Mostrar mensagens com a etiqueta Helena Freitas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Helena Freitas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 20 de junho de 2026

O relógio climático está a acelerar

Durante anos, limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi o objetivo mais ambicioso do acordo de Paris e a principal referência da ação climática internacional. Hoje, esse objetivo está muito próximo de falhar. Um novo estudo internacional, publicado na revista Earth System Science Data, conclui que o aquecimento provocado pelas atividades humanas poderá atingir este limiar já no final da década, mais cedo do que se previa.
O estudo reuniu mais de setenta investigadores de vários países e analisou os principais indicadores do estado do sistema climático global. Em vez de se focar em projeções para o final do século, avaliou a evolução observada do aquecimento global, das emissões de gases com efeito de estufa, do desequilíbrio energético da Terra e da margem de emissões ainda disponível.
Os resultados são claros: o clima está a mudar a um ritmo alarmante. Em 2025, o aquecimento global causado pelas atividades humanas atingiu cerca de 1,37 °C acima dos níveis pré-industriais. Mantendo-se a trajetória atual de emissões, torna-se altamente provável ultrapassar o limite de 1,5 °C em poucos anos.
Um dos sinais mais preocupantes é a rápida redução do chamado “orçamento” de carbono, ou seja, a quantidade de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida sem comprometer a meta dos 1,5 °C. Segundo os investigadores, restam apenas cerca de 130 mil milhões de toneladas de CO₂. Ao ritmo atual, essa margem poderá esgotar-se em apenas três anos.
As emissões globais de gases com efeito de estufa continuam próximas de máximos históricos. Em 2024 atingiram cerca de 56,8 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Apesar dos avanços registados em alguns países e setores, a redução global continua demasiado lenta para inverter a trajetória do aquecimento.
Ao mesmo tempo, a Terra continua a acumular energia. Grande parte desse excesso de calor é absorvido pelos oceanos, acelerando o aquecimento das águas, intensificando as ondas de calor marinhas e agravando a subida do nível médio do mar. Entre 2006 e 2025, o nível médio dos oceanos aumentou cerca de 3,7 milímetros por ano, um ritmo superior ao observado durante grande parte do século XX.
Os impactos já são evidentes em todo o mundo. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais de grande dimensão e episódios extremos de precipitação tornaram-se mais frequentes e destrutivos. Fenómenos outrora considerados excecionais começam a integrar a nova realidade climática.
Apesar da gravidade das conclusões, os autores sublinham que o futuro climático não está totalmente determinado. Cada décima de grau de aquecimento evitada reduz riscos para as populações, as economias e os ecossistemas. A diferença entre limitar o aquecimento a 1,6 °C, 1,8 °C ou 2 °C traduz-se em impactos muito distintos na frequência de fenómenos extremos, na subida do nível do mar e na capacidade de adaptação das sociedades.
O mundo aproxima-se rapidamente de um limite que durante anos procurou evitar. A margem para reduzir os danos continua a existir, mas está a diminuir a uma velocidade sem precedentes. As decisões tomadas nesta década, sobre energia, transportes, indústria e uso do território, terão influência direta no clima das próximas gerações. A diferença entre agir agora e adiar decisões não se mede apenas em décimas de grau: mede-se em vidas, em segurança, em estabilidade económica e na capacidade de preservar um planeta habitável.
Helena Freitas - Diário de Coimbra, 16.06.2026

sábado, 6 de junho de 2026

Saber não basta - décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento

O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap) [relatório disponível aqui]

Nunca soubemos tanto sobre o clima. Os modelos atmosféricos tornaram-se mais sofisticados, as redes de monitorização produzem dados em tempo quase real e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) oferecem diagnósticos cada vez mais robustos sobre os riscos associados às trajetórias atuais de desenvolvimento. Paradoxalmente, quanto mais sólido se torna o conhecimento científico, mais insuficiente se revela para promover a transformação social, económica e política que os próprios dados reclamam.

O problema central do nosso tempo já não é a falta de informação. O verdadeiro desafio reside no fosso persistente entre aquilo que sabemos e o que fazemos. Décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento. Quando os riscos são percecionados como distantes, abstratos ou excessivamente complexos, a consciência do problema não se traduz necessariamente em ação.

Esta dificuldade é agravada pela natureza sistémica das crises contemporâneas. Os desafios atuais não surgem de forma isolada. Pelo contrário, interagem entre si de forma não linear. As alterações climáticas afetam a segurança alimentar e hídrica; a instabilidade energética amplia desigualdades económicas; as tensões geopolíticas comprometem respostas coordenadas a problemas globais; e a degradação dos ecossistemas aumenta vulnerabilidades sociais preexistentes. Vivemos numa realidade marcada pela interdependência, na qual perturbações localizadas podem produzir efeitos em cascata à escala planetária.

Durante décadas, as sociedades habituaram-se a interpretar as crises como interrupções temporárias da normalidade. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente. A sucessão de choques ambientais, económicos e geopolíticos sugere que a instabilidade deixou de ser uma exceção para se transformar numa condição. Adaptar-se à incerteza tornou-se uma exigência permanente.

Esta transformação tem consequências profundas. A exposição prolongada a narrativas de risco e urgência gera uma ansiedade difusa, alimentada pela perceção de que os problemas se acumulam mais rapidamente do que a capacidade coletiva para os resolver. A dificuldade crescente em imaginar futuros estáveis e desejáveis converte-se num fator de vulnerabilidade por direito próprio.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. A repetição constante de alertas pode reduzir gradualmente a intensidade da resposta emocional. Embora este mecanismo tenha valor adaptativo no curto prazo, pode tornar-se contraproducente quando prolongado. A preocupação converte-se em resignação, a confiança nas instituições enfraquece e as decisões passam a orientar-se pelo imediato. Um dos maiores riscos das sociedades contemporâneas poderá não ser apenas a multiplicação das crises, mas a erosão da capacidade coletiva para lhes responder.

No entanto, são muitos os progressos alcançados. A expansão das energias renováveis acelerou a um ritmo histórico, os custos da energia solar e do armazenamento diminuíram drasticamente e a capacidade científica para prever fenómenos extremos melhorou de forma notável. Estes avanços demonstram que a inovação, a cooperação e o investimento de longo prazo podem produzir mudanças significativas.

Sabemos hoje mais sobre os riscos que ameaçam as sociedades humanas do que em qualquer outro momento da história. Dispomos de conhecimento científico, capacidade tecnológica e experiência acumulada para enfrentar muitos desses desafios. O verdadeiro teste do nosso tempo já não reside na produção de mais informação, mas na capacidade de traduzir conhecimento em decisão, cooperação e compromisso coletivo. Saber continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente.
Diário de Coimbra, 02/06/2026

Leituras recomendadas:
A. O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap)
A premissa de que "dar informação não muda comportamentos" é o calcanhar de Aquiles da comunicação de ciência.
  • George Marshall (Livro: Don't Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change): Este livro explora exatamente o que a autora descreve: como o cérebro humano lida mal com riscos abstratos, distantes no tempo e geograficamente distantes.

  • Per Espen Stoknes (Livro: What We Think About When We Try Not To Think About Global Warming): Stoknes, um psicólogo e economista norueguês, identificou as "5 barreiras psicológicas" para a ação climática (Distância, Destruição, Dissonância, Negação e Identidade). O texto de Helena Freitas reflete quase diretamente o trabalho de Stoknes ao falar sobre a "redução da resposta emocional" e a "resignação".

B. O Conceito de Policrise e Efeitos em Cascata
A secção sobre crises que "interagem entre si de forma não linear" bebe diretamente da literatura sociológica contemporânea.
  • Adam Tooze (Historiador e Economista): Popularizou o termo "Policrise" para descrever como a crise climática, a geopolítica, a inflação e as pandemias já não são eventos isolados, mas uma rede interligada onde um choque amplifica o outro.

  • Thomas Homer-Dixon (Artigos sobre Complex Systems and Cascading Regimes): Investigador que estuda como o stress ecológico interage com o stress económico e político, levando ao colapso ou à necessidade de resiliência sistémica.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência


Neste Dia recordamos que a ciência não é apenas uma busca de conhecimento; é uma força poderosa para moldar um futuro melhor. Acredito que a ciência deve promover, com audácia, a descoberta fundamental, impulsionar a inovação transformadora e converter o conhecimento em soluções que reforcem o bem-estar humano, ao mesmo tempo que protegem o nosso planeta.

Para cumprir esta missão, a ciência deve incorporar os mais elevados padrões de integridade, responsabilidade pública e responsabilidade social. A confiança, a transparência e o rigor ético são essenciais para que o progresso científico sirva verdadeiramente a sociedade. Quando conduzida de forma responsável e inclusiva, a ciência torna-se um esforço partilhado, beneficiando todos.

A ciência deve também desempenhar um papel mais determinante na melhoria da vida das pessoas e das comunidades em todo o mundo. Da saúde e educação à resiliência climática e ao desenvolvimento sustentável, o seu impacto deve ser equitativo, global e orientado para o futuro.

Alcançar esta visão exige uma mudança profunda, afastando-nos de modelos assentes no consumo e avançando para sistemas mais sustentáveis e regenerativos. Tal transformação só será possível através de um envolvimento significativo entre a ciência e a sociedade, e garantindo que mulheres e raparigas estejam plenamente capacitadas para participar, liderar e inovar.

Quando vozes diversas estão representadas na ciência, a descoberta torna-se mais rica, as soluções tornam-se mais robustas e o futuro torna-se mais justo. Apoiar mulheres e raparigas na ciência não é apenas uma questão de igualdade: é essencial para construir o mundo sustentável e inclusivo que aspiramos criar.

Relatório:
She figures 2024
The International Day of Women and Girls in Science Official Website

sábado, 31 de janeiro de 2026

Porque caem tantas árvores durante as tempestades?


Nos últimos anos Portugal tem assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas. Embora estes episódios sejam muitas vezes percecionados como acontecimentos súbitos ou inevitáveis, a ciência mostra que não se trata de fenómenos aleatórios. Pelo contrário, a queda de árvores resulta da combinação previsível entre condições do solo, características das próprias árvores, contextos urbanos e florestais, e eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

Um dos fatores críticos é o estado do solo. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades.

A idade das árvores e o tipo de povoamento também desempenham um papel decisivo. Árvores jovens, comuns em plantações recentes, ainda não desenvolveram sistemas radiculares profundos e extensos. Em florestas mais maduras, as raízes entrelaçam-se e criam uma estabilidade coletiva que ajuda a dissipar a força do vento. Em contraste, povoamentos jovens e homogéneos – muitas vezes compostos por árvores da mesma idade e espécie – são estruturalmente mais frágeis, o que explica porque grandes áreas podem ser afetadas de forma simultânea durante eventos extremos.

Nas cidades, o problema tende a ser ainda mais grave. As árvores urbanas vivem sob múltiplos fatores de stress: solos compactados, pouco espaço para enraizar, impermeabilização do terreno, poluição, temperaturas elevadas e podas excessivas ou mal executadas. Ao longo do tempo, estas condições enfraquecem as árvores, favorecem o desenvolvimento de podridões internas e reduzem a sua capacidade de resistir ao vento. Como resultado, as árvores urbanas têm maior probabilidade de falhar, seja pelo arranque da raiz, seja pela quebra do tronco ou dos ramos.

As próprias tempestades amplificam estes riscos. A força exercida pelo vento aumenta rapidamente com a sua velocidade, e as copas molhadas pela chuva tornam-se mais pesadas e oferecem maior resistência ao ar. As rajadas provocam movimentos repetidos que “cansam” o tronco e o sistema radicular, acelerando a falha estrutural, sobretudo quando o solo já se encontra saturado.

Este cenário é agravado pelo contexto das alterações climáticas. Em Portugal, é cada vez mais comum a sucessão de longos períodos de seca – que debilitam as árvores – seguidos de episódios de chuva intensa e tempestades severas. Estes eventos combinados aumentam significativamente o risco de queda, uma vez que as árvores não têm tempo suficiente para recuperar nem para adaptar a sua estrutura às novas condições.

Em suma, a queda de árvores durante tempestades é um fenómeno explicável e, até certo ponto, previsível. Resulta da interação entre solos encharcados, sistemas radiculares pouco desenvolvidos, stress fisiológico (particularmente em ambientes urbanos) e eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes.

Se queremos continuar a viver com árvores, e a beneficiar dos múltiplos serviços ecológicos, climáticos e sociais que prestam, é imperativo preparar não apenas as infraestruturas físicas, mas também as infraestruturas naturais. Isso implica reconhecer que árvores não são elementos decorativos nem obstáculos urbanos, mas organismos vivos que dependem de solos funcionais, espaço para enraizar, diversidade estrutural e tempo para se adaptarem. A gestão do risco associado às tempestades futuras passa, portanto, por investir na qualidade dos solos, no desenho ecológico das cidades e das florestas, e numa abordagem preventiva baseada no conhecimento científico. Sem esta preparação sistémica, a coexistência com árvores tornar-se-á cada vez mais frágil num clima em rápida mudança.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Dia Nacional da Cultura Científica


A atribuição do Grande Prémio Nacional Ciência Viva 2025 enche-me de alegria profunda e de imensa gratidão. Recebo este reconhecimento com emoção, porque vem de uma instituição que representa a expressão viva da nossa cultura científica.

A Ciência Viva é uma das histórias mais inspiradoras e bonitas do nosso país. Conseguiu algo que parece simples, mas que é profundamente transformador: aproximar a ciência das pessoas. De todas as pessoas. 

A Ciência Viva não é apenas uma agência; é uma ideia tornada movimento. É uma arquitetura de oportunidades que, ao longo de quase três décadas, fez da ciência uma dimensão quotidiana da vida cívica, chegando a escolas, famílias, museus, autarquias, investigadores, artistas e comunidades locais — sempre com um programa coerente, exigente e, simultaneamente, inclusivo. A sua força reside precisamente na diversidade dos públicos a que chega e na capacidade de renovar continuamente as formas de diálogo entre ciência e sociedade.

Neste dia 24 de novembro, Dia Nacional da Cultura Científica, não posso deixar de evocar Rómulo de Carvalho — mestre da curiosidade, da poesia e do rigor — e recordar as palavras visionárias de Mariano Gago, que descreveu esta data como “um momento privilegiado de equilíbrio, reflexão e ação sobre o papel do conhecimento no nosso futuro”. Essa visão permanece viva na Ciência Viva: na forma como estimula o pensamento crítico, alimenta a imaginação e fortalece uma cidadania que não teme fazer perguntas.

A ciência inspira. Abre janelas. Dá linguagem às perguntas que trazemos dentro. E quando vemos crianças e jovens portugueses aproximarem-se dela com paixão, confiança e vontade de transformar, sentimos que há futuro. Um futuro que nasce do espanto, da coragem de pensar mais longe e da liberdade de imaginar.

A ciência tem este poder raro: despertar, em todas as idades, o impulso de descobrir, experimentar e compreender. Ver crianças e jovens encontrar na ciência não apenas uma paixão, mas também um propósito, é uma das maiores conquistas do nosso país democrático. É a prova de que investir na cultura científica é investir em liberdade, futuro e esperança.

Como bióloga, sinto ainda uma responsabilidade acrescida. Num tempo marcado por desafios ambientais sem precedentes, este prémio recorda-me que comunicar ciência, envolver comunidades e valorizar o conhecimento são atos essenciais de cuidado com a natureza e com o mundo vivo. A transição para uma sociedade que reconhece a sua interdependência ecológica só será possível com mais ciência, mais participação e mais cultura científica.

Por tudo isto, este prémio é, para mim, um estímulo e um compromisso renovado: continuar a contribuir para uma ciência presente, aberta, dialogante e capaz de inspirar mudança.
Muito obrigada.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cop30: Desmascarar os bloqueios e exigir acção real

Em novembro de 2025, Belém do Pará, no coração da Amazónia, acolherá a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30). O lugar não é neutro: é o epicentro de uma floresta que regula o clima global e, ao mesmo tempo, uma das regiões mais ameaçadas pela desflorestação, pela exploração predatória e pela desigualdade social. Realizar a COP na Amazónia é um gesto político e simbólico: o debate climático no território onde se decide o destino do planeta.

Mas o simbolismo não basta. O mundo chega a Belém dividido, com emissões recorde e promessas incumpridas. A diplomacia climática vive uma crise de confiança, e os interesses fósseis continuam a ditar o ritmo da ação global. A COP30 será, por isso, um momento de verdade sobre o futuro coletivo da humanidade.

A crise climática é hoje uma evidência incontornável. Secas, cheias e ondas de calor extremo afetam todos os continentes e o tempo para agir esgota-se. O clima precisa de todos, mas sobretudo precisa de coragem política.

Mais de metade das emissões globais provém de empresas estatais sediadas em regimes autoritários. Das vinte maiores companhias de combustíveis fósseis do mundo, dezasseis são públicas e controladas por governos como os da China, Rússia, Irão e Arábia Saudita. Estes países tornaram-se o principal travão à descarbonização. A Rússia usa a energia como arma geopolítica; a China, responsável por cerca de 30 % das emissões globais, continua a construir centrais a carvão; o Irão e a Arábia Saudita financiam a dependência global do petróleo e bloqueiam sistematicamente o avanço dos acordos internacionais. Enfrentar esta realidade é uma exigência civilizacional.

Durante demasiado tempo, a diplomacia internacional preferiu o silêncio à verdade. Tratou por igual quem age e quem sabota, quem investe na transição e quem lucra com a destruição. Esse modelo está esgotado: não se vence uma emergência planetária com concessões a quem nega o futuro.

Mas a hipocrisia não é exclusiva das autocracias. Democracias como o Reino Unido, o Japão e o Canadá continuam a subsidiar combustíveis fósseis enquanto proclamam metas de neutralidade carbónica. Esta duplicidade mina a confiança global e fragiliza a liderança moral do mundo democrático.

A União Europeia deve abandonar a complacência e assumir o papel de força motora. É urgente aplicar de forma firme o ajustamento de carbono nas fronteiras, eliminar os subsídios ao petróleo e ao gás, e investir decisivamente na transição justa - dentro e fora de fronteiras. A diplomacia climática precisa de ser estratégica, transparente e corajosa.

A COP30 será um teste. Mais do que uma conferência, é a fronteira entre o discurso e a ação. O mundo precisa de recuperar a confiança na cooperação internacional e provar que ainda é capaz de convergir em torno do essencial: garantir um futuro habitável. A crise climática é também uma crise de desigualdade. Não haverá transição justa sem redistribuição de poder, de riqueza e de oportunidades. 

Combater a emergência climática é construir justiça social e regeneração económica. A humanidade precisa de decisões.

A justiça climática exige clareza, coragem e ação. Agora.

Diário de Coimbra, 4 de novembro de 2025

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

As pressões militares ocultas por trás do novo impulso para pequenos reactores nucleares



A recente visita de Donald Trump ao Reino Unido resultou numa chamada «parceria histórica» em matéria de energia nuclear. Londres e Washington anunciaram planos para construir 20 pequenos reatores modulares e também desenvolver tecnologia de microrreatores – apesar do facto de ainda não terem sido construídas centrais deste tipo em nenhum lugar do mundo.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, prometeu que estes planos irão proporcionar uma «era dourada» da energia nuclear, que também irá «reduzir as faturas» .

No entanto, a história da energia nuclear tem sido marcada por décadas de exageros, custos crescentes e atrasos constantes. Em todo o mundo, as tendências apontam na direção errada.

Então, porquê o entusiasmo renovado em relação à energia nuclear? As verdadeiras razões têm menos a ver com segurança energética ou alterações climáticas e muito mais com poder militar.

À primeira vista, o caso pode parecer óbvio. Os defensores da energia nuclear apresentam os pequenos reatores modulares, ou SMRs, como vitais para reduzir as emissões e atender à crescente procura por eletricidade por parte dos automóveis e centros de dados. Com as grandes centrais nucleares agora proibitivamente caras, os reatores menores são apresentados como uma alternativa empolgante.

Mas hoje em dia, mesmo as análises mais optimistas do sector admitem que a energia nuclear — mesmo os SMRs — provavelmente não conseguirá competir com as energias renováveis. Uma análise publicada no New Civil Engineer no início de 2025 concluiu que os SMRs são “a fonte mais cara por quilowatt de eletricidade gerada quando comparados com o gás natural, a energia nuclear tradicional e as energias renováveis”.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Jane Goodall e a ética global da esperança


Jane Goodall morreu há umas semanas, aos 91 anos, depois de uma vida inteira consagrada ao conhecimento e à defesa do mundo vivo. A sua figura permanece como uma das mais luminosas pontes entre ciência e ética, entre humanidade e natureza. Pioneira na primatologia e na conservação, transformou o nosso olhar sobre os animais e, por consequência, sobre nós próprios.

Em 1960, uma jovem inglesa sem formação universitária formal instalou-se na Reserva de Gombe Stream, na Tanzânia, para viver entre chimpanzés selvagens. Ninguém o tinha feito antes. Observando-os com paciência e empatia (qualidades então tidas como pouco “científicas”) descobriu um universo de emoções, laços e comportamentos que espelham os nossos. Viu chimpanzés fabricarem e utilizarem ferramentas, caçarem, brincarem, chorarem e guerrearem. Como diria mais tarde: “Aprendi que o que nos separa dos chimpanzés é muito menos do que aquilo que nos une.”

Essas descobertas abalaram as fundações da biologia e da antropologia, abrindo espaço a uma nova compreensão da evolução da vida. Mas Jane não se limitou à observação. Da ciência fez nascer um compromisso: proteger o que estudava. Fundou um instituto Jane Goodall que tem desenvolvido programas de conservação integrados: restauro das florestas, reabilitação de chimpanzés órfãos e envolvimento das comunidades locais na gestão sustentável dos seus territórios. Criou também o movimento Roots & Shoots, hoje presente em mais de uma centena de países, inspirando jovens a agir em favor dos animais, das pessoas e do planeta.

Ao longo de mais de seis décadas, percorreu o mundo como uma peregrina da esperança, incansável na denúncia da destruição ecológica e na defesa da dignidade de todas as formas de vida. “Cada um de nós faz a diferença. A questão é: que tipo de diferença queremos fazer?” - repetia, com a serenidade e a convicção de quem via na ação quotidiana a semente da mudança.

Embora no início do seu trabalho não tivesse formação académica formal, Louis Leakey reconheceu o seu talento e ajudou-a a obter financiamento para as primeiras expedições. Em 1962, foi admitida na Universidade de Cambridge para realizar um doutoramento em etologia, sem possuir uma licenciatura, um feito raro à época. A partir daí, tornou-se símbolo de uma nova forma de fazer ciência: uma ciência que observa com rigor, mas também com empatia. Nos últimos anos, tornou-se uma das vozes mais consistentes em defesa da esperança. “Quero que compreendam que somos parte do mundo natural. E mesmo quando o planeta parece escurecer, ainda há esperança. Não a percam.”, declarou na sua mensagem do Dia da Terra de 2025.

Como Mensageira da Paz da ONU, insistiu que “nunca poderá haver paz no mundo enquanto não aprendermos a viver em harmonia com a natureza, e uns com os outros.” No dia internacional da paz de 2025, apelou a uma nova consciência global face à violência, ao clima e às migrações, lembrando que a paz verdadeira é inseparável da justiça ecológica.

O seu legado é vasto e vivo. Jane trouxe a natureza para o centro da consciência humana, diluindo fronteiras entre o humano e o não-humano, entre a ciência e a compaixão. A sua vida recorda-nos que conservar não é apenas proteger espécies ou paisagens: é preservar o milagre relacional que sustenta o mundo. E, nesse gesto, ela ensinou-nos - com ciência e ternura - a ser mais humanos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Pró - Democracia


Texto muito poderoso. Obrigado Helena Freitas. Já tinha abordado isto nesta postagem . Vivemos em tempos do absurdo, de grave iniquidade social, muita desinformação e estamos a sofrer das escolhas desumanas dos globocratas (para melhor perceberem, os multibilionários e bilionários, sejam eles russos, norte-americanos ou chineses ou de outra nacionalidade) . É necessário VER esta época, sair do absurdo e criar coragem e ver quem está a fazer boas práticas sócio-ambientais e travar a tempo, novo fascismo e desconstruir o patriotismo pacóvio. Também relembro outra reflexão que fiz aqui, com o título "Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia". Varoufakis diz, e bem, que esta época é tecno-feudalista. Só um exemplo: porque não nos revoltamos contra McDonald´s, Burger Kings, Coca-Cola e aceitamos como "normalidade". Não é! Porque aceitamos a Temu, Shein, Shopee, AliExpress, Amazon como "normalidade"? Não é! Porque nos inscrevemos e pagamos para a Netflix, Prime Video, Disney+ ou Filmin que são "estrangeiras"? Porque não contestamos a Galp, a Navigator, a Altri? E por aí fora. Neste texto alerto para um problema existencial grave: a lavagem do cidadão (citizen washing). E, desculpem: porra, a culpa não é dos imigrantes "ilegais", a culpa não é do envelhecimento da população. Não gosto da palavra "estrangeiros" nem "povos indígenas", nem "idosos". Gosto da palavra "povos originários", "pessoas", "humanidade". Gosto também da palavra "urbanidade" . Gosto da palavra "Renaturalizar", "Regenerar" e "Prevenir". As causas são as nossas ESCOLHAS e atitudes e EXIGIR Sustentabilidade REAL e não lavagem verde!

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Antes que tudo arda

Incêndio em Avô (Oliveira do Hospital)

Em 2017, Portugal enfrentou uma das suas maiores tragédias coletivas: o incêndio de Pedrógão Grande. Uma ferida que destruiu vidas, memórias e esperanças, e expôs a vulnerabilidade estrutural do país. Nesse ano, após ouvir diferentes vozes ligadas à prevenção e ao combate, preparei uma breve síntese sobre a situação da floresta portuguesa. O retrato era conhecido, mas revelou-se devastador: um mosaico desordenado de pequenas propriedades essencialmente privadas, muitas abandonadas; política florestal errática e ausente no terreno; uma vigilância insuficiente; proteção civil dependente de participação voluntária; meios aéreos privados caros, mas ainda assim ausentes; comunidades rurais envelhecidas e esquecidas. Em síntese: uma floresta frágil, altamente inflamável, e um Estado incapaz de salvaguardar o interesse público.

Passaram oito anos. Houve avanços: destacaria o BUPi e os processos de emparcelamento que abriram caminho para resolver a fragmentação fundiária; a criação da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) e a sua ação programática trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal; a vigilância tecnológica progrediu; a proteção civil incrementou a capacidade de intervenção e preparação; a contratação de meios aéreos tornou-se mais transparente, mas ainda assim ineficaz.

No essencial, os bloqueios estruturais mantêm-se intactos. A floresta continua dividida, sem escala para uma gestão eficiente e transformadora. As políticas públicas do setor transitaram entre ministérios, mas permanecem sem coerência e incapazes de inspirar a confiança que o problema exige. A vigilância tecnológica cobre apenas parte da realidade diversa do país. A proteção civil, mais preparada, continua excessivamente dependente de esforço voluntário. O papel das Forças Armadas mantém-se episódico e sem coordenação local. Os projetos-piloto de mosaicos resilientes existem, mas são insuficientes para travar tendências e implementar a transição florestal, e as comunidades rurais continuam esmagadas pela burocracia e pelo abandono.

A verdade é que pouco mudou. A floresta portuguesa continua refém de interesses sobrepostos, centralismo sufocante e ausência de reformas estruturais que integrem floresta, agricultura, água e biodiversidade num mosaico vivo e resiliente. A acumulação descontrolada de biomassa, alimentada pelo abandono rural, transformou vastas áreas em depósitos de combustível à espera da próxima ignição. E manter grandes extensões de monocultura inflamável, num contexto climático cada vez mais adverso — com secas mais longas, ondas de calor mais intensas e ciclos de incêndio cada vez mais prolongados — é prolongar a catástrofe. É urgente diversificar espécies, apostar em ecossistemas resilientes, combinar produção florestal com regeneração ambiental e colocar a floresta ao serviço da segurança, da economia e da vida.

Esta mudança exige também um novo contrato com a indústria. O setor não pode ser assistente ou comprador de matéria-prima barata e combustível para exportação. Precisa de assumir corresponsabilidade na regeneração, investir em gestão sustentável, inovar em produtos de maior valor acrescentado e comprometer-se com a transição ecológica do país.

O futuro exige cinco escolhas inadiáveis: governança descentralizada com técnicos e meios próximos do território; uma reforma fundiária realista que permita gestão conjunta; a profissionalização parcial do combate, associada à prevenção; a assunção realista e firme do nexo entre floresta, agricultura, água, biodiversidade e clima; e, sobretudo, a reconstrução da confiança social, devolvendo às comunidades o papel de parceiras centrais, com incentivos claros e retorno económico justo.

Se 2017 foi o ano da tragédia, e 2018–2025 o tempo da resposta insuficiente, o próximo ciclo só pode ser o da reforma estrutural. Ou teremos a coragem de transformar a floresta portuguesa em alavanca de resiliência e futuro, ou continuaremos prisioneiros de um ciclo de fogo, abandono e luto.

Antes que tudo arda.

terça-feira, 15 de julho de 2025

A pluralidade que nos define



A pluralidade não é apenas uma característica desejável nas sociedades contemporâneas; no nosso caso, é um traço fundamental da identidade coletiva. Portugal foi moldado por séculos de encontros e diálogos, de partidas e regressos, de trocas culturais que nos tornaram o país diverso e acolhedor que somos hoje. Encarar as migrações com seriedade, humanidade e visão de futuro é uma necessidade prática, mas é também uma responsabilidade histórica.

Apesar disso, vivemos um tempo de retração. Erguem-se barreiras burocráticas, legais e simbólicas à entrada e integração de pessoas oriundas dos países de língua portuguesa, muitas das quais partilham connosco história, valores e língua. Em nome da segurança ou da “gestão controlada”, dificultamos o acesso à nacionalidade e à plena participação social a milhares de pessoas que procuram em Portugal o mesmo que, tantas vezes, os portugueses procuraram noutros lugares: segurança, dignidade, trabalho e esperança.

É legítimo que o Estado defina regras claras para a entrada e permanência de cidadãos estrangeiros, mas essa gestão só é verdadeiramente responsável se for orientada por princípios de justiça, solidariedade e coerência com a nossa própria história. O que está em causa não é apenas uma questão administrativa: é uma escolha política e ética sobre o país que queremos ser.

Os migrantes que chegam a Portugal não vêm “tirar” nada a ninguém. Pelo contrário: trazem competências, saberes, culturas, força de trabalho e energia. Respondem a necessidades reais da nossa economia, ajudam a equilibrar o envelhecimento demográfico e contribuem para a vitalidade das comunidades locais. Não os reconhecer como parte integrante da sociedade é desperdiçar talento, criar exclusão e alimentar tensões desnecessárias.

Não podemos ceder às narrativas que exploram o medo e fomentam a desconfiança. Essas narrativas desvalorizam a riqueza que nasce da diversidade e alimentam divisões que fragilizam a sociedade e a democracia. A história ensina-nos que sociedades que se fecham sobre si mesmas, que alimentam preconceitos e excluem quem é diferente, tornam-se mais frágeis, mais injustas e menos livres.

A diversidade enriquece a nossa identidade e faz-nos crescer como sociedade. Obriga-nos a questionar hábitos, a reavaliar certezas e a reinventar a convivência. Um país plural é aquele que reconhece que ninguém deve ser definido apenas pela sua origem, mas pelo seu contributo, pelos seus valores e pela vontade de fazer parte de um projeto comum.

Construir um país plural e justo exige coragem política, responsabilidade institucional e empatia social. Exige políticas públicas que assegurem integração plena, garantindo acesso à educação, à saúde, ao trabalho digno e à participação cívica. Exige, igualmente, um discurso público que rejeite o ódio, valorize o respeito mútuo e celebre o encontro entre diferentes comunidades.

O futuro de Portugal não se assegura erguendo muros nem alimentando desconfianças. Constrói-se com políticas eficazes, com reconhecimento das contribuições de todos os que aqui vivem e com justiça social que não deixe ninguém à margem. A pluralidade é uma herança histórica e um imperativo estratégico para o país que queremos ser: mais resiliente, mais dinâmico e capaz de enfrentar os desafios globais. Integrar plenamente quem chega até nós, mais do que um gesto de solidariedade, é uma condição para o progresso económico, social e democrático de Portugal.

Diário de Coimbra, 15.7.2025

terça-feira, 17 de junho de 2025

O avanço da Intorelância e o Silêncio da Empatia



São cada vez mais evidentes os sinais de uma escalada de intolerância e violência em Portugal, num registo que historicamente não nos era habitual. Os episódios multiplicam-se nas ruas, nas escolas, nas redes sociais, nos discursos públicos,  com uma frequência que percebemos crescente. Por vezes são subtis, outras vezes explícitos, mas todos têm em comum perceção de que algo se está a deteriorar no nosso tecido social. 
Vivemos tempos de frustração acumulada, de insegurança difusa, de um mal-estar que se infiltra lentamente na vida quotidiana. A imprensa nacional destacou recentemente o brutal ataque a um ator à saída do teatro, a agressão de duas voluntárias que levavam ajuda a pessoas sem-abrigo, ou mesmo ameaças e intimidações contra professores que defendem a inclusão nas escolas. Quando esta tensão se transforma em violência contra quem representa a cultura, a solidariedade ou o cuidado, ultrapassamos um limiar perigoso: o da desumanização do outro.
A polarização cresce quando deixamos de reconhecer a dignidade e a legitimidade de quem pensa, vive ou age de forma diferente. Quando o discurso público se transforma numa trincheira onde se dispara em vez de dialogar, quando se normaliza - direta ou indiretamente - a hostilidade como reação aceitável, e quando a raiva passa a ter mais protagonismo do que o respeito, é aí que o tecido social começa a rasgar. A convivência democrática exige mais do que regras institucionais; exige uma ética da relação, sobretudo na diferença e no desacordo.
Portugal tem uma tradição de convivência pacífica e de solidariedade discreta, mas eficaz. São traços que marcaram o nosso percurso coletivo, mesmo em tempos difíceis. Não podemos permitir que essa herança se dilua na banalização do ódio ou na indiferença face à degradação do espaço público. 
Quando quem cuida, quem acolhe, quem ensina, quem cria - em suma, quem constrói comunidade - começa a ser alvo de desconfiança ou hostilidade, estamos a destruir as bases da nossa democracia. Essa erosão abre caminho para o fortalecimento de discursos simplistas e excludentes que, lamentavelmente, têm vindo a ganhar cada vez mais espaço para se afirmar.
A raiz desta tensão é complexa. As crises sucessivas - económica, pandémica, habitacional, ambiental - têm gerado um sentimento de desorientação, de perda de controlo, de uma inquietante ausência de futuro. E onde falta horizonte, facilmente emerge o ressentimento. A indignação pode ser justa, mas quando não é acompanhada de lucidez e de responsabilidade, transforma-se em cinismo ou fúria. 
É muito importante restaurar a confiança mútua. Reabilitar o espaço público como lugar de encontro e não de ameaça. Valorizar a empatia como prática política e cívica; não como ingenuidade, mas como condição fundamental de humanidade. Porque resistir à violência simbólica ou física começa na forma como olhamos, ouvimos e falamos uns com os outros. Porque a democracia, afinal, é também a forma como nos tratamos todos os dias.

Saber mais sobre o Livro "O Poder da Empatia

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Conservar as árvores não é apenas um imperativo ecológico - é um dever civilizacional

Fonte: aqui
Cresci a reconhecer as árvores que moldaram os lugares mais marcantes da minha infância. Os carvalhos e os pinheiros-bravos eram cúmplices nas subidas aos montes junto à casa dos meus avós, no Minho. À sombra de uma nogueira imponente ficava o meu baloiço predileto, e eram os pinheiros mansos, alinhados sobre as dunas, que testemunhavam os piqueniques familiares de Verão, em rituais que pareciam suspensos no tempo.
Recordo com nitidez as árvores de fruto que visitava em ritmos sazonais: tangerineiras e laranjeiras, macieiras e pereiras, pessegueiros e cerejeiras, ameixoeiras que me desafiavam em tardes demoradas sobre os seus ramos. Havia ainda uma figueira, cúmplice das delícias do meu avô, e os castanheiros, cuja frutificação exuberante anunciava o fim das férias. Estas foram as árvores da minha infância - presenças silenciosas, mas constantes, cuja generosidade eu reconhecia como um gesto natural do mundo.
Mais tarde, já no percurso universitário em Biologia, reencontrei essas mesmas árvores, agora com outros nomes. Aprendi a designá-las como Quercus faginea, Quercus suber, Quercus pyrenaica, Pinus pinaster, Pinus pinea. Em visitas de estudo, do Gerês à Serra da Arrábida, comecei a distinguir as espécies, os seus habitats, os padrões de ecológicos e as suas relações íntimas com a paisagem.
Foi nesse contacto aprofundado que tomei consciência da vulnerabilidade de muitas espécies e da urgência de estratégias para a sua conservação. A fisiologia vegetal revelou-se para mim um domínio científico de assombro: a forma como as árvores extraem água e nutrientes do solo, muitas vezes a profundidades impressionantes, e os transportam até à copa sem romper o seu complexo sistema condutor, numa coreografia invisível de elegância e precisão. Essas árvores, que germinam e crescem num mesmo local, enfrentam ali todas as adversidades, conquistam os seus aliados naturais, otimizam as suas funções, tudo no único espaço vital que conhecem.
Nos últimos anos, tornou-se recorrente, e com fundamento, o debate sobre a desflorestação e a perda irreparável que representa para a Humanidade. Reconhece-se hoje, de forma mais clara, o papel estruturante das árvores na estabilidade dos solos, na regulação do ciclo hidrológico, na produção de oxigénio e na fixação de carbono atmosférico.
Mas para além das métricas e funções dos ecossistemas, as árvores possuem um estatuto singular no imaginário humano. As árvores habitam-nos. São raízes da nossa história, sombras da nossa infância, matéria-prima da memória e da imaginação. Inspiram mitos, preservam rituais, atravessam gerações. Têm uma longevidade que desafia o tempo humano. Uma beleza que não pede licença. Um metabolismo que é puro engenho.
Conservar as árvores não é apenas um imperativo ecológico; é um dever civilizacional. Porque nelas se enraíza não apenas a floresta, mas também parte do que somos, do que recordamos e do que ainda poderemos ser.

PS: O Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado a 22 de maio, assinala a adoção da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica (1992). Em 2025, o tema “Harmonia com a natureza e desenvolvimento sustentável” destaca a articulação entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, apelando à ação conjunta de governos, setor privado, academia e sociedade civil para integrar a biodiversidade na luta contra a pobreza e acelerar a implementação dos Planos Nacionais de Biodiversidade.

Ler mais:
António Guterres: Humanidade está a destruir a biodiversidade

sábado, 26 de abril de 2025

O Dia da Terra e o compromisso pelo futuro


Há 55 anos nasceu um movimento global em defesa do nosso planeta. Milhões de pessoas uniram-se numa manifestação coletiva por uma agenda ambiental forte, centrada na proteção do ar, da água e dos solos. Liderada pelo senador e ativista norte-americano Gaylord Nelson, esta mobilização histórica deu origem ao Dia da Terra - um marco que ultrapassou fronteiras, culturas e ideologias, consolidando-se como a maior expressão planetária de consciência ecológica e ação transformadora.

Desde 1970, o mundo progrediu. As leis ambientais foram reforçadas, criaram-se agências reguladoras, baniram-se substâncias tóxicas e a educação ambiental ganhou visibilidade e força. Mas o espírito de urgência que impulsionou o primeiro Dia da Terra não só permanece como se tornou mais vital do que nunca. Hoje, enfrentamos uma ameaça sem precedentes, que põe em risco tudo o que conquistámos e desafia a humanidade a agir com coragem e solidariedade: a crise climática.

A data de 22 de abril, oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas, alerta para desafios como a poluição, a degradação ambiental e a perda de biodiversidade. Mas a realidade exige mais do que sensibilização. As emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar; as florestas, outrora santuários de vida, sucumbem ao avanço de interesses predatórios; os oceanos aquecem; os ecossistemas colapsam e a perda de biodiversidade atinge níveis alarmantes. E é gritante a injustiça quando os mais afetados por esta crise são justamente os que menos contribuíram para a causar.

Neste contexto, não há justiça climática sem justiça social. As cidades precisam de se adaptar, investindo em soluções baseadas na natureza, infraestruturas verdes e modelos de governança mais resilientes e participativos. A forma como produzimos, consumimos e nos organizamos, deve ser repensada com base em princípios circulares, regenerativos e sustentáveis.

Mas há uma outra crise, mais silenciosa e igualmente perigosa: a erosão da confiança. A descrença nas instituições, o imobilismo político e o sentimento generalizado de impotência corroem a nossa capacidade de ação coletiva. Talvez seja este o maior risco do nosso tempo: deixarmos de acreditar uns nos outros e na força transformadora da ação conjunta.

O legado do Dia da Terra continua a ser profundamente relevante. Ele recorda-nos que a mudança é possível. Que ela já aconteceu antes, quando multidões se uniram em nome da vida, da dignidade e da justiça ambiental. E que pode voltar a acontecer. Para isso, precisamos de ciência, tecnologia e inovação, mas também de uma esperança ativa; aquela que se traduz em escolhas conscientes, coragem política e compromisso cívico.

Como afirmou recentemente Denis Hayes, organizador do primeiro Dia da Terra: a crise climática é, simultaneamente, o maior desafio e a maior oportunidade da nossa geração. Concordo plenamente. É tempo de transformar o medo em responsabilidade, e a desesperança em projeto. O Dia da Terra não é apenas uma data no calendário; é um importante apelo à mobilização planetária.

Celebrar o 22 de abril é mais do que um gesto simbólico: é um ato ético, político e profundamente necessário. É uma renovação. Um pacto. Uma declaração de pertença. É afirmar que ainda acreditamos. Que ainda lutamos. Que ainda sonhamos. Porque a Terra - esta casa comum, bela e frágil - justifica todo o nosso empenho.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

O dia em que Portugal acordou Livre


Numa suave manhã de abril de 1974, Portugal despertou agitado ao coro da mudança. O perfume dos cravos mesclava-se com as aspirações de uma nação cansada de anos sob o jugo opressivo da ditadura. Neste dia singular, o descontentamento silencioso do povo encontrou eco no coração daqueles que ousaram sonhar, anunciando o fim de um regime que sufocava a liberdade e reprimia o progresso social, económico e cultural do país. Portugal erguia-se, enfim, com a ambição de prosperar, deixando para trás um caminho solitário que havia trilhado durante demasiado tempo. 
A Revolução dos Cravos não nasceu da violência, mas da coragem. Foi o grito sereno de um povo que já não aceitava viver calado, a coragem de militares que escolheram a pátria e o povo em vez da opressão. Foi o instante sublime em que a utopia se tornou possível, e Portugal, cansado da noite longa da ditadura, amanheceu livre.
Essa revolução, embora nascida em solo português, ecoou muito além das fronteiras, como um hino universal à dignidade humana. O mundo viu um povo erguer-se com cravos nas mãos e justiça no peito. Homens e mulheres comuns tornaram-se heróis anónimos de uma mudança que brotou das entranhas da sociedade - com resiliência, com sonho, com a sede de um novo amanhã.
O fim da ditadura não foi apenas o desmantelamento da censura ou a criação de instituições democráticas. Foi o início de uma caminhada intensa, nem sempre fácil, mas profundamente transformadora. A democracia chegou com debates, com escolhas difíceis, com o peso e a beleza da liberdade. Trouxe conquistas nos direitos civis, na igualdade de género, na afirmação das minorias, e na ousadia de construir uma economia moderna e aberta ao mundo.
Foi também um renascimento cultural. A palavra voltou a ter valor. A arte, a literatura, o cinema e a música floresceram como sementes guardadas durante décadas, à espera de solo fértil e céu limpo. Expressar-se tornou-se não só um direito, mas um dever cívico, e o país inteiro respirou, finalmente, em liberdade.
O legado do 25 de Abril é eterno enquanto resistirmos à amnésia coletiva. É farol e bússola. Lembra-nos que a liberdade é conquistada, não concedida. Que a democracia se cultiva todos os dias, com participação, com justiça social, com o combate à corrupção e à desigualdade.
Hoje, ao celebrarmos a liberdade, é vital recordar a força dos que nos trouxeram até aqui. Porque num tempo em que tantas conquistas parecem frágeis, revisitamos Abril não como nostalgia, mas como promessa. Promessa de que o povo português saberá sempre - se preciso for - voltar a encher as ruas de coragem, de cravos e de futuro.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A propósito de Harvard


É difícil compreender que se possa colocar em causa uma universidade que, ao longo da sua história, se afirmou como uma referência nacional e internacional. Uma instituição de ensino superior que, de forma consistente, tem ocupado posições cimeiras nos rankings, contribuindo de modo inquestionável para o progresso científico, económico e social do país. Uma universidade que formou quadros extraordinários, muitos dos quais ocupam hoje posições de destaque nas mais prestigiadas empresas e instituições. Uma universidade que acolheu e inspirou inúmeros prémios Nobel, e que tem gerado conhecimento, inovação e soluções com impacto real e duradouro na vida das pessoas. Causa perplexidade e indignação que se procure fragilizar precisamente as instituições que mais têm contribuído para a prosperidade do país. Colocar em causa o conhecimento é um risco que não é apenas simbólico: é estrutural e profundamente destrutivo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Diversidade: o segredo da resiliência humana e natural


Tal como na natureza, onde ecossistemas biodiversos são mais produtivos e resilientes, os grupos humanos prosperam na diversidade. Cada indivíduo contribui com competências, perspetivas e talentos únicos, que, combinados, criam uma "rede de interações" mais forte e funcional. 
Tal como espécies diferentes num ecossistema contribuem para o seu funcionamento e estabilidade, os contributos humanos complementares ajudam a superar desafios e a promover avanços em áreas diversas da ciência, cultura, arte e tecnologia.
Quando pessoas com diferentes formações e experiências se reúnem para resolver problemas complexos, as suas perspetivas variadas permitem explorar abordagens mais criativas e abrangentes - reflete o conceito ecológico de "nicho complementar", onde diferentes espécies ocupam papéis únicos e, juntas, tornam o sistema mais eficiente e equilibrado.
Além disso, a diversidade humana também atua como uma barreira natural contra a disseminação de ideias ou comportamentos prejudiciais, como no caso de ecossistemas ricos que resistem melhor a espécies invasoras. Num ambiente humano inclusivo, a multiplicidade de pontos de vista e experiências impede que preconceitos ou práticas destrutivas ganhem espaço de maneira descontrolada.
A ideia de resiliência também é crucial. Tal como os ecossistemas com elevada biodiversidade respondem melhor a perturbações, uma sociedade diversificada adapta-se melhor a mudanças e crises. Essa resiliência vem da capacidade de aprender com os erros, de absorver influências externas e de encontrar soluções inovadoras. 
Num contexto humano, isso poderia significar enfrentar crises económicas desafios ambientais ou adaptação às novas tecnologias. Os ecossistemas biodiversos cativam-nos pela sua beleza e complexidade. Da mesma forma, a diversidade humana enriquece a nossa convivência, fomentando a criatividade e a resiliência.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Os desafios da Sustentabilidade

A aprovação da agenda 2030 representou um marco importante na agenda política global, testemunhando uma ambição coletiva para enfrentar os desafios globais mais urgentes através da concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Comparando a agenda precedente, os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, os ODS ofereceram um quadro mais abrangente e estruturado para abordar a complexidade e a amplitude dos problemas. Com efeito, a agenda 2030 traçou um rumo para a cooperação mundial, propondo um roteiro de referência para enfrentar diversos desafios como a erradicação da pobreza e a ação climática. No entanto, à medida que avançamos na implementação dos ODS e nos aproximamos da sua meta, torna-se imperativo refletir sobre a magnitude das nossas aspirações e a necessidade de adaptação contínua às circunstâncias em evolução. Apesar da ambição inicial e das melhores intenções, percebemos as limitações da agenda e a necessidade de a reavaliar, assegurando a prossecução mais ambiciosa de programas que respondam aos grandes desafios ambientais, sociais e humanos.
O princípio da equidade é fundamental para a implementação e sucesso da agenda 2030 e da própria transição ecológica. Esta transição não pode perpetuar as desigualdades prevalecentes, mas antes servir como catalisador para uma prosperidade inclusiva. O alinhamento neste trajeto transformador deve adotar metodologias de gestão de projetos que priorizem a colaboração, a inovação e a inclusão. O desafio ambiental imediato é a crise climática, uma ameaça que exige respostas coletivas rápidas e decisivas.
Embora o impulso inicial da agenda 2030 tenha sido significativo, as tendências financeiras atuais revelam uma realidade preocupante. O financiamento global abrandou, agravando a pobreza extrema pela primeira vez em décadas. Este facto sublinha a necessidade urgente de um compromisso renovado, bem como abordagens de financiamento inovadoras para se conseguir implementar as iniciativas de desenvolvimento sustentável.
De forma resumida, os desafios da sustentabilidade exigem um reforço da ambição, enfatizando no seus propósitos:
1. Uma orientação para a paz. No meio da escalada dos conflitos globais, priorizar a paz não é apenas um imperativo moral, mas uma condição para o desenvolvimento sustentável.
2. Enfrentar a tripla crise planetária. A convergência das alterações climáticas, da perda de biodiversidade, da escassez de água e da poluição plástica representa uma ameaça existencial. A resolução destas crises interligadas exige soluções holísticas e sistémicas.
3. O desafio da pobreza, da desigualdade e da educação. Apesar dos progressos, a pobreza e a desigualdade persistem como obstáculos ao desenvolvimento humano. A educação é uma ferramenta fundamental para o empoderamento e mobilidade social.
4- Liderança na transição verde e inovação tecnológica. A transição para um futuro sustentável demanda determinação nos setores da energia, sistemas alimentares e tecnologias digitais. As políticas regressivas que subsidiam os combustíveis fósseis dificultam o progresso, particularmente em regiões como a África - com contribuições mínimas para as emissões globais.
5. Uma governação democrática e finanças sustentáveis. A defesa dos valores democráticos, a promoção da transparência e a mobilização de finanças sustentáveis são essenciais para a construção de sociedades e economias justas e resilientes.

domingo, 20 de outubro de 2024

Financiamento da conservação: É preciso “abrir os cordões à bolsa” para salvar a vida na Terra


Fazer as pazes com a natureza é a tarefa que determinará o século XXI”. Estas palavras foram proferidas por António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, na abertura da cimeira global da biodiversidade (COP16), que decorreu no final de outubro, na Colômbia.

Um dos principais assuntos na agenda do encontro era o financiamento para a conservação, ou seja, impulsionar as contribuições financeiras dos Estados signatários da Convenção da Diversidade Biológica para ser possível cumprir as metas definidas pelo Acordo de Kunming-Montreal, que saiu da cimeira de 2022 e que tem como objetivo travar e reverter a perda de biodiversidade até 2030.

Em suma, pretende-se cessar a guerra humana contra a Natureza, um empreendimento urgente e de proporções dantescas, dada a história das relações da nossa espécie com o mundo natural. Um dos principais pilares do acordo é, claro, o financiamento. Sem dinheiro, pouco ou nada se conseguirá fazer. E as estimativas apontam que sejam precisos, pelo menos, 200 mil milhões de dólares por ano para os objetivos serem cumpridos.

Mas entre as palavras e a ação há todo um mundo de possibilidades. Na mais recente COP, os países juntaram-se em Cali para concretizar progressos, mas assistiu-se, ao invés, à falta de acordo entre as delegações dos vários Estados sobre como prosseguir no que toca ao financiamento da conservação. No dia 2 de novembro de 2024, já depois de a data oficial de encerramento da cimeira ter passado e de as negociações entre os países se terem arrastado durante quase meio-dia sem avanços significativos, a COP foi suspensa, sem que se tivesse chegado a qualquer acordo sobre como os Estados vão conseguir mobilizar o financiamento para tirar o Acordo de Kunming-Montreal do papel.

A Colômbia, país anfitrião da cimeira, decidiu suspender os trabalhos na manhã do dia 2 por não haver na sala delegações suficientes que permitissem adotar um acordo sobre o financiamento. A continuação das discussões foi adiada, ainda sem data e local definidos.

O fim abrupto da cimeira foi visto por alguns observadores como sinal do fracasso do encontro, apesar de alguns avanços relevantes noutras áreas, como, por exemplo, a criação do Fundo Cali para a partilha “justa e equitativa” de recursos económicos provenientes do uso de informação genética digital sobre a biodiversidade, um novo impulso para a proteção dos ecossistemas marinhos e o reconhecimento do papel central dos povos indígenas e comunidades locais na conservação da Natureza. Contudo, o principal, a questão do financiamento, ficou por decidir

A importância do setor privado
Em traços largos, o financiamento para a conservação é a mobilização e gestão de capital, não apenas público, mas de uma ampla variedade de fontes, para proteger e, em alguns casos, recuperar a biodiversidade.

Num artigo publicado em março de 2023 na revista Journal of Environmental Management, investigadores de Itália recordavam que os recursos alocados à biodiversidade nunca foram avultados e que “a maioria das áreas mais biodiversas do mundo estão em lugares ameaçados pela pobreza, corrupção, grande extração de recursos e desenvolvimento generalizado”, tudo fatores que põem em risco a biodiversidade.

Conseguir maior financiamento passa, por exemplo, por canalizar os apoios e subsídios considerados prejudiciais à Natureza (tais como para os combustíveis fósseis e atividades extrativas intensivas) para ações e estratégias que visem a sua proteção e conservação. Por isso, o dinheiro não pode apenas vir dos Estados, mas deve também ser mobilizado no setor privado, algo já reconhecido no Acordo de Kunming-Montreal, no qual os Estados signatários destacavam a importância de “encorajar o setor privado a investir na biodiversidade”.

Helena Freitas, Professora Catedrática da Universidade de Coimbra e um dos grandes nomes da Ecologia portuguesa, conta-nos, em entrevista, que nenhum país, Portugal incluído, será capaz de “enfrentar os desafios da conservação sem o envolvimento ativo do setor privado”.

Para a ecóloga, “a magnitude dessas questões ultrapassa a capacidade de ação exclusiva dos Estados” e “as parcerias público-privadas, consagradas na Agenda 2030 e no tratado da Kunming-Montreal, devem ser mais eficazes para acelerar a implementação de soluções que sejam tanto adequadas quanto justas”. Assim, aliar a capacidade de financiamento dos setores público e privado “permite mobilizar recursos, conhecimento e inovação de forma mais ágil e integrada, garantindo um impacto mais robusto na conservação e sustentabilidade”, sentencia.

A conservação da Natureza em Portugal
Tal como acontece um pouco por todo o mundo, o financiamento da conservação em Portugal tem também as suas fragilidades. Helena Freitas destaca que “o período mais positivo para a conservação da natureza” em Portugal “foi no essencial concluído no século passado”, resultando na criação de áreas protegidas e na concretização da Rede Natura 2000. Contudo, desde então, “o desinvestimento na conservação em Portugal tem sido notório”.

Para a docente universitária, nos últimos 20 anos tem-se tornado “evidente” uma falta de capacidade no país para “gerir as exigências emergentes”, a par de uma “escassez de recursos humanos nos territórios e a perda de capacidade técnica para planear e responder a solicitações, que se tornaram cada vez mais complexas e diversificadas”.

A ecóloga aponta que esses fatores têm “limitado a eficácia das políticas de conservação e a gestão sustentável dos ecossistemas” no país, recordando que, na última década, as prioridades têm recaído sobre a “prevenção e, sobretudo, combate aos incêndios florestais, menosprezando claramente a conservação da natureza”.

No passado mês de agosto, entrou em vigor a Lei do Restauro da Natureza, um instrumento legislativo no âmbito da União Europeia, que vai além da conservação e destaca a reversão dos danos causados. Essa lei define que os Estados-membros têm até 2030 para proteger legalmente, no mínimo, 20% de habitats terrestres e marinhos, e que até 2050 medidas de restauro devem estar a ser aplicadas em todos os ecossistemas que precisem de ser recuperados.

Claro que nada disto será possível sem o financiamento adequado. O atual Governo de coligação PSD/CDS-PP, liderado por Luís Montenegro, assumiu, no seu programa eleitoral, que “a perda de biodiversidade é um sério problema, pelo que devem ser criadas condições para um efetivo restauro ecológico de áreas degradadas”. Em junho, o Executivo votou a favor da Lei do Restauro e quatro meses depois anunciou a criação de um grupo de trabalho para criar o Plano Nacional de Restauro da Natureza, para concretizar as metas europeias e do Acordo de Kunming-Montreal.

Helena Freitas considera que “a Ministra do Ambiente [Maria da Graça Carvalho] assumiu com coragem a Lei de Restauro da Natureza”, esperando–se “uma rápida elaboração de um plano nacional que apoiará a respetiva implementação”. No entanto, não deixou de expressar algumas dúvidas sobre a efetiva concretização dos compromissos, uma vez que “a prática de baixo investimento que se instalou deixa-me pouco confiante na mudança de trajetória”, confessa a ecóloga, reconhecendo que teremos de esperar para ver.

Em Portugal, o financiamento da conservação da biodiversidade tem  padecido de “inconsistência e imprevisibilidade a longo-prazo”, destaca, acrescentando que projetos de conservação têm tido dificuldade em gerar resultados e impactos significativos, sustentáveis e duradouros porque acabam por ficar dependentes de “financiamento a curto-prazo”.

Para Helena Freitas, “a fragmentação das fontes de financiamento, sem uma coordenação eficaz entre fundos nacionais, europeus e internacionais, também leva à duplicação de esforços ou ao esquecimento de áreas prioritárias”.

A par disso, outro problema é identificado: a falta de valorização dos serviços de ecossistema, ou seja, dos benefícios que o mundo natural nos possibilita a custo zero, como, por exemplo, a polinização natural, entre muitos outros. A docente universitária acredita que por não serem quantificados, acaba por não ser possível mobilizar recursos para a proteção desses serviços, que são “essenciais para o bem-estar humano e para a economia”.

Além disso, apesar da importância que lhe é reconhecida na conservação, o envolvimento do setor privado nessa arena tem sido “limitado”, o que para Helena Freitas representa “uma oportunidade desperdiçada, dado o crescente interesse na responsabilidade social corporativa”.

Então, o que fazer? A ecóloga avança-nos algumas propostas: “é fundamental garantir um financiamento de longo-prazo, com mecanismos que assegurem a continuidade dos projetos”, “é necessário integrar a valorização dos serviços dos ecossistemas nas políticas públicas e incentivar o setor privado a colaborar mais ativamente” e “melhorar a coordenação intersectorial, implementando uma abordagem integrada que alinhe os interesses de vários setores (agricultura, turismo, urbanismo, etc.) com os objetivos de conservação”.

No campo das soluções, o grupo de reflexão português NaturaConnect.PT, coordenado pelo investigador Miguel Bastos Araújo, apresentou, em setembro último, uma série de propostas para ajudar Portugal a cumprir os compromissos internacionais assumidos no que toca à conservação da biodiversidade.

Entre as medidas propostas estão a revisão dos subsídios públicos que prejudicam a biodiversidade, o restauro das funções e processos naturais dos ecossistemas, a alavancagem de fundos europeus para a conservação e restauro e o reforço de fundos públicos para aquisição e gestão de propriedades em terrenos classificados. O documento sugere ainda a aplicação dos princípios de poluidor-pagador e utilizador-pagador, a aplicação dos fundos obtidos por essa via para financiar programas de protetores-recebedores, a criação de um mercado de créditos de biodiversidade, um maior investimento público na marca NATURAL.PT que promove a visitação de áreas protegidas e valoriza os produtos artesanais nelas produzidos, e equiparar os donativos para fins ambientais aos que se destinam a causas sociais.

O grupo NaturaConnect.PT considera que só com estes esforços e transformações Portugal conseguirá atingir as metas de conservação e restauro da biodiversidade com as quais se comprometeu, com Miguel Bastos Araújo a destacar que “tendo em conta a matriz territorial portuguesa, com cerca de 97% de propriedade privada, qualquer intervenção no sentido de promover a conservação da biodiversidade requer a identificação de soluções articuladas e suportadas por financiamentos públicos e privados, que impliquem compromissos de longo prazo”.

Os choques entre a Ciência e a Política
É frequente ouvirmos numa variedade de discursos públicos sobre Ambiente e Natureza, desde logo proferidos por políticos, que a Ciência é fundamental para informar os esforços de conservação da biodiversidade. No entanto, nem sempre os interesses políticos e os factos científicos se alinham uns com os outros.

Ainda que “os cientistas sejam frequentemente consultados, nem sempre as suas recomendações são totalmente integradas nas decisões e políticas finais”, reconhece Helena Freitas, de tal forma que acaba por existir “um desfasamento entre o que é sugerido pela ciência e o que é efetivamente implementado”, sobretudo, continua, “quando existem pressões económicas e políticas em jogo”.

O diálogo, ou falta dele por vezes, entre Política e Ciência está repleto de fricções e colisões, especialmente quando as medidas e ações propostas pelos cientistas são vistas como “inconvenientes ou contrárias aos interesses de curto-prazo de determinados grupos de interesse ou dos próprios decisores políticos, que muitas vezes enfrentam restrições orçamentais e preferem soluções menos dispendiosas”, diz a docente da Universidade de Coimbra.

Por isso, “o financiamento e a prioridade das medidas científicas propostas podem ser diminuídos ou adiados, comprometendo a eficácia das políticas de conservação em Portugal”, pelo que seria relevante criar “mecanismos ou plataformas formais que garantam um diálogo fluido e contínuo entre a comunidade científica e os decisores políticos”, propõe.

Um planeta com cada vez menos diversidade de vida
No passado dia 10 de outubro, o 15.º Relatório Planeta Vivo, elaborado pela organização WWF, veio, uma vez mais, confrontar-nos com a dimensão da perda de biodiversidade. No último meio século, o tamanho médio das populações de animais selvagens a nível mundial diminuiu 73%, considerado um “declínio catastrófico” da vida selvagem na Terra.

O documento alerta que “para garantir um planeta habitável e próspero” é preciso “uma mudança sísmica” para que o financiamento passe a fluir “na direção certa, deixando de prejudicar o planeta e passando a curá-lo”.

Apesar dos esforços e de irmos na 16.ª cimeira global da biodiversidade, a perda de espécies, habitats e ecossistemas continua a progredir com velocidade e intensidade estonteantes. Ainda que reconheça a importância das COP “na criação de acordos multilaterais que visam proteger o planeta”, Helena Freitas não deixa de apontar que “as negociações enfrentam muitas vezes entraves, pois estão condicionadas por interesses económicos e políticos de curto-prazo, especialmente de países mais desenvolvidos”.

Recentemente, um grupo de altas personalidades internacionais, entre elas o ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu uma reforma organizacional das COP das alterações climáticas, cuja estrutura atual consideram não ser capaz de “produzir a mudança a uma velocidade e escala exponenciais”, o que é “essencial” para assegurar o futuro da humanidade num planeta em crise climática. Talvez, da mesma forma, seja preciso refletir sobre a eficácia das cimeiras globais da biodiversidade.

O relatório da WWF avança que as maiores perdas de biodiversidade acontecem na América Latina, nas Caraíbas e em África, regiões onde se concentra parte significativa dessa diversidade biológica global e onde estão países fortemente afetados por grandes desigualdades socioeconómicas e dos mais vulneráveis às crises ambientais. Por essa razão, sociedade civil e cientistas têm apelado a um maior envolvimento e participação do chamado “Sul Global” nos processos de tomada de decisão política relativamente à conservação da biodiversidade.

Ecoando essas reivindicações, Helena Freitas acredita que “uma maior participação do ‘Sul Global’ é absolutamente imperiosa, não só porque estas regiões são as mais afetadas pela perda de biodiversidade e alterações climáticas, mas também porque possuem um vasto conhecimento local e tradicional que pode ser valioso nas negociações”.

Como tal, “uma abordagem mais inclusiva e equitativa, que considere as necessidades e vozes dessas nações, pode ajudar a garantir que os acordos globais sejam mais justos e eficazes, promovendo um caminho de desenvolvimento sustentável e de verdadeira proteção do planeta”, defende a especialista.

Será a Natureza alguma vez uma prioridade política?
Embora acredite que “a sociedade portuguesa está cada vez mais disposta a apoiar a conservação da natureza” e que “há uma atitude, de maneira geral, mais favorável por parte da sociedade e das empresas” em relação a esse tema, e que o reconhecimento dos impactos da inação sobre as vidas e negócios impulsionará “um maior empenho na conservação da biodiversidade”, Helena Freitas sublinha que a conservação da biodiversidade “está longe de constituir uma prioridade política efetiva e transversal”. Isto porque continua a ter de enfrentar “limitações orçamentais, competição com outras prioridades como a economia, a saúde e o emprego, e a pressão de setores como a agricultura, a construção e o turismo, que muitas vezes colidem com os objetivos de conservação”.

Para que se torne uma verdadeira prioridade política, é preciso que vários fatores se conjuguem e reforcem mutuamente, como, por exemplo, “a sensibilização da população e dos decisores políticos para a urgência da crise ecológica e para a relevância da biodiversidade na qualidade de vida e na economia” e “a inclusão de compromissos de conservação nos planos de recuperação económica”, bem como “a implementação de políticas de desenvolvimento sustentável que aliem a conservação ao crescimento económico”.

Mas mesmo isso poderá não ser suficiente. Para mudar o atual estado de coisas, a sociedade civil e a comunidade científica devem continuar a fazer pressão para que a mudança aconteça e para que os decisores políticos assumam compromisso de longo-prazo, porque a Natureza não se rege por ciclos de quatro ou cinco anos.

Uma vez mais, também o financiamento contínuo é crucial para tornar a conservação uma prioridade nacional, além da integração da biodiversidade “nas políticas setoriais de forma mais robusta, de modo a garantir que a preservação dos ecossistemas naturais seja uma parte intrínseca e inexorável do desenvolvimento do país”, salienta Helena Freitas.

Por sua vez, Miguel Bastos Araújo, do grupo NaturaConnect.PT, avisa-nos que “a biodiversidade não é apenas um bem natural a ser preservado, mas também uma componente fundamental do funcionamento dos ecossistemas, ajudando a criar barreiras naturais que minimizam o impacto de calamidades”. Por outras palavras, a biodiversidade é um aliado fundamental num planeta à beira do colapso ecológico e climático do qual não devemos, nem podemos, prescindir ou desvalorizar.