Mostrar mensagens com a etiqueta Controlo Social. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Controlo Social. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de agosto de 2026

Minute Taker - Losing Self-Control

Letra
[Verse 1]
‎You fall in line
‎And you feel nothing much
‎Buried alive
‎For fear of what you’ll become
‎It makes you wanna die
‎When the highs turn to lows
‎But you learned to survive
‎The devils that you’ve known
‎By using self-control
‎[Chorus] 2X
‎But I feel it now
‎I’m not afraid to go there tonight
‎When we’re alone
‎All I know is
‎I’m losing self-control
‎[Verse 2]
‎I fall out of line
‎Tonight I’m a mess
‎Out of my mind
‎Into your bed
‎I’m coming back to life
‎All the highs and the lows
‎It's all worthwhile
‎With you
‎I’m exposеd
‎I’m losing self-control
‎[Chorus] 2X
‎[Bridge] 3X
‎Self-control
‎Self-control
‎Self-control
‎All I know is I’m losing self-control...
‎[Outro]
Self-control
‎Self-control
‎Self-control
‎All I know is I’m losing my grip

A noite, a tela e o vazio: o universo sombrio e filosófico de Minute Taker em Losing Self-Control
Minute Taker é o nome artístico do músico, compositor e produtor britânico Ben Higgins, originário de Manchester, Inglaterra. A sua sonoridade insere-se num universo marcado pelo synth-pop, electro-pop e dark wave, caracterizando-se pela fusão de sintetizadores nostálgicos inspirados na década de 1980, arranjos de piano melancólicos e vocais expressivos de grande densidade emocional.
Na sua versão de Losing Self-Control (tema originalmente popularizado por Laura Branigan sob o título Self Control), o artista reinterpreta a composição através de uma estética sombria e retro-futurista. O significado da canção e do seu videoclipe gravita em torno do isolamento moderno, da perda de identidade e do fascínio doentio pela cultura do espetáculo e pelas telas digitais, retratando um indivíduo consumido pelos seus próprios desejos, obsessões e pela alteração da perceção da realidade durante as horas noturnas.
Sob o ponto de vista das inspirações literárias e filosóficas, a obra dialoga diretamente com as correntes do distopismo do século XX e com o existencialismo. A estética visual de vigilância, o alheamento do mundo real e a alienação tecnológica ecoam as críticas sociais presentes em obras como 1984 de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. 

O paralelismo com George Orwell manifesta-se em três aspetos fundamentais, particularmente visíveis na dinâmica do relacionamento entre Winston e Julia em 1984. Em primeiro lugar, o beijo surge como um verdadeiro ato de rebeldia: num mundo frio, alienante e absoluto no seu controlo, a intimidade física e o desejo transformam-se na forma mais pura de insurreição. O beijo não nasce de uma harmonia perfeita, mas antes de um impulso desesperado de resgatar a humanidade contra um sistema - ou um estado mental - que tudo sufoca.

Paralelamente, desenha-se uma união fundada no desespero e não no entendimento. Winston e Julia procuravam-se e amavam-se, mas o mundo ao seu redor encontrava-se tão fraturado que a relação estava irremediavelmente marcada pela tragédia iminente. Não precisavam de uma compreensão intelectual perfeita um do outro, pois o simples toque físico figurava como o único refúgio possível contra o vazio e a vigilância constante.

Por fim, a perda de controlo afirma-se como uma libertação temporária, onde ceder à atração representa a única forma de quebrar a rigidez da rotina e da alienação. Tal como os protagonistas de Orwell, as figuras do vídeo encontram no contacto físico uma breve trégua - um instante em que a mente finalmente cede e o corpo assume o comando.

No plano filosófico, o conceito de simulacros e simulação de Jean Baudrillard torna-se evidente no vídeo, onde as imagens e as projeções virtuais substituem a própria experiência humana autêntica. Por outro lado, a perspetiva existencialista de Søren Kierkegaard reflete-se na própria ideia da perda de autocontrolo, que surge como o confronto do indivíduo com o vazio existencial - uma tentativa desesperada, contudo ilusória, de escapar à angústia e à monotonia da rotina diária através da entrega aos impulsos da noite.

Página Oficial

terça-feira, 7 de julho de 2026

A rutura espinosana com o teísmo judaico-cristão e a defesa da liberdade de consciência


O texto aborda a profunda rutura filosófica de Baruch de Espinosa com o teísmo judaico-cristão tradicional, contrastando a sua visão com a de Blaise Pascal. Enquanto Pascal defendia o Deus da fé, da revelação e das Escrituras - o "Deus de Abraão, Isaac e Jacob"-, Espinosa propôs uma desconstrução radical desse modelo antropomórfico (que atribui características humanas a Deus).

Segundo Espinosa, a superstição e o medo são utilizados pelas religiões tradicionais para instituir uma "interdição do pensar", transformando a fé em obediência cega e servindo como ferramenta de controlo político e social. Em contrapartida, o filósofo introduz o conceito de Deus sive Natura ("Deus ou a Natureza"), defendendo que Deus não é um monarca transcendente que julga ou faz milagres, mas sim a própria substância única, infinita e imanente do universo, que opera segundo leis racionais e necessárias.

O ensaio sublinha que, ao destronar o Deus punitivo e providencial, Espinosa liberta a razão humana das amarras do medo, transformando o conhecimento e o "amor intelectual a Deus" na verdadeira via para a liberdade. Adicionalmente, o seu pensamento surge como uma defesa pioneira e intransigente do Estado laico, da democracia e da liberdade de consciência e de expressão.

Podes ler o ensaio completo na sua plataforma de publicação original através da seguinte ligação:

sábado, 13 de junho de 2026

Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia

Já tinha lido algumas obras de Byung-Chul Han aqui e aqui
A sua vida invulgar sempre despertou a minha curiosidade.
Para terem uma ideia, Han é um antigo metalúrgico que resolveu deixar a Coreia do Sul para estudar filosofia na Alemanha sem entender uma única palavra de alemão. Como não bastasse, debruçou-se sobre Heidegger e, pouco tempo depois, tornou-se uma espécie de celebridade.
A sua enorme popularidade não se deve à sua vocação para se expor; pelo contrário, Han vive afastado da turbulência gerada pelas redes sociais. Ainda assim, é popular. Creio que isso se deve ao facto de Han tratar-se, sobretudo, de um filósofo extremamente intuitivo e perspicaz. Os seus argumentos não se constroem em torno de uma linguagem técnico-filosófica fechada nos seus termos e conceitos, destinada apenas aos seus pares, mas antes a aforismos que deixam transparecer, com suavidade e leveza, a beleza do seu pensamento. Este pequeno ensaio é prova do seu brilhantismo.

Nesta obra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han faz um diagnóstico cirúrgico - e bastante sombrio - de como a internet, as redes sociais e os algoritmos mudaram a estrutura do poder.

Se no passado o capitalismo dominava os corpos e as indústrias, hoje o poder é exercido através do controle e da manipulação dos fluxos de dados. O livro defende que não vivemos mais numa democracia tradicional, mas sim em uma infocracia.

Os pilares centrais do livro
1. O regime de informação e a falsa liberdade
Han explica que saímos do modelo disciplinar (onde o poder reprimia as pessoas e era visto como um "vigia" violento) e entramos no regime de informação.
A grande armadilha da infocracia é que ela não opera pela proibição, mas pela sedução: nós nos sentimos livres e consumimos/produzimos dados voluntariamente o tempo todo. Essa sensação de liberdade é o que garante a eficácia da dominação. O poder agora é psicopolítico: ele entra na mente do indivíduo e prevê seus comportamentos sem que ele perceba.

2. A destruição da esfera pública e do discurso racional
Para que a democracia funcione, é preciso haver debate, escuta e um discurso racional (a ideia da esfera pública de Habermas). Han argumenta que a digitalização destruiu isso:
  • As redes sociais funcionam no modelo de "bolhas de filtro", onde os algoritmos nos mostram apenas o que já concordamos.
  • O debate deu lugar à polarização e à criação de "tribos digitais" que não dialogam entre si, apenas atacam.
  • A comunicação atual é rápida, fragmentada e guiada pelo like, o que impede a reflexão profunda e o amadurecimento das ideias políticas.
3. Da democracia à Pós-Democracia digital (Dataísmo)
O autor alerta para o perigo do "Dataísmo" — a crença cega de que os dados e a Inteligência Artificial podem resolver todos os problemas humanos. Na infocracia, a política perde a ideologia e a visão de futuro, transformando-se em uma mera gestão de sistemas baseada em Big Data. Os políticos correm o risco de serem substituídos por especialistas e cientistas de computação, esvaziando o verdadeiro sentido da ação política.

4. A crise da verdade e o novo niilismo
O último grande ponto do livro é o descolamento da informação em relação à realidade. Na era das fake news, dos exércitos de trolls e da desinformação em massa, a verdade factual perde a importância. O que importa é o impacto emocional e a velocidade com que a informação circula. Isso gera um niilismo contemporâneo: as pessoas perdem a crença na existência de uma verdade comum, fragmentando a base de confiança que sustenta a sociedade.

O grande aviso de Han: a informação, que teoricamente deveria nos libertar e nos manter informados, tornou-se a ferramenta mais sofisticada de vigilância, controle e deformação do processo democrático.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Arnaud Rebotini - YOUTH! Take A Stand


Por restrições de idade o vídeo pode ser visto aqui


Melhor som aqui

Youth!
Take a stand
Youth!
Take a stand

It's time to rise up against your enemies
Murder and lies on TV
Time is running out for your future

Youth!
Take a stand
It's time to break down your walls

Youth!
Take a stand
Because the world is choked control
Manipulation of the canvas
It's time for you to refuse

Youth!
Take a stand
It's time to break down your walls

Youth!
Take a stand

Everything has to be erased and re-branded
Murder and lies on TV
We have to refuse
We have to fight for a new world
A new conception
High education
No more resignation
We have to refuse
Resist
Fight

We have to refuse
We have to fight for a new world
A new conception
High education
No more resignation
We have to refuse
Resist
Fight

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Laibach - Musick (feat. Wiyaala)


Musick
(feat. Wiyaala)

(Intro: Wiyaala)
Aha, yeah!
We’re gonna play some musick!

(Verso 1: Wiyaala)
You wake up and it’s there
In the water, in the air
Streaming through your very veins
Dulling all your daily pains
It’s a virus, it’s a cure
It’s the only thing that’s pure
From the cradle to the grave
Everyone is just a slave

(Refrão: Wiyaala & Milan Fras)
Musick!
It’s the rhythm of the heart
Musick!
Tearing everything apart
Musick!
The obsession, the disease
Musick!
Get down on your knees!

(Verso 2: Milan Fras)
Logic is a failing sound
Silence nowhere to be found
Synthesized and digitized
The human soul is advertised
Feed the rhythm, feed the greed
Everything is what you need
The algorithm knows your name
In the hall of sonic shame

(Ponte: Wiyaala)
(Canto em Sissala/Waala)
We dance to the beat of the machine
The loudest sound you’ve ever seen
Can you feel it?
Can you hear it?
It’s taking over your spirit!

(Outro)
Musick...
Musick...
The beat goes on and on and on...
Aha!

A canção "Musick", uma colaboração entre o coletivo esloveno Laibach e a artista ganesa Wiyaala, apresenta-se como uma fusão audaciosa de Eurodance, Industrial e Afropop. Lançada num contexto de exploração da cultura pop globalizada, a faixa marca uma viragem sonora para o grupo, que adota uma estética eletrónica mais vibrante e rítmica, embora mantenha a sua assinatura ideológica sombria e provocadora. Musicalmente, o tema assenta em batidas mecânicas e sintetizadores acelerados, típicos das pistas de dança europeias, que contrastam de forma fascinante com a energia orgânica, os ritmos tribais e o alcance vocal potente de Wiyaala.

No que toca ao significado, a obra funciona como uma crítica mordaz à omnipresença da música na era digital e ao domínio dos algoritmos. O Laibach utiliza a letra para descrever a música não como uma forma de arte sublime, mas como uma patologia, um vício ou um vírus que infeta a sociedade contemporânea. Não temos mais silêncio; a música nos persegue no supermercado, nos fones de ouvido e nas redes sociais. Através do contraste entre a voz profunda e autoritária de Milan Fras e o entusiasmo visceral de Wiyaala, a canção sugere que o ser humano se tornou um "escravo do ritmo", onde a música é utilizada pela indústria para preencher o silêncio e comercializar a alma humana. Em suma, acanção aponta que a música se tornou um produto de consumo rápido ("The human soul is advertised"), perdendo seu caráter sagrado para se tornar uma "doença" da qual não queremos ser curados.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Governo paga 20 mil euros para ter SportTV em São Bento - uma atitude sem noção e insensível, típico de narcisistas


Ser confrontado com a notícia de que o Governo de Luís Montenegro decidiu gastar cerca de 20 mil euros para instalar o canal Sport TV na residência oficial do Primeiro Ministro e no Parlamento nesta altura do país é, no mínimo, um sinal de desfasamento profundo entre o que este executivo escolhe como prioridade e aquilo que os cidadãos realmente vivem.
Este contrato de três anos, celebrado por ajuste direto com a NOS, garante acesso ‘premium’ a canais desportivos que transmitem futebol, incluindo a liga portuguesa e competições europeias, e será pago com dinheiro público até 2028 — um montante que se justifica facilmente, mas que politicamente soa a falta de empatia e sentido de realidade face ao sofrimento de quem perdeu casa, energia ou meios de subsistência na sequência das tempestades. 
Não é a questão do valor — 20 mil euros não vão desestabilizar um Orçamento do Estado — é a hierarquia de prioridades que está em causa 
Quando o Governo admite défices para cobrir os apoios às vítimas das calamidades, quando milhares aguardam apoios urgentes e quando a própria resposta estatal foi lenta e insuficiente em muitas regiões, optar por gastar dinheiro dos contribuintes em canais desportivos para o Primeiro Ministro e para o Parlamento é uma demonstração flagrante de falta de noção sobre as expectativas e necessidades do país Esta decisão transmite uma mensagem implícita de desconexão social: enquanto cidadãos lutam com as consequências de uma catástrofe natural, o executivo parece mais preocupado com entretenimento institucional do que com a eficácia da resposta à crise. 
 A incapacidade de priorizar o essencial reflete, sobretudo, uma falta de empatia que não combina com responsabilidade governativa séria. 

sábado, 24 de janeiro de 2026

JP Simões & Norberto Lobo - Canção da Paciência


O último disco em que José Afonso participou activa e integralmente. Passou despercebido a muita gente (que, provavelmente, achou terem sido suficientes as lágrimas vertidas por altura do espectáculo do Coliseu) e, no entanto, é um testemunho espantoso de vitalidade e lucidez criativa. Gravado entre Novembro de 82 e Abril de 83, com arranjos repartidos por Júlio Pereira, José Mário Branco e Fausto (concebidos, em boa parte dos casos, a partir de ideias de Zeca, como, de resto, aconteceu com a grande maioria das suas composições), constitui um verdadeiro olhar em volta, amadurecido e calmo, só possível por parte de quem viveu a vida com muita intensidade, com muita paixão. Uma autêntica viagem entre a utopia e o desencanto, é o que nos oferece Zeca Afonso neste álbum magnífico, onde é possível descobrir todas as memórias cruzadas dos tempos vividos, os desejos insatisfeitos, os sonhos. Onde pode descobrir-se, por exemplo, um dos mais belos poemas sobre o 25 de Abril («Papuça»), uma reflexão serena e quase existencial sobre o que se fez e o que ficou por fazer («Canção da Paciência»), uma certa angústia que não renega, antes reforça, tudo aquilo por que se passou («Eu Dizia»). E, também, a crítica acutilante («O País Vai de Carrinho»), o prazer dos sons e das novas experiências («O Canarinho»), a esperança que não morre («Utopia»). Um disco ao nível dos melhores, capaz de sobreviver aos tempos e às fronteiras.

Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia, rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio, a mendigar

Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida, para andar
Beba o fel amargo, até morrer
Já não tenho pena sei esperar

A cobiça é fraca, melhor dizer
A vida não presta, para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As águas do rio, são de correr
Cada vez mais perto, sem parar
Sou como o morcego, vejo sem ver
Sou como o sossego, sei esperar

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Paz ecológica e paz interior


Em cada 1º dia de Janeiro, crio uma lista de objectivos e medito sobre este dia, Dia Mundial da Paz. Preencho o dia escutando música. A música, independentemente do estilo, oferece uma playlist de aprendizado e reflexão. Cada canção ajuda-nos a perceber diferentes dimensões da paz: a empatia, a atenção ao mundo, a consciência da memória ecológica, a capacidade de escutar e respeitar o espaço do outro, e a necessidade de transformação pessoal e colectiva. Aqui segue o texto e a minha sugestão de playlist.

Paz ecológica e paz interior
Quando pensamos em paz, muitas vezes imaginamos apenas a ausência de guerra. Mas a paz é também a capacidade de habitar o mundo sem o ferir e de habitar-nos sem ruído excessivo. Em tempos de crises ecológicas e sociais, aprender a escutar tornou-se uma prática ética, quase revolucionária.

O pós-punk, nascido da fratura e da inquietação urbana, pode parecer sombrio à primeira audição. Mas é precisamente aí que mora a sua lição: recusar o excesso, escutar o vazio e sentir a tensão antes que ela se torne destruição. Entre riffs secos e atmosferas introspectivas, encontramos ensinamentos sobre respeito ao mundo e a nós mesmos.

A música pode refletir a terra ferida e a memória do que perdemos. Canções como “Cities in Dust” dos Siouxsie and the Banshees lembram-nos que civilizações desaparecem, mas deixam vestígios que não podemos ignorar. “Requiem” do Killing Joke é um grito diante do colapso ambiental e social, enquanto “A Forest” do The Cure transforma a natureza em labirinto, mostrando-nos que quando nos perdemos, percebemos a importância da atenção e do cuidado. A paz ecológica é, assim, reconhecer os limites antes que seja tarde demais.

O silêncio e o espaço são fundamentais tanto na música quanto na natureza. Álbuns como “Spirit of Eden” do Talk Talk respiram, respeitam o tempo e o espaço entre as notas — como um ecossistema saudável. Canções como “The Colour of Spring” de Mark Hollis mostram a fragilidade e a atenção às nuances, lembrando-nos da interdependência do mundo natural. E “An Ending (Ascent)” de Brian Eno cria uma paisagem sonora que coexiste sem dominar, ensinando que escutar é, de fato, um ato ecológico.

A paz do mundo começa na paz do indivíduo. Joy Division, em “Atmosphere”, convida-nos a caminhar com cuidado entre os outros, reconhecendo limites e espaço alheio. “Silent Air” do The Sound faz do ar uma metáfora de equilíbrio interior: invisível, mas essencial. E “Faith” do The Cure mostra que aceitar a fragilidade é uma forma de resistência, uma paz construída dentro de nós mesmos.

Mesmo na melancolia do pós-punk, há sinais de reconciliação e esperança. “I Believe in You” do Talk Talk funciona como uma oração laica, celebrando a vida e a esperança. “Second Skin” dos Chameleons lembra-nos da necessidade de transformação e adaptação, como a própria natureza nos ensina.

Em última análise, a paz, seja ecológica ou interior, não se proclama: pratica-se. Nas nossas escolhas, na forma como caminhamos pelo mundo, como consumimos e até como ouvimos música, reside o poder de transformação. O pós-punk, com a sua intensidade e sensibilidade, ensina que menos ruído é mais sentido, e que talvez a revolução mais urgente seja voltar a ouvir o mundo antes que ele se cale.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Microsoft storing Israeli intelligence trove used to attack Palestinians

Microsoft Israel’s R&D Center, Herzliya

The Israeli army’s elite cyber warfare unit is using Microsoft’s cloud servers to store masses of intelligence on Palestinians in the West Bank and Gaza — information that has been used to plan deadly airstrikes and shape military operations, an investigation by +972 Magazine, Local Call, and the Guardian can reveal.

Unit 8200, roughly equivalent in function to the U.S. National Security Agency (NSA), has transferred audio files of millions of calls by Palestinians in the occupied territories onto Microsoft’s cloud computing platform, Azure, operationalizing what is likely one of the world’s largest and most intrusive collections of surveillance data over a single population group. This is according to interviews with 11 Microsoft and Israeli intelligence sources in addition to a cache of leaked internal Microsoft documents obtained by the Guardian.

In a meeting at Microsoft’s headquarters in Seattle in late 2021, the then-head of Unit 8200, Yossi Sariel, won the support of the tech giant’s CEO, Satya Nadella, to develop a customized and segregated area within Azure that has facilitated the army’s mass surveillance project. According to the sources, Sariel approached Microsoft because the scope of Israel’s intelligence on millions of Palestinians in the West Bank and Gaza is so vast that it cannot be stored on military servers alone.

Microsoft’s immense storage and computing power capabilities enabled what multiple Israeli sources described as the project’s ambitious goal: to store “a million calls an hour.”

Following the 2021 meeting, a dedicated team of Microsoft engineers began working directly with Unit 8200 to build a model that would allow the intelligence unit to use the American company’s cloud services from within its own bases. According to one intelligence source, some of these Microsoft employees were themselves alumni of Unit 8200, which made the collaboration “much easier.”

According to the Guardian’s reporting, the leaked documents suggest that 11,500 terabytes of Israeli military data — equivalent to roughly 200 million hours of audio — were being stored on Microsoft’s servers in the Netherlands by July of this year, while smaller portions were being stored in Ireland and Israel. It is not possible to tell how much of this data belongs specifically to Unit 8200; as a previous investigation by +972, Local Call, and the Guardian revealed earlier this year, dozens of Israeli army units have purchased cloud computing services from Microsoft, and the company has a footprint in all major military infrastructures in Israel.

The leaked documents further reveal that before the current Gaza war, Microsoft’s leadership viewed the cultivation of the company’s relationship with Unit 8200 as a lucrative business opportunity and characterized it internally as “an incredibly powerful brand moment” for Azure. Nadella himself, during his 2021 meeting with Sariel, defined the partnership as “critical” for Microsoft, and committed to providing the resources to support it.

Microsoft has said publicly that it found “no evidence” that its technology was used to harm Palestinians in Gaza, and a spokesperson told us in response to this investigation that the company was unaware that its products had been used to aid the surveillance of civilians. But three Israeli intelligence sources stated that Unit 8200’s cloud-based intelligence trove has been used over the past two years to plan lethal airstrikes in Gaza, and that it often serves as a basis for arrests and other military operations in the West Bank.

Tracking everyone, all the time’
Sariel’s interest in upgrading Israel’s mass surveillance infrastructure dates back to 2015, when he was an intelligence officer in Israel’s Central Command. That year witnessed a wave of “lone-wolf” stabbing attacks in the West Bank, Jerusalem, and inside the Green Line — many of them carried out by Palestinian teenagers previously unknown to the security services, making the attacks particularly difficult to thwart.

“We found ourselves going … from funeral to funeral,” Sariel recalled in a book he published about artificial intelligence in 2021, the year he took over as head of Unit 8200 (he resigned last year).

“[A Palestinian] decides to perpetrate an attack using a kitchen knife to stab a victim, or the family vehicle to run people over,” he wrote. “Sometimes the person doesn’t even know a day before that he or she is going to commit such an attack. In these cases, traditional intelligence agencies are helpless. How can such an attack be predicted or prevented?”

Sariel’s solution, according to an intelligence officer who served under him at the time, was to start “tracking everyone, all the time.”

Over the next few years, he led a large-scale, well-funded project that dramatically expanded Israel’s surveillance of Palestinians and integrated multiple intelligence databases. “Suddenly, the public became our enemy,” another source who served in the unit under Sariel said.

In his book, Sariel wrote about the need for intelligence agencies to “migrate to the cloud” to deal with the problem of how to store increasingly vast amounts of data. +972 and Local Call previously revealed that the Israeli army has also used Amazon’s cloud computing platform, AWS, to store internal military data.

Sariel saw the collaboration with Microsoft as a breakthrough specifically because it would enable the mass storage of audio files. Multiple sources used the word “infinite” to describe the project’s scale.

Beforehand, Unit 8200 could store the calls of tens of thousands of Palestinians defined as “suspects” on its internal servers. The unit also developed a system called “noisy message,” which collects Palestinians’ text messages and assigns each of them a rating indicating their level of “danger.” But with the help of Azure, Unit 8200 was able to begin storing the calls of millions of Palestinians, vastly expanding its pool of data.

A senior source in Unit 8200 explained that Sariel viewed his relationship with Nadella, the Microsoft CEO, as a tool to advance “revolutions” in mass surveillance of Palestinians. “Yossi bragged a lot, even to me, about his connection with Satya,” the source said. (In response to this investigation, a Microsoft spokesperson stated that Nadella was only present in the 2021 meeting for 10 minutes, and that their only further contact was a condolence card Sariel sent after the death of Nadella’s son.)

Not everyone in the unit looked favorably on this partnership. One source familiar with the project said it was significantly more expensive to transfer data to Microsoft’s servers than it would have been to purchase servers and processors independently. Others in the unit felt uncomfortable about storing sensitive information overseas. But Sariel insisted, making clear his excitement for the project’s potential.

“For Yossi, ‘cloud’ and ‘Microsoft’ are buzzwords,” one intelligence source said. “He sold it internally and that’s how he got a huge budget. He said it was the solution to our problem in the Palestinian arena, and that this was the future.”

‘This isn’t leaving Azure anytime soon’
By early 2022, engineers from Microsoft and Unit 8200 were working quickly and closely to design a special model within the cloud that would be carefully tailored to the unit’s needs. “The rhythm of interaction with [8200] is daily, top down and bottom up,” one internal document noted.

As part of its effort to migrate vast amounts of its surveillance data to the cloud, the leaked documents reveal, Unit 8200 was prepared to “push the envelope” on the types of data it was willing to store on Azure. A significant portion of the raw intelligence was expected to reside initially in Microsoft data centers outside of Israel. But Israel’s Justice Ministry and Finance Ministry raised concerns about potential lawsuits against cloud service providers abroad, which could force them to hand over stored data if it was suspected of being used to violate human rights.

An internal legal opinion from the Justice Ministry in 2022 noted that both France and Germany required corporations to check for human rights violations in their supply chains by law. If it were to be revealed that these corporations are operating in the occupied Palestinian territories, such laws “may lead to the issuance of orders to prevent or restrict services” to Israel, it noted. The ministry warned that the Netherlands was working on similar legislation.

Since cloud service providers are “some of the largest and most powerful companies in the world,” one Justice Ministry document warned, a potential lawsuit would be particularly harmful to Israel. Despite these concerns, Unit 8200’s partnership with Microsoft continued, spearheaded by Sariel himself.

After Israel launched a war on the Gaza Strip in the wake of Hamas’ October 7 attack, it soon became clear that the enclave would remain under Israeli military control for a significant period. As a result, an intelligence officer explained, internal enthusiasm for storing mass surveillance data from Gaza on the cloud-based system increased.

“[The army] understood that this is also needed in Gaza — that we’re heading toward long-term control there, like in the West Bank,” the source explained. “This [surveillance repository] isn’t leaving Azure anytime soon. It’s a huge project.”

Several sources insisted that the project has “saved Israeli lives” by preventing Palestinian attacks. “You hear [someone say], ‘I want to become a martyr,’ and you feel reassured, as a security officer, that this stuff is being picked up by our system,” one officer said.

But such blanket surveillance allows Israel to find potentially incriminating information on virtually any Palestinian, which can be used for all manner of purposes — including blackmail, administrative detention, or retroactively justifying killings.

“These people get entered into the system, and the data on them just keeps growing,” an intelligence officer who recently served in the West Bank explained. “When they need to arrest someone and there isn’t a good enough reason to do so, [the surveillance repository] is where they find the excuse. We’re now in a situation where almost no one in the [occupied] territories is ‘clean,’ in terms of what intelligence has on them.”
‘Serious allegations of complicity in genocide’

In internal documents from 2023, Microsoft estimated that the partnership with Unit 8200 would generate hundreds of millions of dollars for the company over five years. It noted that the unit’s leadership hoped to multiply the amount of data it stores in Microsoft’s servers “tenfold” over the next few years.

But media reports of Microsoft’s complicity in Israel’s onslaught on Gaza — including the revelation by +972 and Local Call that the company’s cloud and artificial intelligence sales to the Israeli military skyrocketed during the war — have increased pressure on the company from the public as well as from its own employees.

In one highly publicized incident at the company’s annual conference in May, a Microsoft engineer interrupted Nadella’s keynote speech. “Satya, how about you show how Microsoft is killing Palestinians?” he shouted. “How about you show how Israeli war crimes are powered by Azure?”

Against this backdrop, 60 Microsoft investors, collectively holding shares worth $80 million, approached the company in July with a demand to review its monitoring and oversight mechanisms for customers who misuse AI tools, “in the face of serious allegations of complicity in genocide and other international crimes.”

Responding to the mounting pressure, Microsoft announced that it had conducted a review of whether its sales to Israel’s Defense Ministry had led to human rights violations. According to the statement, Microsoft provided “limited emergency support” to the Israeli army in the aftermath of October 7 to “help rescue hostages.” The company emphasized that there is “no evidence to date” that the military used Azure to “harm people in the conflict in Gaza,” stressing that Microsoft’s support didn’t violate “the privacy and other rights of civilians in Gaza.”

Yet the internal documents detailing Microsoft’s partnership with Unit 8200 paint a different picture of the company’s concern for Palestinians’ privacy. In fact, Palestinians were not mentioned in the documents summarizing the 2021 meeting between Sariel and Nadella, which also involved Israeli intelligence officers and senior Microsoft executives.

According to the Guardian’s reporting, Unit 8200 informed Microsoft of its intention to transfer up to “70 percent” of its data, including secret and top secret data, to Azure. And while the project’s ultimate goal (beyond “deepen[ing] the partnership”) does not appear to have been explicitly stated, an intelligence source said that executives of Microsoft’s Israeli subsidiary — who worked closely with Unit 8200 personnel on the project — were given clearer indications.

“Technically, they’re not supposed to be told exactly what it is, but you don’t have to be a genius to figure it out,” the source noted. “You tell [Microsoft] we don’t have any more space on the servers, that it’s audio files. It’s pretty clear what it is.”

In response to our investigation, a Microsoft spokesperson stated: “Microsoft’s engagement with Unit 8200 has been based on strengthening cybersecurity and protecting Israel from nation state and terrorist cyber attacks. This was the purpose of the meeting in November of 2021 and, in addition to our standard commercial relationship, is the basis of our ongoing relationship with the 8200 Unit.

“The leadership of Unit 8200 was interested in assessing security protection for data in our Azure public cloud offering,” the spokesperson continued. “We offer specific protections to numerous customers in retail, financial services and consulting organizations, as well as governments. Unit 8200 was interested in and tested this security; this was not a ‘secret’ or tented project.

“At no time during this engagement or since that time has Microsoft been aware of the surveillance of civilians or collection of their cell phone conversations using Microsoft’s services, including through the external review it commissioned,” the spokesperson went on. “Any allegations about Microsoft leadership involvement and support of this project … are false.”

The IDF Spokesperson stated that “the coordination between the Defense Ministry and the IDF with civilian companies is conducted based on regulated and legally supervised agreements,” adding that the army operates “in accordance with international law, with the aim of countering terrorism and ensuring the security of the state and its citizens.”

Yossi Sariel declined to comment, referring us to the IDF Spokesperson.

Following publication of this article, the IDF Spokesperson sent another statement: “We appreciate Microsoft’s support to protect our cybersecurity. We confirm that Microsoft is not and has not been working with the IDF on the storage or processing of data.”

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Música do BioTerra: Agent Side Grinder - Stripdown



Para os madrugadores. Saudades das noites de boémia, dos copos, animação, tagarelar, bailar.

Strip it down to the floor
Strip it down to the ritual ground
Strip it down to the scene
Where it all began

Strip it down to the skin
Further down to the chilling bone
Where you freeze the most
Where you feel the most

Strip it down to the heart
Strip it down to that bleeding stone
Strip it down to the beat
Just a metal stick

Mind is deconstructing
Mind is self-destructing
Mind is going down the drain

Body coldly burning
Pulse slowly returning
Out of ash to grow again

Strip it down to the core
Further down to the naked truth
Where you freeze the most
Where you hurt the most

A Anatomia do Desmantelamento: A Estética Industrial e Existencial de "Stripdown"
A faixa "Stripdown", lançada pela respeitada banda de origem sueca Agent Side Grinder, consolida-se como um dos exemplares mais impactantes da cena eletrónica underground europeia contemporânea. Originários de Estocolmo, o grupo transita com mestria por uma fusão rica de estilos musicais, que abrange o post-punk, o synthwave industrial, o darkwave e a EBM (Electronic Body Music) minimalista. Com uma sonoridade construída sobre graves marcantes, sintetizadores analógicos pulsantes e vocalizações soturnas, a música utiliza uma atmosfera rítmica quase hipnótica para desacelerar o ritmo acelerado do pop eletrónico tradicional e dar lugar a uma cadência densa, mecânica e visceral.

No que concerne ao significado da canção, "Stripdown" atua como uma metáfora sobre a desconstrução, a perda de camadas protetoras e o confronto com a essência nua da vulnerabilidade humana. O termo stripdown - que remete ao ato de desmontar algo peça por peça ou despir-se de excessos - reflete um estado de colapso pessoal, social ou emocional. A letra aborda a sensação de sufoco provocada pelas expectativas da vida moderna, sugerindo que a única saída para encontrar a verdade individual reside no desmantelamento das fachadas sociais, das ilusões e das armaduras que acumulamos quotidianamente.

Esta mensagem ganha contornos ainda mais profundos através da narrativa visual apresentada no seu videoclipe oficial. O vídeo explora uma estética minimalista, fria e claustrofóbica, utilizando frequentemente jogos de luz e sombra, enquadramentos secos e uma linguagem corporal contida. O significado do vídeo reflete diretamente a ideia de isolamento urbano e alienação mecânica. A figura central do teledisco, imersa em ambientes industriais ou desprovidos de ornamentos, evoca a sensação de um indivíduo preso a uma engrenagem maior, tentando desesperadamente libertar-se da vigilância e do controlo para repensar a sua própria identidade à medida que perde as suas camadas exteriores.

Por fim, as influências literárias e filosóficas do trabalho dos Agent Side Grinder e de "Stripdown", em particular, ancoram-se fortemente no existencialismo e na ficção distópica do século XX. Há ecos evidentes do existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus na busca pelo sentido da existência dentro de um cenário árido e absurdo, onde o indivíduo é confrontado com a própria liberdade radical após a remoção das ilusões. Paralelamente, o clima soturno e a paranoia analógica da faixa dialogam diretamente com o universo literário distópico de George Orwell (1984) e J.G. Ballard, sobretudo na exploração da relação entre o corpo humano, a arquitetura de betão e a alienação provocada pelas tecnologias e estruturas de poder contemporâneas.

Páginas oficiais

O Mistério Industrial e Concetual por Trás do Nome Agent Side Grinder
A escolha do nome Agent Side Grinder não é fruto do acaso, mas sim uma fusão invulgar e deliberada de termos que sintetiza na perfeição a identidade sonora, estética e concetual do projeto sueco. A génese da designação assenta no cruzamento entre o imaginário do trabalho mecânico industrial e a atmosfera de paranoia e vigilância característica da Guerra Fria.

A expressão side grinder (mais comummente conhecida como angle grinder) é a designação em língua inglesa para a rebarbadora, uma ferramenta elétrica manual amplamente utilizada na indústria pesada e na construção para cortar, lixar e desbastar superfícies de metal e betão. Nos primeiros anos de formação da banda em Estocolmo, a sua sonoridade era profundamente marcada por texturas ruidosas, gravadores de fita (tape loops), ritmos analógicos e uma estética de oficina industrial. A rebarbadora surge assim como uma metáfora perfeita para o som do grupo: um elemento que gera faíscas, fricção metálica, ruído agressivo e a sensação de trabalho mecânico cru e visceral.

Por outro lado, a adição do vocábulo Agent ("Agente") introduz um elemento humano, misterioso e burocrático, evocando a figura do espião, do observador anónimo ou da autoridade invisível operante em cenários de ficção distópica ou em regimes de controlo social. A junção surrealista das duas palavras cria uma espécie de oxímoro: a figura do "Agente Rebarbadora", uma entidade fictícia ou uma força cujo propósito passa por desgastar, raspar e desmantelar as estruturas por dentro. Esta ideia de remover camadas, cortar o supérfluo e lixar a superfície até expor a essência nua alinha-se perfeitamente com a proposta concetual da banda

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Análise do Livro- A Manipulação do Público escrito por Noam Chomsky e Edward Herman


No ano em que o maior intelectual vivo dos Estados Unidos da América (EUA) — Noam Chomsky — celebra 90 anos, esta é igualmente a ocasião de celebrar os 30 anos do lançamento de um dos um dos seus livros mais acutilantes. Neste caso trata-se de Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media, uma parceria com Edward Herman com quem colaborou não poucas vezes durante a carreira, tendo conjuntamente desenvolvido o modelo de Propaganda, baseado num estudo das instituições políticas, económicas (nomeadamente as os grandes conglomerados comerciais — empresas multinacionais) e as instituições que comandam os média, numa sinergia entre elas que até ao momento deste livro, tinha sido apenas aflorada.

As origens para o nome desta polémica obra remontam até ao sobrinho de Freud, Edward Bernays, que foi diretor do primeiro instituto de relações públicas nos EUA e que inclusivamente lançou um artigo seguido dum livro de seu nome “The Engineering of Consent” (em português engenharia do consentimento): a forma como se consegue influenciar as “massas ignorantes e irracionais”, fazendo assim uso da forma mais distorcida possível dos estudos do seu tio sobre a irracionalidade da espécie humana. Tudo porque como o seu contemporâneo Walter Lippmann teorizou que o “rebanho desorientado” ou “agressivo” (na versão original bewildered herd) era incapaz de se auto-regular e de fazer com que a Democracia americana fosse atingida na sua plenitude. As consequências das erráticas profecias quer de um, quer do outro, desembocaram na quinta-feira negra de Wall Street, marcando assim o primeiro “crash” económico da modernidade, em 1929; o rebanho havia sido “impelido” a entrar na bolsa via qualquer tipo de ações, tendo o mesmo fenómeno levado à euforia não-correspondente ao real estado da economia americana, facto que desregulou a bolsa – consequentemente o Mundo quase por inteiro. (cf. “The Century of the Self” por Adam Curtis)

Porém, foi mesmo uma expressão utilizada pelo influente Lippmann que levou à adoção do título do livro pelos autores, uma vez que nos seus trabalhos figurava sobremaneira a expressão “The Manufacture of Consent” sob a qual discorria numa visão não-democrática da imprensa e dos média em geral. Visão esta que contrastava com a de John Dewey, que para os crentes de uma verdadeira democracia baseada na educação dos ignorantes e para aqueles que se recusam a chamar os ignorantes de “rebanho”, foi um dos maiores filósofos americanos da primeira metade do século transacto.

Curioso será o facto de no ano em que este livro saiu 50 eram as corporações que dominavam os média americanos. Todas elas utilizando um modelo institucional igual ou bastante semelhante ao utilizado nas áreas do direito e outras áreas comerciais — ou seja, estrutura hierárquica na qual os shareholders não sabem quem são os seus trabalhadores, pouco lhes interessa, como também vice-versa, numa opacidade essencial para que estes trabalhadores queiram (ou pelo menos não rejeitem) trabalhar para estas empresas; hoje em dia são só já 6 empresas que dominam o mercado. Uma convergência que é tão visível nesta como em outras áreas da economia mundial.

Andrew Marr (BBC) – “How can you know that I’m self-censoring?”

Noam Chomsky – “I’m not saying you’re self-censoring. I’m sure you believe everything you’re saying. But what I’m saying is that if you believed something different, you wouldn’t be sitting where you’re sitting.” (Entrevista de Noam Chomsky à BBC por Andrew Marr

Mas como funcionam na prática estas empresas? São elas veiculadoras de eventos, verdades, ou mentiras? Para Lippmann como para Reinhold Niebuhr (ao bom estilo americano, um teólogo e pastor protestante que decidiu incluir nas suas reflexões temáticas como política, sociedade, liberdade, etc., sendo mais um paladino da mentira e da não-democracia), autor do termo “necessary illusions“, título análogo ao do livro de Chomsky datado de 1989, isto é o necessário:

“The naive faith of stupid masses requires ‘necessary illusions’ and ‘emotionally potent oversimplifications’ provided by the myth-creators to keep the ordinary person on course.” (Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media)

A estrutura desenhada por estas empresas, em colaboração com o poder politico-económico, vindo daqui a inovação dos autores por terem analisado em simbiose o que cada setor contribui para a “doutrinação” mais eficaz do público divide-se em: 20% da sociedade, dos quais figuram pessoas relativamente educadas, que tem um papel de decisão e que são parte integrante do poder politico-económico; e 80% do restante, o rebanho portanto, que estão incumbidos de seguir ordens e de não pensar acerca de nada (para além do seu trabalho/ofício).

“The point is you have to work. That’s why the propaganda system is so successful. Very few people will have the time, the energy or the commitment to carry out the constant battle that’s required to get outside.” (Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media)

Contudo, existem 5 filtros que são os que definem a razão pela qual a máquina continua em tão saudável funcionamento pese embora crie tão nocivos efeitos (sem que “ninguém” note):

Estrutura: estas empresas de média são possuídas por grandes corporações cujo objetivo final é a maximização de lucros a todo o custo; logo, não são fomentadas pelo desejo de instigar o jornalismo crítico de forma a que se converta num milieu de educação para o grande público daquilo que é o pensamento crítico;

Publicidade: a televisão e os jornais são bens quase gratuitos; refraseando — o grande público não paga imenso por estes serviços. Quem é que então financia os aumentos tecnológicos ou as inovações de que o setor beneficia? As empresas que querem que os consumidores paguem pelos seus produtos. Desta forma, a publicidade paga pelas audiências que a televisão necessita, num movimento em que as empresas publicitárias adquirem igualmente o público com ajuda das empresas de média, “viciando-o” nos seus produtos (uma fase pré redes-sociais nas quais as nossas preferências não são vendidas direta como hoje em dia o são, mas indiretamente — a era dos mass media ainda não seria a era do big data);

Cumplicidade: em nome de quem irá ser feita a representação senão de quem tem dinheiro e/ou poder? A máquina é bem oleada por este “media game” como os autores lhe chamam;

Estórias inconvenientes (flak): quando alguma surge, as fontes são sempre desacreditadas. É uma forma de censura implícita, na qual o desejo de verdade é absolutamente ignorado vis-à-vis o bem-estar dos implicados na estória — pobre Nixon e pobre Clinton, e talvez também George H. W. Bush que só durou um mandato com conquistas sociais que só no mandato de Johnson foram ultrapassadas, tendo havido certamente alguém que gostou pouco do que fizeram; e louvado Gaddafi, que os media americanos tanto encimaram, para justificar outros fins! (cf. “Hypernormalisation” por Adam Curtis)

Inimigo Comum: este último ponto toca no que referi sobre Gaddafi, que também tinha como inimigo o presidente Assad da Síria e que o inglês Adam Curtis tão bem demonstra no seu documentário como o primeiro foi usado pelos decision-makers americanos para fins que só os beneficiavam a eles; o brainwashing, sobretudo nos EUA onde grandes percentagens da população acredita em OVNI’s, que anjos habitam e caminham a Terra, e que o 9/11 foi encetado pela Al-Qaeda enquanto que o estado iraquiano nada tinha que ver com o ataque, fazem com que a ação dos média seja muito mais fácil (ou dos que a comandam!). Enquanto existir Comunismo e Terrorismo e outros ismos inventados pela criatividade intrínseca da imprensa, a verdade jornalística — ou seja, a mentira real — prevalecerá e mais atrocidades continuarão no mundo, como a do Iémen nos nossos dias, que não são reportadas em lado nenhum.


É assim que funciona um modelo de propaganda. É este “véu da ignorância” que é lançado sobre nós e com o qual vivemos no dia a dia sempre pensando que aquilo que lemos no Público ou Expresso (não comento nada sobre o Observador) reflete em algum nível o que outrora se chamou de “verdade”. A verdade, a sê-la, quiçá seja esta:

 “A propaganda model… traces the routes by which money and power are able to filter out the news fit to print, marginalize dissent, and allow the government and dominant private interests to get their messages across the public.”  (Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media)

Haverá ainda relevância que nos leve ao reencontro do que foi escrito pelos autores sobre o papel dos média? Ou o foco deverá voltar-se agora para os grandes gigantes tecnológicos que nos controlam como se num panopticon digital vivêssemos? (sobre este ponto refletirei em breve). O desígnio de ambos é o de nos isolar. Dos outros e de nós mesmos, não de tentar corrigir mas aumentar o nosso desnorte. Como Chomsky diz no documentário de 1992 que nasceu do livro — “the beauty of their system is to isolate everybody”. Ou talvez devamos fazer como o aniversariante Noam que no começo de cada dia consulta as páginas do “inimigo” — New York Times — como o faz todos os dias que acorda, num exercício infatigável de se manter a par com o que o “mais reputado jornal do mundo” conta sobre o mesmo mas desconfio também para escrutinar se, com o passar dos anos, o panfleto tem aumentado o tamanho do seu nariz ou não.

Que sorte têm sempre os apóstolos da mentira (como Bernays, Lippmann e Niebuhr) por nunca presenciarem aquilo que advogam, seja por circunstância do seu próprio privilégio em vida ou por ser demasiado longe no tempo que os efeitos nefastos são sentidos. E vão-se eles desta vida pensando que venceram por serem mais inteligentes que os outros sem nunca tentarem equivaler o nível de inteligência do resto da população para que aí sim, houvesse um debate de ideias justo.

Talvez Adorno estivesse certo ao crer que Walt Disney foi o homem mais cruel do século XX por ter criado o enclausurante momento de lazer e por ter retirado as famílias dos parques, onde a vida é real, e tudo está certo (ou como Mia Couto disse em Viseu há pouco tempo “A rua já não pertence à infância”). Ou mais certo estará Bauman quando nos fala da interdependência global gerada pelas redes de comunicações estabelecidas pelo mundo inteiro, que nos distrai e nos traz uma facilidade demasiado grande a desconectar da vida real. Só mesmo a política do silêncio de Deleuze ou a política da solidariedade de Berardi nos salve, mas a hora já se faz tarde e afinal o que importa é que existam a Fox News e o Correio da Manhã.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Música do BioTerra: Johan & Djuret - Kom & Köp

 
Dogma cut, pirate-arty, anti-commercialism music video with the swedish hiphop and reggae band Johan & Djuret. Some people where possibly hurt doing the recording while others got a bit of stamina exercise. Dont try this at home!

O tema "Kom & Köp" (que se traduz literalmente do sueco como "Vem e Compra") faz parte do álbum de estreia de 2013, intitulado Något Mer, e reflete perfeitamente a identidade interventiva da banda Johan & Djuret. Fiel à longa tradição do reggae político e social, a canção constrói uma sátira mordaz e uma crítica aberta ao capitalismo desenfreado e à sociedade de consumo contemporânea. Através do seu refrão e da mensagem central, o grupo ironiza a falsa premissa de que tudo está à venda, expondo a forma como as pessoas são constantemente bombardeadas por campanhas publicitárias que as empurram a comprar bens materiais na ilusória tentativa de preencher vazios emocionais. Além disso, a letra aborda o problema da alienação social, demonstrando como o sistema moderno mercantiliza a vida quotidiana e transforma os cidadãos em meros consumidores, distraindo-os de causas humanas e sociais muito mais profundas. Assim, as letras do projeto Johan & Djuret destacam-se no panorama sueco por serem diretas, altamente politizadas e carregadas de um forte sentimento de justiça social, sem nunca perderem a capacidade de contagiar o público com ritmos dançantes e dinâmicos.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Música do BioTerra: Killing Joke - Gratitude


Let me tell you about the hearts of my people, the core meaning of our tribe
A dream unspoken, a promised kept, the secret comes alive
For all the years I've watched your back and you've watched mine
We always knew the clouds would part and a golden dawn will shine

And when you find yourself upon the untrodden path
Remember me with a smile, a drink, a gesture or a laugh
Gratitude

You look at me but I've been looking at you
We only were a mirror to show what you could do
Oh innovator, oh enlightened scholar, play and write
Rewrite the old books, renaissance, perform new rites of light

And when you find yourself upon the untrodden path
Remember me with a smile, a drink, a gesture or a laugh
Gratitude

The wise will redefine paradise
The farmer and the visionary, a village - simple lives
Adapting to strange seasons in certain remote regions
Where no-one has exemption from total redemption

And when you find yourself upon the untrodden path
Remember me with a smile, a drink, a gesture or a laugh
A toast for the man who loves every hour of every day
And a feast for the friends and faces met along the way
Gratitude

sábado, 12 de junho de 2004

Música do BioTerra: Killing Joke - Democracy


Killing Joke - Democracy [1996, lyric]

You have a choice, we are your voice
Red, blue or yellow.
We will blow away the green
Another five lane motorway
(You'll never get a referendum anyway)

Funny handshakes. insider dealing
Et in arcadia. arcadia ego
Backhanders and salamanders
A powerhouse that is morally
Mechula
I'm sorry democracy is changing
I'm sorry democracy is changing

I'm not a slogan or a badge
Or a cross in the ballot box
Neither values or objectives
You do not represent my deepest
Thoughts and wishes

Education in obsolete skills
Stereotyping and media projection
Industrial psychologists
Plan a campaign that is financed by
Big business

You have a choice, we are your voice
Red, blue or yellow.
We will blow away the green
Another five lane motorway
(You'll never get a referendum anyway)

“Democracy” (1996) dos Killing Joke é uma canção de denúncia frontal, tanto no significado como no som, representando bem a fase mais pesada e politicamente agressiva da banda.

“Democracy” questiona a própria ideia de democracia no mundo ocidental contemporâneo. Jaz Coleman apresenta-a não como um sistema de participação real, mas como uma ilusão cuidadosamente gerida, onde o poder económico, mediático e militar determina as escolhas antes mesmo de o cidadão votar. A canção sugere que a democracia se tornou um ritual vazio, usado para legitimar decisões tomadas por elites, corporações e interesses geopolíticos.

Há um tom de acusação coletiva: a população é retratada como cúmplice passiva, amnestesiada pelo consumo, pela propaganda e pelo medo. O refrão repetitivo funciona quase como um martelo retórico, sublinhando a ironia de um sistema que se proclama livre enquanto restringe pensamento crítico e ação real. A visão é profundamente distópica, coerente com a obsessão recorrente de Jaz Coleman com manipulação de massas, controlo social e colapso civilizacional.