forçados pelos filisteus. Através de diálogos e árias de grande carga emocional, o oratório descreve o confronto de Sansão com o seu passado, especialmente quando é visitado por Dalila, que tenta justificar a sua traição, e pelo gigante Harapha, que o ridiculariza pela sua atual condição de fraqueza. Estes encontros servem para mostrar a evolução interna do protagonista, que passa do desespero e da autocomiseração para uma renovada confiança em Deus.

O clímax da obra ocorre durante o festival em honra do deus pagão Dagon, onde Sansão é levado para ser exibido como um troféu. Num ato final de coragem e força divina, ele derruba as colunas do templo, sacrificando a sua vida para destruir os opressores do seu povo. Handel utiliza a música de forma magistral para contrastar a solenidade das preces israelitas com o júbilo ruidoso dos filisteus, culminando numa celebração de triunfo espiritual que transforma a tragédia da morte de Sansão num momento de glória e libertação.

Curiosidade: Na época em que compôs Samson, o próprio Handel estava a começar a sofrer com problemas de visão, o que muitos estudiosos acreditam ter trazido uma carga emocional extra e muito pessoal à ária "Total eclipse! No sun, no moon!", onde Sansão lamenta a sua cegueira.

Duas performances elegantes:

The English Concert

The Cambridge Chamber Ensemble

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Etnobotânica- o balsamo de Gileade

O bálsamo-de-Gileade, secreção vegetal extraída da planta Commiphora gileadensis, era, para os Hebreus, uma substância com propriedades medicinais maravilhosas. Um bálsamo para o espírito, que estimulava a transcendência. Durante séculos a sua recolha e comércio foram estritamente regulados. O seu preço era superior ao do ouro.
Uma tradição refere que as plantas foram trazidas do sul da península arábica, pela Rainha de Sabá, e oferecidas ao rei Salomão, que as teria mandado plantar junto do monte de Gileade. Foi assim que Georg Haendel recriou "A Chegada da Rainha de Sabá", na oratória "Salomão"

sexta-feira, 7 de junho de 2013

125 anos que nasceu Pessoa- um tributo pouco conhecido

Pessoa- um tributo pouco conhecido, mas que comprova uma vez mais o universalismo pessoano


«Mar Português», Arthur Bliss 

A obra coral que aqui se selecciona é uma criação singular no percurso de Arthur Bliss. Ela não faz parte do reportório standard internacional. Apesar das afinidades, em Portugal, o Grupo Vocal IDEA terá sido um dos seus poucos intérpretes (nos anos 90, este grupo de câmara reunia alguns alunos, ou ex-alunos, da Escola de Música do Conservatório Nacional, sob a direcção de Paulo Brandão – foi aí que conheci esta página coral). Trata-se de uma obra para coro (SATB, a cappella) sobre um dos poemas mais conhecidos de Fernando Pessoa, numa «tradução livre» para língua inglesa, realizada por Alan Goodison.
A obra resultou de uma encomenda do Primeiro-Ministro do Reino Unido, Edward Richard George Heath, para um jantar oferecido em honra do seu homólogo português, Marcelo Caetano, realizado no Royal Naval College, no dia 16 de Julho de 1973. A estreia coube ao grupo vocal St. Margaret’s Singers, sob a direção de Martin Neary. Este acontecimento diplomático celebrava o 600º aniversário da aliança anglo-portuguesa.
Em 1950, a coroa inglesa tinha atribuído a Arthur Bliss o título de Master of the Queen’s Music. Esta fase da sua vida corresponde a uma mais evidente presença de criações para as cerimónias reais e outros acontecimentos diplomáticos – veio a falecer em 1975. Depois de um período marcado pelas vanguardas pós-stravinskianas, Bliss abraça a estética que prolonga a posteridade de Elgar na música britânica. As suas páginas mais conhecidas, resultam da sua criação para o cinema e para o teatro – o filme Things to Come (1943-45) será, talvez, o testemunho mais notável deste labor criativo. As influências coreográficas e cinematográficas trouxeram para a sua música uma grande intensidade dramática, que se exprime no uso colorístico das tensões harmónicas. Na obra que aqui se apresenta, esses recursos estão ao serviço da evocação de uma heroicidade nostálgica, que o compositor britânico descobre no poema de Pessoa. Na perícope poética «O sea» («Ó mar»), que abre e fecha a obra coral, ouve-se o anúncio de uma epopeia. por Alfredo Teixeira

Mais textos e crónicas sobre Fernando Pessoa no Bioterra.

sábado, 15 de setembro de 2007

Diamanda Galas - Aman (with Khan)



Às vezes qual mocho caçando em noites de luar intenso, me encantam as sibilas, vampiros e lobisomens...e todas essas trevas densas que povoam os nossos medos, frustrações e dor. Diamanda Galas exprime-as com muita mestria.