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sábado, 20 de dezembro de 2025

Clarice Lispector - Estado de Graça

Santuário Cósmico
"Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve. E uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe — pessoa ou coisa — respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável."

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Fred again - Cmon


To a place that′s only ours
I will rest my head on your shoulder for a moment
Please make it

Please make it
Come on, come on

Please make it count
Come on, come on

Please make it count
Come on, come on

Qualidade de Brian Eno, mas as nuances electrónicas da voz de Fred Again, emocionam e não nos deixam indiferentes. Há uma linguagem transversal e que denuncia estes tempos de ódio. Diz a grande Clarisse Lispector o seguinte "A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente."

sábado, 17 de maio de 2025

Clarice Lispector - Eu escolhi o caminho do amor



"Eu escolhi o caminho do amor.
Mesmo que ele me custe dores, angústias ou decepções,
eu sigo firme — porque escolhi ser verdadeira.
No meu caminho, o abraço é inteiro,
o aperto de mão carrega alma,
e cada sorriso que dou carrega um mundo de intenções boas.
Não estranhe minha forma de ser.
Se te desejo o bem, é de verdade.
Se me importo, é profundo.
Se fico, é porque sou raiz, não passagem.
É assim que eu vejo a vida:
com intensidade, com entrega, com verdade.
E é só assim que eu acredito que vale a pena viver.”
— Clarice Lispector

domingo, 27 de abril de 2025

Sobre o luto


Para mim, do luto o que dói mais é saber que nunca mais conseguimos falar com as nossas pessoas queridas nem ver a luz dos seus olhos com vida...tudo isso e sentir a temperatura de um corpo morto é terrível.
Cada um tem os seus processos de viver o luto. A mim conforta-me que reste alguma coisa da pessoa e estar perto do que ficou. 
Do luto, o que dói ainda mais é qual destino às cinzas de um corpo cremado; de um(a) amigo(a); da esposa, do marido etc. Há quem prefira terra. Em Matosinhos, o Tanatório tem um Jardim da Memória (o Roseiral), onde os enlutados depositam as exéquias na terra. Também é bonito entregar as cinzas ao mar. Ou nos locais onde foram felizes. Pode não ser cá, no mesmo País. O que importa é a despedida final. Dever ser dada toda a liberdade de escolha das famílias. Não é preciso ir a correr no dia seguinte depositar as exéquias. Por vezes, leva o seu tempo.
Sinceramente não sei se alguma vez superamos de alguns lutos.

"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
— Clarice Lispector, último bilhete escrito no hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, em 7.12.1977

domingo, 5 de maio de 2024

O cavalo preto, por Clarice Lispector


“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez."
Clarice Lispector
Minha arte digital


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Dia de Clarice Lispector (nascida em 10 de Dezembro 1920)


"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

Conto "Por Não Estarem Distraídos" de Clarice Lispector retirei-o do livro "A Descoberta do mundo: crônicas." Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1984, p. 508.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

quarta-feira, 9 de julho de 2014

domingo, 1 de setembro de 2013

CLARICÍSSIMAMENTE...

Tagging Satellites- "Dehavilland Comet"

"... Enfim que é que se há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada." ~ Clarice Lispector


domingo, 19 de junho de 2005

Encontros Improváveis: This Mortal Coil e Clarice Lipector


"Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: - E daí? Eu adoro voar! Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre" ~ Clarice Lispector

Foto por Nosalai