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sábado, 22 de agosto de 2026

Hoje assinala-se o Dia Internacional de Homenagem às Vítimas de Atos de Violência Baseados em Religião ou Crença.

Marilyn Monroe "The Springtime of Life", near Mailbu, CA, 1946- foto de André de Dienes

Embora estas efemérides procurem proteger a liberdade de consciência, torna-se impossível ignorar o papel que a própria religião - ou a sua manipulação ideológica - desempenhou e continua a desempenhar na eclosão de conflitos e na perda de vidas humanas. Ao longo da história, dogmas religiosos têm sido instrumentalizados para alimentar um nacionalismo sectário, onde a fé deixa de ser uma busca espiritual individual e passa a funcionar como uma fronteira de exclusão política. Quando a identidade nacional se confunde com a ortodoxia religiosa, a divergência deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a ser vista como uma ameaça à soberania, pavimentando o caminho para a perseguição, a guerra e a violência estatal.

Acompanho, com muita apreensão, a aceleração e crescimento  galopante dos evangélicos e da manipulação em massa de gente nova a aderir a discursos evangélicos e pentecostais, os chamados "soldados/soldadas de Cristo". O movimento "Mulheres Conservadoras em Portugal" é o clímax de uma orquestração, que já vem detrás.  A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e estão no Parlamento Brasileiro. Imitam o Novo Conservadorismo norte-americano, constituindo, portanto, uma real ameaça à democracia. 

Contudo, os números são impressionantes. A liberdade de religião e de crença permanece um dos direitos fundamentais mais transgredidos no mundo contemporâneo, afetando cerca de 4,9 mil milhões de pessoas - o equivalente a mais de 60% da população global - que vivem sob regimes com limitações severas ou perseguição ostensiva à prática espiritual, segundo o relatório da Fundação ACN (Aid to the Church in Need). A violência motivada pela fé não se restringe a uma região ou dogma específico, distribuindo-se de forma heterogénea e vitimando comunidades de diversas matrizes.

Entre as populações mais afetadas, estima-se que mais de 365 milhões de cristãos enfrentem níveis elevados de discriminação ou opressão, registando-se perto de 5.000 assassinatos anuais por razões diretamente ligadas à sua fé, concentrados maioritariamente na África subsariana, com a Nigéria a responder por mais de 80% destas vítimas mortais, de acordo com os dados monitorizados pelo WWL da Open Doors International. Paralelamente, minorias muçulmanas sofrem repressão sistémica em várias geografias, como ilustrado pela detenção de mais de 1 milhão de Uigures em campos de reeducação em Xinjiang, na China, documentada pelo Relatório de Avaliação do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR), e pelo deslocamento forçado de cerca de 740.000 muçulmanos Rohingya forçados a fugir de Mianmar para o Bangladesh, segundo os registos do Portal de Dados Operacionais do ACNUR/UNHCR. O antissemitismo também tem apresentado surtos globais, com aumentos superiores a 300% em incidentes violentos e de intimidação registados em países ocidentais após a escalada de conflitos no Médio Oriente a partir do final de 2023, de acordo com as estatísticas da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA).

A gravidade do panorama estende-se ao enquadramento jurídico de vários Estados. Em cerca de 13 nações - localizadas maioritariamente no Médio Oriente, Norte de África e Sul da Ásia —, crimes como a apostasia e a blasfémia preveem formalmente a pena de morte, enquanto em mais de 80 países a renúncia à religião maioritária ou a crítica a dogmas resulta em penas de prisão efetiva, acusações criminais ou privação de direitos civis, como documenta a Humanists International no seu Freedom of Thought Report. Nestes cenários, a ausência de crença também é severamente punida, tornando ateus e agnósticos alvos frequentes de sanções estatais.

A esta realidade soma-se a expansão de novos movimentos de traço sectário que instrumentalizam o estatuto de liberdade religiosa para exercer coerção psicológica, exploração financeira ou violação de direitos individuais. O grande desafio da comunidade internacional e dos Estados de direito reside em equilibrar a salvaguarda da liberdade de consciência com a aplicação rigorosa da lei, garantindo que o pretexto da fé não sirva para legitimar abusos, nem que o poder estatal seja utilizado para silenciar a diversidade de crenças.

O Afeganistão sob o domínio do Taliban representa um dos exemplos mais radicais de como a instrumentalização da religião pode anular o Estado de direito e refundar a identidade de um país sob uma lógica de exclusão absoluta. Desde o regresso do grupo ao poder em agosto de 2021, a interpretação ultrafundamentalista da lei islâmica de matriz Deobandi foi erguida como a única fonte de soberania e legitimidade, transformando a fé num instrumento de controlo social totalitário.

Esta fusão entre dogma e governação resultou no apagamento prático da diversidade cultural e religiosa do país. Minorias históricas, como a comunidade Hazara (maioritariamente xiita, representando entre 10% a 15% da população afegã), enfrentam episódios recorrentes de violência, marginalização e deslocamento forçado sem qualquer garantia de proteção estatal, conforme documentado nos Relatórios sobre o Afeganistão da Amnistia Internacional. Ao mesmo tempo, o desvio da ortodoxia oficial, a conversão a outro credo ou o abandono da fé são classificados como apostasia — um crime punível com a pena de morte no enquadramento penal do regime, o que força qualquer dissidência espiritual ao anonimato absoluto sob risco de vida.

Paralelamente, a narrativa religiosa serve de justificação para uma segregação de género sem paralelo no mundo contemporâneo, frequentemente descrita por organismos internacionais como um sistema de apartheid. Mais de 1,4 milhões de raparigas afegãs foram deliberadamente privadas do acesso ao ensino secundário e universitário por decretos do regime, segundo o Relatório sobre a Situação da Educação no Afeganistão da UNESCO, enquanto mais de 80 diretivas executivas restringem o trabalho feminino, a frequência de espaços públicos e o direito das mulheres de circularem sem um tutor masculino (mahram), como detalhado nos Destaques da Situação das Mulheres da ONU Mulheres.

O cenário afegão ilustra como o extremismo religioso transcende a dimensão espiritual para dar lugar a um pseudo-nacionalismo dogmático. A pertença à nação deixa de assentar na cidadania ou no direito de nascimento e passa a depender da submissão a um código ideológico estrito, no qual a divergência não é apenas encarada como uma heresia, mas como uma ameaça à própria sobrevivência do Estado.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ainda Girabolhos: A ironia da data e o impacto ambiental da nova barragem no Mondego


Por Alexandre Silva
Hoje, dia 15 de julho, vai ser anunciado pela Senhora Ministra do Ambiente e da Energia, a abertura do concurso para atribuição da concessão de captação de água, produção, Hidroelétrica e conceção, construção, exploração e conservação do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos Girabolhos/Bogueira no rio Mondego.

A data escolhida para o lançamento do procedimento concursal é no mínimo sinistra, enigmática, hilariante, infeliz, senão provocatória. Vejamos, por mero acaso ou por incúria, por desconhecimento ou insensatez, ou talvez para acicatar aqueles, que se manifestam e levantam muitas reservas à construção deste empreendimento, os promotores decidiram fazer o anúncio oficial, em data coincidente com as comemorações dos 50 anos do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e, aproveitando o ensejo, para se regozijarem pela recente classificação da região como Reserva da Biosfera da UNESCO (RBU). 

Será que o ICNF (salvaguardando que o empreendimento se encontra na periferia exterior do PNSE) e a pomposa RBU concordam com este tipo de infraestruturas? 

Acresce, ainda, que o local de implantação deste empreendimento é território abrangido pelo Estrela Geopark UNSECO e área marginal ao Sítio de Interesse Comunitário: Carregal do Sal, ao abrigo da Directiva habitats – Rede Natura 2000, criada para a conservação do narciso-do-mondego (Narcissus scaberulus), planta endémica do troço médio do rio Mondego. 

Será que a UNESCO compactuaria com a implementação deste empreendimento?

E quanto ao Plano Nacional de Restauro da Natureza a que estamos obrigados no âmbito da União Europeia? Não estamos a ir precisamente no sentido oposto? E os compromissos da mesma Rede Natura?

Será que foram avaliados os verdadeiros impactes sobre os sobreirais de ambas as vertentes do rio Mondego, na área de implementação do empreendimento? 

As barragens têm impactos ambientais muito significativos e as atuais orientações da Directiva-Quadro da Água, não privilegiam estas infraestruturas e consideram-nas como “pressões hidromorfológicas”. 

Presentemente, a União Europeia condiciona ou não financia de todo barragens.  Serão os vencedores do concurso os financiadores do projeto? A que custos para o erário publico e para os contribuintes? Rendas milionárias, quase perpétuas? Impostos encapotados? 

Uma barragem com fins hidroelétricos deve estar próxima da sua capacidade máxima, já para regularizar picos de caudal deve estar o mais vazia possível. Não parece um contrassenso?  

A Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) de 2009/2010 está, no mínimo, desatualizada e enferma de omissões.  

A sub-bacia regularizada pela Barragem de Girabolhos representará apenas 15% da Bacia do Mondego. O rio Ceira contribuiu com mais de 1000 m3/s nas cheias de 2019 e 2026. Não será fácil controlar as cheias em Coimbra e no Baixo Mondego aquando de eventos extremos. Girabolhos-Bogueira é um mero paliativo, caríssimo, de duvidosa eficiência e catastrófico a nível ambiental.

Porquê a pressa? Tendo sido alterados, os pressupostos iniciais a que o empreendimento se destinava, não seria lógico e mais consensual lançar uma nova AIA e depois decidir?

A APA consegue saber qual o impacte sobre a população de narciso-do-mondego, sobre os sobreirais e sobre os serviços dos ecossistemas associados a este troço do rio Mondego? 


A montante de Girabolhos-Bogueira:
O que se fez após os incêndios de 2017, 2022 e 2025 para minimizar a erosão? 
Porque não reabilitar a Barragem de Fagilde aumentando a sua capacidade de reserva?
E a jusante de Girabolhos-Bogueira:
Como tem sido a manutenção, ou falta dela, no Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego? Diques em rutura, vegetação exótica e invasora a desestabilizar e fragilizar a estabilidade e a segurança dos diques.

E a contínua construção em leito de cheia no setor inferior do Mondego? Quem a autoriza, mesmo após as cheias de 2026, apesar dos constantes e recorrentes alertas? 

Porque se projetou e edificou em 1991, um troço da A1 em pleno dique direito do Canal Principal do Mondego construído, 10 anos antes, em 1981?

E a falta do desassoreamento do troço do Mondego entre Santa Clara-Açude? De quem é a competência? Da APA? Do Governo? do Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego?



O que se antevê caso Girabolhos-Bogueira realmente se construa:
Abre-se  um sério precedente para a construção da Barragem de Nossa Senhora da Assedasse, entretanto adormecida numa qualquer gaveta poeirenta, mas que encontrará respaldo de Girabolhos-Bogueira! 

Estamos também dispostos a abdicar dos Casais de Folgosinho e do Covão da Ponte (Gouveia-Manteigas)? 

E porque não exumar das catacumbas o projeto da barragem da Candieira, em pleno Vale Glaciário do Zêzere (Aproveitamento Hidráulico do Alto-Zêzere)?

Será, também, uma excelente oportunidade para instalar parques eólicos e, talvez fotovoltaicos, como estruturas complementares a Girabolhos-Bogueira, que serão financiados, sob a forma de rendas ruinosas, a longo prazo, para pagar o investimento da construção. Não seremos nós a pagar, mas será a herança que será legada às gerações futuras e a uma população, ainda mais reduzida do que aquela que, hoje, por cá sobrevive.

Por fim, de que valem os chapéus como Reservas da Biosfera e Geoparques UNSECO, Sítios Rede Natura 2000, como o de Carregal do Sal criado para proteger uma planta endémica do Portugal e cuja área de inundação da barragem será um forte revés à sua conservação?

Será que o narciso-do-mondego sabe mesmo nadar?

terça-feira, 9 de junho de 2026

Serra da Estrela ganha novo selo da UNESCO e passa a ter dupla proteção internacional


A Serra da Estrela foi integrada esta sexta-feira, dia 3 de junho, na Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO, uma distinção internacional que premeia territórios que conciliam a conservação da natureza com o desenvolvimento sustentável

A Serra da Estrela passa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera, distinção atribuída pela UNESCO a territórios que conciliam "a conservação da natureza com o desenvolvimento humano sustentável", foi divulgado esta sexta-feira.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) adiantou, em comunicado, que a aprovação da candidatura foi anunciada hoje na 38.ª sessão do Conselho Internacional de Coordenação do Programa Homem e Biosfera (MAB), que decorre no Centro de Convenções Itaipu Roga, em Hernandarias, Paraguai, desde 3 de junho.

Com esta aprovação, Portugal passa a contar com 14 Reservas da Biosfera da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), lembrou o ICNF.

Já a Serra da Estrela passa a deter duas designações UNESCO para o mesmo território: o Geopark Global UNESCO, reconhecido em julho de 2020, e agora a Reserva da Biosfera.

"Os dois estatutos serão geridos de forma integrada, numa lógica de governança conjunta que permitirá otimizar recursos humanos, financeiros e materiais", referiu o ICNF.

De acordo com o instituto, a nova Reserva da Biosfera da Estrela abrange uma área total de 2.372,99 quilómetros quadrados (km²), distribuída pelos seis municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Guarda, Manteigas e Covilhã.

A Reserva da Biosfera da Estrela está estruturada em três zonas complementares: uma Zona Núcleo onde se concentram os valores naturais mais relevantes (212,55 km²), uma Zona Tampão de mediação ecológica (679,65 km²) e uma Zona de Transição dedicada às atividades humanas sustentáveis (1.480,80 km², correspondendo a 62% da reserva).

A candidatura foi promovida pela AGE - Associação Geopark Estrela, com coordenação científica de Helena Freitas, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.

O ICNF realçou que a iniciativa resultou "de um amplo processo participativo que envolveu autarquias, sociedade civil, comunidade educativa e organizações ambientais, tendo como base o Plano de Cogestão do Parque Natural, aprovado em novembro de 2024".

"Esta designação não é apenas um reconhecimento internacional, é um compromisso ativo com os objetivos globais de conservação da biodiversidade inscritos no Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, e uma oportunidade para afirmar a Serra da Estrela como referência nacional e internacional em práticas inovadoras de sustentabilidade e educação ambiental", salientou ainda o ICNF.

Já a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, realçou que o reconhecimento é "uma oportunidade para reforçar a sustentabilidade da Serra da Estrela, colocando a inovação e a educação ambiental ao serviço das comunidades e das gerações futuras".

Numa nota divulgada pelo ministério, Maria da Graça Carvalho destacou "o forte envolvimento dos autarcas e da sociedade civil, que tanto contribuíram para o sucesso do projeto, o papel da Associação Geopark Estrela, que promoveu a candidatura, e da professora Helena Freitas, que assegurou a sua coordenação científica".

Ler mais:
Serra da Estrela: Quo vadis biodiversidade?

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A história do adufe na Beira Baixa é uma viagem fascinante que atravessa continentes e milénios, fundindo heranças religiosas, culturais e sociais


1. A Origem Árabe e a Expansão Islâmica
A palavra adufe deriva do árabe ad-duff. O instrumento chegou à Península Ibérica durante a ocupação muçulmana (a partir do século VIII). Naquela época, os panderos quadrados eram comuns em todo o Médio Oriente e Norte de África, sendo utilizados tanto em contextos festivos como religiosos.

2. A Reconquista e a Fixação no Interior
Com a Reconquista Cristã, muitos elementos da cultura árabe foram assimilados pela população local em vez de serem erradicados. A Beira Baixa, devido ao seu relativo isolamento geográfico e carácter fronteiriço, tornou-se um "baluarte" onde estas tradições se enraizaram profundamente. Enquanto noutras regiões o instrumento se perdeu ou evoluiu para o pandeiro redondo, na Beira Baixa ele manteve a sua forma quadrangular original.

3. O Papel das Mulheres e da Religião
O adufe sobreviveu e prosperou principalmente através das mãos das mulheres (as adufeiras). Houve uma transição curiosa do seu uso:
  1. Contexto Profano: Ritmos de trabalho no campo e festas populares.
  2. Contexto Sagrado: O instrumento foi adotado pelas irmandades e festividades católicas. Tornou-se indissociável do culto à Senhora do Almortão ou à Senhora da Póvoa, onde o toque do adufe acompanha os cânticos litúrgicos e as procissões.
4. Por que é que ficou "preso" na Beira Baixa?
Existem várias teorias para a exclusividade regional:
  1. Isolamento: As serras da Estrela e da Gardunha dificultaram a entrada de influências externas que pudessem substituir o adufe por instrumentos mais "modernos".
  2. Identidade Comunitária: O adufe tornou-se um símbolo de resistência cultural e identidade local, passado de mães para filhas como uma herança viva.

Curiosidade Técnica
O que torna o adufe da Beira Baixa especial é a sua construção: dois quadrados de madeira revestidos com pele de ovelha (ou cabra), contendo no seu interior sementes ou pequenas soalhas (pedrinhas), que conferem aquele som de "chuva" característico quando o instrumento é vibrado.

Sabia que? Apesar de ser o símbolo da Beira Baixa, existem registos históricos e iconográficos que mostram que o adufe foi usado em quase todo o Portugal até ao século XVII, incluindo na corte de Lisboa, antes de se tornar uma exclusividade do interior.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dia Internacional da Língua Materna


Celebrado anualmente em 21 de fevereiro, o Dia Mundial da Língua Materna é muito mais do que uma data no calendário; é um lembrete de que o idioma que aprendemos no colo dos nossos pais é a base da nossa identidade, cultura e forma de ver o mundo.

A data foi proclamada pela UNESCO em 1999 e oficializada pela ONU em 2002.

Sabia que? O idioma Ubykh (Turquia), extinto em 1992, tinha um dos sistemas sonoros mais complexos do mundo. Com a sua morte, sons que o ser humano era capaz de produzir perderam-se para sempre na prática quotidiana.

O desaparecimento acelerado de idiomas no século XXI representa uma das maiores crises de património imaterial da humanidade. Segundo o relatório Ethnologue (2025/2026), aproximadamente 40% das 7.168 línguas catalogadas no mundo estão em risco de extinção, um fenómeno impulsionado pela globalização económica e pela hegemonia de idiomas transnacionais. O World Atlas of Languages da UNESCO (2025) reforça que esta perda não é meramente vocabular, mas sim a erosão de sistemas de conhecimento ecológico, histórico e espiritual únicos. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o foco global deslocou-se da simples documentação passiva para a revitalização ativa, onde o uso da língua materna na educação básica é apontado como o fator determinante para a sobrevivência de uma cultura.
A tecnologia tem desempenhado um papel ambivalente neste cenário. Se, por um lado, o mundo digital exclui línguas sem representação escrita ou técnica, por outro, surgem ferramentas inovadoras de salvaguarda. Projetos como o Woolaroo, do Google Arts & Culture, utilizam inteligência artificial para identificar objetos através da câmara e traduzi-los instantaneamente para idiomas ameaçados, como o Ibibio ou o Maia, criando uma ponte visual para as novas gerações. Outras plataformas, como o Indigenous Languages Digital Archive (ILDA) e a aplicação FirstVoices, permitem que comunidades isoladas criem os seus próprios dicionários de áudio e jogos educativos, garantindo que a fonética correta seja preservada mesmo quando o número de falantes nativos é reduzido.
A nível bibliográfico, os estudos de Crystal (2000) em Language Death continuam a ser a base teórica para compreender porque é que as línguas morrem, mas são os relatórios anuais da UNESCO (2024, 2025) que traçam o mapa atualizado da urgência. Estes documentos sublinham que a "morte" de uma língua ocorre habitualmente em três gerações: quando os avós a falam, os pais a entendem mas não a praticam, e os filhos a desconhecem por completo. Portanto, as ferramentas de gamificação e os arquivos digitais de livre acesso tornam-se, em 2026, as principais armas contra o silenciamento cultural, transformando dispositivos móveis em veículos de resistência linguística.

Referências e Relatórios Consultados:
Crystal, D. (2000). Language Death. Cambridge University Press.
Eberhard, D. M., Simons, G. F., & Robinson, A. J. (Eds.). (2026). Ethnologue: Languages of the World (29th ed.). 
UNESCO (2025). World Atlas of Languages: Global Status Report on Linguistic Diversity. 
United Nations (2022). Global Action Plan of the International Decade of Indigenous Languages (2022–2032).

Como estamos em Portugal, a análise do nosso território revela um contraste fascinante e preocupante entre a homogeneidade do português padrão e a resistência de pequenos enclaves linguísticos que lutam pela sobrevivência em 2026.

O Caso do Noroeste e Nordeste de Portugal
No interior de Portugal, a erosão linguística está diretamente ligada à desertificação humana. O Mirandês, a única língua regional oficialmente reconhecida (Lei n.º 7/99), entrou num período crítico. Segundo os relatórios mais recentes de monitorização da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e estudos da Universidade de Coimbra (2025), o número de falantes nativos fluentes desceu para menos de 5.000 pessoas. Embora o Mirandês seja ensinado nas escolas de Miranda do Douro, o desafio em 2026 é a "interrupção da transmissão geracional": os avós falam, mas os jovens, embora o entendam, optam pelo português no ambiente digital e social.

Mais a sul, na zona de Castelo Branco e Alentejo, temos casos de micro-línguas ou dialetos em estado terminal:

Minderico (Minde): Originalmente uma gíria de comerciantes (piação), evoluiu para uma língua complexa. Hoje, é classificada pela UNESCO como "criticamente em perigo", restando apenas algumas dezenas de falantes que dominam o léxico completo.

Barranquenho (Barrancos): Situado na fronteira, este idioma funde elementos do português e do espanhol (extremenho e andaluz). Em 2021, foi reconhecido como património cultural, mas a pressão dos meios de comunicação de massa em português padrão continua a diluir a sua pureza fonética.

O Contraste com a Amazónia (Brasil)
Se em Portugal o risco é a assimilação cultural, na Amazónia o risco é a extinção física e territorial. O Brasil abriga cerca de 180 línguas indígenas, mas o relatório "Línguas em Trânsito" (2025) indica que a maioria delas possui menos de 1.000 falantes.

Línguas Isoladas: Grupos como os Pirahã mantêm uma língua única, sem números ou cores abstratas, que desafia as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Contudo, a pressão do garimpo ilegal e a desflorestação forçam o contacto, o que historicamente leva à rápida substituição da língua nativa pelo português por necessidade de sobrevivência.

Resistência Digital: Em 2026, assistimos a um fenómeno inverso: o uso de redes sociais (TikTok e Instagram) por jovens indígenas (como os das etnias Guajajara ou Puyanawa) para criar conteúdos nos seus idiomas originais. Esta "re-gramatização" digital está a despertar o interesse dos adolescentes pela língua dos avós, transformando o telemóvel numa ferramenta de orgulho identitário.


Bibliografia e Documentação Específica:
Ferreira, M. B. (2024). O Mirandês no Século XXI: Entre a Escola e a Rua. Coimbra: Almedina.
Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (2025). Inventário Nacional da Diversidade Linguística: Foco Amazónia.
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade. 
UNESCO (2025). Interactive Atlas of the World's Languages in Danger (Edição Digital 2026).
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência


Neste Dia recordamos que a ciência não é apenas uma busca de conhecimento; é uma força poderosa para moldar um futuro melhor. Acredito que a ciência deve promover, com audácia, a descoberta fundamental, impulsionar a inovação transformadora e converter o conhecimento em soluções que reforcem o bem-estar humano, ao mesmo tempo que protegem o nosso planeta.

Para cumprir esta missão, a ciência deve incorporar os mais elevados padrões de integridade, responsabilidade pública e responsabilidade social. A confiança, a transparência e o rigor ético são essenciais para que o progresso científico sirva verdadeiramente a sociedade. Quando conduzida de forma responsável e inclusiva, a ciência torna-se um esforço partilhado, beneficiando todos.

A ciência deve também desempenhar um papel mais determinante na melhoria da vida das pessoas e das comunidades em todo o mundo. Da saúde e educação à resiliência climática e ao desenvolvimento sustentável, o seu impacto deve ser equitativo, global e orientado para o futuro.

Alcançar esta visão exige uma mudança profunda, afastando-nos de modelos assentes no consumo e avançando para sistemas mais sustentáveis e regenerativos. Tal transformação só será possível através de um envolvimento significativo entre a ciência e a sociedade, e garantindo que mulheres e raparigas estejam plenamente capacitadas para participar, liderar e inovar.

Quando vozes diversas estão representadas na ciência, a descoberta torna-se mais rica, as soluções tornam-se mais robustas e o futuro torna-se mais justo. Apoiar mulheres e raparigas na ciência não é apenas uma questão de igualdade: é essencial para construir o mundo sustentável e inclusivo que aspiramos criar.

Relatório:
She figures 2024
The International Day of Women and Girls in Science Official Website

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Motor de desenvolvimento ou de danos irreparáveis? Parque solar planeado para Portugal abre polémica


Após a leitura deste artigo, apelo que assinem e partilhem esta petição que ainda só tem cerca de 4.200 Faça-o agora e partilhe com os vossos contactos. Precisamos de 7.500 assinaturas! As petições com mais de 7.500 assinaturas podem ser discutidas em plenário na Assembleia da República [consultar o guia]

Um novo projeto solar, que será sediado no distrito português de Castelo Branco, está a ser amplamente contestado tanto pelas associações ambientalistas como pelos próprios municípios. Chama-se Parque Solar Fotovoltaico Sophia e, segundo anunciado no site da empresa por detrás da iniciativa, a Lightsource bp, o seu objetivo passa por "conciliar a produção de energia renovável com a valorização ambiental do território e benefícios duradouros para as comunidades locais".

Tratar-se-á de um parque solar que deverá ser um dos maiores do país, com um total de 867 MWp de potência e que envolverá, de acordo com a Lightsource bp, um investimento de cerca de 590 milhões de euros. A empresa estima que o mesmo será capaz, no futuro, de "abastecer mais de 370 mil habitações e evitar a emissão de cerca de 24,5 mil toneladas de CO₂ por ano", com vista a contribuir "para as metas do Plano Nacional Energia e Clima 2030".

O projeto, que abrangerá os municípios do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, esteve em fase de consulta pública até ao passado dia 20 de novembro, durante mais de um mês, tendo angariado mais de 10 mil contribuições. Foi a consulta pública mais participada de sempre, com críticas a surgirem de várias partes, apesar de a empresa assumir, publicamente, que o projeto "integra um conjunto robusto de medidas de proteção ambiental e valorização da paisagem".

O que está, então, previsto no projeto, que impactos se espera que o parque solar tenha na região e de que modo a Lightsource bp está a encarar toda a polémica?

O que motivou a escolha do local e quando se prevê que esteja operacional
"A escolha do local de implantação de qualquer projeto de energia renovável, seja ele solar ou eólico, é a proximidade ao ponto de ligação à rede elétrica." A explicação é dada, em esclarecimento enviado à Euronews, pela própria Lightsource bp. "No caso do parque solar Sophia o ponto de ligação é a Subestação da REN do Fundão, vinculado através de um Acordo de Título de Reserva de Capacidade (TRC)", tendo a área selecionada para a sua implantação resultado de uma "análise técnica ambiental que confirmou esta opção como a de menor impacte num raio de 30 km ao redor da Subestação do Fundão".

A empresa refere ainda que, para elaborar o "Estudo Prévio que esteve em consulta pública", foi realizado "um trabalho exaustivo de recolha de informações ambientais refletindo um projeto em desenvolvimento há seis anos".

Neste momento, elabora a Lightsource bp, "o projeto Sophia está numa fase inicial de licenciamento, com entrada em operação prevista para 2030".

O que diz o Estudo de Impacte Ambiental
O documento, datado de setembro de 2025, detalha, entre tantos outros pontos, que esta central solar será "constituída por 1.365.588 módulos fotovoltaicos, que ocuparão uma área total, dividida em setores, de cerca de 390 hectares".

No Estudo de Impacte Ambiental, destaca-se ainda que o "modelo selecionado", neste caso, para a conversão da energia solar em elétrica, tem como "vantagens" uma elevada "eficiência", "fiabilidade" e "rendimento energético".

Além do mais, a análise realizada indica que a proposta "não abrange áreas da Rede Nacional de Áreas Protegidas ou Sítios da Rede Natura 2000", destinadas a garantir a proteção de zonas naturais reconhecidas e a conservação da biodiversidade, respetivamente. Ainda que "a área de implantação" da central se sobreponha "ao Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, reconhecido pelo Programa Internacional de Geociências e Geoparques da UNESCO".

Outra das principais conclusões prende-se com o facto de a fase de construção do parque solar constituir "o período mais crítico ao nível dos impactes negativos, nomeadamente sobre os descritores usos do solo, flora, vegetação, habitats, fauna e paisagem". Alerta-se, inclusive, que os maiores riscos estão associados "à desmatação, abertura de caminhos e à construção da subestação" da própria central.

Afirma-se, no entanto, que nessa mesma fase de construção, "as comunidades vegetais afetadas pela implementação dos projetos apresentam predominantemente reduzido valor conservacionista e/ou ecológico". Ainda que se reconheça que será necessário "abater ou afetar indivíduos de azinheiras ou de sobreiros isolados" - 1.120 e 421 de cada, respetivamente.

Já relativamente à fauna, "durante a fase de construção prevê-se a ocorrência de diversas ações que poderão conduzir a efeitos negativos para os diferentes grupos faunísticos".

Entre outros tantos pontos dignos de consideração nesta análise, recorda-se que a implantação da central "dará origem a impactes paisagísticos" num local que fica nas proximidades de "três aldeias históricas, nomeadamente, Castelo Novo, Idanha-A-Velha e Monsanto".

Salienta-se ainda, ao "nível do património", que a fase de construção "comporta um conjunto de intervenções e obras potencialmente geradoras de impactes genericamente negativos, definitivos e irreversíveis". Mas também a existência de "um impacte económico extremamente importante e significativo" por via do "arrendamento das terras" por um período de "40 anos", mas igualmente de "um investimento de cerca de 590 milhões de euros, fundamentalmente, através da captação de capitais externos".

Conclui-se também que "a conceção do projeto garantiu a não colocação de painéis fotovoltaicos em solos agrícolas integrados na RAN [Reserva Agrícola Nacional]", que, fruto das suas características, apresentam maior aptidão para a atividade agrícola. E que "para além de reuniões mantidas com os municípios e com a [rede] Aldeias Históricas, foram também tidas reuniões setoriais e de trabalho com a APA [Agência Portuguesa do Ambiente] e ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas], em fase precoce de desenvolvimento, para apresentação e discussão do projeto".

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Europa: de que forma os professores utilizam a IA na sala de aula e que país a usa mais?

A inteligência artificial (IA) está a tornar-se parte da vida quotidiana. As ferramentas e oportunidades oferecidas pelas principais empresas de IA cresceram rapidamente nos últimos anos. A educação não é exceção. Autoridades, professores ou académicos revelam como os alunos utilizam ferramentas como o ChatGPT para fazer os trabalhos de casa, incluindo ensaios. Ao mesmo tempo, a IA também oferece um apoio valioso aos professores.

Até que ponto os professores estão a utilizar a IA na Europa? Quais são os países mais avançados? E em que áreas os professores mais recorrem à IA?

Segundo o Teaching and Learning International Survey (TALIS) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o uso de IA por professores variou significativamente na Europa em 2024.

Entre 32 países, a percentagem de professores do ensino básico que utilizam a IA varia entre 14% em França e 52% na Albânia em 2024. A média na União Europeia (UE-22) é de 32%, enquanto na OCDE (27 países) é de 36%.

No inquérito, o uso de IA inclui fazer previsões, sugerir decisões ou criar texto. Abrange a utilização da IA no ensino ou para facilitar a aprendizagem dos alunos nos 12 meses anteriores ao inquérito.

Não se verificam padrões regionais fortes, embora, em geral, os países da Europa Ocidental tendam a ter uma menor utilização da IA pelos professores em comparação com os Balcãs Ocidentais e a Europa Oriental.

Além da Albânia, a percentagem de professores que utilizaram IA pelo menos uma vez atingiu dois em cada cinco ou mais em oito países/economias. As suas percentagens foram Malta (46), Chéquia (46), Roménia (46), Polónia (45), Kosovo (43), Macedónia do Norte (42), Noruega (40) e a região flamenga da Bélgica (40).

Os países com menor utilização da IA nas escolas foram a Bulgária (22%), Hungria (23%), a região francófona da Bélgica (23%), Turquia (24%), Itália (25%), Finlândia (27%), Montenegro (28%) e Eslováquia (29%).

Por que razão varia tanto a utilização de IA?
Um porta-voz da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) referiu que os governos adotaram posições políticas diferentes em relação à IA na educação, o que pode influenciar a consciencialização dos professores e o uso da IA na Europa.

"Alguns países foram mais proativos na implementação de estratégias nacionais de IA, que incluem o setor da educação, enquanto outros adotaram uma postura de cautela quanto à IA e ao uso de IA generativa nas salas de aula, estabelecendo regras mais rígidas dependendo da idade dos alunos", disse o porta-voz à Euronews Next.

Ruochen Li, gestor sénior de projetos na OCDE, observou que "as infraestruturas, as restrições tecnológicas, como as firewalls, as atitudes sociais em relação à utilização da tecnologia nas escolas e as políticas que podem incentivar ou desencorajar os professores a utilizar a IA" podem explicar as disparidades entre os países.

"Observamos uma relação forte, ao nível dos países, entre a quantidade de formação oferecida sobre o uso de IA e a sua utilização", disse à Euronews Next.

Ben Hertz e Antoine Bilgin, responsáveis pedagógicos e de investigação na European Schoolnet, salientaram que as grandes diferenças no uso de IA refletem o enquadramento político e a cultura educativa de cada país, com alguns a adotarem uma postura nacional de maior cautela.

"O acesso a apoio prático, como formação e infraestrutura, é também um acelerador crítico. Os dados do TALIS confirmam que, em sistemas com maior utilização de IA, os professores têm maior probabilidade de ter recebido formação profissional sobre o tema", explicaram Hertz e Bilgin à Euronews Next.

Por exemplo, França começou este ano a disponibilizar formação nacional em IA nas escolas públicas, o que ocorreu após a recolha dos dados do TALIS.

"Cautela, regras pouco claras e infraestrutura limitada são fatores que provavelmente explicam uma adoção mais lenta, sobretudo numa área nova e controversa como a IA", acrescentaram.

Motivos possíveis para estas diferenças incluem a existência e qualidade da formação, a carga de trabalho, a escassez de professores, a motivação pessoal e a curiosidade, segundo Martina Di Ridolfo, coordenadora de políticas no Comité Sindical Europeu de Educação (ETUCE).

Para que usam os professores a IA?
Entre os professores que usaram a IA, em média na União Europeia (UE-22), quase dois terços (65%) afirmam que a utilizam para aprender e resumir um tópico de forma eficiente, e 64% recorrem à IA para dar forma a planos de aula ou atividades. Estas duas percentagens mais altas indicam que a IA é usada sobretudo na preparação dos próprios professores.

Outros fins e respetivas percentagens:
  1. Ajudar alunos a praticar novas competências em cenários reais (49%)
  2. Apoiar alunos com necessidades educativas especiais (40%)
  3. Ajustar automaticamente a dificuldade dos materiais segundo as necessidades de aprendizagem dos alunos (39%)
  4. Gerar texto para feedback aos alunos ou comunicações com pais/encarregados de educação (31%)
  5. Analisar dados sobre participação ou desempenho dos alunos (29%)
  6. Avaliar ou classificar trabalhos dos alunos (26%)
Os resultados sugerem que os usos diretos em sala de aula ou voltados para os alunos são menos comuns. Os professores recorrem sobretudo à IA para a sua própria preparação, enquanto para as tarefas de avaliação são menos usadas. Hertz e Bilgin sugerem que muitos professores provavelmente utilizarão a IA sobretudo "nos bastidores", agora e num futuro próximo.

Ruochen, da OCDE, referiu que a IA pode apoiar os professores no trabalho administrativo, libertando tempo e energia para outras tarefas mais relacionadas com o ensino direto.

Que futuro para a IA nas escolas?
Os especialistas concordam que o uso de IA na educação está a crescer de forma constante e continuará a expandir-se. Alertam também que a utilização responsável, diretrizes claras e a consciência das possíveis desvantagens devem fazer parte desse progresso.

Hertz e Bilgin, da European Schoolnet, notaram que, com o tempo, os sistemas de IA poderão interagir mais diretamente com os alunos, por exemplo, propondo atividades personalizadas ou fornecendo feedback em tempo real.

"Mas os professores devem manter-se como o principal interlocutor entre o aluno e a tecnologia, para preservar a sua autonomia, supervisão ética e função de cuidado", disseram.

A UNESCO sublinha o papel central dos professores à medida que o uso de IA na educação se expande.

"As ferramentas de IA devem complementar, não substituir, os professores, e o seu uso deve alinhar-se com padrões éticos e objetivos educativos, preservando a autonomia e privacidade de professores e alunos", afirmou a porta-voz da UNESCO.

Antecipando um crescimento do uso da IA entre professores e alunos, sobretudo com ferramentas generativas, Di Ridolfo salientou outra preocupação: "Face à grave escassez de professores que enfrentamos na Europa, vemos riscos concretos de desqualificação e perda de competências na profissão", disse à Euronews Next.

Chamou ainda a atenção para uma limitação do inquérito da OCDE: os dados nada dizem sobre a frequência desse uso. Não indicam se os professores recorreram à IA regularmente ou se apenas a testaram algumas vezes.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Não há Raças: A Unidade Biológica da Humanidade

Resumo
O conceito de raça humana, amplamente utilizado durante os séculos XIX e XX, tem sido desmantelado pela investigação genética contemporânea. Estudos em biologia evolutiva e genética populacional demonstram que as variações genéticas dentro de grupos humanos são superiores às variações entre grupos, invalidando a noção de raças biológicas. Este artigo revisita a evolução do conceito de raça, a evidência científica que o refuta e as suas implicações sociais e éticas, defendendo a centralidade do conceito de espécie única na compreensão da diversidade humana.

𝟏. 𝐈𝐧𝐭𝐫𝐨𝐝𝐮çã𝐨
A ideia de “raça” tem uma longa história de uso e abuso. Durante o Iluminismo e a expansão colonial europeia, o termo adquiriu uma dimensão classificatória e hierárquica, utilizada para justificar desigualdades políticas, económicas e sociais (Gould, 1981). No entanto, com o avanço da biologia molecular e da genética populacional no século XX, tornou-se evidente que a noção de raças humanas não possui fundamento biológico. A diversidade humana deve ser entendida como uma expressão da variação contínua dentro da espécie Homo sapiens.

𝟐. 𝐎 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐡𝐢𝐬𝐭ó𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐫𝐚ç𝐚
A construção do conceito de raça foi influenciada por naturalistas como Linnaeus e Blumenbach, que procuraram classificar a humanidade em grupos discretos com base em características fenotípicas superficiais. Essas classificações, embora pretensamente científicas, estavam impregnadas de preconceitos eurocêntricos e racistas (Stepan, 1982). A antropologia física do século XIX tentou legitimar tais distinções através da craniometria e da medição de traços corporais, práticas que hoje são reconhecidas como pseudocientíficas.

𝟑. 𝐀 𝐫𝐞𝐟𝐮𝐭𝐚çã𝐨 𝐠𝐞𝐧é𝐭𝐢𝐜𝐚
Com o desenvolvimento da genética moderna, particularmente após o Projeto Genoma Humano (2003), comprovou-se que todos os seres humanos partilham cerca de 99,9% do seu ADN (Lewontin, 1972; Rosenberg et al., 2002). As pequenas diferenças existentes são distribuídas de forma gradual (clinal) e não correspondem a fronteiras geográficas fixas. Lewontin demonstrou que 85% da variação genética ocorre dentro de populações locais, e não entre os grupos raciais tradicionais. Assim, “raça” é uma construção social, e não uma categoria biológica.

𝟒. 𝐈𝐦𝐩𝐥𝐢𝐜𝐚çõ𝐞𝐬 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 é𝐭𝐢𝐜𝐚𝐬
A persistência do conceito de raça tem consequências profundas na perpetuação do racismo e das desigualdades sociais. O reconhecimento científico da inexistência de raças biológicas não elimina, contudo, o racismo enquanto fenómeno social e político. É fundamental distinguir entre diferença biológica e discriminação social. A educação científica e intercultural desempenha um papel central na desconstrução das narrativas racistas e na promoção de uma ética universalista baseada na dignidade humana.

𝟓. 𝐂𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐬ã𝐨
A biologia contemporânea confirma que a humanidade constitui uma única espécie com variação genética interna contínua. O conceito de raça, embora sem validade científica, persiste como instrumento de exclusão social. A superação do racismo exige não apenas a denúncia do mito biológico da raça, mas também uma reflexão ética e política sobre as estruturas que o sustentam. A ciência, ao afirmar a unidade da espécie humana, oferece um fundamento sólido para uma cultura de igualdade e respeito pela diversidade.

𝐑𝐞𝐟𝐞𝐫ê𝐧𝐜𝐢𝐚𝐬 𝐁𝐢𝐛𝐥𝐢𝐨𝐠𝐫á𝐟𝐢𝐜𝐚𝐬
1.Gould, S. J. (1981). The Mismeasure of Man. New York: W.W. Norton & Company.
2. Lewontin, R. C. (1972). “The Apportionment of Human Diversity.” Evolutionary Biology, 6, 381–398.
3. Rosenberg, N. A., et al. (2002). “Genetic Structure of Human Populations.” Science, 298(5602), 2381–2385.
4. Stepan, N. L. (1982). The Idea of Race in Science: Great Britain, 1800–1960. London: Macmillan.
5. UNESCO (1950). The Race Question. Paris: UNESCO.

Saber mais:

domingo, 2 de novembro de 2025

Por onde andam a democracia e o bem comum e qual o papel da petição?


Vivemos um tempo paradoxal. Nunca tivemos tantos meios para nos informarmos, comunicarmos e participarmos na vida pública — e, no entanto, a sensação dominante é a de afastamento. A democracia, esse bem conquistado à custa de tanto esforço e memória, parece hoje andar perdida entre o ruído e a indiferença. O bem comum, fundamento ético da convivência humana, foi sendo substituído por um pragmatismo egoísta, por uma lógica de mercado que transforma cidadãos em consumidores e a política em espetáculo.
A democracia não se esgota no voto. Ela exige presença, vigilância e um sentido de pertença. Precisa de cidadãos atentos, críticos, capazes de questionar e propor. Infelizmente, a apatia cresce à medida que se agravam as desigualdades, que o discurso público se torna tóxico e que os centros de decisão se afastam das pessoas. A desinformação — alimentada por algoritmos que premiam o escândalo — corrói o terreno fértil da confiança, sem a qual nenhuma comunidade pode florescer.
E o bem comum? Esse conceito, tão simples e tão esquecido, é o que poderia restituir sentido à democracia. Falar de bem comum é lembrar que a liberdade individual só faz sentido num quadro de responsabilidade partilhada. É reconhecer que a nossa saúde depende da saúde dos ecossistemas, que o nosso bem-estar depende da justiça social, que o futuro dos nossos filhos depende da coragem coletiva de mudar de rumo.
Por onde andam, então, a democracia e o bem comum? Talvez não estejam perdidos — apenas esquecidos nos gestos pequenos que deixámos de valorizar: no diálogo entre vizinhos, na participação local, na escola que ensina a pensar, na comunidade que cuida. É aí, no quotidiano concreto, que renasce a possibilidade de uma cidadania viva e solidária.

Porque a democracia não se herda — constrói-se. E o bem comum não se decreta — cultiva-se.

A democracia — como defende Pierre Rosanvallon (2008) — “não é um estado, é um processo contínuo de invenção coletiva”. E esse processo exige participação real, protagonismo cidadão e uma educação que ensine não apenas a competir, mas a cooperar. O bem comum, por sua vez, não é uma abstração moral: é, como lembra Martha Nussbaum (2011), a condição material e simbólica que permite que todas as pessoas floresçam em dignidade e interdependência.

Uma petição pode ter um papel estratégico e simbólico muito forte neste contexto de reflexão sobre democracia e bem comum.
Mesmo parecendo um instrumento modesto, ela representa a prática viva da cidadania participativa — um antídoto contra a apatia democrática. 

Para Rosanvallon (2015), estes “atos de vigilância cívica” são hoje essenciais para revitalizar a democracia representativa, criando laços entre a sociedade civil e as instituições.

Estudos recentes (por exemplo, Smith, 2009; Nabatchi & Leighninger, 2015) mostram que formas de democracia participativa — como petições, orçamentos participativos e assembleias cidadãs — aumentam a confiança pública e a qualidade deliberativa das políticas públicas.

Eis algumas vantagens claras:
🟢 1. Reforça a cidadania ativa
Assinar (ou criar) uma petição é um ato de participação direta. Mostra que as pessoas não se limitam a votar de quatro em quatro anos, mas querem intervir no debate público. Cada assinatura é um gesto de consciência cívica, e o conjunto delas cria uma voz coletiva que o poder político não pode ignorar.
🟢 2. Cria comunidade e convergência
Num tempo de fragmentação e polarização, uma petição pode reunir cidadãos em torno de um propósito comum — seja ambiental, social ou ético. Funciona como ponto de encontro entre pessoas que, mesmo diferentes, reconhecem a urgência de defender um valor partilhado.
É o bem comum, em forma de mobilização.
🟢 3. Traz visibilidade e pressão política
Uma petição bem articulada e divulgada atrai a atenção pública e mediática, obrigando decisores e instituições a reagirem. Mesmo quando não resulta imediatamente em legislação, força o debate, expõe contradições e obriga à transparência.
🟢 4. Educa e desperta
Muitas pessoas tomam contacto com certos temas através de uma petição — é um instrumento de consciencialização. Bem redigida, ela explica, contextualiza e propõe soluções. Ou seja, transforma a indignação dispersa em conhecimento e ação concreta.
🟢 5. Articula o local e o global
Peticionar é um ato simultaneamente local e global: pode começar num bairro, numa escola ou numa associação, e acabar a influenciar decisões nacionais ou internacionais. É uma ponte entre a democracia de proximidade e a política institucional.

👉 Em resumo:
1. Num tempo em que muitos se perguntam “por onde anda a democracia?”, uma petição é um modo de trazê-la de volta para as mãos das pessoas — não como ideal abstrato, mas como prática quotidiana.
2. Portanto, peticionar não é um gesto simbólico ou de "activismo de sofá": é agir sobre a realidade, dar forma política à indignação ética. É um exercício de corresponsabilidade e de reconstrução do bem comum a partir da base social.

Relembro o Exercício do direito de petição
Lei n.º 43/90 publicado no Diário da República n.º 184/1990, Série I de 1990-08-10

Referências bibliográficas selecionadas

  • Freire, P. (1996). Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra.

  • Habermas, J. (1996). Between Facts and Norms: Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy. MIT Press.

  • Nabatchi, T., & Leighninger, M. (2015). Public Participation for 21st Century Democracy. Jossey-Bass.

  • Nussbaum, M. (2011). Creating Capabilities: The Human Development Approach. Harvard University Press.

  • Orr, D. (2004). Earth in Mind: On Education, Environment, and the Human Prospect. Island Press.

  • Rosanvallon, P. (2008). La légitimité démocratique. Seuil.

  • Rosanvallon, P. (2015). Le bon gouvernement. Seuil.

  • Smith, G. (2009). Democratic Innovations: Designing Institutions for Citizen Participation. Cambridge University Press.

  • Sterling, S. (2010). Transformative Learning and Sustainability: Sketching the Conceptual Ground. Learning and Teaching in Higher Education, 5(11), 17–33.

  • UNESCO (2019). Education for Sustainable Development Beyond 2019. Paris: UNESCO.


domingo, 19 de outubro de 2025

Morreu aos 91 anos Sofia Corradi, fundadora do programa Erasmus


A professora conhecida como 'mãe do Erasmus' faleceu na sexta-feira, em Roma. Em 1969, após uma desilusão universitária, criou o que hoje é um programa que envolve milhões de estudantes em toda a Europa.

Faleceu aos 91 anos em Roma Sofia Corradi, professora catedrática de Ciências da Educação na Universidade Roma 3, conhecida como 'mãe do Erasmus'.

Sofia Corradi foi a criadora do programa que levou e continua a levar milhares de jovens estudantes a viajar pela Europa todos os anos.

A notícia foi divulgada pela família da professora, que recordou uma mulher “de grande energia e generosidade intelectual e afetiva”.

Como nasceu o projeto Erasmus
Após estudar Direito na La Sapienza de Roma, com uma bolsa de estudo Fulbright em 1957, obteve o “Master in Comparative Law” na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Ao regressar a Itália, a universidade não reconheceu o mestrado obtido no estrangeiro e pediu-lhe que completasse o curso de estudos regular. Corradi, numa entrevista dada à Rai, contou que foi insultada pelo pessoal administrativo, que afirmava que a professora tinha ido divertir-se aos Estados Unidos e não estudar.

Tornou-se consultora científica da Associação dos Reitores das Universidades Italianas e, graças à sua experiência no estrangeiro, em 1969 elaborou um memorando que continha o embrião do projeto Erasmus.

Corradi propôs que um estudante pudesse realizar parte do seu plano de estudos em universidades estrangeiras, após aprovação prévia do Conselho de Faculdade.

A proposta foi acolhida pelo ministro da Educação, Mario Ferrari Aggradi, que a usou como base para um projeto de reforma universitária em Itália, mas, devido ao fim prematuro da legislatura, nunca foi implementada.

Cerca de dez anos depois, em 1976, o projeto idealizado por Corradi foi elevado a nível europeu por uma resolução da CEE que incentivava o intercâmbio de estudantes entre universidades de diferentes países. Assim nasceu o Joint Study Program que, durante dez anos, permitiu experimentar o modelo idealizado pela professora.

Em 1987, sob o impulso da associação estudantil Egee, fundada pelo político francês Franck Bianchieri e apoiada pelo presidente francês François Mitterrand, foi aprovado o primeiro programa Erasmus, sob a direção de Domenico Lenarduzzi, Diretor na Direção-Geral de Cultura e Educação da Comissão Europeia em Bruxelas.

Na mesma entrevista, Corradi contou com entusiasmo e emoção as cartas que recebeu ao longo dos anos, com agradecimentos dos estudantes que participaram no programa europeu.

Discurso de Sofia Corradi na atribuição do Prémio Carlos V

sábado, 11 de outubro de 2025

Data de origem dos parques nacionais mais antigos da Europa

A ideia de parque nacional nasceu longe daqui — em 1872, com Yellowstone, nos Estados Unidos — mas foi na Europa que ela ganhou uma identidade própria: menos selvagem e mais humana, onde a natureza e a cultura se entrelaçam há séculos. 
Tudo começou em 1909, quando a Suécia criou os seus nove primeiros parques nacionais, entre eles Sarek e Abisko. Eram territórios de montanha e tundra, quase intocados, que simbolizavam o orgulho nacional e a necessidade de preservar paisagens únicas. Foi o nascimento oficial da conservação europeia moderna. 
Poucos anos depois, em 1914, a Suíça instituiu o seu Parque Nacional na Engadina — o mais antigo parque alpino e ainda hoje um exemplo de rigor científico. Em 1922, a Itália seguiu o caminho com o Gran Paradiso, criado a partir de uma antiga reserva de caça real. Um ano mais tarde nasceu o Parque Nacional dos Abruzos, reforçando a ideia de que proteger a natureza também é cuidar do património cultural e da vida rural. Nos Balcãs, o atual Parque Nacional do Triglav (Eslovénia) foi proposto em 1924, unindo montanhas, lagos e tradições locais — uma visão de natureza como paisagem vivida, não separada do humano. 
Depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento expandiu-se: Reino Unido (1951), França (1963) e Espanha (1918, com Covadonga/Picos de Europa) integraram a rede de parques. A conservação deixou de ser elitista e passou a envolver o direito de todos a usufruir e proteger a natureza. A partir dos anos 1970, os parques nacionais tornaram-se também espaços de educação ambiental e sustentabilidade, com comunidades locais no centro das decisões. 
Hoje, a Europa conta com mais de 350 parques nacionais, cobrindo cerca de 1,3 milhão de quilómetros quadrados. São refúgios de biodiversidade, mas também laboratórios de convivência entre o humano e o natural — talvez a verdadeira marca do espírito europeu.

Fontes e referências
  1. Sveriges Nationalparker (oficial)
  2. Parco Nazionale del Gran Paradiso 
  3. Swiss National Park
  4. EUROPARC Federation 
  5. Terrestrial protected areas in Europe

sábado, 27 de setembro de 2025

Unesco distingue Arrábida como Reserva da Biosfera


O conselho Coordenador Internacional do programa Man and the Biosphere da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), atribuiu a classificação este sábado, durante o 37.º Encontro deste organismo, que juntou mais de uma centena de países em Hangzhou, China.

Esta é a 13ª reserva do género em Portugal.

André Martins, presidente da Associação de Municípios Região Setúbal, considerou este passo será essencial para a proteção e a promoção da Serra em termos ambientais, económicos e paisagísticos.

A candidatura havia sido apresentada pela Associação de Municípios da Região de Setúbal, que coordenou o processo.

As Câmaras Municipais de Palmela, Sesimbra e Setúbal e pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, assinaram igualmente a candidatura, que o Comité Internacional elogiou como "muito bem documentada". A Arrábida, na Península de Setúbal, passa a integrar agora uma rede mundial de 785 Reservas da Biosfera onde se encontram áreas naturais, incluindo as Galápagos, no Equador, o Serengueti, na Tanzânia, o Yellowstone, nos Estados Unidos ou o Parque Donaña ou Canárias, em Espanha. 

O Comité Consultivo reconheceu que a candidatura apresentou "uma paisagem diversificada caracterizada pela Serra da Arrábida e um rico ecossistema marinho". 

Na sua recomendação, destacou "as mais de 1400 espécies vegetais – que representam 40 por cento da flora portuguesa –, incluindo 70 espécies raras e endémicas", e destacou a "fauna diversificada, com 200 espécies de vertebrados e mais de 2000 espécies marinhas". 

Também o Plano de Ação apresentado pelas autarquias envolventes mereceu menção, considerando o Comité que ele "define objetivos de conservação, desenvolvimento e resiliência climática, alinhados com o Plano de Ação de Lima e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas". 

Entre os desafios colocados à Serra da Arrábida coloca-se a sua promoção, proteção e desenvolvimento sustentável.

Os municípios da Região de Setúbal acreditam que a distinção da Reserva da Biosfera da Arrábida dada pela Unesco irá estimular um amplo movimento de conhecimento e de sensibilização sobre os valores naturais e culturais da região, a par da experimentação. 

O objetivo, referiram, é que este território se afirme como exemplo de equilíbrio, usufruto sustentável e boas práticas comunitárias. 

A distinção como reserva de Biosfera deverá criar também uma verdadeira plataforma de trabalho integrado entre as autarquias, o ICNF e o conjunto de outros agentes que diariamente utilizam este espaço e os seus recursos.

Congresso Mundial de Reservas da Biosfera, que terminou na sexta-feira, foram anunciadas as 30 novas áreas, incluindo as de quatro de países lusófonos, Portugal, S. Tomé e Príncipe, Angola e Guiné Equatorial.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Terras de Barroso é notícia em França

A Serra do Barroso, no extremo norte de Portugal, é única na sua história, património, paisagens e biodiversidade. É um dos oito territórios europeus atualmente classificados como Património Mundial da Agricultura pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura [Fonte].

Infelizmente, o seu subsolo é considerado rico em lítio, um elemento essencial no fabrico de baterias para telefones e veículos elétricos. Vendo isto como uma oportunidade económica, o governo português deu luz verde ao seu desenvolvimento. Os habitantes locais lutam contra o projeto, mas sem grande esperança. Uma crónica de um desastre ecológico anunciado. 

A base e a elevação
Do topo de um forte que data da Segunda Idade do Ferro, a estátua de pedra de um poderoso guerreiro gaélico, descoberta na região, contempla milhares de anos e uma paisagem de cortar a respiração moldada pela pura paciência do tempo: a do Barroso, uma região de média montanha que se estende pelos concelhos de Boticas e Montalegre, no distrito de Vila Real (região histórica de Trás-os-Montes). Os caminhantes que se aventuram até aqui não estão imunes ao encontro com uma alcateia de lobos ibéricos, numerosos na região e uivantes durante a noite. Mais abaixo, é o gado Barrosã, com a sua pelagem fulva e os seus chifres longos e curvos, cuja herança genética está enraizada nas profundezas do tempo, que domina esta obra-prima.

Em Agosto último, ambientalistas de todo o mundo reuniram-se ali, precisamente na aldeia de Covas do Barroso, no quintal de uma antiga quinta convertida em ecomuseu (um grande número na região ). A sua luta local: a mina de lítio que ameaça desfigurar a área, mais precisamente a exploração de pegmatitos contendo lítio para a produção de concentrado de espodumena, um mineral utilizado no fabrico de lítio para baterias. Segundo um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos, publicado em 2023, Portugal detém as maiores reservas de lítio da Europa e a oitava maior do mundo. O seu Primeiro-Ministro, António Costa, tem afirmado repetidamente que o país está sentado sobre um tesouro.

"A realidade é que ele não sabe mais do que eu e tu, porque estes são recursos deduzidos", interrompe Carlos Leal Gomes, professor da Universidade do Minho e especialista na matéria. "Quinto, sexto, oitavo lugar, para já não temos absolutamente nada. Só saberemos esta classificação quando começarmos a produzir." O grupo britânico Savannah Resources Plc [Fonte], que obteve a concessão para a operação, apresentava, no entanto, números muito precisos antes do Verão: uma produção de 25.000 toneladas, o equivalente à quantidade de material necessária para fabricar baterias para aproximadamente 500.000 veículos por ano. Mas, mais uma vez, Carlos Leal Gomes modera o entusiasmo que prevalece em Lisboa: "Nesta fase, estes são apenas números indicativos, sabendo que neste campo estão comprovadas muito poucas estimativas." Além disso, os minérios de Barroso não são dos melhores em termos de qualidade. Exigirão muito trabalho para serem exploráveis."

O projeto Barroso Lithium envolve perfurações até 1.700 metros de profundidade numa área de 593 hectares e a criação de uma cratera a céu aberto com 800 metros de diâmetro, a menos de 200 metros das povoações mais próximas! Este é o pior método de extração existente, equivalente ao do gás de xisto, com a sua série de danos colaterais. A extraordinária floresta de pinheiros, que conseguiu o milagre de se regenerar após grandes incêndios há alguns anos, será novamente sacrificada, mas deliberadamente desta vez. Tínhamos lido muito sobre o assunto antes de o virmos visitar in loco, mas quando descobrimos o local, foi o suficiente para nos fazer chorar.

No bar da aldeia, o apropriadamente chamado "O Nosso Café", podíamos sentir os clientes um pouco relutantes em conversar. Não sabemos muito, não acompanhamos de perto e somos sempre encaminhados para outra pessoa. "As pessoas não entendem por que, com o objetivo louvável de reduzir a poluição, vamos destruir florestas, "rios, todo um ambiente e, em última análise, as suas vidas", resume Nelson Gomes, presidente da associação Unidos pela Defesa de Covas do Barroso. "Já estamos a assistir ao colapso climático com os nossos próprios olhos e, para o contrariar, vamos agravá-lo aqui. É uma aberração."

A comunidade intermunicipal do Alto Tâmega, da qual Barroso faz parte, é o ponto de encontro do norte de Portugal. A água está em todo o lado, em abundância, tanto que se pode ouvi-la cantar continuamente o seu fado. O Posto de Turismo fez dela a sua imagem de marca: "O território da água e 
bem-estar." Mas a evisceração da montanha, claro, perturbará este belo e intemporal equilíbrio. "A extracção interferirá inevitavelmente com a irrigação das nossas terras, o que acabará por condenar a produção", lamenta Aida, outra voz de protesto. "No entanto, esta natureza é a nossa única riqueza, a nossa mãe nutritiva." Acima de tudo, são necessários entre 41.000 e 1,9 milhões de litros de água para produzir uma tonelada de lítio.

Então, José promete alguma alegria à cidade distante: "Para além da interrupção do sistema de rega e das projecções de poeiras, todo este lítio terá de ser lavado antes de ser enviado. E é a água daqui que recebem no Porto, em Braga ou em Guimarães." Os promotores do projeto diriam que se trata apenas de fantasias sem base científica, enquanto realizaram estudos muito sérios. Mas os habitantes mais antigos da região recordam que a exploração de volframite, um mineral que contém tungsténio, um metal muito útil para o fabrico de armas, durante a Segunda Guerra Mundial quase condenou a tribo Barrosa.

Portugal é já o maior produtor de lítio da Europa, com 900 toneladas por ano [Fonte]. Este número continua, no entanto, a ser muito modesto em comparação com as 55.000 toneladas da Austrália (46,3% da produção mundial) ou as 26.000 toneladas do Chile (23,9%). Mas as suas reservas estão estimadas — ainda condicionalmente — em 60.000 toneladas. Assim, decidiu-se minerar em seis locais do interior do país, onde tinham sido identificados jazigos. O que salvou Portugal até então? O custo de extracção, duas a três vezes superior na Europa do que no Chile, por exemplo. Mas os avanços tendem a diminuir este fosso e, à medida que se começou a sentir uma certa inquietação quanto a uma possível futura escassez global, a decisão foi rapidamente tomada.

A Savannah Resources já está em casa em Portugal (o seu site está agora disponível em inglês e em português), onde criou uma agência dedicada de relações com os media. De facto, o grupo britânico está a beneficiar de uma impressionante campanha de portas abertas na imprensa portuguesa, onde, através de artigos que fazem lembrar publieditoriais, todos os bons motivos para a próxima operação são reafirmados sobre as suas condições. Boas pessoas, estejam descansadas, o nosso projeto é sustentável e obedece às técnicas mais virtuosas.

Para garantir o seu sucesso, a empresa, claro, cumpriu uma série de requisitos: a promessa de indemnizações às comunidades afetadas, a construção de uma nova estrada para o transporte de lítio para limitar os incómodos aos residentes locais, a proibição de captação de água do Rio Covas, mecanismos de compensação, etc. A Savannah chega mesmo a gabar-se da potencial renaturalização do local após o esgotamento da mina (falamos de uma duração de exploração em dezassete anos).

Com a autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que deu a sua aprovação esta primavera, a Savannah Resources pretende iniciar as escavações até 2026.

"Mas fomos tão enganados desde o início, com argumentos falaciosos, que já não acreditámos neles", diz João, que regressa à sua aldeia natal todos os verões. "Na verdade, só fomos informados depois do lançamento do projeto." E, como sabem, é difícil protestar em Portugal. Recentemente, activistas tentaram erguer um bloqueio na estrada nacional que atravessa o norte do país de leste a oeste, mas em menos de uma hora foram removidos sem cerimónias pelas autoridades. Assim, o protesto limita-se modestamente a inscrições ou faixas com os dizeres: Não à mina, sim à vida  ou, mais simplesmente, "Não à Mina".

Porque a vida tem sentido na região do Barroso, onde os habitantes sempre respeitaram todos os seres vivos. Sentimo-lo em Sofia, cuja família possui uma quinta perto de Chaves, a cerca de vinte quilómetros. De longe, uma genuína admiração por eles: "A vida deles foi difícil durante muito tempo. Muito difícil. Estavam completamente isolados do resto do país. A eletricidade só chegou lá em 1966. Assim, foram organizados em comunidades para a gestão dos recursos." Tal isolamento que, no Concílio de Trento, em 1542, foi pedida uma isenção para permitir que os padres do Barroso se casassem! Tal não aconteceu, mas as aldeias mais remotas, como Vilarinho Seco, não mudaram nada no seu modo de vida, que alguns comparariam, sem dúvida, ao dos Amish.

Na década de 1980, o fotógrafo Gérard Fourel imortalizou esta "terra dos últimos homens", que fala por si. Quarenta anos depois, os seus habitantes ainda lá vivem com os seus animais e cozem pão no forno comunitário, que se assemelha a uma ágora. E os baldios, terras comunais geridas colectivamente, são ainda numerosos na zona. É esta obra-prima da humanidade que a UNESCO mencionou "a forma tradicional de trabalhar a terra, cuidar dos animais e a entreajuda entre os seus habitantes", que David Archer, ex-CEO da Savannah Resources, descreveu em 2021 no Diário de Noticias como uma região moribunda em processo de desertificação, apresentando a sua mina como "a" solução para inverter a tendência e revitalizá-la, prometendo "a procura imobiliária (sic) e a realocação de serviços públicos"[Desde 18 de setembro de 2023 que o português Emanuel Proença é o novo CEO da Savannah Resources Plc ]. Comparada com a carrinha de compras que abastece Covas de Barroso, a perspectiva roça o grotesco. Como sempre acontece com um projecto deste tipo, fala-se na criação de 600 postos de trabalho, mas isso dificilmente afectará a população local, uma vez que a dita mina "inteligente" será parcialmente gerida remotamente.

André, natural de Montalegre, Toulouse, que regressa todos os verões para fazer caminhadas com a filha, faz a triste observação de que "mesmo aqui, onde pensávamos estar em segurança, estamos presos à política do dinheiro". O neoliberalismo europeu tem as suas garras sobre Barroso, e agora será difícil para ele libertar-se. Com a autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que deu o seu aval na primavera, a Savannah Resources pretende iniciar a escavação até 2026. A estrada de trinta quilómetros para transportar o lítio até à autoestrada, no entanto, ainda não está concluída até lá. João vê nisso "talvez uma forma de atrasar o prazo, porque muitos municípios têm de ser atravessados ​​e um certo número de proprietários está recalcitrante". 

Mas mantém-se pessimista: "As pessoas não têm muitas ilusões: o projecto vai avançar porque já foi investido muito dinheiro." No início de setembro, a APA chegou mesmo a dar o seu aval a um segundo projeto, em nome da "importância estratégica do lítio para os objetivos de neutralidade carbónica e a transição energética", este em Montalegre: a construção de uma unidade de refinação do metal extraído pela empresa portuguesa Lusorecursos. Montalegre, "750 anos de história" e "uma ideia de natureza", como gosta de se apresentar. Parte do território do concelho estende-se até à Reserva da Biosfera da Peneda-Gerês.

As associações de defesa de Barroso, no entanto, sustentam que a luta ainda não terminou e prometem recorrer à justiça, se necessário. Desde o verão que António Costa tem aparecido em grandes outdoors de 15x10 cm, a três quartos de distância, a abraçar idosos que imaginamos vulneráveis. "Governar a pensar nas pessoas", diz o lema Quem sabe por que razão os apoiantes de Barroso não se sentem preocupados.