Mostrar mensagens com a etiqueta Burguesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Burguesia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Viva o 1º de Maio

Giuseppe Pellizza da Volpedo - "O Quarto Estado" (1901)

Giuseppe Pellizza dá este nome à sua obra porque os trabalhadores sentiam que não eram representados pelo sistema político da época, o chamado parlamentarismo burguês. Eles constituíam um "novo grupo" social que passava a exigir voz própria e participação ativa nas decisões da sociedade. Historicamente, essa nomenclatura marca uma evolução clara: se o Terceiro Estado, liderado pela burguesia, foi o responsável por derrubar o absolutismo do Clero e da Nobreza, o Quarto Estado surgia agora como o proletariado organizado para reivindicar direitos diante da exploração exercida por essa mesma burguesia.

Na representação visual da tela, nota-se que a multidão não está armada; pelo contrário, os trabalhadores avançam de forma pacífica, mas com uma determinação inabalável. Trata-se de uma marcha em direção à "luz" do progresso e da justiça social, um recurso artístico que indica que o futuro pertenceria a esse novo estrato social. Em resumo, o Quarto Estado retratado por Pellizza era a classe operária consciente de si mesma e do seu papel histórico, marchando para ocupar o seu lugar de direito ao lado — ou mesmo à frente - dos três grupos que tradicionalmente detinham o poder.

Saber mais:
  1. Primeiro de Maio de 2026: a remuneração dos CEO mais elevados aumentou 20 vezes mais rapidamente do que a remuneração dos trabalhadores em 2025, acusa a Confederação Sindical Internacional, num relatório devastador.
  2. Em 2024, a Oxfam apresentou uma queixa formal contra a Amazon e a Walmart às Nações Unidas. Leia mais sobre a vigilância e o sofrimento nos armazéns da Amazon e da Walmart.
  3. A 7ª edição do Inquérito Mundial de Valores revelou que metade das pessoas acredita que “os ricos compram frequentemente eleições” nos seus países.
  4. A Oxfam estima que os multimilionários têm 4.000 vezes mais probabilidades de ocupar cargos políticos do que as pessoas comuns.
  5. Descarregue o relatório da CSI “Corporações que Minam a Democracia 2025”.
  6. Mais de 840 mil mortes por ano ligadas a riscos psicossociais no trabalho, diz novo relatório da OIT 

terça-feira, 10 de março de 2026

A Naifa - Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto


Poema original e o álbum aqui 

Poema escrito e cantado em 1992 [1] e infelizmente continua a ser assim
Este poema de António Lobo Antunes é uma das peças mais cortantes da literatura contemporânea portuguesa, servindo como uma autópsia da hipocrisia burguesa e da profunda desigualdade social. A narrativa centra-se num homem que se descreve como alguém extremamente sensível — "eu que me comovo por tudo e por nada" — mas que, na prática, revela uma frieza absoluta e uma capacidade de desumanização assustadora. Ao longo do texto, assistimos à descrição de um encontro sexual pago com uma adolescente, entre os quinze e os dezassete anos, cujo corpo é tratado como um objeto descartável: ele "usa", "paga", "esquece o nome" e "limpa-se com o lenço".

A crueza do relato é acentuada pelos detalhes da miséria da rapariga, que cheira a "mato", à "sopa dos pobres" e ao "suor" da carência, contrastando com a transação clínica de quinhentos escudos. O autor utiliza a metáfora da "coxa em semifusa" e do "rosto de aguarela" para sublinhar a fragilidade e a rapidez com que aquela vida é consumida e deixada para trás, "parada na berma da estrada", enquanto o narrador retoma a sua existência de classe média.

O clímax do poema reside no regresso a casa. O narrador veste a máscara da normalidade, mente à mulher e ao filho dizendo que "fez serão" (trabalhou até tarde), janta calmamente e deita-se. Contudo, a imagem da jovem não o larga. O final sugere que a sua suposta sensibilidade não é empatia, mas sim uma obsessão perturbadora ou um remorso estéril. Ele está na segurança do seu lar, mas o seu pensamento permanece naquele corpo explorado, reforçando a ideia de uma sociedade que se comove com abstrações ou sentimentalismos baratos, mas que é capaz de conviver com a exploração e a degradação humana mais abjeta sem perder o apetite ou o sono.

[1] Nota Linguística: o poema utiliza termos muito específicos do quotidiano português do século XX, como o "alcatrão" (asfalto), o "serão" (trabalho noturno) e os "escudos". É uma crítica social feroz à "boa sociedade" que, por trás das portas, explora a miséria mais profunda.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Rosetta Stone - Tomorrow For Us


You're so much better than them
Congratulations on that
Simplify, generalize and condemn them

[Verso 1]
Do you think this was a choice for me?
That I threw my life away for a chance to live in poverty
A sequence of events on repeat for infinity
A costly price you intervene to set us free

[Refrão]
There's no tomorrow for us
No tunnel of light for us to see
No opportunities for us
No aspirations or dreams
Our communities are fucked
Evolved to shit where we eat
No one'll want to nurturе us
One line the privilеged leads

Enjoy your life through random view
No need to wage success
You were born with the best
Of everything

[Verso 1]

[Refrão] 3X

Sites
Brandcamp
Spotify
Wikipedia
Youtube

O single “Tomorrow For Us” foi lançado em 2019 e associado ao álbum Seems Like Forever.

A música 'Tomorrow For Us' da banda Rosetta Stone é uma poderosa crítica social que aborda temas de desigualdade, desesperança e a falta de oportunidades. A letra expressa um sentimento de frustração e resignação diante de uma realidade imutável e opressiva. Desde o início, a canção destaca a superioridade percebida de alguns em relação a outros, com a linha 'You're so much better than them' (Você é muito melhor do que eles), sugerindo uma divisão clara entre diferentes classes sociais.

A repetição da pergunta 'Do you think this was a choice for me?' (Você acha que isso foi uma escolha para mim?) enfatiza a falta de controle que muitos têm sobre suas próprias vidas, sendo forçados a viver em condições de pobreza e sem perspectivas de melhoria. A letra também menciona uma 'sequência de eventos em repetição para a eternidade', sugerindo um ciclo vicioso de desvantagem e opressão que parece impossível de quebrar. A referência a um 'preço cósmico' que precisa ser pago para a libertação pode ser interpretada como uma crítica ao destino implacável que aprisiona os menos favorecidos.

A música também aborda a corrupção e a degradação da comunidade, com a linha 'Our community's corrupt, evolved to shit where we eat' (Nossa comunidade está corrompida, evoluiu para merda onde comemos). Isso sugere um ambiente tóxico onde a sobrevivência é difícil e a esperança é escassa. A repetição do refrão 'There's no tomorrow for us' (Não há amanhã para nós) reforça a ideia de que, para muitos, o futuro é sombrio e sem oportunidades. A canção é um grito de desespero e uma chamada à atenção para as injustiças sociais que continuam a afetar tantas vidas.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Portugal engana-se. Diverge, empobrece e finge crescer



Nenhum país se renova enquanto continuar a expulsar os competentes, os íntegros e a promover quem vive das conveniências e das redes de interesse, escreve o economista Óscar Afonso.

⚡ECO Fast
Portugal tem registado uma frágil convergência em relação à média da União Europeia, mas enfrenta uma divergência estrutural que se agrava.
Os dados da Comissão Europeia revelam que, entre 1999 e 2024, Portugal perdeu 5,2 pontos percentuais no nível de vida relativo, contrastando com o progresso de várias economias de leste.
Sem reformas estruturais profundas, o país continuará a descer no ranking europeu, com previsões de empobrecimento relativo e emigração de talentos qualificados.

Portugal tem registado, nos últimos anos, alguma convergência de nível de vida em relação à média da União Europeia (UE) nos dados oficiais da Comissão Europeia (CE). Contudo, esse progresso revela-se muito frágil — porque assenta em fatores conjunturais que mascaram fragilidades estruturais: Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), turismo e a vaga de imigração descontrolada, além da imagem de destino seguro para turismo e investimento face à guerra na Ucrânia — e insuficiente para compensar a trajetória de divergência desde o início do milénio (entre 1999 e 2024), o foco da análise desta crónica. A divergência é ainda maior quando se corrigem os dados para refletir números mais atualizados da população residente, refletindo a vaga de imigração recente.

O contraste torna-se particularmente evidente quando comparado com o percurso das economias de leste, que protagonizaram um notável processo de aproximação ao nível de vida europeu, ultrapassando vários países que, em 1999, se situavam claramente à sua frente, incluindo Portugal. Acresce que estes países entraram bastante mais tarde na UE, tendo por isso recebido muito menos fundos — que, ao contrário de Portugal, souberam transformar em produtividade, rendimento e progresso para a generalidade da população.

Enquanto no leste europeu os apoios comunitários foram canalizados para modernizar economias inteiras, por cá serviram demasiadas vezes — para usar uma expressão suave — para alimentar interesses instalados, reproduzir privilégios e fortalecer uma elite facilitadora. E o mais triste é que nada disto é novo: Está, infelizmente, nos nossos “genes institucionais”. É um padrão antigo e persistentemente português, amplamente documentado por Antero de Quental, Eça, Garrett, Ramalho Ortigão, Fernando Pessoa, Saramago, Sophia ou Vergílio Ferreira — todos eles descrevendo, ao longo de séculos, a mesma teia de favoritismos, patrimonialismo e captura do Estado por minorias privilegiadas.

Uns investiram para criar futuro, nós desperdiçámos para preservar um sistema. Em suma, enquanto as economias de leste aproveitaram os fundos para convergir, Portugal continua a avançar aos solavancos, preso a um modelo que favorece a esperteza oportunista em detrimento do mérito, do trabalho sério e da inteligência criadora.

Somos um país onde demasiadas portas se abrem não pelo que se sabe ou pelo que se faz, mas por quem se conhece — um padrão que os nossos maiores escritores denunciaram, com uma precisão quase profética, muito antes de existir UE. E assim, geração após geração, mantemo-nos reféns dos mesmos bloqueios estruturais, enquanto outros que começaram muito atrás já vão muito à frente.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Já dizia Diderot

Denis Diderot: Razão, Liberdade e Conhecimento

Denis Diderot (1713–1784) foi um dos principais filósofos do Iluminismo francês, conhecido por seu papel central na Enciclopédia e por suas reflexões sobre a razão, a ciência, a moral e a liberdade. 

Diderot foi um dos grandes nomes do Iluminismo francês e uma figura essencial na construção do pensamento moderno. Filósofo, escritor e editor da célebre Enciclopédia, Diderot acreditava no poder transformador da razão e do conhecimento como instrumentos de emancipação humana.

Defensor de uma visão empírica e racional do mundo, Diderot afirmava que o saber nasce da observação e da experiência, e não da fé ou da autoridade. A Enciclopédia, que coordenou com D’Alembert, procurava reunir e divulgar todo o conhecimento humano, promovendo a educação, o pensamento crítico e o progresso social.

Crítico da Igreja e do dogmatismo religioso, Diderot foi um dos primeiros pensadores materialistas do seu tempo: via o universo como matéria em constante transformação e o ser humano como parte integrante da natureza. A sua ética baseava-se na razão e na empatia, e não em mandamentos divinos — a moral deveria servir à felicidade e ao bem comum.

No campo da arte, Diderot defendeu um realismo que aproximasse o teatro e a literatura da vida quotidiana, acreditando que a arte tem uma função educativa e moral.

O legado de Diderot é o de um pensador que desafiou convenções e ajudou a construir uma nova visão de mundo — livre, racional e aberta ao conhecimento.

Diderot via o ser humano como um ser racional, livre e social, capaz de construir o progresso por meio da ciência, da educação e da crítica. Seu pensamento resume o espírito iluminista: libertar o homem da ignorância e da superstição para que possa pensar e agir por si mesmo.

sábado, 24 de maio de 2025

Lucros da banca: riqueza para uns, sacrifício para o povo

Os números falam por si: os grandes bancos portugueses anunciaram lucros astronómicos. Milhões e milhões acumulados — não por mérito produtivo, mas à custa do aperto que o povo enfrenta todos os dias.

Enquanto as famílias vivem com salários estagnados, enfrentam rendas insustentáveis e veem os serviços públicos a degradar-se, os bancos celebram em festa. Crescem comissões, aumentam juros nos créditos à habitação, e lucra-se com a dívida de quem só quer viver com dignidade.

É o retrato de um sistema invertido: os que produzem riqueza são penalizados, os que a acumulam sem produzir são premiados. Um sistema onde a especulação vale mais do que o trabalho, onde os direitos de quem trabalha são tratados como obstáculos, enquanto os lucros dos acionistas são tratados como intocáveis.

Esta situação não é inevitável. É o resultado de escolhas políticas:
– Escolhas que protegem o grande capital.
– Que alimentam desigualdades.
– Que empobrecem a maioria para enriquecer uma minoria.

É inaceitável que se continue a tratar a banca como se fosse um setor “sagrado”, imune a qualquer responsabilização social ou fiscal. O que hoje existe não é economia — é um sistema de extração, onde os bancos funcionam como máquinas de sugar o pouco que resta às famílias trabalhadoras.

A solução não é dar mais benefícios aos banqueiros.
A solução é romper com a política de direita que desmantela o Estado social e entrega o país aos interesses financeiros.

Está na hora de dizer basta.
Está na hora de valorizar quem trabalha, de garantir direitos, de regular a banca com coragem, e de reconstruir um país onde o lucro de uns não se faça à custa da miséria dos outros.

O povo não pode continuar a pagar a fatura do privilégio

sábado, 17 de maio de 2025

Octave Mirbeau sobre o ódio


"Não odeies pessoa alguma, nem mesmo os maus. Compadece-te deles, porque jamais conhecerão o único gozo que consola na vida: fazer o bem."

Entusiasta do anarquismo e ardente deyfusista, encarna o protótipo de intelectual comprometido com os assuntos públicos de sua época, assumindo como dever primordial desmistificar as instituições que alienam e oprimem. Nesta tarefa buscou constituir uma estética da revelação que levasse a lucidez, capaz de obrigar os voluntariamente cegos a encararem a realidade das injustiças do mundo. Combateu a sociedade burguesa e a economia capitalista, fazendo frente a formas literárias e estéticas tradicionais que contribuíam para anestesiar consciências, rejeitou o naturalismo, o academicismo e o simbolismo, buscando seu caminho entre o impressionismo e expressionismo.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Trump e o fim de uma era dourada que nunca o foi


Por Ricardo Paes Mamede
A vitória de Trump nas eleições presidenciais americanas foi recebida com preocupação generalizada e há boas razões para isso. Trump tem um modo de fazer política que degrada a democracia e põe em causa o regular funcionamento do Estado de direito. A sua mensagem é contrária à coesão social e à dignidade da pessoa humana, estimulando o ódio, a intolerância e o desprezo pelo ambiente, pela ciência e pelos factos. Ao nível económico, promete uma redução de impostos que agrava as desigualdades e uma política comercial agressiva que desestabiliza as relações internacionais. Pior ainda, o regresso vitorioso de Trump é um estímulo acrescido a todos os partidos e movimentos que, em diferentes países (Portugal incluído), seguem a mesma linha política. Nada de positivo pode vir daqui.
À boleia das críticas a Trump surge muitas vezes o lamento sobre o fim de uma era de globalização supostamente feliz. O anunciado regresso do proteccionismo americano contrastaria com várias décadas de relações comerciais assentes em regras, que teriam contribuído para um bem-estar alargado à escala global.
Esta narrativa tem dois problemas. Primeiro, ignora que a globalização económica contemporânea, com as suas regras e lógicas de funcionamento, criou um conjunto de problemas sérios nas economias e nas sociedades. Segundo, é incapaz de perceber que o sucesso de Trump — e de outros movimentos políticos semelhantes — é mais consequência do que causa dos problemas decorrentes das relações económicas internacionais.
A forte expansão do comércio internacional e dos fluxos financeiros é um dos traços mais marcantes da economia global contemporânea. Sob a promessa de prosperidade generalizada, as fronteiras comerciais foram desmanteladas, abrindo espaço a uma mobilidade sem precedentes de capital, bens e serviços. Países de rendimentos baixos especializaram-se na produção intensiva de bens de consumo a baixo custo, enquanto as nações mais ricas se concentraram em sectores de alta tecnologia e serviços financeiros. Este processo resultou na criação de cadeias de valor globais, fazendo emergir uma interdependência entre economias que foi por muitos recebida como uma promessa de paz e estabilidade. Na verdade, este modelo trouxe um conjunto de distorções e desequilíbrios que colocam em causa a viabilidade de uma economia mundial integrada nos moldes actuais.
A emergência da China como superpotência industrial, assente na instalação em massa naquele país de fábricas das empresas dos países ricos a partir da década de 1980, foi um dos principais factores que contribuíram para agravar os desequilíbrios globais. A deslocalização da capacidade produtiva para a China pretendia tirar partido dos seus baixos custos de produção e aceder a um mercado potencial de grandes dimensões.
Os resultados foram, por um lado, a acumulação de enormes excedentes comerciais e de capacidades tecnológicas pela economia chinesa; por outro lado, a desindustrialização de muitos países ocidentais, com impactos nefastos nas suas estruturas sociais e no seu endividamento externo. Os poucos países que resistiram à desindustrialização daí decorrente foram aqueles que produziam os bens de que a China necessitava para o seu desenvolvimento económico. Como exemplo mais ilustrativo, a economia alemã, tendo um perÆl de especialização assente em máquinas e equipamentos de produção e transporte, viu crescer as suas exportações como poucos, à boleia da procura chinesa. Tal como a China, a Alemanha seguiu uma política de contenção da procura interna (por via de políticas salariais e orçamentais restritivas), traduzindo-se na acumulação de excedentes comerciais signifcativos face aos seus parceiros.
Assim, a par do crescimento exponencial dos movimentos de bens e capitais, a globalização contemporânea caracterizou-se por enormes desequilíbrios nas contas externas, com efeitos negativos na estabilidade financeira internacional. Os países com elevados superavits comerciais reciclaram os seus excedentes financiando os deficits dos países com contas externas negativas. Isto permitiu aos últimos continuar a consumir, mas à custa de um endividamento crescente.
Estes desequilíbrios têm estado na origem das centenas de crises financeiras e recessões económicas ocorridas nas últimas quatro décadas em diversos pontos do globo (incluindo a crise do euro, que arrastou Portugal entre 2010 e 2013). O excesso de crédito e a especulação financeira dão lugar a bolhas no preço dos activos que, ao rebentar, originam recessões profundas. A pandemia e a guerra na Ucrânia vieram acrescentar à lista de efeitos nefastos da globalização os riscos associados a um excesso de interdependência entre países no fornecimento de bens essenciais.
Longe de ser uma era dourada, a globalização económica contemporânea tem estado assim associada a fenómenos de instabilidade social, financeira e económica. Pelo caminho, milhões de trabalhadores nos países desenvolvidos viram os seus empregos desaparecer, os salários estagnar, a precariedade e as desigualdades aumentar. A capacidade dos Estados para fazer face a estes problemas fragilizou-se. Era difícil que isto não se traduzisse em instabilidade política.
Quem lamenta o fim da globalização como a conhecemos até há pouco não se limita a ignorar os aspectos nefastos das regras em vigor. Parece também confundir as vantagens inerentes às trocas comerciais entre países com uma economia global em que “regulação” significa pouco mais do que impor a cada Estado a abertura descontrolada das suas economias à concorrência internacional.
Não haja dúvidas de que o proteccionismo de Trump é simplista e perigoso. O aumento acentuado das taxas aduaneiras, acompanhado de uma atitude de confronto nas relações entre países, poderá resultar numa guerra comercial generalizada, com consequências graves para a economia global.
A solução para os desequilíbrios resultantes da globalização económica deveria, ao invés, passar por uma regulação mais robusta dos sistemas financeiros e por uma coordenação internacional das políticas cambiais e comerciais que permitisse ajustar as contas externas distribuindo as responsabilidades entre os países com excedentes e os países deficitários — na linha do que Keynes propôs há 80 anos, com pouco sucesso, no âmbito das negociações de Bretton Woods.
Na ausência de tais mecanismos de coordenação, não é de espantar que os países recorram aos instrumentos que têm à sua disposição. A solução não é boa. Desmantelar as fronteiras económicas nacionais e esperar que tudo corra pelo melhor, como em larga medida se fez nas últimas décadas, ainda o é menos.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Curta-Metragem: O Outro Par - The Other Pair


O filme egípcio “O Outro Par”, com duração de apenas 4 minutos, ganhou o prémio de melhor curta-metragem no festival de cinema egípcio. Sarah Rozik, a diretora, tem 20 anos e foi baseada na história de Gandhi. Fala sobre a Lei do Karma "Faça pelos outros o que você gostaria que eles fizessem por você".

domingo, 7 de abril de 2024

Petição - Contra a Reversão da Nova Identidade Visual do Governo de Portugal


Os autores da petição pública declaram-se “unidos além de fronteiras profissionais ou ideológicas” e criaram-na para “repudiar” a recente decisão do primeiro-ministro Luís Montenegro (uma das primeiras do novo executivo e que já gerou profunda discussão) de reverter aquela que consideravam ser “a inovadora identidade visual do Governo de Portugal”. O governo revelou desta forma, consideram, “uma perspectiva alarmantemente retrógrada”.

“Esta ação não apenas desconsidera a vitalidade e a relevância da comunidade artística, criativa e de design, mas também subestima a capacidade intelectual e crítica de toda a população portuguesa”, justificam os autores desta petição.

Considerado “um trabalho de renome mundial”, a petição considera que a anterior identidade visual do governo, entretanto revogada, foi totalmente “ignorada” e que se “regrediu a práticas obsoletas”. “Tal medida reflete uma desconexão profunda com valores contemporâneos essenciais para a evolução da sociedade portuguesa no palco global”, acusa-se.

Ainda segundo esta petição pública, que soma já algumas milhares de assinaturas, a identidade visual anterior [de 2011], mas que agora é a vigorante novamente, é “tecnicamente inadequada e visualmente obsoleta”, contrariando os “princípios básicos do design eficaz” e colocando Portugal “numa posição de desvantagem no diálogo internacional e na economia criativa mundial”.

Por forma a reverter o que é entendido como um “golpe contra a cultura de inovação”, os autores da petição exigem que esta decisão “seja imediatamente parada”. “Portugal merece uma identidade que espelhe o seu legado histórico e a sua dinâmica contemporânea, uma identidade que nos propulse para o futuro, não que nos arraste para o passado”, concluem.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

O dinheiro que mantém o petróleo fluindo


Um estudo interessante do Project Drawdown revela que muitos bancos utilizam o dinheiro que os seus clientes mantêm nas suas contas para fornecer financiamento à indústria dos combustíveis fósseis , e que isto cria uma pegada de carbono que poderia ser evitada simplesmente exigindo que o seu banco não financiasse a indústria. que provoca a emergência climática – ou, se não lhe oferecer informações ou soluções, mudar de banco.

Nós, cidadãos, deveríamos calcular não só a pegada de carbono derivada do nosso consumo, mas também a gerada pelo nosso dinheiro quando este é utilizado para financiar o investimento ou as necessidades de capital de giro destas indústrias: exigir que os nossos bancos sejam transparentes na gestão do nosso próprio dinheiro é algo que devemos considerar como puro bom senso, especialmente se também sentirmos que esse dinheiro está a ser utilizado para atividades que contribuem para nos prejudicar ao aumentar o impacto da emergência climática, o que acaba por se refletir em catástrofes ambientais mais frequentes que causam fortes impactos em nosso património ou em nossas vidas.

De acordo com o estudo, os bancos que mais financiam a indústria dos combustíveis fósseis tendem a ser os maiores, e não os locais. Mas num momento como este, depois de uma COP28 profundamente hipócrita realizada num petroestado e em cuja declaração final não houve nenhuma referência minimamente séria ao fim dos combustíveis fósseis, nós, cidadãos, deveríamos exercer pressão para que os bancos onde depositamos o nosso dinheiro não não o utilizou para financiar quem realiza essas atividades. A redução do financiamento à indústria petrolífera seria, juntamente com a redução dos subsídios governamentais indecentes , uma das formas mais eficientes de reduzir a produção de combustíveis fósseis e fazê-los perceber a necessidade de mudar. Os bancos geralmente fornecem mais financiamento a esta indústria prejudicial do que dedicam às energias sustentáveis ​​ou alternativas .

É cada vez mais importante que a indústria dos combustíveis fósseis seja pressionada a partir de todas as frentes possíveis, incluindo, claro, a financeira: na medida do possível, temos de transformar a indústria dos combustíveis fósseis em verdadeiros párias de quem ninguém quer aproximar-se. Não pense que só influenciam as decisões de bilionários e magnatas com muito dinheiro: qualquer valor depositado numa conta é importante e, como cliente, você merece que seu banco lhe informe sobre o destino do seu capital de giro e sobre as empresas para o qual financiam. Se os bancos virem um risco real de perder depósitos porque fornecem financiamento à indústria dos combustíveis fósseis, poderão repensar esses investimentos, reduzindo assim a capacidade dessa indústria de continuar a aumentar a sua produção.

Já vi grandes mudanças começarem com coisas muito menores.

sábado, 28 de outubro de 2023

Uma rara entrevista de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, por António Faria

O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesa.

Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento.
Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos – o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida – raios partam a Vida e quem lá ande! -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal!

A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa – nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores…

Atenção! Fernando Pessoa vai responder às perguntas que lhe fizemos:

– Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos – político, moral e intelectual?
– A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico.

Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.

O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Ora ser tudo num indivíduo é ser tudo; ser tudo numa colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita – como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova – o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima.)

Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise.

As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 – fim da Renascença em nós e de nós na Renascença – deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português, e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto.

Respondi, creio, à sua pergunta. Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.

– Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores poetas e dramaturgos?
– Citar é ser injusto. Enumerar é esquecer. Não quero esquecer ninguém de quem me não lembre. Confio ao silêncio a injustiça. A ânsia de ser completo leva ao desespero de o não poder ser. Não citarei ninguém. Julgue-se citado, quem se julgue com direito a sê-lo. Resolvo assim todos. Lavo as mãos, como Pilatos; lavo-as, porém, inutilmente, porque é sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele é já o futuro? Quem são os meus contemporâneos? Só o futuro o poderá dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses são apenas os meus conterrâneos no tempo; e eu não quero ser bairrista em matéria de imortalidade. Na dúvida, repito, não citarei ninguém.

– Estaremos em face de uma renascença espiritual?
– Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração – todas as doutrinas de regeneração – estamos no início de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que colectivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. São o caminho-de-ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída. Falo em termos de vida metálica porque a época renasce nestes termos. O símbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros.

Nada há a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes; e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, subgente, num artigo da antiga Águia – da Águia que voava. Só a burguesia, que é a ausência da classe social, pode criar o futuro. Só de uma classe que não há pode nascer uma classe que não há ainda. Seja como for, avancemos confiadamente. Todos os caminhos vão dar à ponte quando o rio não tem nenhuma.

– O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? Há arte verdadeiramente portuguesa?
– Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de português, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser português, no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade. Arte portuguesa será aquela em que a Europa – entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grécia passada e Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude.

– O regionalismo na literatura e na pintura?
– O regionalismo é uma degeneração gordurosa do nacionalismo, e o nacionalismo também. E como o nacionalismo é antiportuguês (sendo bom, cá no Sul, só para os povos latinos e ibéricos), o regionalismo em Portugal é uma doença do que não há. Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal. E isto de quintal também tem interpretações. O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metafórico não diminui a verdade de tudo isto: Deus, e o próprio universo, são metáforas também.)

– Teriam existido em toda a nossa história literária períodos de criação?
– O nosso único período de criação foi dedicado a criar um mundo. Não tivemos tempo para pensar nisso. O próprio Camões não foi mais que o que esqueceu fazer. Os Lusíadas é grande, mas nunca se escreveu a valer. Literariamente, o passado de Portugal está no futuro. O Infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor. Este poderá não falar deles; basta que os valha em seu canto, e falará deles. Camões estava muito perto para poder sonhá-los. Nas faldas do Himalaia o Himalaia é só as faldas do Himalaia. É na distância, ou na memória, ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto. Há só um período de criação na nossa história literária: não chegou ainda.

– Continuará sendo o lirismo a nossa feição literária predominante?
– Há duas feições literárias -a épica e a dramática. O lirismo é a incapacidade comovida de ter qualquer delas. O que é ser lírico? É cantar as emoções que se têm. Ora cantar as emoções que se têm faz-se até sem cantar. O que custa é cantar as emoções que se não têm. Sentir profundamente o que se não sente é a flâmula de almirante da inspiração. O poeta dramático faz isto directamente; o poeta épico fá-lo indirectamente, sentindo o conjunto da obra mais que as partes dela, isto é, sentindo exactamente aquele elemento da obra de que não pode haver emoção nenhuma pessoal, porque é abstracto e por isso impessoal. Fomos esboçadamente épicos. Seremos inviolavelmente dramáticos. Fomos líricos quando não fomos nada. O lirismo só continuará sendo a nossa feição predominante se não formos capazes de ter feição predominante.

– O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
-O Quinto Império. O futuro de Portugal —que não calculo mas sei —está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeismo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.

13-10-1923
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. – 3.
1ª publicação. in Revista Portuguesa, nº 23-24. Lisboa: 13-10-1923.
Fonte: Arquivo Pessoa

domingo, 6 de agosto de 2023

Quando é que o PCP vem pedir desculpas do Terror Vermelho (Lenine, Estaline, Mao Tsé-Tung e Polt Pt) que mataram centenas de milhões de pessoas?

Super-Lua, NYC por Dan Martland
"Camaradas! A revolta kulak em seus cinco distritos deve ser esmagada sem piedade... Vocês devem fazer dessas pessoas um exemplo.
(1): Pendure-as (quero dizer, pendurar publicamente, para que as pessoas vejam) pelo menos 100 kulaks, bastardos ricos, e sanguessugas conhecidos.
(2): Publiquem seus nomes.
(3): Confisquem todos os seus grãos.
(4): Selecionem os prisioneiros de acordo com as minhas instruções do telegrama de ontem.
Façam tudo isso de modo que, por quilómetros ao redor, as pessoas vejam tudo isso, compreendam, temam, e digam que estamos matando os kulaks sanguinários e que vamos continuar a fazê-lo..." -Lenine, 1918
Nós tivemos Fátima. Cada povo escolhe o seu lado. Muitas vezes mal e raramente bem. A cegueira mata. Mesmo entre ateístas.

sábado, 29 de abril de 2023

A escultura "Juventude", mais conhecida "Menina Nua"


Gabam tanto a sereia de Copenhaga (minúscula) e temos no Porto, a belíssima escultura da Menina Nua - a Juventude. Graciosa, esbelta e com um olhar muito feminino, sentada e com os braços apoiados num plinto das faces do qual quatro mascarões lançam água para um pequeno tanque.

Obra de Henrique Moreira, foi realizada em 1929, encontrando-se na Avenida dos Aliados.

"O modelo chamava-se Aurélia Magalhães Monteiro e era conhecida pela Lela, Lelinha ou pela "Ceguinha do 9" - para a eternidade ficará sempre a ser a "Menina Nua" da Av. dos Aliados."


Simões Pinto conta que Lelinha tinha 21 anos quando serviu de modelo a Henrique Moreira, para a concretização da Menina Nua. Mas nem a estátua foi a única a servir-se do seu rosto ou do seu corpo, nem o escultor foi o único a recorrer à modelo. Ela conta, no mesmo texto de Simões Pinto: "Estou no Buçaco, no cinema Rivoli, em Lisboa e Moçambique."


Lelinha nasceu no Bonfim, em 1910 e haveria de morrer, em 1992, pobre e cega, no bairro social da Pasteleira.

Referência bibliográfica:
Raul Simões Pinto – "Pasteleira City", 1994 de  Edições Pé de Cabra

Biografia

Blogosfera

Reportagem
Henrique Moreira: Escultor - RTP Arquivos

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Poesia da Semana - Poema de Agradecimento à Corja, por Joaquim Pessoa


Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

sábado, 25 de março de 2023

Enquanto famílias sofrem, Banca alarga lucros e engrossa os bolsos

Os cinco maiores bancos a operar em Portugal tiveram lucros 2.583 milhões de euros em 2022, mais 1000 milhões de euros do que em 2021. Um contraste brutal face ao empobrecimento das famílias.


Termos como «comissões bancárias», «euribor» e «spread» têm sido aspectos com que as famílias estão confrontadas. Todos os dias o aumento do custo de vida tem sido debatido sem que isso seja acompanhado pela avaliação de quem ganha com tudo isto.

A realidade, no entanto, quando acompanhada pelos números poderá revelar quem tem ganho, e os números da Banca não fogem à regra. Segundo contas feitas pela Agência Lusa, os cinco maiores bancos que operam em Portugal obtiveram lucros agregados de 2.583 milhões de euros em 2022, mais 1.000 milhões de euros do que em 2021.

A Caixa Geral de Depósitos arrecadou lucros de 843 milhões de euros em 2022, mais 45% do que em 2021. O Santander Totta foi o segundo banco com melhores resultados positivos em 2022 de 606,7 milhões de euros, mais 90% do que no ano anterior e o melhor resultado da sua história. O Novo Banco triplicou os lucros e em 2022 esses ascenderam a 560,8 milhões de euros depois de em 2021 ter tido pela primeira vez resultados positivos, de 184,5 milhões de euros. Já o BCP subiram 50% para 207,5 milhões de euros e os do BPI cresceram 19% para 365 milhões de euros.

Enquanto os bancos lucram e distribuem dividendos, quem trabalha tem visto o seu salário perder cada vez mais valor real. A título de exemplo, o salário médio por trabalhador diminui 4,0% em termos reais em 2022. Esse mesmo ano viu a maior subida anual de preços de bens e serviços de consumo dos últimos 30 anos, reflectida numa inflação que se fixou nos 8,1%, já o Salário Mínimo Nacional em 2023 aumentou apenas 7,8%, fixando-se no 760 euros.

Bom bom é sermos pobres. Somos o 7.º país com menor PIB per capita da UE, muito longe da média europeia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Há 175 anos, o industrial alemão Friedrich Engels publicava o Manifesto Comunista


Karl Marx e Friedrich Engels foram dois dos principais teóricos, tanto no âmbito da filosofia, como da sociologia, que influíram grande parte das forças partidárias políticas de esquerda. Ambos germânicos, deram origem a uma série de tratados, ensaios, e obras sobre as forças opressores, e as classes subjugadas pelas mesmas, estando ambas relacionadas através dos meios de produção, e da produção propriamente dita. Em circulação, está o capital, recurso detido por poucos e carecido por muitos. Foi na tentativa de subverter essa situação, pouco depois do estalar da Revolução Industrial, que estes dois teóricos uniram esforços e ideologias, e redigiram algumas obras cruciais na definição daquilo que seria a abolição das classes após a luta destas.

No fim, os teóricos explanavam a solução do comunismo, um estado que se viria a metamorfosear num regime político. Na prática que a História nos apresentou, tornou-se um dos mais polémicos e discutíveis nos fóruns públicos, académicos, e políticos, por esse mundo fora, perdurando, ainda, em alguns deles. No caso de Portugal, este chegou a ver Vasco Gonçalves, membro do Partido Comunista Português, como primeiro-ministro português, em pleno Verão Quente, fase política muito conturbada no pós-25 de abril. Não obstante um mandato titubeante, o partido foi uma das forças desbloqueadoras da situação ditatorial, ao lado das forças do Movimento das Forças Armadas, do Partido Socialista (PS), e do futuro Partido Popular Democrático (depois Partido Social Democrata – PSD), grupos onde convergiram grande parte dos esforços da democratização política. Entre alas mais ou menos liberais, o Partido Comunista Português permanece hoje como um dos núcleos partidários mais conotados da atualidade política, ao lado dos eventualmente criados CDS-PP (estes ainda no efervescer do pós-25 de abril) e Bloco de Esquerda. É com esta, um partido também de esquerda, com quem, em conjunto com o PS, está a causar sensação nos órgãos de comunicação internacionais, com o acordo governativo que motivou a alcunha de “Geringonça“.

Porém, nada descarta a importância das crenças e ideias vertidas por Marx e Engels em obras, como “Manifesto Comunista” (da autoria de ambos, em 1848), ou “O Capital” (de Marx, 1867), tanto no plano teórico, como no prático, dando azo ao desenvolvimento de vários subtipos de socialismo e de comunismo, alguns deles associados ao anarquismo. Várias foram as interpretações, e proporcionais foram as tentativas de lhe dar vida. Porém, por detrás de toda esta exploração, está o que foi apontado e, verdadeiramente, escalpelizado por estas duas figuras proeminentes nos últimos três séculos.

O socialismo científico
Aliando uma tradição académica fortemente sustentada, a uma visão interventiva e assertiva sobre a sociedade, Marx e Engels prepararam uma teorização daquilo que eram as fundações sociais e produtivas do capitalismo. Como objetivo, e para além do utópico objetivo de visualizar o que seria uma sociedade ideal, procuraram perceber como se dava a acumulação do capital em alguns no fluxo da produção capitalista, desvendando os eventuais paradoxos na sua operacionalização. Como crença, partiam de um princípio de que o capitalismo seria desmantelado de dentro para fora, ou seja, a partir das suas lacunas. Detetando uma classe trabalhadora explorada e expropriada, apontaram o caminho para a formação histórica e social das suas consciências, e firmá-la como uma classe revolucionária.

Aquilo que cunharam como socialismo seria, no seu ver, uma charneira entre a abolição capitalista e a afirmação da sociedade comunista, etapa máxima da evolução antropológica e sociológica. Aqui, nas suas previsões, a sociedade estaria isenta de classes, não dando azo à existência da propriedade privada, e os poderes estatais estariam em segundo plano, privilegiando-se a igualdade entre todos os homens. As etapas que o viriam a formalizar foram escrutinadas em “O Manifesto Comunista”, reforçada pelo estudo do capitalismo por parte de Marx em “O Capital”. Teorias, como o materialismo histórico e dialético, a luta de classes, e a mais-valia, seriam as fundações da futura e putativa sociedade comunista. Importa realçar que um dos principais críticos desta estruturação sociopolítica seria o pensador Karl Popper, que a contrapôs com a sua “sociedade aberta“.

O materialismo histórico e dialético
Por detrás de qualquer proposta, tanto ao nível sociológico, como científico, como artístico, está uma análise contextual, contexto no qual aquilo que de novo se apresenta incide. Foi assim com Karl Marx, natural da cidade de Trier, e com Friedrich Engels, da vila de Barmen. Visualizando a sociedade e a economia num ponto de vista histórico, e naquilo que era a realidade do século XIX, o materialismo histórico, termo pelo qual é cunhado, mas que nunca foi usado por ambos, é uma metodologia de estudo. Esta procurou conhecer as causas das mudanças da sociedade humana, a partir dos meios pelos quais as necessidades de vida são construídas em coletivo. Estando a isto associado o trabalho, as diferentes classes sociais e as estruturas políticas existentes são consubstanciadas e explicadas por aquilo que é a atividade económica, e a produção propriamente dita. Esta torna-se no elemento-chave de toda a ordem social, determinando-se a partir de quem produz, de como se produz, e do papel que cada um assume no próprio processo produtivo.

A importância deste estudo se firmar numa toada dialética partiu do grego Heráclito, que influenciou o alemão Georg Friedrich Hegel. Para o helénico, tudo está em transformação constante, havendo dois pendores em cada objeto que se mudam mutuamente, sendo a antítese de uma eventual tese, isto é, de um dado elemento. Desta forma, tanto Marx como Engels acreditam num mundo em que, por força dos mecanismos capitalistas, os operários estão posicionados no lado oprimido, opondo-se aos grandes patrões. Assim como a morte nega a vida, fases, como a feudal, a esclavagista, e a capitalista, contêm em si as sementes do seu fim. Desta feita, as causas materiais que motivam a evolução dialética da história fundem aquilo que é a conceção do materialismo histórico neste discorrer de oposição entre dois elementos sociais contrários, que acabam superados por uma nova etapa da sociedade, em que os baluartes acabam por ser remodelados e reformulados ao serviço desta.

Esta conceção, fundamentalmente trabalhada por Marx, parte da teoria que apresenta a infraestrutura, – as condições e atores da produção – e a superestrutura – inclui a cultura e a estrutura sociopolítica de um país. A base material parte daquilo que é o resultado da dinâmica produtiva, isto é, daquilo que é o produto, e das suas transações e dos consumos. A materialidade acaba por ser um caminho que permite dar seguimento ao caminho humano, dando um fio coerente e lógico para as várias gerações. Esta fixação pela materialidade de Marx vai ao encontro da filosofia hegeliana, que inverte do idealismo para o materialismo. Para o alemão, as ideias seriam somente o reflexo daquilo que as classes sociais dominantes pretendiam transmitir, dando azo à sua consolidação ideológica. Esta construção é que, por sua vez, apresenta a realidade como um palco de consumo e de exploração produtiva, distante dos prismas religiosos e jurisdicionais, distante da afirmação pela produção cultural e artística, mas podendo, através desta, apresentar o mundo a seu bel prazer.

Desta feita, é tomado em consideração que a evolução histórica se dá, desde os primórdios das organizações sociais, com a exploração por parte de um indivíduo de um outro. Esta premissa acaba por permitir caraterizar as relações entre as diferentes classes sociais, que se foram formalizando e metamorfoseando conforme cada contexto espácio-temporal. Esta mudança dava-se pela mudança de uma das partes, quer ou dos meios produtivos, ou das próprias forças de produção. No feudalismo, os servos seriam oprimidos pelos grandes senhores, enquanto, no capitalismo, e na sua ótica, a classe operária acabava subjugada perante a burguesia. O apelo à luta do protelariado advém, precisamente, desta conclusão, perante as iniquidades e fragilidades do capitalismo, nascido no revés e na própria antítese do feudalismo. Estas preocupações laborais e sociais foram tomadas em conta nas diversas democracias europeias, mas também nos regimes corporativistas e autoritários do Sul da Europa, cambaleando entre interpretações mais ou menos radicais.

Ainda no que concerne ao materialismo dialético, este envolve-se naquilo que é a filosofia, e assinala a relevância do meio ambiente na modelação daquilo que são os seres vivos, e a própria cultura em que se enquadram, negando qualquer interferência divina nessa componente. Assim, e reconhecendo o pensamento como operante naquilo que é a sociedade, é da matéria, dos meios e mecanismos de produção, que se parte para a construção cognitiva, embora Marx negue a síntese hegeliana. No lugar desta, assiste-se à transformação da relação entre os elementos, que Engels não dissocia do que ocorre na Natureza. Tal como na Natureza, sujeito e objeto, os dois intervenientes numa dada ligação, não vivem um sem o outro, existindo a necessidade desta dualidade na prossecução marxista. Na essência, contudo, estão as contradições que a História traz na sua cronologia, que levam a que haja uma constante necessidade de superação, compreendendo a dinâmica sistemática da realidade. Na mudança, todas as áreas do saber, do fazer, e do compreender acabam influenciadas, digladiando perante o institucionalizado na política, na economia, na sociedade, e na cultura.

A mais-valia e o modo de produção
Este conceito é mais um que é estudado por Marx, e que define aquilo que resulta da diferença entre o valor final da mercadoria resultante da produção, e o valor total dos meios de produção e do próprio trabalho. Assumindo-a como a base do lucro capitalista, o germânico convida as óticas dos economistas britânicos Adam Smith e de David Ricardo para a discussão da definição. A do primeiro perspetiva que o lucro é gerado pelo mercado, do binómio oferta-procura, que se afasta do próprio trabalho a partir dos diversos caminhos que a mercadoria final pode levar. De muito vale a própria propriedade privada do capital, pois o rendimento de um empresário não depende assim tanto do trabalho, mas mais dos investimentos efetuados. Já a do segundo, via o lucro como a sobra daquilo que os salários e as rendas totalizavam, que se ia comprimindo consoante a inflação dos valores de ambos.

A influência deste fez-se sentir no princípio do trabalho teórico de Marx, mas a influência sociocultural, e a dependência do lucro da própria produtividade levou-o a estudar uma nova fundamentação para o lucro capitalista. Tendo também em conta a mecanização produtiva, o valor de trabalho que cada um oferece torna-se mais abstrato, não se podendo averiguar tangivelmente aquilo que é o salário de cada trabalhador. Influenciadas pelo mercado, as origens do lucro moram na propriedade do capital, naquilo que cada empresário concentra e gera a partir das suas estruturas. Porém, a questão que levantou a indignação marxista centrou-se na divisão desse mesmo lucro, e naquilo que os operários beneficiavam deste. No final, Marx considerava o lucro como o excedente que resulta de uma relação social num dado contexto histórico e económico.

No que ao conceito de mais-valia concerne, foram destrinçados dois tipos de mais-valia, empreendidos pelos patrões para aumentar a sua taxa de lucro, sendo estes o tipo absoluto, e o relativo. Quanto ao primeiro, passa por aumentar a duração do dia laboral, e manter o salário; já o segundo, visa ampliar a mecanização do processo produtivo. Refutando a visão de Ricardo do que era o lucro, o germânico observa a maior disponibilidade dos patrões capitalistas para influenciar o lucro que auferem, tanto através do recrudescimento da produção, como do ritmo do trabalho. Mecanismos, como a supervisão rígida e apertada do trabalho, tornavam possível o aumento da produção das ditas mercadorias, sem necessitar de desembolsar mais para o pagamento dos vencimentos dos trabalhadores.

É neste prisma que assenta a visão marxista da economia, que, à data, critica o papel do juro como fonte de acumulação de riqueza por parte do patronato. Para Marx, este não é algo que decorre da remuneração normal do capital, mas sim de um pendor social, sendo uma forma pela qual a totalidade das mais-valias dos trabalhadores se vê gerida e redistribuída pelos capitalistas. Dos operários até aos concentradores do capital, as necessidades variam, porque urge a utilização do mesmo por parte dos primeiros para a sua sobrevivência, enquanto os segundos vão acolhendo e recolhendo o lucro, atendendo às necessidades e flutuações de mercado, e distribuindo-o de forma autónoma.

À geração da mais-valia, está associado o modo de produção, i.e. a forma como se organizam as forças produtivas, e as relações de produção entre os trabalhadores e os capitalistas. Exposto às evoluções ambientais, acabam por, em conjunto com toda a sociedade, atravessar por mudanças estruturais e conjunturais, alterando-se, com regularidade, a partir das classes emergentes e dominantes. Todavia, está-lhe inerente a definição dos processos, instituições, e ligações entre as partes envolvidas no desenrolar produtivo. No que toca ao parecer marxista, a estrutura económica da sociedade forma-se a partir dos meios de produção, fulcrais no estabelecimento das conexões entre as forças humanas de produção. Sendo o ser social que determina a consciência, as forças chegam a um ponto de rutura, em que, em tempo de se assistir ao seu desenvolvimento, este se vê obstruído pelas divergências nas relações. Estas constantes desadequações acabam por funcionar como a plataforma onde o antagonismo social se revela, partindo, indiretamente, dos próprios meios de produção. O filósofo, indicando a sociedade burguesa como o exemplo destas evidências, aponta o caminho para a já aludida superação pela luta de classes.

A ideologia, a alienação e o fetichismo
No seio da observação marxista, a ideologia assume um papel importante, atuando como uma espécie de máscara daquilo que a realidade, de facto, é. Trata-se, por isso, de uma consciência falsa, advinda da própria divisão do trabalho manual do intelectual, e conduzida por vários pensadores que distorcem, com êxito, as relações de produção. A ideologia mostra-se como uma ferramente importante para as classes dominantes, convergindo em relação aos seus interesses, e revelando-se a partir das ligações estabelecidas nos recintos produtivos. Importa transportar estes recintos para aquilo que é a sociedade, assente pela própria estratificação nos locais de trabalho, e no auferir do capital. Esta perceção de Marx quanto ao conceito de ideologia, estando muito da sua visão associada à sua associação com Engels, com quem redigiu “A Ideologia Alemã” (1846), a primeira obra do duo, onde explana essa noção à luz da realidade do país. Os pensadores subsequentes viriam a conferir novas e atualizadas posições daquilo que é a ideologia, incluindo a revelação da conceção “latente” de Marx, da autoria do inglês John B. Thompson, que a via como a metodologia na qual as relações de domínio e de subjugação se davam.

A própria ideologia contribui para que, no seio do indivíduo, se assista ao desenvolvimento de uma caraterística, que é a alienação. Esta redunda na submissão inconsciente ao discurso ideológico das classes dominantes, assistindo-se a esta no próprio trabalho, acabando por se propagar até ao quotidiano, e por se entranhar na organização social. Marx refere também a alienação na burguesia, em que os indivíduos passam a idolatrar certos materiais ou posses (fetichismo), prescindindo-se do ser em detrimento do opulento ter. Para que o repertório material se constitua, é, pois, necessário o capital para o adquirir, dando a ideia de que este é capaz de oferecer tudo aquilo que um alguém pretende deter. A alienação acaba por partir da consciência para tudo o resto, alastrando-se até aos próprios modos e métodos quotidianos de produção e de transação.

O fetichismo tem, como coordenadas, uma inversão de papéis, atuando as coisas como pessoas, e vice-versa. O reflexo disso está, precisamente, nas próprias transações de mercadorias, produzidas por necessiades alheias, e com valores definidos pelo mercado. Desta forma, a figura humana atua com pouca diferenciação, seguindo as orientações mecânicas e económicas, cingindo-se a um papel de agente. Marx apoia a sua ideia de que, no capitalismo, a produção é mais autónoma do que o ser humano a partir deste exemplo, colocando em risco o papel do ser humano na supervisão e controlo das variáveis económicas. É neste contexto que, para o alemão, urgiria transformar a propriedade privada em coletiva, e findar o valor de mercado dos bens, tornando-se crucial o valor de uso. É por isto que acredita que, no seu entender, a economia política não se consegue soltar do fetichismo, sendo a produção algo natural, e que acaba por levar a que muitos economistas contemporâneos se dediquem afincadamente a avaliar as tendências de mercado como proeminentes na atividade económica atual.

A luta de classes
Na superação – ou na tese hegeliana – daquilo que é o status quo do contexto produtivo, apresenta-se a luta de classes, onde, no discutir das condições socioeconómicas, se dá o confronto das classes oprimidas em relação àquelas que detêm o controlo das forças produtivas capitalistas. Este tipo de luta seria aquele que estaria na origem das grandes revolução do percurso histórico até então, dando origem a que o padrão social se modificasse por completo. No caso analisado por Marx, as origens estariam na propriedade privada dos meios de produção, levando a que a sociedade se dividisse em proprietários burgueses e em operários. Os primeiros retinham a mercadoria produzida pelos segundos, que recebiam um salário de acordo com a qualificação que tivessem. Esta conjuntura levaria, no seu parecer, a que a luta de classes se desencadeasse, e desse origem à ditadura do proletariado, onde as classes seriam abolidas, e se assistiria a uma sociedade sem qualquer hierarquização e/ou fragmentação.

Esta luta desemboca naquilo que é o fim do capitalismo, e das próprias classes sociais, assumindo-se o socialismo como fase transitória do capitalismo para o comunismo. A proposta da abolição das classes seria, também, um ponto de partida para o nascimento do anarquismo, que visava findar qualquer tipo de poder estatal central. Para fundamentar a luta de classes até ao fim destas, Marx refere as sociedades indígenas americanas, que se orientavam por figuras simbólicas da sua cultura. Isto propiciava-se pela falta de excedente produtivo, levando a que todos os membros integrassem o processo de produção, e impedindo a formação de qualquer classe. Porém, mal se assiste à separação do homem da mulher, e da subjugação por parte do primeiro a esta, geram-se fundamentos para que essa luta se desenrole. Aliás, Engels discorre, de um ponto de vista antropológico, sobre a necessidade da mulher se emancipar, e se integrar na dinâmica social e produtiva, colocando o tradicional papel doméstico como algo complementar, ao invés de principal (“A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado“, de 1884).

As lutas de classes, por sua vez, sucedem-se quando o excedente justifica que isso aconteça, em que se assiste a jogos das classes dominantes para benefício próprio. Formulando-se e consolidando-se uma ou mais classes dominantes, as que se encontram na base da pirâmide hierárquica sentem a necessidade de se emancipar do jugo que explora o seu trabalho e o proveito financeiro consequente da atividade produtiva. Despoletando o conflito, depõe-se a(s) classe(s) do topo, e assiste-se a uma nova a tomar o seu lugar, de forma mais ou menos pronunciada. É esta dinâmica que Marx denuncia, e que aponta como a matriz de todas as convulsões revolucionárias de vulto no íntimo de uma sociedade.

A ditadura do Proletariado
Esta fase trata-se do derradeiro estádio da proposta de Marx e de Engels antes da afirmação plena do comunismo, em que o próprio proletariado assume o controlo do poder político, derrubando a cimeira figura do Estado, e gorando os princípios e meios capitalistas. Aliás, a própria União Soviética, encimada por figuras como Vladimir Lenine, Leon Trotsky, e Joseph Estaline, instrumentalizou e apresentou a mais próxima adaptação do modelo teorizado pelos alemães, apesar de acabar bastante enviesado em relação àquilo que os preceitos de Marx e de Engels apresentam. Estes serviram, sim, de fundamento a muitos dos estados que se declararam comunistas pelo globo, culminando nos sul-americanos.

Na teoria, apresenta-se como um estado democrático, no qual a autoridade pública é eleita por sufrágio universal, estando ela proliferada pelos trabalhadores. Na prática, os germânicos associam a própria Comuna de Paris do século XIX, que se seguiu à Guerra Franco-Prussiana, como um exemplo daquilo que é a ditadura do proletariado. Esta foi teorizada por Karl Marx, e, depois, complementada por Friedrich Engels. Primeiramente, Marx afirma que qualquer governo é, direta ou indiretamente, uma ditadura de uma classe em relação a outra(s), e que só poderia ser derrubado através da derrocada mais ou menos violenta dos pilares sociais desse figurino.

Assim, a ditadura do proletariado foi-se fundamentando na regulação criteriosa e rotinada dos diferentes indicadores socioeconómicos, incluindo os rendimentos. Aquilo que fosse necessário retirar para garantir a sustentabilidade da produção, e para manter uma fonte estável para eventuais seguros, seria extraido aos vencimentos, sem prejudicar a equidade apregoada. Para este europeu, o Estado tem a obrigação de cobrir as despesas administrativas, de agilizar recursos para a garantia da funcionalidade dos serviços públicos, e de assegurar a sustentabilidade financeira dos fisicamente impossibilitados de trabalhar. Aquilo que sobrasse das despesas internas, seria repartido devidamente pelos trabalhadores, de acordo com o esforço empreendido por cada um. De acordo com esta lógica, aqueles que realizassem lavoros mais complexos, ou se voluntariassem para esforços suplementares, deveriam de receber um valor ajustado a isso mesmo. Neste período, decorreria a cessação de qualquer vestígio capitalista, eclipsando-se no auge das suas contradições.

Por sua vez, Engels destaca a força e a violência como variáveis importantes na transformação revolucionária, uma vez que, só assim, as elites seriam obrigadas a desvincular-se dos seus privilégios. O pensador aproxima-se de Marx na assunção da força impulsionadora que o papel revolucionário traz, funcionando como um mecanismo de renovação e de superação do arcaico e do iníquo, sem nunca esquecer a importância da expressão virulenta e agressiva por parte dos oprimidos. Desta feita, é com mais radicalismo, e anunciando a importância de uma expressão firme e capaz de desarticular as doutrinas existentes, que apela a essa luta de superação e de transcendência material.

O materialismo dialético na ciência
No amadurecer daquilo que é o materialismo histórico e dialético exposto acima, Engels tentou aplicá-lo à ciência, tendo, para isso, redigido, no ano de 1883, “Dialética da Natureza“, obra que não terminou. Abordagem presa àquilo que era a atividade científica, ainda sem as imensas evoluções fisico-químicas que conheceu, o alemão centrou-se naquilo que era o encarar dos dilemas intelectuais de então. Assim, foram várias as espécies de leis apresentadas, e que sumarizariam o trabalho científico até então. Entre elas, estava a da transformação da quantidade em qualidade e vice-versa, onde se assiste a uma transição de fase, possibilitando que a mesma ocorresse no seio estrutural da sociedade – a relação entre os comportamentos da Física com as dinâmicas sociais formou a sociofísica. Na génese da ciência perspetivada por Engels, está a correlação da mão e do cérebro humanos, crescendo inseparavelmente e, ao seu estado de desenvolvimento, correspondendo a adaptação aos tempos. Um dos pontos curiosos que é estudado nesta obra do germânico é a caraterização dos vertebrados, que os vê munidos com um corpo influenciado pelo sistema nervoso, regulado pela crescente auto-consciência.

Karl Marx e Friedrich Engels propuseram, num ponto de vista materialista, historicista, e dialético, uma metodologia sociopolítica a partir da qual superar as iniquidades e as fragilidades do sistema capitalista. À luz da atmosfera social, que se expressou de formas replicáveis, mas com diferentes moldes, o par de pensadores declarou a luta de classes como essencial, tendo em vista a plena afirmação do comunismo. Não obstante as orientações e ideologias dos vários nomes que os sucederam, importa não descartar a repercussão atingida pelos escritos e ensaios de ambos, naquilo que é o estudo sociocultural e político da realidade, mas também no que são os diferentes contextos históricos que o tempo apresenta, e que não esconde os papéis desempenhados por cada um. Marx, mais criativo, e Engels, mais responsivo, foram, desta forma, duas mentes capazes de iluminar uma nova perspetiva, e que, de melhor ou de pior maneira, foram interpretados na prática por diferentes ramificações políticas, sustentadas em diferentes convicções. Mais do que as propostas e respostas, as investigações e as constatações de um mundo sociopolítico que, por mais que gire, suscite mais questões do que conclusões.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Filme: Filantropica (2002)


Por apresentar um ponto de vista que pode ser desconhecido ou difícil de captar para muitos espectadores não romenos, é recomendado conhecer algo da conjuntura histórica utilizada como pano de fundo do filme para uma melhor inteligibilidade. Trata-se do chamado “período de transição”, que foi um termo utilizado para descrever o período entre a Roménia comunista, do ditador Nicolae Ceausescu, e uma sociedade “normal”. Foi um período em que as pessoas teoricamente poderiam recuperar a dignidade, aprender a falar a verdade e confiar em seus semelhantes. A questão é que, na Roménia, como em todos os outros países ex-comunistas, esse período foi marcado por muitas desilusões, por muitos sonhos e destinos desfeitos, pois a recuperação não se mostrou fácil nem nos planos económicos, nem nos humanos. O lugar das relações humanas foi ocupado por artimanhas e roubos, o vazio dos slogans comunistas foi substituído pelo vazio da TV comercial. Sobreviver como ser humano era uma tarefa difícil. Outro ponto importante a se conhecer é que a literatura e o teatro romenos têm uma grande tradição satírica e isso é muito explorado na obra.

Contextualização histórica à parte, o filme é uma crítica à “nova ordem” instalada na Roménia após o fim do comunismo em 1989 com a Revolução Romena, e atribui ao novo regime a grande quantidade de mendigos, os golpes constantes, o sistema educacional deficitário, etc. Não vou me ater a estas peculiaridades, e sim ao roteiro, pois, dada a atual conjuntura brasileira, achamos tudo isso muito próximo de nossa realidade. Quem nunca se compadeceu por conta de algum pedinte com alguma história miserável? Quantas vezes ajudamos, mas ficamos desconfiados? Após assistirmos ao filme, é bastante natural que fiquemos pensando se isto realmente existe e quantas vezes já fomos enganados. Golpistas existem em todos os lugares do mundo, e ninguém esta imune às ações desse tipo de gente. Deve-se dar destaque, nesse contexto, às histórias inventadas por Don Pepe para seus “coletores de esmolas”, que são mirabolantes e espetaculares. No geral, porém, fica claro que a versão superficial e degenerada da nova ordem é o foco principal do filme.

Ovidiu é manipulado por Don Pepe e acaba até perdendo a sua própria identidade, ao entrar para esta orquestra de fraudes, em nome de sua condição de homem solitário e carente. É isso que Don Pepe procura: pessoas emocionalmente fragilizadas, necessitadas e ávidas por dinheiro fácil. Isso nada difere da situação de diversas pessoas utilizadas no tráfico de drogas, por exemplo. Nesse sentido, o filme acaba sendo bastante realista.

Temos atuações bem convincentes, por vezes até exageradas, mas é bom sempre ter em mente que estamos diante de uma sátira. Não há destaques absolutos, pois todos os artistas estão muito bem em tela, entretanto, os protagonistas Ovidiu, interpretado por um ator muito talentoso, diga-se de passagem, e o Sr. Puiutz realmente atraem os holofotes sempre que estão em cena através de um magnetismo impressionante.

As temáticas abordadas pelo filme, num primeiro olhar, nada combinam com uma comédia tão interessante, mas é para isso que temos bons diretores: para transformar temas pesados, como a miséria, em sorrisos. Mario Monicelli e seu fantástico “Feios, sujos e malvados” (1976) é um ótimo exemplo do tipo da manipulação da linguagem cinematográfica vista em “Filantrópica“, para que o leitor/espectador perceba que não estamos de algo originalíssimo, mas, de certo, muito especial. Abordar temáticas sociais de maneira leve é sempre uma boa estratégia para se transmitir a mensagem sem chocar. No fim das contas, vale muito a pena a audiência, pois proporciona boas gargalhadas e muitas reflexões. Rir e pensar andam de mãos dadas nessa grande obra da cinematografia romena. Mentiras podem ser vividas numa plena realidade!