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domingo, 13 de setembro de 2026

Como fazer a ruptura pós-capitalista

Löwy: crise climática pede a ruptura do capitalismo
O grande erro dos movimentos ecológicos atuais é continuarem a agir como se estivéssemos em meados do século passado, acreditando que basta organizar marchas, erguer cartazes e divulgar relatórios científicos para despertar a consciência das pessoas. Essa abordagem ignora uma mudança profunda: a praça pública de outrora foi substituída por um ecossistema digital desenhado ao milímetro para manter a população num estado de anestesia e distração permanentes. Esperar por uma revolução ética de baixo para cima quando a sociedade passa o dia a consumir dopamina rápida em ecrãs hipervigilados é uma ilusão ingénua - e um luxo que o relógio climático não nos concede.

Como já tinha referido aqui e aqui, para que o Ecologismo e o Humanismo Activo deixem de ser uma carta de intenções morais e se tornem uma força política real, a estratégia tem de deixar de ser pedagógica e passar a ser infraestrutural. Se a consciência coletiva está bloqueada pela arquitetura do capitalismo de vigilância descrita por Shoshana Zuboff, o primeiro passo não é tentar convencer o indivíduo sedado, mas desmontar a engenharia do vício. Isso exige tratar o assalto ao tempo e à cognição analisado por Jonathan Crary ou Bernard Stiegler como uma ameaça direta à própria capacidade de organização política. Sem resgatar o tempo e a lucidez roubados pelas plataformas digitais, qualquer tentativa de mobilização dilui-se inevitavelmente no ruído algorítmico.

Ao mesmo tempo, perante a paralisia cultural do "realismo capitalista" teorizada por Mark Fisher - em que se tornou mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema económico -, o movimento precisa de abandonar a mera protestação simbólica. Como defende o historiador Andreas Malm, a escassez de tempo exige uma transição para a ação direta de alta fricção, focada no desmantelamento tático e financeiro das infraestruturas fósseis. O foco deixa de ser agradar à opinião pública e passa a ser tornar a atividade poluidora economicamente inviável. Essa disrupção física deve ser acompanhada por aquilo a que Ivan Illich chamava "ferramentas de convivência": a criação de redes locais e analógicas de sobrevivência alimentar, energética e comunitária. É na junção entre o resgate da atenção, a paralisação do capital ecocida e a construção de resiliência no terreno que a ética ambiental encontra a sua tradução em poder político efetivo.

Os Autores e Teóricos Subjacentes a Esta Tese

  • Shoshana Zuboff (A Era do Capitalismo de Vigilância): Dá-lhe o argumento central sobre como as plataformas digitais não são meros meios de comunicação, mas indústrias de modificação comportamental que destroem a autonomia e a capacidade de organização coletiva.
  • Andreas Malm (Como Salvar um Planeta em Chamas / How to Blow Up a Pipeline): Fundamenta a crítica ao pacifismo estratégico tradicional. Malm defende que, perante a urgência, o movimento ecológico tem de ultrapassar os protestos simbólicos e adotar a sabotagem tática de infraestruturas fósseis (sem violência contra pessoas) para encarecer o capital poluidor.
  • Mark Fisher (Realismo Capitalista): Sustenta a tese da alienação e da paralisia: a ideia de que o sistema criou uma anestesia cultural onde é "mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", transformando o sofrimento e a ansiedade em consumo passivo.
  • Ivan Illich (Tools for Conviviality): Alimenta a ideia da construção de "cidadelas analógicas" — a necessidade de criar tecnologias e redes de escala humana, locais e desvinculadas dos megassistemas industriais e digitais para devolver a autonomia às comunidades.
  • Cédric Durand ou Nick Srnicek (Capitalismo de Plataforma / Feudalismo Digital): Em vez de olhar para a psicologia do ecrã (como Han faz), estes autores explicam a arquitetura económica real de como as grandes plataformas extraem renda e capturam o comportamento humano.
  • Bernard Stiegler: Para uma crítica da tecnologia incomparavelmente mais rigorosa e profunda. Stiegler concilia a filosofia da técnica com a neurobiologia e a economia política, explicando como a tecnologia digital nos priva do "saber-fazer" e do "saber-viver", gerando uma proletarização da mente.
  • Bernard Stiegler (24/7: O Capitalismo Tardio e os Fins do Sono): Examina como o capitalismo do século XXI tenta eliminar as pausas humanas naturais (como o sono e a reflexão), transformando o tempo contínuo num mercado de consumo e vigilância.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A algoritização do ódio: as redes sociais, a extrema-direita e a erosão da democracia


A transformação do ecossistema digital de um espaço de ligação interpessoal numa máquina industrial de rentabilização da mediocridade e do sensacionalismo ultrapassa as fronteiras da mera desilusão tecnológica ou da crítica de consumo. A mutação da esfera pública numa arquitetura desenhada para viciar provocou uma fratura tectónica na vida democrática contemporânea. Longe de serem juízes neutros, os algoritmos de recomendação das grandes plataformas atuam como catalisadores de incentivos perversos onde a indignação, o ruído e a falsidade se sobrepõem sistematicamente ao conhecimento e à utilidade real. É precisamente nesta assimetria estrutural - onde a futilidade e o conflito são convertidos em capital publicitário - que reside a aliança simbiótica entre a arquitetura Big Tech e a ascensão dos movimentos de extrema-direita, num processo que conspira ativamente contra as fundações da democracia liberal.

1. O modelo de negócio da atenção e a proliferação das redes
A premissa central sobre a qual repousa o império das redes sociais é a maximização do tempo de ecrã (engagement). Como demonstraram os dados divulgados pela whistleblower Frances Haugen através dos Facebook Papers, os sistemas de recomendação priorizaram historicamente as reações emotivas de "indignação" (Angry), atribuindo-lhes cinco vezes mais peso algorítmico do que a um simples "Gosto". Esta decisão de engenharia não respondeu a uma neutralidade política, mas sim a um cálculo económico: a raiva e o ridículo desencadeiam reações biológicas mais rápidas, comentários mais acesos e partilha compulsiva.

O resultado é uma economia da atenção globalizada em que várias plataformas promovem ativamente a desinformação e rentabilizam o discurso de ódio:
  1. Facebook (Meta): continua a ser o pioneiro na monetização do clickbait e na otimização da raiva, cortando o alcance orgânico do jornalismo e da cultura para forçar o pagamento de promoção, enquanto distribui gratuitamente conteúdos divisivos.
  2. X / Twitter: sob a liderança de Elon Musk, a plataforma desmontou grande parte das suas equipas de moderação de conteúdo, alterou a verificação de contas para um modelo pago sem autenticação real e reconfigurou o algoritmo para ampliar posts de alto envolvimento emocional, tornando-se uma incubadora direta de teorias da conspiração e discurso extremista.
  3. TikTok: utiliza um algoritmo de recomendação hiper-otimizado que identifica fragilidades emocionais em segundos. Ao priorizar vídeos de curta duração baseados em choque, pânico moral ou desinformação médica e política, a rede cria espirais rápidas de radicalização para públicos extremamente jovens.
  4. YouTube (Google): o seu motor de recomendação foi documentado por diversos académicos por conduzir utilizadores ao longo de "tocas de coelho" (rabbit holes) ideológicas, onde vídeos moderados levam gradualmente a conteúdos cada vez mais extremistas e conspiratórios para reter a visualização contínua.
  5. Telegram e WhatsApp: funcionam como redes de comunicação opaca em massa onde a desinformação circula sem qualquer moderação de factos. A arquitetura de grupos e canais gigantes permite a orquestração de campanhas de difamação e pânico social longe do escrutínio público.
2. A extrema-direita e o uso ativo do algoritmo
Se a infraestrutura das redes sociais foi desenhada para priorizar o conflito e a polarização, os movimentos populistas e radicais revelaram-se os seus utilizadores mais eficazes. Contudo, existe um debate central sobre esta relação: a extrema-direita não é meramente um produto passivo do algoritmo, mas sim um ator político estratégico que aprendeu ativamente a instrumentalizar a plataforma. Muito antes da otimização algorítmica, estes movimentos já exploravam os limites da propaganda; com as redes sociais, encontraram o meio perfeito para dar escala global a ressentimentos sociais, económicos e culturais preexistentes.

Esta captura opera através de quatro eixos fundamentais:
  1. Simplicidade maniqueísta vs. complexidade: o discurso de extrema-direita constrói narrativas diretas de "nós contra eles", medo e ameaça. Tais mensagens adaptam-se com facilidade à leitura rápida do feed, ao contrário de análises ponderadas sobre políticas públicas ou causas como o ativismo ambiental e a ciência, que exigem nuance e acabam sufocadas pela máquina.
  2. Tática do clickbait emocional: ao alavancar títulos enganadores e factos distorcidos (que chegam a representar entre 60% a 70% dos artigos virais), estes atores transformam o pânico moral, o preconceito e a paranoia em mercadoria virótica.
  3. Exploração das bolhas de filtro: ao isolar os utilizadores em ecossistemas de validação mútua, os algoritmos criam câmaras de eco impermeáveis ao contraditório, expostas continuamente a versões hiperbolizadas da realidade.
  4. Guerra memética e humor de fronteira: o sensacionalismo assume frequentemente a forma de memes e conteúdos pretensamente humorísticos, suavizando o extremismo e permitindo espalhar desinformação a uma velocidade superior à da verdade.
3. A erosão democrática: a ruptura do consenso factual
A democracia não exige o acordo universal sobre valores, mas pressupõe um terreno mínimo de factos partilhados. O impacto devastador da desinformação foi empiricamente mensurado em investigações do MIT, que demonstraram que conteúdos falsos têm 70% mais probabilidade de ser partilhados do que a verdade e atingem as primeiras 1.500 pessoas cerca de seis vezes mais rápido. Quando a mentira circula a esta velocidade em múltiplas plataformas, a possibilidade de um debate público racional colapsa.

A transfiguração da praça pública num mercado de quinquilharia emocional corrói o sistema democrático de três formas críticas:
  1. Destruição da confiança nas instituições: o jornalismo de investigação e o conhecimento científico perdem sustentabilidade e alcance diante da enxurrada de lixo digital.
  2. Normalização do discurso de ódio: a validação algorítmica do conteúdo ruidoso desloca o limite do aceitável (Janela de Overton), dando centralidade a ideias anteriormente remetidas à margem do espectro político.
  3. Incapacidade de governação plural: uma cidadania submetida a fluxos constantes de medo perde a capacidade de ponderar escolhas políticas, transformando o debate democrático numa guerra cultural permanente.
Conclusão: da matéria-prima à soberania democrática
A crise das redes sociais não é um desvio de percurso ou uma falha acidental da tecnologia: é o resultado lógico de um modelo comercial que mercantiliza a psique humana. Ao transformar a atenção em moeda e a raiva em dividendo, os algoritmos revelaram-se eficientes desestabilizadores da ordem democrática. Reconhecer que a tecnologia oferece o terreno, mas que os atores políticos instrumentalizam ativamente a infraestrutura, é o primeiro passo para compreender que a defesa da democracia no século XXI passa obrigatoriamente pela regulação rigorosa, transparência algorítmica e limitação do modelo de negócio baseado na vigilância e na polarização. Sem a recuperação de um espaço público guiado pela verdade factual e pela utilidade real, a soberania popular continuará refém de uma arquitetura otimizada para a distração em massa e o lucro.

quinta-feira, 26 de março de 2026

How Do We Protect Children from Becoming Addicted to Social Media?


My granddaughter began scrolling on a cellphone when she was around two years old, her index finger repeatedly swiping across its face as if she were already a teenager.

Some of the 18-year-olds in my classes at Berkeley seem to suffer withdrawal symptoms when I ask them to put away their phones.

I see young people in restaurants sitting with other young people, none saying a word to each other as they lose themselves in their devices.

Are they addicted? Yes, if you define addiction as getting such a dopamine rush that they feel compelled to use their cellphones for hours at a time.

How similar is this to a nicotine addiction? And — as was a central question thirty years ago when Big Tobacco was being sued — is Big Tech intentionally designing its product to hook young people?

The answer appears to be that the addictions are quite similar, and Big Tech is just as culpable as Big Tobacco.

On Wednesday, in California, a young woman prevailed in a lawsuit against social media giants Meta Platforms and Google’s YouTube, in which she accused them of designing their apps to be as addictive and harmful to adolescents as cigarettes. Jurors found the tech companies to be negligent in having failed to provide adequate warnings about the potential dangers of their products.

What seemed to persuade the jury were features that Meta and YouTube had built into their software like infinite scroll, algorithmic recommendations, and autoplay videos — designed to get young users to compulsively engage with the platforms.

Internal company documents from Meta and YouTube executives showed they knew of and discussed the negative effects of their products on children.

In fact, this case and many others likely to follow in its wake (more than 3,000 other similar lawsuits are pending in California courts against Meta, YouTube, Snapchat and TikTok) are rooted in the litigation against Big Tobacco thirty years ago, in which plaintiffs argued that the tobacco corporations created addictive products that harmed their users.

I’m old enough to remember when U.S. Surgeon General Dr. Luther Terry issued the first landmark report warning that cigarette smoking causes cancer and other diseases, on January 11, 1964. I was a teenager then, quietly debating with myself whether to look cool by having a cigarette dangling from my lips.

The report, entitled Smoking and Health: Report of the Advisory Committee to the Surgeon General, sparked a national shift in public health — leading in 1965 to mandatory warnings on cigarette packages. The report and the warnings, and the hullabaloo surrounding them, put me off smoking.

Almost sixty years later, in 2024, U.S. Surgeon General Vivek H. Murthy called for adding warning labels to social media, explaining that the platforms were associated with mental health harms for adolescents. She wrote:

“The mental health crisis among young people is an emergency — and social media has emerged as an important contributor.

Adolescents who spend more than three hours a day on social media face double the risk of anxiety and depression symptoms, and the average daily use in this age group, as of the summer of 2023, was 4.8 hours. Additionally, nearly half of adolescents say social media makes them feel worse about their bodies.

It is time to require a surgeon general’s warning label on social media platforms, stating that social media is associated with significant mental health harms for adolescents.”

She’s right. A surgeon general’s warning label would remind parents and adolescents that social media may be unsafe.

Evidence from tobacco studies show that warning labels can increase awareness and change behavior. When asked if a warning from the surgeon general would prompt them to limit or monitor their children’s social media use, 76 percent of people in one recent survey of Latino parents said yes.

But we shouldn’t stop there, and Big Tech shouldn’t be able to use warning labels as a defense to future lawsuits claiming social media addiction among young people.

Meta, YouTube, and other social media platforms must redesign their products to be less addictive to minors. Yet, as with Big Tobacco, they’re unlikely to do this unless liability judgments against them start mounting substantially.

In the 1998 Tobacco Master Settlement Agreement, the major tobacco companies agreed to pay over $200 billion to 46 states, 5 territories, and the District of Columbia to settle lawsuits over smoking-related health costs. The settlement imposed strict marketing restrictions and funded anti-smoking campaigns.

Now, cigarettes are prohibited in most workplaces and public spaces. The Food and Drug Administration restricts tobacco sales to individuals 21 or older. Additional rules under consideration target menthol flavors, and reduce nicotine levels.

We need to protect our kids from social media no less strictly. Why not ban children under 16 from using social media, prohibit its use in schools, and have Big Tech pay for anti-social media campaigns directed at young people?

In December, Australia issued a ban on young people using social media. Malaysia, Spain, and Denmark made similar rules. American children deserve no less.

A jury in New Mexico found Meta liable for failing to protect young people from online dangers, including sexually explicit content, solicitation and human trafficking, on Tuesday in the first trial of its kind and ordered the company to pay a $375 million penalty. Meta said it respectfully disagreed with the jury and would appeal the ruling.

By focusing on the design of Meta and YouTube’s apps rather than the content posted on them, Kaley’s case sought to get around longstanding legal protections, known as Section 230 of the Communications Decency Act of 1996, that have largely shielded social-media companies from being held liable for content on their platforms.

It is a bellwether case for thousands of similar lawsuits in California, which serves as a test of evidence to see how juries reacted. The outcome doesn’t bind other cases but could encourage settlements now that both sides have a better sense of how their arguments might play out with jurors.

During the seven-week trial, Kaley testified that she started watching YouTube videos at age 6 and made an Instagram account at age 9. She uploaded more than 200 YouTube videos before she turned 10 and created 15 Instagram accounts before she turned 15, Kaley and her lawyers said.

Lanier, Kaley’s lead attorney, said that on one day she spent 16 hours on Instagram.

“I wanted to be on it all the time,” she said. “If I wasn’t on it, I felt like I was going to miss out on something.”

Meanwhile, Meta spent hours in cross examination trying to convince jurors that Kaley’s struggles were caused by other factors, including a difficult family life and bullying at school. Meta lawyer Andrew Stanner said notes from six months of therapy appointments didn’t mention social-media addiction or name any social-media apps.

Jurors also heard from Meta executives Mark Zuckerberg and Adam Mosseri. Mosseri, the Meta executive tasked with running Instagram, testified that the app wasn’t “clinically” addictive, and Zuckerberg said his company’s goal was to give users something useful, not addict them.

“We used to give teams goals on time spent and we don’t do that anymore because I don’t think that’s the best way to do it,” Zuckerberg said when he took the witness stand in the second week of the trial.

On Tuesday evening, Meta introduced a new stock option program for senior executives to motivate them to grow the company at an extremely aggressive pace and reach a $9 trillion-plus valuation.

As the punitive-damages phase of the trial got under way in court on Wednesday, the plaintiff’s attorney, Lanier, revealed a jar of M&Ms—415 of them. Each one represented $1 billion of the $415 billion in total stockholders’ equity of Alphabet Inc., he said. As he removed M&Ms one by one, Lanier noted how the jar barely registered a change, symbolizing how inconsequential even a ruling of $1 billion in damages would be to a company of Alphabet’s value.

Luis Li, an attorney representing YouTube, began his remarks by apologizing to Kaley.

“We at YouTube truly, truly hope that there have been things about YouTube that have enriched your life,” he said. He then began delineating how YouTube has instituted features to interrupt scrolling and give parents an indication of how much time their children are spending on their phones.

“They’re not perfect,” he said, adding, “you can’t walk into someone’s phone and turn on all of these features.”

Paul W. Schmidt, an attorney for Meta, referenced testimony from former company employees who, while critical of the company’s practices, said they did not believe it was intentionally trying to harm young people.

“There wasn’t an intention to do harm,” he said.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Quem é o monge conhecido como 'Bin Laden budista'


[Fonte] Ele descreve mesquitas como "bases inimigas" e se refere a muçulmanos como "cães loucos". Também acusa os adeptos do Islã de "roubar e estuprar mulheres birmanesas" e de "se reproduzirem muito rápido".

Durante anos, as autoridades de Mianmar deram proteção e apoio ao monge budista mais polêmico do mundo, Ashin Wirathu, o que lhe permitiu seguir adiante com suas pregações extremas.

Mas depois de seu ataque à chefe de governo Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prémio Nobel da Paz em 1991, as autoridades do país parecem ter concluído que o monge foi longe demais. Agora ele pode ser preso sob acusação de perturbação da ordem pública.

Mas quem é esse monge controverso, conhecido como "Bin Laden budista"?
Primeiros anos
Em 2001, Wirathu chamou atenção ao liderar uma campanha para boicotar empresas que pertenciam a muçulmanos.

Ele foi preso e sentenciado a 25 anos de prisão em 2003, mas solto em 2010, após uma anistia geral. Mas o encarceramento não parece ter reduzido seu fervor ativista contra as minorias muçulmanas do país.

Em seus discursos, ele mistura parábolas budistas com fortes doses de nacionalismo.

Ele fala com calma e clareza durante as entrevistas à imprensa, mas se inflama em reuniões públicas. Suas palavras semeiam o ódio - e a islamofobia existente no país.

Wirathu também fez campanhas pela a aprovação de uma lei que proíbe homens muçulmanos de se casarem com mulheres budistas.

"Você não pode subestimar uma cobra porque ela é pequena. Os muçulmanos são assim", disse ele, certa vez.

Banido das redes sociais
Nos últimos anos, o monge passou a divulgar nas redes sociais a mensagem de que a cultura budista do país seria esmagada por uma crescente população muçulmana.

Eventualmente, o Facebook bloqueou sua conta em janeiro de 2018, citando suas mensagens de ódio contra a minoria muçulmana rohingya do país.

Wirathu afirmou que procuraria outras plataformas para divulgar suas ideias.

"Quando o Facebook me baniu, passei a confiar no YouTube. Mas o YouTube não é abrangente o suficiente, então vou usar o Twitter para continuar o trabalho nacionalista", disse ele.

Ele também compartilha seus vídeos pelo VK, uma espécie de Facebook russo.

Mas não foi apenas o Facebook a bani-lo. Em abril deste ano, ele foi impedido de fazer um sermão na vizinha Tailândia, que também tem maioria budista.

Incompreendido
A popularidade de Wirathu reflete a difícil situação dos muçulmanos de Mianmar, onde formam apenas cerca de cinco por cento da população.

Em julho de 2013, a revista Time publicou uma foto do monge na capa com a legenda "O rosto do terror budista".

"Estou sendo mal interpretado e atacado. Acho que há um grupo pagando à mídia para me difamar. Certamente a mídia online é controlada por muçulmanos", disse ele à BBC em 2013.

Ele foi descrito como "Bin Laden budista" em um documentário lançado em 2015 - apelido rapidamente adotado por alguns veículos de mídia. Porém, Wirathu rejeita a comparação.

Ele diz que abomina a violência. "Eu nem gosto de responder com grosseria", disse.

Críticas à ONU
O budista de 51 anos tem um vasto histórico de controvérsias.

Em 2015, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) enviou uma agente especial para investigar a situação da minoria muçulmana em Mianmar, Wirathu chamou a enviada, a diplomata sul-coreana Yanghee Lee, de "cadela" e "prostituta".

Um relatório da ONU divulgado no ano passado disse que os chefes de militares de Mianmar deveriam ser investigados por genocídio no Estado de Rakhine - depois disso, o Tribunal Penal Internacional abriu uma análise preliminar do caso.

O governo de Mianmar rejeitou o relatório e o monge liderou uma ofensiva contra a ONU.
Os seguidores de Wirathu foram amplamente responsabilizados por tumultos antimuçulmanos no Estado de Rakhine, que começaram em 2012 e culminaram no êxodo de mais de 700 mil pessoas para o país vizinho Bangladesh.

Os nacionalistas do país costumam se referir aos muçulmanos rohingya como "bengalis" (como são chamados os nascidos em Bangladesh) - querendo imputar-lhes uma condição de forasteiros.

Numa entrevista concedida ao jornal britânico The Guardian em 2017, Wirathu acusou o partido do governo, a Liga Nacional pela Democracia, de apoiar secretamente uma agenda muçulmana.

Budismo
Mianmar não tem religião oficial definida pelo governo, mas a sociedade é fortemente influenciada pelo budismo - cerca de 90% da população se diz adepta da religião.

Os monastérios desfrutaram de patrocínio estatal há séculos - a ajuda só terminou no século 19, durante o período colonial britânico.

Magníficos templos budistas enfeitam a paisagem de Myanmar, nutridos pelas águas do Irrawaddy e outros rios. Os mosteiros são donos de grandes faixas de terras aráveis.

O país, com população de 54 milhões, tem uma longa história de ditadura militar e mantém um Exército permanente de mais de 400 mil soldados. Estima-se que o número de monges budistas seja ainda maior, de 500 mil - eles desfrutam de status social elevado e são amplamente reverenciados pela população.

Ma Ba Tha
Wirathu foi inicialmente associado a uma organização chamada 969. Os defensores do grupo dizem que o primeiro número 9 representa os atributos especiais do Buda, o 6 denota as características especiais dos ensinamentos budistas e o último 9 significa as qualidades da Sangha - a congregação de monges.

Mas o grupo 969 era mais conhecido por seu ativismo antimuçulmano.

O grupo recebeu apoio do governo e, em 2013, o então presidente de Mianmar Thein Sein se manifestou abertamente em apoio tanto ao movimento quanto a seu mais proeminente líder, descrevendo Wirathu como "filho de Buda".

Wirathu posteriormente se tornou líder de outra organização chamada Ma Ba Tha - ou a Associação Patriótica da Birmânia (nome antigo de Mianmar), criada em 2014. Ela cresceu rapidamente em todo o país, antes de ser proibida em 2017.

Mas ele continuou espalhando sua mensagem de ódio aos muçulmanos do tranquilo mosteiro Ma Soe Yein em Mandalay - onde ergueu uma exposição permanente de fotos que, segundo ele, mostram as vítimas da "violência muçulmana".

Em uma longa entrevista concedida à BBC em 2013, o monge, vestido com a tradicional túnica de cor laranja, não se arrependeu de suas provocações. "Os muçulmanos só se comportam bem quando são fracos. Quando se tornam fortes, eles são como um lobo ou um chacal; em grandes grupos, eles caçam outros animais", disse ele.

"Eles (muçulmanos) não reconhecem outros grupos como humanos. Eles atacam cristãos e hindus também. Na verdade, eles atacam a todos. Se você não acredita nisso, dê sua tecnologia nuclear ao Talebã. Prometo a você, seu país em breve desaparecerá ", acrescentou.

Ampla influência
Wirathu viaja frequentemente e até estabeleceu laços estreitos com o grupo Bodu Bala Sena ou o BBS, organização anti-Islã do Sri Lanka, também mantida por monges que seguem o ramo teravada do budismo.

"Hoje, o budismo está em perigo. Precisamos que as mãos sejam firmemente mantidas unidas se ouvirmos o alarme", disse Wirathu em uma reunião em 2014.

Porém, o aumento de sua popularidade não foi bem vista por mosteiros tradicionais. O Conselho de Sanga, apoiado pelo governo, proibiu Wirathu de realizar sermões por um ano, em 2017.

Ataque a líder política
Mas os problemas para o monge realmente começaram quando ele atacou a figura mais popular do país, a ativista e líder política Aung San Suu Kyi.

"Ela se veste como uma fashionista, usa maquiagem e anda por aí em elegantes sapatos de salto alto, sacudindo a bunda para estrangeiros", disse ele a uma multidão em abril deste ano.

Em um discurso proferido em maio, Wirathu a acusou de "dormir com um estrangeiro".

Suu Kyi foi casada com o acadÉmico britânico Michael Aris, que morreu de câncer em 1999, enquanto ela estava sob prisão domiciliar imposta pelo regime militar.

"Wirathu é um monge muito popular e comanda um grande número de seguidores. Essa massa fica feliz quando ele ataca os muçulmanos. Mas quando ele atinge Aung San Suu Kyi, sua popularidade leva uma pancada e despenca", diz Myat Thu, co-fundador do centro de estudos Escola de Ciência Política de Yangun.

Educada em Oxford, Aung San Suu Kyi é conhecida como "A Dama" e é tida como líder de fato do país. Seu cargo oficial é o de conselheira do Estado. O presidente, Win Myint, é um aliado próximo.

A Constituição de Myanmar a proíbe de se tornar presidente do país por ter filhos com nacionalidade estrangeira - eles têm dupla cidadania birmanesa e britânica.

O governo civil agora quer mudar termo da Constituição que proíbe Aung San Suu Kyi de assumir o cargo máximo no Executivo do país. Wirathu se opõe às mudanças constitucionais propostas.

"As pessoas têm grande respeito por Aung San Suu Kyi. Mesmo muitos monges linha dura, e que estão com Wirathu, agora podem achar mais difícil apoiar sua diatribe contra Suu Kyi", acrescenta Myat Thu.

"Se Wirathu tivesse sido crítico apenas às mudanças constitucionais, teria sido difícil para o governo tomar medidas contra ele. Mas ele recorreu a ataques pessoais contra Suu Kyi, o que não caiu bem com o público", diz Myat.

"Ele tornou mais fáceis ações do governo contra ele".

Mas Wirathu mantém sua postura desafiadora. "Se eles quiserem me prender, podem fazê-lo", disse ele ao portal Irrawaddy, recentemente.