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sábado, 26 de setembro de 2026

Uma espécie de cartel. Donos da inteligência artificial estão a usar o medo para fechar o mercado



Estão a meio de uma das competições mais agressivas da história do desenvolvimento tecnológico, mas mesmo assim foram capazes de concordar. Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, vieram a público admitir que o avanço descontrolado da Inteligência Artificial de fronteira (IA) acarreta riscos reais e exige um abrandamento concertado no ritmo de desenvolvimento. Um alinhamento quase sem precedentes entre os três maiores rivais de Silicon Valley, mas que, para os especialistas em cibersegurança ouvidos pela CNN Portugal, esconde motivações bem mais pragmáticas e calculadas do que um súbito despertar de consciência.

"Olho para isto como uma espécie de tentativa de colocar um muro à entrada de novos players. Com esta regulação, os pequenos concorrentes não têm capacidade de capital para conseguir estar ao alcance destes grandes grupos. No fundo, é tentar fazer uma espécie de cartel", resume Vítor Hugo Silva, especialista em cibersegurança, mestre em Segurança da Informação e arquiteto de cibersegurança da Galp.

Ao contrário dos alertas dos líderes destas empresas, que apontaram para o perigo iminente de os sistemas ultrapassarem as salvaguardas humanas e exigirem travões de emergência, os especialistas descartam essa ideia quase cinematográfica de uma IA a ganhar consciência, a contornar os criadores e a ameaçar fugir ao controlo dos humanos. Longe dos cenários de ficção científica, os documentos internos e relatórios de segurança apontam para um problema bem mais antigo: uma nova ferramenta que acelera o desenvolvimento tecnológico que, ao mesmo tempo, pode ser explorada para o crime.

Quando a Anthropic publicou um relatório a avaliar se os seus modelos poderiam ajudar na criação de armas biológicas, o alarme soou de imediato. Mas, na verdade, não houve qualquer algoritmo a tentar produzir vírus de forma autónoma, nem planos terroristas explícitos, mas sim utilizadores e cientistas a explorar a capacidade computacional do modelo para recolher dados sensíveis. Tratou-se de um problema clássico das tecnologias de duplo uso, onde a mesma informação que acelera o desenvolvimento de uma vacina pode, nas mãos erradas, ser desviada para conceber ameaças biológicas.

"O que existia naquela investigação era um potencial de duplo uso: a moeda que tem duas faces, o mal e o bem. A tecnologia sempre foi assim", explica Vítor Hugo Silva, para quem a insistência no mito da "máquina rebelde" apenas desvia as atenções da verdadeira falibilidade técnica destes sistemas. "Estes modelos são modelos probabilísticos. Há sempre uma chance de fazer alguma coisa que não era suposto. Não é intencional, é mesmo probabilidade, só isso".

O perigo mais próximo, defende o especialista, não é o de um ataque autónomo de um modelo de IA, mas sim o de uma precipitação humana em transferir poder de decisão para sistemas estatísticos sem a devida validação. Ao contrário da automação tradicional, como os pilotos automáticos da aviação comercial, desenhados para responder de forma determinística e previsível a regras muito restritas, os grandes modelos de linguagem operam sob lógicas probabilísticas, gerando respostas que parecem coerentes, mas que comportam sempre uma margem inevitável de erro e alucinação.

Para os especialistas, confiar cegamente nestes sistemas para gerir infraestruturas críticas, como redes elétricas, abastecimento de água ou refinarias, pode resultar em erros demasiado graves. Mesmo quando a probabilidade é baixa. "Temos de estar preocupados, não propriamente com a tecnologia em si, mas com a forma como se tem usado a tecnologia. Tem sempre duas faces na mesma moeda, para o bem e para o mal. Não focava muito na questão do controlo, porque estamos sempre no controlo. Nós é que temos de ter os pés na terra, perceber quais são as potencialidades da ferramenta e definir grades de segurança", afirma Bernardo Forbes Costa, especialista em Inteligência Artificial e professor na Nova School of Business and Economics.

Para os especialistas, este continua mesmo a ser o principal perigo, com utilizadores com más intenções a conseguir utilizar estas ferramentas para causar danos de larga escala. É por isso que Bernardo Forbes Costa olha para a proposta de Dario Amodei, que defendeu a criação de um sistema de fiscalização e auditorias permanentes, capaz de ditar o ritmo de treino e de lançamento dos modelos mais avançados, como algo que obedece mais às regras de mercado do que a questões éticas.

"Vamos supor, num cenário catastrófico máximo, que efetivamente um grupo terrorista consegue desenvolver um vírus que gera uma crise pandémica global ao estilo da Covid, e descobre-se que foi através de um modelo da Anthropic ou da OpenAI. Isso é uma sentença de morte para uma empresa. Não é só algo perfeitamente altruísta e responsável; há sempre também uma preocupação económica em última instância", nota Bernardo Forbes Costa.

Os especialistas apontam também para um outro motivo financeiro que pode estar a levar a uma mudança na postura destas empresas tecnológicas. A fatura da corrida aos modelos de fronteira tornou-se demasiado grande face ao atual retorno comercial. De acordo com projeções financeiras públicas da OpenAI, a criadora do ChatGPT estimava prejuízos na ordem dos 5 mil milhões de dólares para 2024, apesar de receitas de cerca de 3,7 mil milhões, absorvendo faturas de computação que crescem a ritmos difíceis de sustentar. No mesmo sentido, gigantes do capital de risco como a Sequoia Capital chegaram a alertar para um "buraco de 600 mil milhões de dólares" entre aquilo que a indústria gasta em infraestrutura, com centros de dados, eletricidade e processadores gráficos da Nvidia, e as receitas reais que o ecossistema de inteligência artificial consegue gerar no mercado.

"Há aqui uma questão económica que não se consegue ignorar: até que ponto os incrementos dos modelos em termos de eficiência já não são lineares àquilo que é o investimento? Para tornar o modelo duas vezes melhor, eu tenho de gastar quatro vezes mais, por exemplo. Estamos a chegar a um plateau, a um achatamento da curva em termos de eficiência. Os limites da física começam a pregar partidas pelo tamanho dos transístores", explica Vítor Hugo Silva.

Em vez de criar legislação que trave o progresso tecnológico e que sirva apenas para salvar as contas das principais empresas do setor, a resposta para garantir uma maior segurança destes modelos pode passar por uma abordagem segmentada. Para Bernardo Forbes Costa, a regulação deve focar-se na forma como a tecnologia chega ao público, com uma arquitetura segmentada em níveis de acesso. Nesta solução, as empresas ofereceriam modelos de linguagem "mais libertos de resguardas de segurança para a investigação, para governos, para instâncias militares e outros modelos menos capazes para o uso civil". Ao mesmo tempo isso poderia permitir que "novos modelos continuem a ser desenvolvidos", mas que não sejam necessariamente lançados ao público. "Uma coisa é o desenvolvimento do modelo, outra coisa é a sua comercialização", defende.

Os especialistas alertam também para o facto de os países ocidentais correrem o risco de ficar para trás face à concorrência tecnológica de países com menos restrições éticas. Particularmente por parte do maior rival geopolítico norte-americano, a China, que tem focado os seus esforços em copiar e aperfeiçoar modelos de baixo custo.

O próprio relatório da Anthropic apontou o dedo a laboratórios chineses que tentaram replicar as capacidades dos modelos Claude através desse método, evitando gastar milhares de milhões de dólares e os anos de investigação que sustentaram o seu desenvolvimento. Vários laboratórios em Pequim e Hangzhou, como a DeepSeek ou a Alibaba com a Qwen, conseguiram colocar modelos de código aberto no topo dos benchmarks mundiais recorrendo a modelos ocidentais como "professores" para treinar arquiteturas muito mais compactas e baratas.

"O que a China tende a fazer no fundo é o que se chama destilação de modelos. Agarram num modelo de topo e tentam, de certa forma, copiá-lo. A única coisa de que preciso e o meu constrangimento passa a ser a necessidade de ter uma boa máquina", alerta Bernardo Forbes Costa.

Quase fora desta corrida está a Europa. Segundo os dados do relatório AI Index 2026, da Universidade de Stanford, em 2025, dos modelos de IA notáveis produzidos no mundo, 59 tiveram origem nos Estados Unidos e 35 na China. Em toda a Europa, somaram-se apenas dois. O fosso repete-se na capacidade instalada e na propriedade intelectual, com 5.427 centros de dados nos Estados Unidos, dez vezes o registado em qualquer outro país. O fosso de infraestrutura é ainda mais gritante: o continente europeu não tem um único grande fornecedor de computação em nuvem e depende quase a 100% de semicondutores e servidores norte-americanos.

"Estamos em maus lençóis a esse nível, porque tudo o que é inteligência artificial de ponta, na vanguarda, é tudo americano e chinês. Não temos quase nada na Europa", adverte o professor da Nova SBE

Saber mais:
1. Sequoia Capital. (2024). AI's $600B Question. Sequoia Capital Research

sábado, 1 de agosto de 2026

Abrandar ritmo e CEO de IA? Líder da OpenAI mudou opiniões

Numa recente participação num podcast, Sam Altman, o cofundador e CEO da OpenAI, mostra que - em menos de um ano - mudou de opinião em relação a dois assuntos que dizem respeito ao desenvolvimento de Inteligência Artificial.

CEO da OpenAI, Sam Altman, marcou presença no mais recente episódio podcast Invest Like the Best e afirmou que estava na altura de abrandar o desenvolvimento de Inteligência Artificial. As declarações contrastam com aquela que tem sido a posição defendida até aqui pelo líder da empresa responsável pelo ChatGPT.

“Talvez tenhamos de abrandar o ritmo de desenvolvimento de Inteligência Artificial para termos tempo suficiente, enquanto sociedade, para nos adaptarmos a alguns destes novos níveis de capacidade”, afirmou Altman, notando que ainda não sabe ao certo como este abrandamento poderia ser atingido.

A posição é um pouco diferente daquela que Altman defendeu há poucos meses, nomeadamente durante a sua participação na conferência US Infrastructure Summit da BlackRock, que teve lugar em março deste ano.

Nesta conferência, Altman falou sobre o facto de a Inteligência Artificial não ser uma tecnologia muito popular nos EUA, afirmando que está a ser culpada por praticamente todos os problemas - incluindo os despedimentos que têm sido feitos nos últimos meses em empresas tecnológicas.

No entanto, o CEO da OpenAI considerou que era importante seguir em frente no que diz respeito ao desenvolvimento de Inteligência Artificial, apontando que um abrandamento do ritmo poderia significar que os EUA ficariam para trás no que diz respeito à inovação.

“Se não avançarmos tão rapidamente como outros países na adoção [e Inteligência Artificial], penso que perderemos a vantagem que temos por sermos a potência económica que somos”, notou Altman na conferência. “E isso depende da rapidez com que as empresas a adotam. Depende da rapidez com que os nossos cientistas a adotam, da rapidez com que o nosso governo a adota”.

O CEO da OpenAI declarou ainda que “esta é uma oportunidade única em muitas gerações para realmente melhorar a economia” e de “reescrever algumas das regras da sociedade que não estão a funcionar à luz desta nova e incrível fonte de riqueza”.

IA a liderar empresas? Sam Altman volta a contradizer-se
No mesmo episódio deste podcast, Altman voltou a mostrar que mudou de mudança de posição em outro assunto relacionado com Inteligência Artificial. O patrão da OpenAI afirmou em novembro que queria que a empresa fosse a primeira a ser liderada por uma Inteligência Artificial.

Mais ainda, conta o site The Next Web que Altman chegou a afirmar que seria uma vergonha se a OpenAI não fosse a primeira empresa a ter uma Inteligência Artificial como CEO.

“Seria uma vergonha para mim se a OpenAI não fosse a primeira grande empresa a ser liderada por um CEO de Inteligência Artificial”, afirmou Altman em conversa no podcast Conversations with Tyler, em novembro de 2025.

Agora, no podcast Invest Like the Best, Altman reconheceu que, afinal, ninguém quer ser liderado por uma Inteligência Artificial.

“Penso que, no meu caso, por exemplo, o mundo quer saber quem será responsável pelas decisões da empresa, quem será responsabilizado no caso de as decisões serem más e ninguém quer uma IA como CEO”, notou o líder da OpenAI.

Ler mais:
Dois modelos de inteligência artificial (IA) da OpenAI que escaparam autonomamente do ambiente controlado em que eram testados para atacar o site Hugging Face também se infiltraram noutras plataformas, revelou a empresa.

O cofundador e CEO da OpenAI, Sam Altman, foi um dos mais recentes convidados do podcast “Relentless” e admitiu que ficou viciado no TikTok. O que começou com apenas 10 minutos de utilização antes de dormir, acabou por se transformar em várias horas de utilização contínua.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Por que razão Taiwan é o coração da IA mundial e o ponto mais crítico da geopolítica global?


Quando se fala na revolução da Inteligência Artificial (IA), a atenção recai habitualmente sobre os grandes algoritmos desenvolvidos em Silicon Valley, os supercomputadores de Elon Musk ou os apoios estatais em Pequim. Contudo, toda a arquitetura da economia digital moderna assenta fisicamente sobre uma ilha no Pacífico com cerca de 36 mil quilómetros quadrados: Taiwan.

A relevância de Taiwan ultrapassou a esfera do comércio tradicional para se converter no centro de gravidade da segurança nacional global, da transição energética e do futuro da computação.

O Monopólio da TSMC e o "Escudo de Silício"
A Nvidia desenha os processadores gráficos (GPUs) mais potentes do mundo e empresas como a xAI, a Meta e a OpenAI desenvolvem os modelos de IA, mas nenhuma destas entidades fabrica os seus próprios chips.

A produção física de mais de 90% dos semicondutores de ponta do planeta está concentrada numa única empresa taiwanesa: a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company).

Fundada em 1987 por Morris Chang, a TSMC popularizou o modelo de "fundição pura" (pure-play foundry), optando por fabricar os componentes concebidos por terceiros sem competir com eles no design. Esta especialização permitiu à empresa dominar as técnicas de litografia mais avançadas do mundo (nodos de 3nm e 2nm). Sem a precisão atómica das fábricas (fabs) em Hsinchu e Tainan, a produção de novos servidores de IA, processadores para smartphones e sistemas de navegação avançados pararia quase instantaneamente a nível global.

Esta concentração extrema deu origem ao conceito de "Escudo de Silício" (Silicon Shield): a teoria de que a dependência vital do Ocidente e da China em relação aos chips taiwaneses impede uma intervenção militar direta, uma vez que a destruição ou paralisação das infraestruturas da TSMC desencadearia um colapso económico global imediato.

O ponto de falha único na Guerra Fria Tecnológica
A posição geográfica e industrial de Taiwan transformou a ilha no principal ponto de fricção entre as duas maiores potências do mundo:
  1. A perspectiva dos EUA: em Washington, a dependência excessiva em relação à TSMC é encarada como o maior risco estratégico de segurança nacional. As administrações americanas têm pressionado a TSMC a diversificar a produção - construindo fábricas no Arizona e na Europa - enquanto impõem controlos de exportação para impedir que semicondutores avançados produzidos em Taiwan cheguem à China.
  2. A perspectiva da China: Pequim considera Taiwan uma província rebelde e defende a "reunificação" como prioridade nacional. Contudo, as sanções americanas que proíbem a venda de chips da Nvidia fabricados em Taiwan para o mercado chinês aceleraram a corrida de Pequim pela autossuficiência tecnológica, levando laboratórios chineses a apostar fortemente em modelos de IA de código aberto (open weights) para otimizar o hardware de que dispõem localmente.
O Impacto na economia real e na sustentabilidade
A relevância de Taiwan não se esgota no setor da defesa ou da tecnologia pura. Estudos de mercado sobre a transição sustentável - como as análises da Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a Temasek - indicam que centenas de milhares de milhões de euros em ganhos de produtividade futura virão da aplicação de IA em redes elétricas inteligentes, manutenção preditiva e otimização industrial.

Toda esta transformação na economia real depende do fornecimento contínuo de novos chips. Caso a cadeia de abastecimento em Taiwan seja interrompida por um bloqueio naval ou conflito armado, os custos para a economia mundial seriam contados em biliões de dólares, afetando desde a produção automóvel à gestão energética global.

Referências Bibliográficas e Análises de Referência
Para aprofundar a análise sobre a centralidade de Taiwan no ecossistema global de semicondutores e geopolítica, destacam-se as seguintes obras e relatórios essenciais:

A obra de referência sobre a história da indústria dos semicondutores, detalhando como a TSMC e Taiwan se tornaram o ponto mais crítico da economia moderna.

2. Center for Strategic and International Studies (2024). Geopolitics and the Semiconductor Supply Chain. CSIS.
Análises estratégicas sobre o impacto de uma potencial crise no Estreito de Taiwan e a vulnerabilidade da infraestrutura tecnológica ocidental.

3. Boston Consulting Group & Semiconductor Industry Association (2021).Strengthening the Global Semiconductor Supply Chain in an Uncertain Era. BCG / SIA.
Estudo detalhado que mapeia os pontos de falha único (single points of failure) na cadeia de valor dos chips, com destaque para o monopólio de Taiwan na litografia de ponta.

4. TrendForce (2024). Global Semiconductor Foundry Market Share Analysis. TrendForce.
Relatórios de mercado que acompanham a quota de fabricação de semicondutores, demonstrando a liderança superior a 90% da TSMC no segmento de nós avançados para IA.