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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Estudo que negava riscos do glifosato é retirado após 25 anos de alertas

O mundo da ciência e da regulação ambiental sofreu um abalo significativo com a retratação formal de um dos estudos mais influentes de sempre sobre a segurança do glifosato. Publicado originalmente no ano 2000 na revista científica Regulatory Toxicology and Pharmacology, o artigo assinado pelos investigadores Williams, Kroes e Munro — que podes consultar no arquivo original da ScienceDirect — serviu, durante um quarto de século, como o principal escudo científico para afirmar que o herbicida Roundup não representava riscos de cancro ou toxicidade para os seres humanos. Agora, conforme reportado recentemente pelo jornal Público e no The Guardian, a própria revista decidiu retirar o estudo, admitindo que o processo foi marcado por má conduta ética.

A decisão de retratar o estudo surge após décadas de pressão por parte de cientistas independentes e da revelação de documentos internos da Monsanto, conhecidos como "Monsanto Papers". Estes documentos, que vieram a público durante processos judiciais nos Estados Unidos, revelaram que funcionários da multinacional estiveram diretamente envolvidos na redação, revisão e edição do texto original. Esta prática, conhecida como ghostwriting (escrita fantasma), foi ocultada na altura, apresentando o estudo como o trabalho de académicos independentes quando, na verdade, houve uma intervenção direta da empresa interessada no veredito de segurança.

Para além da escrita fantasma, a nota de retratação oficial emitida pela editora Elsevier aponta para falhas graves na integridade dos dados e na transparência. O estudo de 2000 baseou-se quase exclusivamente em relatórios internos não publicados da própria Monsanto, ignorando evidências científicas que já na altura sugeriam potenciais efeitos adversos. A falta de declaração de conflitos de interesse foi outro fator decisivo: os autores não revelaram que foram pagos pela empresa nem que o desenho da investigação foi influenciado pela estratégia de marketing e defesa legal da marca.

O impacto desta decisão é profundo, uma vez que este artigo foi citado em mais de 700 outros estudos e serviu de base para decisões regulatórias críticas em agências como a EPA nos Estados Unidos e a EFSA na União Europeia. Embora muitas destas agências continuem a manter a aprovação do glifosato baseando-se em avaliações mais recentes, a retirada deste "estudo seminal" desmorona o fundamento histórico que permitiu a normalização do uso massivo do herbicida a nível global. Para a comunidade científica e para organizações como o Pesticide Action Network, o caso serve como um aviso severo sobre os perigos da influência corporativa na ciência que dita as políticas públicas de saúde.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Tentativa de debater as ideias de José Rodrigues dos Santos sem cair no bullying - depois me dirão se falhei, e como, e porquê

Por Helena Araújo


José Rodrigues dos Santos queixa-se de que está a ser vítima de uma "nova campanha de ódio" e que está "habituado a ver práticas de bullying e intimidação contra tudo o que se atreva a desviar-se do conhecimento 'autorizado' ", e decidiu reagir para não deixar que o ódio e a mentira prevaleçam e a desinformação prossiga.

Confesso que já me ri muito, especialmente da primeira vez que o vi a imitar um nazi com alegadas preocupações humanistas. Mas agora vou-me emendar, atentar às suas explicações, e comentar apenas aquilo que ele afirma. Sem bullying nem intimidação sem ódio nem desinformação.
Depois me dirão se consegui.

* Questão prévia, dirigida à RTP:
Quanto custa um minuto de publicidade na televisão pública estatal à hora a que a Grande Entrevista com José Rodrigues dos Santos foi transmitida? Quanto custam 23 minutos de publicidade?
Poderão dizer que o Holocausto é um tema que interessa o grande público, e nesse caso, pergunto: foi feita igual entrevista à historiadora Irene Pimentel, que recentemente publicou um livro sobre o Holocausto? E ao escritor João Pinto Coelho, que já fez vários romances nos quais o Holocausto é um tema central? Caso me respondam que sim, já cá não está quem falou. Caso me respondam que não é possível estar sempre a convidar pessoas para falar sobre o mesmo tema, pergunto quais foram os critérios que levaram à escolha de José Rodrigues dos Santos para falar do Holocausto (têm de ser critérios muito sólidos, uma vez que a RTP corre o risco de ser acusada de estar a usar dinheiros públicos para beneficiar os negócios privados de um dos seus).

Antes de continuar para o tema que aqui nos traz, pergunto: que elementos de ódio, bullying, intimidação e desinformação encontraram no que acabei de escrever?

Passemos então para a análise do discurso de José Rodrigues dos Santos:

* Os nazis que invocaram razões humanitárias


Parece-me que não minto se afirmar que José Rodrigues dos Santos disse mesmo que "os nazis invocaram razões humanitárias para conceber os gaseamentos/o extermínio" - certo? O problema é que: 1. Passar de uma carta escrita por um oficial SS para "os nazis" é uma generalização abusiva.
2. A formulação "seria mais humano" aparece numa carta toda ela profundamente desumana (a saber: "seria mais humano" vem imediatamente antes de "acabar com os judeus não aptos para trabalho", sendo que matar os judeus rapidamente "seria mais agradável"; logo a seguir, propõe esterilizar todas as mulheres em idade fértil. Quem quiser ler o documento completo, encontra-o neste post, traduzido do original alemão para português).
Para poder concluir e afirmar que este oficial SS "invoca razões humanitárias", é preciso fazer questão de ignorar olimpicamente todos os contextos: o do próprio texto, o que sabemos sobre o modo como os nazis trataram os judeus, e o que sabemos sobre o modo como aquele nazi concreto tratou os judeus sob a sua jurisdição.

3. Para além deste "seria mais humano" de uma carta de um oficial inferior que não deixa dúvidas sobre o absoluto desprezo que este votava aos judeus, JRS não apresentou até agora mais nenhuma prova para firmar a sua conclusão sobre as "razões humanitárias" "invocadas" "pelos nazis" (com aspas nas expressões que ele usa).
Teria sido conveniente ter mais provas, e mais convincentes, antes de ir à televisão fazer uma afirmação que é, digamos, absolutamente revolucionária, e que contradiz tudo o que até hoje se aprendeu em trabalhos sérios de investigação sobre o Holocausto.

Em suma: a frase
"os nazis invocaram razões humanitárias para conceber os gaseamentos/o extermínio"
está toda errada.

Com base no documento que apresenta, José Rodrigues dos Santos só podia dizer que
"por estranho que pareça, o oficial SS Rolf Hoppner incluiu uma expressão que invoca valores humanitários numa carta que está nos antípodas do humanitarismo"

Chegados aqui, pergunto: que elementos de ódio, bullying, intimidação e desinformação encontraram no modo como argumentei?
Podemos passar ao ponto seguinte?

* A piscina, o bordel, e o negacionismo

Do post de José Rodrigues dos Santos:

Isso mesmo, vamos por partes.
Antes de mais: estamos a falar do Holocausto - certo?
Estamos a falar dos judeus - certo?
Começaremos então por informar que os prisioneiros dos campos não eram tratados todos da mesma maneira. O sistema impunha que os judeus fossem tratados com ainda mais crueldade que os outros prisioneiros. O bordel e a "piscina" estavam-lhes expressamente vedados. Outros prisioneiros tinham um tratamento menos terrível (há até quem diga que tinham "privilégios" e "prémios", o que são palavras estranhas naquela realidade, mas seja).

Sobre a "piscina", José Rodrigues dos Santos vai buscar o testemunho de Ryszard Dacko: ‘Havia uma piscina em Auschwitz para os bombeiros’, confirma Ryszard Dacko. ‘Eu podia nadar lá’” (página 253). O senhor Dacko era um prisioneiro em Auschwitz, esclareceu Rees. Como já vi que Irene Pimentel não está a par do assunto, informo-a que a dita “piscina” se situava no Stammlager. (...) Pode ver imagens da “piscina” do Stammlager neste link do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Vlyp3MqGJAg.

Convenhamos que a frase sobre a historiadora Irene Pimentel não estar a par do assunto fica mal a quem se queixa do bullying das redes sociais, mas adiante.
Irene Pimentel, que acaba de publicar um livro sobre o Holocausto, afirma que em Auschwitz-Birkenau não havia piscinas. José Rodrigues dos Santos rebate, dizendo que o bombeiro Ryszard Dacko podia nadar na "piscina". O que é verdade: porque era bombeiro (ou seja: tinha certos "privilégios") e - factor decisivo - não era judeu.
JRS informa ainda que a piscina se encontra no Stammlager (que é Auschwitz I e não o campo Auschwitz-Birkenau de que a historiadora falava) e partilha um link com um filme da dita piscina, que vem acompanhado pelas seguintes informações: "This water retention tank was built at the Auschwitz base camp in 1944 as the danger of Allied air raids became greater. Water retention tanks had become increasingly common throughout the Reich following the Hamburg fire raids of July 1943. The SS used this as a swimming pool and had a diving board installed. This pool is behind block eight and would have been completely off bounds for prisoners."
Parece-me curioso que José Rodrigues dos Santos acuse Irene Pimentel de estar mal informada ao mesmo tempo que partilha um link que afirma o contrário do que ele próprio diz, concretamente: aquela piscina era só para os SS, e proibida aos prisioneiros.

Em todo o caso: sim, havia "piscinas" em Auschwitz. Mas - até que o José Rodrigues dos Santos apresente prova em contrário - não eram para os judeus. O que confirma a afirmação de Irene Pimentel referindo-se à máquina do Holocausto: em Auschwitz-Birkenau não havia piscinas.
Sobre os bordéis, o assunto podia resolver-se rapidamente, porque é o próprio José Rodrigues dos Santos que diz que os judeus não os podiam frequentar: “os detidos, salvo os judeus a quem tal era interdito, compravam o direito de frequentar os bordéis através de bilhetes entregues em função do seu trabalho”.

No entanto, acrescento algumas linhas sobre o assunto, porque há trabalhos recentes que lançam uma nova luz sobre o tema, e acredito que tenha interesse para os leitores.

Passando para um plano dos campos de concentração não abrangido pela máquina do Holocausto, que é o plano dos prisioneiros não judeus, João Pinto Coelho diz:
"mesmo os bordéis criados nalguns campos para “premiar” os mais produtivos não passavam de um embuste, um lugar de humilhação para os prisioneiros, ou mais um exemplo do cinismo e crueldade dos nazis. Oiçam-se as vítimas, pela voz de uma de muitas - Jozef Szajna: «Os bordéis eram apenas mais uma forma de os SS atormentarem os prisioneiros. Todos os que pensam que o bloco 24 era uma espécie de prenda para os prisioneiros, não fazem a mínima ideia do que foi Auschwitz.»"

José Rodrigues dos Santos responde que não é bem assim: "nem todos os prisioneiros masculinos encaravam o bordel como uma tormenta (...), Eugen Kogon (...) escreveu no seu livro L’État SS (...) que “o objetivo desta iniciativa (o bordel) era corromper os detidos políticos cuja influência se tornava dominante no campo”, (...) Os bordéis não eram necessariamente punições, meu caro. Eram concebidos como um prémio para os prisioneiros masculinos que se portavam bem (segundo os padrões das SS, claro). Escreve Laurence Rees no seu Auschwitz – The Nazis and the ‘Final Solution’: “Himmler decidiu que fornecer bordéis à rede de campos de concentração iria aumentar a produtividade dos prisioneiros ‘empenhados no trabalho’ (‘hard-working’ prisoners), excluindo os judeus, oferecendo-lhes assim um incentivo para trabalharem mais” (página 249). Com isto não estou a dizer que acho o bordel um prémio (como decerto será apressadamente dito se eu não fizer este esclarecimento), mas que os SS conceberam o bordel como um prémio e que decerto a generalidade dos prisioneiros masculinos que o frequentavam assim o encaravam (de tal modo que pagavam de livre vontade dois marcos para lá ir, pois a ida ao bordel não era compulsiva mas voluntária e apenas acessível a quem se “portava bem”). Rees entrevistou até um prisioneiro polaco, Józef Paczynski, que afirmou ter-se “rido” (página 250) quando soube do bordel, e foi um frequentador do dito estabelecimento, tendo descrito a Rees em pormenor o que aconteceu quando lá foi da primeira vez e conheceu uma “rapariga bonita e elegante” (elegant, good-looking girl) (página 250). Concluiu João Pinto Coelho: “todos os que pensam que o bloco 24 era uma espécie de prenda para os prisioneiros, não fazem a mínima ideia do que foi Auschwitz”. O João faz?"

Esta última pergunta é mais uma das que fica mal em quem se queixa do bullying nas redes sociais. E é também um enorme tiro pela culatra, porque a frase "todos os que pensam que o bloco 24 era uma espécie de prenda para os prisioneiros, não fazem a mínima ideia do que foi Auschwitz” não é de João Pinto Coelho, mas de Jozef Szajna, que esteve preso em vários campos (entre os quais Auschwitz e Buchenwald) desde 1940 até à fuga durante uma marcha da morte em 1945. E aqui temos JRS a questionar de forma muito infeliz se Jozef Szajna faz a mínima ideia do que foi Auschwitz.

Há investigação recente sobre o sistema de bordéis nos campos de concentração, que coincide com aquilo que Jozef Szajna afirmou, e à qual JRS aparentemente não teve acesso, porque não a inclui na resposta que dá a João Pinto Coelho. O que hoje se sabe é que o bordel foi mais uma das ideias perversas do sistema nazi, com o objectivo de aumentar a produtividade dos prisioneiros. A ideia falhou porque, por um lado, muitos dos prisioneiros que pretendia aliciar tinham um sentido de dignidade que não lhes permitia colaborar com tamanha perversão e, por outro lado, pessoas literalmente a morrer de fome e de frio não conseguiam aumentar a produtividade, e não tinham energia para o acto sexual. Os bordéis existiram nos campos, mas não tiveram os resultados que os seus mentores nazis esperavam.

Traduzo de uma entrevista na Süddeutsche Zeitung a Robert Sommer, autor de um estudo mais recente sobre os bordéis dos campos de concentração nazis, algumas passagens que confirmam as afirmações de João Pinto Coelho:

"O homem tinha 10 a 15 minutos. Havia regras para visitar um bordel: o prisioneiro tinha de baixar as calças, não podia ir de sapatos para a cama, não podia falar, só podia praticar a posição de missionário. Havia vigias nas portas, que o SS de vigilância no corredor usava para supervisionar o cumprimento das regras. Há relatos de prisioneiros sobre homens das SS que tinham um prazer particular nessa prática de voyeurismo. O chefe do campo de concentração de Sachsenhausen, August Kolb, era bem conhecido por isso. (...) O caso de Buchenwald mostra que no início o bordel foi muito concorrido. Mas os números de visitas baixaram rapidamente. A princípio, o bordel foi um grande acontecimento no campo de concentração. Para os prisioneiros que tinham meios monetários e saúde física para o frequentar, era aliciante ir conhecê-lo. E não o faziam necessariamente pelo sexo. Muitas vezes os homens queriam o contacto humano, ver ou falar de novo com uma mulher. Muitos dos prisioneiros já estavam há vários anos no campo de concentração, e a visita ao bordel podia ser o primeiro contacto de sempre com uma mulher. (...) À medida que a guerra avançava, cada vez menos prisioneiros tinham condição física para poder visitar um bordel. O sistema de bordel também foi desmistificado. Muitos homens sabiam que as mulheres tinham sido atraídas para o bordel com falsas promessas, ou tinham sido obrigadas. Além disso, o funcionamento do bordel do campo nada tinha a ver com o erotismo. A visita era um acto de abuso sexual sob vigilância total da SS, e um acto de humilhação. Também para os homens."

Passando agora para a questão do negacionismo, de que José Rodrigues dos Santos é acusado por Irene Pimentel (entre muitos outros), recordo que a pergunta do entrevistador foi:
- Em situação limite as pessoas habituam-se a tudo, mesmo ao horror absoluto?
A resposta de José Rodrigues dos Santos é (e omito a parte relativa aos chefes e ao pessoal da máquina nazi):
- Chegou ao ponto em que tinham um bordel no campo, que aliás aparece no romance, tinham uma piscina para os prisioneiros - e o bordel era para os prisioneiros, atenção. Uma escola para as crianças judias no Familienlager, em Birkenau. E nós ficamos assim um bocado...
Quer dizer: havia uma normalização disso.

José Rodrigues dos Santos não se deve ter dado conta de que, ao usar na televisão a palavra "piscinas" para designar reservatórios de incêndio que podiam ser usados por alguns prisioneiros "privilegiados", está a remeter os menos informados para um imaginário de estância de lazer. Provavelmente também não estaria ciente de que os bordéis e os reservatórios de água eram estritamente proibidos aos judeus. Ou então não soube explicar bem, durante a entrevista e nas explicações subsequentes, quando é que estava a falar dos prisioneiros em geral e quando é que estava a falar do Holocausto. O que não tem grande importância - qualquer um comete erros. O problema é que "os bordéis e as piscinas" são um dos argumentos que os negacionistas usam para dizer que Auschwitz não era tão mau como afirma o "discurso oficial" (José Rodrigues dos Santos diz: o conhecimento "autorizado" / o discurso político-mediático).
Mesmo que não tenha feito de propósito, e acredito que não, ao falar com esta leveza nos bordeis, nas piscinas, e ao chamar conhecimento "autorizado" e discurso político-mediático aos resultados dos estudos académicos sobre o Holocausto, José Rodrigues dos Santos aproximou-se perigosamente da retórica dos negacionistas.

Se pode ou não ser acusado de negacionismo, não sei. Sei apenas que, se na Alemanha alguém falasse na televisão nestes termos, isso era um escândalo nacional, e seria com certeza levado a tribunal, para este responder ao país com um veredicto. Chegados aqui, pergunto: que elementos de ódio, bullying, intimidação e desinformação encontraram no modo como argumentei? Podemos passar ao ponto seguinte?

* A "normalidade" dos campos de concentração

Permitam-me usar um exemplo próximo do nosso tempo, que talvez permita entender mais facilmente porque é que critico o discurso de José Rodrigues dos Santos quando fala na "normalidade" e na "adaptação a condições adversas". Imaginemos que estamos a falar das mulheres que foram apanhadas na rede de uma máfia da prostituição e passam a viver dominadas por um gang que exerce sobre elas permanente pressão psicológica e violência física, tornando-as escravas sexuais obrigadas a prostituir-se nas ruas.

Imaginemos que a falar sobre a vida destas escravizadas, José Rodrigues dos Santos diria que essa é a "vida quotidiana à qual as mulheres se adaptam". Revelaria a confidência que lhe fez uma dessas escravizadas: a primeira violação doeu, mas à décima já quase nem reparou e até continuou a palitar os dentes. Citaria testemunhos de outras escravizadas: “Habituámo-nos àquela rotina. Tornou-se absolutamente normal, como se a vida fosse mesmo assim”. Falaria com uma antiga escravizada sobre este assunto da adaptação e normalização da experiência de viver como escrava sexual, e partilharia connosco a sua resposta: “Jose, I think you opened a can of worms. The problem is only that your readership will not be used to reading this type of gruesome normality. I agree that, the first time, I was horrified. Later on, it was part of the scenery.” José Rodrigues dos Santos diria ainda com toda a desenvoltura, falando das mulheres capturadas por um gang para serem usadas como prostitutas: "Importa explicar que a adaptabilidade dos seres humanos a condições adversas é um tema muito estudado na psicologia e na biologia, e dado como amplamente documentado. Aliás, a teoria da evolução assenta justamente no conceito de adaptabilidade e negar a adaptabilidade natural dos seres vivos é negar o próprio evolucionismo. Não sobrevive quem é mais forte, sobrevive quem se adapta melhor. É próprio dos seres vivos, incluindo os seres humanos, adaptarem-se às condições adversas que enfrentam, e [as mulheres que foram feitas escravas sexuais] não constituem, como é óbvio, exceção.

Nada do que José Rodrigues dos Santos diz aqui é mentira. Ninguém põe em causa que as mulheres a viver nestas condições se vejam obrigadas a arranjar estratégias psicológicas para conseguir sobreviver numa situação de crueldade omnipresente. O que se critica é a leveza do discurso, e a total insensibilidade perante o horror de que está a falar. O que se critica é omitir do seu discurso sobre "adaptação" e "normalidade" as sequelas gravíssimas que nunca mais deixarão de atormentar aquelas pessoas.
Passando para o plano original no qual aquele discurso é emitido, o do Holocausto, o que se critica é a indecência de falar nestes termos de um sofrimento que está muito para além do que podemos imaginar, provocado por um máquina genocida tão eficiente quanto sádica, à qual se chama, não por acaso, "mal absoluto".

[ ADENDA: várias horas depois de escrever este post, ao ler o capítulo "Questões éticas na Psicologia do Trauma" do livro Posttraumatische Belastungsstörungen, de Andreas Maercker, dei-me finalmente conta do cinismo subjacente ao discurso de José Rodrigues dos Santos sobre a capacidade de adaptação das pessoas a condições adversas ser fundamental para a sobrevivência. Afirmar isso equivale a fazer victim blaming das pessoas que foram parar às câmaras de gás, ou morreram de frio, ou de tifo, ou de fome, ou de exaustão, ou a tiro, ou de uma das tantas formas que havia em Auschwitz-Birkenau para (e agora cito aquele famoso o nazi humanista) "acabar com os judeus". ]

Chegados aqui, pergunto: que elementos de ódio, bullying, intimidação e desinformação encontraram no modo como argumentei?

Este post já vai muito longo. Mas tenho de partilhar o que Luísa Semedo escreveu (aqui) sobre aquilo a que José Rodrigues dos Santos chama "a normalidade nos campos de concentração":

"JRS insiste na capacidade do ser humano a adaptar-se ao horror como algo de positivo. Mas a adaptação ao horror não pode ser vista dessa forma, não significa de todo que o horror já não faz mal, a verdade é que o cérebro acaba por ficar como se estivesse anestesiado, mais nada, por vezes há até um desdobramento de personalidade.
A prova de que não existe verdadeira adaptação benigna são as síndromes pós-traumáticas, os pesadelos que duram anos, a inadaptação à nova vida, inclusive em torcionários forçados, como por exemplo no caso das crianças-soldado, existe vasta literatura sobre este tema como o interessante trabalho de Françoise Sironi ou de Mouzayan Osseiran-Houbballah. Em « Une saison de machettes » sobre o genocídio do Rwanda Jean Hatzfeld escreve “Um homem pode acostumar-se a matar, se ele matar sem parar. Ele pode até transformar-se num animal sem prestar atenção. " A verdade é esta, a adaptação não é mais do que a humanidade em suspenso de forma momentânea ou perene.
Portanto esta adaptação que JRS vê como algo de positivo, e que mais uma vez lhe serve para minimizar o sofrimento dos prisoneiros destrói vidas até anos depois.
Na entrevista à RTP cita Werner Reich reduzindo a sua experiência a “a gente vai-se habituando” ou “não era muito pior do que isto”, mas WR já deu várias entrevistas, já deu várias palestras em escolas e o teor do seu testemunho é outro:
“Ainda consigo ouvir os gritos e cheirar os corpos que queimam.”
“Amávamos qualquer coisa que nos pudesse afastar de Auschwitz por um momento, que nos pudesse tirar das nossas mentes, das nossas memórias e do horror ao nosso redor.”
“Eu estava numa cela no 3.º piso, olhei pela janela, para o pátio e vi a minha mãe com outras mulheres. Nunca mais a vi.”
“Tudo o que sei é que ela morreu num campo, não quis ir mais longe. Gosto de acreditar que ela morreu de ataque cardíaco, numa cela. Vi o pior do pior e não quero colocá-la nessas situações”
“Foi levado para uma cela, onde foi espancado, por um homem “que se divertia” a fazê-lo chorar. “
“Às vezes, a plataforma de cima partia e caía no segundo nível e este partia e caía no de baixo e às vezes estas pessoas morriam esmagadas. Havia constantemente urina e fezes a cair de um nível para o outro”. A fraquíssima alimentação — pouco mais que água escura com batatas ou nabos a boiar e um bocado de pão de manhã e à noite, cerca de 400 calorias por dia — provocava desinteria, fraqueza e morte.”
“Se virem algo errado, falem. Se não dizem nada, porque acham que não vos diz respeito, estão enganados”
Existe um livro ilustrado de 2014 de Kathy Kacer com o mesmo título do livro de JRS e que conta a história de Werner Reich e de Herr Levin, o mesmo personagem do livro de JRS. Kathy Kacer é uma ex-psicóloga, que se dedica a falar da memória do Holocausto a crianças e adultos porque é filha de sobreviventes do Holocausto tendo já escrito mais de 20 livros sobre o tema e que diz o seguinte “A cada vez que lembras esta história, e que falas nela, estás a honrar alguém que viveu ou que possivelmente morreu nesse tempo.”
JRS parece não ter compreendido que há temas que requerem que o autor se ponha ao seu serviço e não o contrário."

sábado, 12 de dezembro de 2020

Momento de Mesquinhez

Por Helena Araújo

Bem sei que estou a ser mesquinha, e que isto é um detalhe sem importância, mas é muito cómico:

José Rodrigues dos Santos escreveu de novo a rebater os argumentos de quem critica o modo como falou do Holocausto e as informações que deu na famosa entrevista da RTP. Como não podia deixar de ser, começa por dizer que se lermos os livros dele vamos compreender melhor (nem sei porque é que ainda me surpreendo). Depois, bastante mais à frente, em resposta a João Pinto Coelho, diz:
"Quanto a eu ter dito “nenhum autor português escreveu sobre o assunto”, o que eu disse na entrevista à RTP foi que “não estou a ver nenhum autor muito conhecido que tenha ainda tratado o tema”, mencionando José Saramago e Lobo Antunes. Já vi que se considera nessa categoria, e não o vou desmentir porque acho muito bem que seja um homem confiante e que acredite em si e nas suas capacidades (...)."
Se bem me lembro, aquela parte da entrevista era para explicar porque é que decidiu escrever sobre o assunto: porque ainda não havia livros de escritores portugueses sobre isso.
Se responde agora a João Pinto Coelho dizendo que se referia apenas a escritores do nível de um Saramago ou um Lobo Antunes, então ele próprio está a pôr-se no pedestal dos outros dois.
Mas acusa o João Pinto Coelho de "ser um homem confiante e que acredita em si e nas suas capacidades".

Se quiserem entender, comprem os dois livros que José Rodrigues dos Santos escreveu sobre o assunto...

Por Helena Araújo

O José Rodrigues dos Santos publicou um esclarecimento sobre a polémica das "motivações humanistas dos nazis".

A primeira recomendação que nos faz é que comecemos por assistir à entrevista completa, que está disponível aqui: https://www.rtp.pt/play/p6646/e507120/grande-entrevista

Assisti à entrevista toda. E concordo: o vídeo que partilhei ontem cortava a frase do contexto. Em nome da verdade, aqui deixo a passagem completa:

[A partir de 17:05] E também, é preciso dizer, que o próprio processo de decisão do extermínio dos [judeus] foi uma coisa gradual. As pessoas pensam "não, os nazis chegam ao poder" - isso é o que nos é dito no discurso político-mediático - chegam ao poder e querem matar logo os judeus todos. Isso não é verdade. Aliás, há declarações do Göring antes de a guerra começar a dizer "não podemos matar os judeus", e uma afirmação do Himmler, em 1940, portanto depois de a guerra começar, a dizer "não se pode matar os judeus, temos é de os expulsar, deportar para fora daqui, não podemos matá-los", e portanto, aquilo foi um processo gradual, em que a certa altura alguém diz "eh pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Temos... pá, se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?" Portanto, o raciocínio é assim em 41 - eles já dão um passo que em 40 não tinham dado. Portanto, é um processo gradual também de adaptação.

Se estiver errada agradeço que me corrijam, mas o que entendo desta sequência de frases é que, na versão do Holocausto de José Rodrigues dos Santos, este decorreu da seguinte maneira: em 1940 as chefias nazis não pensavam ainda em matar os judeus, apenas queriam expulsá-los da Alemanha; as câmaras de gás resultaram de uma preocupação humanitária que surgiu em 1941, porque não era possível alimentar todos os judeus nos guetos, e morrer de fome não é uma forma muito humana de ser assassinado.

(Tantos historiadores a dedicar a vida inteira ao estudo do Holocausto, quando ao Rodrigues dos Santos basta um part-time de alguns meses para descobrir que estão todos errados, e que os seus erros estão a inquinar o discurso político-mediático...)

Há outra passagem da entrevista que também é muito reveladora:

[A partir de 15:06]
- Em situação limite as pessoas habituam-se a tudo, mesmo ao horror absoluto?
- Sim, o aspecto de normalização dos campos de concentração é um factor muito interessante e muito presente no livro. Nós vemos no livro que há ali uma máquina que está montada e que é quase como quem vai para o trabalho.
- Que as pessoas se adaptam àquela vida...
- Não, são dois aspectos. Primeiro é os que fazem - aquilo é um trabalho. Eles vão lá fazer um trabalho. E na verdade, já quando escrevi o "Fúria Divina" sobre o jihadismo me confrontei com a mesma coisa. Por exemplo movimentos como a Al-Qaida têm um aspecto organizacional em que fazem operações de marketing, de recolhas de fundos, fazem banquetes, etc. para angariar apoiantes e fazer a apologia das suas ideias, como uma organização, como se fosse a Coca-Cola. É um bocado isso. E nós vamos encontrar o mesmo tipo de estrutura burocratizada nos campos de concentração, neste caso nacional-nacionalistas. Chegou ao ponto em que tinham um bordel no campo, que aliás aparece no romance, tinham uma piscina para os prisioneiros - e o bordel era para os prisioneiros, atenção. Uma escola para as crianças judias no Familienlager, em Birkenau. E nós ficamos assim um bocado...
Quer dizer: havia uma normalização disso.
Por outro lado, também, o ser humano revela - e no romance isso fica muito claro, mas também encontramos isso em muitas situações da vida - o ser humano tem uma enorme capacidade de se adaptar às situações. Eu lembro por exemplo que o Werner Reich, que era aquele judeu que era mágico e conheci no programa do Luís de Matos, o sobrevivente, que me disse "eu a primeira vez que vi um cadáver fiquei horrorizado. Depois vi o segundo, e ao décimo cadáver a gente via, começou a tornar-se uma coisa rotineira. Cheguei a um ponto em que estava a assistir a um enforcamento e estava a palitar os dentes. Porque as pessoas têm essa adaptação às situações. Mesmo as mais radicais. De início parece que... e no fundo, ao ler o livro, vemos que é uma queda progressiva para o abismo.

(Muito gostava eu de saber quanto é que a Pepsi pagou para ter alguém na RTP a meter Auschwitz, a Al-Qaida e a Coca-Cola na mesma frase...)

Se bem entendi da entrevista: todos os elementos que asseguravam o funcionamento dos campos encaravam o que estavam a fazer como um mero trabalho. Ser guarda em Buchenwald ou contabilista na Coca-Cola ou agente de marketing da Al-Qaida: tudo igual.

(E é claro que é indiferente chamar ao local de trabalho "Coca-Cola" ou "Dezimierungsghetto"/gueto de dizimação ou "Vernichtungslager"/campo de extermínio...) (embora pessoalmente tenha algumas dúvidas sobre ser normal na Coca-Cola alguém "encontrar" regularmente objectos de ouro que leva para casa, ou receber ordenado dobrado por "certas" tarefas mais pesadas, como por exemplo, sei lá, matar pessoas...)

Se bem entendi da entrevista: em Auschwitz havia uma piscina e um bordel para os prisioneiros judeus, e as crianças iam normalmente à escola.
(Caramba, que seria da investigação do Holocausto sem os contributos inteiramente inovadores do José Rodrigues dos Santos? Ele descobriu coisas fantásticas que mais ninguém sabia.) (Ai, alto, afinal há muito quem conheça estes factos. Volta e meia cruzo-me com eles nas redes sociais: são os que dizem que Auschwitz não é nada tão mau como se diz, que até tinha bordéis e hospitais, e que a história das câmaras de gás é um mito.)

A segunda recomendação que José Rodrigues dos Santos nos faz é esta:
"para saberem exatamente o que eu penso sobre o Holocausto, devem ler os dois volumes da obra em causa na íntegra.
É fácil, podem encontrá-los em qualquer livraria ou biblioteca."

Segue-se o esclarecimento sobre a frase “A certa altura há alguém que diz – Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?”

Como é que explica esta frase? Antes de mais, remetendo para a leitura dos seus dois livros ("O problema destes comentários é que eles ignoram um facto evidente para qualquer pessoa de boa fé que veja toda a entrevista e que leia os dois volumes da minha obra na íntegra: em momento algum eu defendi que os gaseamentos eram humanitários.")
A seguir, José Rodrigues dos Santos informa que "esse raciocínio está plasmado no primeiro documento nazi existente a preconizar explicitamente o extermínio dos judeus. Esse documento foi enviado de Poznan a Adolf Eichmann a 16 de julho de 1941 pelo oficial SS Rolf Hoppner".

Caso para perguntar: defina "primeiro documento nazi existente". Aparentemente, o Mein Kampf não conta. Os discursos do Hitler não contam. O alargamento do programa de "eutanásia" T4 aos judeus polacos, assinado por Hitler em Outubro de 1939 com a data da invasão da Polónia não conta. Os massacres de judeus que se multiplicaram logo após a invasão da Polónia e cresceram ainda mais após a invasão da União Soviética não contam. A ordem de Heydrich, em Junho de 1941 de, após a invasão da União Soviética, matar todos os judeus que pertençam ao partido ou ao aparelho de Estado e dar discretamente apoio a pogroms anti-semitas não conta. O diário do Goebbels não conta. Nada conta, excepto o documento de fino recorte humanitário enviado em Julho de 1941 a Eichmann (aqui, em alemão), que traduzo:

"Assunto: Solução para a questão judaica

Em reuniões na Reichsstatthalterei, vários elementos falaram da solução da questão judaica no Reichsgau de Wartheland. Propõe-se a seguinte solução:

1. Todos os judeus de Warthegau serão levados para um campo com capacidade para 300.000 judeus, que será construído em forma de barracas tão perto quanto possível da linha de comboio Kohlenmagistrale, e no qual haverá barracas para actividades económicas, salas de costura, sapateiros, etc.

2. Todos os judeus de Warthegau serão levados para este campo. Os judeus capazes de trabalhar podem integrar piquetes de trabalho para trabalhar fora do campo, segundo as necessidades.

3. Segundo o SS-Brigadeführer Albert, um campo deste tipo pode ser controlado por um número muito menor de forças policiais do que o actualmente necessário. Além disso, o perigo de epidemias que actualmente existe para as populações vizinhas de Litzmannstadt (Lodz) e de outros guetos é reduzido ao mínimo.

4. Existe o risco de neste Inverno não ser possível continuar a alimentar todas as pessoas. Deve ser seriamente ponderado se não será uma solução mais humana recorrer a um qualquer expediente rápido para acabar [em alemão: erledigen] com os judeus não aptos para o trabalho. Em todo o caso, isso seria mais agradável que deixá-los morrer de fome.

5. Além disso, foi sugerido esterilizar todas as mulheres judias que ainda estão em idade fértil, para que a questão judaica fique de facto definitivamente resolvida com esta geração.

6. O Reichstatthalter ainda não se pronunciou sobre este assunto. Tem-se a impressão que o Regierungspräsident Uebelhoer não deseja o desaparecimento do gueto de Litzmannstadt (Lodz), uma vez que parece lucrar muito bem com ele. Para dar um exemplo dos ganhos com os judeus, foi-me dito que o Ministério do Trabalho do Reich paga de um fundo especial 6 RM por cada judeu que trabalha, quando o judeu custa apenas 80 Pfennig."

É certo que cada pessoa lê e interpreta como quer ou como pode.
José Rodrigues dos Santos leu este documento e interpretou-o como sinal da passagem para uma nova fase da Solução Final, a partir de uma certa preocupação de ordem humanitária.
Sim, também li as palavras "solução mais humana" naquele texto. O problema é que li o resto do texto, e como o próprio José Rodrigues dos Santos diz, é muito feio tirar as palavras do seu contexto para fazer passar a narrativa que convém.

4. A explicação de José Rodrigues dos Santos estende-se agora até ao gulag, numa ponte que reforça a ideia de que não há diferenças substanciais entre Auschwitz e o Gulag. Ele lá sabe as ideias que quer fazer passar.

5. Sobre o esoterismo dos nazis, passo, que já gastei demasiado tempo com estes disparates.

6. Finalmente, a última recomendação de José Ferreira dos Santos, que Kafka seria capaz de subscrever (se não estivesse a dar voltas no túmulo):
Quanto ao resto... meus amigos, leiam O Mágico de Auschwitz e O Manuscrito de Birkenau. “Penso que apenas devíamos ler livros que nos mordem e que nos perfuram”, recomendou Kafka. “Se o livro que estamos a ler não nos abala e desperta como uma marretada no crânio, para quê lê-lo?”

Ontem, um amigo tentou fazer-me ver a "mímica de mentiroso" e convencer-me de que aquelas frases sobre as motivações humanitárias das chefias nazis para criarem as câmaras de gás não foram um faux pas, mas uma formulação deliberada. Rebati, porque me custa fazer tamanha insinuação.
Mas hoje, ao ver que a justificação dada para aquela frase inclui três apelos a que leiam os dois livros dele, pergunto-me se as redes sociais não fizeram o papel de idiota útil, tornando José Rodrigues dos Santos o tema do dia.
Como é que dizia o outro? "Mission accomplished".

Era uma vez o dia em que os mentores do Holocausto caíram em si e tiveram preocupações humanitárias...

Por Helena Araújo


Será que me podem fazer um favor? Vejam este vídeo e digam-me se também vos provoca ataques de riso incontroláveis. Que me perdoem os judeus, e todas as pessoas que abordam o horror do Holocausto com seriedade e sentido de responsabilidade, mas não consigo parar de rir - e é por causa do tom assertivo e do ar cândido (oh, aquela cara de menino da primeira classe muito orgulhoso por já saber contar até vinte e dois) com que José Rodrigues dos Santos diz isto:

"A certa altura, há alguém que diz: - Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?"

A minha primeira pergunta é factual: quem é que disse isso, caro José Rodrigues dos Santos? Em que acta de que reunião, em que carta é que isso está documentado? Encontrou esse momento na biografia de quem? Ou será que essa frase faz parte do seu próximo livro de ficção? Adivinho possíveis títulos: "O Comandante Compassivo do Gueto de Varsóvia", "H de Hitler, e Também de Humanismo", "Kommandatur de Auschwitz: Afinal o Padre Américo Tinha Razão!"

A minha segunda pergunta é ética: como é possível falar da máquina de exterminação de um povo com a leveza de um "oh, se é para morrer..."? Esta frase, até numa peça de humor seria uma ousadia - quanto mais numa entrevista para promover um livro que explora o filão de Auschwitz! Mas fiquemos apenas pela História. Em nada do que tenho lido sobre o Holocausto consta a ideia de "motivos humanitários". Pelo contrário: o primeiro passo para a catástrofe foi negar aos judeus a sua condição de seres humanos, e reclassificá-los, designando-os como sub-humanos nocivos, uma praga animal que exigia uma desinfestação, um tumor maligno que era preciso arrancar. Não me consta que de repente em 1941 algum nazi do topo da hierarquia se tenha dado conta de que afinal estavam a tratar com seres humanos. Mas posso estar enganada - nesse caso, agradeço que me informem dizendo quem foi, e quando, e em que termos.

Em 1919 Hitler já falava em "afastar os judeus do espaço alemão". Em 1923 deu uma entrevista a um jornal catalão na qual falava em exterminar os judeus, sendo que "o ideal seria matá-los todos numa noite só". O Mein Kampf, escrito dois anos depois, não deixa qualquer dúvida sobre as intenções de eliminar o povo judeu. As perseguições a esse povo começaram logo em 1933 após a tomada do poder pelos nazis. Seis anos mais tarde, a invasão da Polónia serviu ao regime nazi para experimentar diversos métodos para a máquina de extermínio: execuções em massa, gaseamentos, internamento em guetos com racionamento dos alimentos destinado a - literal e deliberadamente - matar de fome os seus habitantes. A passagem para o gaseamento em larga escala foi a maneira que os nazis encontraram de levar a cabo os seus planos de extermínio daquele povo da forma mais barata possível, e evitarem também o surgimento de revoltas entre os soldados, muitos dos quais tinham obviamente dificuldade em cumprir as ordens de matar a tiro bebés, crianças, mulheres e velhos.

Nazis com preocupações de tratar os judeus de forma humana? Só mesmo na imaginação do José Rodrigues dos Santos. Esta peça de "humor junto ao calabouço", que os judeus contavam nessa época trágica, mostra uma realidade completamente diferente:

Membros da Gestapo preparam-se para executar um grupo aleatório de judeus, mas nesse dia o comandante da SS está bem-disposto e diz a um deles: - Você tem um ar muito ariano. Por isso, vou-lhe dar uma oportunidade. Tenho um olho de vidro que é impossível de reconhecer. Se conseguir adivinhar qual é, deixo-o ir embora. Sem hesitar, o judeu responde: - O de vidro é o olho direito! - Como é que adivinhou? - É porque esse tem uma expressão mais humana.

Não que a actual Alemanha seja a medida de todas as coisas, mas este espalhanço estrondoso do José Rodrigues dos Santos dava direito a despedimento imediato em qualquer canal da televisão alemã, mesmo que, muito provavelmente, não fosse objecto de um processo jurídico (ao contrário da negação do Holocausto, adoçar a imagem do regime nazi não é considerado crime na Alemanha).

Em 2007, Eva Herman perdeu o seu emprego numa televisão pública por não ter sabido exprimir-se bem sobre uma questão que envolvia o regime nazi e os valores da família e da maternidade. A televisão entendeu que Eva Herman lhe estava a criar graves problemas de imagem. Herman recorreu contra o despedimento e contra o modo como certos órgãos de informação noticiaram o caso, os processos foram fazendo a sua carreira pelos tribunais, e o despedimento foi considerado como justificado. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos recusou ocupar-se do assunto. Num talkshow que um colega organizou para lhe dar a oportunidade de se explicar, e após um longo debate no qual não conseguiu apresentar as suas razões de forma sólida, desabafou "o que aprendi com isto é que é arriscado falar da História alemã" (aqui, em alemão). O moderador pediu-lhe que saísse da sala imediatamente. Mas o aviso pode ser útil a José Rodrigues dos Santos, de colega para colega: é arriscado falar da História alemã. Sobretudo quando não se percebe muito desse assunto, acrescentaria eu.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Auschwitz e José Rodrigues dos Santos- Toda a Verdade


João Pinto Coelho
4 de dezembro às 21:14 

Começo por agradecer o alerta à Irene Pimentel – com quem continuo a aprender - e junto-me ao seu protesto.
A verdade é que perdi a conta aos livros que li, desde os já longínquos tempos da faculdade, sobre a perseguição aos judeus na Europa durante o séc. XX. Entre eles, apenas um romance – As Benevolentes, com que Jonathan Littell ganhou o Goncourt e o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa. Esta minha aversão pela ficção em torno de uma matéria tão sensível raia o paradoxo, já que foi o género que escolhi para falar do assunto nos três livros que escrevi. A explicação é simples: sempre receei a falta de rigor, mesmo tendo sido injusto com alguns ficcionistas que sabiam o que diziam. Até os livros académicos foram escolhidos a dedo, uma obsessão que se afirmava cada vez que conversava com algum sobrevivente. Quando me falavam da sua vida no campo, contavam que, ao acordarem – às 4h30, no verão; uma hora mais tarde, no inverno –, deparavam muitas vezes com mortos e quase mortos prostrados nos beliches, pois nem todos resistiam às noites geladas de Auschwitz em barracões com lareiras que nunca eram acesas. Se fossem a tempo, ainda se aproximavam do companheiro que agonizava, ajoelhavam-se e davam-lhe a mão para que não morresse só. Sobrassem forças para dizer alguma coisa, o moribundo despedia-se da vida com um pedido: as últimas palavras reservadas para implorar a sobrevivência de quem lhe segurava a mão. Para quê? Para que contasse o que se passava ali. Ninguém suportava morrer, permitindo que a mentira lhe sobrevivesse.
Eu disse pedido? Era mais do que isso: era uma sentença de testemunho. Então, e só então, soube o que me faltava para escrever sobre Auschwitz, Jedwabne ou qualquer aldeia toscana devassada pelos nazis. Alguém imagina que valor dá à Verdade quem ouve uma história destas?
E é também por isso que vos falo do Rodrigues dos Santos. Não dos livros – que não li -, mas da entrevista recentemente dada à RTP.
Cito-o:
«A minha ideia era transportar o leitor de Portugal, em 2020, para Auschwitz, em 1944. De tal maneira que as pessoas estão a ler o romance e a certa altura já não estão aqui, estão lá, naquele tempo. Estão a sentir os cheiros, as cores, a visão, as emoções, como se estivessem lá.»
Uma proeza para qualquer autor, mais ainda nunca lá tendo estado. Censuro-o por isso? Essa agora! Mas estranho como suportou não fazer essa visita.
Já eu não sosseguei enquanto não fiz a viagem. E mesmo tendo lá ido quatro vezes, de ter passado dias a fio a trabalhar nos antigos campos, de atravessar sem pressas a mata de bétulas de Birkenau, ou de caminhar, por vezes à noite e quase sempre sozinho, entre os barracões do Stammlager, nunca concebi os cheiros ou as emoções de quem lá sobreviveu ou fez tudo por isso. Muito menos tentei descrevê-los. Mas cada um faz o que pode e, sobre isso, nada a dizer.
Igualmente não censuro JRS por dizer que nenhum autor português escreveu sobre o assunto, muito menos que se esqueça das perguntas que me fez quando me entrevistou num Telejornal em outubro de 2017 - pelo que vejo agora, apenas quatro dias antes da epifania que o levou a escrever os dois romances sobre Auschwitz. Também não o critico pelas gafes – logo eu, que me espalho tantas vezes-, mesmo quando nos diz:
«Os nazis tinham 50 campos de concentração, que é uma coisa gigantesca, e os comunistas, na Rússia, tinham 500! Eram dez vezes mais.”
Classificar Auschwitz como um campo de concentração é uma imprecisão muito mais comum do que afirmar que os nazis tinham 50 campos. Infelizmente o número foi superior, dolorosamente superior: mais de 44.000, somados os campos de concentração e guetos, campos de trabalho, de trânsito, de extermínio, etc. 
De regresso à entrevista, ouvimo-lo dizer o seguinte:
«A certa altura, há alguém que diz: - Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?»
Não sei até que ponto JRS está a par do debate académico sobre as origens do genocídio nazi, nem se conhece os conceitos de Funcionalismo e Intencionalismo que têm dividido os historiadores nas últimas décadas. De uma coisa tenho a certeza: não vai encontrar nenhum académico respeitado que alegue razões humanitárias para justificar os gaseamentos. A não ser, claro, que essas razões recaiam sobre os próprios alemães, membros dos einzatsgruppen que fuzilaram multidões de judeus durante a invasão da União Soviética e que apresentaram sinais compreensíveis de fadiga e distúrbio psicológico, após dispararem a eito sobre milhares de mulheres e crianças indefesas. Andava eu convencido de que os primeiros camiões de gás tinham surgido para agilizar as mortes e torná-las mais “limpas”; oiço agora que foi por piedade pelas vítimas.
Aberrante? Há mais e há pior. Atente-se:
«Nós vemos no livro que há ali uma máquina que está montada e que é quase como quem vai para o trabalho. Aquilo é um trabalho, portanto, eles vão lá fazer um trabalho. (…) Chegou ao ponto de terem um bordel no campo para os prisioneiros (…) tinham uma piscina para os prisioneiros, (…) tinham uma escola para as crianças judias no Familienlager, em Birkenau. Por outro lado, o ser humano tem uma enorme capacidade de se adaptar às situações.»
Adaptar a quê? A Auschwitz? Terá JRS lido Primo Levi? No lager, a única adaptação possível é a abreviatura da morte, os Muselmänner.
Não. Eles não vão lá fazer um trabalho, vão lá para morrer. Por cada transporte que chegava a Birkenau, a maior parte era imediatamente conduzida para as câmaras de gás. Os que ficavam trabalhavam como escravos até morrerem também. Não iam para a piscina e mesmo os bordéis criados nalguns campos para “premiar” os mais produtivos não passavam de um embuste, um lugar de humilhação para os prisioneiros, ou mais um exemplo do cinismo e crueldade dos nazis. Oiçam-se as vítimas, pela voz de uma de muitas - Jozef Szajna: «Os bordéis eram apenas mais uma forma de os SS atormentarem os prisioneiros. Todos os que pensam que o bloco 24 era uma espécie de prenda para os prisioneiros, não fazem a mínima ideia do que foi Auschwitz.»
O exemplo descontextualizado da escola do Familienlager, a extensão propagandística do campo/gueto de Theresienstadt situada em Birkenau, também é pernicioso. Essa escola destinava-se às crianças vindas de Terezin e, assim como as condições dadas aos restantes prisioneiros desse setor do campo – ligeiramente mais favoráveis do que as concedidas aos demais – mantinha o propósito ardiloso do campo de origem. É uma ilha irrisória nos 150 hectares de Auschwitz II e, sem ser o facto de menos de 1 em cada dez deportados ter sobrevivido, não representa o que se passou ao redor.
É esse o problema do discurso de JRS. Desdenha as obras de ficção que falam da Shoah por «suavizarem a realidade», mas doura a pílula e confunde tudo. Pior: sobram-lhe certezas onde falta a perplexidade; e só ficciona sobre Auschwitz quem desistir das respostas – sempre pequenas para tão grandes perguntas, como lembrou Raul Hilberg. Sem querer, cai naquilo que Deborah Lipstadt apelida de «soft core denial». Exagero? Então leiam:
«Os nazis acreditavam que faziam isto para um bem superior, que eles iam salvar a humanidade. Nós encontramos este raciocínio na Inquisição, quando está a queimar as bruxas, a matar os judeus, a torturar as pessoas, acreditando que aquilo é para as salvar, para que encontrem o caminho de Deus.»
Não comento. Apenas lamento esta entrevista. Lamento que JRS não usasse melhor os 23 minutos que o canal PÚBLICO onde trabalha lhe ofereceu para publicitar o romance. Mas também me lembro das horas que passei a falar destas coisas a muitos jovens deste país, mais de 100 sessões escolares em que pesei cada palavra para não dizer asneiras, ou mesmo dos 20 anos que esperei para me atrever a escrever sobre Auschwitz e o grande desastre humano.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

For Sale: “Your Name Here” in a Prestigious Science Journal

An investigation into some scientific papers finds worrying irregularities.



Klaus Kayser has been publishing electronic journals for so long he can remember mailing them to subscribers on floppy disks. His 19 years of experience have made him keenly aware of the problem of scientific fraud. In his view, he takes extraordinary measures to protect the journal he currently edits, Diagnostic Pathology. For instance, to prevent authors from trying to pass off microscope images from the Internet as their own, he requires them to send along the original glass slides.

Despite his vigilance, however, signs of possible research misconduct have crept into some articles published in Diagnostic Pathology. Six of the 16 articles in the May 2014 issue, for instance, contain suspicious repetitions of phrases and other irregularities.* When Scientific American informed Kayser, he was apparently unaware of the problem. "Nobody told this to me," he says. "I'm very grateful to you."

Diagnostic Pathology, which is owned by Springer, is considered to be a reputable journal. Under Kayser’s stewardship, its “impact factor”—a crude measure of a journal's reputation, generated by number of times the article is cited in the published scientific literature—is 2.411, which puts it solidly in the top quarter of all scientific journals tracked by Thomson Reuters in its Journal Citation Reports, and 27th out of the 76 ranked pathology journals.

Kayser’s journal is not alone. In the past few years similar signs of foul play in the peer-reviewed literature have cropped up across the scientific publishing world—including those owned by publishing powerhouses Wiley, Public Library of Science, Taylor & Francis and Nature Publishing Group (which publishes Scientific American).

The apparent fraud is taking place as the world of scientific publishing—and research—is undergoing rapid change. Scientists, for whom published articles are the route to promotion or tenure or support via grants, are competing harder than ever before to get their articles into peer-reviewed journals. Scientific journals are proliferating on the Web but, even so, supply is still unable to keep up with the ever-increasing demand for respectable scientific outlets. The worry is that this pressure can lead to cheating.

The dubious papers aren't easy to spot. Taken individually each research article seems legitimate. But in an investigation by Scientific American that analyzed the language used in more than 100 scientific articles we found evidence of some worrisome patterns—signs of what appears to be an attempt to game the peer-review system on an industrial scale.

For example, one of the articles published in the May 2014 Diagnostic Pathology looks on the surface like a typical meta-analysis of the peer-reviewed literature. Its authors—eight scientists from Guangxi Medical University in China—assess whether different variations in a gene known as XPC can be linked to gastric cancer. They find no such link, and concede that their paper isn't the final word on the matter:
“However, it is necessary to conduct large sample studies using standardized unbiased genotyping methods, homogeneous gastric cancer patients and well-matched controls. Moreover, gene–gene and gene–environment interactions should also be considered in the analysis. Such studies taking these factors into account may eventually lead to our better, comprehensive understanding of the association between the XPC polymorphisms and gastric cancer risk.”
A perfectly normal conclusion for a perfectly ordinary paper. It is nothing that should set off any alarm bells. Yet, compare it with a paper published several years earlier in the European Journal of Human Genetics (which is owned by Nature Publishing Group), a meta-analysis of whether variations in a gene known as CDH1 could be linked to prostate cancer (PCA):
“However, it is necessary to conduct large trials using standardized unbiased methods, homogeneous PCA patients and well-matched controls, with the assessors blinded to the data. Moreover, gene–gene and gene–environment interactions should also be considered in the analysis. Such studies taking these factors into account may eventually lead to our better, comprehensive understanding of the association between the CDH1−160 C/A polymorphism and PCA risk.
The wording is almost identical, down to the awkward phrase, "lead to our better, comprehensive understanding." The only substantial differences are the specific gene (CDH1 rather than XPC) and the disease (gastric cancer rather than PCA).

This is not a simple case of plagiarism. Many seemingly independent research teams have been plagiarizing the same passage. An article in PLoS ONE may eventually lead to "our better, comprehensive understanding" of the association between mutations in the XRCC1 gene and thyroid cancer risk. Another in the International Journal of Cancer (published by Wiley) might eventually lead to "our better, comprehensive understanding" of the association between mutations in the XPA gene and cancer risk—and so on. Sometimes there are minor variations in the wording but in more than a dozen articles we found almost identical language with different genes and diseases seemingly plunked into the paragraph, like an esoteric version of Mad Libs, the parlor game in which participants fill in missing words in a passage.

We have found other examples of fill-in-the-blanks research. A search for the phrase "excluded because of obvious irrelevance" retrieved more than a dozen research articles of various types—all but one written by scientists from China. "Using a standardized form, data from published studies" also yields more than a dozen research articles, all from China. "Begger's funnel plot" gets dozens of hits, all from China.

“Beggers funnel plot” is particularly revealing. There is no such thing as a Beggers funnel plot. "It doesn't exist. That's the point," says Guillaume Filion, a biologist at the Center for Genomic Regulation in Barcelona, Spain (pdf). A statistician named Colin Begg and another statistician named Matthias Egger each invented tests and tools to look for biases that creep into meta-analyses. "Begger's funnel plot" appears to be an accidental hybrid of the two names.

Filion spotted the proliferation of "Begger's" tests by accident. While looking for trends in medical journal articles, he found papers that had almost identical titles, similar choices in graphics and the same quirky errors, such as "Begger's funnel plot." He reckons that the papers came from the same source, even though they are ostensibly written by different groups of authors. "It's difficult to imagine that 28 people independently would invent the name of a statistical test," Filion says. "So that's why we were very shocked."

A quick Internet search uncovers outfits that offer to arrange, for a fee, authorship of papers to be published in peer-reviewed outlets. They seem to cater to researchers looking for a quick and dirty way of getting a publication in a prestigious international scientific journal.

In November Scientific American asked a Chinese-speaking reporter to contact MedChina, which offers dozens of scientific "topics for sale" and scientific journal "article transfer" agreements. Posing as a person shopping for a scientific authorship, the reporter spoke with a MedChina representative who explained that the papers were already more or less accepted to peer-reviewed journals; apparently, all that was needed was a little editing and revising. The price depends, in part, on the impact factor of the target journal and whether the paper is experimental or meta-analytic. In this case, the MedChina rep offered authorship of a meta-analysis linking a protein to papillary thyroid cancer slated to be published in a journal with an impact factor of 3.353. The cost: 93,000 RMB—about $15,000.

The most likely intended outlet for the MedChina-brokered paper is Clinical Endocrinology. It is one of five journals with an impact factor of 3.353 and the closest in subject matter. "Obviously, it's a matter of great concern," says John Bevan, a senior editor at the journal. "I'm distraught to think of this going on and flooding the market." Approximately two weeks after being contacted by Scientific American Bevan confirmed that a suspicious-looking article about biomarkers for papillary thyroid cancer—and which had an author added during the paper revisions—was identified and rejected.

Much of the funding for these suspect papers comes from the Chinese government. Of the first 100 papers identified by Scientific American, 24 had received funding from the National Natural Science Foundation of China (NSFC), a governmental funding agency roughly equivalent to the U.S.'s National Science Foundation. Another 17 acknowledged grants from other government sources. Yang Wei, president of NSFC, confirmed that the 24 suspicious papers identified by Scientific American were subsequently referred to the Foundation's Bureau of Discipline, Inspection, Supervision and Auditing (pdf), which investigates several hundred allegations of misconduct each year. "Tens of disciplinary actions have been taken by NSFC annually for research misconduct, though cases of ghostwriting are less common," Yang e-mailed. Last year one of the agency's disciplinary actions involved a scientist who purchased a grant proposal from an Internet site. Yang stresses that the agency takes steps to combat misconduct, including the recent installation of a "similarity check" for possible plagiarism in grant proposals. (In the year since the system went online the check found several hundred cases of "considerable similarities" out of some 150,000 grant applications, Yang claims.) But when it comes to paper mills, Yang says, "we do not have much experience about this issue and are certainly glad to listen to your suggestions."

Some publishers are only now catching up to the problem of Chinese paper mills. "I wasn't aware there was a market out there for authorship," says Jigisha Patel, BioMed Central's associate editorial director for research integrity. Now that BioMed Central (which is owned by Springer and publishes Diagnostic Pathology) has been alerted to the issue, Patel says,"we now can look into it and address it." Within two weeks of being contacted by Scientific American, BioMed Central announced that it had identified roughly 50 manuscripts that had been assessed by phony peer reviewers. The publisher told the Retraction Watch blog that "a third party may be involved, and influencing the peer review process." It is possible that these manuscripts came from paper mills. We were able to look at the titles and authors of about half a dozen of those papers. All appear very similar in style and subject matter to other paper mill-written meta-analyses, and all were from groups of Chinese authors.

Other publishers have begun to combat the flood of dubious papers. Damian Pattinson, editorial director of PLoS ONE, says the journal instituted safeguards last April. "[E]very meta-analysis we get has to go through a specific editorial check..." that forces authors to provide additional information, including a justification for why they performed the study in the first place, he says. "As a result of this, the rate of papers that are actually getting to reviewers has dropped by about 90 percent. So we are very aware of this issue." Even so, the list compiled by Scientific American contains four suspect papers that were published in PLoS ONE after the safeguards were instituted, and authorship on an upcoming PLoS ONE article was put up for sale by MedChina as this article was being written. When we asked Pattinson about these, he replied: “We will correct and retract papers if there is any indication of misconduct. It’s a problem issue and one that we’re very aware of.”

BMC, Public Library of Science and other the publishers use plagiarism-checking software to try to cut down on fraud. Software, however, doesn't always solve the issue of plagiarism in journals, Patel warns, paper mills “add another layer of complexity to the problem. It's very worrying."

Publishers at the moment are fighting an uphill battle. "Without insider information it's very difficult to police this," Clinical Endocrinology's Bevan says. CE and its publisher, Wiley, are trying to close loopholes in the editorial process to flag suspicious late changes in authorship and other irregularities. "You have to accept that people are submitting things in good faith and honesty," Bevan says.

That is the essential threat. Now that a number of companies have figured out how to make money off of scientific misconduct, that presumption of honesty is in danger of becoming an anachronism. "The whole system of peer review works on the basis of trust," Pattinson says. "Once that is damaged, it is very difficult for the peer review system to deal with."

"We've got a problem here," Filion says. He believes that the deluge is just beginning. "There is so much pressure and so much money at stake that were going to see all sorts of excesses in the future."

Additional reporting by Paris Liu.

The list below is 100 published articles that would seem to have the hallmarks of fill-in-the-blanks science. Inclusion in this list does not imply that any given article was written by a paper mill nor does it imply that the article is definitely plagiaristic. Given the pattern of writing and these articles' similarities to previously published work, however, we believe they are worthy of scrutiny by their publishers. >>View the list

There are many more suspicious articles out there; and more are being published every day. These are simply the first 100 we found.

*Correction (2/13/15): This sentence was edited after posting. The original cited the number of articles in the May 2014 issue of Diagnostic Pathology as 14.


Further Reading:
Filion, Guillaume. "A flurry of copycats on PubMed."


Ioannidis J.P.A.et al "The Geometric Increase in Meta-Analyses from China in the Genomic Era" PLoS ONE 8(6): e65602. doi:10.1371/journal.pone.0065602

Hvistendahl, Mara. "China's Publication Bazaar." Science, 29 November 2013, pp. 1035–1039. DOI: 10.1126/science.342.6162.1035