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terça-feira, 4 de agosto de 2026

A geopolítica do cacau: soberania económica, agroecologia e a resistência à monocultura biotecnológica

A recente melhoria nas condições meteorológicas em importantes regiões produtoras trouxe um alívio temporário ao mercado internacional do cacau. De acordo com análises do setor (como as divulgadas pelo portal Mercado do Cacau), a chuva regular favoreceu o desenvolvimento das lavouras, permitindo que a cotação da matéria-prima ensaiasse uma recuperação. No entanto, esse impulso nas bolsas de commodities continua a ser limitado pela acumulação de estoques nos principais portos importadores e pela volatilidade da procura global.

Embora o suporte climático ofereça uma trégua a curto prazo, a cadeia de abastecimento global ainda carrega as cicatrizes do forte défice causado pelo fenómeno El Niño. Os países da África Ocidental - em especial a Costa do Marfim e o Gana, que juntos concentram mais de metade da oferta mundial, além da Nigéria e dos Camarões - continuam a enfrentar desafios estruturais profundos, como o envelhecimento dos pomares, a degradação dos solos e a persistência de doenças como a podridão-parda e o vírus do broto inchado.

Segundo dados estatísticos da International Cocoa Organization (ICCO), o mercado global caminha para um reequilíbrio delicado, passando dos déficits recordes de safras anteriores para uma projeção de pequeno superávit.

Análises detalhadas do International Food Policy Research Institute (IFPRI) revelam que a vulnerabilidade do setor não resulta apenas do clima, mas de uma rigidez estrutural: a dependência da exportação de grãos em bruto e o modelo de monocultura intensiva, que expõe os pequenos agricultores à especulação dos mercados globais.

1. A encruzilhada tecnológica: a pressão do CRISPR e da cultura celular
Como resposta à crise, o Norte Global e as multinacionais agroalimentares têm acelerado a promoção de soluções laboratoriais e patenteadas:
  • Edição genómica (CRISPR/Cas9): Investigações focam-se no desenvolvimento de cacaueiros geneticamente alterados para resistir a fungos e secas, com estudos publicados em revistas como a Nature. Nos EUA (via regras do USDA- SECURE) e progressivamente na UE (através da regulamentação de Novas Técnicas Genómicas - NGT 1 supervisionada pela EFSA), estas plantas caminham para a isenção do rótulo de OGM.
  • Cultura celular e sintéticos: Startups desenvolvem massa de cacau em biorreatores industriais ou alternativas sem cacau por fermentação de precisão, visando suprir a oferta sem depender do cultivo agrícola tradicional.
Para muitos peritos e organizações dos países produtores, este caminho não resolve as causas profundas da crise: transfere o controlo da produção agrícola para patentes corporativas e arrisca marginalizar milhões de pequenos agricultores na África Ocidental.

2. As vias de empoderamento e soberania dos países produtores
Em alternativa à dependência de patentes de laboratório, especialistas em agronomia tropical e economia de desenvolvimento apontam para quatro pilares fundamentais de autonomia e resiliência:

A. Agroecologia e Sistemas Agroflorestais (SAFs)
Em vez de modificar o DNA da planta para suportar solos degradados e Sol pleno, os Sistemas Agroflorestais recriam o ecossistema original do cacaueiro. Ao cultivar cacau sob a copa de árvores nativas, fruteiras e espécies florestais:
  • Mantém-se a humidade do solo e reduz-se a temperatura local em vários graus, anulando os efeitos térmicos do El Niño.
  • Promove-se o controlo biológico de pragas, eliminando a necessidade de pesticidas sintéticos.
  • Garante-se a diversificação de rendimentos dos agricultores com a venda de frutas, madeira e outros alimentos.
B. Processamento Local e Retenção do Valor Acrescentado
A África Ocidental exporta tradicionalmente a matéria-prima em bruto, retendo menos de 10% do valor final de um mercado global avaliado em mais de 100 mil milhões de dólares. O verdadeiro empoderamento passa pela industrialização nacional na Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões, transformando o grão em manteiga, massa e chocolate acabado antes da exportação, retendo os lucros e gerando emprego qualificado localmente.

C. Negociação Coletiva de Mercado (LID - Livelihood Income Differential)
Através de alianças regionais entre governos produtores, a implementação do prémio fixo por tonelada (LID) sobre o preço de mercado assegura um rendimento mínimo digno aos agricultores. O fortalecimento do comércio justo (Fairtrade) e o poder de negociação em bloco impedem que as multinacionais imponham preços abaixo do custo de produção.

D. Seleção Tradicional e Bancos de Germoplasma
O melhoramento agronómico tradicional - com seleção de variedades locais naturalmente resistentes a pragas e secas, aliado a técnicas de enxertia - permite renovar os pomares sem recorrer a transgenia ou CRISPR, preservando o património genético nativo e a autonomia das sementes.

3. Matriz Comparativa de Modelos de Desenvolvimento
DimensãoModelo Tecnológico Ocidental (CRISPR / Biorreatores)Modelo de Soberania Agroecológica (SAFs / Industrialização Local)
Soberania e PropriedadeDependência de patentes e empresas de biotecnologiaControlo comunitário, estatal e dos pequenos agricultores
Resiliência ClimáticaModificação genética da planta (solução laboratorial)Restauração do microclima e da biodiversidade florestal
Modelo EconómicoManutenção da importação de matérias-primas baratasProcessamento local e retenção do valor acrescentado
Rácio de RiscosPerda de mercado para os produtores tradicionaisProteção da biodiversidade e diversificação de rendimentos
A crise do cacau na África Ocidental expôs os limites da monocultura tradicional. No entanto, o futuro do setor não precisa de passar pela entrega do património agrícola a laboratórios estrangeiros: a combinação de agroecologia, justiça comercial e industrialização nos países de origem posiciona-se como a resposta mais duradoura, justa e sustentável.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Falcões aliados dos produtores de cereja, reduzindo 81% de danos na produção e evitando o uso de pesticidas

Mais exemplos de SBN em que os agricultores, morcegos e aves de rapina ambos beneficiam

Os quiriquiri, pequenos falcões, caçam ratos, voles e aves canoras que danificam as culturas de cerejeira. Há décadas que os agricultores adicionam caixas de nidificação para atraí-los.

Podemos tentar cá. Não conheço nenhuma iniciativa destas. Aumentávamos a população de falcões especialmente o Peneireiro-das-torres e Falcão-peregrino e reduzíamos não só o furtivismo assim como reduziríamos exactamente uma das causas principias da vulnerabilidade destas duas espécies: o uso de pesticidas. Segue o estudo académico no Estado de Michigan (27.11. 2025)

Produtores de cereja do Michigan encontram um aliado inesperado na segurança alimentar: os falcões
A colheita da cereja terminou há meses. Mas no norte do Michigan, alguns produtores já antecipam o ressurgimento primaveril de uma pequena ave de rapina que poderá beneficiar a colheita da próxima temporada.

O peneireiro-americano é o falcão mais pequeno dos EUA. Enquanto aves de rapina, os peneireiros dissuadem aves mais pequenas que gostam de petiscar os frutos dos agricultores. No entanto, uma nova investigação sugere que estes "seguranças alados" podem ter um benefício adicional: a segurança alimentar.

Isto de acordo com um estudo da Universidade Estadual de Michigan (MSU), publicado a 27 de novembro no Journal of Applied Ecology.

“É fascinante observá-los em voo”, afirmou a autora principal, Olivia Smith. Eles pairam no ar enquanto examinam o solo abaixo em busca de insetos, ratos e pequenas aves.

As novas descobertas mostram que, ao afugentarem as aves que picam as cerejas, os peneireiros também evitam que estas contaminem as culturas com os seus dejetos. Segundo os investigadores, a investigação poderá ajudar os agricultores a cultivar alimentos mais seguros e saudáveis, gerando maiores lucros.

O desafio do controlo de pragas
“É difícil manter as aves fora das plantações”, disse Smith, professora assistente de horticultura e membro do Programa de Ecologia, Evolução e Comportamento da MSU.

Os produtores já tentaram métodos como redes, dispositivos ruidosos, espantalhos e pulverizações, mas estas abordagens podem ser dispendiosas e nem sempre funcionam. Mesmo com medidas de controlo em vigor, os produtores de cereja doce em estados como Michigan, Washington, Califórnia e Oregon perdem anualmente entre 5% a 30% da sua produção devido às aves.

As aves famintas representam outro problema: defecam. Algumas pessoas receiam que a sujidade que deixam para trás possa estar contaminada com agentes patogénicos que causam doenças nos seres humanos. Assim, os investigadores decidiram verificar se atrair predadores para patrulhar os pomares poderia ajudar a reduzir os riscos.

Resultados da patrulha aérea
A equipa focou-se em caixas de ninhos instaladas em oito pomares de cereja doce no norte do Michigan e descobriu que os peneireiros — que dependem de cavidades em árvores e outras fendas existentes para criar os seus filhotes — instalaram-se rapidamente.

Posteriormente, registaram todas as aves que conseguiam ver ou ouvir à medida que a época da colheita se aproximava. A equipa descobriu que aves como tordos, estorninhos e graxas tinham muito menos probabilidade de visitar os pomares e devorar os frutos quando os peneireiros nidificavam por perto. Ao afugentarem os visitantes famintos, os peneireiros reduziram a probabilidade de danos nas cerejas em mais de dez vezes.

Mas a sua presença teve outro benefício. Os investigadores também encontraram menos sinais de dejetos de aves nas cerejeiras. A presença de peneireiros foi associada a uma redução de 3 vezes nos dejetos avistados nos ramos.

“Certamente, os peneireiros também defecam”, disse a autora sénior Catherine Lindell, professora associada emérita de Biologia Integrativa. No entanto, o número de aves frugívoras que eles mantêm fora do pomar compensa largamente esse facto, acrescentou. De facto, descobriram que as cerejeiras mais próximas das caixas de ninhos dos peneireiros tinham menos probabilidade de estar cobertas de dejetos.

Segurança alimentar e saúde pública
A análise de ADN revelou que 10% dos dejetos continham Campylobacter, uma bactéria que causa frequentemente doenças de origem alimentar, com sintomas como diarreia, febre e cólicas estomacais.

Os investigadores ressalvam que isto não significa que a próxima taça de cerejas vá causar dores de estômago; nenhum dos surtos de doenças alimentares causados por Campylobacter foi associado a cerejas. Da mesma forma, Smith acrescentou que poderá ser cedo demais para culpar as aves por culturas contaminadas. Apenas um surto foi rastreado até aves: um surto de Campylobacter em 2008 causado por grou-comuns migratórios em campos de ervilhas no Alasca.

Contudo, a investigação sugere que os peneireiros poderiam ser uma forma de melhorar a segurança alimentar noutras culturas que têm sido associadas a surtos, como os vegetais de folha verde.

“Eles são realmente bons a manter o nível de dejetos baixo”, disse Olivia Smith. “Isso significa menos oportunidades de transmissão.”

“Isto não resolverá todos os problemas de aves que os agricultores enfrentam”, admitiu. Um dos problemas de depender dos peneireiros, por exemplo, é que eles têm mais probabilidade de se estabelecerem em algumas regiões do que noutras.

“Mas é uma ferramenta de baixo custo e baixa manutenção para os produtores utilizarem no seu conjunto de ferramentas de gestão de aves”, concluiu Lindell.

Leituras adicionais

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Hinos de Pólen

Hinos de Pólen

"No coração do mundo, onde o vento aprende a falar,
erguem-se antigos guardiões em dança silenciosa:
abelhas douradas, aves de fogo e canto,
morcegos tecelões da noite,
borboletas que carregam o arco-íris nas asas.

Cada um, um verso vivo na respiração da Terra.

Abelhas — monjas do néctar —
trabalham com a precisão de quem sabe
que cada flor aberta é um pacto ancestral.
O seu zumbido é sutra e oração,
um lembrete de que o futuro se molda
no gesto minúsculo de tocar um estame.

As aves, mensageiras do céu,
bordam caminhos entre pétalas e horizontes,
levando consigo a memória dos ventos antigos.
No seu voo reside a ética de cuidado,
pois cada semente que dispersam
é promessa de continuidade.

Morcegos, arquitetos da noite,
pairam onde a luz não chega,
polinizando sombras com fidelidade cega,
recordando-nos de que até o invisível
sustenta a casa comum.

E as borboletas, frágeis na aparência,
mas titânicas na missão,
tocam o mundo com a suavidade
de quem compreende a delicadeza
da teia que nos une.

Todos eles, em co-evolução profunda,
esculpiram com as plantas um pacto milenar:
dar e receber, florir e nutrir,
reinventar a vida a cada estação.

Que saibamos aprender com estes mestres:
que a ética ambiental não é lei escrita,
mas um modo de respirar com o planeta;
que a ecologia profunda não é teoria,
mas pertença — radical e humilde —
ao grande tecido de relações
que nos sustém e ultrapassa.

Honremos os polinizadores,
tecelões de mundos,
pois neles a Terra encontra voz
e o futuro encontra raiz."

João Soares, 02.12.2025

domingo, 9 de novembro de 2025

COP30: Portugal junta-se a declaração que coloca combate à pobreza no centro da ação climática


Portugal aprovou, juntamente com outros líderes na Cimeira do Clima, uma declaração que coloca o combate à fome e à pobreza nas prioridades das políticas globais para enfrentar as alterações climáticas.

A Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas, que também apela a um financiamento internacional mais justo para a ação climática, foi aprovada pelos líderes de 43 países e da União Europeia (UE) após a cimeira de dois dias que terminou na sexta-feira no Brasil.

Embora não crie obrigações jurídicas, a iniciativa procura servir de referência política nas negociações que começam na próxima segunda-feira, em Belém, durante a 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP30).

De acordo com o documento, os impactos da crise climática “já são e continuarão a ser profundamente desiguais”, pelo que as respostas devem dar prioridade às populações mais vulneráveis, especialmente nos países em desenvolvimento.

O texto aprovado na cidade amazónica de Belém, no norte do Brasil, propõe uma abordagem de ação climática centrada nas pessoas, que combine adaptação, proteção social e segurança alimentar.

Segundo a declaração, o impacto das alterações climáticas é desigual e afeta principalmente as comunidades mais pobres e em situação de vulnerabilidade, pelo que, além de continuar a investir em mitigação, os países devem dar prioridade à adaptação, com medidas como seguros para quem perde as colheitas.

Os signatários comprometeram-se a promover políticas que integrem pequenos produtores rurais, pescadores artesanais, povos indígenas e comunidades locais nas estratégias de mitigação e de resiliência.

A declaração propõe que, dos 1,3 biliões de dólares (1,12 biliões de euros) anuais previstos para o combate às alterações climáticas, pelo menos 300 mil milhões de dólares (259 mil milhões de euros) sejam destinados aos países em desenvolvimento até 2035.

Os signatários alertaram que os atuais fluxos de financiamento climático “não chegam de forma suficiente nem equitativa” às comunidades mais vulneráveis.

A declaração foi assinada por grandes economias mundiais como a China, os membros da União Europeia (UE), países europeus como Reino Unido e Noruega, e países latino-americanos, como Brasil, Colômbia, México, Peru, Equador, Uruguai, Chile, República Dominicana, Panamá, Cuba e Haiti.

Entre as medidas destaca-se a criação de um Plano de Aceleração de Soluções, que procurará coordenar ações entre governos, organismos multilaterais e o setor privado.

O acordo estabelece oito objetivos, entre eles ampliar os sistemas de proteção social sensíveis ao clima, fortalecer as cadeias alimentares sustentáveis e garantir meios de subsistência dignos em zonas afetadas pela crise ambiental.

O documento, impulsionado pelo Brasil como país anfitrião da COP30, reflete uma visão em que as políticas de desenvolvimento e as ações climáticas são abordadas de forma conjunta.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, terminou na sexta-feira a visita de dois dias a Belém para participar da Cimeira do Clima, uma reunião de líderes mundiais que antecede a COP30.

A Cimeira do Clima reúne delegações de 143 países, das quais pouco mais de um terço foram chefiadas pelos respetivos líderes nacionais, com a ausência confirmada dos três líderes dos países mais poluidores do mundo (China, Estados Unidos e Índia).

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Dia Mundial da Alimentação: Celebrar quem garante o nosso prato cheio!

Sabia que mais de 75% das culturas alimentares do mundo dependem da polinização? Sem abelhas, borboletas, morcegos e outros polinizadores, não teríamos muitos dos alimentos que fazem parte da nossa dieta diária — como frutas, legumes, sementes e até o café e o chocolate!

Neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, celebramos não só o direito a uma alimentação saudável e sustentável, mas também os pequenos heróis da biodiversidade que tornam isso possível: os polinizadores.

A polinização é um processo essencial para a reprodução das plantas, garantindo colheitas abundantes e diversificadas. Além disso, contribui para a saúde dos ecossistemas e para a segurança alimentar global.

Como podemos ajudar?
  • Plantar flores nativas
  • Evitar pesticidas nocivos
  • Apoiar práticas agrícolas sustentáveis
  • Participar em ações de sensibilização e educação ambiental
Hoje, mais do que nunca, é tempo de reconhecer que sem polinizadores, não há alimentação para todos. Vamos proteger quem nos alimenta!

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Agrotóxicos e colonialismo químico. Conheça o trajecto e trabalho de Larissa Bombardi



Larissa Bombardi é geógrafa, investigadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas (ULB) no projeto Friction e professora licenciada do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo - USP.

Ela é autora do atlas: “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia”, lançado em 2019 em sua edição em Inglês na Europa (Escócia e Alemanha) e "Geografia das assimetrias: o círculo vicioso dos agrotóxicos e o colonialismo na relação comercial entre o Mercosul e a União Europeia ", lançado em 2021 no Parlamento Europeu.

Após a publicação deste atlas Larissa passou por uma campanha de desinformação que visava atacar a sua credibilidade e a sua carreira. A juntar à campanha difamatória a casa de Larissa foi assaltada e recebeu várias outras ameaças.

Ela é também autora do livro “Agrotóxicos e Colonialismo Químico”, lançado em 2023 em Português e publicado em Francês (Pesticides – Um colonialisme Chimique) em 2024. Pode aceder ao conjunto cartográfico aqui

Larissa é membro do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (Brasil), membro da diretoria da organização internacional "Justice Pesticide" e curadora da aliança Internacional IPSA (International Pesticides Standard Alliance).


Mais informações sobre a Larissa e o seu trabalho:

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Pequenas Cidades No Tempo. O Ambiente e Outros Temas


Este livro integra textos escolhidos do colóquio de 2019 sobre Pequenas Cidades e Ambiente. Iniciando-se com o repto lançado pelo Professor Jean-Luc Fray, seguem-se as respetivas respostas, ordenadas nas seguintes subsecções:
  1. A interpretação de sistemas socioecológicos sob perspectivas de conjunto; 
  2. A observação de sistemas socioecológicos através dos testemunhos materiais; 
  3. A análise pormenorizada de fenómenos de antropização; 
  4. O estudo da regulação societária de recursos e problemas ambientais.
A segunda parte do livro, sobretudo constituída por textos apresentados num encontro de 2017, corporiza várias categorias de estudos sobre as pequenas cidades, nomeadamente,  a  monografia,  a  articulação  de  povoados,  as  hierarquias  urbanas,  as  leituras  do  espaço  urbano,  as  materialidades,  as  redes  de  poder  e,  não  menos  importante, a intervenção societária. 

Por fim, as conclusões pretendem, para além de sintetizar algumas linhas gerais transmitidas pelo conjunto de artigos, enfrentar os “problemas irritantes” (nas palavras do Professor Jean-Luc Fray) levantados pela classificação  dos  núcleos  urbanos  de  pequena  dimensão  e,  também,  valorizar  a  acuidade da pesquisa sobre as pequenas cidades no tempo

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Agroecologia aumenta a fertilidade do solo, elimina o uso de adubos sintéticos e de pesticidas


De acordo com o estudo Análise da Agroecologia no nosso País, 2020 em Portugal, não existe uma legislação específica dedicada exclusivamente à agroecologia. No entanto, existem várias leis e medidas que apoiam a agricultura sustentável e práticas relacionadas, como a agricultura familiar, circuitos curtos de comercialização e agricultura biológica. Estas medidas indiretamente incentivam e promovem a agroecologia. 

Instrumentos Legais e Medidas de Apoio:

Agricultura Familiar:
A agricultura familiar é reconhecida e apoiada através de várias medidas, como o Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020) e outras políticas que visam a sustentabilidade do setor agrícola.
Circuitos Curtos de Comercialização:
Existe legislação e medidas que incentivam a venda direta de produtos agrícolas do produtor ao consumidor, promovendo os circuitos curtos de comercialização, o que é uma prática central na agroecologia.

Agricultura Biológica:
A produção biológica é regulada por legislação específica e tem apoios financeiros, como os pagamentos agroambientais, que são um incentivo para a adoção de práticas agroecológicas. 

Ações e Políticas:
Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020):
Este programa inclui medidas que visam a promoção da sustentabilidade ambiental e económica do setor agrícola, com foco na agricultura familiar e em práticas sustentáveis.

Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica:
Esta estratégia estabelece metas e medidas para o desenvolvimento da produção biológica em Portugal, o que contribui para a prática agroecológica. 

Oportunidades e Desafios:
Apesar da falta de uma legislação específica, a agroecologia tem um papel crescente em Portugal, impulsionada por preocupações ambientais, de saúde pública e de sustentabilidade económica. Os desafios incluem a necessidade de maior investimento em investigação e desenvolvimento, a sensibilização dos consumidores e a criação de políticas públicas mais abrangentes para a agroecologia. 

Outros Estudos e Congressos

terça-feira, 27 de maio de 2025

Colónia japonesa cria 'florestas de comida' no Pará e vira referência contra desmatamento


A equipe da BBC News Brasil visitou Tomé-Açu, no interior do Pará, para contar a história da comunidade japonesa que se instalou naquele pedaço da Amazônia e desenvolveu um método que tem revolucionado a produção agrícola na região.   

As primeiras levas de japoneses chegaram em 1929, quando o Japão vivia uma grave crise. As famílias receberam lotes cobertos por floresta, onde construíram casas e cultivaram plantações. 

Anos depois, o grupo foi alvo de uma série de restrições do governo brasileiro por causa da Segunda Guerra Mundial, período em que os mais velhos dizem ter vivido numa espécie de "campo de concentração". 

Com o fim da guerra, a colônia viveu um ciclo de prosperidade nos anos 1960, até que uma praga arrasou as plantações e forçou os agricultores a buscar alternativas. 

Foi então que, observando comunidades ribeirinhas locais e resgatando técnicas ancestrais japonesas, eles desenvolveram um método que privilegia a diversidade de espécies e produz alimentos o ano todo, ajudando a regenerar áreas desmatadas nas últimas décadas.  

Hoje as agroflorestas mantidas pelas famílias nipo-brasileiras atraem vários pesquisadores e agricultores interessados em replicá-las em outras partes do Brasil e do mundo. 

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Como é que podemos dar às abelhas uma alimentação equilibrada?


Como polinizadores essenciais, as abelhas mantêm os nossos sistemas agrícolas em funcionamento, mas as alterações causadas pelo homem no planeta afetam fortemente as suas opções de alimentação. Para ajudar a proteger a nossa segurança alimentar, precisamos de mais informações sobre as necessidades alimentares das abelhas.

Os investigadores que escreveram na revista Frontiers in Sustainable Food Systems estudaram o valor nutricional de 57 tipos de pólen e descobriram que as abelhas precisam de procurar alimento numa variedade de plantas para equilibrar a sua dieta entre ácidos gordos e aminoácidos essenciais.

“Apesar do interesse público e do aumento das plantações de polinizadores, pouco se sabe sobre quais as espécies de plantas mais adequadas para a saúde das abelhas”, afirmou Sandra Rehan da Universidade de York, autora sénior do estudo.

“Este estudo teve como objetivo compreender melhor o valor nutricional das espécies vegetais. Com base nas suas proporções ideais de proteínas e lípidos para a nutrição das abelhas selvagens, recomendamos que as espécies de pólen de rosas, trevos, framboesas vermelhas e ranúnculos altos devem ser enfatizadas em projetos de restauração de flores selvagens”, acrescentou.

As necessidades das abelhas
O pólen e as abelhas são fortemente interdependentes: as plantas precisam que as abelhas espalhem o seu pólen para se reproduzirem e as abelhas precisam de pólen para se alimentarem.

Enquanto as abelhas obtêm os seus hidratos de carbono do néctar, o pólen fornece proteínas, lípidos e outros nutrientes essenciais. As alterações antrópicas do ambiente que alteram a disponibilidade e as propriedades do pólen podem levar à subnutrição das abelhas.

As abelhas precisam especialmente de consumir alimentos de alta qualidade que contenham ácidos gordos não esterificados como o ómega 6 e o ómega 3. Sem estes nutrientes, as abelhas vivem menos tempo, têm sistemas imunitários mais fracos e são menos capazes de lidar com os fatores de stress ambiental – mas se as abelhas os consumirem na proporção errada, terão problemas cognitivos.

As abelhas também precisam de aminoácidos essenciais, que são necessários para a saúde cognitiva e a reprodução – mas se comerem demasiado, podem ser mais suscetíveis a certos parasitas.

Para perceber quais as melhores plantas para as abelhas, os investigadores recolheram amostras de pólen de 57 espécies existentes na América do Norte, quer de flores frescas na natureza, quer de flores secas no laboratório.

Escolheram as espécies de plantas com base na sua importância para as espécies de abelhas selvagens do nordeste e na sua prevalência. O pólen foi processado e analisado quanto aos níveis de diferentes aminoácidos, ácidos gordos não esterificados e rácios de proteínas para lípidos e ómega 6:3, para determinar quais as melhores plantas para as abelhas.

Além disso, investigaram se as espécies de plantas estreitamente relacionadas proporcionavam benefícios nutricionais semelhantes e se as espécies que tinham sido introduzidas na área onde foram recolhidas eram menos nutritivas do que as espécies endémicas.

Hábitos alimentares saudáveis
Em geral, as plantas da mesma família ofereciam aos abelhas nutrientes bastante diferentes dos de outros membros da mesma família, com exceção dos aminoácidos essenciais.

As plantas da família das couves, da família das leguminosas e da família das margaridas apresentavam níveis semelhantes de aminoácidos essenciais em comparação com outras plantas da mesma família.

As margaridas, uma planta muito importante para as abelhas forrageiras, apresentavam níveis particularmente elevados de aminoácidos essenciais.

Curiosamente, as plantas com elevado teor de aminoácidos essenciais apresentavam um teor relativamente baixo de ácidos gordos não esterificados e vice-versa.

“Existe um potencial compromisso entre o teor de ácidos gordos e de aminoácidos no pólen, o que sugere que uma dieta floral diversificada pode beneficiar mais as abelhas do que uma única fonte de pólen”, afirmou Rehan. “Nenhuma espécie de planta é ótima para a saúde das abelhas selvagens generalistas”, acrescentou.

Os resultados dos cientistas indicaram que a alimentação a partir de muitas flores diferentes é melhor para a maioria das abelhas e que a alimentação a partir de espécies endémicas de plantas não oferece qualquer vantagem nutricional.

A maioria das espécies de pólen contém a maior parte dos nutrientes necessários, mas para obter os níveis ideais de nutrientes nas suas dietas, as abelhas teriam de se alimentar de várias espécies de plantas diferentes.

Os investigadores sugeriram que esta diversidade de conteúdo nutricional reflete as diversas necessidades das diferentes espécies de abelhas, especialmente as espécies especializadas que preferem determinadas plantas.

Uma grande variedade de fontes de nutrição com propriedades diferentes significa que todas as abelhas podem procurar as plantas que melhor as alimentam.

“Esperamos que este trabalho ajude a informar a seleção de plantas com flores para jardins de polinizadores”, disse Rehan. “Mas aqui examinámos apenas 57 espécies de plantas, e há milhares a examinar para compreender os perfis nutricionais. Esperamos que isto inspire futuras investigações semelhantes, bem como estudos de acompanhamento sobre a preferência e a sobrevivência das abelhas em diferentes dietas”, concluiu.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Helena Freitas: A natureza devia ser central na economia de uma forma geral, e não apenas nas áreas protegidas

Correjola (Corrigiola litoralis)

Qual a importância de ambientes de biodiversidade na natureza?
A biodiversidade é o legado biológico que temos à nossa disposição e que resulta de milhões de anos de evolução. Permitiu que connosco co-existissem um conjunto muito amplo de espécies de diferentes grupos. Neste momento conhecemos cerca de dois milhões de espécies, sendo que isso representará talvez um quinto do conjunto de espécies que podem existir. A ciência conhece, e identificou em algum tempo da história uma espécie, que agora também devia ser objeto de reanálise. Muitas destas espécies estão hoje em gavetas de museus, portanto não voltaram a ser estudadas, porque infelizmente também não temos capacidade, recursos humanos suficientes ou especialistas nos diferentes grupos de organismos à escala do que seria necessário. Hoje percebemos cada vez mais a importância da biodiversidade. Cada espécie é um repositório evolutivo fantástico de um processo longo, muitas vezes muito mais longo que o nosso, de grupos de organismos que são relevantes.

No essencial conhecemos as plantas superiores, organismos mais visíveis, mais fáceis de reconhecer. Há grupos de organismos que conhecemos pior, mas nas últimas décadas o que temos percebido claramente é que essas espécies têm uma relevância extraordinária na composição e no funcionamento dos sistemas vivos. Aliás, também nós temos um conjunto de diversidade, microbiana nomeadamente, que é essencial para o nosso equilíbrio e bem-estar. É inequívoco que o nosso microbioma é uma parte essencial da nossa saúde.

Temos uma intenção muito grande de continuar a estudar a biodiversidade, todos os dias descobrimos espécies novas em muitos locais do mundo. Continuamos com esse objectivo de estudar e conhecer. Há grupos que também hoje percebemos que são da maior relevância e conhecemos mal, por exemplo os fungos. Conhecemos talvez 2% ou 4% dos fungos que poderão existir. Os fungos têm uma relevância incrível quer na relação com as plantas, na forma como podem intervir na cadeia alimentar, na simplificação dos sistemas, como podem decompor, são os únicos organismos capazes de decompor a matéria vegetal e com isso contribuir para o ciclo da vida.

Na ciência, o grupo mais expressivo do que conhecemos são os insectos. Têm uma expressão muito significativa no conjunto da vida. Mas é certo que se conseguíssemos ter acesso à diversidade bacteriana ou fúngica por ventura teríamos ainda muito mais em termos de número.

Quais são as principais razões da perda de biodiversidade aqui em Portugal?
Havia um grande biólogo, o Edward Wilson – a ele se deve esta ideia da biodiversidade -, que dizia que são cinco as grandes ameaças. Em inglês é hippo. H para a perda do habitat, o I para a invasive species, as espécies invasoras, ou exóticas, que são levadas para outros ambientes e ameaçam as espécies nativas (no caso português 20% da flora já é exótica), o P para poluição, o outro P para população, a expansão demográfica – tendemos a anexar activamente  as grandes florestas tropicais, os grandes habitats para a expansão das nossas cidades, agrossistemas da monocultura industrial -, e o O para overexploitation, o abuso de utilização de recursos.

Essas são as grandes causas, no mundo inteiro e em Portugal também, para a perda da biodiversidade. Há uma destruição enorme dos habitats naturais, designadamente aqueles que dependem da água, as nossas zonas húmidas, os nossos rios, mas também as áreas protegidas. Nas nossas florestas, com os incêndios sucessivos, a expansão das espécies exóticas é visível, o que significa que as espécies nativas não têm condições de competição, porque não são espécies de crescimento rápido.

Em relação às zonas húmidas e aos rios, existe uma preocupação particular no papel que têm no ecossistema?
Há uma preocupação enorme. Estamos a perder as zonas húmidas, e as zonas húmidas mais temporárias, que eram muito características. Os charcos no sul de Portugal, no Alentejo, estão tremendamente ameaçados, desde logo porque os cenários climáticos também impõem uma nova realidade. Os sistemas dependentes da água sofrem uma alteração no seu ciclo de vida. Não é por acaso que é maior a susceptibilidade a doenças de vários anfíbios. Isso é visível à escala global, e em Portugal também. Não temos uma monitorização tão regular que permita ter essa ideia muito assertiva para Portugal, mas é notório e são vários os investigadores que transmitem isso.

Ainda há dias vi nas notícias o desaparecimento de um pequeno peixe que era endémico de uma ribeira no Alentejo – as águas estão poluídas, o fluxo hídrico não é o mesmo e o caudal não é o mesmo.

Em Inglaterra estão neste momento a oxigenar artificialmente muitas massas de água para conseguir manter a vida lá dentro. As formas de vida, sejam plantas, sejam peixes, que vivem na água precisam de oxigénio, tal como nós. Havendo um aumento muito grande da poluição, diminuindo o fluxo hidrológico e com isso a oxigenação destes sistemas, as formas de vida ressentem-se.

Nós estamos a entrar numa rota de colapso da biodiversidade, que resulta de uma conjugação muito grande de fatores, mas que tem tudo a ver com as opções que temos tidos. Aquela intenção de “do not harm”, na verdade não estamos a conseguir implementar. Não é monitorizado, não é penalizado quem não o faz, portanto é verdade que estamos a destruir os recursos biológicos e a vida, sendo que nós somos parte dela. É chocante a forma como nos desligámos.

Para começar a haver essa proteção da biodiversidade, e conseguir que ela se desenvolva mais em certas áreas, onde iria demorar muitos milhares de anos e podemos proporcionar um aceleramento, é preciso mais legislação ou consciencialização?
Tipicamente o que temos feito para conservar a biodiversidade é identificar áreas que ficam consignadas à conservação da natureza, e acreditamos que os parques naturais e as áreas protegidas de uma forma geral é um sistema que nos garante que essas áreas estão intocáveis ou que pelo a biodiversidade está salvaguardada. Se formos honestos, sabemos que não é bem assim.

Há uma série de estatutos e classificações que foram criadas com o desígnio de conservar a natureza, mas é verdade também que não tem havido o investimento necessário para garantir ao nível da governança, da monitorização, do cumprimento da legislação. Sabemos que há muita permeabilidade no sistema.

Hoje, em resultado da Convenção para a Biodiversidade, que aconteceu em Montreal no final do ano passado, assinámos um acordo que tem como um dos objectivos ter 30% de terra e mar consignado à conservação da natureza. São mais de 190 Estados signatários que se comprometeram, é um desafio para todos. Mas mais importante do que a área em si seria garantir a sua eficácia. Infelizmente sabemos que isso é mais difícil, mas a minha esperança é sempre que a natureza seja cada vez mais parte da forma como equacionamos quaisquer soluções de progresso, seja num meio urbano ou parque natural, na forma como planeamos as novas construções, tendo em atenção as soluções baseadas na natureza, no reforço de mitigar a questão climática. A natureza devia ser central na economia de uma forma geral, e não apenas nas áreas protegidas. Na economia e na nossa forma de pensar o mundo e a vida.

A agroecologia pode ser uma das soluções?
A agroecologia é tremendamente importante para conseguir a transição ecológica, que penso que é uma inevitabilidade, e consagrar a civilização ecológica, aquela capaz de viver em harmonia com a natureza. Só essa consagração permitirá a própria sobrevivência da espécie humana. E para que isso aconteça a transição ecológica é fundamental a alteração do sistema alimentar.

O sistema alimentar depende dos ecossistemas. A forma como nós produzimos alimento atualmente é perversa a todos os níveis. Desde logo socialmente, quando temos grande parte do mundo que não tem acesso a alimento, e outra parte que sofre de doenças causadas por alimentos que são nocivos, ou porque incorporam elementos poluentes, ou porque nos fazem mal, ou porque consumimos em excesso. É um sistema que nós construímos e que está nas mãos de um conjunto de corporações que escolhem aquilo que nós comemos. Nós vamos ao supermercado comprar aquilo que escolhem por nós. Com isto abdicamos de uma atividade que nos ligava à terra.

Sou cientista, acho que a ciência nos vai ajudar, que a tecnologia e a inovação nos vão ajudar, mas a agroecologia diz-nos que nós temos de ser capazes de produzir alimento sem fazer mal aos solos, à água, à biodiversidade, e contando com a biodiversidade para nos ajudar neste processo. Por outro lado, é fundamental que as soluções agro-ecológicas também penetrem na agricultura convencional e industrial.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Guia de Boas Práticas para a Recolha de Conhecimento Agroecológico


O conhecimento agroecológico existe e está presente em todo o mundo – desde os agricultores que aplicam princípios ecológicos na sua produção, até aos consumidores que optam por uma alimentação baseada em produtos provenientes dos agricultores que aplicam princípios ecológicos na sua produção. É muito importante fazer a recolha destas práticas, desde a produção ao consumo, antes que desapareçam. É igualmente importante publicá-las através de meios acessíveis, de modo a transferir estes conhecimentos para as gerações futuras e a popularizá-los. Cientes desta necessidade, a equipa da MedCaravan criou o Guia de Boas Práticas para a Recolha de Conhecimento Agroecológico, que visa ajudar a uma recolha e registo de conhecimentos em agroecologia de uma forma adequada. Com este Guia a equipa do Medcaravan tem a esperança de que as práticas agroecológicas, que fornecem soluções em muitas áreas – da agricultura à arte, dos sistemas de abastecimento à solidariedade nas comunidades – sejam difundidas como uma ferramenta útil para a regeneração dos agroecossistemas.
Contamos convosco para ajudar na disseminação e utilização deste Guia.
Façam o download do documento, utilizem-no e partilhem-no.


Site a consultar:
Urgenci

sábado, 4 de novembro de 2023

Alfredo Sendim: “O que está em causa não é o planeta nem a natureza, somos nós”

Food is the currency of Life
Como é que podemos explicar a alguém que vive a maior tempo na cidade e tem pouco contacto com o mundo rural o que é a agrofloresta?
A agrofloresta é essencialmente a ideia de coabitar com o sistema natural – ou ecossistemas – que nos criaram e estão à nossa volta e dos quais nós ainda hoje dependemos integralmente. Somos completamente dependentes dos recursos que eles produzem. E nós não sabemos de forma alguma, por muita capacidade e engenho que tenhamos, supri-los de outra forma sem ser através do sistema natural.

É muito fácil percebermos o modelo da agricultura, que passa essencialmente por termos uma relação com o que está à nossa volta, eliminando o sistema natural, um conjunto de elementos relacionados entre si e uma capacidade de auto-regeneração única. No fundo aprendemos a canalizar a energia deste sistema apenas para poucos elementos, que obviamente são interessantes para nós, sejam eles cereais, eucaliptos ou olivais. Quando o espaço é muito grande e o número de utilizadores é pequeno, esta fórmula até pode ser bastante razoável, por que se as pessoas destruírem um bocadinho de natureza e quando voltarem ao mesmo sítio já tudo tiver sido regenerado ecologicamente, não há qualquer problema. O problema é que esta modalidade acabou por arrombar o sistema, que deixou de ser capaz de produzir a energia que o faz funcionar.


E a Agrofloresta pode esta inverter essa realidade?
A agrofloresta é uma forma diferente de nos inserirmos na natureza, que já foi desenvolvida em Portugal na Idade Média, com aquele sistema que nos orgulhamos tanto, chamado montado. Este não é mais do que uma evidência, como que dizendo “vamos lá reagir, depois de termos destruído a natureza e os ecossistemas todos”. Aconteceu uma vez no Neolítico, outra, muito mais forte, a seguir ao Império Romano, e uma terceira depois de todo o período dos visigodos, seguido pelos árabes. Às tantas houve alguém que bateu com a mão na mesa e disse: e se nós tentássemos viver com o sistema?

O montado, por exemplo, é um sistema muito simplificado e muito domesticado, adaptado às nossas necessidades, mas é um sistema. A agrofloresta não é portanto mais do que a ideia de viver com um sistema natural, compreendendo-o e sendo nós também parte dele. Diria mesmo que a agrofloresta é hoje uma das expressões mais profundas da ética da agroecologia.

Em que sentido?
Por se opor a uma ética antropocentrada, muito maioritária no pensamento ocidental, que nos diz que não somos natureza, porque a natureza é violenta e selvagem e nós, por oposição, afastamo-nos dela, numa tentativa de nos divinizar. A natureza existe para a ordenarmos e para podermos usufruir dela. A ética da agroecologia é diferente, pois pressupõe umas determinadas capacidades para o homem, que os outros seres não têm, e isso dá-nos não só uma enorme responsabilidade, como nos coloca ao nível dos outros elementos da natureza, como parte dessa mesma natureza. Essa evidência é personalizada pela a árvore, o elemento vegetal que dura mais e é o motor deste sistema. São estes seres que, de forma bastante eficiente, conseguem fazer o milagre de transformar a luz do sol em matéria orgânica. Por isso, todos os outros reinos – o animal, os fungos, as bactérias, os protozoários – são complementares à árvore e ao reino vegetal. Um sistema que não tem este elemento central não é um sistema.

Fala-se muito do solo vivo e da sua importância para a humanidade, mas continuamos sem perceber que não há solo sem árvore. Quem alimenta o solo são as árvores e o sol funciona como uma bateria, pensada neste sistema para ser carregada através de um painel fotovoltaico que se chama biodiversidade e é formado por todos estes seres interrelacionados entre si.

E agricultura tradicional não permite o funcionamento desse regime?
Não porque inventámos uma outra forma de alimentar essa bateria, partindo o painel solar da biodiversidade, através de meios mecânicos e químicos, para a podermos usar de uma forma especulativa, muito contrária aos interesses das novas gerações.
É por isso que a agroecologia é uma ética e não um mero conjunto de técnicas. Mas é também uma abordagem prática, porque implica que aprendamos a viver com o sistema, e quem vive com o sistema é recolector, não é produtor.
Trata-se talvez da expressão mais atual dessa visão sistémica de não arrombar o sistema, mas sim perpetuá-lo, adaptando-o às nossas necessidades, mas sendo o homem, também um elemento ao seu serviço.

Há aqui duas ideias opostas, uma é que a ideia de domínio sobre a natureza, em oposto à agroecologia, é sinónimo de abundância. E depois há esta nova abordagem aos seres vivos e à importância que têm as plantas silvestres e os animais selvagens terão no sistema, de modo a garantir essa mesma abundância a longo prazo.

O mais possível. Na perspectiva antropocentrada o homem é o centro e só ele conta. Há uma ideia muito simples, que é a de imaginarmos que a dado momento chega um ser mais capacitado, com uma atitude perante a humanidade semelhante à que temos com a maioria dos nossos congéneres do reino animal. É um exercício simples e que pouca gente faz.

Acima de tudo é importante perceber a nossa iliteracia ecológica. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a ecologia não é uma mera ideologia de esquerda, mas sim uma ciência, criada precisamente para estudar o sistema que nos criou. E ao não reconhecermos isso ou ao não partilharmos esse conhecimento, assumimos uma posição apenas arrogante. E grande parte destas questões têm precisamente a ver com esse desconhecimento profundo da forma como o nosso sistema de vida e o planeta funcionam.

E como funciona afinal esse sistema?
Todos os ecossistemas são cíclicos, e todos eles vão acabar num estádio que designamos de deserto. O deserto é praticamente só minério, sem vida, porque não há matéria orgânica no solo. Os ecossistemas de deserto evoluem para um outro extremo que é o clímax, mas passando por uma fase intermédia que se chama acumulação. O clímax não significa maior quantidade, porque muitas vezes na fase de acumulação até há maior libertação de recursos, mas é seguramente a fase da eficiência. É importante percebermos que a atitude antropocentrada, ligada à agricultura industrial de monocultura, é a principal responsável pela delapidação destes recursos. E isto são dados científicos comprováveis, pois a parte terrestre do nosso planeta tem mais de 80% em condições de deserto, enquanto há doze mil anos, no Holoceno, tínhamos o quadro inverso, com 80% do planeta em estado de clímax.

Como é o caso do montado, que já referiu como exemplo desse conceito…
O montado é completamente uma agrofloresta, hoje muito querida por todas as pessoas que gostam deste tipo de conceitos, mas é também um símbolo. Foi criado na Idade Média e entretanto foi sendo aperfeiçoado até atingir esta última versão. é o que se chama um modelo de “sucessão dinâmica”, que serve não só para instalar o sistema e viver com o sistema, como também pretende e permite transformar rapidamente desertos em clímax. O sobreiro é um ser de clímax, que precisa de um sistema muito complexo, assim como o humano, para poder viver. E nós não percebemos estes conceitos básicos, assim como também não percebemos que, no Neolítico, entrámos pelo interior de Portugal e matámos tudo aquilo que se chama a megafauna, ou seja todos os animais maiores que nós, sem percebermos que estávamos a suprir uma ferramenta absolutamente essencial dos ecossistemas.

É curioso perceber que os miúdos conhecem os dinossauros todos mas não sabem os nomes dos animais que aqui viviam há quinhentos anos. Sem o sabermos, roubámos instrumentos fundamentais aos ecossistemas. Manipulámos os animais e os outros seres, vegetais, em função das nossas necessidades. Uma vaca, hoje, não é um instrumento num ecossistema, e cada vez que a domesticamos mais, mais lhe retiramos as capacidades de promoverem serviços no ecossistema.

Referiu que dois terços de Portugal são mato, mas que podem ser úteis. O que é possível fazer nessa parte do território?
Antes devemos perguntar-nos porque é que esses dois terços são mato, há quanto tempo o são e o que eram antes. A consequência desta abordagem não sistémica, de assaltar a natureza e de fazer agricultura é o mato, porque o mato é o deserto.

As plantas e os seres que nós vemos no mato são seres pioneiros, que estão a recuperar aquilo que nós estragámos. O drama disto é que em função das condições de clima e de sol cada uma destas etapas pode levar sete a setenta mil anos, e nas nossas condições de Mediterrâneo são mais para setenta do que para sete. Se apenas nos pusermos quietinhos a olhar para o mato à espera que regenere, vai demorar cinquenta mil anos. Não temos tempo para isso.

Aliás, a ideia que o homem só é capaz de destruir, não é capaz de regenerar activamente, não faz sentido. Não há nenhuma razão para que assim seja, por muito que haja algumas correntes de pensamento que gostem e utilizem essa ideia da origem maléfica da nossa espécie. Pelo contrário, somos tão capazes de destruir como de fazer coisas absolutamente maravilhosas. Esses dois terços já foram terras férteis, com florestas e bosques. Porque é que não comemos, por exemplo, plantas e frutos silvestres? A grande razão tem a ver com a agricultura. A agricultura do Neolítico levou à existência de mais humanos no Neolítico final. Mas esse entusiamo levou-nos à razia do ecossistema da Península Ibérica. O que se seguiu foram mais de dois mil anos de caos, de lei do mais forte, que apenas terminou com a chegada dos romanos, que convenceram os povos peninsulares que a comida do mato e do bosque, desse supermercado aberto que não podia ser taxado, não era boa. Fomos convencidos que a única comida boa era a domesticada e nunca mais se comeram bolotas nem produtos silvestres. Ou seja, virámos costas a uma diversidade enorme.

Tendo em conta o modelo económico que temos, como é que podemos encarar o consumo de bolota e de outros frutos silvestres no futuro?
Em primeiro lugar é preciso perceber que ninguém come trigo à dentada, na espiga. O trigo é um alimento extraordinário depois de transformado e processado em farinhas e noutro tipo de alimentos, portanto com a bolota há que se fazer o mesmo, aprender a processá-la e a transformá-la com utilidade prática. A questão da bolota é muito simples: no Mediterrâneo, uma área com carvalhos, por exemplo azinheiras e sobreiros, produz, mesmo com uma densidade baixa de árvores, mais quantidade de alimento do que qualquer cereal e sem gastar energia nas mobilizações de solo, sem provocar erosão, sem adubos, sem barragens e sem tubos. A bolota é tão interessante para a alimentação humana como qualquer cereal.

E a ideia de que se tem estar sempre a limpar, que sentido faz, tendo em conta que se devia aproveitar aquela biomassa?
Numa abordagem de monocultura, a limpeza não é mais do que retirar elementos do sistema para o poder controlar melhor. Normalmente aquilo a que chamamos limpezas são elementos do sistema que vão alimentar o solo. Quando comecei a fazer agricultura nos Açores, os meus colegas começaram a perguntar algo muito interessante, sobre a ração que eu tinha para o solo naquele ano, porque ali a noção que o solo, se não for alimentado – e não é com adubos – vai acabar.

Ou seja, para alimentar o mundo não é preciso recorrer aos transgénicos.
De forma alguma. Para alimentar o mundo é preciso, em primeiro lugar, percebermos o que é que comemos. Essa variável é fundamental. Outra questão é percebermos que somos a única espécie que não atende aos recursos quando pensa em multiplicar-se. Isto vem da tal divinação do ser humano. Se calhar temos de ter a consciência que com o planeta em 20% de clímax e 80% de deserto, se calhar não podemos ser tantos quantos gostaríamos de ser.

A não ser que se reverta...
E que nós caminhemos para a abundância. Mas mesmo assim temos de ter uma bitola para percebermos conscientemente e com métodos libertários, que nenhum ser neste planeta atua como nós. Não há nenhuma espécie que não atenda à forma como se reproduz em relação aos recursos que existem.

Se não houver recursos, vamos sofrer. Sendo que a questão fundamental passa pelo relacionamento entre nós próprios. Como diz o Papa Francisco é uma questão social. Nós nunca vamos reverter esta posição de domínio perante a natureza se não a invertermos entre nós próprios. Não somos iguais a um mosquito, porque temos funções diferentes no ecossistema, mas como São Francisco de Assis tão bem nos mostrou, também não somos nem mais nem menos que um mosquito, pelo que não podemos ter a arrogância de matar milhões de mosquitos apenas porque interessa fazer negócio.

Saber mais:

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Esgotamento de oxigénio. Um cisne negro?


1. Nos últimos 20 anos, a quantidade de oxigénio na atmosfera da Terra tem diminuído. Embora a queda possa parecer pequena agora, não temos a certeza de como esta tendência poderá evoluir no futuro.

2. A investigação sugere que este declínio no oxigénio pode acelerar ao longo do tempo. 

3. Se esta tendência continuar, os humanos poderão sobreviver na atmosfera atual por mais cerca de 3.600 anos.

4. A redução do oxigénio é apenas uma das muitas mudanças ambientais. Também estamos a ver mais dióxido de carbono no ar, aumento das temperaturas, padrões climáticos imprevisíveis e degelo das calotas polares. Todas estas mudanças estão interligadas e podem ter consequências graves para o nosso futuro.

5. As alterações na nossa atmosfera, incluindo a diminuição dos níveis de oxigénio, são sinais de que precisamos de estar mais conscientes das nossas ações.

Segundo o estudo, conclui que se nada fizermos, o futuro dos humanos na Terra poderá estar em risco.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Cartaz da Semana


O cartaz é injusto. Injusto porque há milhões de vegetarianos, milhões andar de bicicleta para o trabalho, milhares de ONG e colectivos na defesa da biodiversidade, muitos líderes ambientais são assassinados, milhões de pessoas com hábitos "ecofriendly" (cozinham a forno solar, permacultores, praticam a agricultura biológica, simplicidade voluntária, minimalistas, etc.), milhares são contra o glifosato e os OGM, milhares recusam os aviões, centenas de académicos produziram resultados que nos tornam apreensivos em relação às consequências do aquecimento global e ao colapso dos insectos e das aves. A extinção maciça de outras espécies, etc...
E o que vemos, em particular, Portugal? Um travão e uma marcha atrás que  amputa os objectivos já descritos. Com o SIMPLEX Ambiental, o Governo está a incumprir os seus compromissos internacionais, nomeadamente a Convenção de Aarhus sobre o acesso à informação, participação do público nos processos de tomada de decisão e acesso à justiça em matéria de ambiente. Assim não dá.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

O discurso sobre o estado da União de Ursula von der Leyen esconde retrocessos, atrasos e promessas quebradas


Promessas não cumpridas
1. Futuro livre de tóxicos: Ao adiar a revisão do REACH, o regulamento da UE relativo aos produtos químicos, a Comissão está a apoiar o modelo de crescimento ultrapassado que deixa para trás os cidadãos e as gerações futuras. Tal como mostram os escândalos do PFAS, os atrasos na reforma da regulamentação dos produtos químicos causam sofrimento e doenças, e impedem a indústria da UE de se tornar líder mundial na produção limpa.

2. Alimentação Sustentável: A Estratégia do Prado ao Prato da UE comprometeu-se com uma Lei de Sistemas Alimentares Sustentáveis. O atual sistema alimentar causa poluição, dietas inadequadas e desigualdade. A promessa de consertar isso ainda não foi cumprida.

3. Transição energética: As concessões às indústrias do hidrogénio e nuclear nos regulamentos sobre energias renováveis ​​e nos atos delegados sobre o hidrogénio dão prioridade aos lucros das grandes empresas de energia em detrimento das energias renováveis ​​e da modernização da rede. Recursos valiosos são desviados, em vez de se concentrarem no combustível do futuro: a electricidade renovável.

4. Matérias-primas críticas: A UE prometeu reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros de terras raras com padrões elevados. A ausência de compromissos vinculativos, como o Consentimento Livre, Prévio e Informado, levanta preocupações sobre o consentimento dos povos indígenas.

5. Restauração da Natureza: Enquanto o discurso de Ursula von der Leyen fala da importância da natureza e dos ecossistemas, o Parlamento Europeu eviscerou a sua legislação. Os trílogos devem restaurar a ambição da Lei de Restauração da Natureza.

6. Acesso à justiça: Apesar das promessas, a Comissão não introduziu uma diretiva prometida para garantir o acesso mínimo à justiça para questões ambientais nos Estados-Membros. Também não conseguiu garantir o acesso à justiça para as propostas Fit for 55, minando a política climática e favorecendo a indústria em detrimento da governação ambiental.

7. Bem-estar animal: Milhões de animais sofrem diariamente num sistema ultrapassado. A Comissão comprometeu-se a atualizar a legislação relativa ao bem-estar dos animais, mas parece estar a ignorar este compromisso, apesar de 1,4 milhões de cidadãos apoiarem a iniciativa “End the Cage Age”.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Biocidas- Crisopa

 Chrysoperla carnea

Chrysoperla carnea, uma das espécies de crisopídeo verde comum, é um inseto da família Chrysopidae. Embora os adultos se alimentem de néctar, pólen e melada de pulgões, as larvas são predadores ativos e alimentam-se de pulgões, insetos e seus ovos.