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domingo, 14 de junho de 2026

Multibanco: o botão que tens de carregar antes de inserir o teu cartão



Levantar dinheiro nas caixas automáticas é um gesto quase diário para a maioria dos portugueses. Inegavelmente, confiamos cegamente na segurança destas máquinas. Por conseguinte, inserimos o nosso cartão e digitamos o código secreto sem pensar duas vezes na operação. Contudo, os criminosos estão cada vez mais criativos nas suas abordagens físicas e digitais. Assim as queixas de burlas junto aos terminais de pagamento estão sempre presentes. Felizmente, existe um gesto preventivo muito simples que pode salvar a tua conta bancária. Na prática é um botão em que tens de carregar antes de inserir o cartão no Multibanco.

Inserir o cartão no Multibanco: faz isto primeiro
Em primeiro lugar, o grande perigo atual reside num método conhecido como clonagem silenciosa. Os burlões instalam pequenos dispositivos falsos na ranhura onde habitualmente inseres o cartão. Estes aparelhos disfarçados leem a banda magnética e copiam todos os teus dados bancários. Adicionalmente, colocam microcâmaras escondidas na parte superior da máquina. O objetivo destas pequenas lentes é gravar o momento exato em que digitas o teu código pessoal. Como resultado, os criminosos conseguem um acesso total e desimpedido ao teu dinheiro numa questão de minutos.

Multibanco: o erro com o botão Cancelar que te pode custar caro
Por outro lado, existe um truque muito eficaz que deves adotar imediatamente na tua rotina. Antes de colocares o teu cartão na ranhura, deves carregar na tecla vermelha Cancelar pelo menos duas vezes. Este passo cancela qualquer operação que tenha ficado pendente do utilizador anterior. Além disso, reinicia o software da máquina e bloqueia possíveis tentativas de adulteração digital do teclado numérico. Este pequeno hábito cria uma camada extra de segurança antes de iniciares a tua sessão pessoal.


Uma postura defensiva
Deves também adotar uma postura altamente defensiva sempre que fores ao multibanco. Primeiramente, verifica sempre se o teclado apresenta alguma folga ou uma peça exterior solta. Se notares algo estranho ou fita-cola à volta da ranhura verde, não utilizes essa máquina de forma alguma. Posteriormente, tapa sempre o teclado com a tua mão livre enquanto digitas o código numérico. Este simples gesto de bloqueio visual anula completamente a eficácia das câmaras ocultas instaladas pelos criminosos na estrutura do terminal.
As caixas Multibanco modernas costumam ter luzes LED intermitentes verdes ou azuis na ranhura do cartão. Se a luz estiver tapada, desalinhada ou se o plástico parecer baço ou de cor diferente do resto da máquina, desconfia.
A tua segurança financeira depende exclusivamente da tua atenção a pequenos detalhes do quotidiano. Perder apenas cinco segundos a analisar o terminal pode evitar uma verdadeira dor de cabeça e uma conta vazia no futuro. Mantém a atenção redobrada durante as tuas férias e protege as tuas poupanças com estas dicas de ouro.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Esquece o puxão na ranhura: o novo perigo no Multibanco é invisível


Há décadas que seguimos o mesmo ritual no Multibanco: meter o cartão, puxar a ranhura verde, abanar para ver se há peças soltas. Se nada cair, assumimos que estamos seguros. Lamento dizer-te, mas esse truque já não serve para o novo perigo no Multibanco. A era do skimming grosseiro (aquelas peças de plástico mal coladas) acabou. Os burlões modernos evoluíram para tecnologia de nível militar, tão fina e miniaturizada que o ataque acontece debaixo do teu nariz e literalmente dentro da máquina. Chamam-lhe Deep Insert Skimmer (ou Shimmer), e é a razão pela qual tens de mudar a forma como levantas dinheiro hoje mesmo.

O novo perigo no Multibanco DENTRO não fora
Antigamente, o dispositivo de roubo era colocado sobre a entrada do cartão. Hoje, o dispositivo é uma “folha” ultrafina, com circuitos microscópicos, que é inserida profundamente na ranhura do Multibanco.

Como funciona?
O ladrão insere o dispositivo em segundos (parece que está apenas a usar o multibanco).
O chip fica lá dentro, invisível a olho nu.
Quando metes o teu cartão, o dispositivo “lê” os dados do chip em tempo real enquanto a máquina faz a operação normal.
Tu recebes o dinheiro, o cartão sai, e nem sonhas que acabaste de ser copiado.
Não há nada para puxar. Não há nada para abanar.

O Golpe Duplo: o teclado fantasma
“Mas eles precisam do PIN!”, pensas tu. Exatamente. E esquece as câmaras minúsculas escondidas num buraco em cima do ecrã. Isso é tecnologia de 2010.

Agora, os criminosos usam teclados falsos de alta precisão. São películas finíssimas colocadas exatamente por cima das teclas originais. Quando digitas o código, a sensação táctil é a mesma, mas a película regista a pressão e guarda o teu PIN.

Entretanto tens os dados do cartão roubados por dentro e o PIN roubado por cima. A combinação perfeita para esvaziar a conta.

O único “Teste” que realmente funciona (e não é com uma chave)
Muita gente sugere tentar meter uma chave ou palito para sentir obstruções. Não faças isso. Podes avariar a máquina e ficar com a chave presa (e uma conta para pagar).

A única forma 100% eficaz de contornar os Deep Insert Skimmers é não usares a ranhura.

A Regra de Ouro: usa por exemplo o MBWay para gerares um código para levantares dinheiro ou ativares a máquina Multibanco para a utilizares. Assim estás imune. O dispositivo de roubo não consegue ler os dados via wireless desta forma. A ranhura torna-se irrelevante.

3 Regras para sobreviveres aos novos burlões
  1. A “Dança” do Cartão: Ao inserir o cartão, se sentires uma resistência anormal ou se ele não entrar suavemente até ao fim, não forces. Cancela e muda de máquina. O chip espião cria um aperto extra dentro da ranhura.
  2. A Mão Concha: Mesmo que não vejas câmaras, cobre sempre a mão que digita o PIN com a outra mão ou com a carteira. Se houver uma câmara escondida (ainda usam), não apanham nada. Se for um teclado falso, torna a vida deles mais difícil para correlacionar os dados.
  3. Foge dos ATMs isolados: Dá preferência às máquinas que estão dentro das agências bancárias (no hall de entrada). Os burlões preferem máquinas de rua, com menos vigilância e onde é mais fácil instalar o equipamento durante a noite.
Entretanto a tecnologia dos ladrões evoluiu. Assim a tua prevenção também tem de evoluir. Da próxima vez, antes de meteres o cartão no buraco, pergunta-te: “Posso usar o Contactless?”. Se a resposta for sim, nem hesites.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Já existem esquemas para pagamentos com o smartphone!


Há algumas semanas atrás, dissemos para priorizaes pagamentos com o smartphone ou relógio, de forma a evitar a grande maioria dos esquemas que andam por aí. Mas… O problema é não é só a tecnologia que evolui. Os scammers também aprendem novas técnicas.

Dito tudo isto, está na hora de falar do NGate: o esquema no Android que permite levantar dinheiro no multibanco sem te roubarem o cartão.

Portanto, se achas que para alguém te esvaziar a conta bancária precisa de te roubar o cartão ou saber o PIN, convém leres isto com atenção. Há um esquema a circular chamado NGate que usa o teu próprio smartphone Android para dar a volta ao sistema… e o pior é que muita gente nem percebe como foi enganada.

Ou seja, aqui não há skimmers, nem cartões clonados à antiga. Há engenharia social, aplicações falsas e NFC. Uma combinação perigosa.

O que é afinal o esquema NGate?
NGate é o nome dado a um tipo de burla que explora o NFC do teu telemóvel. Sim, a mesma tecnologia que usas para pagar com um toque.

Assim, o esquema começa quase sempre da mesma forma. Recebes uma SMS ou email a fingir que vem do teu banco. A mensagem fala de um problema urgente, uma falha de segurança ou uma operação suspeita. Tudo pensado para te meter alguma pressão em cima.

Na mensagem vem um link para instalares uma aplicação. Não está na Play Store. Esse é logo o primeiro grande sinal de alerta.

A aplicação parece legítima, tem logótipos, linguagem cuidada e até “verificações de segurança”. Mas, claro, foi criada pelos burlões.

Como é que passam do telemóvel para o multibanco?
Depois de instalares a app, o esquema continua.

Recebes uma chamada de alguém a dizer que é do banco. Às vezes até há um SMS adicional para “confirmar identidade”, de forma a tudo para parecer real. A seguir, a app pede-te algo crítico. Que encostes o cartão bancário ao telemóvel e introduzas o PIN. Tal e qual como num pagamento contactless.

O que está a acontecer na verdade é isto. A app lê os dados do cartão via NFC e envia-os em tempo real para o burlão, que está perto de um multibanco. Em segundos, conseguem levantar dinheiro como se tivessem o teu cartão físico.

Em suma, tu ficas em casa. Eles ficam com o dinheiro.
Não é um esquema super perigoso, e de facto, pagar com o telemóvel continua a ser a forma superior de fazer as coisas. Mas… É preciso ter os olhos bem abertos!
Não parece uma burla clássica. Porque não te pedem dados num site estranho. Não te pedem transferências diretas. Usam processos que já conheces e em que confias.

Além disso, como o levantamento é feito com os teus próprios dados e PIN, a deteção e a recuperação do dinheiro tornam-se muito mais difíceis.

Mas, como sempre, a regra de ouro continua a ser a mesma de sempre. O banco nunca te pede para instalares aplicações fora da Play Store. Nunca. Nem te pede dados por mensagem ou telefonema.

Liga tu para o banco usando o número oficial do site ou da app. Nunca uses contactos que vêm na mensagem. Nunca encostes o cartão ao telemóvel a pedido de uma aplicação ou de alguém ao telefone. Isso simplesmente não faz parte de nenhum processo legítimo.

sábado, 27 de setembro de 2025

Há uma nova fraude a preocupar os portugueses


Uma nova fraude por SMS está a circular em Portugal, utilizando indevidamente a identidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e da linha SNS 24. Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) emitiram esta semana um alerta, denunciando uma tentativa de fraude com o objetivo de recolher dados bancários dos utentes.

Qual é a fraude sobre o SNS?
De acordo com a informação divulgada pela SPMS, a mensagem fraudulenta informa o destinatário sobre alegados "valores em dívida" ao SNS. O conteúdo do SMS exige o pagamento do montante em causa no prazo de cinco dias, criando um sentido de urgência que visa pressionar a vítima a agir sem verificar a veracidade da informação.

Além disso, a mensagem inclui um link que direciona para uma página falsa, com aparência semelhante à de portais oficiais. Nesse site fraudulento, são solicitados dados pessoais e bancários, bem como instruções para pagamento por multibanco. A SPMS esclarece que esta comunicação é completamente falsa e que nenhum serviço do SNS utiliza mensagens escritas para notificar utentes sobre dívidas ou para recolher informações sensíveis.

Como funciona o SNS 24?
Em comunicado, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde reforçam que nem o SNS nem a linha SNS 24 recorrem ao envio de SMS para cobrança de valores em atraso. As entidades oficiais de saúde não pedem dados pessoais ou bancários através deste meio de comunicação.

Assim, qualquer mensagem que contenha pedidos de pagamento ou solicitação de dados confidenciais deve ser considerada suspeita. O comportamento recomendado pelas autoridades é claro: não responder, não clicar em links e apagar a mensagem de imediato.

Aumenta o número de burlas digitais em Portugal
Da mesma forma, nos últimos meses, tem-se verificado um aumento significativo no número de fraudes digitais em território nacional. Os esquemas mais comuns incluem o envio de mensagens com conteúdos alarmantes, muitas vezes associados a instituições públicas ou entidades de confiança, como o SNS.

Com efeito, estas fraudes aproveitam-se da credibilidade das instituições portuguesas para manipular os utentes e obter informações financeiras. Para combater este tipo de crime, é fundamental adotar uma postura de vigilância constante e reportar qualquer tentativa suspeita às autoridades competentes.
Autoridades fazem apelo à vigilância

A SPMS, em conjunto com outras entidades públicas, reforça o apelo para que os cidadãos mantenham uma atitude preventiva face a este tipo de ameaças. Em caso de dúvida, o contacto com os canais oficiais do SNS ou com a Polícia Judiciária permite esclarecer a veracidade da mensagem.

A partilha de dados bancários deve ser feita apenas em plataformas seguras e com entidades verificadas. Ao mesmo tempo, é essencial não divulgar qualquer informação pessoal a remetentes desconhecidos.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Economia GIG: o que é e como funciona


A economia GIG opera com base em plataformas que servem de intermediário entre o prestador de serviços e o cliente final.

É uma consequência da digitalização, mas também de novas formas de encarar o trabalho. Sem horários definidos, sem contratos e com múltiplos empregadores. Se pede comida ou transporte através de uma app está a fazer parte da economia GIG, já tinha pensado nisso? Esta é uma realidade que veio para ficar, e com tendência para crescer.

O que é a economia GIG?
O dicionário Merriam-Webster define Economia GIG como “uma atividade económica que envolve a utilização de trabalhadores temporários ou freelancers em trabalhos que, geralmente, pertencem ao setor dos serviços”.

Basta olhar para a lista de apps no seu telemóvel para encontrar alguns exemplos de como esta forma de economia se desenvolveu. Da Uber à Airbnb, passando por plataformas que contratam freelancers para trabalhos tão variados como design, programação e tradução, são vários os exemplos.

A economia GIG associa-se a plataformas digitais onde os consumidores encontram prestadores de serviços pagos por tarefa. Seja essa tarefa a distribuição de comida, a estada num alojamento, professores e explicadores ou uma reparação em casa, entre muitas outras.

Estudantes que querem ajudar a pagar as contas; trabalhadores que preferem a liberdade de escolha do seu horário, para conciliar vida profissional e familiar, ou que pretendam um rendimento suplementar são alguns exemplos dos chamados trabalhadores GIG.

Qual a importância da economia GIG?

Segundo o estudo da OCDE Gig Economy Platforms: Boon or Bane?, em 2019 a economia GIG representava entre 1% a 3% do total de empregos em todo o mundo. Já nessa altura (antes da pandemia, altura em que a digitalização e o trabalho remoto aumentaram), e de acordo com o relatório da Mastercard The Global Gig Economy: Capitalizing on a $500B Opportunity, a tendência seria para um crescimento na ordem dos 17%. Em 2023, representaria 455 mil milhões de dólares.

De acordo com as pesquisas do site Statista, mais de 50% das pessoas que trabalham na economia GIG pertencem à Geração Z (os chamados zoomers) ou são Millennials, com rendimentos anuais inferiores a 50 mil dólares.

Um estudo do McKinsey Global Institute calcula que, só na Europa e nos EUA, cerca de 162 milhões de pessoas (ou 20 a 30% da população em idade ativa) exercem algum tipo de trabalho independente.

Este relatório refere, também, que surgem novos indicadores de que esta forma de trabalho tende a crescer.

Quais os desafios da economia GIG?
O Fórum Económico Mundial identifica alguns dos desafios que o crescimento da economia GIG traz à sociedade e à própria economia.

Um dos principais, segundo esta entidade, será equilibrar esta forma inovadora de criação de emprego com a justiça laboral. Isto é, garantir que os trabalhadores não estão a ser explorados.

Além disso, colocam-se questões como a concorrência desleal. As empresas tradicionais podem competir em termos de preços e produtos com estas plataformas? As questões relacionadas com os direitos dos trabalhadores, nomeadamente descontos para sistemas de proteção social e com a política fiscal constituem desafios.

Embora, de uma forma geral, os trabalhadores destas plataformas se sintam satisfeitos com o seu modelo de trabalho, cerca de 20% recorre às plataformas porque não consegue encontrar emprego como trabalhador por conta de outrem", refere o artigo do Fórum Económico Mundial.

Quem trabalha na economia GIG?
O estudo do Instituto McKinsey Independent Work, Choice, Necessity, and the gig Economy dividiu os trabalhadores GIG em 4 grandes grupos:
  1. Pessoas que escolhem o trabalho independente, sendo esta a sua principal fonte de rendimento
  2. Casuais: usam o trabalho independente como forma de rendimento extra
  3. Relutantes: vivem sobretudo de trabalho independente, mas preferiam um emprego tradicional
  4. Financeiramente dependentes: executam tipo de trabalho por necessidade
Independentemente dos motivos que levam à escolha da economia GIG, cada vez mais trabalhadores procuram esta nova forma de trabalho. Uma realidade que veio para ficar e que, a par da inteligência artificial ou da automação, mostra que é necessário pensar o futuro do trabalho. O Livro Verde sobre o futuro do trabalho 2021, coordenado pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, é um passo nesse sentido.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

António Lobo Antunes: 5 reflexões inesperadas sobre a vida, a escrita e o que nos salva


1. O olhar de uma criança de 60 Anos: o vaticínio do teto

Contemplamos uma fotografia a preto e branco: um recém-nascido de escassos meses. No entanto, a verdadeira génese do escritor não se encontra na imagem estática, mas no relato materno que António Lobo Antunes recorda com a precisão de quem perscruta o destino. Aos dois anos, a criança permanecia deitada, o olhar fixo no teto, tecendo comentários sobre paisagens invisíveis aos olhos dos adultos. Ali, naquele corpo minúsculo que já “lia” o vazio, estava selada uma inevitabilidade.

Para Lobo Antunes, a escrita nunca foi uma carreira equacionada ou uma escolha entre outras; foi um destino que o arrancou ao percurso de “bom aluno” esperado pela sua ilustre família de médicos e académicos. Desde os cinco anos, ele soube que a sua vida não seria vivida, mas escrita. É esta certeza absoluta que confere à sua obra uma gravidade quase geológica: o homem que hoje olhamos é o resultado do que a vida fez dele, mas também do que ele, obsessivamente, fez da vida através das palavras.


Clicar na imagem para a ver maior…
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2. A escrita como universo interior e alquimia da sobrevivência

O autor estabelece uma fronteira intransponível entre o “universo que nos rodeia” — efímero, ruidoso e tantas vezes banal — e o “universo que habita dentro de nós”. Para Lobo Antunes, a literatura digna desse nome não se distrai com a superfície; ela mergulha no poço fundo da condição humana. Escrever é, fundamentalmente, uma ferramenta de sobrevivência que transmuta o sofrimento bruto em algo dotado de permanência.

Curiosamente, este rigor intelectual convive com uma sensibilidade emocional quase kitsch: o autor confessa ter visto o filme Joselito, o pequeno cantor, mais de cem vezes. Esta ligação ao sentimento puro, à emoção que desarmava a criança perante o ecrã, é o combustível que alimenta a sua técnica. O livro torna-se, assim, um espelho implacável e necessário.

“Um livro para mim é o que fala do que está dentro de nós. As páginas mostram-me a mim mesmo quem eu sou e ajudam-me a viver, transformando aquilo que chamam de sofrimento em algo que sempre existiu e sempre existirá. É a tentativa de dar ordem ao caos do sangue.”

3. A “Crueldade” da amizade: o monumento de Saramago
Numa reflexão que desafia as convenções sociais, Lobo Antunes esmiuça a natureza da amizade através da sua relação com José Saramago. Para ele, o afeto profundo não se manifesta na complacência, mas na exigência absoluta. “Só um amigo verdadeiro pode ser cruel”, afirma, referindo-se ao ato de ler os manuscritos um do outro e devolvê-los “fustigados” por anotações e propostas de alteração impiedosas.

Esta “crueldade” era, na verdade, a construção de uma pedra da marinha — um monumento ao trabalho que ambos respeitavam acima de tudo. O autor recorda comovido como Saramago, já sem forças no crepúsculo da vida, ainda se debruçava sobre os textos para “tentar fazer melhor”. Esta busca mútua pela perfeição literária era a forma mais elevada de respeito, uma chancela de autenticidade que apenas os pares que se reconhecem na mesma “fúria” podem partilhar.

4. Cultura e crise: o sul do sofrimento e o norte da leitura
Ao analisar as convulsões socioeconómicas, Lobo Antunes afasta-se das análises macroeconómicas para apontar uma falha civilizacional. Para ele, a resiliência de um país é diretamente proporcional ao seu capital cultural. A sua crítica é visceral e desprovida de eufemismos:

• A geografia da leitura: o autor nota que países como a Suécia ou a Noruega enfrentam crises sem o desespero de Portugal ou da Grécia porque possuem uma base cultural sólida. A diferença na taxa de leitura não é apenas um dado estatístico; é a diferença entre um povo que exige e um povo que apenas sofre.

• O estupor político: existe uma fúria dirigida aos “malandros” que provocaram a crise e aos grandes grupos económicos. Lobo Antunes aponta a obscenidade de bancos que pagam menos impostos do que uma cidadão comum, enquanto a classe média é esmagada.

• A rejeição das abstrações: o autor mantém uma desconfiança crónica em relação aos “grandes substantivos abstratos” como Pátria, Honra ou Glória. Para ele, estas palavras são frequentemente o refúgio de quem ignora a dor individual e a miséria concreta de quem vê as lojas vazias e os filhos regressar a casa dos pais por falta de pão.

5. A dignidade no limiar: o conflito com o divino
A experiência com o cancro e a passagem pelos hospitais públicos revelaram ao autor uma dignidade extrema no sofrimento anónimo. Contudo, esta proximidade com a finitude não o conduziu a uma paz espiritual, mas a uma relação profundamente conflituosa com Deus. Lobo Antunes confessa uma indignação metafísica, uma fúria contra um Criador que permite o sofrimento atroz das crianças.

Para ele, a religião institucionalizada perde-se em “blablabla”, enquanto o indivíduo enfrenta o abismo sozinho. No limiar da existência, a sua conclusão é desarmante e despojada de qualquer pretensão filosófica: por muito que se tenha vivido, “ninguém está preparado para morrer”. O medo é real, o vazio é imenso, e a única resposta é o silêncio daqueles que, na enfermaria, aguardam o fim com uma coragem que nenhum dogma consegue explicar.

6. O “Trabalho de Trolha”: a alquimia do botão encontrado
Lobo Antunes recusa liminarmente as chancelas institucionais ou os cargos de prestígio social. Ser escritor não é uma profissão; é uma missão que consome o tempo e a alma. É por isso que afirma que nunca seria Secretário de Estado da Cultura: o seu compromisso é com a folha branca, não com o poder.

Ele descreve o seu processo criativo como um “trabalho de trolha” (pedreiro). É um esforço físico e obsessivo que consiste em encontrar um “botão na rua” — um fragmento de conversa, uma luz específica, uma memória ínfima — e construir um universo inteiro em torno desse material pobre. Esta transformação do mundano em mistério é a essência da sua alquimia: um suor técnico que procura elevar o pó à categoria de imortalidade.

7. Conclusão: o homem como uma ameaça divina
A obra de António Lobo Antunes é a tentativa desesperada de que o eco não se cale. Tal como Flaubert morreu enquanto Madame Bovary continua a respirar nas estantes do mundo, o autor procura na escrita uma forma de sobrevivência ao tempo. No final, resta-nos a reflexão sobre a “memória de Deus inscrita no homem”, uma ideia que evoca a inquietante frase de Tolstoi: a de que, talvez, os seres humanos sejam apenas as “ameaças que Deus faz à vida”.

Perante a imensidão do silêncio que nos espera, fica a provocação para o leitor: se a escrita é o que nos ajuda a suportar o caos interior, o que restará de nós quando formos apenas a memória de um livro que alguém, algures, se esqueceu de fechar?

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Carnaval - Entre o riso e o sagrado


Carnaval e Festa dos Loucos

É discutido o étimo de Carnaval. Para alguns, seria carrum navale (carro naval). Nas Saturnais, em Roma, um carro em forma de navio abria caminho por entre a multidão, que usava máscaras e se divertia. Já antes, na Grécia, se realizavam as célebres procissões dionisíacas, nas quais a imagem de Dioniso era transportada em navios com rodas, simbolizando que o deus tinha chegado a Atenas pelo mar.

O étimo mais aceite é carne vale: "Viva a carne!", enquanto "adeus à carne", na medida em que, antes da entrada no período quaresmal de 40 dias com jejuns, abstinência e sacrifícios, se festeja exaltadamente. Daí que o Carnaval esteja mais ligado à tradição de países católicos e que continuem expressões como "Domingo Gordo" e "Mardi Gras" (Terça-Feira Gorda).

Quando se procura as raízes históricas do Carnaval, há quem vá até às festas em honra de Ísis e Osíris, no Egipto. Entre os gregos e os romanos, havia grandes festejos, com cantos, sexo e vinho, em honra de Dioniso e Saturno, para celebrar a entrada da Primavera. Os germanos celebravam o solstício do Inverno, homenageando os deuses e expulsando os demónios maus.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se.

O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente "normalizar" comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.

Trata-se de uma espécie de necessidade catártica, numa terapia colectiva, como se tudo se invertesse ou voltasse ao caos originário, para ser possível regressar à ordem.

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: "Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando se não abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados que o vinho da sabedoria rebentaria, se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião."

Precisamente a Festa dos Loucos leva-nos a reflectir sobre a relação entre o riso e o sagrado.

Nos Evangelhos, de Jesus diz-se que ele se admirava, comentando Tomás de Aquino que essa é a prova da sua humanidade, pois é próprio do homem espantar-se (não é o espanto o princípio da Filosofia?), e também se afirma que chorou, nunca se referindo, porém, nem o sorriso nem o riso.

Por isso, no quadro da desconfiança ascética face ao riso, que chegou a ser considerado demoníaco, generalizou-se a ideia de que nunca se riu. Mas é evidente que Jesus sorriu e riu, pois sorrir e rir são características distintivas do homem. Ai do homem incapaz de rir-se de si mesmo!

Por outro lado, só nas ditaduras é que não é permitido fazer humor nem rir dos poderes instituídos.

Há testemunhos das Festas dos Loucos desde finais do século XII e eram promovidas pelo baixo clero. Elegia-se, entre os subdiáconos, um senhor da festa, designado por "Bispo". Na transmissão simbólica do "báculo", entoavam -se os versículos do Magnificat: "Depôs os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes", apontando assim para a utopia da igualdade e a inversão da ordem vigente na realização do Reino de Deus.

Chegava-se a colocar o clérigo feito "Bispo" sobre um burro, avançando para o altar com o rosto voltado para a cauda. Durante a liturgia, em momentos fundamentais, o celebrante e os assistentes zurravam.

Neste descalabro burlesco, seria possível, ver, no limite, a urgência de não confundir o sagrado em si com as mais variadas formas idolátricas que os crentes lhe emprestam. Pode perguntar-se com Paulo A. Borges se "nesta cáustica e caótica violação e suspensão de todos os respeitos", não se tratará de estender ao sagrado e ao divino "aquele libertador iconoclasmo do espírito que se recusa a aceitar, como dignos de veneração e culto", "os mais dissimulados ídolos que acima de tudo importa reconhecer e desconstruir".

Quem pode imaginar o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Um Deus que não chega às máquinas multibanco, que "dão" dinheiro!