A canção "All Souls Day", da dupla nova-iorquina Ghost Cop - constituída pela vocalista e compositora Lucy Swope e pelo produtor Sean Dack -, movimenta-se entre os universos do dark synthpop, do synthwave e do pós-punk eletrónico. O seu som é frequentemente associado à estética da Tragic Wave, uma vertente da darkwave que cruza ritmos dançáveis com um dramatismo profundo e lírico, traduzindo a postura daquilo a que a própria banda chama "feel-bad dance music". Paralelamente, a herança da cena de Nova Iorque faz sobressair influências do movimento No Wave, perceptíveis nas linhas de baixo frias e repetitivas, na produção minimalista e numa atitude crua e niilista que rejeita a polidez do synthpop comercial.
O título da faixa faz referência direta ao Dia de Finados, servindo de metáfora para o luto por versões passadas de si mesmo, o isolamento urbano e a convivência com memórias e traumas antigos. No plano visual, o videoclipe oficial - realizado e dirigido pelos próprios membros da banda, Sean Dack e Lucy Swope - adota uma estética cinematográfica inspirada no cinema giallo, no terror B dos anos 80 e na fotografia cyberpunk, recorrendo a cenários claustrofóbicos e luzes de néon para materializar um purgatório mental urbano.
Do ponto de vista concetual, a obra constrói um ecossistema filosófico e literário denso, sustentado em três eixos fundamentais:
- Existencialismo e Angústia (Sartre e Camus): ao confrontar o ouvinte com a finitude, o vazio e a repetição de padrões emocionais, a narrativa lírica aproxima-se das noções de náusea de Jean-Paul Sartre e do absurdo de Albert Camus. A canção explora o peso da responsabilidade e da liberdade individual num mundo desprovido de sentido transcendente, onde o indivíduo se encontra isolado, obrigado a encarar a angústia da sua própria existência e a dor de não conseguir escapar a si mesmo.
- Romantismo Sombrio e Gótico Urbano (Poe e Baudelaire): A atmosfera da faixa recupera a obsessão pela decadência, pelo luto e pela beleza trágica. Tal como nos contos de Edgar Allan Poe, há uma atração fatalista pelo mórbido e pelos fantasmas interiores da psique. Simultaneamente, a obra dialoga com o gótico urbano de Charles Baudelaire e o seu conceito de spleen - a melancolia profunda e o tédio existencial gerados pelo isolamento na metrópole moderna, onde a multidão intensifica a solidão do indivíduo.
- Fantologia e Textura Sonora (Hauntology / Mark Fisher): Toda esta estrutura culmina numa manifestação do conceito de hauntology (fantologia), teorizado por Jacques Derrida e aplicado à música por Mark Fisher. Esta dimensão não se revela apenas na letra, mas na própria escolha dos instrumentos: ao utilizar sintetizadores analógicos retro, baixos sintetizados ásperos e texturas sonoras vintage, os Ghost Cop invocam a estética de uma época passada que já não existe. O som funciona como uma "fantasmagoria tecnológica", onde os timbres analógicos carregam uma nostalgia assustadora — o presente surge bloqueado e continuamente assombrado pelos escombros de relações findadas, por versões mortas de si próprio e por promessas de futuros que nunca se chegaram a concretizar.