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domingo, 4 de outubro de 2026

Helena Freitas: a ciência por uma agenda de paz


A doutora em Ecologia e titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável ensina-nos como a transição energética, a produção de alimentos e a regeneração dos ecossistemas se relacionam com a igualdade.

As videiras subiam vertiginosamente e, ao passarem de uma à outra pelos ramos das árvores, estendiam as suas folhagens ao longo dos muros daquele sítio. Nos campos, entre montes e vales, crescia o milho na lavoura. Nos limites orientais de Vila Nova de Famalicão, corria o Pele e, nas suas margens, avançava uma indústria têxtil que então já completava um século de existência. Na década de 60, o Minho começava a repartir-se entre o campo e a urbe, enquanto novas fábricas abriam um futuro diferente à terra. Foi ali, onde uma natureza ainda selvagem se confundia com o quotidiano suado dos agricultores e operários, que nasceu a doutora Helena Maria de Oliveira Freitas (Mogege, 1962).

Esse ambiente haveria de permanecer, não apenas na sua memória, mas também como fonte do ímpeto que mais tarde levaria a cientista a investigar os mecanismos de funcionamento dos sistemas vivos. Ao relembrar a infância em busca das razões que a levaram a ser a mulher que se tornou, não escolhe, porém, a natureza como primeira inspiração. No seio da família, recebeu o carinho e o incentivo para viajar e explorar o mundo, crescer e indagar, uma liberdade que identifica como a razão mais profunda da sua trajectória. “Tive sempre um universo de muito amor à minha volta”, conta.

Ainda criança, passou dois anos em Angola, de onde recorda poucas coisas. A educação católica, vivida sem rigidez, e a prática do basquetebol deixaram-lhe marcas distintas. Da primeira, ficou-lhe a busca de um sentido de humanidade. Da segunda, o gosto pelo fazer colectivo. “Eu sempre gostei de construir e de trabalhar em equipa”, recorda. Mais adiante, a Biologia, que acreditava ser a ciência do século seguinte, apresentou-se como resposta à curiosidade que a movia: desvendar a lógica da vida.

Cresceu ao lado do Mondego, onde concluiu a licenciatura em Biologia na Universidade de Coimbra, em 1985. Antes de terminar o curso, já era monitora nas aulas práticas de Ecologia Vegetal. Passou a assistente estagiária, depois a assistente, e começou a ensinar Fisiologia Vegetal enquanto avançava na investigação. O doutoramento em Ecologia, concluído em 1993, em colaboração com a Universidade de Bielefeld, na Alemanha, levou-a a estudar os tricomas vesiculares de plantas do género Atriplex, estruturas foliares de espécies tolerantes à salinidade. Esse objecto microscópico continha uma pergunta. Como consegue a vida responder quando o ambiente a põe à prova? Vieram os sais, os metais, a contaminação do solo, a adaptação ao stress e a possibilidade de aprender com organismos resistentes para recuperar sistemas degradados.

“Eu sou uma fisiologista”, diz, quando perguntada sobre as mudanças no seu percurso científico. Não reconhece, porém, verdadeiras rupturas. A ecologia ajudava-a a formular os problemas; a fisiologia permitia-lhe procurar explicações. A ciência experimental, afirma, foi “vital”. Mais tarde, o campo de observação cresceria até às comunidades humanas, porque conservar a natureza sem as considerar se lhe tornara impossível.

As escalas da vida
Entre 1994 e 1996, o pós-doutoramento na Universidade de Stanford levou-a ao estudo dos efeitos ecofisiológicos do aumento do dióxido de carbono nos ecossistemas mediterrânicos. Trouxe daí uma convicção que transmitiria aos alunos. Quem investiga deve sair do próprio laboratório, conhecer outras culturas científicas, confrontar métodos e aprender a construir respostas com pessoas diferentes.

Em 1999, integrou a equipa internacional que publicou na Science um trabalho de referência sobre diversidade e produtividade em comunidades herbáceas europeias. Experiências em oito locais mostraram que a redução da riqueza de espécies fazia cair a biomassa produzida e, para o mesmo número de espécies, menos grupos funcionais estavam associados a menor produtividade. A biodiversidade deixava de aparecer apenas como património a conservar e mostrava consequências mensuráveis no funcionamento dos ecossistemas.

Das plantas passou às relações entre raízes, fungos e bactérias, à fitorremediação de solos contaminados, aos montados, às dunas, às espécies invasoras, à biodiversidade do solo, às alterações climáticas, à conservação e, mais recentemente, à agroecologia, aos sistemas alimentares e às relações entre conhecimento, natureza e sociedade. Foi aumentando a escala: da folha à planta, desta ao ecossistema, daí à paisagem e à humanidade. Em 2026, soma mais de 300 publicações científicas internacionais e mantém intensa actividade de investigação.

Quando lhe pedem os nomes mais importantes da sua caminhada, não começa pelos grandes mestres nem pelas instituições. “Os mais decisivos foram sempre os meus alunos”, responde. Junta-lhes investigadores, colaboradores e equipas que, diz, a ajudaram “a viver o caminho”. Reconhece neles uma fonte de aprendizagem e inspiração.

Em 2003, tornou-se professora catedrática. No ano seguinte, assumiu a direcção do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e a presidência da Sociedade Portuguesa de Ecologia. Seria ainda vice-presidente da Federação Europeia de Ecologia. É ao Jardim que regressa com particular afeição: a renovação daquele espaço, diz, foi “uma das experiências mais importantes” da sua vida académica.

Criou uma unidade dedicada à matriz ecológica, o actual Centro de Ecologia Funcional, reunindo investigadores de diferentes áreas em torno de problemas multidisciplinares. Entre 2011 e 2015, foi vice-reitora da Universidade de Coimbra e, em 2014, tornou-se titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável. “Entendi que também tinha a obrigação de participar e dar algum tempo para essa missão”, conta.

O dever de participar
Em 2015, foi eleita pelo círculo de Coimbra como independente nas listas do Partido Socialista e tornou-se deputada à Assembleia da República. Explica a decisão pelo que observara durante os anos da intervenção da troika, considerando que “a ciência, a academia e as universidades tinham sido duramente penalizadas”, num momento que julgava crítico para o país.

Em 2016, suspendeu o mandato parlamentar para coordenar a Unidade de Missão para a Valorização do Interior. A desigualdade territorial e social interpelava-a de outro modo. Populações afastadas de serviços, dificuldades no acesso à saúde e à educação, territórios que perdiam gente e oportunidades. Coordenou o Programa Nacional para a Coesão Territorial, mas depressa encontrou os limites da função. Diz ter percebido que “não tinha as condições materiais e políticas” para realizar a missão como desejava. “Achei que era mais útil fora do projecto”.

Distinguida com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, o Prémio Ernst Haeckel da Federação Europeia de Ecologia e o Grande Prémio Ciência Viva, ela completou anos na última quinta-feira. No dia seguinte, descreveu como uma “prenda inesperada e feliz” a oportunidade de estar com o Papa Leão XIV na UNESCO, em Paris. Reconhece no pontífice uma preocupação que também a move: transformar a relação das sociedades com o mundo natural. Para ela, a transição energética, a produção de alimentos e a regeneração dos ecossistemas são inseparáveis da igualdade.

Da natureza do Minho à ciência de Coimbra, a sua trajectória alargou-se, mas, quando explica o que a move, regressa à família e ao muito que dela recebeu. O amor e a liberdade da infância trouxeram, no seu entendimento, a responsabilidade de fazer frutificar o que lhe foi confiado. A ciência, a docência e a participação pública são formas de retribuir. Como as árvores do Norte em que as videiras se apoiam, a doutora Helena Freitas tem ajudado a fazer do conhecimento um amparo para que outras vidas floresçam. “A agenda ambiental é uma agenda de paz”, ensina.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A oliveira e a arte de resistir à seca

Pode visualizar o cartaz, com mais detalhe aqui

Sempre me fascinou a sobrevivência das espécies em condições extremas, em particular a das árvores quando a água escasseia. Presas ao lugar onde nasceram, atravessam décadas (por vezes séculos) expostas ao sol, ao vento e à incerteza da chuva. Não podem procurar sombra nem seguir a água. Ainda assim, têm de a transportar das raízes até às folhas, mantendo em funcionamento essa extraordinária maquinaria que transforma luz em vida.

Poucas árvores encarnam tão bem esta capacidade como a oliveira. O tronco retorcido e o brilho prateado das folhas parecem guardar a memória de muitos verões. Quando o calor seca os campos, a oliveira resiste. Algumas vivem séculos e persistem mesmo em condições de grande aridez. Em Portugal, as oliveiras antigas são também arquivos vivos da paisagem e da relação entre as comunidades humanas e o território.

Como é possível tamanha resistência? Não existe um único segredo, mas uma combinação de soluções afinadas pela evolução. Quando a água falta, a oliveira fecha os estomas, pequenos poros das folhas responsáveis pelas trocas gasosas. Ao fazê-lo, reduz a transpiração e conserva água. Os estomas concentram-se na face inferior da folha, protegidos por uma densa camada de tricomas prateados, que ajuda a limitar a perda de água sem impedir as trocas gasosas. As folhas estreitas, espessas e coriáceas revelam uma anatomia moldada para enfrentar a secura. A superfície foliar reflete parte da radiação e a orientação das folhas pode também alterar-se, reduzindo a exposição nos períodos de maior intensidade luminosa. A oliveira parece imóvel, mas está permanentemente a ajustar o seu funcionamento ao ambiente.

Uma parte decisiva desta história acontece debaixo do solo. O sistema radicular é plástico: adapta a sua arquitetura à distribuição da água e explora diferentes volumes de solo à medida que as condições se alteram. É como se procurasse, em profundidade e em extensão, as reservas de uma paisagem que começa a secar.

Mas a seca traz outro perigo. À medida que o solo perde água, aumenta a tensão nas colunas de água que percorrem o xilema. Se essa tensão se tornar excessiva, podem formar-se bolhas de ar capazes de interromper o transporte entre raízes e folhas. Também aqui a anatomia conta. A arquitetura hidráulica da oliveira, assente numa rede de numerosos vasos condutores, muitos deles relativamente estreitos, ajuda a limitar a propagação destas falhas e a manter o transporte de água mesmo quando algumas vias deixam de funcionar. Nada disto é um milagre. É biologia e evolução: uma engenharia de sobrevivência construída lentamente sob o sol e a seca do Mediterrâneo.

Oliveira mais antiga de Portugal fica na Herdade do Peso, tem 3.712 anos [toda a história aqui]

Ao longo de milhares de anos, a oliveira evoluiu num ambiente marcado pela irregularidade da água, mas o clima mediterrânico está a mudar. As temperaturas aumentam, a precipitação torna-se mais incerta, as ondas de calor intensificam-se e as secas podem tornar-se mais longas e severas. É tentador olhar para uma espécie tão resistente e imaginar que resistirá sempre, mas tal não significa invulnerabilidade. Todas as adaptações têm limites.

A oliveira mostra-nos a extraordinária capacidade da vida para se adaptar e o perigo de imaginarmos que essa capacidade é infinita. Talvez essa seja uma das grandes lições das plantas: não sobrevivem porque dominam o ambiente, mas porque a evolução lhes permitiu responder às suas variações e viver dentro dos limites que ele impõe.

Num clima em mudança, talvez também nós tenhamos de aprender essa lição: compreender melhor os limites, respeitar os ritmos da natureza e perguntar menos que espécies poderão substituir as atuais, e mais que condições teremos de preservar para que as nossas paisagens continuem vivas.

Helena Freitas - Diário de Coimbra, 22.09.2026

Saber mais:

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O despovoamento e a perda da vida colectiva

O desafio do despovoamento atravessa territórios e países segundo lógicas convergentes, embora assuma expressões distintas em função da sua matriz biofísica, económica e cultural. Em muitos territórios rurais repete-se um mesmo processo: envelhecimento, saída dos mais jovens, retração dos serviços, redução das oportunidades económicas e perda gradual da capacidade de atrair novo investimento. Em sentido contrário, cidades e regiões metropolitanas concentram talento, criatividade, emprego, cultura, mobilidade e investimento, alimentando a perceção de que é aí que acontece a modernidade. A cidade torna-se não apenas um lugar onde existem mais oportunidades, mas também o lugar onde parece possível imaginar o futuro. 

Mas o despovoamento não significa apenas menos pessoas. Significa também menos relações, menos redes de proximidade, menos capacidade coletiva e menos instituições capazes de sustentar a vida quotidiana. Quando desaparece uma escola, encerra um estabelecimento comercial ou se perde um serviço de saúde, não desaparece apenas uma função: desaparece também um lugar de encontro e uma parte da infraestrutura social que mantém uma comunidade viva. O território vai perdendo aquilo que poderíamos chamar a sua densidade relacional. E essa perda pode criar um círculo difícil de inverter: menos população reduz serviços e oportunidades; menos serviços e oportunidades tornam o território ainda menos atrativo.

É por isso que será insuficiente procurar revitalizar estes territórios apenas através de incentivos financeiros ou da instalação pontual de atividades económicas. A pergunta fundamental é outra: como criar condições para que nestes lugares seja novamente possível construir um projeto de vida? Isso implica emprego, habitação, mobilidade e conectividade digital, naturalmente, mas também educação, cultura, espaços de encontro, serviços de proximidade e capacidade de decisão local. Um território resiliente não é apenas aquele que conserva recursos naturais; é aquele que conserva e renova a sua capacidade de criar comunidade.

Existe, simultaneamente, uma oportunidade. Num contexto de alterações climáticas, transição energética, transformação dos sistemas alimentares e procura crescente de qualidade ambiental, os territórios rurais deixam de poder ser vistos simplesmente como periferias das cidades. São espaços onde se encontram muitos dos recursos estratégicos das próximas décadas: água, solo, biodiversidade, floresta, produção alimentar, energia renovável e capacidade de armazenamento de carbono. Mas seria um erro transformar esta riqueza numa nova relação extrativa, em que os territórios fornecem serviços essenciais às áreas metropolitanas sem que o valor criado permaneça localmente.

Reinventar estes territórios significa, portanto, transformar os seus ativos naturais em capacidade económica, social e institucional, criando valor acrescentado local e novas oportunidades para quem aí vive ou queira regressar. E exige reconhecer que soluções desenhadas a partir de modelos excessivamente centralizados dificilmente responderão à enorme diversidade destes lugares. A questão não é simplesmente deixar a natureza ocupar o espaço abandonado, nem tentar reproduzir em pequena escala o modelo urbano; é construir um modelo diferente de modernidade territorial, menos dependente da concentração, mas igualmente capaz de oferecer futuro. 

Um território pode conservar floresta, biodiversidade ou paisagens extraordinárias e, ainda assim, tornar-se progressivamente mais vulnerável se perder pessoas, confiança, redes locais e capacidade de ação coletiva. Nesse sentido, a infraestrutura social pode ser tão determinante para a resiliência de um território como a sua infraestrutura física ou ecológica.

Um território começa a desaparecer muito antes de ficar sem pessoas: desaparece quando deixa de ser possível imaginar nele um futuro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A relação íntima com a Natureza: porque cuidar do mundo vivo é cuidar de nós


Existe uma ligação afetiva singular entre as pessoas e os ecossistemas que habitam. Uma ligação que se constrói na convivência de todos os dias, na familiaridade com uma paisagem, no reconhecimento dos seus sons, dos seus cheiros, das suas estações. Uma intimidade feita de tempo, de memória e de pertença. E não apenas porque desses lugares retiramos sustento, rendimento ou condições de sobrevivência.

Há algo mais profundo. Algo que não cabe na lógica da utilidade ou do benefício. Há lugares que se tornam parte de nós, tal como nós nos tornamos parte deles. Lugares onde reconhecemos quem somos e aos quais sentimos, quase instintivamente, que devemos cuidado. É dessa pertença que nasce o respeito; e desse respeito, a vontade de proteger. Não por obrigação, mas porque cuidar daquilo a que pertencemos é também uma forma de cuidarmos de nós próprios.

Neste diálogo, tornou-se particularmente evidente o quanto empobrecemos as nossas vidas quando perdemos essa proximidade. Ao afastarmo-nos dos territórios, dos ciclos naturais e das múltiplas formas de vida que nos acompanham, deixámos adormecer qualquer coisa de essencial em nós. Perdemos gestos, memórias, afetos e até palavras. Perdemos, talvez, a capacidade de escutar a poesia que existe na reciprocidade - na consciência simples e profunda de que não estamos perante a natureza, como quem observa algo exterior a si. Somos natureza. Pertencemos a esse mundo vivo e ele também nos habita.

Talvez seja precisamente essa ausência que hoje sentimos; essa erosão lenta e quase imperceptível do encantamento, da proximidade e da pertença. Porque a falta de poesia nas nossas vidas talvez comece aí: no momento em que esquecemos que existe uma relação íntima, ancestral e indivisível entre aquilo que somos e o mundo vivo que nos rodeia.

sábado, 20 de junho de 2026

O relógio climático está a acelerar

Durante anos, limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi o objetivo mais ambicioso do acordo de Paris e a principal referência da ação climática internacional. Hoje, esse objetivo está muito próximo de falhar. Um novo estudo internacional, publicado na revista Earth System Science Data, conclui que o aquecimento provocado pelas atividades humanas poderá atingir este limiar já no final da década, mais cedo do que se previa.
O estudo reuniu mais de setenta investigadores de vários países e analisou os principais indicadores do estado do sistema climático global. Em vez de se focar em projeções para o final do século, avaliou a evolução observada do aquecimento global, das emissões de gases com efeito de estufa, do desequilíbrio energético da Terra e da margem de emissões ainda disponível.
Os resultados são claros: o clima está a mudar a um ritmo alarmante. Em 2025, o aquecimento global causado pelas atividades humanas atingiu cerca de 1,37 °C acima dos níveis pré-industriais. Mantendo-se a trajetória atual de emissões, torna-se altamente provável ultrapassar o limite de 1,5 °C em poucos anos.
Um dos sinais mais preocupantes é a rápida redução do chamado “orçamento” de carbono, ou seja, a quantidade de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida sem comprometer a meta dos 1,5 °C. Segundo os investigadores, restam apenas cerca de 130 mil milhões de toneladas de CO₂. Ao ritmo atual, essa margem poderá esgotar-se em apenas três anos.
As emissões globais de gases com efeito de estufa continuam próximas de máximos históricos. Em 2024 atingiram cerca de 56,8 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Apesar dos avanços registados em alguns países e setores, a redução global continua demasiado lenta para inverter a trajetória do aquecimento.
Ao mesmo tempo, a Terra continua a acumular energia. Grande parte desse excesso de calor é absorvido pelos oceanos, acelerando o aquecimento das águas, intensificando as ondas de calor marinhas e agravando a subida do nível médio do mar. Entre 2006 e 2025, o nível médio dos oceanos aumentou cerca de 3,7 milímetros por ano, um ritmo superior ao observado durante grande parte do século XX.
Os impactos já são evidentes em todo o mundo. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais de grande dimensão e episódios extremos de precipitação tornaram-se mais frequentes e destrutivos. Fenómenos outrora considerados excecionais começam a integrar a nova realidade climática.
Apesar da gravidade das conclusões, os autores sublinham que o futuro climático não está totalmente determinado. Cada décima de grau de aquecimento evitada reduz riscos para as populações, as economias e os ecossistemas. A diferença entre limitar o aquecimento a 1,6 °C, 1,8 °C ou 2 °C traduz-se em impactos muito distintos na frequência de fenómenos extremos, na subida do nível do mar e na capacidade de adaptação das sociedades.
O mundo aproxima-se rapidamente de um limite que durante anos procurou evitar. A margem para reduzir os danos continua a existir, mas está a diminuir a uma velocidade sem precedentes. As decisões tomadas nesta década, sobre energia, transportes, indústria e uso do território, terão influência direta no clima das próximas gerações. A diferença entre agir agora e adiar decisões não se mede apenas em décimas de grau: mede-se em vidas, em segurança, em estabilidade económica e na capacidade de preservar um planeta habitável.
Helena Freitas - Diário de Coimbra, 16.06.2026

sábado, 6 de junho de 2026

Saber não basta - décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento

O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap) [relatório disponível aqui]

Nunca soubemos tanto sobre o clima. Os modelos atmosféricos tornaram-se mais sofisticados, as redes de monitorização produzem dados em tempo quase real e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) oferecem diagnósticos cada vez mais robustos sobre os riscos associados às trajetórias atuais de desenvolvimento. Paradoxalmente, quanto mais sólido se torna o conhecimento científico, mais insuficiente se revela para promover a transformação social, económica e política que os próprios dados reclamam.

O problema central do nosso tempo já não é a falta de informação. O verdadeiro desafio reside no fosso persistente entre aquilo que sabemos e o que fazemos. Décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento. Quando os riscos são percecionados como distantes, abstratos ou excessivamente complexos, a consciência do problema não se traduz necessariamente em ação.

Esta dificuldade é agravada pela natureza sistémica das crises contemporâneas. Os desafios atuais não surgem de forma isolada. Pelo contrário, interagem entre si de forma não linear. As alterações climáticas afetam a segurança alimentar e hídrica; a instabilidade energética amplia desigualdades económicas; as tensões geopolíticas comprometem respostas coordenadas a problemas globais; e a degradação dos ecossistemas aumenta vulnerabilidades sociais preexistentes. Vivemos numa realidade marcada pela interdependência, na qual perturbações localizadas podem produzir efeitos em cascata à escala planetária.

Durante décadas, as sociedades habituaram-se a interpretar as crises como interrupções temporárias da normalidade. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente. A sucessão de choques ambientais, económicos e geopolíticos sugere que a instabilidade deixou de ser uma exceção para se transformar numa condição. Adaptar-se à incerteza tornou-se uma exigência permanente.

Esta transformação tem consequências profundas. A exposição prolongada a narrativas de risco e urgência gera uma ansiedade difusa, alimentada pela perceção de que os problemas se acumulam mais rapidamente do que a capacidade coletiva para os resolver. A dificuldade crescente em imaginar futuros estáveis e desejáveis converte-se num fator de vulnerabilidade por direito próprio.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. A repetição constante de alertas pode reduzir gradualmente a intensidade da resposta emocional. Embora este mecanismo tenha valor adaptativo no curto prazo, pode tornar-se contraproducente quando prolongado. A preocupação converte-se em resignação, a confiança nas instituições enfraquece e as decisões passam a orientar-se pelo imediato. Um dos maiores riscos das sociedades contemporâneas poderá não ser apenas a multiplicação das crises, mas a erosão da capacidade coletiva para lhes responder.

No entanto, são muitos os progressos alcançados. A expansão das energias renováveis acelerou a um ritmo histórico, os custos da energia solar e do armazenamento diminuíram drasticamente e a capacidade científica para prever fenómenos extremos melhorou de forma notável. Estes avanços demonstram que a inovação, a cooperação e o investimento de longo prazo podem produzir mudanças significativas.

Sabemos hoje mais sobre os riscos que ameaçam as sociedades humanas do que em qualquer outro momento da história. Dispomos de conhecimento científico, capacidade tecnológica e experiência acumulada para enfrentar muitos desses desafios. O verdadeiro teste do nosso tempo já não reside na produção de mais informação, mas na capacidade de traduzir conhecimento em decisão, cooperação e compromisso coletivo. Saber continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente.
Diário de Coimbra, 02/06/2026

Leituras recomendadas:
A. O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap)
A premissa de que "dar informação não muda comportamentos" é o calcanhar de Aquiles da comunicação de ciência.
  • George Marshall (Livro: Don't Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change): Este livro explora exatamente o que a autora descreve: como o cérebro humano lida mal com riscos abstratos, distantes no tempo e geograficamente distantes.

  • Per Espen Stoknes (Livro: What We Think About When We Try Not To Think About Global Warming): Stoknes, um psicólogo e economista norueguês, identificou as "5 barreiras psicológicas" para a ação climática (Distância, Destruição, Dissonância, Negação e Identidade). O texto de Helena Freitas reflete quase diretamente o trabalho de Stoknes ao falar sobre a "redução da resposta emocional" e a "resignação".

B. O Conceito de Policrise e Efeitos em Cascata
A secção sobre crises que "interagem entre si de forma não linear" bebe diretamente da literatura sociológica contemporânea.
  • Adam Tooze (Historiador e Economista): Popularizou o termo "Policrise" para descrever como a crise climática, a geopolítica, a inflação e as pandemias já não são eventos isolados, mas uma rede interligada onde um choque amplifica o outro.

  • Thomas Homer-Dixon (Artigos sobre Complex Systems and Cascading Regimes): Investigador que estuda como o stress ecológico interage com o stress económico e político, levando ao colapso ou à necessidade de resiliência sistémica.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência


Neste Dia recordamos que a ciência não é apenas uma busca de conhecimento; é uma força poderosa para moldar um futuro melhor. Acredito que a ciência deve promover, com audácia, a descoberta fundamental, impulsionar a inovação transformadora e converter o conhecimento em soluções que reforcem o bem-estar humano, ao mesmo tempo que protegem o nosso planeta.

Para cumprir esta missão, a ciência deve incorporar os mais elevados padrões de integridade, responsabilidade pública e responsabilidade social. A confiança, a transparência e o rigor ético são essenciais para que o progresso científico sirva verdadeiramente a sociedade. Quando conduzida de forma responsável e inclusiva, a ciência torna-se um esforço partilhado, beneficiando todos.

A ciência deve também desempenhar um papel mais determinante na melhoria da vida das pessoas e das comunidades em todo o mundo. Da saúde e educação à resiliência climática e ao desenvolvimento sustentável, o seu impacto deve ser equitativo, global e orientado para o futuro.

Alcançar esta visão exige uma mudança profunda, afastando-nos de modelos assentes no consumo e avançando para sistemas mais sustentáveis e regenerativos. Tal transformação só será possível através de um envolvimento significativo entre a ciência e a sociedade, e garantindo que mulheres e raparigas estejam plenamente capacitadas para participar, liderar e inovar.

Quando vozes diversas estão representadas na ciência, a descoberta torna-se mais rica, as soluções tornam-se mais robustas e o futuro torna-se mais justo. Apoiar mulheres e raparigas na ciência não é apenas uma questão de igualdade: é essencial para construir o mundo sustentável e inclusivo que aspiramos criar.

Relatório:
She figures 2024
The International Day of Women and Girls in Science Official Website

sábado, 31 de janeiro de 2026

Porque caem tantas árvores durante as tempestades?


Nos últimos anos Portugal tem assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas. Embora estes episódios sejam muitas vezes percecionados como acontecimentos súbitos ou inevitáveis, a ciência mostra que não se trata de fenómenos aleatórios. Pelo contrário, a queda de árvores resulta da combinação previsível entre condições do solo, características das próprias árvores, contextos urbanos e florestais, e eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

Um dos fatores críticos é o estado do solo. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades.

A idade das árvores e o tipo de povoamento também desempenham um papel decisivo. Árvores jovens, comuns em plantações recentes, ainda não desenvolveram sistemas radiculares profundos e extensos. Em florestas mais maduras, as raízes entrelaçam-se e criam uma estabilidade coletiva que ajuda a dissipar a força do vento. Em contraste, povoamentos jovens e homogéneos – muitas vezes compostos por árvores da mesma idade e espécie – são estruturalmente mais frágeis, o que explica porque grandes áreas podem ser afetadas de forma simultânea durante eventos extremos.

Nas cidades, o problema tende a ser ainda mais grave. As árvores urbanas vivem sob múltiplos fatores de stress: solos compactados, pouco espaço para enraizar, impermeabilização do terreno, poluição, temperaturas elevadas e podas excessivas ou mal executadas. Ao longo do tempo, estas condições enfraquecem as árvores, favorecem o desenvolvimento de podridões internas e reduzem a sua capacidade de resistir ao vento. Como resultado, as árvores urbanas têm maior probabilidade de falhar, seja pelo arranque da raiz, seja pela quebra do tronco ou dos ramos.

As próprias tempestades amplificam estes riscos. A força exercida pelo vento aumenta rapidamente com a sua velocidade, e as copas molhadas pela chuva tornam-se mais pesadas e oferecem maior resistência ao ar. As rajadas provocam movimentos repetidos que “cansam” o tronco e o sistema radicular, acelerando a falha estrutural, sobretudo quando o solo já se encontra saturado.

Este cenário é agravado pelo contexto das alterações climáticas. Em Portugal, é cada vez mais comum a sucessão de longos períodos de seca – que debilitam as árvores – seguidos de episódios de chuva intensa e tempestades severas. Estes eventos combinados aumentam significativamente o risco de queda, uma vez que as árvores não têm tempo suficiente para recuperar nem para adaptar a sua estrutura às novas condições.

Em suma, a queda de árvores durante tempestades é um fenómeno explicável e, até certo ponto, previsível. Resulta da interação entre solos encharcados, sistemas radiculares pouco desenvolvidos, stress fisiológico (particularmente em ambientes urbanos) e eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes.

Se queremos continuar a viver com árvores, e a beneficiar dos múltiplos serviços ecológicos, climáticos e sociais que prestam, é imperativo preparar não apenas as infraestruturas físicas, mas também as infraestruturas naturais. Isso implica reconhecer que árvores não são elementos decorativos nem obstáculos urbanos, mas organismos vivos que dependem de solos funcionais, espaço para enraizar, diversidade estrutural e tempo para se adaptarem. A gestão do risco associado às tempestades futuras passa, portanto, por investir na qualidade dos solos, no desenho ecológico das cidades e das florestas, e numa abordagem preventiva baseada no conhecimento científico. Sem esta preparação sistémica, a coexistência com árvores tornar-se-á cada vez mais frágil num clima em rápida mudança.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Dia Nacional da Cultura Científica


A atribuição do Grande Prémio Nacional Ciência Viva 2025 enche-me de alegria profunda e de imensa gratidão. Recebo este reconhecimento com emoção, porque vem de uma instituição que representa a expressão viva da nossa cultura científica.

A Ciência Viva é uma das histórias mais inspiradoras e bonitas do nosso país. Conseguiu algo que parece simples, mas que é profundamente transformador: aproximar a ciência das pessoas. De todas as pessoas. 

A Ciência Viva não é apenas uma agência; é uma ideia tornada movimento. É uma arquitetura de oportunidades que, ao longo de quase três décadas, fez da ciência uma dimensão quotidiana da vida cívica, chegando a escolas, famílias, museus, autarquias, investigadores, artistas e comunidades locais — sempre com um programa coerente, exigente e, simultaneamente, inclusivo. A sua força reside precisamente na diversidade dos públicos a que chega e na capacidade de renovar continuamente as formas de diálogo entre ciência e sociedade.

Neste dia 24 de novembro, Dia Nacional da Cultura Científica, não posso deixar de evocar Rómulo de Carvalho — mestre da curiosidade, da poesia e do rigor — e recordar as palavras visionárias de Mariano Gago, que descreveu esta data como “um momento privilegiado de equilíbrio, reflexão e ação sobre o papel do conhecimento no nosso futuro”. Essa visão permanece viva na Ciência Viva: na forma como estimula o pensamento crítico, alimenta a imaginação e fortalece uma cidadania que não teme fazer perguntas.

A ciência inspira. Abre janelas. Dá linguagem às perguntas que trazemos dentro. E quando vemos crianças e jovens portugueses aproximarem-se dela com paixão, confiança e vontade de transformar, sentimos que há futuro. Um futuro que nasce do espanto, da coragem de pensar mais longe e da liberdade de imaginar.

A ciência tem este poder raro: despertar, em todas as idades, o impulso de descobrir, experimentar e compreender. Ver crianças e jovens encontrar na ciência não apenas uma paixão, mas também um propósito, é uma das maiores conquistas do nosso país democrático. É a prova de que investir na cultura científica é investir em liberdade, futuro e esperança.

Como bióloga, sinto ainda uma responsabilidade acrescida. Num tempo marcado por desafios ambientais sem precedentes, este prémio recorda-me que comunicar ciência, envolver comunidades e valorizar o conhecimento são atos essenciais de cuidado com a natureza e com o mundo vivo. A transição para uma sociedade que reconhece a sua interdependência ecológica só será possível com mais ciência, mais participação e mais cultura científica.

Por tudo isto, este prémio é, para mim, um estímulo e um compromisso renovado: continuar a contribuir para uma ciência presente, aberta, dialogante e capaz de inspirar mudança.
Muito obrigada.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cop30: Desmascarar os bloqueios e exigir acção real

Em novembro de 2025, Belém do Pará, no coração da Amazónia, acolherá a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30). O lugar não é neutro: é o epicentro de uma floresta que regula o clima global e, ao mesmo tempo, uma das regiões mais ameaçadas pela desflorestação, pela exploração predatória e pela desigualdade social. Realizar a COP na Amazónia é um gesto político e simbólico: o debate climático no território onde se decide o destino do planeta.

Mas o simbolismo não basta. O mundo chega a Belém dividido, com emissões recorde e promessas incumpridas. A diplomacia climática vive uma crise de confiança, e os interesses fósseis continuam a ditar o ritmo da ação global. A COP30 será, por isso, um momento de verdade sobre o futuro coletivo da humanidade.

A crise climática é hoje uma evidência incontornável. Secas, cheias e ondas de calor extremo afetam todos os continentes e o tempo para agir esgota-se. O clima precisa de todos, mas sobretudo precisa de coragem política.

Mais de metade das emissões globais provém de empresas estatais sediadas em regimes autoritários. Das vinte maiores companhias de combustíveis fósseis do mundo, dezasseis são públicas e controladas por governos como os da China, Rússia, Irão e Arábia Saudita. Estes países tornaram-se o principal travão à descarbonização. A Rússia usa a energia como arma geopolítica; a China, responsável por cerca de 30 % das emissões globais, continua a construir centrais a carvão; o Irão e a Arábia Saudita financiam a dependência global do petróleo e bloqueiam sistematicamente o avanço dos acordos internacionais. Enfrentar esta realidade é uma exigência civilizacional.

Durante demasiado tempo, a diplomacia internacional preferiu o silêncio à verdade. Tratou por igual quem age e quem sabota, quem investe na transição e quem lucra com a destruição. Esse modelo está esgotado: não se vence uma emergência planetária com concessões a quem nega o futuro.

Mas a hipocrisia não é exclusiva das autocracias. Democracias como o Reino Unido, o Japão e o Canadá continuam a subsidiar combustíveis fósseis enquanto proclamam metas de neutralidade carbónica. Esta duplicidade mina a confiança global e fragiliza a liderança moral do mundo democrático.

A União Europeia deve abandonar a complacência e assumir o papel de força motora. É urgente aplicar de forma firme o ajustamento de carbono nas fronteiras, eliminar os subsídios ao petróleo e ao gás, e investir decisivamente na transição justa - dentro e fora de fronteiras. A diplomacia climática precisa de ser estratégica, transparente e corajosa.

A COP30 será um teste. Mais do que uma conferência, é a fronteira entre o discurso e a ação. O mundo precisa de recuperar a confiança na cooperação internacional e provar que ainda é capaz de convergir em torno do essencial: garantir um futuro habitável. A crise climática é também uma crise de desigualdade. Não haverá transição justa sem redistribuição de poder, de riqueza e de oportunidades. 

Combater a emergência climática é construir justiça social e regeneração económica. A humanidade precisa de decisões.

A justiça climática exige clareza, coragem e ação. Agora.

Diário de Coimbra, 4 de novembro de 2025

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

As pressões militares ocultas por trás do novo impulso para pequenos reactores nucleares



A recente visita de Donald Trump ao Reino Unido resultou numa chamada «parceria histórica» em matéria de energia nuclear. Londres e Washington anunciaram planos para construir 20 pequenos reatores modulares e também desenvolver tecnologia de microrreatores – apesar do facto de ainda não terem sido construídas centrais deste tipo em nenhum lugar do mundo.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, prometeu que estes planos irão proporcionar uma «era dourada» da energia nuclear, que também irá «reduzir as faturas» .

No entanto, a história da energia nuclear tem sido marcada por décadas de exageros, custos crescentes e atrasos constantes. Em todo o mundo, as tendências apontam na direção errada.

Então, porquê o entusiasmo renovado em relação à energia nuclear? As verdadeiras razões têm menos a ver com segurança energética ou alterações climáticas e muito mais com poder militar.

À primeira vista, o caso pode parecer óbvio. Os defensores da energia nuclear apresentam os pequenos reatores modulares, ou SMRs, como vitais para reduzir as emissões e atender à crescente procura por eletricidade por parte dos automóveis e centros de dados. Com as grandes centrais nucleares agora proibitivamente caras, os reatores menores são apresentados como uma alternativa empolgante.

Mas hoje em dia, mesmo as análises mais optimistas do sector admitem que a energia nuclear — mesmo os SMRs — provavelmente não conseguirá competir com as energias renováveis. Uma análise publicada no New Civil Engineer no início de 2025 concluiu que os SMRs são “a fonte mais cara por quilowatt de eletricidade gerada quando comparados com o gás natural, a energia nuclear tradicional e as energias renováveis”.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Jane Goodall e a ética global da esperança


Jane Goodall morreu há umas semanas, aos 91 anos, depois de uma vida inteira consagrada ao conhecimento e à defesa do mundo vivo. A sua figura permanece como uma das mais luminosas pontes entre ciência e ética, entre humanidade e natureza. Pioneira na primatologia e na conservação, transformou o nosso olhar sobre os animais e, por consequência, sobre nós próprios.

Em 1960, uma jovem inglesa sem formação universitária formal instalou-se na Reserva de Gombe Stream, na Tanzânia, para viver entre chimpanzés selvagens. Ninguém o tinha feito antes. Observando-os com paciência e empatia (qualidades então tidas como pouco “científicas”) descobriu um universo de emoções, laços e comportamentos que espelham os nossos. Viu chimpanzés fabricarem e utilizarem ferramentas, caçarem, brincarem, chorarem e guerrearem. Como diria mais tarde: “Aprendi que o que nos separa dos chimpanzés é muito menos do que aquilo que nos une.”

Essas descobertas abalaram as fundações da biologia e da antropologia, abrindo espaço a uma nova compreensão da evolução da vida. Mas Jane não se limitou à observação. Da ciência fez nascer um compromisso: proteger o que estudava. Fundou um instituto Jane Goodall que tem desenvolvido programas de conservação integrados: restauro das florestas, reabilitação de chimpanzés órfãos e envolvimento das comunidades locais na gestão sustentável dos seus territórios. Criou também o movimento Roots & Shoots, hoje presente em mais de uma centena de países, inspirando jovens a agir em favor dos animais, das pessoas e do planeta.

Ao longo de mais de seis décadas, percorreu o mundo como uma peregrina da esperança, incansável na denúncia da destruição ecológica e na defesa da dignidade de todas as formas de vida. “Cada um de nós faz a diferença. A questão é: que tipo de diferença queremos fazer?” - repetia, com a serenidade e a convicção de quem via na ação quotidiana a semente da mudança.

Embora no início do seu trabalho não tivesse formação académica formal, Louis Leakey reconheceu o seu talento e ajudou-a a obter financiamento para as primeiras expedições. Em 1962, foi admitida na Universidade de Cambridge para realizar um doutoramento em etologia, sem possuir uma licenciatura, um feito raro à época. A partir daí, tornou-se símbolo de uma nova forma de fazer ciência: uma ciência que observa com rigor, mas também com empatia. Nos últimos anos, tornou-se uma das vozes mais consistentes em defesa da esperança. “Quero que compreendam que somos parte do mundo natural. E mesmo quando o planeta parece escurecer, ainda há esperança. Não a percam.”, declarou na sua mensagem do Dia da Terra de 2025.

Como Mensageira da Paz da ONU, insistiu que “nunca poderá haver paz no mundo enquanto não aprendermos a viver em harmonia com a natureza, e uns com os outros.” No dia internacional da paz de 2025, apelou a uma nova consciência global face à violência, ao clima e às migrações, lembrando que a paz verdadeira é inseparável da justiça ecológica.

O seu legado é vasto e vivo. Jane trouxe a natureza para o centro da consciência humana, diluindo fronteiras entre o humano e o não-humano, entre a ciência e a compaixão. A sua vida recorda-nos que conservar não é apenas proteger espécies ou paisagens: é preservar o milagre relacional que sustenta o mundo. E, nesse gesto, ela ensinou-nos - com ciência e ternura - a ser mais humanos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Pró - Democracia


Texto muito poderoso. Obrigado Helena Freitas. Já tinha abordado isto nesta postagem . Vivemos em tempos do absurdo, de grave iniquidade social, muita desinformação e estamos a sofrer das escolhas desumanas dos globocratas (para melhor perceberem, os multibilionários e bilionários, sejam eles russos, norte-americanos ou chineses ou de outra nacionalidade) . É necessário VER esta época, sair do absurdo e criar coragem e ver quem está a fazer boas práticas sócio-ambientais e travar a tempo, novo fascismo e desconstruir o patriotismo pacóvio. Também relembro outra reflexão que fiz aqui, com o título "Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia". Varoufakis diz, e bem, que esta época é tecno-feudalista. Só um exemplo: porque não nos revoltamos contra McDonald´s, Burger Kings, Coca-Cola e aceitamos como "normalidade". Não é! Porque aceitamos a Temu, Shein, Shopee, AliExpress, Amazon como "normalidade"? Não é! Porque nos inscrevemos e pagamos para a Netflix, Prime Video, Disney+ ou Filmin que são "estrangeiras"? Porque não contestamos a Galp, a Navigator, a Altri? E por aí fora. Neste texto alerto para um problema existencial grave: a lavagem do cidadão (citizen washing). E, desculpem: porra, a culpa não é dos imigrantes "ilegais", a culpa não é do envelhecimento da população. Não gosto da palavra "estrangeiros" nem "povos indígenas", nem "idosos". Gosto da palavra "povos originários", "pessoas", "humanidade". Gosto também da palavra "urbanidade" . Gosto da palavra "Renaturalizar", "Regenerar" e "Prevenir". As causas são as nossas ESCOLHAS e atitudes e EXIGIR Sustentabilidade REAL e não lavagem verde!

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Antes que tudo arda

Incêndio em Avô (Oliveira do Hospital)

Em 2017, Portugal enfrentou uma das suas maiores tragédias coletivas: o incêndio de Pedrógão Grande. Uma ferida que destruiu vidas, memórias e esperanças, e expôs a vulnerabilidade estrutural do país. Nesse ano, após ouvir diferentes vozes ligadas à prevenção e ao combate, preparei uma breve síntese sobre a situação da floresta portuguesa. O retrato era conhecido, mas revelou-se devastador: um mosaico desordenado de pequenas propriedades essencialmente privadas, muitas abandonadas; política florestal errática e ausente no terreno; uma vigilância insuficiente; proteção civil dependente de participação voluntária; meios aéreos privados caros, mas ainda assim ausentes; comunidades rurais envelhecidas e esquecidas. Em síntese: uma floresta frágil, altamente inflamável, e um Estado incapaz de salvaguardar o interesse público.

Passaram oito anos. Houve avanços: destacaria o BUPi e os processos de emparcelamento que abriram caminho para resolver a fragmentação fundiária; a criação da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) e a sua ação programática trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal; a vigilância tecnológica progrediu; a proteção civil incrementou a capacidade de intervenção e preparação; a contratação de meios aéreos tornou-se mais transparente, mas ainda assim ineficaz.

No essencial, os bloqueios estruturais mantêm-se intactos. A floresta continua dividida, sem escala para uma gestão eficiente e transformadora. As políticas públicas do setor transitaram entre ministérios, mas permanecem sem coerência e incapazes de inspirar a confiança que o problema exige. A vigilância tecnológica cobre apenas parte da realidade diversa do país. A proteção civil, mais preparada, continua excessivamente dependente de esforço voluntário. O papel das Forças Armadas mantém-se episódico e sem coordenação local. Os projetos-piloto de mosaicos resilientes existem, mas são insuficientes para travar tendências e implementar a transição florestal, e as comunidades rurais continuam esmagadas pela burocracia e pelo abandono.

A verdade é que pouco mudou. A floresta portuguesa continua refém de interesses sobrepostos, centralismo sufocante e ausência de reformas estruturais que integrem floresta, agricultura, água e biodiversidade num mosaico vivo e resiliente. A acumulação descontrolada de biomassa, alimentada pelo abandono rural, transformou vastas áreas em depósitos de combustível à espera da próxima ignição. E manter grandes extensões de monocultura inflamável, num contexto climático cada vez mais adverso — com secas mais longas, ondas de calor mais intensas e ciclos de incêndio cada vez mais prolongados — é prolongar a catástrofe. É urgente diversificar espécies, apostar em ecossistemas resilientes, combinar produção florestal com regeneração ambiental e colocar a floresta ao serviço da segurança, da economia e da vida.

Esta mudança exige também um novo contrato com a indústria. O setor não pode ser assistente ou comprador de matéria-prima barata e combustível para exportação. Precisa de assumir corresponsabilidade na regeneração, investir em gestão sustentável, inovar em produtos de maior valor acrescentado e comprometer-se com a transição ecológica do país.

O futuro exige cinco escolhas inadiáveis: governança descentralizada com técnicos e meios próximos do território; uma reforma fundiária realista que permita gestão conjunta; a profissionalização parcial do combate, associada à prevenção; a assunção realista e firme do nexo entre floresta, agricultura, água, biodiversidade e clima; e, sobretudo, a reconstrução da confiança social, devolvendo às comunidades o papel de parceiras centrais, com incentivos claros e retorno económico justo.

Se 2017 foi o ano da tragédia, e 2018–2025 o tempo da resposta insuficiente, o próximo ciclo só pode ser o da reforma estrutural. Ou teremos a coragem de transformar a floresta portuguesa em alavanca de resiliência e futuro, ou continuaremos prisioneiros de um ciclo de fogo, abandono e luto.

Antes que tudo arda.

terça-feira, 15 de julho de 2025

A pluralidade que nos define



A pluralidade não é apenas uma característica desejável nas sociedades contemporâneas; no nosso caso, é um traço fundamental da identidade coletiva. Portugal foi moldado por séculos de encontros e diálogos, de partidas e regressos, de trocas culturais que nos tornaram o país diverso e acolhedor que somos hoje. Encarar as migrações com seriedade, humanidade e visão de futuro é uma necessidade prática, mas é também uma responsabilidade histórica.

Apesar disso, vivemos um tempo de retração. Erguem-se barreiras burocráticas, legais e simbólicas à entrada e integração de pessoas oriundas dos países de língua portuguesa, muitas das quais partilham connosco história, valores e língua. Em nome da segurança ou da “gestão controlada”, dificultamos o acesso à nacionalidade e à plena participação social a milhares de pessoas que procuram em Portugal o mesmo que, tantas vezes, os portugueses procuraram noutros lugares: segurança, dignidade, trabalho e esperança.

É legítimo que o Estado defina regras claras para a entrada e permanência de cidadãos estrangeiros, mas essa gestão só é verdadeiramente responsável se for orientada por princípios de justiça, solidariedade e coerência com a nossa própria história. O que está em causa não é apenas uma questão administrativa: é uma escolha política e ética sobre o país que queremos ser.

Os migrantes que chegam a Portugal não vêm “tirar” nada a ninguém. Pelo contrário: trazem competências, saberes, culturas, força de trabalho e energia. Respondem a necessidades reais da nossa economia, ajudam a equilibrar o envelhecimento demográfico e contribuem para a vitalidade das comunidades locais. Não os reconhecer como parte integrante da sociedade é desperdiçar talento, criar exclusão e alimentar tensões desnecessárias.

Não podemos ceder às narrativas que exploram o medo e fomentam a desconfiança. Essas narrativas desvalorizam a riqueza que nasce da diversidade e alimentam divisões que fragilizam a sociedade e a democracia. A história ensina-nos que sociedades que se fecham sobre si mesmas, que alimentam preconceitos e excluem quem é diferente, tornam-se mais frágeis, mais injustas e menos livres.

A diversidade enriquece a nossa identidade e faz-nos crescer como sociedade. Obriga-nos a questionar hábitos, a reavaliar certezas e a reinventar a convivência. Um país plural é aquele que reconhece que ninguém deve ser definido apenas pela sua origem, mas pelo seu contributo, pelos seus valores e pela vontade de fazer parte de um projeto comum.

Construir um país plural e justo exige coragem política, responsabilidade institucional e empatia social. Exige políticas públicas que assegurem integração plena, garantindo acesso à educação, à saúde, ao trabalho digno e à participação cívica. Exige, igualmente, um discurso público que rejeite o ódio, valorize o respeito mútuo e celebre o encontro entre diferentes comunidades.

O futuro de Portugal não se assegura erguendo muros nem alimentando desconfianças. Constrói-se com políticas eficazes, com reconhecimento das contribuições de todos os que aqui vivem e com justiça social que não deixe ninguém à margem. A pluralidade é uma herança histórica e um imperativo estratégico para o país que queremos ser: mais resiliente, mais dinâmico e capaz de enfrentar os desafios globais. Integrar plenamente quem chega até nós, mais do que um gesto de solidariedade, é uma condição para o progresso económico, social e democrático de Portugal.

Diário de Coimbra, 15.7.2025

terça-feira, 17 de junho de 2025

O avanço da Intorelância e o Silêncio da Empatia



São cada vez mais evidentes os sinais de uma escalada de intolerância e violência em Portugal, num registo que historicamente não nos era habitual. Os episódios multiplicam-se nas ruas, nas escolas, nas redes sociais, nos discursos públicos,  com uma frequência que percebemos crescente. Por vezes são subtis, outras vezes explícitos, mas todos têm em comum perceção de que algo se está a deteriorar no nosso tecido social. 
Vivemos tempos de frustração acumulada, de insegurança difusa, de um mal-estar que se infiltra lentamente na vida quotidiana. A imprensa nacional destacou recentemente o brutal ataque a um ator à saída do teatro, a agressão de duas voluntárias que levavam ajuda a pessoas sem-abrigo, ou mesmo ameaças e intimidações contra professores que defendem a inclusão nas escolas. Quando esta tensão se transforma em violência contra quem representa a cultura, a solidariedade ou o cuidado, ultrapassamos um limiar perigoso: o da desumanização do outro.
A polarização cresce quando deixamos de reconhecer a dignidade e a legitimidade de quem pensa, vive ou age de forma diferente. Quando o discurso público se transforma numa trincheira onde se dispara em vez de dialogar, quando se normaliza - direta ou indiretamente - a hostilidade como reação aceitável, e quando a raiva passa a ter mais protagonismo do que o respeito, é aí que o tecido social começa a rasgar. A convivência democrática exige mais do que regras institucionais; exige uma ética da relação, sobretudo na diferença e no desacordo.
Portugal tem uma tradição de convivência pacífica e de solidariedade discreta, mas eficaz. São traços que marcaram o nosso percurso coletivo, mesmo em tempos difíceis. Não podemos permitir que essa herança se dilua na banalização do ódio ou na indiferença face à degradação do espaço público. 
Quando quem cuida, quem acolhe, quem ensina, quem cria - em suma, quem constrói comunidade - começa a ser alvo de desconfiança ou hostilidade, estamos a destruir as bases da nossa democracia. Essa erosão abre caminho para o fortalecimento de discursos simplistas e excludentes que, lamentavelmente, têm vindo a ganhar cada vez mais espaço para se afirmar.
A raiz desta tensão é complexa. As crises sucessivas - económica, pandémica, habitacional, ambiental - têm gerado um sentimento de desorientação, de perda de controlo, de uma inquietante ausência de futuro. E onde falta horizonte, facilmente emerge o ressentimento. A indignação pode ser justa, mas quando não é acompanhada de lucidez e de responsabilidade, transforma-se em cinismo ou fúria. 
É muito importante restaurar a confiança mútua. Reabilitar o espaço público como lugar de encontro e não de ameaça. Valorizar a empatia como prática política e cívica; não como ingenuidade, mas como condição fundamental de humanidade. Porque resistir à violência simbólica ou física começa na forma como olhamos, ouvimos e falamos uns com os outros. Porque a democracia, afinal, é também a forma como nos tratamos todos os dias.

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quinta-feira, 22 de maio de 2025

Conservar as árvores não é apenas um imperativo ecológico - é um dever civilizacional

Fonte: aqui
Cresci a reconhecer as árvores que moldaram os lugares mais marcantes da minha infância. Os carvalhos e os pinheiros-bravos eram cúmplices nas subidas aos montes junto à casa dos meus avós, no Minho. À sombra de uma nogueira imponente ficava o meu baloiço predileto, e eram os pinheiros mansos, alinhados sobre as dunas, que testemunhavam os piqueniques familiares de Verão, em rituais que pareciam suspensos no tempo.
Recordo com nitidez as árvores de fruto que visitava em ritmos sazonais: tangerineiras e laranjeiras, macieiras e pereiras, pessegueiros e cerejeiras, ameixoeiras que me desafiavam em tardes demoradas sobre os seus ramos. Havia ainda uma figueira, cúmplice das delícias do meu avô, e os castanheiros, cuja frutificação exuberante anunciava o fim das férias. Estas foram as árvores da minha infância - presenças silenciosas, mas constantes, cuja generosidade eu reconhecia como um gesto natural do mundo.
Mais tarde, já no percurso universitário em Biologia, reencontrei essas mesmas árvores, agora com outros nomes. Aprendi a designá-las como Quercus faginea, Quercus suber, Quercus pyrenaica, Pinus pinaster, Pinus pinea. Em visitas de estudo, do Gerês à Serra da Arrábida, comecei a distinguir as espécies, os seus habitats, os padrões de ecológicos e as suas relações íntimas com a paisagem.
Foi nesse contacto aprofundado que tomei consciência da vulnerabilidade de muitas espécies e da urgência de estratégias para a sua conservação. A fisiologia vegetal revelou-se para mim um domínio científico de assombro: a forma como as árvores extraem água e nutrientes do solo, muitas vezes a profundidades impressionantes, e os transportam até à copa sem romper o seu complexo sistema condutor, numa coreografia invisível de elegância e precisão. Essas árvores, que germinam e crescem num mesmo local, enfrentam ali todas as adversidades, conquistam os seus aliados naturais, otimizam as suas funções, tudo no único espaço vital que conhecem.
Nos últimos anos, tornou-se recorrente, e com fundamento, o debate sobre a desflorestação e a perda irreparável que representa para a Humanidade. Reconhece-se hoje, de forma mais clara, o papel estruturante das árvores na estabilidade dos solos, na regulação do ciclo hidrológico, na produção de oxigénio e na fixação de carbono atmosférico.
Mas para além das métricas e funções dos ecossistemas, as árvores possuem um estatuto singular no imaginário humano. As árvores habitam-nos. São raízes da nossa história, sombras da nossa infância, matéria-prima da memória e da imaginação. Inspiram mitos, preservam rituais, atravessam gerações. Têm uma longevidade que desafia o tempo humano. Uma beleza que não pede licença. Um metabolismo que é puro engenho.
Conservar as árvores não é apenas um imperativo ecológico; é um dever civilizacional. Porque nelas se enraíza não apenas a floresta, mas também parte do que somos, do que recordamos e do que ainda poderemos ser.

PS: O Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado a 22 de maio, assinala a adoção da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica (1992). Em 2025, o tema “Harmonia com a natureza e desenvolvimento sustentável” destaca a articulação entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, apelando à ação conjunta de governos, setor privado, academia e sociedade civil para integrar a biodiversidade na luta contra a pobreza e acelerar a implementação dos Planos Nacionais de Biodiversidade.

Ler mais:
António Guterres: Humanidade está a destruir a biodiversidade

sábado, 26 de abril de 2025

O Dia da Terra e o compromisso pelo futuro


Há 55 anos nasceu um movimento global em defesa do nosso planeta. Milhões de pessoas uniram-se numa manifestação coletiva por uma agenda ambiental forte, centrada na proteção do ar, da água e dos solos. Liderada pelo senador e ativista norte-americano Gaylord Nelson, esta mobilização histórica deu origem ao Dia da Terra - um marco que ultrapassou fronteiras, culturas e ideologias, consolidando-se como a maior expressão planetária de consciência ecológica e ação transformadora.

Desde 1970, o mundo progrediu. As leis ambientais foram reforçadas, criaram-se agências reguladoras, baniram-se substâncias tóxicas e a educação ambiental ganhou visibilidade e força. Mas o espírito de urgência que impulsionou o primeiro Dia da Terra não só permanece como se tornou mais vital do que nunca. Hoje, enfrentamos uma ameaça sem precedentes, que põe em risco tudo o que conquistámos e desafia a humanidade a agir com coragem e solidariedade: a crise climática.

A data de 22 de abril, oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas, alerta para desafios como a poluição, a degradação ambiental e a perda de biodiversidade. Mas a realidade exige mais do que sensibilização. As emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar; as florestas, outrora santuários de vida, sucumbem ao avanço de interesses predatórios; os oceanos aquecem; os ecossistemas colapsam e a perda de biodiversidade atinge níveis alarmantes. E é gritante a injustiça quando os mais afetados por esta crise são justamente os que menos contribuíram para a causar.

Neste contexto, não há justiça climática sem justiça social. As cidades precisam de se adaptar, investindo em soluções baseadas na natureza, infraestruturas verdes e modelos de governança mais resilientes e participativos. A forma como produzimos, consumimos e nos organizamos, deve ser repensada com base em princípios circulares, regenerativos e sustentáveis.

Mas há uma outra crise, mais silenciosa e igualmente perigosa: a erosão da confiança. A descrença nas instituições, o imobilismo político e o sentimento generalizado de impotência corroem a nossa capacidade de ação coletiva. Talvez seja este o maior risco do nosso tempo: deixarmos de acreditar uns nos outros e na força transformadora da ação conjunta.

O legado do Dia da Terra continua a ser profundamente relevante. Ele recorda-nos que a mudança é possível. Que ela já aconteceu antes, quando multidões se uniram em nome da vida, da dignidade e da justiça ambiental. E que pode voltar a acontecer. Para isso, precisamos de ciência, tecnologia e inovação, mas também de uma esperança ativa; aquela que se traduz em escolhas conscientes, coragem política e compromisso cívico.

Como afirmou recentemente Denis Hayes, organizador do primeiro Dia da Terra: a crise climática é, simultaneamente, o maior desafio e a maior oportunidade da nossa geração. Concordo plenamente. É tempo de transformar o medo em responsabilidade, e a desesperança em projeto. O Dia da Terra não é apenas uma data no calendário; é um importante apelo à mobilização planetária.

Celebrar o 22 de abril é mais do que um gesto simbólico: é um ato ético, político e profundamente necessário. É uma renovação. Um pacto. Uma declaração de pertença. É afirmar que ainda acreditamos. Que ainda lutamos. Que ainda sonhamos. Porque a Terra - esta casa comum, bela e frágil - justifica todo o nosso empenho.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

O dia em que Portugal acordou Livre


Numa suave manhã de abril de 1974, Portugal despertou agitado ao coro da mudança. O perfume dos cravos mesclava-se com as aspirações de uma nação cansada de anos sob o jugo opressivo da ditadura. Neste dia singular, o descontentamento silencioso do povo encontrou eco no coração daqueles que ousaram sonhar, anunciando o fim de um regime que sufocava a liberdade e reprimia o progresso social, económico e cultural do país. Portugal erguia-se, enfim, com a ambição de prosperar, deixando para trás um caminho solitário que havia trilhado durante demasiado tempo. 
A Revolução dos Cravos não nasceu da violência, mas da coragem. Foi o grito sereno de um povo que já não aceitava viver calado, a coragem de militares que escolheram a pátria e o povo em vez da opressão. Foi o instante sublime em que a utopia se tornou possível, e Portugal, cansado da noite longa da ditadura, amanheceu livre.
Essa revolução, embora nascida em solo português, ecoou muito além das fronteiras, como um hino universal à dignidade humana. O mundo viu um povo erguer-se com cravos nas mãos e justiça no peito. Homens e mulheres comuns tornaram-se heróis anónimos de uma mudança que brotou das entranhas da sociedade - com resiliência, com sonho, com a sede de um novo amanhã.
O fim da ditadura não foi apenas o desmantelamento da censura ou a criação de instituições democráticas. Foi o início de uma caminhada intensa, nem sempre fácil, mas profundamente transformadora. A democracia chegou com debates, com escolhas difíceis, com o peso e a beleza da liberdade. Trouxe conquistas nos direitos civis, na igualdade de género, na afirmação das minorias, e na ousadia de construir uma economia moderna e aberta ao mundo.
Foi também um renascimento cultural. A palavra voltou a ter valor. A arte, a literatura, o cinema e a música floresceram como sementes guardadas durante décadas, à espera de solo fértil e céu limpo. Expressar-se tornou-se não só um direito, mas um dever cívico, e o país inteiro respirou, finalmente, em liberdade.
O legado do 25 de Abril é eterno enquanto resistirmos à amnésia coletiva. É farol e bússola. Lembra-nos que a liberdade é conquistada, não concedida. Que a democracia se cultiva todos os dias, com participação, com justiça social, com o combate à corrupção e à desigualdade.
Hoje, ao celebrarmos a liberdade, é vital recordar a força dos que nos trouxeram até aqui. Porque num tempo em que tantas conquistas parecem frágeis, revisitamos Abril não como nostalgia, mas como promessa. Promessa de que o povo português saberá sempre - se preciso for - voltar a encher as ruas de coragem, de cravos e de futuro.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A propósito de Harvard


É difícil compreender que se possa colocar em causa uma universidade que, ao longo da sua história, se afirmou como uma referência nacional e internacional. Uma instituição de ensino superior que, de forma consistente, tem ocupado posições cimeiras nos rankings, contribuindo de modo inquestionável para o progresso científico, económico e social do país. Uma universidade que formou quadros extraordinários, muitos dos quais ocupam hoje posições de destaque nas mais prestigiadas empresas e instituições. Uma universidade que acolheu e inspirou inúmeros prémios Nobel, e que tem gerado conhecimento, inovação e soluções com impacto real e duradouro na vida das pessoas. Causa perplexidade e indignação que se procure fragilizar precisamente as instituições que mais têm contribuído para a prosperidade do país. Colocar em causa o conhecimento é um risco que não é apenas simbólico: é estrutural e profundamente destrutivo.