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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Ilwad Elman - Foco e Filosofia

"O colapso ecológico e o colapso da governação estão intrinsecamente ligados. Eles reforçam-se mutuamente. E as consequências não são apenas locais. São globais." - Ilwad Elman

Ilwad Elman é uma das mais influentes ativistas somali-canadianas da atualidade, centrando a sua atuação na intersecção entre a paz, a segurança e os direitos humanos.  Filha de pais também eles ativistas, Ilwad, nascida em 1989, na Somália, viveu parte da sua juventude no Canadá, mas decidiu regressar à Somália em 2010 para se juntar à sua mãe, Fartuun Adan, na gestão do Elman Peace and Human Rights Centre. Este centro foi fundado em memória do seu pai, Elman Ali Ahmed, um pacifista assassinado em 1996 pelo seu trabalho de reabilitação de jovens afetados pela guerra.

Em 2010, quando regressaram, o conflito ainda era intenso e a maioria das regiões de Mogadíscio e do Centro-Sul da Somália haviam sido perdidas para o controle do grupo terrorista Al-Shabaab, ligado à Al-Qaeda. Gradualmente, a organização Elman Peace foi pioneira em toda a Somália nas prioridades temáticas sobrepostas de paz e justiça, clima e segurança, direitos humanos e proteção, questões de género e igualdade, educação, meios de subsistência e criação de empregos.

Em 20 de novembro de 2019, as autoridades locais confirmaram que uma de suas irmãs, Almaas Elman, que também havia retornado à Somália como trabalhadora humanitária, foi morta a tiros num carro, perto do Aeroporto Internacional Aden Adde, em Mogadíscio

Ao longo da sua carreira, Ilwad destacou-se pela implementação de programas inovadores de desarmamento e reintegração social, focando-se especialmente na recuperação de ex-crianças-soldado e na proteção de mulheres sobreviventes de violência sexual. O seu trabalho ganhou uma dimensão global através do seu envolvimento como conselheira das Nações Unidas, onde tem defendido que a estabilidade política não pode ser dissociada da justiça social e, cada vez mais, da sustentabilidade ambiental.

Como sugere a citação na imagem, Elman é uma das vozes líderes na sensibilização para a segurança climática. Ela argumenta que a degradação ambiental e a escassez de recursos provocada pelas alterações climáticas e desigualdade promovidas por políticas belicistas e de lavagem verde, exacerbam os conflitos armados, principalmente no Sul Global e alimentam a sua instabilidade política, tornando a justiça ecológica um pilar fundamental para uma paz duradoura.

Pelo seu impacto humanitário, foi já nomeada em várias ocasiões para o Prémio Nobel da Paz, consolidando-se como uma das vozes mais respeitadas na resolução de conflitos em contextos complexos.

Recentemente, o seu percurso académico e contributo para a paz foram reconhecidos com distinções honorárias, incluindo um Doutoramento Honoris Causa em Direito (LL.D.) pela Carleton University, em reconhecimento pelo seu trabalho humanitário e liderança global.

terça-feira, 17 de março de 2026

Mohommad Paktyawal, cidadão norte-americano, serviu o País durante a guerra do Afeganistão, morreu 24 horas depois, nas mãos do ICE

Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em veículos não identificados, cercaram Mohommad Nazeer Paktyawal em frente à sua casa, no Texas, quando ele se preparava para levar os filhos à escola. O homem de 41 anos, pai de seis filhos, que tinha servido ao lado do 3.º Batalhão das Forças Especiais do Exército dos EUA no Afeganistão, morreu sob custódia do ICE no dia seguinte.

After working with the U.S. military in Afghanistan, Mohommad Nazeer Paktyawal died in the country he spent years of his life helping.
The cruelty is endless.

Toda a história aqui e aqui
História detalhada aqui



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Roberta Mameli, Verso già l'alma col sangue


Verso già l'alma col sangue faz parte de Aci, Galatea e Polifemo uma serenata dramática (uma espécie de ópera curta ou cantata encenada) composta por Handel em 1708, durante sua estadia em Itália.

Letra
Aci:
Verso già l’alma col sangue, 
lento palpita il mio cor.
Già la vita manca e langue 
per trofeo d’empio rigor.

A ária "Verso già l'alma col sangue" é o momento clímax e trágico da obra. Ela é cantada por Aci (Ácis), um jovem pastor que está a morrer.

O triângulo amoroso: Aci e a ninfa marinha Galatea estão profundamente apaixonados. No entanto, o ciclope Polifemo também deseja Galatea e nutre um ciúme doentio pelo pastor.

A tragédia: em um acesso de fúria, Polifemo esmaga Aci com um enorme rochedo.

A despedida: enquanto a vida se esvai ("a alma se verte com o sangue"), Aci canta esta ária expressando o seu sofrimento e a injustiça da crueldade ("empio rigor") de Polifemo.

O desfecho: após a morte de Aci, Galatea usa os seus poderes divinos para transformar o sangue do seu amado numa fonte de água cristalina (o rio Ácis, na Sicília), para que ele possa correr eternamente até o mar e unir-se a ela.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O problema com Stephen Miller é que ele não sente vergonha. O arquiteto da política de imigração de Trump cometeu um erro em Minneapolis



Depois da morte do enfermeiro norte-americano Alex Pretti às mãos do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA, as atenções começam a virar-se para Stephen Miller, o principal conselheiro de Donald Trump, responsável por redesenhar a política de imigração do país.

Nas redes sociais, Miller não demorou a classificar a vítima como um “aspirante a assassino”, que tentou matar agentes federais”, apenas algumas horas depois do confronto fatal entre as forças do ICE e o homem de 37 anos. Mas nem Donald Trump parece concordar com a afirmação, tendo assegurado esta terça-feira que “não” acredita que Pretti fosse um assassino.

No mesmo dia, em declarações à CNN, Stephen Miller admitiu que os agentes “podem não ter seguido” o protocolo adequado antes do tiroteio que tirou a vida a Pretti - uma posição insólita vinda de alguém conhecido por reforçar as suas convicções, de acordo com o The Guardian.

Antes de ser contrariado pelo próprio presidente, já se levantavam dúvidas sobre a ausência do conselheiro na reunião de duas horas que Donald Trump realizou com a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, esta segunda-feira, de onde saiu um novo anúncio: foi destacado para Minneapolis o “czar da fronteira” da Casa Branca, Tom Homan, para “recalibrar as táticas” e melhorar a cooperação com as autoridades estatais e locais.

Além de Homan ser conhecido por criticar a abordagem de Stephen Miller, Donald Trump manteve ainda telefonemas cordiais com o governador do Minnesota, Tim Walz, e com o presidente da Câmara de Minneapolis, Jacob Frey.

“O problema com Stephen Miller é que o mal é resiliente. Ele não sente vergonha, não acha que isto seja algo mau. Está convencido de que outras pessoas o envergonharam, mas não acredita que ele esteja a conduzir um ataque às liberdades constitucionais dos americanos”, afirmou Rick Wilson, co-fundador do Lincoln Project (um grupo anti-Trump), citado pelo mesmo jornal.

Em maio do ano passado, o conselheiro de Trump encomendou ao serviço de imigração três mil detenções diárias, um aumento de quase dez vezes relativamente ao ano anterior. Segundo, Larry Jacobs, diretor do Centro para o Estudo da Política e Governação da Universidade do Minnesota, o abuso de poder de Miller foi um dos principais fatores a desacreditar a política de deportação de Donald Trump.

“O facto de ele ter sido afastado da reunião na Casa Branca é uma mensagem forte para Washington de que o presidente não aprova este processo e de que tem de haver uma mudança”, reforça o responsável, afastando, ainda assim, a possibilidade de Miller vir a ser despedido. “Não espero que Stephen Miller seja despedido, porque Donald Trump apoia a política, só não apoia a forma como foi executada”, sublinhou Larry Jacobs.

Apesar de os democratas terem avançado com uma iniciativa para destituir Kristi Noem, os especialistas não têm dúvidas de que o verdadeiro culpado da tragédia de Minneapolis é Miller, que ocupa ainda o cargo de vice-chefe de gabinete da Casa Branca.

Larry Jacobs destaca Stephen Miller como o verdadeiro “arquiteto” que “tem pressionado o ICE para endurecer e apresentar mais números, trazer pessoas e só depois ver se são as pessoas certas”.

“A imprudência, a brutalidade, a falta de processo legal. Tudo isso tem raízes em Stephen Miller”, frisou o especialista.

Depois do erro de Minneapolis, o principal conselheiro de Donald Trump “terá um papel público muito menor no futuro previsível”, afirmou Henry Olsen, investigador no Ethics and Public Policy Center, em Washington.

“É claro que Trump pessoalmente não gosta, do ponto de vista das relações-públicas, do que tem estado a acontecer, e é sensível a isso, sempre foi. Ele sabe, tanto pelo seu instinto como pelo que os dados lhe dizem, que Miller e Noem não se favoreceram com a forma como abordaram imediatamente a morte” de Pretti.

Mesmo assim, corrobora a opinião dos investigadores que não acreditam numa demissão de Miller: “Ele está com Trump há bastante tempo e o presidente não tem problemas em livrar-se de subordinados que não rendem, mas suspeita-se que Miller, em muitos aspetos, está a render e, por isso, Trump não o vai atirar borda fora precipitadamente.”

“Stephen Miller é demasiado dominante no esquema mental de Trump sobre o que a base MAGA quer, para ser verdadeiramente afastado do seu círculo. Não acho que exista um mundo em que Miller não mantenha a sua autoridade e o seu poder junto de Trump”, corrobora Rick Wilson.

Henry Olsen sublinha que é do interesse de Donald Trump manter Miller por perto, já que o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, rende onde interessa ao presidente: na televisão. É um defensor combativo de Trump, que caracteriza os democratas como uma “organização extremista doméstica” e a América como líder de um mundo “governado pela força, governado pela violência, governado pelo poder”.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Trump goza com a morte de Rob Reiner e provoca indignação nos EUA


Até Republicanos de renome já vieram a público com opiniões críticas sobre o seu texto.

Horas após a confirmação das mortes, Donald Trump recorreu à sua rede social para comentar o caso, descrevendo Reiner como um antigo “talento” que teria enlouquecido devido à sua obsessão com o Presidente. Trump afirmou que o realizador sofria de algo a que chamou “Trump Derangement Syndrome”, insinuando que essa alegada condição teria contribuído para o desfecho trágico.

A publicação foi amplamente criticada nos Estados Unidos, tanto por figuras políticas como por representantes da indústria do entretenimento, sendo vista como um exemplo extremo da degradação do discurso público em torno de uma tragédia pessoal. A Reuters sublinha que Trump não apresentou qualquer evidência para as suas afirmações, limitando-se a atacar um opositor político já falecido.

Um cineasta central da história de Hollywood
Rob Reiner começou a sua carreira como actor, tornando-se conhecido como “Meathead” na série Uma Família às Direitas, antes de se afirmar como realizador de alguns dos filmes mais emblemáticos dos anos 80 e 90. Entre os seus trabalhos contam-se This Is Spinal Tap, Conta Comigo, A Princesa Prometida, Quando Harry Conheceu Sally, Misery – O Capítulo Final e Uma Questão de Honra.

Para além do cinema, Reiner era também um activista político assumido, crítico feroz de Donald Trump e presença regular no debate público norte-americano. Essa postura tornou-o uma figura polarizadora, mas também uma voz influente dentro de Hollywood.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O encontro desejado de Cristiano Ronaldo com Trump e as Arábias


Jamal Khashoggi era colunista do Washington Post quando foi assassinado dentro do consulado saudita em Istambul, a mando do governo saudita. O mundo inteiro condenou o crime em 2018, com exceção de Trump. Não se tratava de um mero "things happen". Tratou-se de um assassinato cruel sancionado pelo Estado, motivado pelo exercício da liberdade de expressão. 
Agora Trump 2025 insiste na tecla "Aconteceram coisas, mas o Príncipe não sabia de nada, e podemos ficar por aí", disse aos jornalistas, no Salão Oval. 𝐌𝐞𝐧𝐭𝐢𝐮!! Em novembro desse ano, um relatório da CIA, divulgado na imprensa americana, concluiu Mohammad bin Salman de ter ordenado a morte de Khashoggi, o que causou furor internacional e tensões diplomáticas.
Donald Trump acrescentou ainda que Jamal Khashoggi era "uma pessoa extremamente controversa" (???). 
Mohammed ben Salman disse, por sua vez, que a morte do jornalista foi dolorosa e que a Arábia Saudita fará tudo o que está ao seu alcance "para que não volte a acontecer".
As declarações surgem após o anúncio de um investimento saudita de quase um bilião de dólares nos Estados Unidos, durante a primeira visita do príncipe aos EUA desde 2018.
O The New York Times já tinha avançado que o craque da Seleção portuguesa e do Al Nassr ia regressar aos Estados Unidos, avançando com a marcação de um jogo amigável entre Estados Unidos e Portugal, para março de 2026.
Essa será a primeira vez que Cristiano Ronaldo vai jogar em solo norte-americano desde 2014, altura em que defrontou o Manchester United com a camisola do Real Madrid, a 2 de agosto daquele ano.
Pela Seleção jogou nesse mesmo verão a Nova Jérsia, a 10 de junho, contra a República da Irlanda.
Portanto Cristiano Ronaldo está assim de regresso aos Estados Unidos, país onde não joga há mais de 11 anos, e onde tem uma polémica com Kathryn Mayorga, professora que acusou o jogador de violação em 2017, numa entrevista dada ao jornal alemão Der Spiegel, e num caso que remonta a 2009, quando o jogador esteve de férias em Las Vegas.
Desde então que a presença de Cristiano Ronaldo em solo norte-americano tem sido uma questão polémica, não havendo quaisquer registos públicos do jogador naquele país - o último data de 2016. A ausência foi particularmente notada depois de jogos da Juventus terem sido reagendados para outros locais quando o jogador representava o clube italiano.
No dia em que internamente Donald Trump é pressionado para libertar os ficheiros de Epstein, o jantar de  Cristiano Ronaldo com Donald Trump e  Mohammed ben Salman é uma espécie de sportswahing atendendo que os três são figuras internacionais com escândalos e Ronaldo funcionará como um troféu para a melhoria da imagem de países com problemas de direitos humanos, como a Arábia Saudita e EUA.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Ensaio - Contra a boçalidade, polarização, ódio, desinformação e reforço positivo nos jovens


Bom dia, amigos. Um dia de resistência. Uma greve geral!                            
Lembrei-me deste tema que se tronou um ícone da música gótica nos anos 80 e é muito actual.
Há músicas que falam de paisagens interiores — desertos de emoção, mares contidos, ventos que nos atravessam sem deixar rasto. “No Time to Cry”, dos Sisters of Mercy, é uma dessas paisagens sonoras: fria à superfície, mas pulsante por dentro.
Lançada em 1985, é uma confissão disfarçada de resistência. O narrador ergue-se entre ruínas afectivas e declara: “não há tempo para chorar”. Não por falta de sentimento, mas porque a dor já se tornou parte do caminho.
A voz grave de Andrew Eldritch ecoa como um mantra urbano — o cântico de uma humanidade que aprendeu a conter o pranto para sobreviver num mundo acelerado e distraído.
"I've got no time to cry" — sugere que o narrador tenta fugir das emoções, mantendo-se ocupado ou emocionalmente desligado.

Acontecimentos recentes daquele jovem de 14 anos que matou a mãe, ou ainda a filha que esfaqueou o pai. Chocou o País. Já foram ditas muitas opiniões. Na minha opinião a falta de barreiras na educação nos anos iniciais leva a que filhos pensem que podem tudo, que têm direito a tudo sem perceberem que têm igualmente deveres. Incapacidade de aceitarem o "não" às suas vontades, leva a comportamentos destes. Porém há que dizer sempre aos filhos que tal como a natureza, também o ser humano alterna entre ciclos de retraimento e renascimento. Há que dizer aos filhos o Não com convicção, para lhes fornecer ferramentas de integração social.  Há épocas em que o inverno domina a alma, e o gelo emocional é a única defesa possível. Nessa altura cabe à família a escuta e dizer-lhes sempre acreditar no Amor, porque na Natureza também há que sobreviver e as espécies, mesmo nesse silêncio, progridem e reinventam-se. Adaptam-se e avançam com novas estratégias.   

Claro que hoje em dia a tarefa dos pais é muito mais desafiante.. As redes sociais criam dependência, espalham violência, das mais variadas formas. A extrema direita está a alimentar o lado mais fraco que todos temos, está-se a banalizar o ódio, afectando a saúde mental de pais e filhos. Estas situações curam-se com pedagogia, da presença, dos bons exemplos, na família, amigos e até em comunidades. A comunicação social podia e devia ajudar. Porém o que se vê é explorar a violência até ao infinito (Correio da Manhã, p.ex.), dar palco à extrema-direita,  que alimentam o tal lado mau da humanidade. A média perdeu todo o seu sentido pedagógico: não fornece exemplos de altruísmo, de educação ambiental.  E também não podemos esquecer o espectáculo de boçalidade que ocorre com cada vez maior frequência e maior intensidade na AR. Porém, chegar a casa e conversar. Sem net, sem  TV. Ouvir os filhos, netos. 

Aos pais, avós e jovens, estou sempre a dizer: confiem, inspirem-se, leiam mais, adiram a alguma associação ambiental e ou de solidariedade. E façam actividades comuns junto da Natureza. Não adiem o Amor universal.

"No Time to Cry” é, assim, um espelho do nosso tempo: uma elegia à contenção, um hino à resistência emocional e, quem sabe, um lembrete de que até o mais frio dos corações espera pela primavera. É um processo individual e de escuta. E isso faz-se com activismo pró-activo, afectos, cooperação e gregarismo 🌿

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O dia em que um filósofo se irritou e salvou a sua vida: Espinosa, o autor judeu português que vivia à frente do seu século XVII


Um dos mais influentes historiadores do Iluminismo, Jonathan Israel, professor britânico que integrou o Institute for Advanced Study de Princeton, publicou recentemente “Spinoza, Life and Legacy”, uma impressionante biografia de Bento Espinosa, a quem Israel atribui o título de verdadeiro fundador do Iluminismo Radical — corrente filosófica que lançou as bases das ideias modernas de democracia.

Baseando-se nas mais de 1300 páginas desta extensa obra, Rui Tavares detém-se num episódio que Israel optou por omitir: aquele em que Espinosa, ao confrontar um crime bárbaro de motivação política, revela uma faceta intensamente humana e apaixonada, perdendo as estribeiras.

Que evento terá provocado tamanha irritação no autor do “Tratado Teológico-Político”? Neste episódio, somos convidados a redescobrir a biografia, o pensamento e a pertinência do legado filosófico e político de Espinosa, trazendo à luz uma reflexão que ressoa nos desafios contemporâneos.

O Episódio: o massacre dos Irmãos de Witt
O evento ocorreu em 1672, o "Ano do Desastre" para a Holanda. O país estava a ser invadido pela França e pela Inglaterra. A turba enfurecida e manipulada por fanáticos religiosos culpou os líderes liberais do país, Johan e Cornelis de Witt, que eram amigos e protetores de Espinosa, tendo sido eleito  Príncipe de Orange - Guilherme III. 
Os irmãos foram arrastados por uma multidão linchadora em Haia, assassinados de forma bárbara e os seus corpos foram mutilados (reza a lenda que partes foram inclusivamente comidas pelos agressores).
Ao saber do horror, Espinosa — que raramente perdia a compostura — teve um surto de indignação. Preparou um cartaz onde escreveu:

"Ultimi Barbarorum" (Os Últimos dos Bárbaros)

Ele pretendia levar o cartaz até ao local do massacre e exibi-lo diante da multidão enfurecida. Teria sido um suicídio certo. O que salvou a vida de Espinosa foi o seu senhorio que, percebendo o perigo, trancou a porta da casa à chave e impediu o filósofo de sair. Graças a essa tranca, Espinosa viveu mais cinco anos para terminar a sua obra-prima, a Ética.


O pensamento de Espinoza
O pensamento de Espinosa exerce um fascínio duradouro sobre intelectuais de diversas áreas devido à sua visão revolucionária da realidade e da natureza humana. O ponto central da sua filosofia é a ideia de que Deus e a Natureza são a mesma coisa, uma substância única e infinita que segue leis necessárias, o que remove a figura de um Deus justiceiro e coloca a racionalidade no centro da existência. Esta perspectiva atraiu figuras como Albert Einstein, que afirmava acreditar no "Deus de Espinosa". Além disso, o filósofo substituiu a moral baseada na culpa e no pecado por uma ética da alegria e da potência, onde o bem é aquilo que aumenta a nossa capacidade de agir e pensar, enquanto o mal é o que nos diminui. Ao defender que a liberdade nasce da compreensão das causas que nos determinam e ao ser um pioneiro na defesa da democracia e da liberdade de expressão, Espinosa tornou-se o filósofo da libertação intelectual e emocional, mantendo-se atual tanto na ciência como na política contemporânea.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Relembrar a fascinante obra de Albert Camus - "O Estrangeiro"


O "estrangeiro" por vezes somos nós próprios!! É essa a grande lição deste livro. Não há fronteiras. Nesta obra profundamente simbólica e do absurdo, alerta-nos que a condição humana é sufocante e "estranha" a toda a gente. Há que alertar para a situação que as pessoas podem ser estrangeiras quando tu és estranho.

E no mundo actual o absurdo regressou. O absurdo é o discurso do ódio, levantar esqueletos do armário do imperialismo dos séculos atrás da nossa civilização, incluindo Portugal. Fazer basófia da barbárie contra os Palestinianos, denegrir a flotilha. Publicar um vídeo piroso do Ventura sobre Bangladesh. Por isso é importante RELER o "Estrangeiro" de Albert Camus.

O "Estrangeiro" é um dos livros da trilogia do absurdo, de Albert Camus. O livro conta a história de Meursault, um homem que vive completamente alheio à importância das coisas ao seu redor. O protagonista é indiferente a tudo, sendo que uma das palavras mais usadas por ele é: “tanto faz”. Albert Camus desenvolve uma história simples, escrita em frases curtas, evidenciando conceitos segundo o qual o homem é livre e seus atos são responsáveis por seu destino.

Meursault, é descrito como “um cidadão da França, homem do Mediterrâneo, um homem que dificilmente compartilha da cultura mediterrânea tradicional”. Semanas após o funeral de sua mãe, ele mata um homem árabe na Argélia francesa, que estava envolvido num conflito com um dos vizinhos de Meursault. Mersault é julgado e condenado à morte. A história é dividida em duas partes, apresentando a visão narrativa em primeira pessoa de Mersault antes e depois do assassinato, respectivamente.

Esta história, cuja narração me fez lembrar um conto ou um texto diarístico, deve ser encarada como uma reflexão acerca da existência humana. Através da indiferença extremada e quase absurda do Sr. Meursault, captamos uma perspetiva diferente da vida, alheia a sobressaltos, à importância das decisões, a questões filosóficas e a figuras transcendentes. Meursault limita-se a viver consoante o que lhe calha na sina, sem se entregar à extravagância das emoções ou à indignação contra o destino. Em vez disso, permanece apático e ultrapassa as reviravoltas da vida através do hábito.

Se há uma sensação que predomina, implacável, nesta obra, essa sensação é o calor. Um calor asfixiante, insuportável, captada pelo autor com tanta autenticidade e intensidade que o leitor se sente tentado a tirar o casaco. Essa impressão prolonga-se pela capa do livro, de um cor de laranja forte que me faz pensar nele como um deserto tórrido comprimido em menos de uma centena de folhas de papel.
Camus serve-se deste personagem principal para mergulhar no absurdo existencial. A vida banal de Mersault até ao momento em que ocorre um crime processa-se dentro do clima do absurdo da vida humana, que não pode ser logicamente explicado, mas simplesmente apreendido e vivido.

Para Camus, a vida é absurda e filosoficamente, isso quer dizer que a situação existencial humana é caracterizada essencialmente pela ausência de sentido e, dessa forma, não existem consistências, certezas e/ou garantias. Não há finalidade última e não há causas primeiras no mundo absurdo.

Para uma melhor compreensão do absurdo é necessário fazer uma análise do próprio quotidiano. As loucuras do dia-a-dia, o corre-corre e a busca do sentido para as coisas e acontecimentos já são indícios do absurdo. O homem cria uma rotina de vida, uma monotonia e acaba deixando levar-se pelo absurdo, perde o sentido da sua existência, passando a não dar mais importância aos factos e acontecimentos no seu trabalho, com os amigos, na família…tudo se torna comum, rotineiro.

Outro ponto que ilustra o absurdo é o facto do homem já não conseguir mais dar conta dos acontecimentos e tudo lhe foge da percepção e ele mesmo constata que o mundo não tem sentido nem razão, e que a vida é absurda e fantasiosa.

É necessário VER esta época, sair do absurdo e criar coragem e buscar inovações e outros caminhos para as atividades do dia-a-dia.

Albert Camus ele próprio dá pistas! Aconselho por isso a leitura "O Homem Revoltado", e em seguida "A Queda". E depois, "A Peste" que é um intermédio entre os dois temas.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Viúva de Alexei Navalny diz que laboratórios independentes provaram envenenamento mortal do marido

O opositor russo, de 47 anos, um dos principais críticos do Presidente russo, Vladimir Putin, morreu na prisão em fevereiro do ano passado

A viúva do líder da oposição russa Alexei Navalny afirmou hoje que o marido morreu envenenado, na sequência da confirmação por dois laboratórios diferentes depois de análises aos "restos biológicos" do ativista.

"Conseguimos transferir o material biológico de Alexei [Navalny] para o estrangeiro. Laboratórios de dois países diferentes realizaram análises. Estes laboratórios, independentes um do outro, concluíram que Alexei foi envenenado", escreveu Yulia Navalnaya numa mensagem publicada nas redes sociais e na qual exigiu que os resultados destes testes sejam tornados públicos.

O opositor russo, de 47 anos, um dos principais críticos do Presidente russo, Vladimir Putin, morreu na prisão em fevereiro do ano passado.

Navaly estava numa prisão no Ártico para cumprir uma pena de 19 anos sob "regime especial" e, segundo os serviços penitenciários, sentiu-se mal depois de uma caminhada e perdeu a consciência.

A viúva adiantou que Navalny tinha sido transferido para aquela prisão dois meses antes da morte, "claramente para esse fim".

"Durante os três anos que passou atrás das grades, o estado de saúde agravou-se. Não queriam apenas matá-lo, tentaram dominá-lo. Atormentaram-no com fome, frio e isolamento total. Foi impedido de receber telefonemas e visitas e deixaram de lhe entregar cartas. As reuniões com os advogados foram obstruídas. Passou longos períodos numa cela de castigo sem bens pessoais, sem livros e até sem papel ou caneta", contou.

Navalnaya realçou que a cela onde o marido se encontrava tinha "seis metros quadrados, uma chávena, uma escova de dentes e uma cama fixada na parede durante o dia, pelo que não era possível deitar-se nela".

"Esta foi a cela de castigo em que foi assassinado", denunciou.

Segundo Navalnaya, o opositor russo começou a sentir-se mal durante "uma caminhada programada" feita numa cela vizinha.

"O Alexei bateu à porta e disse que se sentia mal (...) Estava deitado no chão, com os joelhos sobre o estômago, a gemer de dor. Disse que o peito e a barriga estavam a arder. Começou a vomitar", contou.

"De acordo com o testemunho de alguns guardas prisionais, Alexei sofreu convulsões, respirava com dificuldade e tossia", acrescentou Navalnaya, referindo que "a ambulância foi chamada mais de 40 minutos depois de Alexei se ter começado a sentir mal".

"Nesse momento, já estava inconsciente. A ambulância, que chegou 10 minutos depois, tentou ressuscitá-lo, mas sem sucesso", adiantou.

A viúva lembrou que, após a morte do marido, prometeu fazer "todos os possíveis para investigar o assassínio de Alexei" Navalny, garantindo que tanto ela como a equipa que apoiava o opositor estão a cumprir essa promessa.

"Os assassinos trabalharam cuidadosamente para eliminar as pistas, mas conseguimos preservar algumas provas", disse.

Contou que conseguiram, em fevereiro de 2024, obter "amostras de material biológico de Alexei [Navalny] e contrabandeá-las em segurança para o estrangeiro".

Agora, os resultados dos testes de dois laboratórios "chegaram à mesma conclusão: Alexei foi assassinado. Mais especificamente, foi envenenado".

Navalnaya lamentou que "os países ocidentais não tenham base legal para abrir processos criminais" relativamente ao caso, mas lembrou que "também há considerações políticas".

"O Alexei era o meu marido. Era o meu amigo. Era um símbolo de esperança para o nosso país. Putin assassinou essa esperança. Temos o direito de saber como o fez. Peço aos laboratórios que realizaram os testes que publiquem os resultados", apelou.

"Parem de bajular Putin em nome de considerações ditas superiores. Enquanto permanecerem em silêncio, ele não para. Talvez alguém esteja a morrer agora por causa de outro envenenamento por Putin. Não apenas na Rússia, pois já vimos casos semelhantes noutras partes do mundo", instou.

"A única forma de confrontar Putin é agir com coragem e franqueza", concluiu.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Plataformas tóxicas, planeta em colapso


Defensores da terra e do meio ambiente arriscam a vida defendendo os direitos de suas comunidades contra atividades econômicas destrutivas. Muitas vezes, eles são a última linha de defesa do planeta, soando o alarme sobre ameaças à própria existência da humanidade.

O esforço desses defensores os expõe a diversos perigos à sua segurança e bem-estar. Todos os anos, a Global Witness documenta esses ataques. No nosso relatório de 2024, revelamos que 196 pessoas foram assassinadas por defender suas terras e as suas casas. Muitas outras foram sequestradas, criminalizadas e silenciadas.

É comum que esses defensores dependam de plataformas digitais para se organizar, compartilhar informações e promover suas campanhas. Nos últimos anos, esses espaços online se tornaram os principais canais de comunicação de muitos defensores com seus públicos, sendo frequentemente utilizados para organização comunitária. No entanto, hoje sabemos que os defensores sofrem ataques consideráveis na internet, incluindo casos de trolling (provocações e mensagens ofensivas), doxxing (exposição de dados pessoais) e ataques cibernéticos.

Tema mais desenvolvido: aqui

terça-feira, 15 de julho de 2025

Viúva de Alexei Navalny pede que Itália cancele concerto de maestro apoiador de Putin

Yulia Navalnaya, viúva de Alexei Navalny, líder da oposição russa morto em fevereiro de 2024, pediu quee a Itália cancele um concerto de Valery Gergiev, maestro russo apoiador de Vladimir Putin. O regente tem uma apresentação programada no festival Un’Estate da Re, no palácio de La Reggia di Caserta, na Câmpania, em 27 de julho - caso aconteça, será a primeira aparição de Gergiev na Europa desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022.

Valery Gergiev é um entre muitos artistas russos que não tem se apresentado no Ocidente desde o início da ofensiva do país contra território ucraniano. Caso se apresente na Itália, o país terá rompido um boicote europeu a artistas pró-Kremlin.

Em artigo publicado no jornal La Repubblica nesta terça-feira (15), Yulia Navalnaya afirma que a apresentação de Gergiev no festival seria “um presente para o ditador”. Segundo ela, o maestro não era apenas um “amigo íntimo” e apoiador de Putin, mas também um “promotor” das “políticas criminosas” do presidente russo.

“Como é possível que, no verão de 2025, três anos após o início do conflito na Ucrânia, Valery Gergiev — cúmplice de Putin e pessoa incluída nas listas de sanções de vários países — tenha sido subitamente convidado para a Itália para participar de um festival?”, escreve Navalnaya.

Valery Gergiev, de 72 anos, tem uma reconhecida carreira na música de concerto, que o levou a reger em alguns dos principais palcos do mundo, como o Royal Opera House, em Londres, o Metropolitan Opera, em Nova York, e o Alla Scala, em Milão. Seu apoio a Putin não é uma novidade, e o maestro endossou o líder em campanhas eleitorais, após a anexação da Crimeia em 2014, em um concerto em Palmira, na Síria, em 2016, após as forças russas ajudarem o ex-ditador sírio Bashar al-Assad a retomá-la, e mais recentemente, declarou seu apoio a Putin durante a invasão russa à Ucrânia.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Alcindo Bernardo Monteiro - a noite em Portugal matou um dos seus

Há datas que um país carrega como cicatrizes. O 10 de junho é, em Portugal, o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas — celebração da língua, da cultura, da herança que os portugueses espalharam pelo mundo durante séculos de navegação e de encontro com outros povos. É também, desde 1995, a data em que um grupo de skinheads decidiu sair às ruas de Lisboa para matar negros. E matou.
Alcindo Bernardo Monteiro nasceu a 1 de outubro de 1967, na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, em Cabo Verde. A família emigrou para o Barreiro em 1978, quando Alcindo tinha onze anos, numa altura em que Cabo Verde já era independente. Alcindo voltaria a ter bilhete de identidade português em 1991. Era um homem simples, de vida ordenada. Trabalhava numa oficina de mecânica automóvel e nos tempos livres gostava de cuidar dos seus periquitos, cozinhar e dançar. Era um cidadão português. Na noite de 10 de junho de 1995, tinha 27 anos e queria apenas divertir-se.
Não chegou a fazê-lo.
Dias antes do crime, corria nos meios frequentados por skinheads a informação de que estava a ser organizado um jantar de comemoração do feriado de 10 de junho. Em particular no bar Ramis, em Almada, um viveiro de cabeças rapadas. Miguel Temporão, líder do núcleo de skinheads de Lisboa, ficou encarregado de fazer os convites. Chamavam-lhe o "dia da Raça", para assim afirmarem a sua ligação umbilical ao fascismo salazarista.
O que se seguiu pertence àquele território estreito e insuportável onde a barbárie humana não cabe em palavras, mas tem de ser dita à mesma. Um grupo de dezenas de skinheads desceu as ruas do Bairro Alto com um único propósito: espancar pessoas negras. Alcindo foi encurralado, derrubado, espancado com botas de biqueira de aço e soqueiras. Em coma profundo, foi encontrado na Rua Garrett, perto do local onde hoje ficam os Armazéns do Chiado. O óbito seria declarado às 10h30 da manhã de 12 de junho. O relatório médico registava: hemorragias sub-pleurais, edema pulmonar, graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas, fractura da calote craniana.
Um homem morreu porque tinha a pele escura. Morreu no Dia de Portugal.
Doze vítimas foram socorridas no Hospital de S. José. Alcindo, dado o estado de extrema gravidade, foi internado. A notícia chegou às primeiras páginas dos jornais ainda antes da morte ser confirmada. O país ficou em choque — ou fez de conta que ficou. Porque o choque, em Portugal, tende a durar o tempo de um ciclo de notícias, e depois a vida volta ao ritmo costumeiro do mito de um povo naturalmente tolerante e acolhedor.
Esse mito tem nome. Chama-se lusotropicalismo. Na primeira metade do século XX, o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre desenvolveu uma teoria sobre a relação de Portugal com os trópicos, defendendo que o processo colonial português se distinguia pela empatia e proximidade com os povos colonizados. Durante os anos cinquenta e sessenta, essa doutrina foi politicamente apropriada pelo Estado Novo para justificar a presença colonial portuguesa em África perante a comunidade internacional.
Ficou como herança mental.
A ideia de que os portugueses não são racistas porque "sempre se misturaram", porque "navegaram o mundo", porque têm essa capacidade inata e generosa de acolher o outro.
Em Portugal, uma grande parte da população — incluindo parte da classe política — continua a ver o racismo como algo de alheio, de estrangeiro, de outro. Alcindo Monteiro foi morto dentro dessa ilusão confortável.
No julgamento que se seguiu, os acórdãos registaram a completa ausência de arrependimento dos envolvidos. Em 2002, Hugo Silva foi condenado a 18 anos de prisão. Os restantes receberam penas variadas. Todos acabariam por sair em liberdade.
A mãe, Francisca Monteiro, e as irmãs de Alcindo continuam a ir ao cemitério de Vila Chã, no Barreiro, falar com ele. Quando o realizador Miguel Dores contactou a irmã Luísa, ela ouviu o silêncio do outro lado do telefone e disse apenas: "já sei do que vens falar. Nunca acaba."
Nunca acaba.
Em 2021, o antropólogo e realizador Miguel Dores, então a concluir um mestrado em Antropologia Visual na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, apresentou o documentário "Alcindo" no DocLisboa. A sessão esgotou o Cinema São Jorge. A família estava presente. O público aplaudiu de pé. O documentário é inteligente na sua abordagem, metódico — explorando as implicações que o Estado Novo e a sua herança têm nos valores coletivos que orientam o povo português. O filme ganhou o "Prémio do Público". No ano seguinte, na semana do 10 de junho, foi exibido em São Vicente, Cabo Verde — no Centro Cultural do Mindelo, na Universidade de Cabo Verde e ao ar livre, no bairro da família Monteiro.
O Estado português nunca assumiu uma memória oficial sobre este caso. Em 2019, as comemorações do Dia de Portugal realizaram-se em Cabo Verde e o nome de Alcindo Monteiro nem sequer foi referido. Em 2020, vinte e cinco anos depois, a Câmara de Lisboa inaugurou uma placa na Rua Garrett, onde o jovem foi assassinado. Tarde. Como quase sempre.
Dois dos condenados pelo assassínio de Alcindo voltariam a ser julgados décadas mais tarde. O processo Hells Angels — uma investigação de grande envergadura da Polícia Judiciária que desmantelou uma rede de violência organizada com ligações à extrema-direita portuguesa, aos neonazis e ao gangue de motards — revelou que o ódio que matou Alcindo nunca tinha deixado de existir: apenas mudara de farda. Tiago Palma e Nuno Monteiro, dois dos condenados pelo homicídio de 1995, foram condenados a 13 anos e meio de prisão por novas agressões brutais e tentativas de homicídio. O ódio não prescreve. Nem se reabilita.
O 10 de junho celebra Camões, os Lusíadas, a língua que atravessou oceanos. Celebra a ideia de um Portugal que se estendeu pelo mundo. Mas o mundo também veio ter com Portugal — em barcos de emigrantes, em famílias que fugiram da miséria ou da violência, em homens e mulheres que ajudaram a construir este país com o trabalho das suas mãos. Alcindo Monteiro era um deles. Era português. E foi assassinado no dia em que Portugal celebra ser Portugal.
Essa contradição não é acidental. É o retrato mais honesto de quem somos — e do que ainda precisamos de deixar de ser.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Israel espera que 50% da população de Gaza fuja durante ataque em grande escala

com o apoio directo do governo português e de toda a direita nacional, que acabou de votar contra qualquer pedido de contas a israel. Embora tb seja verdade que o ps votou agora a favor de um pedido de contas que não aplicou nunca nos meses de governação ps em que o genocídio começou. A falta de vergonha na cara anda em alta.

"- Israel expects half of Gaza’s 2.3 million people to leave as its military prepares an all-out assault in the next few days .
- A WHO official says without food “an entire generation” of Palestinian children will be permanently affected as Israel’s Gaza blockade and mass starvation continues.
- Israeli forces bomb Nasser Hospital in Khan Younis killing two people, including journalist Hassan Eslaih, and wounding other patients and staff.
- Israel’s war on Gaza has killed at least 52,908 Palestinians and wounded 119,721, according to Gaza’s Health Ministry. The Government Media Office updated the death toll to more than 61,700, saying thousands of people missing under the rubble are presumed dead." Fonte

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

No 101º aniversário de Maria Callas, recordamos o filme Medea de Pasolini (1969)- legendado em Português


O filme Medeia, de Pier Paolo Pasolini, de 1969, é uma das mais notáveis ​​adaptações não convencionais da mitologia grega antiga, combinando o estilo cinematográfico único de Pasolini com o poder intemporal da tragédia de Eurípides. O filme é protagonizado pela lendária soprano de ópera Maria Callas no seu único papel no cinema, encarnando a personagem-título Medeia com uma intensidade impressionante. A visão de Pasolini é uma fusão de mito e realismo, mostrando o seu fascínio pelas civilizações antigas ao mesmo tempo que incute na narrativa sensibilidades modernistas. O estilo visual distinto do filme, filmado em locais deslumbrantes na Turquia e em Itália, é marcado pela sua abordagem minimalista à narrativa e pela sua cinematografia assustadoramente bela, que contrasta o épico mitológico com a emoção humana crua no seu núcleo.
Maria Callas, conhecida pelo seu incomparável talento vocal e pela sua presença marcante no palco da ópera, trouxe uma dimensão profundamente pessoal ao papel de Medeia. A sua interpretação da figura trágica, cujo amor e traição a levam por um caminho de vingança, ressoou no público não só pela sua profundidade emocional, mas também pela capacidade de Callas de transmitir as complexidades da personagem sem diálogo falado na maioria das cenas. Medeia de Pasolini capta a profunda transformação psicológica da protagonista, uma mulher dividida entre o amor pelos filhos e a agonia da traição. A colaboração entre Pasolini e Callas criou uma experiência cinematográfica que transcende os limites tradicionais da ópera ou do cinema, estabelecendo Medeia como uma peça significativa na intersecção entre arte, cultura e música clássica.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Somos Todos Um

Em memória de Odair Moniz

De cor não se faz o peito,
Nem de tom a dignidade,
O sangue que corre no corpo
É o mesmo em qualquer idade.

Não há raça que domine,
Nem pele que determine,
O valor de uma alma humana
Que a vida enfim ilumine.

Olhos castanhos, azuis,
Pele clara, pele escura,
Somos todos passageiros
Na mesma amarga procura.

Somos filhos da mesma terra,
De um mundo só, sem fronteira,
Desconhecemos o ódio,
Mas o amor faz-se bandeira.

Racismo é a sombra fria
Que ofusca a nossa razão,
Lutemos todos por um dia
De igualdade e união.

João Soares, 23.10.2024

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Ação de cidadãos - Queixa-crime contra André Ventura e Pedro Pinto

Para: Exmo. Procurador Geral da República

Os cidadãos abaixo-assinados vêm apresentar:

António Garcia Pereira, Anabela Mota Ribeiro, Bernardo Marques Vidal, Bruno Ferreira, Catarina Marcelino, Catarina Silva, Carmen Granja, Carla Castelo, Célia Costa, Cristina Maria Sá Pinto, Cláudia Semedo, Daniel Oliveira, Eva Rap Diva, Francisca Van Dunem, Filipe Espinha, Hugo Van der Ding, Inês Melo Sampaio, Joana Gomes Cardoso, João Maria Jonet, João Costa, João Miranda, José Eduardo Agualusa, Luísa Semedo, Maria Castello Branco, Mamadou Ba, Maria Escaja, Mafalda Anjos, Miguel Prata Roque, Miguel Sousa Tavares, Miguel Baumgartner, Myriam Taylor, Nuno Markl, Pedro Marques Lopes, Pedro Alpuim, Pedro Tavares, Pedro Vieira, Pedro Coelho dos Santos, Priscila Valadão, Porfírio Silva, Rita Ferro Rodrigues, Rita Costa, Ricardo Sá Fernandes, Rosa Monteiro, Sheila Khan, Telma Tavares, Teresa Pizarro Beleza, Vasco Mendonça, Vicente Valentim.

PARTICIPAÇÃO CRIMINAL

Pelos crimes de:

INSTIGAÇÃO À PRÁTICA DE CRIME
(p.p. artigo 297.º do Código Penal)

APOLOGIA DA PRÁTICA DE CRIME
(p.p. artigo 298.º do Código Penal)

INCITAMENTO À DESOBEDIÊNCIA COLETIVA
(p.p. artigo 330.º do Código Penal)

E dar conta do preenchimento do ilícito criminal de:

OFENSA À MEMÓRIA DE PESSOA FALECIDA
(p.p. artigo 185.º do Código Penal)


Contra

ANDRÉ CLARO AMARAL VENTURA, jurista e deputado, com domicílio profissional no Palácio de São Bento, Praça da Constituição de 1976, 1249-068 Lisboa;

PEDRO MIGUEL SOARES PINTO, empresário e deputado, com domicílio no Palácio de São Bento, Praça da Constituição de 1976, 1249-068 Lisboa;

E

RICARDO LOPES REIS, assessor parlamentar, com domicílio profissional no Palácio de São Bento, Praça da Constituição de 1976, 1249-068 Lisboa;

O que fazem pelos seguintes factos:

1. No dia 22 de outubro de 2024, o cidadão Odair Moniz foi mortalmente alvejado, por um elemento da força de segurança PSP, em circunstâncias ainda por apurar.

2. No dia 23 de outubro de 2024, o suspeito André Ventura proferiu estas declarações, perante todo o país, nas instalações da Assembleia da República, em declarações públicas filmadas, difundidas e registadas por vários órgãos de comunicação social, conforme se comprova pelo vídeo que ora se junta como Doc. n.º 1, através de remissão para a sua hiperligação "Deveríamos condecorar este PSP por ter travado um criminoso"(cfr. passagem de 00m54s):

«E há um ataque perpetrado por alguém que especificamente quis atacar polícias e fugir à sua autoridade. Que acaba morto numa ação policial.»

3. E continuou (cfr. Doc. n.º 1, passagem de 01m14s):

«Eu vou dizer isto com todas as palavras: nós não devíamos constituir este homem arguido; nós devíamos agradecer a este polícia o trabalho que fez. Devíamos agradecer a este polícia o trabalho que fez. De parar um criminoso que estava disponível com armas brancas, para atacar polícias. Que estava disponível para desobedecer à sua ordem e à sua autoridade. Que estava disponível para colocar em causa a ordem pública.»

4. E mais disse (cfr. Doc. n.º 1, passagem de 02m49s):

«Este polícia, nós devemos agradecer-lhe. Nós devíamos condecorá-lo e não de o constituir arguido, de o ameaçar com processos ou ameaçar prendê-lo.»

5. Através de um vídeo difundido, para todo o país, através da plataforma eletrónica da rede social “X” (ex-“Twitter”), a 22 de outubro de 2024, o suspeito André Ventura também proferiu as seguintes declarações (cfr. Doc. n.º 2, que ora se junta através de remissão para a hiperligação "Obrigado aos nossos polícias, não aos bandidos deste país!", com duração de 54 segundos):

«Obrigado. Obrigado. Era esta a palavra que devíamos estar a dar ao polícia que disparou sobre mais este bandido na Cova da Moura. Mas não. Agora, multiplicam-se as narrativas de que ele era boa pessoa, que ajudava muito, que era um tipo simpático e porreiro. A única coisa: tentou esfaquear polícias, estava a fugir deles e ia cometer crimes, com toda a probabilidade. Mas era bom tipo. (...) Por isso, ao contrário de todos os outros: Não, este bandido não era boa pessoa. Sim, o polícia esteve bem. Obrigado. Era o que os políticos, hoje, os políticos decentes deviam dizer. Obrigado.»

6. Todas as acusações eram falsas, inventadas e apenas visavam incendiar os ânimos sociais, provocando tumultos sociais, raiva, ressentimento e violência.

7. Confirmou-se já que a pessoa falecida que foi ofendida por André Ventura não tinha cometido crime nenhum, no momento em que foi abordado por agentes das forças de segurança, não tendo furtado ou roubado o veículo em que se deslocava, que lhe pertencia (cfr. Doc. n.º 3, que ora se junta e cujo conteúdo se dá por reproduzido).

8. Também foi tornado público, pelos órgãos de comunicação social, através de fontes relativas ao processo-crime em curso, que há gravações de vídeo, através das câmaras de videovigilância pública, que a pessoa falecida que foi ofendida por André Ventura não atacou, nem ameaçou os agentes das forças de segurança com nenhuma faca (cfr. Doc. n.º 4, que ora se junta e cujo conteúdo se dá por reproduzido).

9. Independentemente da existência de qualquer registo criminal de anteriores ilícitos cujas penas já terão sido cumpridas (que se ignora existir ou não), nenhum ser humano – ainda para mais quando ainda nem sequer foi enterrado e a família está a velar o seu morto e a viver o seu luto – pode ser caraterizado, humilhado e despersonalizado como “bandido”, apenas para fomentar uma maior adesão popular às mentiras que determinado indivíduo difunde, designadamente, em redes sociais e outras plataformas de comunicação.

10. O artigo 185.º do Código Penal é claríssimo quando determina a punição do crime de ofensa à memória de pessoa falecida:

«Artigo 185.º
Ofensa à memória de pessoa falecida
1 - Quem, por qualquer forma, ofender gravemente a memória de pessoa falecida é punido com pena de prisão até 6 meses ou com pena de multa até 240 dias.
2 - É correspondentemente aplicável o disposto:
a) Nos n.os 2, 3 e 4 do artigo 180.º; e
b) No artigo 183.º.»