A dimensão conceptual da música atingiu o seu cume em 2016 com o lançamento do seu aclamado videoclipe, concebido e realizado pela dupla artística franco-belga GERIKO, composta por Hélène Jeudy e Antoine Caëcke. Situada num ano de 2100 assolado pela sobrepopulação extrema e pela rutura de recursos do planeta, a curta-metragem de animação apresenta uma solução estatal distópica: a criação da Anvil, uma rede social pós-morte onde a consciência dos cidadãos é digitalizada e armazenada num servidor público, exigindo contudo a eutanásia e desmaterialização do seu corpo físico. A narrativa acompanha os instantes finais de uma jovem mulher na Terra antes da sua transição para a rede digital, confrontando o espectador com a fronteira entre o alívio de uma imortalidade virtual e a tragédia do aniquilamento da condição humana tangível.
Do ponto de vista filosófico e literário, a obra mergulha profundamente nas correntes do transumanismo e do pós-humanismo, questionando os limites do mind uploading e a mercantilização da própria existência. A narrativa reflete as teorias socio-filosóficas sobre biopolítica e controlo estatal dos corpos, bem como as noções de hiperrealidade e simulação formuladas por pensadores como Jean Baudrillard. No plano literário e estético, "Anvil" bebe do universo cyberpunk de autores fundamentais como William Gibson e Philip K. Dick, combinando-o com uma linguagem visual marcante inspirada no traço arquitetónico de François Schuiten (As Cidades Obscuras) e na estética do manga e anime de culto japonês, nomeadamente as obras de Katsuhiro Otomo (Akira) e Masamune Shirow (Ghost in the Shell)