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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa


A Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) é uma oportunidade para reunir governos e a sociedade civil para ação orquestrada em prol da melhoria de vida das pessoas idosas.

A violência contra idosos é um problema subnotificado mundialmente que existe tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos. Embora a extensão dos maus-tratos contra idosos seja desconhecida, sua importância social e moral é incontestável.

Por isso, a ONU instituiu o dia 15 de junho de 2006 como o Dia Mundial da da Consciencialização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa para definir abordagens culturalmente contextualizadas para detectar e lidar com a violência contra esse grupo populacional.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou nos últimos cinco anos 8.540 pessoas idosas vítimas de crime e violência, o que representa uma média de cinco por dia, divulgou hoje a instituição.
Os dados estatísticos da APAV indicam um aumento de 26,5% no número de idosos apoiados entre 2021 e 2025, sendo que a ajuda foi dada em resposta a 15.804 crimes e outras formas de violência
A violência doméstica continua a ser o crime mais frequentemente registado, representando 78,9% das situações acompanhadas pela APAV, o que corresponde a 12.465 crimes.

Seguem-se a ameaça ou coação (3,7%), a ofensa à integridade física (3,7%), a difamação ou injúria (3%) e a burla (2%).
A maioria das vítimas apoiadas era do sexo feminino (76,3%), tinha entre 65 e 74 anos (49,4%) e nacionalidade portuguesa (92,7%), sendo mais de metade (55,9%) dos agressores do sexo masculino.
A APAV assinala que "a violência contra pessoas idosas ocorre maioritariamente em contexto familiar, sendo a pessoa agressora, na maioria das situações, filha ou filho da vítima (32,3%), seguida do cônjuge (21,5%)", acrescentando que 29,8% dos agressores tem entre 25 e 64 anos.
A associação salienta também que "mais de metade das vítimas apoiadas (53,6%) encontravam-se em situação de vitimação continuada", entre as quais 23,4% que viveram situações de violência durante um período compreendido entre dois e seis anos antes de procurar apoio.
Quase metade das vítimas (46,6%) não apresentou queixa nem viu a sua situação denunciada às autoridades.
Para a instituição, "estas estatísticas reforçam a necessidade de continuar a investir na prevenção, deteção precoce e apoio especializado às pessoas idosas vítimas de crime e violência, bem como na sensibilização da sociedade para uma realidade frequentemente invisível".
A APAV, criada em 1990, presta apoio jurídico, psicológico e social, gratuito e confidencial, por telefone, através da Linha de Apoio à Vítima 116 006, 'online', no Chatbot APAV, e presencialmente nos seus gabinetes espalhados pelo país.




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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Catfish: descubra o que é o golpe com perfis digitais

Por mais que as camadas de proteção, dicas de precaução e os sistemas de segurança nos ambientes online estejam disponíveis em maior número, os novos golpes digitais continuam sendo criados, ou adaptados, por pessoas mal-intencionadas e que sabem como utilizar a engenharia social para atingir o elo mais fraco: o ser humano. O chamado Catfish é um dos tipos de armadilhas que estão sendo aplicadas atualmente.

Talvez você já tenha visto casos de pessoas dizendo que alguém está usando a sua foto para entrar em contato, principalmente por WhatsApp ou via uma conta falsa nas redes sociais. Ao se passarem por outra pessoa, como alguém conhecido, os criminosos fazem novas vítimas com o objetivo de capturar dados, receber dinheiro, até instalar vírus no celular de quem foi pego neste golpe.

Esse é o cenário em que o Catfish acontece. Quer compreender mais sobre o assunto? Então, continue a leitura e veja quais são as dicas de segurança que os especialistas do Santander indicam para você.

O que é o golpe Catfish?
Apesar de ter um nome em inglês, o golpe Catfish é aplicado em diferentes regiões do Brasil e do mundo, já que se refere a uma armadilha digital capaz de alcançar as vítimas de onde elas estiverem, e que os criminosos conseguem operar igualmente de qualquer lugar.

Ele ocorre quando uma pessoa mal-intencionada cria uma identidade falsa nas redes sociais para enganar e atrair pessoas para o golpe. Geralmente, o criminoso por trás do perfil falso busca estabelecer um relacionamento online com a vítima, muitas vezes românticos e fingindo ser alguém que não é.

Para você saber: o termo Catfish remete a “peixe-gato”, como uma espécie de tradução para essa prática em que há uma pessoa mal-intencionada fazendo uma pessoa comum como “presa” e vítima.

Em quais contextos o golpe Catfish acontece?
Os ambientes online são propícios a serem cenários de golpes porque em determinadas situações é difícil distinguir o que é real daquilo que não é.

Por exemplo, ao trocar mensagens em redes sociais, você poderá estar conversando com um perfil falso sem saber, basta que esteja usando a imagem de alguém que você conhece ou algo semelhante a isso.

Dessa forma, o golpe Catfish ocorre em contextos como os exemplos a seguir:
- Está interessado de forma romântica e passa a manter uma conversa diária por dias seguidos, perguntando assuntos pessoais, relatando o dia a dia e demais pontos de uma troca de mensagens comum;
- Encontrou o número em algum grupo em comum e mantém o bate-papo como se quisesse se tornar um amigo virtual da vítima, mostrando um perfil que utiliza fotos de outras pessoas para passar confiança;
- Entram em contato com familiares e amigos, e dizem ser um novo número de contato (o telefone de trabalho, por exemplo). Com a vítima aceitando tal mensagem como verdadeira e dando abertura, os criminosos alegam situações em que precisam de dinheiro ou de algum dado sigiloso;
- Afirmam que querem muito encontrar você pessoalmente, mas sempre apresentam algum motivo, como um imprevisto, para evitar que isso aconteça.

Saiba como se proteger do golpe Catfish
Quer redobrar os seus cuidados para se proteger online? Então, confira quais são as medidas de segurança para não ser vítima do golpe Catfish.

Para começar, nunca transfira dinheiro nem faça pagamentos para pessoas, por mais que esteja com a foto de algum conhecido seu, sem verificar antes se são elas mesmas que estão solicitando essa ajuda financeira. Ou seja, converse pessoalmente ou por chamada de vídeo com o seu contato, e confirme a mensagem.

Caso tenha conhecido alguém pela internet, como em aplicativos de relacionamento, busque maneiras de confirmar que essa pessoa existe mesmo. Por exemplo, investigue as fotos nas redes sociais, publicações com família e amigos, faça chamadas de vídeo e faça uma busca do nome completo em sites de pesquisa.

Sempre que possível marque um encontro presencial, em locais públicos e seguros, e leve alguém de confiança para acompanhá-lo(a), e desconfie de determinados assuntos, como os que envolvem dinheiro, e demais apelos emocionais.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Maioria dos homens não é tóxico, aponta estudo da Universidade de Auckland


Levantamento internacional aponta baixos níveis de traços problemáticos na maior parte dos participantes. No entanto, especialistas apontam que realidade do Brasil é diferente e é preciso cautela.

A maioria dos homens é tóxica?
A maioria dos homens é realmente "tóxica"? Um estudo da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, com mais de 15 mil participantes, diz que não. A pesquisa revelou que 89,2% dos homens apresentam níveis baixos ou moderados de traços problemáticos.

O termo “homem tóxico” se popularizou e se tornou parte do vocabulário popular. Nas redes sociais, milhares de vídeos com essa tag trazem conteúdos que explicam sinais que podem indicar que um homem tem uma inclinação a ser machista, misógino ou violento.
A ciência já vinha tentando entender o que é o homem tóxico, e uma pesquisa apontou uma checklist que poderia colocar ou retirar homens dessa “categoria”. Agora, pesquisadores entrevistaram mais de 15 mil homens para entender: a maioria é ou não é tóxica?

Diferente do que muitos poderiam imaginar, a pesquisa aponta que não. Na verdade, a maioria dos homens entrevistados estava fora dessa categoria.

A pesquisa vem sendo replicada nas redes sociais, mas o que especialistas ouvidos pelo g1 explicam é que os dados são importantes, mas é preciso levar em consideração o abismo social entre a Nova Zelândia, onde o estudo foi feito, e o Brasil.

Aqui, o país vem batendo recordes de violência contra a mulher, e a maioria dos homens acha que há muita cobrança sobre eles para a igualdade entre os gêneros.

Homens não são tóxicos?
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, analisou diferentes dimensões de atitudes associadas à masculinidade — incluindo agressividade, controle emocional, visões sobre mulheres e normas de gênero. A partir disso, os participantes foram divididos em cinco perfis.

O que eles descobriram:
O perfil “atóxico”, que não tem nenhum traço tóxico, representava o maior grupo. Cerca de 35% dos homens da pesquisa estavam nele e apresentavam os menores níveis de comportamentos considerados problemáticos.
O grupo mais extremo, denominado “tóxico hostil”, teve os menores índices, representando apenas 3,2% dos entrevistados.

Para identificar o grupo mais problemático, os pesquisadores analisaram respostas ligadas a oito indicadores. Os homens classificados como “hostis” se destacaram por combinar pontuações altas em temas como:
  1. crença de que mulheres buscam controlar os homens;
  2. valorização da agressividade e da dominação;
  3. dificuldade extrema de expressar vulnerabilidade;
  4. rejeição a traços considerados femininos e maior preconceito;
  5. tendência a comportamentos de controle em relações íntimas;
  6. baixa capacidade de lidar com emoções.
“Dizer que homens são tóxicos é uma forma solta de avaliar o momento que estamos vivendo. Se queremos uma mudança de comportamento, não tenho certeza se usar o termo como se usa, de forma ampla, como um rótulo para os homens, seja útil”, explica Deborah Hill Cone, autora do estudo.

Entre os dois extremos encontrados na pesquisa, ficaram perfis considerados intermediários, com homens que podem apresentar algum nível de sexismo ou visões tradicionais de gênero, mas sem traços de hostilidade ou agressividade elevada.

Foram eles:
  1. Moderados Tolerantes a LGBT (27,2%): Níveis baixos a moderados de traços tradicionais, mas com alta aceitação da diversidade.
  2. Moderados Anti-LGBT (26,6%): Perfil semelhante ao anterior, porém com maior preconceito sexual. Ainda assim, com poucos traços de agressividade relacionada.
  3. Tóxicos Benevolentes (7,6%): Homens que apresentam um sexismo "paternalista", acreditando que as mulheres devem ser protegidas e se manter em papéis sociais restritos. Ainda assim, com pouco índice de agressividade.
Isso vale para o Brasil?
O que Hill e a pesquisadora brasileira sobre género e doutora em psicologia Ana Maria Bercht explicam é que não.

A ideia da pesquisa é ter um norte, mas é preciso entender que existe um abismo social entre o Brasil e a Nova Zelândia.

O país está nas primeiras posições de rankings mundiais de paridade de gênero, enquanto o Brasil segue na 70ª posição.

"impossível que esses dados sejam aplicados ao Brasil, que tem a violência contra mulheres vivida como uma epidemia. O resultado da Nova Zelândia reflete uma trajetória de políticas públicas que colocaram as mulheres em pé de igualdade com os homens no país. Hoje, lá, elas são vistas como pessoas individuais, e não como alguém que deve ser submissa a seus maridos." - Ana Maria Bercht, pesquisadora sobre género.

Hill, autora do estudo, reforça que a pesquisa traz uma análise importante sobre o quão distorcidas podem ser essas “etiquetas sociais” criadas, mas que isso precisa ser analisado levando em conta o cenário do país.

“Podem existir diferenças transculturais significativas se a pesquisa fosse replicada em outro contexto cultural, como o caso do Brasil”, diz.

E por que o cenário no Brasil é tão diferente?
Para os especialistas, essa é uma questão cultural, em que, no Brasil, a mulher ainda é vista como um anexo do homem, e não em sua individualidade.

Para Bercht, isso tem relação com mudanças sociais tardias: No Brasil, tem menos de 100 anos que a mulher tem o direito ao voto, a ser eleita e ao trabalho formal. Isso tudo só aconteceu no país nos anos 30. E foi só nos anos 70 que a mulher recebeu o direito de se divorciar.

Para que um homem entenda uma mulher como pessoa, ele precisa vê-la nos mesmos espaços que ele, com o mesmo poder de decisão, pautando as discussões. Isso demorou para nos ser permitido no Brasil e ainda está longe de ser equilibrado. As mulheres ainda ganham menos no mercado e não somos nem mesmo a metade dos que nos representam nas esferas de poder. - Ana Maria Bercht, pesquisadora sobre gênero.

É a partir desse histórico que a mulher é vista na sociedade. E, ainda que algumas dessas conquistas tenham quase 100 anos, dados recentes reforçam essa percepção de que o Brasil ainda caminha a passos lentos na igualdade de gênero.

Uma pesquisa feita pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King's College London mostra que no país:
  1. 70% dos brasileiros sentem que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade (a média global é de 46%).
  2. 21% concordam que a mulher deve obedecer ao marido.
  3. 16% dos homens acreditam que cuidar dos filhos torna o homem "menos masculino".
Para Hill e Bercht esse contexto que traduz a violência quase epidêmica que mulheres vem sofrendo no país e que ainda não afastam uma parcela importante dos homens de uma postura de violência e subordinação.

"Vivemos uma violência quase epidêmica contra mulheres. Ainda não somos vistas no país de forma individual e livres. Muitos homens brasileiros sequer entendem a violência como tal. Pesquisas recentes mostram que autores de violência doméstica, mesmo após serem condenados, justificam seus atos culpando a vítima ou o ciúme, demonstrando uma forte desresponsabilização masculina", explica Bercht.

A misoginia não passa batido nem mesmo nas redes sociais. Ela se reflete nas trends recentes, que trazem dicas de como homens devem tratar mulheres, com conteúdos misóginos que acumulam milhões de seguidores. Além da incitação à violência.

Recentemente, o Senado aprovou o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. A votação na Casa foi unânime, mas o consenso encontrou resistência na Câmara dos Deputados, onde parlamentares da oposição fazem críticas e prometem trabalhar para barrar o avanço do projeto. Porém, até agora, o projeto não saiu do papel.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Verdade sobre o Genocídio Arménio

Em 1915, por entre derrotas militares e colapso político, o Império Otomano entrou na Primeira Guerra Mundial em profunda crise. Tendo já perdido a maior parte dos seus territórios europeus, o império enfrentava uma crescente instabilidade. A ideologia nacionalista ganhou influência entre a elite governante, intensificando as divisões internas e a suspeita em relação às populações minoritárias.

A comunidade arménia, estabelecida na Anatólia Oriental há milénios, passou a ser cada vez mais retratada como inimiga interna. Entre abril de 1915 e julho de 1916, mais de um milhão de arménios foram deportados, massacrados ou morreram durante marchas forçadas pelo deserto da Síria. Estes acontecimentos são amplamente reconhecidos por muitos historiadores como o primeiro genocídio do século XX — um século marcado por repetidos episódios de violência em massa.

Durante décadas, na Turquia moderna, o debate público sobre os acontecimentos de 1915 foi fortemente restringido, e o termo “genocídio” permaneceu altamente controverso e politicamente sensível. Contudo, nos últimos anos, vozes da sociedade turca começaram a confrontar essa história dolorosa.

Este documentário reúne duas pessoas cujas histórias familiares se encontram em lados opostos da tragédia: Hasan Cemal, jornalista turco e neto de uma das figuras proeminentes associadas aos acontecimentos, e Fethiye Çetin, advogada turco-arménia e neta de uma sobrevivente. Através de testemunhos pessoais e reflexões históricas, exploram a memória, a responsabilidade e a necessidade urgente de verdade e diálogo.

Ao examinar tanto o registo histórico como os debates contemporâneos, o filme lança luz sobre um dos capítulos mais sombrios do início do século XX — e sobre a luta contínua em torno da forma como é recordado.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Dia Europeu das Vítimas de Crime



O Dia Europeu das Vítimas de Crime assinala‑se a 22 de fevereiro e constitui um momento fundamental para reconhecer todas as pessoas que sofrem ou sofreram crimes, dar visibilidade às suas experiências e reforçar a importância das políticas públicas destinadas ao seu apoio, proteção e garantia dos seus direitos, bem como à prevenção e combate à criminalidade, designadamente à violenta e à especialmente violenta.

Entre os crimes que mais atentam contra a dignidade humana destaca‑se o Tráfico de Seres Humanos (TSH), uma grave violação dos direitos humanos e um fenómeno marcado pela grande invisibilidade das suas vítimas.

Trata‑se de um crime potenciado pelo aumento da mobilidade, pela utilização da internet como meio de aliciamento e controlo e pelo facto de envolver, na generalidade, baixos riscos e elevados lucros para as redes criminosas.

A verdadeira dimensão do tráfico de seres humanos é difícil de determinar, ainda assim, a informação existente permite perceber que o sexo, o género das vítimas e a idade influenciam a probabilidade, as formas e os objetivos da exploração. A nível internacional a maioria das vítimas identificadas são mulheres e raparigas, embora o tráfico afete também homens e rapazes, bem como pessoas trans.

Apesar de em Portugal e em alguns outros países europeus predominarem as situações reportadas de tráfico para fins de exploração laboral (com vítimas masculinas) não podemos esquecer a realidade do tráfico para fins de exploração sexual e que esta realidade se encontra especialmente ocultada.

A exploração sexual continua a ser o principal fim do tráfico de mulheres e raparigas. Entre os fatores que contribuem para este fenómeno destacam‑se as situações de vulnerabilidade, frequentemente associadas a contextos de violência, discriminação e pobreza, bem como a persistente procura de serviços sexuais. Os traficantes exploram, muitas vezes, a condição económica precária de pessoas que procuram uma vida melhor, recorrendo ao tráfico de migrantes e ao uso da internet como instrumento central de aliciamento.

A União Europeia tem vindo a adotar instrumentos fundamentais para prevenir e combater o tráfico de seres humanos, alinhados com os padrões internacionais e assentes numa abordagem centrada na vítima, que reconhece a necessidade de apoio, proteção e acesso efetivo aos direitos, bem como a importância de integrar uma perspetiva de género nas políticas de prevenção.

Em Portugal, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) 2024, foram constituídos 43 arguidos por tráfico de seres humanos, mais 13 do que no ano anterior, e detidas 12 pessoas. O Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH) registou a sinalização de 355 presumíveis vítimas, mantendo‑se Portugal sobretudo como país de destino. Na exploração sexual, as presumíveis vítimas são maioritariamente mulheres adultas, de nacionalidade estrangeira, com destaque para as nacionais de São Tomé e Príncipe.

O principal instrumento nacional de prevenção e combate ao TSH é o V Plano Nacional para o período 2025‑2027, que visa consolidar o conhecimento sobre o fenómeno, reforçar a informação e sensibilização, assegurar um melhor acesso das vítimas aos seus direitos e intensificar o combate às redes de criminalidade organizada.

Contudo, o Dia Europeu das Vítimas de Crime não se limita ao tráfico de seres humanos. Esta data relembra também todas as pessoas afetadas por outros crimes, como a violência doméstica, a violência sexual, os crimes de ódio, o abuso de menores, , a fraude ou o cibercrime. Independentemente do tipo de crime, todas as vítimas têm direito a ser reconhecidas, protegidas e apoiadas, sem discriminação.

Conforme divulgado, o Conselho de Ministros aprovou no passado dia 20 de fevereiro a versão final da Lei-Quadro de Política Criminal, que define os objetivos, as prioridades e as orientações da política criminal para o biénio de 2025-2027, e entre os crimes de prevenção e investigação prioritária constam, nomeadamente a violência doméstica, o tráfico de pessoas, os crimes sexuais, o cibercrime e os crimes de ódio.

A resposta às necessidades das vítimas exige um esforço contínuo, tanto a nível nacional como europeu, baseado na cooperação entre autoridades, no trabalho integrado e articulado entre as entidades intervenientes, na , partilha de boas práticas e na formação contínua de profissionais.

Assinalar este dia é, acima de tudo, reafirmar o compromisso coletivo com uma Europa mais justa, segura e solidária, onde os direitos das vítimas ocupam um lugar central.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Uma curiosa investigação histórica dos povos originários dos EUA


Durante 150 anos, ela permaneceu nesta fotografia — sem nome, invisível, apagada. Até que um historiador se recusou a deixar morrer a sua história.

Em 1868, o fotógrafo da Guerra Civil, Alexander Gardner, viajou para Fort Laramie para documentar as negociações de paz entre o governo dos EUA e o povo Lakota. Captou uma imagem impressionante: seis oficiais brancos do Exército em formação formal e, ao lado deles, uma jovem nativa enrolada numa manta, com o olhar calmo e firme.

Os oficiais foram meticulosamente identificados — os generais Terry, Harney, Sherman, Sanborn, Tappan e Augur. Os seus nomes, patentes e legados foram cuidadosamente preservados. Mas e a menina? Ela foi simplesmente rotulada como "Arapaho" numa impressão, "Dakota" noutra. Nunca um nome. Nunca uma pessoa. Apenas um símbolo de uma cultura que a América branca queria acreditar que estava a desaparecer.

Durante mais de um século, ela permaneceu uma figura sem nome numa fotografia sobre poder e deslocamento. Fotografada, mas não vista. Presente, mas não contabilizada.

Então, a historiadora Martha A. Sandweiss deparou-se com a imagem — e algo na força silenciosa daquela criança não a deixava em paz.

Sandweiss, uma estudiosa da fotografia americana do século XIX na Universidade de Princeton, iniciou o que viriam a ser anos de meticuloso trabalho de investigação. Ela vasculhou registos de comissões de paz, documentos pessoais, documentos governamentais — nada. Todas as vias pareciam não levar a lado nenhum.

Até que, finalmente, nos arquivos do Fort Laramie National Historic Site, ela encontrou um pequeno cartão deixado por um visitante chamado Eddie Ryan em 1978. Ele tinha visto uma cópia da fotografia exposta. A menina, escreveu, era sua avó.


O seu nome era Sophie Mousseau.

Com apenas este nome, Sandweiss pôde finalmente traçar a sua história. Sophie nasceu por volta de 1860, filha de dois mundos: a sua mãe era Yellow Woman, uma Oglala Lakota; seu pai era M.A. Mousseau, um comerciante de peles franco-canadiano. Na primavera de 1868, quando Sophie tinha apenas oito ou nove anos, a sua família fugiu para o Forte Laramie em busca de segurança depois de os invasores Lakota terem atacado o seu rancho.

Aí, Sophie viu-se sob a lente de Gardner — uma criança presa entre culturas, línguas e histórias em colisão.

Sophie não era uma estranha neste mundo. Ela estava entrelaçada no seu tecido. Serviu como tradutora durante as negociações do tratado — uma criança que fazia a ponte entre as línguas e os mundos. Mais tarde, entrou numa união estável com o colono John Ryan e teve cinco filhos antes de este a abandonar. Sofreu violência doméstica, testemunhou violência militar e sobreviveu à violência legal que negava direitos a pessoas como ela ao longo da sua vida. Morreu em 1936 na Reserva Indígena de Pine Ridge, o seu nome há muito esquecido pela história.

A descoberta de Sandweiss faz mais do que recuperar um nome. Ela recorda-nos que as mulheres indígenas não foram espectadoras passivas ou símbolos convenientes na história do Oeste americano. Eram tradutoras, negociadoras, pontes culturais — vivendo na perigosa intersecção de mundos. Eram mães, filhas, sobreviventes.

A história de Sophie complica tudo o que pensamos saber sobre aquele tempo e lugar. A sua presença naquela fotografia transforma-a de um simples documento de negociações de tratados em algo muito mais complexo: uma janela para um mundo fronteiriço «estranhamente íntimo», onde todos — soldados, comerciantes, indígenas, mestiços ou brancos — estavam ligados entre si pela violência, sobrevivência e resiliência.

Após 150 anos de silêncio, Sophie Mousseau tem finalmente o seu lugar na história. Não como um símbolo. Não como "Arapaho" ou "Dakota". Mas como Sophie — uma pessoa real cuja vida importava naquela época e cuja história importa agora.

Os nomes são o que liga as pessoas ao registo histórico. E cada nome recuperado é um ato de justiça.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Carolina Deslandes - Feia


Canção lançada precisamente no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, o tema vai mais longe e denuncia a extrema-direita e o neofascismo. Na letra de ‘Feia’, Carolina insurge-se contra a ascensão da extrema-direita e o retrocesso dos direitos das mulheres. Um canção de intervenção para ouvir em loop e partilhar. 

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia" [2X]

A extrema direita que eu assumo é ter na mão direita um punho que carrega uma caneta
Voz armada com bala de chumbo, tiro seguido de fumo, sou mulher e sou poeta
Querem voltar atrás no tempo, plantar o medo cá dentro, gritam "Deus, Pátria е Família"
E um marido que traga sustento ou mais um olho cinzento, diz quе foi contra a mobília

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia" [2X]

Vocês odeiam as mulheres e quando matam as mulheres, querem chorar e acender velas
Mas metade do mundo são mulheres e a outra metade do mundo é feita dos filhos delas
Um país sem casa nem conforto, querem falar do aborto, querem nos tirar os livros
Sou filha de Abril, saí do esgoto, nasci pronta para o confronto e eles gritam-me aos ouvidos

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia" [2X]

Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Num país
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Deixa passar a feia

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

A expressão “ideologia de género” não é um conceito científico

Ler artigo aqui


Circula pelas redes sociais uma petição "Fim à Ideologia de Género" promovida pela Maria Helena Costa do Gabinete de Estudos do CHEGA e que já foi presidente de uma concelhia do mesmo partido, é também presidente da Associação Família Conservadora. Como mãe chegou a ser acusada pelo próprio filho Miguel Salazar de o ter sujeitado as chamadas "Terapias de Conversão" e de o ter feito passar por um inferno por ser homossexual!

Ora  expressão “ideologia de género” não é um conceito científico, e é por isso que não aparece na literatura académica em biologia, psicologia ou ciências sociais como uma teoria validada.

Aqui está o que é importante entender:
✅ 1. O que existe cientificamente
Em ciência existem conceitos como:
  1. identidade de género
  2. expressão de género
  3. papéis de género
  4. estudos de género
  5. variação biológica do sexo
Estes são estudados de forma científica por áreas como biologia, neurociência, psicologia do desenvolvimento, antropologia e sociologia.

❌ 2. O que não existe como conceito científico
O termo “ideologia de género” não é usado pela ciência.
É uma expressão criada em contextos políticos, culturais e religiosos, especialmente a partir dos anos 1990–2000, para criticar políticas de igualdade de género, educação sexual, direitos LGBTQIA+ ou estudos académicos sobre género.

Ou seja:
👉 É um rótulo político, não um termo técnico.

📌 3. Porque é que há confusão?

Porque:

  • alguns grupos usam a expressão para descrever qualquer abordagem moderna sobre género,

  • enquanto a comunidade científica usa conceitos diferentes, baseados em dados, não em ideologias.

🧭 Em resumo

Do ponto de vista científico, “ideologia de género” não é uma categoria, teoria ou disciplina.
O que existe são estudos de género e pesquisa sobre identidade e expressão de género, que seguem métodos científicos.

✅ Origem do termo “ideologia de género”

📌 1. Surge nos anos 1990 em contextos religiosos, não científicos

O termo nasce no final dos anos 1990, principalmente em documentos e discursos ligados a sectores da Igreja Católica. A expressão é uma tradução de “gender ideology”, usada inicialmente para criticar:

  1. as políticas internacionais de igualdade de género,
  2. o reconhecimento de direitos LGBTQIA+,
  3. e a introdução do conceito de género (como diferente de sexo biológico) em debates públicos.

O ponto decisivo foi a IV Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU (Pequim, 1995), quando a palavra gender começou a ser adoptada amplamente nas políticas globais de direitos humanos. Alguns grupos interpretaram isso como uma tentativa de “relativizar” a diferença sexual.

Daí surgiu a reação: rotular esses avanços como “ideologia de género”.

📌 2. Ganha força nos anos 2000 através de movimentos políticos conservadores

A partir dos anos 2000, o termo espalhou-se por:

  1. movimentos anti-direitos LGBTQIA+
  2. sectores conservadores na Europa, América Latina e EUA
  3. discursos populistas que se opõem à educação sexual e às políticas de igualdade

É frequentemente usado como estratégia retórica para criar medo ou confusão, apresentando qualquer estudo sobre género como uma “ideologia imposta”.

📌 3. Não é reconhecido pela ciência ou pela academia

Nenhuma área científica — biologia, psicologia, sociologia, antropologia — usa o termo.

O que a ciência estuda é:

  1. género como construção social,
  2. identidade de género,
  3. papéis de género,
  4. diversidade sexual e de género.

Ou seja, “ideologia de género” é um conceito político-cultural, religioso e não académico.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Longas são as noites : A Projection - Careless


You cannot spend
You cannot spend your life in a day
They want to know if you're alright
The truth is in
The truth is in the song but, hey
It shines in many different lights

There was a girl
There was a girl that could save me
We used to dance, so long ago
I wish her all
I wish her all the best, you see
I'd like to see her before I go

But I can't stand
But I can't stand this pressing weight
This urgency is going to be my end
I need to
I need to get out, seal my fate

[Chorus]
This carelessness's what scares your friends
Scarеs your friends

Saber mais
Projection aqui, aqui e aqui

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Catfishing de homens: o que é e o que pode fazer?


O catfishing ocorre quando alguém cria uma identidade falsa na internet ou em ambientes digitais para enganar outras pessoas, geralmente em contextos de relacionamentos ou amizades online. As motivações variam: algumas pessoas recorrem a esta prática para cometer fraude financeira, outras por “brincadeira”, desejo de vingança (mesmo que infundado), manipulação emocional, entre outros.

Em português, não existe uma tradução amplamente reconhecida para catfishing, mas algumas expressões usadas incluem burla romântica, fraude de identidade online, golpe sentimental ou, como referimos na Quebrar o Silêncio, fraude emocional ou romântica.

Sinais de Catfishing
Perfis demasiado perfeitos ou misteriosos
Fotos excessivamente atraentes, poucas imagens disponíveis ou ausência de presença noutras redes sociais. Contas recentes com poucos conteúdos ou sem atualizações, ou ainda com poucas interações que pareçam reais (ie: ter poucas amizades ou poucos seguidores).
Relutância em fazer videochamadas ou em encontros presenciais
Um ou uma catfish arranja desculpas para evitar interações que possam expor a sua verdadeira identidade. É comum alegarem que estão ocupados, que é uma má altura ou simplesmente que o telemóvel não tem câmara ou está avariado, para evitar fazer videochamadas.
Histórias inconsistentes ou demasiado dramáticas
Muitas vezes, inventam histórias de vida trágicas (mortes de familiares, doenças graves, perda de filhos) e alteram a narrativa conforme necessitam, apresentando factos contraditórios, para gerar empatia da vítima.
Rapidez em demonstrar emoções intensas
Expressões de amor ou amizade profunda demasiado cedo, sem um verdadeiro conhecimento mútuo. É comum tentarem passar de amizade para algo mais íntimo referindo que nunca se sentiram tão próximos como se sentem da vítima. Recorrem ao bombardeamento de elogios, procurando levar a outra pessoa a sentir-se única e especial.
Pedidos de dinheiro ou favores
Muitas vezes, um ou uma catfish tenta obter dinheiro com pretextos como emergências médicas, problemas financeiros ou custos de viagem para encontros que nunca acontecem. Motivos que aliados a histórias dramáticas (para apelar à simpatia da vítima), como por exemplo comprar comida para bebé, funcionam como um meio de extorquir dinheiro mesmo que seja quantias de baixo valor . 
Evitam partilhar informações pessoais verificáveis
Recusam-se a fornecer dados concretos como morada, trabalho, família ou número de telemóvel. Por vezes, cedem informações que são vagas (como a localidade onde vivem) ou contraditórias (idade, profissão).

Consequências para as vítimas
Danos emocionais e psicológicos
O engano pode levar a sentimentos de vergonha, humilhação, ansiedade ou depressão.
Perda de confiança nas relações
Muitas vítimas tornam-se desconfiadas e evitam novos relacionamentos por medo de serem enganadas novamente.
Danos financeiros
Se a vítima enviou dinheiro, pode perder quantias significativas sem possibilidade de reembolso.
Manipulação emocional e abuso
Alguns catfish exploram a vítima emocionalmente, levando-a a acreditar em mentiras e a tomar decisões que a prejudicam.
Exposição e chantagem
Em certos casos, pode haver ameaças para expor informações ou imagens íntimas da vítima, podendo haver uma sobreposição com extorsão sexual.

Se suspeitar que está a ser vítima, saiba o que pode fazer
Verificar a identidade da pessoa
Pesquisar imagens de perfil no Google, procurar a pessoa noutras redes sociais e verificar a coerência das suas histórias.
Recusar pedidos de dinheiro
Não enviar dinheiro a alguém, especialmente quando não tem a certeza de quem é a pessoa com quem fala.
Exigir interações reais
Insistir em videochamadas ou encontros presenciais (em locais públicos e com acompanhamento de uma pessoa amiga) para confirmar a identidade. E mesmo que consiga, desconfie sempre, se algo não lhe parecer bem.
Não partilhe dados pessoais e sensíveis
Não forneça os seus dados pessoais e informações sensíveis como números de cartões, morada, número de identificação fiscal, etc.
Confiar nos instintos
Se algo parece suspeito, confie no seu instinto. Questione e afaste-se.

Catfishing e extorsão sexual
O catfishing e a extorsão sexual (sextortion) podem sobrepor-se quando alguém cria uma identidade falsa para enganar vítimas e depois as chantageia. Um catfish pode dedicar meses ou até anos a construir uma relação falsa para extorquir dinheiro ou obter favores. É comum haver uma manipulação emocional que desempenha um papel central, levando a vítima a baixar a guarda.
Nos casos de extorsão sexual, a abordagem pode ser ainda mais rápida, com a transição do engano para a chantagem a ocorrer num único dia ou até em escassos minutos. As duas podem ter um impacto danoso e grave nas vítimas. Jovens e adultos vulneráveis são os principais alvos, mas qualquer pessoa pode ser apanhada neste tipo de esquema.

Homens e rapazes vitimados
O catfishing pode ter um impacto grave nos homens e rapazes, mas estes casos são frequentemente ignorados ou minimizados. Muitos homens, que são enganados por perfis falsos, enfrentam não só a dor emocional da traição, mas também sentimentos de vergonha, auto culpabilização e humilhação, exacerbados por normas sociais que os pressionam a serem emocionalmente resilientes. Esta vergonha pode impedi-los de procurar apoio ou denunciar o crime, deixando-os vulneráveis a abusos prolongados.

Os rapazes, especialmente os adolescentes, podem ser alvos fáceis para predadores que recorrem ao catfishing como ferramenta para manipulação e abuso. A falta de educação sobre segurança digital e a crença de que os homens estão menos expostos a este tipo de fraude contribuem para um risco acrescido.

Os rapazes gay, bissexuais ou trans (GBT) podem ser particularmente vulneráveis devido ao medo do preconceito, do outing (exposição forçada da sua orientação sexual e/ou identidade de género) e da falta de espaços seguros para explorar a sua identidade. Muitos recorrem a plataformas online para conhecer pessoas e construir ligações, ligações estas que podem ser exploradas por predadores. Alguns catfish manipulam vítimas GBT, ameaçando expô-las a familiares ou comunidades hostis, usando a vergonha e o medo como estratégias de controlo. Além disso, os rapazes GBT podem sentir-se encurralados, sem saber a quem recorrer, intensificando o isolamento social.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

A Educação Sexual não é uma matéria ideológica. É saúde pública.


Esta não é uma decisão de um Ministério da Educação que governa de acordo com a evidência técnica e científica.

É uma lamentável cedência populista a quem não se importa de aumentar as gravidezes indesejadas e a vulnerabilidade das crianças e jovens. É um triste retrocesso que responsabiliza esta equipa do Ministério da Educação, Ciência e Inovação pelas consequências que a ignorância, o obscurantismo e o negacionismo têm na vida de tantas e tantas crianças e jovens. A educação sexual é uma vacina contra o abuso sexual, contra as IST, contra as gravidezes indesejadas, contra a vergonha de ser diferente e contra a subjugação física e emocional. Privar as crianças do acesso ao ensino destas matérias é anti-ciência e é profundamente desumano.

Lecionei esta disciplina desde que ela foi fundada. Grande desconhecimento do que fazem os professores! Quantas formações fizemos nesta e noutras áreas!

Estaremos a voltar ao tempo da "moralidade" salazarenta! O que não é visto nem ouvido, não existe! Voltaremos aquele tempo, no qual eu tive tanto que lutar para alterar, em que se a ideia feita que ao lecionarmos Educação Sexual nas escolas estávamos a promover o ato sexual em menores?! As estatísticas comprovam o contrário, mais conhecimento e informação correta (não a dos Tik toks e pornografia, sim as nossas crianças veem pornografia e contextos de sexualidade violenta e abusadora) atrasa o mesmo! Cerca de 500 jogos sexualmente violentos e misóginos foram banidos de plataformas.
 
Quantos alunos e alunas me passaram pelas mãos que se não fossem os conhecimentos adquiridos nas aulas, de Cidadania e de Ciências Naturais e Biologias, nunca teriam acesso a informação correta sobre, nomeadamente: respeito, autoestima e não violência no namoro, sistema reprodutor, métodos contracetivos, gravidez e desenvolvimento fetal, afectos, tolerância LGBTQIA, prevenção de IST, etc.
Enfim, tudo em prol de um populismo patético e com o sacrifício da educação dos nossos jovens! 

P.S. Aos pais que criticam a Educação Sexual Formal, pensem que muitos casos de abuso sexual de crianças e jovens são feitos dentro da família. A Educação Sexual como estava no anterior Governo era correcta, pois ensinava crianças e adolescentes a detectar os primeiros indícios de violação sexual.

Em 2024, o Instituto Nacional de Estatística (INE) reportou 1.041 participações policiais por abuso sexual de crianças, adolescentes ou menores dependentes, representando 32,2 % do total de crimes contra menores (3.237 participações) e mais de 9.085 menores receberam apoio direto da APAV entre 2022 e 2024, com média de idades entre 11 e 17 anos, sendo 60 % meninas e 38,3 % sendo filhos dos agressores.

sábado, 19 de julho de 2025

O mundo é dos brutos — a ascensão da violência e a queda da empatia


Qualquer pessoa que conheça história sabe que aquilo a que chamamos “civilização” é muito mais frágil do que a crueldade, a violência, a prepotência, a vingança, o poder absoluto e brutal. Não é preciso sequer escolher grandes períodos da história, a “civilização” é uma raridade, acontece por pequenos períodos, torna a vida dos que vivem nesses tempos melhor e depois esgota-se e acaba. Não me interessa fazer grandes exercícios analíticos sobre qualquer das palavras que estou a usar, seja civilização, seja barbárie, toda a gente sabe a diferença entre um mundo, imperfeito que seja, desigual, muitas vezes injusto, mas onde as pessoas são senhoras do seu destino pelo voto, vivem no primado da lei, têm liberdade religiosa, acedem a condições mínimas de existência. Para contrariar o meu argumento podem vir com mil exemplos de imperfeição, de injustiça, de exclusão, mas o que sobra é melhor do que um mundo com pena de morte, tortura, censura, ausência de direitos, em que todos são indefesos face aos mais fortes.

A “civilização” como a conhecemos no mundo democrático ocidental está a acabar, diante dos nossos olhos, pela ascensão da brutalidade, da educação dos jovens pela distracção, da ignorância e do valor da força, do individualismo agressivo, do culto da ignorância e do pseudo-igualitarismo das redes sociais. A violência torna-se a regra nas relações como “outro” e o “outro” é fácil de encontrar nas nossas ruas, os imigrantes.

Não adianta virem-me dar lições de que este catastrofismo civilizacional é recorrente em certos momentos da história cultural, o que é verdade. Mas também é verdade que a catástrofe já ocorreu várias vezes, uma das quais nos anos 20-30 do século passado. O mundo que filósofos como Comte entendiam ter entrado numa senda de “progresso”, com a revolução técnico-científica do final do século XIX, entrou na barbárie da I e da II Guerra com milhões de mortos e anos de brutalidade em vários países “civilizados” da Europa e na URSS.

Há muitas explicações socioeconómicas para esta crise civilizacional, muito sérias, mas a guerra cultural dos nossos dias tem um papel fundamental. O culto imberbe pela modernidade, assente num deslumbramento tecnológico que oculta muita preguiça e manipulação, em que meia dúzia de gestos num telemóvel, explorando três ou quatro funções simples, passam por um saber semelhante ao falar português sem um erro ortográfico a cada palavra, a arrogância de dar opiniões sobre coisas que não se viram, ouviram e leram — tudo isto ajuda a erodir a frágil democracia porque “molda” a cabeça. É o que já cá está e o que vem aí.

Basta ver o X para se perceber o impacto em quem vive dependurado nas redes do que lá encontra: cenas de violência em que velhos, mulheres e brancos são atacados por imigrantes, em que mulheres de burka reclamam a conversão da Europa ao Islão, cenas de pancadaria para “punir” um ladrão ou um molestador apanhado em flagrante por “cidadãos verdadeiros”, acidentes de automóvel com pancadaria, uma sucessão elogiosa de enormes explosões na Síria, no Líbano, em Gaza, com origem nos “amigos de Israel”, a generalização da palavra “traidor” para designar quem não participa da fúria anti-imigrante e não quer participar na chamada “remigração” (e porque não organizar uns pogroms?), etc., etc.

No Instagram e no TikTok, um bom exemplo da platitude intelectual dos nossos dias é a classificação de “influenciadores”. Uma pequena multidão compete por essa “influência” nas redes sociais, alguns/algumas com alguma imaginação e esperteza, mas, por regra, com uma absoluta indigência intelectual, gigantesca ignorância, muito mau carácter, e truques de ganância que é, nos nossos dias, o principal motivador dinâmico do comportamento. Esses “influenciadores”, na sua maioria do sexo feminino, actuam para um público adolescente, também na sua maioria feminino, mas atingindo um público muito mais vasto e para além do nível etário da adolescência, embora, como se saiba, nos dias de hoje é-se jovem até aos 35 anos.

Alguns/algumas já cometeram crimes, desde violência sobre crianças (a história do banho de água fria para calar os berros da filha) ao atropelamento e fuga de um “criador de conteúdos”, forcado e apoiante do Chega. Ambos gabaram-se destes feitos, porque tudo é bom para terem os célebres 15 minutos de fama, e acabaram em tribunal. O facto de terem feito estas violências sem qualquer hesitação moral significa que olharam para elas como olham milhares de pessoas cuja principal preocupação, quando assistem a uma qualquer violência sobre os mais fracos, é puxar do telemóvel e filmar, para terem “material” para colocar nas redes sociais, e não ajudar.

No plano político, nestes “influenciadores”, predominam os homens e o Chega. Produzem uns comentários indigentes, mas sublinhando os temas da propaganda do partido, e fazem quase de imediato uns pequenos filmes em que qualquer das personagens da direita radical que tenha um debate com alguém à esquerda “arrasa”, “esmaga”, com imagem a condizer. As redes sociais, o YouTube, o Instagram, o TikTok estão cheios destes produtos, que funcionam como multiplicadores e são consumidos por um público jovem e adulto, o jovem mais atraído pela distracção que dá o confronto, quem “ganha” e quem “perde”, o adulto procurando um espelho daquilo que já pensa.

Este submundo é hoje o mundo. Sem princípios, sem saber, sem mediação, com apologia da força, elogio da violência e hostilidade aos mais fracos. Já estão a ganhar e, se os justos não lhes respondem alto e bom som, ainda vai ser pior.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Dia Mundial da População


Crónica de Pedro Vieira

não é não.
não, filha, a imigração não está no topo dos problemas deste retângulo amaldiçoado e abençoado; a desigualdade, o acesso à habitação, à saúde e a educação de qualidade, sim.

não, amor, não são os imigrantes amontoados em camaratas que andam a destruir o teu direito constitucional à habitação; são os "imigrantes" dos vistos gold, os fundos imobiliários predadores e os autarcas amigos de hotéis de 5 estrelas e alojamentos locais e fantasias de equídeos com chifres que estão a rebentar com o tecido social das cidades.

não, miga, os imigrantes não estão cá a mamar subsídios e a viver à tua conta; eles andam a contribuir para um sistema que é desbaratado pelos destruidores de bancos e pelas multinacionais à boleia de borlas fiscais e pelos liberais com pés de barro que se agarram às tetas do estado que adoram vilipendiar.

não, fofo, a imigração nunca foi tão alta como agora; continua a haver 3% de deslocados no mundo, valor igual desde o final da segunda guerra mundial, lançada pelos tiranos que o teu novo partido favorito gosta de glosar.

não, meu bem, o teu novo partido favorito não existe para te defender e gritar "vergonha"; existe para te convencer que a culpa é dos de baixo, enquanto mama nos de cima.

não, mor, os imigrantes não roubam empregos e puxam os salários para baixo; eles deslocam-se para os lugares onde há trabalho disponível, mesmo por valores indecentes, e muitos regressam às famílias e lugares de origem quando têm a vida mais orientada.

não, coração, não és só tu que preferes estar junto dos teus; eles também.

não, querido, os imigrantes não têm sangue de monhé ou de preto; têm sangue com hemoglobina como o teu.

não, riqueza, os imigrantes não matam mais do que o teu companheiro violento e abusador.

não, minha jóia, os imigrantes não estão a invadir-nos; em muitos lugares, estão a repor vida, num país que adora exportar cortiça, conservas e jovens sem futuro.

não, cariño, tu não és descendente de um pastor de cabras da zona de Viseu com pouco jeito para escolher guarda-costas; és descendente de iberos que ninguém sabe de onde vieram, de celtas e de romanos, de fenícios, cartagineses, mouros, castelhanos e de franceses, mais os negros de África e de europeus de fracas sortes e de gente dos orientes. e de neandertais, também, e às vezes nota-se. és como um daqueles pratos do honest greens - cantina preferida dos colarinhos brancos jovens e dos empreendedores, na qual são os imigrantes que cozinham - aqueles pratos com muitas cores e paladares, sem perceberes bem o que lá está.

não, meu doce, os imigrantes não são os teus inimigos de classe; esses são os que enviam anualmente o valor de um SNS para offshores, enquanto se riem da tua fúria (e das tuas filas de espera e das tuas crianças nascidas em ambulâncias) no deck de um iate.

não é não é não

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Dia Internacional da Língua Materna



A língua materna, também conhecida como idioma materno, língua nativa ou primeira língua, é a língua que cada pessoa começa a adquirir logo que nasce e cria o vínculo afetivo-linguístico.

Trata-se do primeiro idioma que uma pessoa aprende, aquele que se domina melhor. Sendo, também, a língua que se fala num determinado país ou região, é relativa a quem é natural desse espaço e que se adquire, portanto, de forma natural, através da interação com o meio envolvente e está relacionada com as primeiras lembranças que a pessoa possui da sua infância.

Assim, a língua não é um mero veículo de comunicação. Encerra em si uma carga afetiva e é, para cada pessoa, estruturante da sua identidade e pertença. A língua, a par da bandeira, da constituição e de outros símbolos identifica, também, as nações e os povos.

Por outro lado, as palavras de uma língua, além de serem elementos centrais da nossa comunicação, são uma ferramenta de poder, capazes de moldar pensamentos, atitudes e comportamentos.

As palavras que escolhemos têm um impacto significativo na sociedade, podendo ser utilizadas para enaltecer, dignificar e valorizar, mas também para oprimir, acentuar injustiças e promover desigualdades.

Comunicar usando linguagem inclusiva permite combater estereótipos, contribuindo, desta forma, para afirmar o princípio constitucional da igualdade.

Esta forma de comunicação é um meio de reconhecimento de todos os membros da sociedade, legitimando, assim, a sua presença no meio linguístico.

O uso do masculino genérico, ou “falso neutro”, contribui para a perpetuação de estereótipos de género e para a invisibilizar pessoas e grupos de pessoas.

Usar uma linguagem inclusiva, que respeita o direito de todas as pessoas, é mais fácil do que pensa.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Nancy Fraser - Os trabalhadores são canibalizados pela classe capitalista


O mundo enfrenta múltiplas crises em simultâneo: alterações climáticas, ascensão de movimentos autoritários e exploração da mão-de-obra do Sul Global, entre outras. Nancy Fraser, professora de filosofia e política na New School, afirma que "não pode ser coincidência" – na génese de tudo está o capitalismo.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres


O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, assinalado a 25 de novembro, constitui um marco no combate à violência exercidas contra as mulheres, alertando os decisores políticos bem como toda a sociedade para os vários casos de violência praticada contra mulheres, nomeadamente: casos de abuso ou assédio sexual, maus tratos físicos e psicológicos, e sensibilizando a sociedade para a importância da prevenção e combate de casos de violência doméstica.

📊 Assinalado este dia, a APAV divulga as suas estatísticas relativas às vítimas no feminino. Entre 2022-2023, a APAV apoiou 23.808 vítimas do sexo feminino, sendo:
👉 3.434 crianças e jovens;
👉 14.505 entre 18 e 64 anos de idade;
👉 2.446 eram pessoas idosas.
📉 Relativamente à caracterização do/a autor/a da vítima, dos 23.862 autores/as identificados, a maior parte era do sexo masculino (68,5%), com idades compreendidas entre os 36 e 55 anos, sendo que 47,3% dos/as autores/as estão ou estiveram numa relação de intimidade com a vítima. 
❗Das 22.808 vítimas do sexo feminino apoiadas pela APAV entre 2022-2023, no total, foram alvo de 45.787 crimes e outras formas de violência, com particular destaque para crimes como violência doméstica (37.153).

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A identidade de género é um resultado das sociedades patriarcais


A desigualdade de género refere-se às diferenças injustas no tratamento, oportunidades e direitos entre pessoas com base no género. Já o patriarcado é um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade estão historicamente concentrados nos homens, o que cria e mantém essas desigualdades.

Fontes sobre Patriarcado
A United Nations Economic and Social Commission for Western Asia define patriarcado como «uma forma tradicional de organizar a sociedade que muitas vezes está na raiz da desigualdade de género… onde os homens, ou o que é considerado masculino, têm mais importância do que as mulheres, ou o que é considerado feminino». 

Um artigo teórico afirma que o patriarcado é «o principal obstáculo ao avanço e desenvolvimento das mulheres… as instituições e relações sociais patriarcais são responsáveis pelo estatuto inferior ou secundário das mulheres». 

Outro estudo explora como normas patriarcais (e atitudes de género inequitativas) funcionam como motoras de violência contra as mulheres, mostrando como a estrutura patriarcal se traduz em desigualdades práticas e de poder. 

Uma publicação académica define “patriarchy” como “sistemas de poder sociais, políticos e económicos estruturados à volta da desigualdade de género. As relações de poder no patriarcado fundamentam-se na primazia dos homens, ou da masculinidade, face aos não-homens”. 

Sobre desigualdade de género: um estudo na região de Nepal mostra que «as hierarquias baseadas no poder fazem com que as mulheres enfrentem subordinação e violência», sendo a desigualdade de género “resultado” dessas relações de género desiguais. 

“O que é patriarcado?” — artigo no site do Instituto Claro. Explica que «o patriarcado representa um sistema social e cultural em que o poder … privilegia homens». 

“Patriarcado: o que é, como funciona, hoje” — no site Mundo Educação. Define patriarcado como “um sistema de organização social e cultural baseado na dominação masculina” e explica consequências como desigualdade salarial, exclusão política das mulheres, etc. 

Patriarcado - GEDES” — página do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Explora o patriarcado, as relações de gênero e como ele se articula com outras opressões como raça, classe e sexualidade. 

Manual/relatório: “Patriarcado e Mulher: Análise da Violência na Ordem Patriarcal de Género à Mulher Idosa” (autor Cássius Chai et al.) — discute como a ordem patriarcal de género condiciona a violência. 

Capacitação Maria Penha/MS” — define patriarcado como «uma hierarquia entre homens e mulheres, com primazia masculina». 

Fontes sobre Desigualdade de Género
Dossier “Desigualdade de Género” do Centro de Estudos Sociais (CES) (Portugal) — aborda «as desigualdades decorrentes da identidade de género e/ou sexualidade, e o modo como se cruzam com variáveis como classe social, etnicidade, nacionalidade…» 

Artigo “Desigualdade de Gênero no Brasil: Desafiando o Patriarcado e Avançando rumo à Igualdade” — demonstra a ligação entre patriarcado e desigualdade de género. 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

O Genocídio Arménio


O Genocídio Arménio, ocorrido essencialmente entre 1915 e 1917, representa um dos capítulos mais sombrios da história do século XX e permanece, ainda hoje, um tema de intensa sensibilidade diplomática. Para compreender a magnitude deste evento, é necessário recuar à identidade deste povo: os arménios são considerados um povo milenar porque a sua presença no Planalto Arménio remonta a mais de 3.000 anos. Foram a primeira nação do mundo a adotar o Cristianismo como religião oficial, em 301 d.C., desenvolvendo uma língua e um alfabeto únicos que serviram de baluarte cultural contra as sucessivas invasões e domínios de impérios vizinhos.

Causas e Contexto Histórico
A génese do conflito reside na decadência do Império Otomano no final do século XIX. Os arménios, uma minoria cristã sob domínio otomano muçulmano, começaram a exigir reformas civis e maior autonomia, inspirados pelos ideais liberais europeus. Em resposta, o regime do Sultão Abdul Hamid II levou a cabo massacres preliminares na década de 1890. No entanto, a situação deteriorou-se drasticamente com a subida ao poder dos Jovens Turcos em 1908. Inicialmente prometendo igualdade, o movimento radicalizou-se para um nacionalismo pan-túrquico, que via os arménios como um "corpo estranho" e um obstáculo à homogeneidade do império, especialmente com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, onde foram injustamente acusados de conspirar com a Rússia czarista.

O Processo de Extermínio
O genocídio teve o seu marco inicial a 24 de abril de 1915, com a detenção e execução de centenas de intelectuais e líderes comunitários arménios em Constantinopla. Seguiu-se a "Lei de Deportação", que autorizou a remoção forçada da população civil. O método principal não foram apenas as execuções diretas, mas as marchas da morte em direção ao deserto de Deir ez-Zor, na atual Síria. Homens em idade militar foram maioritariamente fuzilados ou submetidos a trabalhos forçados até à exaustão, enquanto mulheres, crianças e idosos foram forçados a caminhar centenas de quilómetros sem água ou comida, expostos a ataques de milícias e às intempéries.

Relatos de Violações e Atrocidades
Os relatos da época, documentados por missionários, diplomatas estrangeiros (como o embaixador americano Henry Morgenthau) e sobreviventes, descrevem um cenário de horror sistemático. As violações de direitos humanos incluíam:
  1. Violência sexual: o uso da violação sistemática e da escravatura sexual contra mulheres e raparigas arménias como arma de humilhação e destruição biológica.
  2. Confisco de bens: a pilhagem total de propriedades e a destruição de igrejas e monumentos para apagar o rasto cultural da presença arménia.
  3. Experiências e tortura: Relatos de afogamentos em massa no Mar Negro e o uso de comboios de gado para transportar deportados em condições desumanas.
Número de Mortes e Consequências
Embora os números sejam objeto de debate político, a maioria dos historiadores independentes estima que entre 1 milhão e 1,5 milhões de arménios tenham perecido. As consequências foram devastadoras: a quase total aniquilação da presença arménia na Anatólia Oriental e a criação de uma vasta diáspora espalhada pela Europa, Américas e Médio Oriente.

Atualmente, o legado do genocídio é marcado pela luta pelo reconhecimento internacional. Enquanto muitos países (incluindo Portugal, que o reconheceu formalmente em 2019) e organizações internacionais classificam os eventos como genocídio — seguindo a definição jurídica de Raphael Lemkin, que se baseou precisamente no caso arménio para cunhar o termo — a Turquia, sucessora do Império Otomano, reconhece as mortes mas nega que tenha havido um plano sistemático de extermínio, atribuindo as perdas ao contexto caótico da guerra e a revoltas internas.

Saber mais aqui e aqui

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Como o capitalismo oprime as mulheres

A desigualdade de género constitui uma manifestação concreta das relações de poder que estruturam as sociedades patriarcais. O patriarcado, entendido como um sistema histórico e sociocultural que privilegia os homens e o masculino, estabelece uma hierarquia de género que legitima e reproduz a subordinação das mulheres e de outras identidades marginalizadas (Walby, 1990; Beauvoir, 1949). Trata-se, portanto, de uma estrutura geradora de assimetrias que se expressam em múltiplas dimensões — económica, política, simbólica e cultural (Bourdieu, 1998). A desigualdade de género, por sua vez, constitui o resultado observável dessas dinâmicas estruturais, manifestando-se na divisão sexual do trabalho, na disparidade salarial, na sub-representação política e na violência de género (Scott, 1986; Federici, 2004). Distinguir ambos os conceitos é essencial para compreender que o combate à desigualdade de género não se resume à correção de disparidades pontuais, mas exige a transformação profunda dos mecanismos patriarcais que as produzem (Butler, 1990; hooks, 2000).

📚 Referências sugeridas

Beauvoir, S. de (1949). Le Deuxième Sexe. Paris: Gallimard.

Bourdieu, P. (1998). La domination masculine. Paris: Seuil.

Butler, J. (1990). Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge.

Federici, S. (2004). Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation. New York: Autonomedia.

hooks, b. (2000). Feminism is for Everybody: Passionate Politics. Cambridge, MA: South End Press.

Scott, J. W. (1986). “Gender: A Useful Category of Historical Analysis” The American Historical Review, 91(5), 1053–1075.

Walby, S. (1990). Theorizing Patriarchy. Oxford: Basil Blackwell.