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sábado, 22 de agosto de 2026

Alterações climáticas nas montanhas europeias: porque é que o aquecimento não explica tudo

As temperaturas nos pontos mais elevados da Europa estão a aumentar - um reflexo regional do aquecimento global. Como consequência, as comunidades vegetais nos cumes montanhosos registam uma presença cada vez maior de espécies associadas a climas quentes. Contudo, esta transformação não ocorre da mesma forma nem ao mesmo ritmo em todos os locais.

Um estudo que analisou dados de mais de 700 sítios em 53 cumes europeus, ao longo de 21 anos, revela que a relação entre o aumento da temperatura e a "termofilização" (o avanço da flora adaptada ao calor) é mais complexa do que se pensava. Embora cerca de 63% das zonas monitorizadas confirmem esta tendência, a subida direta da temperatura explica menos de 10% da variação na mudança das plantas a nível local.

Os investigadores descobriram que o verdadeiro acelerador do processo é a ecologia envolvente: onde já existem espécies de zonas mais baixas na vizinhança do cume, a transição é muito mais rápida. Em contrapartida, os terrenos rochosos funcionam como uma barreira natural contra essa colonização. 

Como explica Johannes Hausharter, da Universidade de Viena, 'os nossos dados mostram claramente que a vegetação nos cumes está a mudar, mas o ritmo dessas alterações não depende apenas do aumento da temperatura'. Stefan Dullinger, coautor do estudo, reforça que a resposta da flora alpina depende tanto da magnitude do aquecimento como da presença prévia de espécies vindas de zonas mais quentes.

O estudo indica ainda que a vegetação alpina reage com um atraso médio de quatro anos às mudanças térmicas. Para as plantas endémicas e exclusivas das zonas frias - que já não têm para onde migrar no topo das montanhas -, a chegada destas novas concorrentes representa uma ameaça silenciosa, mas real, à biodiversidade europeia.

Embora as alterações climáticas sejam a causa central destas transformações, o seu impacto nos ecossistemas de altitude não é uniforme: varia de cume para cume e é profundamente moldado pelas condições e pela geografia locais.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Falta regularizar apenas três Zonas Especiais de Conservação para Portugal cumprir as obrigações europeias da Directiva Habitats. A multa é de 2250 euros por dia


Falta regularizar os processos relativos às áreas da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba, para que fiquem concluídas as 61 ZEC e respetivos planos de gestão. Governo prevê concluir todo o processo ainda este ano.

Portugal está a suportar uma penalização de cerca de 750 euros por dia por cada Zona Especial de Conservação (ZEC) ainda em atraso, estando ainda por concluir três das 61 ZEC abrangidas pelo processo de regularização das áreas protegidas exigido pela União Europeia.

Segundo avançou o Ministério do Ambiente e Energia (MAEn) ao Público, falta finalizar a regularização das ZEC da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba. Nomeadamente, o diploma relativo à ZEC do Sado já concluiu o circuito governamental e foi remetido ao Presidente da República para promulgação; o plano de gestão da ZEC de Alvito/Cuva deverá ser submetido a Conselho de Ministros no início de setembro; e o plano de gestão da ZEC da Serra da Estrela encontra-se atualmente em circuito legislativo, na sequência da consulta pública recentemente concluída.

Recorde-se que, em março passado, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) condenou Portugal a pagar 10 milhões de euros por não ter executado um acórdão sobre a violação da Diretiva ‘Habitats’, relativa à preservação de habitats naturais, e 750 euros diários por cada um dos sítios que ainda não estão protegidos. Na altura, o TJUE referiu que Portugal não adotou medidas de conservação adequadas, considerando que estavam em causa infrações particularmente graves ao direito do ambiente da União, “nas quais Portugal persistiu ao longo do tempo”.

Tendo em conta que o território português abriga uma biodiversidade significativa - incluindo 99 tipos de habitats e 335 espécies abrangidas pela Diretiva Habitats- , “os riscos para o património natural comum da União são especialmente relevantes”, destacava o Tribunal, que impôs sanções financeiras até que todas as 61 zonas especiais de conservação em causa dispusessem “de proteção adequada”.

Desde então, o Governo diz ter acelerado significativamente o processo, com o MAEn a salientar que “o trabalho desenvolvido pelo Ministério do Ambiente e Energia permitiu acelerar de forma muito significativa a aprovação das designações e dos respetivos instrumentos de gestão”, colocando Portugal “numa trajetória de cumprimento integral” das obrigações europeias.

Fonte oficial do MAEn acrescenta que o trabalho iniciado pelo XXIV Governo, em 2024, deverá terminar este ano, sublinhando que este “veio corrigir um atraso acumulado ao longo de sucessivos governos, que manteve Portugal em incumprimento em matéria de obrigações europeias durante vários anos e deu origem a um processo de infração por parte da Comissão Europeia”.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) já tinha, entretanto, confirmado ao Jornal PT Green que entregou à tutela todos os planos de gestão das ZEC, ressalvando que “eventuais alterações ao calendário previsto poderão decorrer das diligências subsequentes ao processo, que poderão incluir pedidos de esclarecimento ou consultas ao ICNF”.

As ZEC integram a Rede Natura 2000, uma rede europeia de áreas destinadas à conservação de habitats e espécies ameaçados ou representativos da biodiversidade europeia.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sobreturismo nas montanhas: o impacto ambiental que ninguém quer ver


A pressão humana sobre as montanhas está a atingir um ponto de rutura irreversível. Um mega-estudo que analisou quase 50 anos de investigação científica global sobre o turismo de montanha  ("Environmental and Economic Impacts of Mountain Tourism: A Critical Review") revela que, a partir de 2019, o alerta disparou: a urgência climática e o fenómeno do overtourism (sobreturismo) estão a sufocar os ecossistemas de altitude.

Para percebermos a gravidade real deste cenário, a ciência aponta para quatro grandes problemas silenciosos que estão a acontecer agora mesmo

1. Microplásticos no topo do mundo: o estudo do Everest
No que toca à poluição por plásticos, o estudo mais emblemático e surpreendente é o "Mount Everest's microplastics", publicado em 2020 na prestigiada revista One Earth pela investigadora Imogen Napper e a sua equipa. Os cientistas analisaram amostras de neve e de água de ribeiros recolhidas em vários pontos da montanha, incluindo no "Balcony" a 8.440 metros de altitude - praticamente no topo do monte Everest.
Os resultados foram alarmantes: encontraram microplásticos em absolutamente todas as amostras de neve analisadas. A análise laboratorial revelou que a esmagadora maioria destas partículas eram fibras de poliéster, acrílico, nylon e polipropileno. A conclusão dos investigadores é direta: a fonte desta poluição não é o lixo trazido pelo vento de cidades distantes, mas sim o próprio vestuário técnico de alta performance, as cordas e as tendas utilizadas pelos montanhistas de elite durante a sua subida.

2. O colapso da gestão de resíduos no Himalaia
Para compreender o impacto sistémico do lixo físico e da falta de infraestruturas em áreas remotas, o artigo de referência é o "Contemporary environmental issues in Sagarmatha (Everest) National Park", publicado pelo geógrafo Alton C. Byers na revista Mountain Research and Development.
Este estudo clássico mapeou no terreno como o crescimento descontrolado do turismo de aventura nas últimas décadas colapsou por completo a capacidade de carga da região. Byers documentou a proliferação de lixeiras informais a céu aberto ao longo dos trilhos de aproximação, onde toneladas de plástico, metal e dejetos humanos são depositados sem qualquer tratamento, contaminando diretamente os lençóis freáticos e os ribeiros que abastecem as populações locais que vivem no sopé das montanhas.

3. O impacto silencioso sobre a fauna selvagem
No que diz respeito à perturbação da vida selvagem, destaca-se uma enorme meta-análise publicada na revista PLOS ONE por Courtney L. Larson e os seus colaboradores, intitulada "Effects of recreation on animals in protected areas". Os investigadores analisaram sistematicamente 274 estudos científicos independentes para perceber como as atividades de lazer afetam os animais.
A grande conclusão é que mesmo atividades consideradas de "baixo impacto", como uma simples caminhada (hiking) ou corrida em trilhos de montanha, desencadeiam respostas fisiológicas de stress muito fortes na fauna local. A presença humana constante força os animais a abandonar áreas ricas em alimento, altera os seus padrões de sono e de caça e reduz significativamente as suas taxas de sucesso reprodutivo, empurrando espécies já ameaçadas para altitudes ainda mais extremas e inóspitas.

4. A destruição invisível do solo e da flora alpina
Por fim, para entender a degradação física dos trilhos, os investigadores Jeff Marion e Yu-Fai Leung publicaram o artigo "Trail environments and visitor impacts" no Journal of Environmental Management. Os autores explicam a mecânica por trás do pisoteio turístico.
As plantas que crescem em ambientes alpinos enfrentam condições meteorológicas extremas e, por isso, têm um crescimento incrivelmente lento - algumas demoram décadas a crescer escassos centímetros. O estudo demonstra que bastam algumas dezenas de passagens de caminhantes fora dos trilhos oficiais para compactar o solo de forma irreversível. Esta compactação impede que as sementes germinem, bloqueia a infiltração da água da chuva e destrói a microflora do solo. Sem vegetação para segurar a terra, a chuva e o vento iniciam um processo rápido de erosão que rasga a montanha e pode provocar derrocadas de terra severas.

Conclusão
Anda-se a querer matar aquilo que pode ser realmente a galinha dos ovos de ouro do futuro, apenas porque pensam unicamente no imediato, do que acham que agrada o povo, sobretudo o povo eleitor, que acreditando que este tipo de turismo vai dar dinheiro aos montes e toda a vida, apoiam iniciativas e ideias que lhes são vendidas como garantia de futuro.
Também é possível trazer mais valias para o território sem estragar e comprometer o futuro, tem é que se fazer como deve ser feito, com sustentabilidade, com visão e não da maneira mais fácil porque, assim, acabarão por matar a galinha. Muitos países já estão a pagar muito caro e nós continuamos a não aprender com os erros dos outros.
Na Tailândia fecharam das praias mais conhecidas, na Islândia reduziram o número de turistas e proibiram o acesso a uma série de locais, em alguns países, como aqui ao lado em Espanha, em algumas zonas naturais e protegidas, as visitas são condicionadas apenas em determinados dias da semana e quando entrara o número de pessoas autorizado fecham o acesso nesse dia
Na Costa Rica visitas em áreas protegidas só com guias autorizados e com limite diário, nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, nos principais Parques Naturais é necessária reserva antecipada para visitas e têm que ser acompanhadas por guias. E há muitos mais exemplos, mas muitos mais.
E em todas estas áreas protegidas vive gente. Gente que precisa dos turistas e vivem do turismo, o que demonstra que não é preciso estragar e destruir para se ganhar com o turismo de natureza.
Por cá, neste país, quer-se viver um ano inteiro do que se trabalha em 4 ou 5 meses. No turismo de natureza sustentável tem que se trabalhar todo ano.
Mas esses estrangeiros devem ser burros, não percebem nada disto. Nós é que somos as sumidades, nós é que somos o exemplo.
Aqui cada vez se abre mais, cada vez se quer mais confusão, mais lixo, cada vez se levantam mais restrições. Vende-se ao povo a ideia que viver numa área protegida é uma desgraça que só é minimizada se massificarmos. Mesmo sabendo que estão a mentir ao povo. O imediato, o agora, é que conta para quem convence o povo desta forma.

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terça-feira, 9 de junho de 2026

Serra da Estrela ganha novo selo da UNESCO e passa a ter dupla proteção internacional


A Serra da Estrela foi integrada esta sexta-feira, dia 3 de junho, na Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO, uma distinção internacional que premeia territórios que conciliam a conservação da natureza com o desenvolvimento sustentável

A Serra da Estrela passa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera, distinção atribuída pela UNESCO a territórios que conciliam "a conservação da natureza com o desenvolvimento humano sustentável", foi divulgado esta sexta-feira.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) adiantou, em comunicado, que a aprovação da candidatura foi anunciada hoje na 38.ª sessão do Conselho Internacional de Coordenação do Programa Homem e Biosfera (MAB), que decorre no Centro de Convenções Itaipu Roga, em Hernandarias, Paraguai, desde 3 de junho.

Com esta aprovação, Portugal passa a contar com 14 Reservas da Biosfera da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), lembrou o ICNF.

Já a Serra da Estrela passa a deter duas designações UNESCO para o mesmo território: o Geopark Global UNESCO, reconhecido em julho de 2020, e agora a Reserva da Biosfera.

"Os dois estatutos serão geridos de forma integrada, numa lógica de governança conjunta que permitirá otimizar recursos humanos, financeiros e materiais", referiu o ICNF.

De acordo com o instituto, a nova Reserva da Biosfera da Estrela abrange uma área total de 2.372,99 quilómetros quadrados (km²), distribuída pelos seis municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Guarda, Manteigas e Covilhã.

A Reserva da Biosfera da Estrela está estruturada em três zonas complementares: uma Zona Núcleo onde se concentram os valores naturais mais relevantes (212,55 km²), uma Zona Tampão de mediação ecológica (679,65 km²) e uma Zona de Transição dedicada às atividades humanas sustentáveis (1.480,80 km², correspondendo a 62% da reserva).

A candidatura foi promovida pela AGE - Associação Geopark Estrela, com coordenação científica de Helena Freitas, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.

O ICNF realçou que a iniciativa resultou "de um amplo processo participativo que envolveu autarquias, sociedade civil, comunidade educativa e organizações ambientais, tendo como base o Plano de Cogestão do Parque Natural, aprovado em novembro de 2024".

"Esta designação não é apenas um reconhecimento internacional, é um compromisso ativo com os objetivos globais de conservação da biodiversidade inscritos no Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, e uma oportunidade para afirmar a Serra da Estrela como referência nacional e internacional em práticas inovadoras de sustentabilidade e educação ambiental", salientou ainda o ICNF.

Já a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, realçou que o reconhecimento é "uma oportunidade para reforçar a sustentabilidade da Serra da Estrela, colocando a inovação e a educação ambiental ao serviço das comunidades e das gerações futuras".

Numa nota divulgada pelo ministério, Maria da Graça Carvalho destacou "o forte envolvimento dos autarcas e da sociedade civil, que tanto contribuíram para o sucesso do projeto, o papel da Associação Geopark Estrela, que promoveu a candidatura, e da professora Helena Freitas, que assegurou a sua coordenação científica".

Ler mais:
Serra da Estrela: Quo vadis biodiversidade?

quarta-feira, 13 de maio de 2026

LADANIVA - Here's to you Ararat


Amor por Arménia, símbolo de resistência e de um país, povo e cultura que sofreu imenso e dele tenho imensa admiração!
O vídeo é uma homenagem à montanha, um símbolo poderoso para o povo arménio. A letra (cantada em arménio) expressa um profundo amor e admiração pelo Ararat, chamando-lhe "Rei dos Arménios" e "alicerce das nossas almas".
Neste vídeo, destaco os melismas de Jaklin Baghdasaryan. São, aliás, a grande "assinatura" vocal dela e o que torna o som dos LADANIVA tão autêntico.

Aqui estão alguns pontos sobre a técnica dela:
  • Ornamentação arménia: Jaklin utiliza muitos elementos do canto tradicional arménio e do Médio Oriente. Esses melismas não são apenas "enfeites"; eles carregam a carga emocional da música. Ela consegue passar por várias notas numa única sílaba com uma precisão cirúrgica.
  • Agilidade e fluidez: o que impressiona na voz dela é a rapidez. Ela faz as transições entre notas (os chamados runs) de forma muito fluida, quase como se fosse um instrumento de sopro (como o duduk ou a flauta).
  • Controlo de sopro: para fazer melismas tão longos e detalhados sem perder a afinação, é preciso um controlo de diafragma muito forte, algo que ela claramente refinou durante a sua formação académica no jazz e na música do mundo.
  • Microtonalidade: em "Here's to you Ararat" nota-se que Jaklin  brinca com intervalos que nem sempre existem na escala ocidental padrão, o que dá aquele toque exótico e hipnotizante.
LADANIVA é um grupo franco-arménio sediado em Lille, França.
O nome da banda, "Ladaniva", é uma referência ao famoso carro todo-o-terreno russo Lada Niva, que os pais de ambos os músicos possuíam.
Jaklin Baghdasaryan: nasceu na Arménia (Yeghegnadzor) e cresceu na Bielorrússia antes de se mudar para França em 2014. Ela estudou no Conservatório de Lille, o que explica o seu excelente controlo técnico
Louis Thomas: o seu parceiro musical é francês.
Louis Thomas toca guitarra [00:46].
Os outros músicos são mostrados a tocar clarinete [00:27], um davul (tambor tradicional) [00:38] e um saz (instrumento de corda) [00:49].
Eu sabia que o Monte Ararat é visível da Arménia, mas agora faz parte da Turquia, e imagino como o povo arménio se deve sentir ao ver a sua montanha histórica apenas de longe.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Churra da Terra Quente - A Aliança Antiga

Fonte

As ovelhas da raça Churra da Terra Quente atuam como bombeiras naturais ao consumirem a erva seca e os arbustos que, habitualmente, servem de combustível aos incêndios de verão nas montanhas da Terra Quente Transmontana e do Douro Superior. Este processo, conhecido como pastoreio dirigido, cria aceiros naturais em zonas declivosas ou rochosas onde a limpeza mecânica é impossível. Além de reduzirem a carga de combustível, estes rebanhos promovem a biodiversidade ao impedirem que o mato agressivo sufoque espécies vegetais de menor porte. Também regeneram o solo através da fertilização natural e da dispersão de sementes à medida que se deslocam pela paisagem. Ao manterem estes espaços abertos, as ovelhas representam uma alternativa sustentável e neutra em carbono face à utilização de maquinaria pesada. Esta prática tradicional não só protege a floresta, como também sustenta a economia rural, prestando um serviço ecológico vital para a região.

Foto de Carlos Aguiar

A Aliança Antiga
"Guardiãs das profundezas de esmeralda,
os seus passos suaves são uma canção silenciosa
sobre a terra.

Através do sol e da chuva, elas tecem
a tapeçaria do prado vivo,
uma dança harmoniosa de casco e erva.

Nesta aliança antiga, que possamos honrar
o seu fôlego, a sua lã, a sua natureza selvagem,
deixando-as pastar sob o céu vasto,
arquitetas eternas de um amanhã sustentável."
— João Soares, 08-05-2026

Fonte

A raça Churra da Terra Quente tem as suas origens genéticas no final do século XIX, mas apenas foi oficialmente reconhecida e caraterizada como raça independente em 1987

domingo, 5 de abril de 2026

Feliz Páscoa


Josh Clare é um prestigiado pintor contemporâneo norte-americano, nascido em 1982 no estado do Utah. Criado no seio das paisagens imponentes das Montanhas Rochosas, consolidou a sua base técnica na Brigham Young University-Idaho, onde se licenciou em 2007 em Belas Artes (BFA) com especialização em Ilustração. Foi durante o seu percurso académico que descobriu uma ligação profunda com a pintura de paisagem, sob a mentoria de professores que o incentivaram a observar a natureza de forma direta e rigorosa.

O seu estilo artístico fundamenta-se no impressionismo clássico e na tradição do realismo americano, com um foco quase devocional na prática en plein air (pintura ao ar livre). O trabalho de Clare é reconhecido pela habilidade magistral em captar os efeitos efémeros da luz natural, utilizando pinceladas confiantes e uma paleta de cores harmoniosa para traduzir a atmosfera de cenários rurais e montanhosos. Para o artista, a pintura transcende a mera representação visual; trata-se de uma busca por captar a essência e a "verdade" da criação, transformando elementos simples do quotidiano campestre em composições repletas de poesia e profundidade emocional. Atualmente, é considerado uma das figuras mais influentes do movimento de pintura de paisagem nos Estados Unidos, acumulando prémios de prestígio e expondo em importantes galerias nacionais.

Da Mitologia à Tradição: A Origem Pagã do Coelho e do Ovo da Páscoa

A génese desta tradição recua aos cultos pré-cristãos do Norte da Europa, onde a chegada da primavera era celebrada sob o signo da deusa Eostre, ou Ostara, a divindade teutónica da aurora e do renascimento. Para os povos antigos, a transição do inverno para o florescimento da terra exigia símbolos que traduzissem visualmente a ideia de fertilidade e vida latente. Surge aqui a lebre — a antecessora do nosso coelho doméstico — que, pela sua extraordinária capacidade reprodutiva e pelo facto de ser um dos primeiros animais a reaparecer nos campos após o degelo, se tornou o emblema vivo da abundância da deusa.

A ligação específica entre a lebre e o ovo encontra a sua raiz numa narrativa mitológica persistente, segundo a qual Eostre teria transformado um pássaro ferido num animal terrestre para o salvar do frio. Apesar da metamorfose, a criatura conservou a faculdade de pôr ovos, que decorava com cores vibrantes e oferecia à divindade em sinal de gratidão. Este mito serviu para explicar a união de dois símbolos de regeneração: enquanto o ovo representa o microcosmo e o mistério da vida protegida por uma casca que parece inerte, o coelho personifica a força ativa e a rapidez com que essa mesma vida se propaga na superfície da terra. Com a expansão do cristianismo, estas práticas não foram eliminadas, mas sim integradas através de um processo de inculturação, onde o renascimento da natureza foi reinterpretado como a ressurreição de Cristo.

A partir do século XVI, na Alemanha, esta herança consolidou-se na figura do "Osterhase", a lebre da Páscoa que avaliava o comportamento das crianças e escondia ovos decorados nos jardins. A prática foi reforçada pela proibição do consumo de ovos durante a Quaresma; como as galinhas não interrompiam a postura, os ovos eram cozidos e guardados, sendo depois oferecidos e consumidos com festividade no Domingo de Páscoa. Foi apenas no século XIX que a indústria de confeitaria, aproveitando a iconografia já profundamente enraizada no imaginário popular, começou a produzir estes símbolos em chocolate, transformando um antigo rito agrário no fenómeno global que conhecemos hoje.

Para fundamentar esta investigação, podem consultar-se obras como "Deutsche Mythologie" de Jacob Grimm (1835) , que explora as ligações linguísticas e rituais de Ostara, ou o clássico "An Egg at Easter: A Folklore Study" de Venetia Newall (1971) , que detalha a simbologia do ovo através das eras. Outras fontes essenciais incluem "The Stations of the Sun" de Ronald Hutton (1996) , sobre a evolução do calendário ritual britânico, "The Easter Hare" de Charles J. Billson , publicado na revista Folklore (1882), e o texto medieval "De Temporum Ratione" de Beda, o Venerável (775), que constitui o primeiro registo histórico da deusa que deu nome à celebração.  

Quem desejar fazer uma investigação mais profunda, sugerem-se as seguintes referências:
  1. Gimbutas, Marija (1982). The Goddesses and Gods of Old Europe. (essencial para compreender os símbolos de fertilidade, como o ovo, na pré-história e na antiguidade).
  2. Hutchinson, Sharon Elswit (2012). The East Easter Egg: A History of Symbols. (explora a transição dos ovos naturais para os ovos artísticos e a sua simbologia religiosa).
  3. Sermon, Richard (2008). From Easter to Ostara: the Reinvention of a Pagan Goddess?. In: Time and Mind. (uma análise crítica e moderna sobre como a figura de Ostara foi interpretada pelos estudiosos do século XIX, como os Irmãos Grimm).

domingo, 29 de março de 2026

Beata Belanszky-Demkó

O Brilho, 2023

Beata Belanszky-Demkó é uma artista plástica contemporânea de nacionalidade húngara, cuja trajetória de vida e formação académica refletem uma profunda dedicação às artes visuais. Nascida em 1976 na cidade de Satu Mare, na Roménia, no seio da comunidade húngara da Transilvânia, mudou-se para a Hungria em 1990. Foi neste país que consolidou o seu percurso escolar e artístico, tendo frequentado a Escola Secundária de Artes Visuais e Aplicadas de Budapeste, uma instituição de referência onde aprofundou as bases do desenho e da composição.

A sua formação académica prosseguiu a nível superior na Universidade de Óbuda, em Budapeste, onde se licenciou em Design Industrial. Esta base técnica e estruturada confere à sua obra uma compreensão singular da forma e do espaço, que mais tarde fundiu com a liberdade da pintura. Embora tenha formação em design, Beata optou por dedicar-se inteiramente às belas-artes, desenvolvendo um estilo que oscila entre o impressionismo moderno e a abstração lírica.

Atualmente a residir em Sóskut, a artista utiliza predominantemente a técnica da espátula e tintas a óleo para criar paisagens e figuras humanas que primam pela harmonia cromática e pela exploração da luz. O seu currículo inclui inúmeras exposições individuais e coletivas, sendo membro ativo de diversas associações de artistas, o que reforça o seu papel no panorama artístico húngaro contemporâneo.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Dia Mundial do Urso

Ver com mais detalhe aqui
O seu regresso reflete a capacidade da natureza para recuperar e mostra a necessidade de trabalhar ativamente na forma como as pessoas e a vida selvagem partilham o espaço.

Os ursos pardos ajudam a moldar as paisagens, dispersando sementes, reciclando nutrientes e sustentando uma vasta gama de espécies. A sua presença destaca a importância de paisagens conectadas e funcionais.

Nas nossas paisagens de rewilding, as equipas estão a trabalhar com as comunidades para apoiar o regresso dos ursos de formas que tornem a partilha do espaço mais possível. Estas incluem medidas práticas para reduzir os danos, melhorar a sensibilização, ligar habitats e apoiar economias baseadas na natureza e ligadas à presença da vida selvagem. Saiba mais aqui


Saber mais
World Bear Day

sexta-feira, 13 de março de 2026

The Marrow of the Infinite

Foto do meu amigo Rui Manuel Vitor Cortes

"The mountain does not hold the water;
it is the water,
and the water is the stone’s slow breath.

We do not look at the wild;
we are the wild looking back at itself,
remembering that the boundary of our skin
is as porous as the moss upon the rock.

To go out into the wild is to go in,
climbing not over the rocks, but through the soul,
where every moss-slicked boulder
is a scripture written in green and grey.

Our biological dance is in the spray;
we breathe what the forest exhales,
and the forest drinks what we let fall.
There is no "environment" out there to save -
only our own extended body,
leaping over the precipice in a roar of white foam.

We listen with the heart that reconnects.
In the rush of the current, we hear the world’s grief
and the world’s ancient, stubborn joy.

We stop being the masters of the flow
and become the flow itself—
held by the ancestors of the silt,
feeding the children of the sea.

The granite stands. The water moves.
And we, the watchers, are the bridge
where the mountain finally learns
how beautiful it is. "

João Soares, 13.03.2016

Pedi ao Gemini para criar uma música baseada no meu poema. Ouvir aqui

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Bogdan Kuziv - "Manhã Quente", 2019


Bogdan Kuziv (pintor Ucraniano, nascido em 1965)
 
Estilo: 
A sua obra é frequentemente classificada como realismo crítico, embora apresente fortes influências do impressionismo, especialmente em sua abordagem da luz e na execução de pinturas ao ar livre (en plein air).

Temas:
  1. Paisagens: especialmente as montanhas Cárpatos e a natureza da Ucrânia.
  2. Marinas: pinturas que exploram o mar e temas costeiros.
  3. Natureza-morta: composições detalhadas de flores e objetos.
  4. Arquitetura e cenas urbanas: registos de cidades como Roma e Atenas.
Técnica: 
Trabalha predominantemente com pintura a óleo sobre tela e aquarela sobre papel. É conhecido pelo uso de cores vibrantes e texturas ricas que buscam capturar a "alma" da paisagem.
Formação e Carreira
Formação Académica: Graduou-se em 1994 na Faculdade de Artes e Gráficos da Universidade Nacional Vasyl Stefanyk.
Experiência Internacional: Trabalhou na Polónia (1995–1999) e viveu em Roma, Itália (2001), onde aprimorou seus estudos artísticos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Eugenia Gorbacheva

Eugenia Gorbacheva (aquarelista Russa, nascida em 1985)

Estilo artístico
Predominantemente impressionista e figurativo, capturando luz, cor, atmosfera e sensação natural em seus trabalhos. 
A aquarela, como meio, destaca-se por sua transparência, fluidez e pelo trabalho com pigmentos solúveis em água — um meio que exige domínio cuidadoso do artista. 

Temas e assuntos
Os seus temas variam bastante, mas paisagens naturais, flores e elementos da natureza, cenas arquitetónicas e marinhas são recorrentes, muitas vezes evocando luz e atmosfera específicas (ex.: montanhas, flores, vilas e cenários costeiros). 

Técnica
Trabalha com aquarela tradicional sobre papel de alta qualidade (como Arches ou papel similar), concentrando-se no controle cuidadoso da água, pigmento e luz. 
A sua técnica envolve capturar transparências, nuances e fluidez típicas da aquarela, explorando o meio para expressar sensação, movimento e profundidade.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Este é o sistema hidroelétrico mais potente do mundo. Projeto secreto de Pequim pode dar início a conflito entre duas potências nucleares


Megabarragem está a ser edificada no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, no Tibete. Este projeto no remoto rio dos Himalaias exigirá o realojamento de aldeias onde vivem grupos indígenas que dependem da agricultura para a sua subsistência. Na Índia, já a imprensa apelida a construção megalómana chinesa como a "bomba de água"

A centenas de quilómetros da populosa linha costeira da China, uma curva acentuada num remoto rio dos Himalaias está prestes a tornar-se a peça central de um dos mais ambiciosos - e controversos - projetos de infraestruturas do país até à data.

Ali, espera-se que um sistema hidroelétrico de 168 mil milhões de dólares (cerca de 143 milhões de euros) produza mais eletricidade do que qualquer outro no mundo - um grande benefício para a China, à medida que se aproxima de um futuro em que os veículos elétricos dominam as suas estradas e os modelos de IA, ávidos de energia, correm para superar os rivais internacionais.

O líder chinês, Xi Jinping, apelou a que o projeto “avançasse de forma enérgica, sistemática e eficaz” durante uma rara visita no início do ano ao Tibete, uma região onde Pequim continua a apertar o cerco em nome do crescimento económico e da estabilidade.

Segundo os especialistas, o sistema hidroelétrico, construído no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, no Tibete, será um feito de engenharia sem igual. Aproveitando uma queda de 2 mil metros de altitude, através da abertura de túneis numa montanha, permitirá à China aproveitar um rio importante numa região conhecida como a torre de água da Ásia e numa altura em que os governos estão a concentrar-se mais na segurança da água.

O projeto poderá contribuir para os esforços globais no sentido de abrandar as alterações climáticas e ajudar a China - atualmente o maior emissor de carbono do mundo - a abandonar a energia produzida a partir do carvão. Mas a sua construção poderá também perturbar um ecossistema raro e imaculado e as casas ancestrais dos habitantes indígenas.

Dezenas de milhões de pessoas também dependem do rio a jusante, na Índia e no Bangladesh, onde os especialistas dizem que o potencial impacto no ecossistema, incluindo na pesca e na agricultura, continua a ser pouco estudado.

As manchetes na Índia já apelidaram o projeto de uma potencial “bomba de água” - e a sua proximidade da fronteira disputada entre a China e a Índia coloca-o em risco de se tornar um ponto de inflamação numa disputa territorial há muito acesa entre as duas potências com armas nucleares.

Apesar destes riscos, o projeto continua envolto em secretismo, aprofundando as questões sobre um plano que mostra as imensas capacidades técnicas da China e a sua vontade de obter energia limpa, mas também a sua falta de transparência, mesmo quando se trata de um empreendimento com consequências potencialmente de grande alcance.

Pistas sobre a conceção do projeto - tanto referenciadas em relatórios oficiais ou científicos como em informações de fonte aberta compiladas pela CNN - sugerem um sistema complexo que poderá incluir barragens e reservatórios ao longo do rio Yarlung Tsangpo, bem como uma série de estações hidroelétricas subterrâneas ligadas por túneis, aproveitando a energia à medida que uma parte desviada do rio faz um declínio acentuado da elevação.

“Este é o sistema de barragens mais sofisticado e inovador que o planeta já viu”, disse Brian Eyler, diretor do Programa de Energia, Água e Sustentabilidade do Centro Stimson, em Washington. “É também o mais arriscado e potencialmente o mais perigoso”.

A China discorda. Num comunicado enviado à CNN, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China afirmou que o projeto “passou por décadas de investigação aprofundada” e “implementou medidas rigorosas de segurança de engenharia e proteção ecológica para garantir que não afetará negativamente as áreas a jusante”.

“Desde a preparação inicial e o início oficial do projeto, a parte chinesa sempre manteve a transparência em relação às informações pertinentes e manteve linhas abertas de comunicação com os países a jusante”, disse o ministério, acrescentando que “à medida que o projeto avança” Pequim “partilhará as informações necessárias com a comunidade internacional” e “reforçará a comunicação e a cooperação com os países a jusante”.

O projeto, explicou, “visa acelerar o desenvolvimento de energia limpa, melhorar os meios de subsistência locais e abordar ativamente as alterações climáticas”.

Mas Pequim pode também ter outras prioridades em mente. A ambiciosa iniciativa em matéria de infraestruturas surge numa altura em que Xi se esforça por reforçar a segurança nacional, não só assegurando o fornecimento de energia à China, mas também reforçando o controlo ao longo das fronteiras disputadas e das regiões onde vivem as minorias étnicas.

“Se ligarmos os pontos do desenvolvimento das infraestruturas chinesas nos Himalaias, especialmente nas áreas onde a China faz fronteira com a Índia ao longo do Tibete, elas estão estrategicamente colocadas”, aponta Rishi Gupta, diretor adjunto do Asia Society Policy Institute em Nova Deli.

“O projeto alinha-se com o objetivo mais amplo da China de aproveitar os seus recursos naturais para consolidar o controlo sobre regiões críticas como o Tibete e as suas fronteiras.”

Informações de fonte aberta dão pistas sobre o que poderá ser o projeto de barragem maciça da China
A CNN e especialistas do Centro de Estudos Stimson criaram esta simulação de um possível projeto utilizando informações de fonte aberta e avaliações técnicas. Prevê-se que o projeto inclua cinco estações hidroelétricas em cascata e um sistema de túneis que desvie uma parte do rio, permitindo-lhe perder cerca de 2.000 metros de elevação ao longo de 50 quilómetros e gerar energia através desta rápida queda de elevação.

Jogo de poder nos Himalaias
Conhecido como o maior rio do mundo, o Yarlung Tsangpo serpenteia a partir de um glaciar nos Himalaias, atravessando o planalto que abrigou o budismo tibetano, em direção ao extremo sul do país.

Um dos troços do rio, junto à fronteira de facto do Tibete com um estado indiano cujas terras a China reivindica, há muito que chama a atenção pelo seu potencial de produção de energia.

Aí, a via fluvial faz uma dramática curva em ferradura ao contornar uma massa de montanhas no que é conhecido como a Grande Curva - uma trajetória que faz com que o rio perca cerca de 2 mil metros de altitude em aproximadamente 50 quilómetros.

Estima-se que essa descida tenha potencial para gerar cerca de 300 mil milhões de quilowatts-hora de eletricidade por ano - aproximadamente o triplo da produção da barragem chinesa das Três Gargantas, atualmente a mais potente do mundo.

O desenvolvimento hidroelétrico no curso inferior do Yarlung Tsangpo “não é apenas uma iniciativa hidroelétrica”, é também um projeto de segurança nacional, que engloba a segurança dos recursos hídricos, a segurança territorial e muito mais, afirmou Yan Zhiyong, então presidente da Power Construction Corporation of China (PowerChina), num discurso proferido em 2020, de acordo com a publicação da imprensa estatal chinesa.

Há décadas que se fala de um projeto deste tipo ao longo do curso inferior do rio, mas nunca foi tentado - há muito que é visto como um desafio notório numa zona remota e traiçoeira, difícil mesmo para um país que lidera a construção de megabarragens a nível mundial.

Agora, imagens de satélite, documentos empresariais disponíveis ao público e publicações nas redes sociais da zona analisadas pela CNN mostram que estão em curso obras de construção e alargamento de estradas, construção de pontes, construção de instalações de armazenamento de explosivos, expansão do serviço de telemóvel e realojamento de aldeões - tudo esforços aparentes para abrir caminho à construção, que começou oficialmente em julho.

Os documentos oficiais referem-se frequentemente ao projeto utilizando as iniciais romanas “YX” para designar uma abreviatura do curso inferior do Yarlung Tsangpo, mas fornecem poucas informações sobre a sua conceção. Os meios de comunicação social estatais afirmam que o projeto emprega principalmente um método de “endireitar e desviar o rio” através de túneis e inclui cinco estações hidroelétricas em cascata.

A análise da CNN de informações de fonte aberta, incluindo trabalhos de investigação académica, concursos oficiais, patentes de projetos de centrais elétricas registadas por uma subsidiária da PowerChina, um documento de planeamento urbano local, bem como imagens de satélite e publicações nas redes sociais da zona, permitiram esclarecer melhor a forma como este projeto de grande envergadura pode estar a tomar forma.

Uma simulação baseada nesta informação e produzida em conjunto com especialistas do Programa de Energia, Água e Sustentabilidade do Centro Stimson, que forneceram análises técnicas e geográficas, sugere que o projeto poderá ser um sistema extenso de centrais hidroelétricas, túneis e reservatórios, que no seu conjunto poderão estender-se por cerca de 150 quilómetros em linha reta desde a primeira até à última central elétrica.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Crise climática faz com que estâncias de esqui tenham de repensar modelo de negócio

Uma das pistas que acolherá os Jogos Olímpicos de inverno em Cortina d'Ampezzo 

A poucas semanas da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de inverno em Milão-Cortina, prevista para 6 de fevereiro, as pistas da "pérola das Dolomitas" estão cobertas de neve. No entanto, o manto branco típico dos invernos de montanha nem sempre acompanha os turistas e os esquiadores.

Actualmente, é habitual contentarmo-nos com a presença de neve limitada às encostas. E, cada vez mais frequentemente, mesmo nas pistas, é garantida pela produção artificial de neve, o que impõe um aumento dos custos económicos e ambientais, com repercussões também nos preços dos passes de esqui. Assim, o esqui está a tornar-se um desporto reservado apenas àqueles que podem pagar preços incomportáveis para a maioria dos europeus.

A maior parte das estâncias que acolheram os Jogos Olímpicos de inverno deixarão de o poder fazer
Mesmo na famosa estância de esqui da província de Belluno, as alterações climáticas estão a tornar a queda de neve mais rara e as temperaturas mais elevadas. Um problema que afeta todo o arco alpino. O próprio COI, o Comité Olímpico Internacional, reconheceu o impacto do aquecimento global, causado principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás.

Inevitavelmente, a própria geografia dos Jogos Olímpicos será afectada. Desde 1924, vinte e um locais acolheram os Jogos de inverno. Um estudo publicado na revista científica Taylor & Francis - realizado por investigadores da Universidade de Waterloo, no Canadá - explica que, se não forem tomadas medidas rápidas e drásticas para combater as alterações climáticas, apenas quatro desses locais continuarão a ser adequados em meados do século.

São elas Lake Placid (Estados Unidos), Lillehammer e Oslo (Noruega) e Sapporo (Japão). Para todos os outros, entre o calor e a falta de neve, será simplesmente impossível voltar a acolher os cinco anéis olímpicos, se a temperatura média global aumentar 4 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais. E, em 2080, apenas a estância de esqui japonesa o poderá fazer.

E não é só isso: mesmo que o Acordo de Paris seja respeitado, ou seja, limitando o aquecimento global a um máximo de 2 graus Celsius, apenas nove locais "olímpicos" poderiam voltar a acolher o evento desportivo em 2050 (apenas oito em 2080).

Itália, França, Suíça, Áustria: quanto vale a economia dos desportos de inverno na região alpina
No entanto, os Jogos só se realizam de quatro em quatro anos e durante apenas algumas semanas. No entanto, para quem vive da economia do esqui, os problemas são uma realidade quotidiana.

Os Alpes são o centro nevrálgico do turismo de inverno europeu. Segundo o Plano de Ação da UE para a região alpina, nela vivem 80 milhões de pessoas (cerca de 15% da população total da UE). E abrange 48 regiões em cinco Estados-Membros (Alemanha, França, Itália, Áustria e Eslovénia), bem como dois países terceiros (Liechtenstein e Suíça). A região alberga também um dos recursos hídricos mais importantes da Europa e uma biodiversidade inestimável.

O Instituto de Investigação Demoskopica prevê um total de cerca de 30 milhões de chegadas do estrangeiro e mais de 93 milhões de presenças nas estâncias de esqui em Itália para a época de 2025-2026, de acordo com a associação profissional Assosport.

A mesma análise indica uma despesa turística direta de quase 15 mil milhões de euros.

Em França, os números são semelhantes, com cerca de 10 mil milhões de euros de volume de negócios, que incluem os teleféricos, o alojamento, a restauração e o aluguer de equipamentos. O setor assegura igualmente (direta e indiretamente) mais de 120 mil postos de trabalho.

Também em solo transalpino, nas estâncias de esqui, uma média de 75% do volume de negócios dos hoteleiros está ligada aos desportos de inverno. Esta percentagem aumenta para 85% no caso das lojas de desporto e para 95% no caso dos teleféricos.

Da mesma forma, na Áustria, estima-se que o turismo de inverno gere um volume de negócios de 12,6 mil milhões de euros, empregando 250 mil pessoas, ou seja, 7,6% do emprego total a nível nacional. Também na Suíça, estima-se que o setor represente uma parte não negligenciável da economia do desporto, que na confederação suíça representa um valor total de cerca de 17 mil milhões de francos suíços (18,3 mil milhões de euros).

Quais são os países europeus com mais estâncias de esqui e mais esquiadores?
No que respeita às estâncias de esqui, de acordo com os dados publicados pelo portal Statista, a Alemanha é o país europeu que acolhe mais estâncias de esqui. São 498, contra 349 em Itália e 317 em França. Completam o top 10 a Áustria (253 áreas de esqui), a Suécia (228), a Noruega (213), a Suíça (181), a Finlândia (76), a Eslovénia (44) e a Espanha (32).

Em termos de quilómetros de pistas para o esqui alpino, é Sestriere, na província de Turim, que detém o recorde, com um total de 400 quilómetros. Em segundo lugar estão duas estâncias suíças: Zermatt, com 360 quilómetros, e St. Moritz, com 350 quilómetros.

Alemanha tem o maior número de esquiadores, seguida da França e da Itália
A Alemanha detém outro recorde: o do número de pessoas a esquiar. De acordo com os dados atualizados para a época de inverno de 2020/2021, trata-se de uns impressionantes 14,6 milhões de pessoas. Este número é significativamente superior aos 8,5 milhões da França, aos 7,2 milhões da Itália e aos 6,3 milhões do Reino Unido.

No entanto, os números mudam significativamente se olharmos para os números em função da população: é o Liechtenstein que tem a percentagem mais elevada, com 36%, seguido da Suíça, com 35%. Em terceiro lugar está a Áustria, com 34%, à frente de alguns países escandinavos. Seguem-se França (13%), Itália (12%), Bélgica (11%), Reino Unido (10%), Espanha (5%) e Portugal (apenas 2%).

Áustria é o maior exportador de equipamento desportivo
Outro dado que dá uma ideia clara do peso da indústria do turismo de inverno é a exportação de equipamento desportivo. Os últimos dados disponíveis são relativos a 2019 e mostram que a Áustria é claramente o país que mais exporta, com 334 milhões de euros. França situa-se nos 100 milhões, Alemanha nos 91 milhões e a Itália nos 54 milhões.

É por isso que os impactos das alterações climáticas serão particularmente pesados para a economia. Um estudo publicado em 2023 na revista científica Nature Climate Change explica que, de um total de 2 234 estâncias de esqui existentes na Europa, 53% não poderão contar com neve suficiente, mesmo com um aquecimento climático de apenas 2 graus Celsius. Em particular, um terço das estâncias de esqui dos Alpes franceses estará condenado, enquanto nos Pirinéus essa percentagem atingirá os 89%.

Se a temperatura média global aumentar 4 graus em relação aos níveis pré-industriais, quase todas as estâncias europeias não poderão contar com uma quantidade suficiente de neve: 98%.

Alterações climáticas afectarão os ecossistemas e as economias das montanhas
"Há uma variabilidade de região para região, mas podemos identificar três grandes categorias de maciços montanhosos na Europa ", diz François Hugues, investigador do Inrae (Instituto Nacional Francês para a Agricultura, Alimentação e Ambiente), à Euronews. "Um grupo que tem altitudes e condições bastante favoráveis, estamos a falar, por exemplo, dos Alpes interiores, principalmente em França, Suíça e Áustria".

"Um segundo grupo", continua o especialista, "inclui situações intermédias, que são muito mais vulneráveis às condições climáticas, como é o caso dos Alpes eslovenos ou dos Pirinéus. Por fim, há territórios que a crise climática já levou ao limite: as montanhas da Península Ibérica ou os Apeninos em Itália. Se o segundo grupo ainda tem alguma margem de manobra, para o segundo, sujeito a escolhas locais destinadas a apoiar certas zonas, é difícil prever retornos económicos positivos continuando a apostar nos desportos de inverno."

Em muitas estâncias, já estão a ser feitas tentativas para atenuar o problema com neve artificial. No entanto, já em 2007, um estudo da OCDE tinha salientado a chamada "regra dos cem dias", ou seja, a ideia de que uma zona deve poder contar com cem dias por ano de abertura, com pelo menos 30 centímetros de neve natural. Caso contrário, é difícil obter a rentabilidade esperada.
Neve artificial, apenas uma solução parcial e não isenta de custos económicos e ambientais

A neve disparada por canhões pode, portanto, ser um apoio, mas não um substituto e o preço deve ser tido em conta: "Para fazer neve numa encosta com um quilómetro de comprimento, cerca de 50 metros de largura e 40 centímetros de espessura, o custo varia entre 30 e 40 mil euros", explica a agência Agi.

Segundo a qual, "o custo de produção da neve artificial varia de 2 a 3,8 euros por metro cúbico, dependendo da temperatura e da humidade do ar. Com estes valores, a produção é de 2,5 metros de neve por metro cúbico de água. O custo da neve por hectare é de 15 mil euros".

"Os custos associados à produção de neve (artificial ) propriamente dita são, de qualquer modo, relativamente marginais em relação aos custos globais de exploração de uma estância de esqui", salienta Hugues. "Mas há também um fator ambiental a ter em conta, que está ligado aos recursos hídricos e à sua disponibilidade. De facto, é muitas vezes necessário criar lagos artificiais para poder dispor da água necessária, e estas obras representam um custo não negligenciável. Em geral, portanto, mesmo para as estâncias menos afetadas pelas alterações climáticas, é necessário repensar os modelos de negócio e adaptá-los às consequências do aquecimento global".

Neve artificial - uma enorme pegada hídrica 
A World Wide Fund for Nature (WWF) sublinhou precisamente o impacto em termos de recursos hídricos da neve disparada por canhões: "para a produção básica de neve (cerca de 30 centímetros de neve, muitas vezes mais) de uma pista de um hectare, são necessários pelo menos um milhão de litros de água, ou seja, mil metros cúbicos. Enquanto a produção de neve subsequente exige, consoante as situações, um consumo de água consideravelmente superior, que corresponde aproximadamente ao consumo anual de uma cidade de 1,5 milhões de habitantes."

É por esta razão quea União Europeia, na revisão do seu plano de ação para a região alpina, contido numa comunicação de 11 de dezembro de 2025, sublinhou que, face à pressão da crise climática, "a gestão comum e bem coordenada dos cursos de água transfronteiriços é essencial para assegurar a proteção integrada, a melhoria e a recuperação dos recursos hídricos e dos seus ecossistemas, e é fundamental para a resiliência e a segurança da água na Europa."

A eletricidade é necessária para fazer funcionar os canhões e as lanças, o que leva a um aumento do consumo e consequentes emissões de gases com efeito de estufa. Contribuindo assim para o círculo vicioso que alimenta a crise climática. De facto, calculou-se no passado que, para nevar artificialmente todo o arco alpino, seriam necessários cerca de 600 GWh, o que equivale ao consumo anual de 130 mil agregados familiares de quatro pessoas.

Custos dos passes de esqui estão a aumentar na Europa: +34,8% em dez anos
As despesas de esqui na Europa aumentaram em média 34,8%, muito acima da inflação, desde 2015, com os maiores aumentos na Suíça, Áustria e Itália. De tal forma que muitas das principais estâncias tornaram-se inacessíveis para a maioria dos turistas.

"O esqui vai tornar-se um desporto para os ricos ", explica Christophe Clivaz, professor da Universidade de Lausanne, ao Valori.it. Na verdade, "já o é, mas vai sê-lo cada vez mais, porque os custos de manutenção das pistas vão aumentar. Sem contar que para esquiar é preciso comprar ou alugar esquis e botas. E depois casacos, calças, luvas, óculos de proteção. Já hoje, num país como a Suíça, uma grande parte da população não tem meios para esquiar, sobretudo as famílias numerosas."

Segundo a associação de defesa do consumidor Assoutenti, um passe diário de esqui para o "Dolomiti Superski", que garante o acesso às doze estâncias das Dolomitas, custa atualmente 86 euros por dia, contra 67 euros em 2021.

Em Roccaraso, Abruzzo, em Itália, o preço de um bilhete semelhante atinge os 60 euros. O mesmo bilhete em 2021 custava 47 euros e no ano passado 58 euros. Em Livigno, na fronteira com a Suíça, registou-se o maior aumento: de 52 euros em 2021 para 72 euros em 2025 (mais 38%).

Os operadores das estâncias de esqui alpinas onde continuará a ser possível esquiar, conclui Hugues, "atrairão turistas ricos de mais longe, clientes provenientes, por exemplo, do Reino Unido, mas também de Espanha ou da Grécia, países onde será cada vez mais difícil esquiar. Isto pode ser positivo do ponto de vista económico, mas vai complicar as coisas do ponto de vista ambiental e climático, uma vez que irá aumentar as emissões de gases com efeito de estufa associadas às viagens turísticas, alimentando ainda mais as alterações climáticas."

Para visualizar os gráficos da Statista aqui

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

World heading toward ‘peak glacier extinction’ with up to 4,000 set to disappear a year



Hundreds gathered to say goodbye when 700-year-old Pizol died. The funeral in Switzerland in 2019 was solemn. Mourners wore black; flowers were laid; a priest spoke. It was a symbolic moment: Pizol had been a glacier, but human-driven climate change had reduced it to some scattered chunks of ice.

Pizol is far from the first glacier death. Thousands have vanished over the past few decades and as the world continues to heat up, they are expected to disappear at an increasing pace. New research gives a glimpse of just how quickly that might happen, and it’s stark.

By the middle of the century, the number of glaciers disappearing is set to peak at up to 4,000 a year, if humans keep pumping out climate pollution, according to a study published Monday in Nature Climate Change. That’s equivalent to losing all the glaciers in the European Alps in just one year.

Research has tended to focus on the total amount or area of ice lost from glaciers as temperatures tick upward, rather than changes to their total number. This is partly because the number of glaciers is a less clearly defined metric. It depends on assessments of what constitutes a glacier and current inventories sometimes struggle to detect smaller or debris-covered ice bodies. Best estimates say there are currently more than 200,000 glaciers on Earth.

But the study authors say knowing where and when individual glaciers will vanish is important. It shows “climate change does not just lead to some ice melt, but it leads to the complete extinction of many glaciers,” said Matthias Huss, a study author and a glaciologist at the Swiss university ETH Zürich, who spoke at Pizol’s funeral back in 2019.

The scientists looked at the planet’s glaciers using a global database to pin down “peak glacier extinction,” meaning the period during which the largest number of glaciers disappear.

They used models to determine when each individual glacier would become too small to be classified as a glacier: defined as when its area falls below 0.01 square kilometers (0.004 square miles), or it reaches less than 1% of its initial volume, as measured around the year 2000.

Their analysis found that glacier extinction will peak around mid-century, with the exact timing and extent dependent on the level of global warming.

If the world manages to keep warming to 1.5 degrees Celsius above pre-industrial levels, something it is not on track to do, the number of individual glaciers disappearing will peak around 2041, at roughly 2,000 per year.

At 4 degrees of warming, that peak shifts to the mid-2050s and intensifies to around 4,000 a year. This is 3 to 5 times higher than the present rate of global loss, the report says.

The world is currently on course for around 2.7 degrees of warming if climate pledges are met. At this level, peak extinction will happen over a longer period, with the world losing around 3,000 glaciers a year between 2040 and 2060.

The researchers also drilled down to specific regions. In areas where smaller glaciers dominate, such as the European Alps, parts of the Andes and North Asia, more than half the glaciers are expected to disappear within the next two decades, the report found. They are also expected to see an earlier peak in glacier extinction, around 2040.

In contrast, regions with bigger glaciers, including Greenland and the Russian Arctic, will see a delayed peak in glacier extinction, later in the century.

Whether the world ends up witnessing the deaths of 2,000 or 4,000 glaciers a year is all about how much is done to rein in global heating.

Only 20% of glaciers are expected to remain by 2100 under 2.7 degrees of warming, compared to around 50% at 1.5 degrees. At 4 degrees, the world is looking at a nearly complete loss of glaciers.

“This study does a great job at highlighting the fact not only are glaciers melting worldwide, many of them may be entirely gone in the coming decades; and the trend is accelerating,” said Eric Rignot, professor of Earth system science at the University of California at Irvine, who was not involved in the research. It is “a point of no return, because reforming a glacier would take decades if not centuries,” he told CNN.

The losses will have significant implications. Glaciers are a vital source of water for many communities but beyond that, they are a tourist draw, attracting millions of visitors each year and many ski resorts depend on them. They also hold a deep cultural importance for communities, tied to local traditions.

“They are really icons of climate change,” said Harry Zekollari, a study author and glaciologist at the Vrije Universiteit Brussel in Belgium. “If you go to someone, you talk to them on the street about the fact that temperatures have risen by 2 degrees, it’s really difficult to picture, but glaciers, they’re so visual.”

domingo, 14 de dezembro de 2025

Onde a Terra respira

"A Montanha não pensa em mim,
e por isso ensina-me tudo.
Está ali,
antes do meu nome
e depois do meu cansaço.
Não argumenta,
não explica,
não promete salvação.
É pedra respirando devagar,
um tempo tão vasto
que o tempo deixa de ser pressa.
Aprendo com ela a não querer mais
do que estar.
Um órgão antigo
desta grande vida que se regula sozinha,
que se cura sem pedir licença,
que mantém o equilíbrio
mesmo quando a esquecemos.
Quando me torno vento entre os seus picos
sou menor —
e isso é um alívio.
A Montanha não é símbolo.
É presença.
E ao aceitá-la assim, inteira,
aprendo a pertencer
à Terra viva."
Joao Soares -14.12.2025