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sexta-feira, 13 de março de 2026

The Marrow of the Infinite

Foto do meu amigo Rui Manuel Vitor Cortes

"The mountain does not hold the water;
it is the water,
and the water is the stone’s slow breath.

We do not look at the wild;
we are the wild looking back at itself,
remembering that the boundary of our skin
is as porous as the moss upon the rock.

To go out into the wild is to go in,
climbing not over the rocks, but through the soul,
where every moss-slicked boulder
is a scripture written in green and grey.

Our biological dance is in the spray;
we breathe what the forest exhales,
and the forest drinks what we let fall.
There is no "environment" out there to save -
only our own extended body,
leaping over the precipice in a roar of white foam.

We listen with the heart that reconnects.
In the rush of the current, we hear the world’s grief
and the world’s ancient, stubborn joy.

We stop being the masters of the flow
and become the flow itself—
held by the ancestors of the silt,
feeding the children of the sea.

The granite stands. The water moves.
And we, the watchers, are the bridge
where the mountain finally learns
how beautiful it is. "

João Soares, 13.03.2016

Pedi ao Gemini para criar uma música baseada no meu poema. Ouvir aqui

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Walt Whitman e o melro


“Creio que uma folha de erva não vale menos que a jornada das estrelas | E que a formiga não é menos perfeita, nem um grão de areia, nem um ovo de carriça | E que o sapo é uma obra prima para o mais exigente | E que as amoras silvestres adornariam os salões do Céu | E que a mínima articulação da minha mão escarnece de toda a maquinaria | E que a vaca ruminando com a cabeça baixa supera a estátua | E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar milhões de infiéis.
Descubro que trago em mim gnaisse, carvão, filamentos de musgo, frutos, cereais, raízes comestíveis E que fui estucado com quadrúpedes e pássaros | E que me distanciei, por boas razões, do que está por detrás de mim | Mas quando quero faço regressar seja o que for ....... ”
Walt Whitman, Folhas de Erva

domingo, 17 de dezembro de 2023

Feliz Natal Ecológico

Árvore de Natal de granny square - Trivento (Itália)

O Natal está chegar. Desejo a todos um bom Natal, feliz e simples. Muito mais escuta, presentes sois vocês próprios à mesa. Haja muita entreajuda.

Conselhos para um Natal mais ecológico:

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Musgo: A ‘fénix’ do mundo vegetal que protege os solos e pode ser a chave para a sua recuperação


A presença de musgo pode, aos olhos de muitos, ser considerada sinal de desmazelo ou mesmo de abandono de um dado terreno, pelo que a tentação poderá ser para removê-lo. No entanto, tal pode deixar o solo mais vulnerável, por exemplo, à erosão.

Uma investigação realizada por dezenas de cientistas de vários países aponta mesmo que os musgos, plantas ancestrais não-vasculares que pertencem ao grupo dos briófitos, a meio caminho entre as algas e a primeira flora que colonizou o meio terrestre, são fundamentais para a saúde dos solos em todo o mundo. Estima-se que hoje existam mais de 14 mil espécies diferentes de musgos, espalhadas pelos quatro cantos da Terra.

Num artigo publicado esta semana na revista ‘Nature Geoscience’, os investigadores escrevem que quando o musgo cresce na camada mais cimeira dos solos cria as condições ideias para que as plantas prosperem. Além disso, dizem, poderá mesmo ser um aliado essencial contra as alterações climáticas, uma vez que ajuda a capturar e a reter grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera.

Os mais de 50 cientistas que fizeram parte deste trabalho analisaram amostras de musgo recolhidas em mais de 123 ecossistemas espalhados por todo o planeta, desde florestas tropicais luxuriantes às paisagens aparentemente inóspitas das regiões polares geladas, passando pelos desertos. Contas feitas, os musgos cobrem uma área total combinada de 9,4 milhões de quilómetros quadrados dos ambientes estudados, algo comparável à dimensão do Canadá ou da China.

Para este estudo, os cientistas quiseram perceber “o que estaria a acontecer em solos dominados por musgos e o que estaria a acontecer em solos onde não existiam musgos”, explica David Eldridge, da Universidade de New South Whales, na Austrália, e principal autor do artigo. E constataram que o musgo é o coração pulsante dos ecossistemas de plantas, uma vez que, por exemplo, estimulam a circulação de nutrientes, impulsionam a decomposição de matéria orgânica, o que ajuda a manter o solo saudável, e até promovem o controlo de doenças prejudiciais às próprias plantas e até aos humanos.

No que toca aos seus ‘poderes’ de absorção de carbono, os investigadores calculam que, comparando com solos desprovidos de musgos, essas plantas ancestrais são capazes de armazenar, globalmente, 6,43 mil milhões de toneladas de carbono retirado da atmosfera. Como tal, o seu papel no combate às alterações climáticas é central e, argumentam os autores, podem absorver até seis vezes mais dióxido de carbono do que o que é emitido por práticas agrícolas insustentáveis, como a desflorestação e o pastoreio excessivo

Apesar de não serem considerados plantas superiores, por não terem sistemas vasculares (xilema e floema), os musgos são exemplos flagrantes de resiliência na face da adversidade. Explica Eldridge que em áreas desérticas, os musgos, na ausência de água, secam e mirram, mas não chegam a morrer, “vivem em animação suspensa para sempre”.

O cientista recorda que certa altura foi recolhida uma amostra de musgo completamente seca que se estimava ter cerca de 100 anos. Foi borrifada com água e, tal como a mitológica fénix, renasceu. “As suas células não se desintegram como acontece nas plantas comuns.”

“O que mostramos com a nossa investigação é que onde quer que existam musgos teremos um solo mais saudável, com mais carbono e nitrogénio”, salienta, acrescentando que essas plantas primitivas são essenciais para ajudar a flora a recuperar em áreas degradadas e, assim, para regenerar florestas e muitos outros ecossistemas.

“Os musgos podem muito bem servir de veículos para catalisar a recuperação de solos gravemente degradados em áreas urbanas ou naturais”, observa Eldridge.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

As turfeiras


As turfeiras são ecossistemas de zonas húmidas que se caracterizam pela acumulação de matéria orgânica parcialmente decomposta, principalmente os musgos do género Sphagnum (esfagno) e outros detritos vegetais, em solos saturados de água, que se formam em condições ambientais específicas que favorecem a acumulação de matéria orgânica em detrimento de sua decomposição. Apesar de existirem principalmente em zonas montanhosas com elevada precipitação, existiam turfeiras bem desenvolvidas em zonas litorais em Portugal, ocorrendo mesmo em sistemas dunares.
Uma das maneiras pela qual as turfeiras podem se formar em zonas dunares é através da lixiviação de nutrientes na areia. Nesse processo, a chuva ou outras fontes de água percolam pelos solos arenosos e dissolvem os nutrientes presentes no solo. À medida que a água se move pelo solo, ela carrega esses nutrientes dissolvidos para baixo, longe das camadas superficiais do solo onde as plantas não os podem absorver. Isso cria um ambiente pobre em nutrientes na superfície, o que pode limitar o crescimento da vegetação. Como resultado dessa limitação de nutrientes, e em zonas com abundância de água, os musgos do género Sphagnum podem tornar-se dominantes no ambiente. Este grupo de musgos é chamado de “engenheiro de ecossistemas”, porque altera as condições das zonas onde cresce. Na realidade, sem a presença de esfagno, não haveria acidificação do substrato e consequentemente não existiriam turfeiras. Estes organismos têm a capacidade de reter água e nutrientes, o que permite que cresçam e acumulem matéria orgânica. À medida que o musgo se acumula, cria uma espessa camada de matéria orgânica que isola o solo do ar, retardando a decomposição e favorece a acumulação de mais matéria orgânica.
Com o tempo, este processo pode levar à formação de uma turfeira nos sistemas dunares. A turfeira pode crescer em profundidade e espalhar-se lateralmente, eventualmente formando um ecossistema distinto com suas próprias comunidades vegetais e animais características. A presença de algumas turfeiras em sistemas dunares interiores em Portugal poderá ter uma génese relativamente recente, tendo em conta a dinâmica de acreção dunar em algumas áreas costeiras de Portugal Continental. A deposição da areia que permitiu a formação dos cordões dunares ao longo da costa, ocorreu na sua maioria nos últimos 500 anos, no início da Idade Média, e é o resultado da expansão agrícola a solos marginais e ao encurtamento do ciclo de recorrência dos fogos no interior da Península Ibérica, que agravaram os fenómenos erosivos e carregaram de sedimentos os grandes rios. Esse fenómeno de acreção dunar foi mais intenso no período da Pequena Idade do Gelo e a sul da foz do Douro, devido à elevada carga de sedimentos transportados pelo rio que se acumularam a sul por deriva litoral. Estas dunas eram dominadas por sedimentos pobres e espessos, com pouca matéria orgânica. A migração das partículas orgânicas das camadas superficiais destas dunas para a camada mais profunda, diminuiu a carga de nutrientes destes meios e criando um ambiente favorável ao crescimento de esfagno. Link refere no livro “Voyage en Portugal” que na Comporta se explorava turfa no século XVIII, algo muito raro em Portugal.

domingo, 23 de outubro de 2022

Como assegurar a diversidade de cogumelos (e outros fungos) num espaço verde

Cogumelos do choupo (Cyclocybe aegerita)

Em Portugal, estima-se que há cerca de 3.000 espécies diferentes de macrofungos (os fungos que produzem cogumelos), embora ainda sem certezas sobre o número exato. Susana Gonçalves, investigadora ligada ao Centro de Ecologia Funcional e ao MyCoLAB da Universidade de Coimbra e bióloga que se dedica à investigação sobre estes pequenos seres, lembra que são muitas vezes olhados como “o parente pobre” da vida na Terra, mas têm um papel importantíssimo: são os principais decompositores da natureza, reciclando as árvores e outra matéria vegetal, e estabelecem parcerias de mútuo benefício com 80 a 90% das plantas do globo. “Sem fungos, a vida no planeta não existiria tal como a conhecemos”, sublinha a investigadora, que no passado dia 23 de outubro realizou uma visita orientada sobre “Jardins, cogumelos e o fantástico reino fungi”, no Jardim Gulbenkian.

Mas afinal, o que são os fungos? Susana Gonçalves adianta que são seres eucariotas, pois tal como os animais e as plantas possuem células com núcleo. Por outro lado, precisam de carbono para sobreviver, que conseguem ir buscar “por absorção”. “Emanam enzimas que decompõem a matéria em redor, que depois absorvem.”

A grande maioria dos fungos é filamentosa, pois possuem uns filamentos muito fininhos a que se dá o nome de hifas, que por sua vez formam conjuntos que têm o nome de micélio. À laia de comparação, Susana explica que o micélio é como se fosse o nosso cabelo e cada um dos cabelos que o compõem fosse uma hifa.

Ao contrário do nosso cabelo, no entanto, o micélio costuma estar bem escondido, muitas vezes debaixo da terra. Só os cogumelos que irrompem do solo ou das árvores, o que acontece mais no outono, sinalizam que por ali há fungos, e é graças a isso que “podemos observar os heróis invisíveis do jardim alguns dias por ano”. Mas o que são cogumelos? São “estruturas reprodutoras que alguns fungos produzem”, descreve a investigadora, e estão para aqueles “como as maçãs estão para uma macieira”.

Agaricus sp. © Paula Côrte-Real

Agaricus sp. © Paula Côrte-Real

O que podemos fazer
Susana Gonçalves indica várias medidas para assegurarmos a conservação e a diversidade das espécies deste grupo, ao cuidarmos de um espaço verde:
  1. Planear jardins com diferentes micro-habitats (prado, bosquete, alternar bordaduras e áreas de cultivo) e com plantas diversificadas e autóctones.
  2. Evitar fertilizantes inorgânicos, que prejudicam um grupo importantíssimo de fungos do solo, os fungos micorrízicos, presentes nas raízes de 80-90% das plantas. Estes fungos exploram o solo em busca de nutrientes naturalmente existentes no solo e passam-nos para as plantas em troca de carbono que aquelas produzem através da fotossíntese.
  3. Não utilizar fungicidas, pois usados em excesso contribuem para a evolução de fungos multi-resistentes, que podem constituir ameaças para a saúde pública. Para além disso, frequentemente têm efeitos nefastos em espécies que não são as espécies-alvo.
  4. Deixar madeira morta no terreno, pois pequenos ramos, touças e troncos caídos são fundamentais para os fungos decompositores da madeira, e além disso, se forem inoculados com espécies apropriadas, podem proporcionar cogumelos para alimentação. A madeira em decomposição, por seu turno, é fundamental para sustentar toda uma comunidade de organismos, nomeadamente as larvas de muitos insetos.
  5. Deixar árvores veteranas de pé, desde que não haja perigo de queda, que deverá ser avaliado e monitorizado ao longo dos anos. As cavidades existentes em árvores velhas resultam da ação de fungos parasitas e, por sua vez, constituem abrigo para muitos outros seres vivos, como aves que aí nidificam ou pequenos mamíferos que aí dormem ou hibernam (morcegos, ouriços-cacheiros, texugos, esquilos).
  6. Não mobilizar excessivamente o solo antes das plantações/sementeiras para não “romper” as redes subterrâneas de micélio.
  7. Não deixar o solo nu, prevenindo a erosão e a dessecação.
  8. Evitar a compactação do solo, não pisando sempre nos mesmos locais, o que tem efeito negativo sobre as redes subterrâneas de micélio.
  9. Plantar árvores e arbustos diversos e autóctones nos jardins e bordaduras, o que vai trazer fungos ectomicorrízicos para o jardim e com eles belos cogumelos silvestres. Se houver o perigo de ingestão por crianças ou animais de companhia, basta cortar e descartar os cogumelos que forem aparecendo.
Brigada de lixo e parceiros das árvores
Nem todos os fungos vivem da mesma forma. Entre os fungos filamentosos, desde logo, existem três tipos principais, incluindo os saprófitas, “a brigada de lixo da natureza”. “Um tronco que caia ao chão já não está lá ao fim de algum tempo, porque entretanto os fungos fizeram o seu trabalho”, menciona a investigadora da Universidade de Coimbra, que sublinha que estes seres “são os únicos capazes de decompor os polímeros complexos que constituem a madeira”. No Jardim Gulbenkian, por exemplo, podem ver-se cogumelos do choupo (Cyclocybe aegerita), que se alimentam das partes mortas das raízes dos choupos estão num relvado ali perto. Dentro do mesmo grupo, neste espaço verde também se podem ver cogumelos do género Ganoderma e ainda o curioso gaiola-de-bruxa (Clathrus ruber).

Cogumelo do choupo Cyclocybe aegerita © Paula Côrte-Real

Pormenor do cogumelo do choupo Cyclocybe aegerita © Paula Côrte-Real

Já os fungos micorrízicos vivem em associação com as raízes das plantas, numa parceria em que estas sintetizam e fornecem carbono aos primeiros, que por sua vez exploram o solo e lhes dão os elementos minerais de que precisam. “Muitas das plantas em Portugal são dependentes de fungos micorrízicos”, afirma Susana, que distingue entre vários tipos de relações, diferentes consoante o tipo de fungos e plantas envolvidos.

Entre estas, uma das relações mais fascinantes são as ectomicorrizas, descobertas no final dos anos 1880. Nesses casos, “as pontas das raízes parece que calçaram uma meia de fungos”, brinca Susana, que esclarece que existem “imensos fungos que investiram neste tipo de relação”. Muitas vezes envolvendo árvores, as ectomicorrizas costumam associar fungos que frutificam como cogumelos silvestres muito apreciados – como boletos ou cantarelos – a carvalhos, pinheiros, abetos, bétulas e castanheiros, exemplifica.

Por fim, os fungos parasitas, ao contrário dos micorrízicos, são os únicos que beneficiam das relações que estabelecem. “Podem ser parasitas de árvores, insetos ou mesmo de outros fungos”, indica Susana, que esclarece que a morte do hospedeiro muitas vezes não é imediata. “Num sistema em equilíbrio, um fungo parasita e uma árvore podem coexistir por muitas décadas. Só quando a árvore fica fragilizada é que pode acabar por sucumbir.”

Aliás, sublinha a investigadora, alguns parasitas são muito importantes porque se alimentam da parte central da árvore, onde não passa seiva. “Devemos lembrar-nos que uma árvore pode viver infectada por um fungo parasita durante décadas antes de mostrar sintomas de doença e sucumbir. Esse mesmo fungo pode, por exemplo, contribuir para a criação de cavidades que, por sua vez, são importantes para insetos, aves e pequenos mamíferos.”

A relação dos fungos com outras espécies num jardim não se fica por aqui. Muitos cogumelos servem de casa a diferentes invertebrados. Já os esquilos e as lesmas preferem comê-los, tal como muitos humanos.

Chapéu-leitoso Lactarius torminosus © Paula Côrte-Real

Cogumelo esquizófilo-comum Schizophyllum commune © Paula Côrte-Real

Se for apanhar cogumelos
Quanto à apanha destas “maçãs” dos fungos para a alimentação, Susana deixa também alguns conselhos gerais:
  1. Não apanhar todos os cogumelos (apanhar 1/3 é uma boa regra) que estão a frutificar numa dada área. Por um lado, para que dispersem os esporos; por outro, para que outros (humanos e outros animais) também possam usufruir deles.
  2. Apanhar apenas cogumelos maduros, que já libertaram os esporos (e que também são mais difíceis de ser confundidos com espécies tóxicas).
  3. Não usar ancinhos ou outras ferramentas que perturbem o solo.
  4. Repor sempre folhas mortas, musgos ou ramos que possam ter sido remexidos durante a apanha para prevenir a dessecação do solo e promover a integridade do habitat.
  5. Não apanhar sempre na mesma área para evitar a compactação do solo devido ao pisoteio.
  6. Usar cestos, que permitem a dispersão dos esporos e promovem o arejamento.
E por último, termos sempre certeza absoluta da espécie que apanhámos, pois a ingestão do cogumelo errado pode levar à morte, o que já sucedeu a famílias inteiras. “Em caso de dúvida, não coma!!”, alerta a mesma responsável.

O Jardim Gulbenkian promove um conjunto de visitas sobre como tornar os nossos jardins, parques e terrenos, tanto no interior das cidades como fora, em espaços mais acolhedores para vida silvestre – fundamental para a vida na Terra! Estas visitas são acompanhadas pela revista Wilder que, em parceria com a Fundação Gulbenkian, publica artigos sobre cada um dos temas.

segunda-feira, 14 de março de 2022

Altitude - A Natureza da Serra da Estrela


O documentário "Altitude - A Natureza da Serra da Estrela", partilhado no canal de Diogo Santos, oferece um retrato profundo, poético e cientificamente rico sobre o maior ecossistema de montanha em Portugal Continental. Longe de se focar apenas na faceta turística da neve ou da mítica Torre, a obra funciona como um ensaio visual e ecológico sobre a resiliência da vida selvagem, o impacto histórico da ação humana e a beleza cíclica das estações nesta região imponente.

A narrativa estrutura-se de forma fluida através da passagem do tempo, usando a água e o degelo como o fio condutor que une o topo do planalto central aos vales profundos. O inverno abre o documentário como um elemento de beleza solene, mas acima de tudo como uma imensa reserva hídrica. A neve que cobre os cumes atua como uma dádiva que, ao derreter na primavera, alimenta os caudais dos rios Alva, Zêzere e Mondego. É nesta transição que a câmara capta a mestria biológica da fauna local. Descobrimos o melro-de-água, um passeriforme especialista em mergulho com penas perfeitamente impermeáveis, e a lontra, o caçador eficaz que habita o Mondego. À noite, o documentário revela um reino mais secreto e frágil, habitado por anfíbios como os tritões e a salamandra-lusitânica, uma espécie endémica do noroeste da Península Ibérica que encontra na serra o seu limite meridional e que depende crucialmente da pureza das águas e da humidade dos musgos para respirar através da pele.

Outro pilar fundamental desta análise é a geologia e a marca do passado glaciar. O Vale Glaciar do Zêzere é apresentado como um testemunho monumental de uma era que, há cerca de trinta mil anos, moveu milhões de toneladas de gelo e moldou a paisagem, deixando espalhados os icónicos blocos erráticos de granito. Estas formações rochosas, além de servirem de abrigo a répteis como a lagartixa-ibérica ou a cobra-de-escada, ganharam contornos antropomórficos e nomes que passaram de geração em geração, como a famosa Cabeça da Velha. O documentário realça que estas pedras contam a história da simbiose entre o homem e a montanha, visível na arquitetura de granito das encostas norte e leste, que contrasta com o xisto utilizado nas vertentes sul e oeste.

No entanto, a mensagem central da obra não é apenas contemplativa, mas sim de alerta ecológico e conservacionista. Através do testemunho do pastor Joaquim, que cuida do seu rebanho de ovelhas e cabras no distrito da Guarda, expõe-se o declínio das atividades tradicionais e a consequente perda de identidade cultural devido ao isolamento que outrora protegia estes modos de vida. Mais grave ainda é a degradação da biodiversidade provocada pela alteração intencional da paisagem através de fogos e da desflorestação ao longo dos séculos. O desaparecimento de grandes predadores, como o lobo, que foi perseguido até ao extermínio na região, gerou um desequilíbrio profundo no ecossistema: sem o lobo, a população de javalis cresceu de forma descontrolada, causando prejuízos agrícolas avultados e demonstrando o impacto dramático que a extinção de uma única espécie pode ter em toda a cadeia alimentar.

Apesar das cicatrizes humanas e da ameaça das monoculturas intensivas, como os eucaliptais que oferecem pouco mais do que suporte físico a aves de rapina como a águia-de-asa-redonda, o documentário termina com uma nota de esperança. Nos bosques nativos que ainda subsistem — compostos por carvalhos-negrais, castanheiros, faias e bideiros —, assiste-se ao milagre da regeneração e ao ciclo perfeito da matéria orgânica impulsionado pelos fungos decompositores. É nestes refúgios preservados que a vida selvagem reconquista o seu espaço. O regresso recente do esquilo-vermelho, vindo do norte de Espanha após séculos de extinção em solo português, serve de exemplo perfeito. Ao enterrar milhares de bolotas durante o outono para se precaver de predadores silenciosos como a coruja-do-mato, o esquilo acaba por reflorestar a serra involuntariamente. "Altitude" é, portanto, um hino à resiliência da natureza e um apelo urgente para que se protejam as pequenas e complexas interações que mantêm vivo o coração da Serra da Estrela.

domingo, 25 de abril de 2021

O mundo admirável e sem paralelo da Peneda-Gerês

Fonte: Wilder

Neste seu quinquagésimo ano de vida, a Peneda-Gerês vive momentos decisivos de vária ordem. Se não libertarmos parte do território para a vida selvagem, se a pressão humana não for regulada e controlada, se as alterações climáticas não forem mitigadas através de uma urgente recuperação do coberto vegetal natural, o futuro deste mundo singular será cada vez mais sombrio.

O mundo admirável que mais uma vez é evocado nestas crónicas é um território de setecentos quilómetros quadrados que abrange não apenas o mítico Gerês mas também as serras da Peneda, do Soajo e a Amarela, os planaltos de Castro Laboreiro e da Mourela e que há cinquenta anos é o único parque nacional português.

Espaço montanhoso, com alguma amplitude altitudinal, de orografia complexa, está sujeito à interação de três influências climáticas. A continental, a atlântica e a mediterrânica. A mistura de inúmeros factores em que sobressaem precisamente o relevo, a ligação ao interior da península e a proximidade do oceano atlântico e da bacia mediterrânica, geram microclimas que exponenciam a grande diversidade de tipos de habitat, de associações vegetais, de espécies de fauna e de flora.

Na Peneda-Gerês existem meia dúzia de tipos de vegetação natural, a mais expressiva das quais são as cerca de duas dezenas de formações florestais. Os carvalhais destacam-se pela predominância e pela variedade das suas composições. São sistemas complexos. Um carvalhal não é uma monocultura de carvalhos, como um sobreiral não é apenas um conjunto de sobreiros. As árvores são o elemento mais visível e não devem viver isoladas nem ser dissociadas de toda a vida que sob elas progride, quando devidamente associadas.

Na Peneda-Gerês exigem-se manchas boscosas maduras, não meras arborizações ou arvoredo regenerado de incêndios cíclicos. E quando falamos da importância do arvoredo, não podemos esquecer o papel que ele continua a cumprir mesmo depois de sucumbir ao peso da idade. Sem manta morta, sem troncos a decompor-se no solo, não podemos falar de carvalhais. A maior mancha no Parque Nacional é a Mata de Albergaria que, numa situação ideal, deveria até ser expurgada aqui e ali de algumas intromissões estranhas do passado. Mas outras prioridades se impõem no território. Esta mancha referencial tem de ser replicada, unida a outras igualmente importantes que se encontram extremamente debilitadas.

Abordar o arvoredo da Peneda-Gerês impõe referir os vidoais de altitude, as únicas teixeiras (bosquetes de teixo) de Portugal, os azevinhais centenários, as galerias ripícolas nos afluentes dos cursos de água maiores.

Dependentes dos bosques, crescem as herbáceas próprias de ambientes húmidos e sombrios. Os matos, muito propagados pelo fogo, cobrem a maior parte do território. Os prados são de extrema importância e no seio da vegetação rupícola que prospera imersa no fraguedo granítico, encontram-se plantas raras que o fogo não alcança. Finalmente, são valiosas as comunidades de plantas associadas à água que apenas sobrevivem nos complexos hidroturfosos. As turfeiras de altitude são um tipo de habitat precioso e particularmente ameaçado, também pelas alterações climáticas.

A flora do Parque Nacional é enorme. Compõem-na trezentas plantas briófitas e mais de setecentas vasculares que incluem uma centena de endemismos ibéricos, sessenta da região noroeste. E a Peneda-Gerês é, em Portugal, o local de ocorrência quase exclusiva de cerca de uma dúzia de espécies florísticas.

A fauna não fica atrás. Cerca de 230 espécies de vertebrados, 200 com estatutos de proteção (convenções e directivas). Entre os mamíferos sobressai a cabra, o ícone maior e um exclusivo nacional. Mas outras preciosidades merecem destaque como a toupeira-d´água, a marta e 20 espécies de morcegos. Nos répteis e anfíbios o Parque Nacional também se impõe com as duas espécies de víboras que ocorrem em Portugal, a salamandra-lusitânica, a rã-ibérica e o tritão-de-ventre-laranja, à cabeça.

Maior ainda é o mundo dos invertebrados. Entre as cerca de 1.200 espécies identificadas, saltam – literalmente – à vista, as borboletas e as libélulas.Foto: Miguel Dantas da Gama

Neste seu quinquagésimo ano de vida a Peneda-Gerês vive momentos decisivos de vária ordem. Se não libertarmos parte do território para a vida selvagem, se a pressão humana não for regulada e controlada, se as alterações climáticas não forem mitigadas através de uma urgente recuperação do coberto vegetal natural, o futuro deste mundo singular será cada vez mais sombrio. As características que diferenciam positivamente o território esbater-se-ão, as suas especificidades ficarão mais pobres, a biodiversidade continuará a ser aniquilada.

Há problemas prementes a resolver. O peso da monocultura de pinheiro-bravo continua excessivo, grandes manchas de plantas infestantes em áreas mais ou menos definidas, comprometem seriamente o futuro.

O Parque Nacional da Peneda-Gerês é, não me canso de o dizer, um território sem paralelo em Portugal, onde projectos ambiciosos de preservação da natureza ainda fazem sentido se o ser humano não continuar a exigir tudo para si, tudo moldado para sua conveniência. Se as espécies vegetais e animais motivam muitas vezes ações específicas em sua defesa, o que se impõe empreender neste mundo admirável é, mais do que nunca, uma intervenção que não perca de vista todo o espaço físico que lhe deu nome. Um parque nacional deve ensinar-nos o que é a natureza, um sistema complexo, dinâmico, composto por seres vivos, pelos elementos que os permitem, como a água e o ar e pelos espaços que os suportam.

O Parque Nacional é, antes de mais, um projecto de conservação da natureza e da vida selvagem. E porque cinquenta anos não bastaram para o confirmar, o último capitulo desta série de sete crónicas dedicadas ao seu quinquagésimo aniversário será, em cima do dia festivo que se aproxima, uma prosa diferente.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Pela regulamentação da gestão do arvoredo urbano

Actualização: em 18 de Agosto de 2021 foi publicado o Regime jurídico de gestão do arvoredo urbano

                                     

Ao Legislador:

A importância do Sistema da vegetação no espaço urbano
As vantagens da vegetação arbórea em contexto urbano são amplamente reconhecidas.
Além de contribuir para qualificar as cidades, vilas e aldeias, a vegetação é um valioso dispositivo para modular o microclima urbano, suavizando extremos climáticos, promovendo o bem-estar e reduzindo os riscos para saúde pública decorrentes das ondas de calor.
Um coberto arbóreo superior a 40% pode reduzir a temperatura do ar até pelo menos 3.5 graus. O ensombramento sobre edifícios e pavimentos já demonstrou que permite reduções de temperatura locais que vão de 11 a 25 graus. A suavização de temperaturas extremas por via do arvoredo urbano é, pois, particularmente importante num quadro de alterações climáticas em se prevêem aumentos na frequência, duração e severidade de ondas de calor a nível Europeu. Acresce que as populações mais desfavorecidas (por exemplo, idosos, crianças, indivíduos acamados ou fragilizados) possuem maior vulnerabilidade a este tipo de eventos sendo que quem tem mais poder económico tem mais condições para se adaptar de forma individual. Portanto, as ondas de calor, sem investimentos que minimizem a sua incidência no espaço público, são um fator de iniquidade social ao reforçar a fragilidade dos grupos sociais mais vulneráveis.
O sistema da vegetação arbórea é parte do que se convencionou chamar de “infraestrutura verde urbana”: uma infraestrutura que presta serviços de ecossistemas ao cidadão, de forma integrada, com efeitos reguladores sobre o clima, a composição química da atmosfera, a hidrologia, promovendo a biodiversidade urbana e a captação de CO2, desta forma contribuindo para a transição energética. Esta infraestrutura é fundamental para garantir vias de continuidade no espaço urbano, proporcionando locais de abrigo, de nidificação e alimentação (pólen, frutos, sementes e invertebrados) para inúmeras espécies animais, incluindo aves e insectos polinizadores. Além disso, a folhada restitui matéria orgânica e nutrientes ao solo, contribuindo para um solo vivo, e os troncos e ramos albergam comunidades de briófitas (musgos) e líquenes.

Ameaças ao arvoredo urbano
Os serviços prestados pelo sistema da vegetação arbóreo, nomeadamente a redução de temperaturas no período estival, só são eficientemente atingidos quando o copado se encontra bem desenvolvido, pressupondo-se, entre outros factores, que os exemplares sejam conduzidos de forma a aproximar-se da sua forma e dimensão potencial no estado adulto.
O papel filtrador de partículas poluentes, ou de habitat para a biodiversidade, sofre igualmente uma redução quando são infligidos danos ao nível da copa.
Em certos casos, pela proximidade com as habitações e/ou viaturas que debaixo das árvores estacionam, surgem conflitos sociais. É o caso do ensombramento indesejado de algumas árvores sobre habitações, ou da queda de fragmentos de arvoredo sobre viaturas. Estes conflitos são geradores de pressão sobre os gestores do espaço público resultando, frequentemente, em abates de exemplares adultos e/ou podas excessivas que poderiam ser evitadas se tivesse havido um correto projecto dos espaços verdes. Este, compreende não só um bom desenho do espaço verde assim como uma escolha correcta das espécies arbóreas a plantar e o conhecimento profundo da estrutura de uma árvore.
Tal como acontece com a generalidade das infraestruturas públicas - eletricidade, gás, telecomunicações e outras - a intervenção na estrutura verde das cidades e no arvoredo em particular tem de ser regulada sob pena dos danos infligidos resultaram num aumento de risco para pessoas e bens para além de reduzir a capacidade de prestação de serviços de ecossistema que o arvoredo proporciona devido ao enfraquecimento quando não a morte antecipada do exemplar (que significa entre duas a três décadas perdidas para instalação de um novo exemplar).
Apesar de haver amplo consenso técnico-científico sobre as boas práticas de gestão do arvoredo urbano, resultantes de décadas de publicações internacionais e nacionais, pela mão de ilustres silvicultores, arquitetos paisagistas, botânicos, esse conhecimento é frequentemente ignorado por quem tem o poder de decisão sobre este assunto. Da mesma forma, a opinião pública tem frequentemente uma concepção enviesada do que são as boas práticas, defendendo e replicando actuações que foram passadas de geração em geração mas que são discrepantes face à realidade comprovada por especialistas na matéria.
Atualmente, desde que o exemplar não seja, por motivos patrimoniais ou de relevância botânica, protegido através do regime de proteção aos fitomonumentos (árvores classificadas de interesse público ou espécies protegidas), assiste-se um pouco por todo o país a ações danosas sobre a generalidade do património arbóreo com prejuízos públicos que advêm da redução da sua funcionalidade, conforme acima se descreve. A realidade é que, em Portugal, é permitido que qualquer indivíduo com uma ferramenta destrua em poucas horas o que demorou décadas a construir.
Não é defensável que uma atividade com efeitos tão importantes na saúde pública e no ambiente, como a gestão do arvoredo em meio urbano, se mantenha à margem de qualquer sistema normativo.
Não é aceitável que só as árvores com características botânicas relevantes - porte notável e singularidade - sejam sujeitas a normas que condicionem a sua gestão, deixando a esmagadora maioria dos exemplares desprotegidos e sem regulamentação.
À semelhança do que acontece para a generalidade das infraestruturas urbanas, é necessário que o legislador intervenha e defina regras claras sobre quem pode gerir o sistema da vegetação, quem fiscaliza esta atividade, quem credencia, quais as regras a adoptar e quais as penalizações para os incumpridores.
A inexistência de regras nesta matéria é, aliás, uma anomalia. A nível internacional, o “European Arboricultural Council” e a “International Society of Arboriculture” são entidades que gerem a certificação do trabalho dos operadores técnicos e gestores de arboricultura urbana.
A nível nacional, há um conjunto de países que que desenvolveram normativas detalhadas que regulam a atividade de arboricultura urbana. Por exemplo, o Reino Unido aprovou um conjunto de boas práticas para gestão de arvoredo urbano (British Standards BS 3998:2010 - Tree Works. Recommendations) e identificaram várias entidades que promovem e reconhecem qualificações no âmbito da arboricultura urbana.

O que propomos:
De acordo com o exposto, solicitamos ao(s) legislador(es) que, com caráter de urgência, promova(m):
1 - Criação de um quadro normativo para a gestão do arvoredo urbano, abrangendo as operações de poda, transplantes e critérios para abate, auscultando normativos em vigor na Europa;
2 - Reconhecimento da profissão de Arborista devidamente credenciado para execução de operações de manutenção de arvoredo e criar as bases para o desenvolvimento dessa profissão;
3 - Adoção de um documento de referência de “Boas Práticas de Gestão do Sistema Arbóreo Urbano” a nível nacional que sirva de referência ao território nacional abrangendo todas as entidades com responsabilidade na gestão do arvoredo;
4 - A assunção do princípio de que a gestão do arvoredo em espaço público deverá ser executada por técnicos devidamente preparados e credenciados para o efeito;
5 - A assunção do princípio geral de que a fiscalização das ações de gestão do arvoredo deverá caber a uma entidade independente da entidade que a executa.
6 - A assunção do princípio da democraticidade e transparência no acesso e consulta de informação relacionada com os planos de gestão do arvoredo;
7 - Que o processo legislativo em causa considere a consulta a instituições técnico-científicas, associações sócio-profissionais do sector, entidades representantes de municípios, ONGAs e outros representantes relevantes da sociedade civil.

Os proponentes
Ana Cristina Figueiredo, Jurista,
Ana Júlia Francisco, Engenheira Agrícola, especialista em Arboricultura Urbana
Ana Luísa Soares, Arquitecta Paisagista, Professora Universitária
Ana Patriarca, Arquitecta Paisagista, Gestora certificada de arvoredo no Reino Unido
Ana Paula Ramos, Engenheira Agrónoma, Professora Universitária,
Alexandre Guerra, Engenheiro Florestal, Consultor
Aurora Carapinha, Arquitecta Paisagista, Professora Universitária
Carla Castelo, ex-Jornalista, Consultora de Comunicação e Ambiente
Carlos Aguiar, Agrónomo, Professor Universitário
Cristina Branquinho, Bióloga, Professora Universitária
Cristina Nobre Soares, Engenheira Florestal, Consultora em Comunicação de Ciência
David Travassos, Sociólogo, Investigador social na área do Ambiente
Duarte d´Araújo Mata, Arquitecto Paisagista, Técnico Municipal
Francisco Castro Rego, Silvicultor, Professor Universitário
Francisco Ferreira, Engenheiro do Ambiente, Professor Universitário e Ambientalista
Helena Freitas, Bióloga, Professora Universitária
Henrique Pereira dos Santos, Arquitecto Paisagista, Técnico do ICNF
Hugo Pires, Engenheiro Agrónomo, Analista de dados
João Melo, Engenheiro Florestal, Funcionário Público
Joana Bértholo, Escritora e Dramaturga
Jorge Cancela, Arquiteto Paisagista, Presidente da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas
Jorge Capelo, Botânico, Investigador
Jorge Quina Ribeiro de Araújo, Biólogo, Professor Universitário
José Carlos Mota, Urbanista, Professor Universitário
Manuela Raposo Magalhães, Arquitecta Paisagísta, Professora Universitária
Marcolino Fritz Vilaça, Arborista, Técnico de Gestão e recuperação de Espaços Verdes
Maria Filomena Caetano, Engenheira Silvicola, Aposentada
Margarida Cancela d´Areu, Arquiteta Paisagista
Miguel Bastos Araújo, Geógrafo, Investigador e Professor Universitário
Natália Sofia Cunha, Arquitecta Paisagista, Investigadora
Nuno Gomes Oliveira, Biólogo
Luis Carloto Marques, Engenheiro Florestal, Funcionário Público
Luis Jordão, Engenheiro Ambiente, Consultor de Ambiente
Luísa Schmidt, Socióloga, Professora Universitária
Olga Marina dos Reis Brito, Engenheira Florestal, Consultora Florestal
Paulo Moura, Técnico de Gestão do Ambiente, Consultor em arboricultura urbana
Paulo Pimenta de Castro, Engenheiro Silvicultor, Gestor Silvícola
Paulo Trancoso, Produtor de Cinema e TV
Pedro Bingre do Amaral, Silvicultor, Professor Universitário
Rosa Casimiro, Designer, Activista Defesa Arvoredo
Rosário Oliveira, Arquitecta Paisagista, Investigadora
Rui Vitorino Machado Queirós, Engenheiro Silvicultor, Funcionário Público
Selma Pena, Arquitecta Paisagista, Professora Universitária
Susana Brígido, Engenheira Florestal, Empresária
Teresa Belmonte Travassos, Arquitecta Paisagista, Técnica Municipal
Teresa Pinto Correia, Geógrafa, Professora Universitária
Tiago Domingos, Engenheiro do Ambiente, Professor Universitário
Vânia Proença, Bióloga, Investigadora

sábado, 22 de agosto de 2015

As primeiras flores de Portugal são (também) as primeiras flores da Terra

Nem sempre a Terra teve flores. Subitamente, elas apareceram – um mistério que Charles Darwin considerou “abominável”. Portugal tem estado a contribuir para o estudo das flores primitivas, graças à descoberta de fósseis de várias plantas novas para a ciência.


A flor do Kajanthus lusitanicus, com 110 milhões de anos

Na palma da mão, é um ponto negro, indistinguível a olho nu. Já à lupa binocular, este pedaço de carvão, nem de um milímetro de comprimento, ganha formas. É uma flor, exemplar único, nova para a ciência. Esteve enterrada em argila durante 110 milhões de anos, até ter sido recolhida entre quilos de terra pelo investigador Mário Miguel Mendes perto da vila do Juncal, no concelho de Porto de Mós, distrito de Leiria. Ela e os fósseis de outras três plantas, também classificadas entretanto como novidades científicas, enriquecem as colecções do jardim português do Cretácico, quando os dinossauros reinavam e as plantas com flor começavam a despontar na Terra.

Antes, uma breve história. Há cerca de 440 milhões de anos, ter-se-ão deslocado para terra firme, vindas do mar, as primeiras plantas. “Esses primeiros colonizadores terão sido algas verdes já extintas, que apresentavam semelhanças com os briófitos, grupo de plantas a que pertencem os musgos”, explica-nos o paleobotânico Mário Miguel Mendes, do Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve, em Faro, e do Museu Geológico, em Lisboa. “Para que as plantas pudessem conquistar o meio terrestre, tiveram de desenvolver estruturas que possibilitassem, por um lado, a obtenção de água e, por outro, reduzir a sua perda. Além disso, desenvolveram as raízes que fixavam a planta ao solo, absorvendo água necessária à sua manutenção, e os caules que suportam as folhas, órgãos fotossintéticos por excelência.”

Estavam ainda longe de ter flores, e os continentes onde viviam tinham uma configuração muito diferente da de hoje. A evolução tornou as plantas mais complexas, até aparecerem as gimnospérmicas, como as coníferas, em que as sementes não estão encerradas dentro de um fruto, de que são exemplo os pinheiros e os seus pinhões. “Há cerca de 320 milhões de anos, em Portugal formavam-se cordilheiras de montanhas com lagos envolvidos e habitados por vegetação rica e diversificada. Havia cavalinhas gigantes e plantas afins de licopódios e selaginelas actuais, mas de porte arbóreo, a par de coníferas que lembravam araucárias. Os fetos eram particularmente abundantes e diversificados”, conta Mário Miguel Mendes. “Esta vegetação desenvolvia-se em ambientes pantanosos, em clima húmido e relativamente quente das áreas próximas do equador da Terra de então. São desta altura muitos dos depósitos de carvão mundiais, inclusivamente em Portugal.”

Há cerca de 250 milhões de anos, os continentes anteriormente existentes já tinham colidido entre si e formado um só supercontinente, a Pangeia. Mas a tectónica é imparável e a fragmentação das placas ao longo da era Mesozóica – iniciada há 235 milhões de anos, no período do Triásico, e terminada com o Cretácico, entre há 145 e 65 milhões de anos –, colocou novos desafios às plantas terrestres. Se na Pangeia viviam sobre a influência de um clima continental, com a fragmentação das placas tectónicas as plantas tiveram de se adaptar a condições mais húmidas. “Esta interacção entre clima e fenómenos tectónicos ditou o aparecimento e a extinção de alguns grupos vegetais”, explica o paleobotânico.

“Há 225 milhões de anos, no Triásico, as plantas foram povoando as imensas áreas continentais semidesérticas, a partir da vizinhança de áreas lacustres. No Jurássico (200-145 milhões de anos), as coníferas dominavam a vegetação arbórea. Os fetos abundavam.”

Mas a Terra continuava sem flores. As primeiras plantas com flores, ou angiospérmicas, apareceram relativamente tarde na história do planeta – “apenas” há cerca de 130 milhões de anos, no início do Cretácico, como indicam os fósseis mais antigos. E as suas flores eram pequenas. E sem pétalas. Hoje, as angiospérmicas dominam a vegetação terrestre, ocupando quase todos os ecossistemas e representando mais de 85% das espécies vegetais vivas.

“O aparecimento súbito destas plantas no Cretácico Inferior sempre intrigou os cientistas. Charles Darwin referia-se a este súbito evento evolutivo que provocou alterações profundas em todos os ecossistemas terrestres como um ‘ mistério abominável’. Aparentemente, o seu desenvolvimento foi feito a par da evolução dos insectos e a sua enorme diversificação terá resultado do êxito adaptativo das suas inovações evolutivas. Mas muitos aspectos relacionados com as condições paleoambientais que presidiram à proliferação das angiospérmicas continuam por esclarecer”, diz Mário Miguel Mendes.

Portugal tem contribuído para a reconstituição desta história do nosso planeta. Tal como nos Estados Unidos, na China e em Espanha, em Portugal encontram-se os fósseis de plantas com flores mais antigos do mundo. São de flores, sementes e frutos, com cerca de 125 milhões de anos, recolhidos em Torres Vedras pela dinamarquesa Else Marie Friis, uma das maiores especialistas em angiospérmicas. Por exemplo, identificou pólenes que só existem quando há flores de um género e espécie novos – a Mayoa portugallica, descrita em 2004.
Fonte: Publico

quarta-feira, 23 de julho de 2014

20 das criaturas mais velhas da Terra e que estão prestes a desaparecer (com FOTOS)

Rachel Sussman é uma fotógrafa de Brooklyn que percorre o mundo à procura dos mais velhos organismos vivos do planeta, alguns com mais de 2.000 anos. O objectivo é fotografar estes organismos antes que desapareçam da face da terra.
As fotografias de Sussman estão compiladas em livro – The Oldest Living Things in the World– e pode-se observar árvores, líquenes, musgos e outras plantas estranhas que raramente são vistas. Estas formas de vida milenares foram encontradas em locais isolados como a Antárctida, Gronelândia, Namíbia e o deserto de Atacama, no Chile, onde Sussman encontrou um organismo com 3.000 chamado La Yareta, uma espécie de bolbo gigante verde.
Para o projecto fotográfico, Sussman colaborou com uma equipa de biólogos que a ajudaram a identificar os organismos. A fotógrafa começou a sua investigação visual num “ano zero”, fotografando o passado no presente, refere o Inhabitat.
Na Gronelândia, por exemplo, a fotógrafa encontrou líquenes que apenas crescem um centímetro por século. Na Austrália fotografou estromatólitos, organismos pré-históricos ligados à oxigenação das plantas e aos primórdios da vida na Terra. O seu trabalho é uma revelação perspicaz que retrata a história do planeta através de algumas das formas de vida mais antigas, antes que desapareçam.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Grande Botânico (1817-1911)- centenário da sua morte






No centenário da morte do grande botânico, intelectual e ilustrador que foi Joseph Hooker [Botanical Journal of the Linnean Society, 167: 353–356] que coincide com a época natalícia redobro o apelo que protejamos as briófitas (vulgo musgo). Muitos têm elevado estatuto de conservação. Não recolham musgos nem os comprem.

Saiba mais sobre este grande explorador aqui

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Dossiê Biomonitorização


ATENÇÃO © Copyleft - Permito a livre  reprodução exclusivamente para fins não comerciais e desde que o autor e o BioTerra sejam citados


Líquenes

Nem sempre é popular gostar dos líquenes. Por vezes estão por todo o lado e nem nos preocupamos o que vemos à nossa frente: um emaranhado frutificado ou mais uma incrustação nas rochas. Contudo são seres vivos, muito antigos e dos mais eficazes que existem.
Não parece ter grande pressa em crescer. Pode demorar um século até que um líquen atinja as dimensões de um botão de camisa.
Erradamente catalogados como plantas que brotavam espontaneamente das pedras, hoje em dia sabe-se que são uma sociedade entre fungos e algas. Os fungos segregam ácidos que dissolvem a superfície da pedra, libertando minerais que as algas transformam em nutrientes em quantidades suficientes para sustentar ambos.
Nesse âmbito elaborei este Dossiê, com vista a melhor conhecermos e cuidarmos de tão importantes agricultores naturais e outros seres vivos que permitem uma avaliação biológica da qualidade de uma ecossistema.

Não esqueças de visitar regularmente este espaço para manteres-te actualizado!

Sítios
The British Lichen Society
The International Cooperative Programme on Effects of Air Pollution on Natural Vegetation and Crops
World Water Monitoring

Sítios Lusófonos
Biodiversity of Brazil (Adriano Spielmann)
Açores Bio Portal

Instituições
American Bryological and Lichenological Society
College of Natural Resources
International Association for LichenologyThe British Lichen Society

Páginas pessoais
Checklists of Lichens of the World 
(T. Feuerer)
Ways of Enlichenment (Trever Goward and Jason Hollinger)
The world of lichenology
 (Dr. Clifford Smith)
The Lichens
 (Tatsuya Okamoto, Kochi University)
Lichens of the Ozarks
 (Richard C. Harris and Douglas M. Ladd)
Lichen Herbarium and Sonoran Desert Flora Project, Arizona State University
 (Thomas H. Nash, III)
Lichens at University of Minnesota
 (Cliff Wetmore)
Lichens at Oregon State University 
(Bruce McCune)
LichenLand (Oregon State University, Sherry Pittam, et.al.)
Colorado lichens 
(Dan Fosha)
Lichens of Ireland (Paul Whelan)

Lichens of North America(Irwin Brodo, Sylvia Sharnoff e Stephen Sharnoff)
Los macrolíquenes epifitos de España. Una guía interactiva (Eva Barreno, Pier Luigi Nimis, Stefano Martellos)

Líquenes como bioindicadores
Environmental Monitoring
Lichens and Air Quality

Textos em Português
Microbiologia
Nanotecnologia
Oceanos
PaleoTerra
Pesticidas
Química
Saúde
Transgénicos

NOVA ATENÇÃO © COPYRIGHT-  Ao partilhar, agradeço atempadamente a indicação do autor e do meu blogue Bioterra. Estes dossiês resultam de um apurado trabalho de pesquisa, selecção de qualidade e organização.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Dê um Feliz Natal para os musgos

Moss Phagnum falcatulum
Phagnum falcatulum

Por muitos anos é comum que uma parte das decorações de Natal é feito de musgo  e outras plantas, mas  sabia que esta prática contribui  para aumentar a poluição ambiental e erosão  extinção das briófitas? 


Quais são os musgos?
Eles são distribuídos em todo o mundo as plantas que vivem em lugares húmidos ou perto de água. Eles estão entre os primeiros organismos a colonizar as rochas, em seguida, modificá-los a crescer na sua superfície, formando um substrato sobre o qual outras plantas maiores podem ser enraizados.
Encontra-se frequentemente no meio de tapetes em florestas húmidas, mas também crescem sobre os galhos e troncos de todos os tipos de árvores e fazem parte de uma extensa divisão de plantas com mais de 20.000 espécies em todo o mundo, chamada BrioFitas (musgos, samambaias, liquens, etc.)
Benefícios para o ecossistema
Musgos e outras briófitas desempenham um papel essencial nos ecossistemas, porque:
  • Ele pode armazenar até 20 vezes seu peso em água, absorvendo o excesso de água na chuva e libertá-lo lentamente nas épocas secas.
  • Interceptar, absorver e reter os minerais dissolvidos na água da chuva, permitindo a incorporação destes no ecossistema e na redução de lavar em rios e mares.
  • Musgos fornecer proteção para a casa e muitos animais pequenos, especialmente invertebrados, como insetos, aracnídeos, rotíferos, nematóides, moluscos e anelídeos.
  • Eles servem como material de nidificação para diversas aves e pequenos mamíferos, como o beija-flor ( Sephanoidesgaleritus ).
  • Muitas espécies de briófitas têm a capacidade de fixar azoto atmosférico por colónias de bactérias, contribuindo grandemente para a incorporação deste elemento no ecossistema.
  • Musgos e hepáticas ajudam a regeneração natural.
Ahrophyllum magellanicum Moss
Vimos que nas florestas e ecossistemas dominados pelo musgo Sphagnum, as comunidades de briófitas agem como grandes esponjas que regulam o curso dos rios, protegendo o solo e fornecimento de água de inundações violentas durante os meses de verão para rios e córregos que drenam.Este é destruído quando usamos o musgo como decorações de Natal!
Lembre-se que a remoção de musgo tem um forte impacto sobre o ecossistema, uma vez que reduz a humidade das florestas aumenta a erosão do solo e poluição.
Protege o musgo, feno (vara barba) e samambaias (troncos de samambaia). Não removê-los. Não venda. Não compre.
 Alternativas ao uso de outras decorações de Natal
Ilustração de um presépio com musgo e outras decorações de Natal
As decorações de Natal podem ser tão variadas como é a nossa criatividade e engenhosidade. Tirar proveito de novas cores, texturas e combinações para criar enfeites de ambiente amigável.

Entre os materiais que pode usar em alternativa é serragem, seixos, coloridos de serragem, papel, papelão, pano, juta e todos os materiais que a sua imaginação lhe disser. Pode também aproveitar a oportunidade decorações feitas com material reciclado.
Traduzido daqui