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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Programa Nacional de Vacinação: as assimetrias regionais e o refúgio das redes antivacinas em Portugal

O Relatório Anual da Direção Geral de Saúde mostra que a maioria das vacinas infantis tem uma taxa de cobertura superior a 95% em Portugal, mas há concelhos que ficam abaixo dos 60%.A região algarvia mantem baixas taxas de vacinação Desigualdades persistem nas vacinas do HPV, gripe e covid-19.

As autoridades de saúde portuguesas estão a combater as baixas taxas de vacinação no Algarve através de uma estratégia focada na busca ativa de utentes e na proximidade comunitária Os centros de saúde realizam auditorias frequentes aos sistemas informáticos para identificar crianças e jovens com doses em atraso, avançando de imediato com contactos diretos através de telefonemas, SMS ou cartas registadas. Para mitigar o isolamento geográfico de concelhos como Aljezur e Vila do Bispo, equipas móveis de enfermagem deslocam-se às zonas rurais para administrar as vacinas localmente.Nas escolas da região, as autoridades cruzam os dados de matrícula com o registo vacinal para sinalizar alunos em falta e alertar os encarregados de educação. Paralelamente, os serviços de saúde pública trabalham com as autarquias locais para traduzir materiais informativos e integrar as comunidades estrangeiras residentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Por fim, os profissionais de saúde desenvolvem ações de esclarecimento direcionadas para combater mitos e a hesitação vacinal junto de grupos específicos da população. Parece-me insuficiente. 

O debate em torno do movimento antivacinas e da proliferação de comunidades dogmáticas em Portugal exige uma análise objetiva das causas e uma revisão urgente do enquadramento legal. A experiência demonstra que o confronto direto com correntes New Age e determinadas comunidades de permacultura é ineficaz: nestes meios, o ceticismo em relação às vacinas e ao conhecimento científico assenta na construção de identidades, no sentimento de pertença e na rejeição do que consideram a "frieza" do sistema dominante. Esta mentalidade, contudo, gera consequências graves e conduz a mortes perfeitamente evitáveis.

A fixação destas famílias estrangeiras em Portugal - com particular incidência no interior (Beira Alta, região Centro) e no Algarve - resulta diretamente de um fenómeno de "fuga às regras". Países como a França e a Alemanha identificaram o risco do isolamento comunitário e do desrespeito pela saúde pública, endurecendo substancialmente os seus regimes jurídicos. Entre 2018 e 2020, tornaram a vacinação infantil obrigatória para o acesso ao ensino e erradicaram ou restringiram severamente o ensino doméstico (homeschooling).

Enquanto a Europa Central fechou as brechas legais, Portugal manteve-se como um dos países mais permissivos do continente, tornando-se um refúgio para quem procura educar os filhos fora do sistema oficial em redes locais sem controlo rigoroso. Embora a adesão da população nacional ao Programa Nacional de Vacinação seja massiva, a vacinação de menores não é juridicamente obrigatória, o que deixa uma margem de manobra perigosa. 

De salientar que há uma faixa social portuguesa em que a hesitação vacinal dos pais são na maioria da classe média-alta e alta. [artigo científico aqui]

Para proteger a saúde pública e a integração social das crianças, Portugal precisa de importar medidas coercivas inspiradas no modelo alemão, assegurando a devida conformidade constitucional:
  1. Condicionamento de acesso e sanções: nenhuma criança deve ser admitida em creches, escolas (públicas ou privadas), ATL ou colónias de férias sem o boletim de vacinação em dia. Caso seja detetada a ausência de vacinas, deve aplicar-se um prazo limite de três meses para regularização, sob pena de cancelamento da matrícula. Paralelamente, ao tornar o ensino presencial obrigatório e banir o ensino doméstico, os pais incumpridores devem ficar sujeitos a multas administrativas pesadas (a exemplo dos 2.500 euros aplicados na Alemanha).
  2. Abrangência a adultos e profissionais de risco: a obrigatoriedade vacinal deve estender-se a quem lida diretamente com populações vulneráveis - pessoal médico, trabalhadores de hospitais e lares, professores e funcionários de creches ou centros de acolhimento. A ausência de imunização deve proibir a contratação ou motivar a suspensão de funções.
Cabe ao Estado Português atuar legislativamente antes que a permissividade jurídica continue a expor a comunidade a riscos evitáveis.

Ler mais:

Existe uma relação direta entre ecossistemas da machosfera e o movimento antivacina

Existe uma relação direta e documentada entre os ecossistemas da machosfera e o movimento antivacinas, uma convergência que é ilustrada na perfeição pelo conteúdo da imagem associado a Andrew Tate. Esta ligação assenta sobretudo na partilha de uma visão do mundo profundamente cética em relação às instituições estabelecidas e numa narrativa de resistência individual.

O principal ponto de contacto entre estas duas subculturas é a rejeição do que apelidam de "sistema" ou a Matrix. Tanto os grupos da machosfera como os ativistas antivacinas partilham a premissa de que os governos, os meios de comunicação social e a comunidade científica manipulam a população para manter o controlo. A metáfora da red pill - a ideia de tomar a pílula vermelha para "despertar" para a verdade oculta - é amplamente utilizada em ambos os universos, criando um terreno fértil para que teorias da conspiração sobre a saúde pública encontrem adesão junto de audiências que já desconfiam das narrativas oficiais.

Além disso, a cultura do fitness, da masculinidade dita "Alfa" e do biohacking, muito presente na machosfera, promove uma obsessão pela pureza biológica e pela autonomia física. Neste contexto, as vacinas são frequentemente retratadas como intervenções externas desnecessárias ou até prejudiciais à virilidade, à fertilidade e aos níveis naturais de testosterona. O cumprimento de orientações sanitárias ou a aceitação de vacinas é por vezes associado a traços de passividade, fraqueza ou submissão, enquanto a recusa é vendida como um ato de força, independência e rebeldia masculina.

Por fim, os próprios algoritmos das plataformas digitais facilitam esta sobreposição. Um utilizador que consome conteúdos sobre masculinidade tradicional ou conselhos de sedução é frequentemente direcionado para círculos de desinformação médica, teorias conspiratórias e políticas de extrema-direita.

Figuras influentes deste meio aproveitam estes tópicos fraturantes para gerar controvérsia, aumentar o envolvimento nas redes sociais e reforçar a sua imagem de líderes destemidos que desafiam o consenso geral.

Who is Andrew Tate?

Referências Bibliográficas
Ler mais:

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Pode HAARP provocar terramotos? Verdade por trás do boato que surge após cada desastre natural


Sempre que ocorre um grande desastre natural, o termo HAARP volta a ser tendência nas redes sociais. Já aconteceu depois de terramotos, furacões, inundações ou incêndios florestais. Os recentes sismos registados na Venezuela não foram exceção.

Em plataformas como a X circularam mensagens que afirmavam, sem provas, que os Estados Unidos teriam usado o projeto HAARP para provocar os terramotos. Vários meios especializados em verificação desmentiram estas afirmações e lembram que não existe evidência científica que as sustente.

O que é afinal o projeto HAARP
HAARP é o acrónimo de High-frequency Active Auroral Research Program (Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência). Trata-se de uma instalação científica situada no Alasca cujo objetivo é estudar a ionosfera, uma camada da atmosfera terrestre localizada entre cerca de 60 e mais de 500 quilómetros de altitude.

Segundo explica a própria entidade, utiliza ondas de rádio de alta frequência para gerar pequenas perturbações controladas nessa região da atmosfera e compreender melhor fenómenos que afetam as comunicações por rádio, a navegação por satélite e outros sistemas tecnológicos. Entre 1993 e 2014 foi gerida pela Força Aérea e pela Marinha dos Estados Unidos e, desde 2015, pertence à Universidade do Alasca Fairbanks.

A instalação sublinha ainda que as suas experiências são públicas e que a investigação está centrada exclusivamente no estudo da ionosfera.

Porque é associado a terramotos e outros desastres
Apesar de o programa ter uma finalidade científica, há anos que o HAARP é alvo de numerosas teorias da conspiração.

Em diferentes momentos foi-lhe atribuída falsamente a capacidade de provocar terramotos, furacões, inundações, incêndios florestais ou até controlar o clima. Após a DANA que assolou a Comunidade Valenciana em outubro de 2024, por exemplo, voltaram a circular nas redes sociais mensagens que garantiam, sem provas, que a catástrofe tinha sido provocada pelo HAARP.

Uma investigação da equipa de verificação da Euronews documentou como estas teorias da conspiração se propagaram em diferentes idiomas e desmontou várias das afirmações que se tornaram virais.

Narrativas semelhantes também reapareceram após os terramotos em Marrocos e na Birmânia ou depois do furacão Milton nos Estados Unidos. Após os terramotos na Venezuela, voltaram a difundir-se publicações que afirmavam que os Estados Unidos tinham utilizado o HAARP para danificar infraestruturas do país ou provocar os sismos. Mas trata-se de um boato sem base científica.

Pode o HAARP provocar terramotos ou controlar o clima
A resposta, segundo os responsáveis pelo projeto e a comunidade científica, é negativa.

No seu apartado de perguntas frequentes, o HAARP salienta que as ondas de rádio que utiliza interagem apenas com a ionosfera e não com a troposfera nem com a estratosfera, as camadas inferiores onde se desenvolve o tempo atmosférico. Por isso, garante que não tem capacidade para modificar o clima.

Os investigadores acrescentam que o HAARP também não pode provocar nem intensificar fenómenos naturais como terramotos, furacões ou inundações. Os sinais emitidos pelo HAARP destinam-se a estudar processos físicos na atmosfera superior e não têm capacidade para alterar a crosta terrestre nem os processos geológicos responsáveis pelos sismos.

Os verificadores que analisaram as mensagens difundidas após o terramoto na Venezuela recordam ainda que não existe nenhuma evidência científica que relacione o HAARP com a atividade sísmica.

Teoria da conspiração que ressurgue após cada grande desastre
O caso da Venezuela segue um padrão habitual na desinformação sobre fenómenos naturais. Sempre que ocorre um terramoto ou um episódio meteorológico extremo, voltam a surgir publicações que atribuem o fenómeno a tecnologias secretas ou a alegadas armas climáticas, apesar de não existir evidência científica que sustente essas afirmações.

O HAARP tem sido um dos protagonistas recorrentes dessas narrativas. As autoridades do projeto insistem que o HAARP tem uma finalidade exclusivamente científica: estudar a ionosfera para melhorar o conhecimento sobre as comunicações e o denominado 'clima espacial', um conceito distinto do clima terrestre. Segundo os responsáveis, a instalação não tem capacidade para controlar o clima nem para provocar terramotos.

sábado, 23 de maio de 2026

Death Valley Fight Club - Told You So


Letra
Oh, you trusted memes and homemade charts
Dismissed the facts, embraced the farce
A little doubt, a little flair —
And suddenly, you're an expert, yeah?
You laughed at proof, ignored the science
Built your world on fake defiance
"Freedom first!" – you screamed so loud
Now look around — you proud?

I hate to be the one to say “I told you so”
But hey — I told you so
You light the match and act surprised
When democracy goes up in smoke
And now you claim you didn’t know
But damn — I told you so

Truth’s too boring, facts too slow
Why think at all when blue hearts glow?
You wreck your life, then curse the game
And now it’s someone else you blame?
You voted hate with cheerful grin
“It’s just protest!” – what a spin
You chose the wolf to guard the door
Still shocked it’s chewing through the poor?

I hate to be the one to say “I told you so”
But hey — I told you so
You light the match and act surprised
When democracy goes up in smoke
And now you claim you didn’t know
But damn — I told you so

Now look around — you proud?
Now look around — you proud?

It’s happened once, it happens twice
We swore “no more” — now pay the price
You saw the signs, you knew the names
Repeated all the same mistakes
You had a voice, you had a choice
But fear became the louder noise
You traded hope for easy seats
And history... just repeats

Now look around — you proud?

A canção "Told You So", do projeto alemão Death Valley Fight Club, funciona como uma crítica social e política mordaz, carregada de frustração, cinismo e de um profundo sentimento de "eu bem avisei". Através de uma sonoridade eletrónica agressiva e direta, a letra expõe a inércia e a cegueira coletiva da sociedade moderna, que muitas vezes caminha em direção ao abismo por escolha própria, ignorando os sucessivos alertas sobre os perigos do extremismo e da manipulação.

Há um ataque cerrado ao triunfo da ignorância e ao avanço do populismo, evidenciando a facilidade com que as massas se deixam seduzir por discursos vazios e figuras autoritárias. O título e o refrão da música não carregam uma arrogância vitoriosa, mas sim um desespero amargo; é o desabafo de quem assiste ao colapso social e percebe que o arrependimento alheio surge tarde demais, quando as consequências já são destrutivas e inevitáveis. Resumindo, a faixa afirma-se como um hino de protesto que utiliza o peso do Futurepop e do EBM para espelhar a apatia política e a autodestruição do mundo contemporâneo.

sábado, 25 de abril de 2026

25 Abril: Rui Tavares acusa André Ventura de citar Adolf Hitler e mito nazi na sessão solene


O porta-voz do Livre Rui Tavares acusou hoje o presidente do Chega de ter citado Adolf Hitler e um mito nazi no discurso da sessão solene do 25 de Abril quando repetiu diversas vezes a expressão “apunhalado pelas costas”.

Em declarações aos jornalistas durante a tradicional descida da Avenida da Liberdade, em Lisboa, para celebrar a Revolução dos Cravos, Rui Tavares afirmou que Ventura, na sessão solene comemorativa do 25 de Abril, no parlamento, repetiu “quatro ou cinco vezes uma frase de Hitler, como se não fosse nada”.

“A famosa frase ‘apunhalada nas costas’, que é uma frase que vem dos nazis, e que se referia à Primeira Guerra Mundial e que ele hoje usou para a Guerra Colonial, como se não fosse nada”, sustentou.

Em causa está a crítica feita por André Ventura na intervenção desta manhã no parlamento, em que criticou aqueles que “exaltam guerrilheiros que estavam a matar militares portugueses por todo o mundo” e afirmou, repetindo a expressão três vezes, que estes portugueses foram “apunhalados pelas costas”.

A “lenda da punhalada nas costas” foi um mito político difundido na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, segundo o qual o exército alemão não teria sido vencido no campo de batalha, mas sim traído internamente por, entre outros, socialistas, bolcheviques e judeus alemães, tendo contribuído para a ascensão de Hitler do Partido Nazi.

Rui Tavares considerou que há uma escalada no discurso político que está a ser ignorada: “Hoje cita Hitler e os nazis, toda a gente faz de conta que não ouviu, e amanhã diz ou faz qualquer coisa ainda mais terrível, e toda a gente faz de conta que não é consigo”.

Também a deputada do PS Eva Cruzeiro criticou a expressão utilizada por André Ventura, considerando, numa publicação feita na rede social ‘X’, que não se trata de uma “frase qualquer”.

“Remete diretamente para a Dolchstoßlegende [Lenda da Punhalada pelas Costas], um dos pilares da propaganda que abriu caminho ao nazismo. Foi usada sistematicamente para alimentar ressentimento, fabricar inimigos internos e justificar a erosão da democracia da República de Weimar. Foi central na narrativa que Adolf Hitler explorou para chegar ao poder”, criticou.

Para a socialista, o líder do Chega não estava a fazer “um desabafo inocente”, mas sim a “convocar um imaginário político perigoso, assente na divisão, na desconfiança e na distorção da história”.

E conclui: “Quem conhece a história reconhece estes sinais e sabe que a democracia não se perde de um dia para o outro, desgasta-se quando se normalizam discursos que já provaram, no passado, aonde conduzem. André Ventura mostra abertamente o seu plano. É inaceitável”.

A tentativa de André Ventura em adaptar a "Lenda da Punhalada pelas Costas" (Dolchstoßlegende) ao contexto da Descolonização (1974-1975)

Essa narrativa de que Portugal foi "apunhalado pelas costas" durante o processo de descolonização é um exemplo flagrante de pós-verdade, pois ignora os factos históricos em favor de um revisionismo emocional que serve interesses políticos atuais. Ao transpor o mito alemão da Dolchstoßlegende para a realidade portuguesa de 1974, André Ventura e a direita radical operam uma inversão da causalidade: tentam convencer o público de que o 25 de Abril "causou" a derrota em África, quando, na verdade, foi a exaustão de uma guerra impossível de vencer que causou o 25 de Abril. Esta construção ignora que o exército português enfrentava um impasse militar absoluto, um isolamento diplomático total perante a ONU e uma economia asfixiada que consumia cerca de 40% do orçamento do Estado na defesa do Ultramar.

Ao utilizar esta retórica, Ventura não está a fazer uma análise histórica, mas sim a praticar uma "pesca de arrasto" no ressentimento de antigos combatentes e retornados, oferecendo-lhes um culpado conveniente — a "elite de Abril" — para um trauma coletivo que é muito mais profundo e complexo. A pós-verdade reside precisamente nesta simplificação: transforma-se uma transição histórica inevitável e tardia numa traição planeada, substituindo a complexidade do fim dos impérios coloniais europeus por uma fábula de "bons patriotas" contra "traidores entreguistas". No fundo, é a utilização de uma mentira histórica confortável para atacar a legitimidade da democracia portuguesa e reabilitar um passado autoritário sob a capa de um orgulho nacional ferido.

Historiografia
Museu Histórico Alemão - Dolchstoßlegende

O mito da punhalada pelas costas (em alemão: Dolchstoßlegende, pronuncia-se Lenda da Punhalada pelas Costas) é uma teoria da conspiração anti-semita e anticomunista, promovida por Adolf Hitler.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Artigo da Nature mostra como o feed algorítmico da rede X direciona a visão das pessoas para a direita e extrema-direita


O estudo demonstra que, ao contrário do feed cronológico (onde vês tudo o que as pessoas que segues publicam), o algoritmo filtra e prioriza. Se o utilizador interage com uma publicação de teor radical, o sistema passa a mostrar-lhe mais conteúdo semelhante, o que pode levar a um processo de radicalização gradual por falta de contraditório.

Um ponto implícito no debate atual (e tocado lateralmente no artigo) é a mudança de diretrizes da plataforma sob a gestão de Elon Musk. O estudo sugere que as alterações no código e nas políticas de moderação desde 2022 facilitaram a circulação de discursos que anteriormente seriam filtrados ou banidos, beneficiando desproporcionalmente movimentos de extrema-direita que testam os limites da liberdade de expressão.

A investigação demonstra que o algoritmo do X não é neutro e acaba por beneficiar desproporcionalmente as vozes da direita e da extrema-direita. Isto acontece porque o sistema está programado para maximizar o tempo de utilização e a interação, e os conteúdos típicos destes movimentos — que utilizam frequentemente retórica de indignação, teorias da conspiração ou ataques diretos ao "sistema" e aos adversários — geram níveis de resposta emocional muito elevados. O algoritmo interpreta este conflito como "relevância" e, por consequência, impulsiona essas publicações para um público muito mais vasto do que aquele que as segue originalmente.

Além disso, o artigo destaca que esta amplificação cria um desequilíbrio no ecossistema de informação. Ao comparar o feed cronológico com o algorítmico, os investigadores perceberam que o algoritmo atua como um megafone para narrativas que promovem a polarização afetiva. Ou seja, ele não se limita a mostrar o que o utilizador gosta, mas expõe os utilizadores de direita a conteúdos cada vez mais radicais, enquanto mostra aos utilizadores de esquerda conteúdos que os deixam indignados com a direita, aprofundando o fosso entre os dois grupos. No caso específico da extrema-direita, o estudo sugere que as mudanças nas políticas de moderação da plataforma desde 2022 permitiram que discursos antes considerados marginais ou tóxicos passassem a circular livremente, sendo frequentemente "premiados" pelo algoritmo com alcances multimilionários que as vozes moderadas ou de esquerda raramente conseguem atingir com a mesma eficácia orgânica. Fonte


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Chega: sexo, mentiras e Deus


Numa pequena cidade dos EUA, um contabilista obeso morreu subitamente no seu cubículo de trabalho. No seu funeral estavam apenas a mulher e os filhos, que mal o conheciam. O homem vivia em frente ao computador e falava pouco. Nessa mesma noite, longe da família enlutada, houve outro funeral. “Ajax”, a personagem que o contabilista protagonizava num jogo de computador, foi homenageada por milhares de pessoas, no mundo inteiro, que nunca viram o contabilista solitário, não sabiam quem era ou onde morava. Esse funeral foi épico, com amigos, aliados, inimigos e adversários, que celebravam os feitos heróicos de Ajax naquele jogo. Afinal, qual era a “vida” realmente importante do homem que morreu? Na realidade ou no jogo?

Esta história é contada por Steve Bannon, o antigo conselheiro de Donald Trump, que dirigiu a sua campanha vitoriosa em 2016, no filme American Dharma, de Errol Morris (2018). Bannon argumenta que o “destino” (dharma) da vida de milhões de pessoas está vazio — e pronto a ser preenchido por quem o saiba compreender. “Vem aí uma revolução”, explica o guru de Trump a um céptico realizador que o tenta confrontar. Bannon e Morris não parecem discordar sobre as causas desse vazio: as classes médias sentem-se hoje como os servos russos do século XVIII, ou como hamsters numa gaiola, concede Bannon, enumerando as razões materialistas que levam muitas pessoas a refugiar-se nos jogos, nas teorias da conspiração e na ficção para encontrar um sentido para as suas vidas. Estão reféns do sector financeiro e entregaram a sua auto-determinação às plataformas digitais e à inteligência artificial — tudo isso é verdade, argumenta o estratega político. Mas para se entender a mobilização que alimenta esta corrente política que nem sequer tem um nome consensual — “direita radical”, “extrema-direita” ou “direita populista” — é preciso juntar à realidade os mecanismos da pura ficção. Aqueles que procuram um sentido são os combatentes da “guerra” que os políticos como Trump, Ventura ou Bolsonaro seduzem para travar.

Não será por acaso que Miguel Carvalho, jornalista que investigou o Chega nos últimos cinco anos, escolheu começar o seu livro (Por Dentro do Chega, com a chancela da Objectiva) por uma história que André Ventura criou. Ameaçado por uma suposta investigação judicial que pretendia prendê-lo — mas nunca existiu —, Ventura refugiou-se na luxuosa Quinta das Nespereiras, em Odiáxere (Lagos). O proprietário, Arlindo Fernandes, militante do Chega, conta que viu chegar, “borradinhos de medo”, o líder do partido e a sua mulher, mais um grupo restrito de dirigentes. Estávamos em 2020 e Ventura era deputado. O seu plano era passar à “clandestinidade”, numa lancha rápida com destino a Tânger, Marrocos. Um político como Ventura precisa de criar uma personagem, com um “destino”, um arco narrativo. É esse mecanismo que o liga aos votantes — mais de um milhão e 400 mil nas últimas legislativas.

Miguel Carvalho recolheu centenas de testemunhas, de dirigentes e militantes do Chega. Muitos, certamente sem conhecerem a teoria de Bannon, apontam essa explicação “Ajudei a nascer o Chega porque acreditei que era algo que Deus queria que eu fizesse. Entretanto, o André revelou-se um Saul e não um David. É um grande actor,” diz Lucinda Ribeiro, a mulher nascida em Meimoa, Penamacor, que organizou o crescimento do Chega nas redes sociais. A seu lado trabalhava outra mulher, de origem social bem diferente: Patrícia Sousa Uva gosta de se chamar a si própria de “dondoca”. O seu testemunho sobre Ventura também revela uma personagem construída: “É uma mistura de padre com chico-esperto do futebol de Mem Martins.”

O grupo que geria as redes sociais de Ventura incluía ainda Gerardo Pedro, de Santarém. “Via-o a ralhar na CMTV, no ‘Rua Segura’, e deixei-me ir naquela conversa, era música para os meus ouvidos…” Hoje, Lucinda, Patrícia e Gerardo deixaram de se rever na personagem. “Sinto vergonha de ter andado nisto. Não é o que quero, nem para a minha filha… Este homem não pode governar o país. Não pode”, diz Gerardo Pedro. Mas o seu trabalho (muitas vezes de sapa, com perfis falsos, montagens e difamações sobre outros políticos) permitiu a Ventura libertar-se da sua ajuda. O líder é a personagem, como revela o livro: 80% dos fundadores do Chega já saíram do enredo.

“O meio é a mensagem”, explica Bannon ao cineasta americano (e seu adversário político) Errol Morris. Não se trata de uma citação nova, nem original. Quando Marshall McLuhan a escreveu, em 1967, não havia X, nem TikTok, nem Facebook, nem Youtube, ou qualquer das “redes” onde a maioria das pessoas hoje forma as suas opiniões, e onde os políticos da direita radical “pescam” os seus apoiantes. Mas a ideia continua a fazer sentido, seja ali ou na televisão, que reproduz de maneira acrítica os vídeos — encenados ao detalhe — que Ventura diariamente protagoniza.

As redes substituíram os media e têm consequências — pessoais, políticas, económicas, estéticas, psicológicas, morais, éticas e sociais — que nenhuma força política tradicional, de esquerda ou de direita, parece compreender. A extrema-direita foi hábil a identificar esta mudança estrutural no debate político. As redes são a sua casa (e o dono do X, Elon Musk, faz saudações nazis para os acolher).

“Aqui a gente destrói os caras”, explica Silas Malafaia, mostrando o seu telemóvel. É um pastor evangélico, celebridade nas redes e na televisão brasileira. Ele é a personagem principal de Apocalipse nos Trópicos (Netflix, 2024), o mais recente documentário da brasileira Petra Costa.

Entrevistado ao longo dos últimos anos, em visitas pessoais a Bolsonaro no Palácio do Planalto, ou a viajar no seu avião privado que — gaba-se — custou mais de um milhão de dólares, Malafaia é um religioso que quer ser influente na política, depois de ter herdado uma igreja evangélica que há dez anos tinha 15 mil fiéis. “Tem 100 mil agora”, exclama. “Evangélicos e católicos somos a maioria absoluta do país! A democracia é a vontade da maioria absoluta”, teoriza o evangélico rico.

Essa via para um regime político de faceta teocrática não existe apenas no Brasil ou nos Estados Unidos. Já chegou a Portugal há algum tempo. Lucinda Ribeiro é não só uma eficaz “guerreira" nas redes sociais, mas abriu as portas do Chega a um grupo demográfico novo: o voto evangélico.

Só na região de Lisboa há mais de mil igrejas evangélicas. As mais pequenas têm menos de 100 pessoas, enquanto as maiores (como a IURD ou a Igreja Maná) organizam muitos milhares. Miguel Carvalho aponta alguns nomes curiosos de congregações: “Assembleia de Deus Fogo para a Europa”, “Igreja Baptista Cristo Vive em Células”, “Igreja do Avivamento em Portugal”, ou “Igreja Evangélica Bola de Neve”.

Estas igrejas são espaços comunitários, raros, nas nossas sociedades, quando quase todas as formas de organização (incluindo a Igreja Católica, os sindicatos, as associações culturais) estão em crise. No início deste século, os evangélicos representavam 5% da população brasileira, sendo agora quase um terço dos 212 milhões de habitantes do Brasil. Ricardo Marchi, observador (muitas vezes participante) do Chega é citado por Miguel Carvalho: “Muitos evangélicos comprometeram-se com o Chega desde o início, compartilhando vídeos e textos de fiéis brasileiros contrários à agenda da esquerda (principalmente política de género e mobilização LGBTQIA+).”

Ventura deixou nas redes o convite: “O Chega é a religião dos portugueses comuns”; “Nós somos como aquelas seitas religiosas: fortíssimos”; “Sou muito religioso e acredito que o que me aconteceu a mim e ao Chega na História de Portugal, desde o meu percurso de comentador até ao Parlamento, é um milagre”; “Quero todas as igrejas cristãs com o Chega. Todas. Sem medo nem preconceito”; “Deus no Comando!”

“Olham para Ventura como Messias político e testa de ferro dos seus interesses”, explica, no livro de Miguel Carvalho, João Viegas, pastor evangélico português. “Somos um partido de fanáticos religiosos”, acrescenta Luís Alves, ex-dirigente do Chega, em Sintra.

Poder, dinheiro e favores são a moeda de troca neste negócio político-religioso, detalha o livro.

Steve Bannon gosta de repetir uma frase estranhamente ameaçadora: "É melhor reinar no inferno do que servir no céu." (John Milton, Paraíso Perdido).

quinta-feira, 1 de maio de 2025

What are climate misinformation and disinformation and how can we tackle them?


What is the difference between climate misinformation and climate disinformation?

Climate misinformation refers to false or inaccurate information about climate change and climate action that is generally spread without malicious intent. It usually arises from misunderstandings, misinterpretations of data or simply outdated knowledge. For example, some people might misinterpret short-term weather patterns, like an extended winter season, as evidence against global warming. Despite the absence of intent to deceive, misinformation still contributes to confusion and scepticism about climate science, making it harder for people to access accurate information.

Climate disinformation, on the other hand, is deliberately false and fabricated to deceive people about climate change and climate action for political, financial or ideological reasons. It is spread by individuals or organizations with vested interests in denying or downplaying the reality of climate change and its impacts. For instance, fossil fuel companies have been known to fund campaigns that cast doubt on climate science to protect their profits.

Disinformation tactics can include cherry-picking data, promoting pseudoscience, or amplifying conspiracy theories. Unlike misinformation, which can often be corrected through education and better communication, disinformation is more difficult to address and requires targeted efforts to expose and counter the deliberate falsehoods being spread.

Both climate misinformation and disinformation undermine public trust in climate science, delay policy responses and polarize public discourse. According to the Global Risk Report 2024, misinformation and disinformation, together with the impacts of the climate and nature crises, are the biggest short-term and long-term risks to human society.
Climate misinformation is generally spread without malicious intent. Climate disinformation, on the other hand, is deliberately false and purposefully harmful for political, financial or ideological reasons.

What are the different types of climate misinformation and disinformation?
Climate misinformation and disinformation come in various forms, each serving different purposes but ultimately hindering climate action. While some outright deny climate change, others seek to delay solutions, mislead the public or promote conspiracy theories that undermine trust in science and institutions.Climate denial: Despite the overwhelming scientific consensus that human activities like burning fossil fuels are the primary driver of climate change, some people deny that climate change is real, downplay the severity of its impacts or promote the idea that it is solely a natural phenomenon. Although outright climate denial has lost credibility in mainstream discourse, it still thrives in certain political and online spaces, often resurfacing in the form of misleading arguments that exaggerate natural climate variability or misrepresent climate data. A subtler form, known as soft climate denial, is becoming increasingly prevalent in recent years. Here, individuals or groups acknowledge the impacts of climate change but tend to highlight other urgent issues as a justification for delaying or opposing responses. This approach, often framed as pragmatic, effectively serves as a guise for undermining climate action.
  • Climate delay: Climate delay strategies acknowledge the existence of climate change but aim to obstruct or hinder action. They dispute the feasibility, necessity or fairness of climate policies by claiming measures are too costly or emphasizing uncertainties and unintended consequences. For example, messaging from the fossil fuel industry aims to create panic about potential job losses and economic harm from transitioning to renewable energy sources. Because climate delay messages often seem more reasonable than outright denial, they are particularly effective at shaping public opinion.
  • Greenwashing: Greenwashing is a form of climate misinformation in which companies or institutions exaggerate or falsely claim environmental benefits to maintain their market position without making real changes. This is usually done by using imagery and language associated with sustainability such as lush forests, wind turbines or eco-friendly branding. Such tactics delay stronger policies and regulations by creating an illusion of progress.
  • Climate conspiracy narratives: Conspiracy theories about climate change attempt to delegitimize climate science, policies and activists by suggesting they are part of a hidden agenda. These narratives try to advance false claims such as climate change being a hoax designed to increase government control or renewable energy policies being part of a larger effort to manipulate economies or suppress individual freedoms.
Who spreads climate disinformation?
Considering the scale and urgency of the climate crisis, it may seem counterintuitive that individuals or organizations would deliberately create and share false or misleading information about it. However, research points to two primary motivations behind the spread of climate disinformation:
  1. Protecting fossil fuel interests and maintaining a business-as-usual scenario: Many actors, particularly within the fossil fuel industry and related sectors, have a vested interest in delaying climate action. By spreading doubt about climate science or the effectiveness of renewable energy solutions, they seek to extend the viability of fossil fuels and maintain economic gains.
  2. Gaining revenue, influence or support by exploiting the attention economy: The digital landscape rewards content that sparks strong emotional reactions like outrage or controversy. Questioning mainstream science or promoting conspiracy theories can generate more engagement on social media, translating into ad revenue, online influence or political support.
Moreover, in regions already stressed by environmental pressures such as resource scarcity and extreme weather events, climate misinformation and disinformation can exacerbate existing tensions. False information and narratives, for example around climate-induced migration and displacement, are often exploited by political actors or extremist groups to blame specific communities for climate-related hardships, creating an environment of fear and mistrust which can lead to violence and conflicts. This not only undermines local peacebuilding efforts but also links climate challenges with broader issues of security, destabilizing communities and economies while hindering integrated responses to both environmental and security threats.
Individuals can learn how to verify the accuracy of a piece of information through a series of steps including verifying the source, verifying the data and consulting with experts.

How do climate misinformation and disinformation spread?
The spread of climate misinformation and disinformation, both online and offline, is linked to social processes that shape how people interact and consume information. These dynamics contribute to the reinforcement of false narratives, making it harder to correct misinformation and disinformation once it takes hold.

As social beings, humans have the tendency to form social connections with others who share similar beliefs, interests or backgrounds. Social media platforms reinforce this behaviour by recommending new connections based on existing networks and interests. Combined with the natural inclination to trust information from familiar sources, this leads to the formation of echo chambers – closed communities where the same ideas, whether true or false, are continuously reinforced without being questioned. Over time, these echo chambers can deepen divisions on topics such as climate change.

Furthermore, many social media algorithms are designed to maximize engagement. As such, they often promote content based on a user’s past interactions, rather than its credibility or accuracy. This creates algorithmic bias, where users are more likely to see content that aligns with their existing beliefs, rather than diverse or fact-based perspectives. The effect is then amplified by confirmation bias – the psychological tendency for people to seek out and accept information that supports their pre-existing views while ignoring or dismissing contradictory evidence. As a result, misleading or sensationalized climate content can spread rapidly, especially if it resonates with a particular audience’s worldview.

Beyond organic social behaviours, false information is also actively spread by malicious actors, including bots, trolls and coordinated disinformation campaigns. These actors deliberately create and amplify misleading narratives to shape public perception, undermine trust in scientific institutions or serve certain political and economic interests.

A recent example is a rise in online abuse against climate scientists, where coordinated campaigns on social media platforms target researchers with harassment and false accusations to discredit their work. These attacks often exploit existing echo chambers, amplifying divisive narratives that portray climate science as a hoax or conspiracy. By leveraging algorithmic biases and the viral nature of sensational content, these campaigns sow doubt and erode public trust in evidence-based solutions. This not only undermines efforts to address climate change but also discourages scientists from engaging with the public, further polarizing the discourse and hindering collective action.

How can we tackle climate misinformation and disinformation?
The fight against climate misinformation and disinformation is a global effort, involving a diverse range of actors including governments, academic organizations, think tanks, media organizations, civil society and collaborative partnerships between these entities. Given the high complexity of the issue, it requires multifaceted responses, and these actors play key roles in research, policy advocacy, education and public outreach. Through specialized initiatives and campaigns, they work to address the challenges posed by misinformation, which often undermines public understanding of climate science, fuels scepticism about climate change and hinders policy action.

Recognizing that misinformation, disinformation and hate speech are fuelling conflict, threatening democracy and human rights, the United Nations launched the United Nations Global Principles for Information Integrity, a set of recommendations designed to foster healthier and safer information spaces that champion human rights, peaceful societies and a sustainable future. Moreover, in November 2024, the Brazilian government, the United Nations and the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) launched the Global Initiative for Information Integrity on Climate Change, joining forces to strengthen research and measures to address disinformation campaigns that are delaying and derailing climate action.

However, a large majority of efforts to combat climate misinformation and disinformation are still primarily based in the Global North, which often leads to a skewed focus on issues, narratives and perspectives that are more relevant to them. In this context, it is essential to build the capacities of stakeholders and institutions in the Global South to tackle climate misinformation and disinformation. By empowering local organizations, media and communities with the necessary skills, knowledge and resources, we can ensure that climate communication and responses to disinformation are more culturally appropriate and contextually relevant.

At the individual level, anyone can learn how to prevent climate misinformation and disinformation through a series of steps:
  1. Verify the source: Evaluate the credibility of the source. Is the claim from a peer-reviewed study, a reputable news outlet or a blog with no scientific backing? For scientific data, academic databases and peer-reviewed sources can be used to verify its authenticity.
  2. Verify the information: Check if the information is available from multiple sources and use fact-checkers to verify claims.
  3. Consult experts: Try to connect with scientists and subject matter experts that can corroborate the information. The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) is widely recognized as the most credible source of information related to the science of climate change.
  4. Communicate the truth: To counter climate misinformation and disinformation, evidence-based messages using simple language and relatable examples work best. Engage trusted voices and support claims with credible sources, encouraging respectful dialogue. Repetition of accurate information helps build long-term public understanding and resilience.
How does UNDP support efforts to address climate misinformation and climate disinformation?
UNDP works to address climate misinformation and disinformation through a multi‐pronged approach that combines digital innovation, capacity building and partnerships. This includes developing programmes and platforms that leverage collective intelligence, combining automated tools and crowdsourcing to identify and counter false narratives.

Digital tools such as iVerify and eMonitor+ combine AI with human fact-checking to identify, flag and counter false and misleading narratives including those for climate-related issues. Such platforms, developed as part of UNDP’s broader digital strategy to leverage Digital Public Infrastructure, harness interoperable systems for data exchange and digital identity, supporting transparency and accountability in climate action by helping to counter information that undermines scientific consensus on climate change.

UNDP also supports initiatives aimed at developing media literacy and factchecking skills among journalists, media students and young civic actors. In Somalia, UNDP trains journalists to enhance their understanding of climate change issues, their interlinkages and nuances. In Lebanon, UNDP helps equip young people with the tools to identify and debunk fake news and hate speech, including false narratives on climate change. Such efforts help reduce the polarization and confusion often fuelled by false information, particularly in regions vulnerable to climate misinformation and disinformation campaigns.

Furthermore, through initiatives like Information Integrity, UNDP is working with development organizations, governments, the private sector and civil society on campaigns to ensure information integrity on issues directly and indirectly affecting climate action.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Livro da semana - Os Engenheiros do Caos


Um livro de Giuliano da Empoli, consultor político de origem italiana e suíça. Licenciado de direito com Mestrado em Ciências Políticas, foi na política italiana que se instalou, teve cargos como conselheiro principal do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, tendo sido também conselheiro sénior do vice-primeiro-ministro e ministro da Cultura de Itália Francesco Rutelli, entre outros.

A ascensão dos populismos, na Europa e não só, ganhou a forma de uma dança desenfreada que inverte as regras estabelecidas e as transforma no seu contrário. Aos olhos dos eleitores, os defeitos dos líderes populistas são vistos como qualidades, a inexperiência deles é a prova de que não pertencem ao círculo corrupto das elites e a sua incompetência é garantia de autenticidade. Já as fake news que lhes pontuam a propaganda são a marca da sua liberdade de espírito.

No mundo de Donald Trump, de Boris Johnson, de Jair Bolsonaro ou de Matteo Salvini cada dia tem a sua gafe, a sua polémica, o seu brilharete. Ao contrário do que se possa pensar, por detrás das aparências de carnaval populista está o trabalho árduo de ideólogos, cientistas e especialistas em big data, sem os quais os líderes populistas dificilmente teriam chegado ao poder.

O livro explica muito bem o perigo da ‘internet’ e como um partido consegue reunir milhares de apoiantes utilizando apenas Fake news, mas não só, por exemplo, o Movimento 5 Estrelas não possui ideologia, ou seja, utiliza empresas consultoras para perceber qual é a opinião da maior parte do eleitorado e assim aglomerar mais apoiantes, apenas lhes interessa saber o que as pessoas querem. Estas ações têm sempre um "engenheiro" por de trás, um homem que apenas tem uma função, colocar o seu cliente no poder e até isso acontecer vale tudo!

Estes são os engenheiros do caos, cujo retrato Giuliano da Empoli pinta. Uma investigação que mostra uma galeria de personagens, muitas delas desconhecidas do público em geral, que estão a mudar as regras do jogo político. Com consequências sociais inegáveis.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

George Orwell sobre Jornalismo


Liberdade para Julian Assange e Pablo González, um jornalista basco com o azar de ter dupla nacionalidade: espanhola e russa e desde o início da guerra russo-ucraniana está na cadeia na Polónia acusado sem provas de ser espião russo, quando ele fazia jornalismo ao estilo de Bruno de Carvalho.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Long Lines Building - O mistério escondido num arranha-céu sem janelas de Nova York


Arquitectura brutalista
Projetado em 1974, pelo arquiteto John Carl Warneke, o Long Lines Building (Prédio de longas linhas, em tradução livre) fica bem no centro de Manhattan. A sua construção, contudo, não é nada usual e parece um pouco deslocada no mar de edifícios da região. Construído a partir de lajes de betão e painéis de granito, tem uma aparência cinza e funcional.

Fachadas sem aberturas não só impedem a entrada de elementos externos no edifício, mas também ajudam a manter uma temperatura constante, segundo o NYV Urbanism.

No total, o prédio conta com 170 metros de altura, divididos por 29 andares - sendo que o famoso Empire State Building mede 381 m. Só que, no caso do Long Lines, além da visível falta de janelas, cada um dos andares também conta com um pé direito altíssimo.

Ainda mais impressionante, de acordo com o site Atlas Obscura, a construção foi projetada para suportar uma quantidade absurda de peso por metro quadrado. Tudo isso com o objetivo de servir como uma grande central de telecomunicações.

Comunicação é a chave
Acontece que, desde sua criação, até hoje, o prédio na 33 Thomas Street pertence à AT&T, uma gigante da comunicação nos Estados Unidos. Quase tão resistente quanto uma fortaleza, então, o prédio servia como base para os computadores da empresa.

Os equipamentos antigos, contudo, não eram tão fáceis de transportar e de manter como os dos dias atuais. Por isso, os andares deveriam ser mais altos, devido ao tamanho das caixas de metal, e o prédio deveria ser mais resistente, pensando no peso.

Naquela época, a sede da AT&T também guardava equipamentos telefônicos de longa distância. Atualmente, além dos aparelhos, o prédio ainda serve como central de armazenamento de uma parte de dados importantes detidos pela empresa.

Planta suspeita
Projetado para guardar uma grande quantidade de informações bastante valiosas, o edifício tem uma segurança quase impenetrável. Isso sem contar as paredes resistentes, que podem resistir a uma explosão nuclear, permitindo que os sistemas continuem em pleno funcionamento por duas semanas, mesmo sem contato com uma rede fixa.

O problema é que, segundo o The Intercept, as potentes estruturas do Long Lines estão sendo usadas para um segundo propósito, que não o comercial da AT&T. Em matéria publicada em novembro de 2016, o veículo afirmou que o edifício também serve como um centro de espionagem da NSA (Agência de Segurança Nacional).

De acordo com a denúncia, o arranha-céu teria o codinome de ‘Titanpointe’ e, entre as suas paredes sem janelas, guardaria escutas telefónicas e equipamentos utilizados para coletar dados governamentais. Por isso, inclusive, poucos teriam acesso ao seu interior.

O edifício também conta, segundo a reportagem, com três subsolos, abastecidos com comida o suficiente para que 1,5 mil pessoas se alimentem por duas semanas em caso de catástrofe. 
Segundo o The Sun é uma das construções mais seguras dos Estados Unidos, capaz, inclusive de resistir a uma explosão nuclear!

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Marty, o norte-americano que faz a diferença


O racismo, a xenofobia e o ódio não são divisíveis por dois
Os EUA, que possuem as leis sobre armas mais flexíveis do mundo, têm o maior número de tiroteios em massa do mundo. Os cidadãos dos EUA lideram o mundo em termos de posse de armas, com estimativas sugerindo que havia 390 milhões de armas em circulação em 2018, com uma taxa de 120,5 armas por 100 residentes.
Há um solitário activista, Marty, agora com 81 anos, desde há 5 anos mantém o seu posto diariamente em frente à Casa Branca, com este cartaz. Filho de imigrantes, pretende com o seu protesto que os americanos exerçam a sua tradicional amizade em vez de fomentar o ódio e a divisão.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Sobe para 403 número de vítimas do massacre de Shakahola no Quénia

Doze novos corpos foram encontrados hoje na floresta de Shakahola, onde se reunia uma seita evangélica que praticava o jejum extremo, elevando para 403 o número de mortos neste escândalo macabro que abala o Quénia, anunciou um responsável regional.

"A nossa equipa forense conseguiu exumar 12 corpos hoje", disse Rhoda Onyancha, o prefeito da região costeira, numa mensagem enviada à agência AFP, apontando um total de 403 mortos.

As autoridades esperam que o número de mortos aumente ainda mais, à medida que prosseguem as buscas de valas comuns numa vasta área de mato na costa queniana, quase três meses depois de terem sido descobertas as primeiras vítimas do que foi apelidado de "massacre da floresta de Shakahola".

A polícia acredita que a maioria dos corpos exumados é de seguidores da Igreja Internacional da Boa Nova, fundada pelo autoproclamado pastor Paul Nthenge Mackenzie, que defendia o jejum até à morte para "encontrar Jesus".

O antigo motorista de táxi está detido desde 14 de abril e será acusado de "terrorismo".

Outras 16 pessoas são acusadas de fazer parte de um grupo de "capangas" responsáveis por garantir que nenhum seguidor quebrasse o jejum ou escapasse da floresta, perto da cidade costeira de Malindi.

As autópsias efetuadas até agora revelaram que a maior parte das vítimas morreu de fome, provavelmente depois de seguir as suas pregações. No entanto, algumas vítimas, incluindo crianças, foram estranguladas, espancadas ou sufocadas, de acordo com as autópsias.

O massacre causou grande agitação no Quénia e pôs as autoridades debaixo de fogo por não terem conseguido impedir as atividades do pastor Mackenzie, que tinha sido detido várias vezes devido às suas pregações extremistas.

Reacendeu também o debate sobre a regulamentação do culto religioso neste país predominantemente cristão, que conta com 4.000 "igrejas", segundo dados oficiais.

O Presidente William Ruto criou um grupo de trabalho para "rever o quadro legal e regulamentar que rege as organizações religiosas".

O ministro do Interior anunciou que a floresta de Shakahola será transformada num "lugar de memória".


A missão do grupo era propagar o evangelho de Jesus Cristo, sem a interferência da razão humana. A Igreja Internacional das Boas Novas, da qual o líder fazia parte, afirmava que sua missão era nutrir os fiéis em todas as áreas da espiritualidade cristã, preparando-os para a segunda vinda de Jesus Cristo.

Paul Mackenzie Nthenge é acusado de ser responsável pelas mortes de seus seguidores, que foram submetidos a uma “lavagem cerebral” que incluía jejuns como forma de “conhecer Jesus”.

Além disso, a imprensa local afirma que o líder da seita incentivava os pais a matar seus filhos em nome de Deus. Paul, pai de sete filhos, nega as acusações e diz que isso é ensinado em seu tipo de cristianismo, mas afirmou que parou de pregar em 2019.

Durante uma entrevista recente, o Pastor Mackenzie negou as acusações feitas contra ele e afirmou que fechou sua igreja em Malindi em agosto de 2019. Ele também vendeu os equipamentos e cadeiras da igreja e alertou os seguidores que, se ainda estiverem adorando com ele, devem fazê-lo por conta própria.
 

Conhecido como o pastor Paul Mackenzie Nthenge, o líder da Igreja Internacional das Boas Novas, que ele mesmo fundou em 2003, é um ex-taxista cuja pregação extrema o levou à prisão antes mesmo do polémico caso. Acusado de ter levado seus seguidores a morrerem — literalmente — de fome no leste do Quénia, Nthenge está atualmente sob custódia da polícia.

O site da organização de Paul diz que ela foi "criada em 17 de agosto de 2003 pelo seguidor de Deus PN Mackenzie". Com filiais em várias regiões do país, a Igreja conta com mais de 3.000 membros, inclusive, mil deles somente na cidade costeira de Malindi.

Com ideias chocantes e absurdas, Paul lançou um canal no Youtube em 2017 com o objetivo de partilhar os seus sermões da sua igreja, sempre alertando os seus fiéis sobre práticas "demoníacas", como usar perucas, fazer transações digitais sem dinheiro vivo e até mesmo estudar.

Mensagem dos Últimos Tempos
Responsável por um programa intitulado "Mensagem dos Últimos Tempos", que oferecia "ensinamentos, pregações e profecias sobre o final dos tempos, comumente chamados escatologia". Ele dizia que sua missão era "levar o evangelho do nosso senhor Jesus Cristo livre do engano e do intelecto do homem".

Além disso, a Igreja Internacional das Boas Novas diz que "a missão deste ministério é nutrir os fiéis de forma holística em todas as áreas da espiritualidade cristã, enquanto nos preparamos para a segunda vinda de Jesus Cristo através do ensino e da evangelização".

Os crimes antes do massacre
O líder da seita foi preso pela primeira vez este ano, por promover a não escolarização das crianças, afirmando que a educação não era algo reconhecido pela Bíblia. Ele também foi preso no mês passado "após ser vinculado à morte de duas crianças que, supõem-se, teriam morrido de fome por instruções deste criminoso", como apontado pelo chefe da polícia do Quénia, no entanto, pagou uma fiança de 100.000 xelins quenianos (cerca de R$ 3,7 mil) e foi libertado.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Remédios contra o avanço da extrema-direita na Europa

Manifestantes de extrema-direita em Bruxelas, Bélgica, em Março de 2016

1. Remédios para uma doença perigosa
Para um democrata, o avanço da extrema-direita será comparável a uma doença que progride, enfraquece e pode ser fatal para o regime político característico dos países da União Europeia: a democracia liberal e de forte cunho social. Uma doença que pode ser diagnosticada e combatida, havendo remédios que, se tomados a tempo e nas doses certas, são eficazes.

Este texto, que é o desenvolvimento da intervenção que fiz na conferência realizada em Lisboa, em 23 de janeiro, pelo projeto Next Left e o Partido Socialista, procura contribuir para identificar tais remédios. Através de três perguntas: onde deve estar o foco da nossa atenção?; que responsabilidades tem a esquerda democrática?; quais devem ser os eixos do combate político e intelectual?

2. O foco da nossa atenção
A meu ver, devemos praticar um duplo foco.

Por um lado, concentrar o combate na extrema-direita, não só por uma razão tática — é ela que cresce por toda a Europa — mas também e sobretudo por uma razão de fundo. É que é falso o argumento da suposta equivalência política ou moral entre os dois extremos. Quem coloca em crise o sistema democrático no seu conjunto e a cultura humanista que lhe subjaz é a extrema-direita. É ela que glorifica a violência, perfilha a xenofobia, a homofobia, o ultranacionalismo; é ela que contesta as regras eleitorais quando o resultado não serve, que é radicalmente contra a razão e o pluralismo.

Por outro lado, não devemos ignorar que o populismo, que é um dos principais ingredientes do extremismo de direita, não está confinado a ele, antes se dissemina pelo espectro político; e assume particular relevo no radicalismo de esquerda que também clama contra o “sistema” e advoga métodos profundamente antidemocráticos, da violência urbana às chamadas greves “self-service”. Ora, isso apaga as fronteiras e facilita a circulação entre os dois extremos.

O populismo tem ainda permeado a lógica de comunicação dos média de grande circulação, das redes sociais e até de parte da opinião publicada. E mesmo as forças políticas e sociais democráticas têm tolerado excessivamente o uso de linguagem populista no seu interior.

3. As responsabilidades da esquerda democrática
Não há um ponto de vista de Sírio para refletir e agir sobre o avanço da extrema-direita. Cada um/a falará a partir da sua inclinação doutrinária. A área política em que me situo (no contexto europeu, esquerda democrática, centro-esquerda, social-democracia, socialismo democrático ou trabalhismo) tem responsabilidades próprias, que deve assumir sem qualquer hesitação.

A primeira é demarcar-se clara e constantemente da extrema-direita. Uma demarcação totalmente lógica, já que os valores que esta contraria são os das Luzes, de que a esquerda europeia, democrática e progressista é uma das principais herdeiras. E totalmente necessária, seja porque a esquerda democrática não pode ignorar o facto de ser um dos alvos principais da extrema-direita, seja porque, infelizmente, vemos demasiada tolerância e até cumplicidade da parte do centro-direita, em vários países europeus.

A segunda responsabilidade é denunciar o populismo onde quer e sob que forma exista, no campo político, laboral ou cultural; e recusar todas as estratégias políticas que estigmatizam o diálogo entre as correntes centristas e diluem a esquerda moderada e reformista num amálgama de “insubmissos” que tomam por alvo preferencial as instituições democráticas.

A terceira responsabilidade é combater os líderes e os movimentos extremistas, não o seu eleitorado. Todos sabemos que uma grande parte da sua força provém de perceções e sentimentos populares de medo, desigualdade, desamparo e frustração, os quais não podem ser negados, antes compreendidos. Contestar as respostas erradas e perigosas dos extremistas passa por encontrar, para as perguntas que as pessoas fazem, respostas ponderadas e mobilizadoras. E, por muito que nos custe, uma parte do eleitorado extremista sai ou pode sair das nossas próprias fileiras — e temos de reconquistá-lo.

A quarta responsabilidade é a coerência. A esquerda democrática tem um programa, que vai certamente evoluindo, mas que parte de valores e propostas fundamentais, os quais não podem ser sacrificados aos ventos de ocasião. A institucionalidade democrática, a economia social de mercado, regulada por instituições públicas fortes, o crescimento para e através da redistribuição, a igualdade, inclusão e não-discriminação, a universalidade e sustentabilidade dos sistemas sociais, o ambientalismo, a fiscalidade progressiva, o cosmopolitismo, a paz e a ordem internacional baseada em regras, todos são elementos essenciais do ideário progressista, que não podem ser trocados ao sabor das flutuações da opinião. E o mesmo se diga da base social em que assenta, histórica e contemporaneamente, o centro-esquerda: os trabalhadores de todos os setores de atividade, os pensionistas, os jovens e as jovens famílias de todas as configurações, os novos deserdados da economia digital desregulada, os migrantes e outros grupos vulneráveis, tais são os grupos e interesses que nos justificam, em conjunto certamente com os quadros, os empreendedores ou os intelectuais, mas que não podem ser esquecidos em prol apenas destes últimos.

A quinta e última responsabilidade da esquerda democrática europeia é não se deixar iludir pelas lutas de trincheira em torno das “identidades” (que tanto têm envenenado a atmosfera política nos Estados Unidos ou no Brasil). As lógicas de polarização, exclusão e cancelamento recíproco que animam tais lutas são totalmente estranhas à tradição da esquerda que, desde a grande rutura com o comunismo, nunca alinhou em guerras, fossem elas de classes, “culturais” ou “identitárias”; sempre reconheceu e valorizou as interseções culturais e as identidades múltiplas; e sempre cultivou a integração, o diálogo e o compromisso. Aliás, é bom de ver que a atitude de moderação no debate político e social é o grande alvo de todos os extremismos — exatamente porque representa um dos maiores antídotos contra ele.

4. Os eixos do combate
Onde devemos, então, conduzir o combate contra o avanço da extrema-direita?

Começando mesmo em casa. As forças democráticas devem prestar toda a atenção do mundo à defesa da integridade. Integridade moral, não mostrando nenhuma condescendência com as ofensas à lei e os desvios à ética do serviço público praticados no seu seio, os quais despertam, compreensivelmente, revolta contra o “sistema” das instituições republicanas. E integridade política, assumindo todas as dimensões de uma ação que não pode reduzir-se ao protesto contra tudo e à defesa incondicional do statu quo (e das vantagens que ele conceda a certos nichos do mercado laboral). A ação política implica a responsabilidade de aspirar a governar e de governar em nome do interesse geral, realizando reformas e induzindo mudanças através de políticas públicas consequentes.

Nas instituições democráticas, o eixo principal de combate é mesmo a defesa do Estado de direito e do regime representativo. O que, de um lado, significa a recusa de qualquer forma de justicialismo, entendido como a entrega à justiça da gestão de questões políticas (designadamente, as apreciações de mérito, e não apenas de legalidade, das decisões administrativas). A violação da separação de poderes e a suspensão prática das garantias de processo justo (através, por exemplo, da condenação antecipada nos média), ainda que pareçam à primeira vista virtuosas ou eficazes na luta contra a corrupção, têm como efeito necessário, a curto ou médio prazo, o crescimento do extremismo e o definhamento da democracia.

Do outro lado, trata-se de defender intransigentemente a representação pluralista de todas as correntes políticas com um mínimo de expressão social, tal como determinada pelas eleições; e não hesitar na exigência do cumprimento das regras de debate livre, público e informado, combatendo as lógicas de cancelamento, o discurso de ódio e a desinformação. Respeitadas tais regras, a democracia vive mesmo da confrontação de ideias e de políticas, porque é ela que permite a diferenciação e, assim, quer as escolhas quer os compromissos. Senão, a aparência de que “é tudo farinha do mesmo saco” leva inevitavelmente à ascensão dos extremos.

Por último e muito importante: o eixo do espaço público. Quer dizer: o que compreende não apenas as instituições do Estado e os partidos, mas também os parceiros sociais, as organizações não governamentais, as associações económicas e profissionais, a comunicação social, as plataformas digitais de comunicação e circulação de informação. Aí, o que se pede a todos quantos queiram travar o crescimento da extrema-direita (e o populismo que a alimenta) são três atitudes firmes.

Primeiro, a recusa da degradação da lógica comunicacional. E não há que ter medo de dizer as coisas: a degradação dos termos de debate, substituindo os argumentos pelos insultos, substituindo as trocas de ideias pelos ataques de caráter e substituindo a avaliação das políticas (a qual inclui, obviamente, a avaliação da sua legalidade) pelo desnudamento sem limites da pessoa de cada ator político (e seus familiares e amigos), debilita todos quantos, no campo democrático, lhe sucumbem. Por isso insisto neste aviso às forças civilizadas: a obsessão de inventar a torto e a direito podres uns nos outros alimenta uma corrida para a lama, de que o único beneficiário é quem, aí, se sente totalmente à vontade, isto é, a extrema-direita.

A segunda atitude firme que é indispensável tomar é a defesa sem vacilação dos instrumentos principais de mediação da informação: o jornalismo e a razão científica. A sua independência é condição sine qua non da vitalidade democrática.

E, finalmente, a solução não pode nem deve consistir na contestação geral ou no abandono liminar dos meios de comunicação, sejam eles os meios convencionais, sejam as plataformas e redes digitais. Mas sim em usá-los, procurando favorecer neles um discurso argumentativo. Esse que seja fiel ao lema fundamental do mundo do conhecimento, da liberdade e da democracia, que a Europa foi construindo e que a extrema-direita quer sacudir: o ódio mata, a razão emancipa, o diálogo inclui.