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sábado, 11 de julho de 2026

Por detrás da sua imagem amiga do ambiente, a IKEA - o maior consumidor de madeira do mundo - esconde práticas bastante pouco escrupulosas


O documentário "IKEA, o Caçador de Árvores" (originalmente IKEA, le seigneur des forêts ou How IKEA Plunders the Planet, 2024 ), realizado por Xavier Deleu e Marianne Kerfriden com base numa investigação jornalística de Alexander Abdelilah e Robert Schmidt, expõe o contraste dramático entre a imagem pública ecológica do gigante sueco do mobiliário e o impacto ambiental real da sua cadeia global de abastecimento de madeira. Consumindo cerca de 20 milhões de metros cúbicos de madeira por ano - o equivalente ao abate de uma árvore a cada um ou dois segundos -, a multinacional transformou-se num predador florestal global, cuja procura implacável por matéria-prima barata impulsiona crimes ambientais e a destruição de ecossistemas preciosos em múltiplos continentes.

A investigação percorre vários países, revelando que a exploração intensiva começa na própria Suécia. Ali, ativistas locais e representantes do povo indígena Sámi denunciam a prática sistemática de cortes rasos (abates totais de parcelas florestais) nas últimas florestas boreais antigas. Estas áreas ricas em biodiversidade são sistematicamente substituídas por monoculturas industriais de árvores alinhadas que funcionam como autênticos "desertos verdes", destruindo os líquenes de que as renas locais dependem para sobreviver e alterando permanentemente a paisagem escandinava.

O cenário agrava-se na Roménia e na Ucrânia, onde o documentário acompanha o rasto da madeira que alimenta as fábricas de fornecedores da IKEA. Na cordilheira dos Cárpatos romenos, lar de algumas das últimas florestas virgens da Europa, ativistas de organizações não-governamentais como a Agent Green expõem o abate ilegal e abusivo dentro de parques nacionais e áreas teoricamente protegidas pela rede Natura 2000. Cientistas e investigadores demonstram como o sistema de rastreabilidade é contornado através do branqueamento de madeira, misturando troncos extraídos ilegalmente com lotes autorizados. O impacto estende-se à Ucrânia, onde investigações anteriores já tinham sinalizado a entrada de madeira extraída de forma irregular nas cadeias de produção de produtos icónicos da marca.

A nível global, a reportagem viaja até à Rússia (região da Sibéria), expondo ligações a fornecedores locais envolvidos no desflorestamento de florestas protegidas de Taiga antes das restrições geopolíticas, e até à Nova Zelândia. Neste último país, o documentário foca-se nas consequências catastróficas das plantações intensivas de pinheiros exóticos que substituíram a vegetação nativa. Quando ocorrem tempestades violentas, os resíduos de madeira deixados pelas empresas de exploração florestal nas encostas deslizam em massa, gerando violentas enxurradas de detritos que destroem rios, praias e infraestruturas, afetando diretamente as comunidades locais e as terras ancestrais do povo Māori, que lamentam a perda da harmonia ecológica original. Representantes do povo Māori declararam na ONU que tal prática corporativa representa uma nova forma de colonização, retirando poder às comunidades nativas em favor do lucro estrangeiro e degradando a ligação sagrada que mantêm com a terra (Papatūānuku).

Um dos pontos centrais da crítica do documentário foca-se no papel do FSC (Forest Stewardship Council). Criado originalmente na década de 1990 com o apoio de organizações de prestígio como a WWF e a Friends of the Earth para garantir uma gestão florestal sustentável, o selo verde é apontado pelos realizadores e por antigos fundadores como tendo sido instrumentalizado. O FSC acabou por se transformar num escudo de greenwashing (lavagem verde) para as grandes corporações. Ao certificar áreas onde se praticam cortes rasos ou onde a madeira provém de origens controversas, o sistema falha em proteger as florestas que restam no planeta, permitindo que o consumidor compre mobiliário de massa sob uma falsa premissa de sustentabilidade.

Em janeiro de 2024, o documentário IKEA Loves Wood (IKEA elsker træ) já denunciava más práticas na Roménia.

Dinheiro a circular por paraísos fiscais e fundações suspeitas, graças à IKEA
Este artigo do portal de jornalismo independente Basta! esmiuça um relatório da organização Attac Alemanha sobre o intrincado labirinto financeiro que a IKEA utiliza para praticar a otimização fiscal em larga escala e minimizar as suas obrigações tributárias. A investigação desconstrói a imagem pública puramente filantrópica da empresa, demonstrando como as receitas geradas nas lojas físicas são canalizadas por uma complexa rede de holdings e fundações que se estende por várias jurisdições. 

No cerne desta estrutura está uma rede de fundações ostensivamente sem fins lucrativos, desenhada para fragmentar a propriedade legal e blindar o capital contra a tributação. Na Holanda, a fundação Stichting Ingka fica no topo da pirâmide como proprietária do Ingka Group, que opera a maioria das lojas globais. Pelo facto de o fisco holandês a reconhecer como uma entidade de caridade, os seus vastos rendimentos de investimentos e ativos líquidos desfrutam de massivas isenções fiscais. Além disso, a legislação holandesa protege este arranjo ao não exigir que a fundação publique relatórios financeiros anuais. 

Enquanto isso, o conceito da marca em si é controlado por outro braço através da Fundação Interogo, localizada no paraíso fiscal de Liechtenstein. Uma investigação da televisão sueca revelou que esta única entidade permitiu ao fundador da empresa, Ingvar Kamprad, evitar o pagamento de algo entre 2,3 e 3,2 mil milhões de euros em impostos ao longo de um período de vinte anos. 

Um terceiro grande tentáculo corporativo, o Ikano Group, está sediado em Luxemburgo e pertence aos três filhos de Kamprad. Esse braço supervisiona a gestão financeira, serviços bancários, imobiliários e de seguros, utilizando subsidiárias adicionais ocultas em paraísos fiscais como a Suíça e a ilha de Curaçao, nas Antilhas Holandesas. 

Ao movimentar continuamente dinheiro entre a Holanda, Luxemburgo, Liechtenstein e Curaçao, a multinacional sueca paga taxas efetivas de imposto muito abaixo das médias corporativas europeias padrão. A empresa de retalho controladora historicamente enfrentou uma taxa efetiva de imposto sobre o rendimento de apenas 17,8%, enquanto o Inter IKEA Group, detentor da marca, pagou no máximo 11,6%. 

O sigilo que envolve estes arranjos é uma escolha deliberada. Quando a comissão de informação da Assembleia Nacional Francesa intimou grandes multinacionais a depor sobre otimização fiscal corporativa, a IKEA recusou-se categoricamente a participar, oferecendo a desculpa de que, infelizmente, carecia de conhecimento técnico num campo tão complexo, uma justificativa que os parlamentares rotularam como altamente improvável e perturbadora para uma organização do seu porte. 
O artigo, em última análise, destaca uma contradição gritante entre as mensagens corporativas e as práticas financeiras, observando que, embora a IKEA Foundation proclame publicamente uma dedicação ao bem-estar das crianças, a corporação como um todo minimiza agressivamente as próprias receitas fiscais necessárias para financiar os sistemas públicos de educação e saúde nas comunidades onde opera.

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Quando a IKEA lançou um outdoor fascista

domingo, 29 de março de 2026

Beata Belanszky-Demkó

O Brilho, 2023

Beata Belanszky-Demkó é uma artista plástica contemporânea de nacionalidade húngara, cuja trajetória de vida e formação académica refletem uma profunda dedicação às artes visuais. Nascida em 1976 na cidade de Satu Mare, na Roménia, no seio da comunidade húngara da Transilvânia, mudou-se para a Hungria em 1990. Foi neste país que consolidou o seu percurso escolar e artístico, tendo frequentado a Escola Secundária de Artes Visuais e Aplicadas de Budapeste, uma instituição de referência onde aprofundou as bases do desenho e da composição.

A sua formação académica prosseguiu a nível superior na Universidade de Óbuda, em Budapeste, onde se licenciou em Design Industrial. Esta base técnica e estruturada confere à sua obra uma compreensão singular da forma e do espaço, que mais tarde fundiu com a liberdade da pintura. Embora tenha formação em design, Beata optou por dedicar-se inteiramente às belas-artes, desenvolvendo um estilo que oscila entre o impressionismo moderno e a abstração lírica.

Atualmente a residir em Sóskut, a artista utiliza predominantemente a técnica da espátula e tintas a óleo para criar paisagens e figuras humanas que primam pela harmonia cromática e pela exploração da luz. O seu currículo inclui inúmeras exposições individuais e coletivas, sendo membro ativo de diversas associações de artistas, o que reforça o seu papel no panorama artístico húngaro contemporâneo.

domingo, 17 de agosto de 2025

Spark & Valer Sabadus - Seemann


A canção “Seemann” (em alemão, Marinheiro) é originalmente de 1960, interpretada por Lolita, um grande êxito da época.

O Rammstein fez uma versão em 1996 no álbum Herzeleid.
No contexto da banda, a letra mantém a essência melancólica da original: fala de solidão, despedida e a ideia de um marinheiro que parte para longe, deixando alguém para trás.

Komm in mein Bootein Sturm kommt aufund es wird Nacht
Wo willst du hinSo ganz alleintreibst du davon
Wer hält deine Handwenn es dichnach unten zieht
Wo willst du hinSo uferlosdie kalte See
Komm in mein BootDer Herbstwind hältdie Segel straff
Jetzt stehst du da an der Laternemit Tränen im GesichtDas Tageslicht fällt auf die Seiteder Herbstwind fegt die Straße leer
Jetzt stehst du da an der Laternehast Tränen im GesichtDas Abendlicht verjagt die Schattendie Zeit steht still und es wird Herbst
Komm in mein BootDie Sehnsucht wirdder Steuermann
Komm in mein BootDer beste Seemannwar doch ich
Jetzt stehst du da an der Laternehast Tränen im GesichtDas Feuer nimmst du von der Kerzedie Zeit steht still und es wird Herbst
Sie sprachen nur von deiner MutterSo gnadenlos ist nur die NachtAm Ende bleib ich doch alleineDie Zeit steht stillund mir ist kalt, kalt, kalt, kalt

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Cioran: entre o pessimismo e o fanatismo na política

A atmosfera de idolatria mostra um sintoma que revela nos sujeitos um desejo insaciável de dominação, transfigurado na política através da tirania, dos abusos de poder e do autoritarismo, características de grupos autoritários e radicais extremistas.

Em Portugal pouco ainda se fala sobre o filósofo romeno, Emil Cioran, nascido em 1911, em Rasinari, comuna romena localizada no distrito de Sibiu. O escritor e filósofo foi radicado posteriormente na França, onde ganhou fama nos círculos intelectuais, além de ser conhecido como “rei do pessimismo”, chamado assim por um jornal britânico da época. O seu pai, Emilian Cioran, era um padre ortodoxo romeno, enquanto a mãe, Elvira Cioran, era de Veneţia de Jos. Da linhagem materna pertencia a uma pequena família de nobres na Transilvânia, pois o seu avô materno era tabelião e ganhou o título de barão pelas autoridades imperiais.

Nos tempos de juventude apoiou o nazismo, após ter sido condecorado com uma bolsa de estudos em Berlim, assim como nutriu simpatia pelo fascismo italiano. Não muito tempo depois renega tal admiração da sua juventude, criticando os movimentos de ultradireita e os fascistas, além de tecer, durante toda a sua vida um mea culpa por seu envolvimento, denominando-os como “seitas doentias”, e referia a essa parte triste de sua vida como “doença da juventude”. Por esse motivo, supomos, a política nunca foi objeto direto de seus escritos, porém mesmo tratando de inúmeros temas, não deixou de alertar sobre as problemáticas que englobam os sujeitos como um todo.

Agregando o pessimismo de Schopenhauer, com o ceticismo de Montaigne e o niilismo de Nietzsche, não teve medo da represália académica ao discorrer sobre os temas da morte, da obsessão, da alienação e do fanatismo.

O assunto da alienação, recorrente em diferentes pensadores e perspectivas como Karl Marx, Jean-Paul Sartre e Albert Camus, retratam um ambiente de tortura e tormento, segundo Cioran, incitado pelas narrativas religiosas do pecado original e da obsessão pelo absoluto, como também pelo pragmatismo político observado no autoritarismo presente em diversos cantos da Europa. O filósofo viveu de perto o surgimento e a consolidação dos totalitarismos e as catástrofes causadas pelas crenças ideológicas do século passado, evidentemente, herdou a experiência sombria de tais eventos. Com efeito, sua filosofia é profundamente marcada por uma escrita trágico-poética, o que traduz bem seu pessimismo e desencantamento quase mórbidos, de quem assistiu aos horrores nefastos provocados pelos mais belos devaneios.

Pessimismo político e fanatismo
O pessimismo no que diz respeito à política, parte da compreensão de que as ideias, por si, deveriam estimular uma posição de tolerância entre as pessoas, de harmonia e bem-estar. Entretanto, movido pela animosidade e paixão, o ser humano projeta a si mesmo, transformando a ideia em crença, revelando um fundo bestial de entusiasmo através do proselitismo, da intransigência ideológica e da intolerância. Na prática, esse movimento é traduzido numa busca contínua pela hegemonia política, religiosa e ideológica, por parte do intolerante, descartando qualquer manifestação oposta ou contrária, não admitindo ideias que sejam contrárias às suas crenças subjetivas. Os radicais, em sua maioria, assumem uma postura excludente e fundamentalista, ligados ou não à religiosidade, mas estimuladas por grupos elitistas e burgueses da sociedade, que enxergam no caos da desordem a oportunidade de pôr em prática seus desejos de dominação.

A construção do fanatismo depende de enredos e alegorias apocalípticas que só teriam resolução a partir do surgimento de um mito ou herói. Ou seja, para se construir um “salvador da pátria” é necessário que se crie o caos, a instabilidade, o terror e o medo. Dentro desse contexto criado pela classe dominante surge o “messias”, que na verdade é o fanático por excelência ou aquele que dissemina o fanatismo por intermédio do controle e do autoritarismo. Através disso, não é difícil observar e apontar a semelhança dos movimentos autoritários e fascistas que de ontem e de hoje, além de criarem um cenário de extrema vulnerabilidade se colocam como a única alternativa cabível e válida.

Emil Cioran, em seus Syllogismes de l’amerture (em português, Silogismos da Amargura), afirma que “quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma nova religião”. Essa atmosfera de idolatria mostra um sintoma que revela nos sujeitos um desejo insaciável de dominação, transfigurado na política através da tirania, dos abusos de poder e do autoritarismo, características de grupos autoritários e radicais extremistas. A grande vitória da burguesia, segundo o autor, provém do fracasso do outro, um espetáculo de uma grande ideia desfigurada. O pessimismo inerente ao pensamento do autor não é um pedido de discipulado, ou um clamor por seguidores e arautos, mas um alerta para as sociedades não caírem nas amarras do obscurantismo e da tirania. Se por um lado, para muitos a utopia de um mundo harmonioso e feliz é posto como referência e ideal, pelo outro, Cioran, observa as tendências de estagnação prefiguradas pelas mesmas utopias, que caem em um idealismo abstrato e se acomodam, não contestam e nem buscam transformar a realidade.

Intolerância e fanatismo
Emil Cioran foi suscitado como teórico que fundamenta a discussão sobre o fanatismo, relacionando o modus operandi dos regimes autoritários com o desvio da racionalidade, que seria superado através da prática cética – ação que evitaria os apegos emotivos e irracionais sobre ideologias destrutivas. A postura racional, segundo o autor, não suscita o apelo por uma falsa alternativa política, mas reforça a necessidade de tolerância entre os indivíduos para que o fanatismo político e religioso não ganhe força na sociedade.

Na prática política contemporânea notamos o discurso de segmentos reacionários da nossa sociedade, dirigidos em especial às minorias e opositores, carregado de intransigência e proselitismo. Esses grupos ultrarradicais edificam as suas crenças no terreno dogmático, similar à religiosidade fanática, se fecham em círculos ou panelas com pessoas similar e com as mesmas tendências de pensamento, para que sejam validados seus preconceitos e visões deturpadas sobre o mundo.

A intolerância que vemos no mundo atual, pode ser definida como a ação que o fanatismo estimula e pratica em todas as suas declinações, tendo como alvo quem não se enquadra em seus devaneios e alucinações autoritárias. Por isso, segundo o autor franco-romeno, qualquer sujeito que abraça o proselitismo e desenvolve um fanatismo ideológico naturalmente se transforma num intolerante – e também num idólatra.

Um dos conselhos retirados das suas obras atravessa gerações: sempre que um fanatismo declina, outro surge em seu lugar. Observamos atentamente que o retorno de tendências fascistas nos principais postos governamentais, em grandes países no mundo, é a prova da existência do perigo constante que vivemos. Por conta disso, a humanidade pode caminhar para sua própria destruição, tornando-se mercadoria de si mesma, ou seja, vendendo a sua liberdade e os seus direitos, através da simpatia e do apoio por grupos extremistas. Numa leitura contemporânea, notamos o capitalismo, como um “fanatismo económico” ou “personificação material e valorativo do fanatismo”, onde todos são expostos a todo instante, sofrendo as consequências da disparidade social e da desigualdade. Entretanto, não esqueçamos que os ideais que flertam com o fascismo já encabeçam diversos países ao redor do mundo, através de seus chefes de Estado, possuindo em comum a servidão irrestrita ao neoliberalismo e ao imperialismo. O neoliberalismo, dessa forma, é a evolução do fanatismo e da subserviência dos intolerantes, personificada num modelo econômico excludente, desigual e injusto.

Os pessimistas costumam ser bons profetas. Emil Cioran previa um pequeno declínio dos ideais políticos, de modo geral, através da epidemia do fanatismo que já se vivia naqueles anos, o retorno das ideais autoritárias é a prova de que o fanatismo e a intolerância não são vencidos somente com a ajuda do tempo. É preciso muito mais que notas de repúdio e camisas antifascistas.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Flatpack forests - IKEA’s practices in the Carpathian Mountains


Florestas Pré-fabricadas - As práticas da IKEA nas Montanhas dos Cárpatos
Este documentário de investigação aborda as controversas práticas de exploração madeireira da IKEA nas florestas da Roménia, localizadas na cordilheira dos Cárpatos, confrontando o discurso oficial de sustentabilidade ambiental da multinacional com a destruição real observada no terreno. A equipa de jornalistas acompanha ativistas ambientais locais e especialistas em conservação da natureza para expor práticas que, embora justificadas pela empresa sob designações técnicas alternativas, resultam no abate massivo de ecossistemas florestais antigos e complexos. Ao longo da investigação, são inspecionados vários lotes de terreno florestal adquiridos pela gigante do mobiliário, onde se identificam claros sinais de desflorestação total, transporte ilegal de madeira por subempreiteiros com guias falsificadas e a ausência das chamadas "árvores de biótopo" (espécimes antigos deixados propositadamente para salvaguardar a biodiversidade), apesar das exigências dos certificados internacionais. O documentário salienta também a forte instabilidade civil, o ambiente de ameaça e a corrupção que envolvem a indústria da madeira no país, evidenciando que os mecanismos oficiais de fiscalização ambiental são largamente ineficazes.

O que aconteceu:
A equipa de reportagem e os ativistas da Agent Green deslocaram-se a várias propriedades florestais detidas pela IKEA na Roménia para verificar as denúncias de destruição ecológica. No local, encontraram encostas completamente despidas de vegetação através de abates rasos que geram graves problemas de erosão dos solos e impedem a regeneração natural da floresta. Durante o trabalho de campo, o ativista Gabriel Păun relata que chegou a ser brutalmente agredido no passado por funcionários de empresas madeireiras ao tentar fotografar a atividade destas companhias, obrigando-o a viver atualmente numa localização secreta por questões de segurança. A equipa confrontou os camionistas que transportavam a madeira em trânsito e descobriu, através de aplicações digitais públicas, que o volume real carregado duplicava muitas vezes o registo legal permitido nas guias oficiais. Adicionalmente, em visitas guiadas com os gestores da IKEA, a empresa tentou justificar o corte total de áreas mistas com a necessidade de fazer um "corte de substituição" para erradicar espécies invasoras e replantar carvalhos recorrendo a milhares de tubos de plástico protetores, o que os especialistas independentes classificaram como uma tentativa artificial de transformar florestas naturais biodiversas em plantações comerciais puramente económicas. Confrontado com as provas visuais obtidas por drones e as multas passadas pela Guarda Florestal a subempreiteiros da marca, o porta-voz da IKEA escudou-se na certificação do FSC (Forest Stewardship Council) e afirmou ter tolerância zero à corrupção, sem no entanto esclarecer se a empresa alguma vez denunciou ativamente estas infrações às autoridades.

Principais conclusões:
  1. Falha no modelo de sustentabilidade: existe um fosso profundo entre o marketing ecológico da IKEA e as operações que ocorrem no terreno. A empresa recorre a novos termos técnicos para camuflar o impacto ambiental de técnicas comerciais agressivas que visam apenas maximizar a rentabilidade económica da madeira mais valiosa, como o carvalho.
  2. Certificações corrompidas: o sistema de certificação florestal internacional FSC, no qual a IKEA se apoia integralmente para garantir a legalidade e ética da sua matéria-prima, é considerado ineficaz e corrompido por interesses corporativos na Roménia. As suas regras permissivas validam o abate em áreas protegidas pela rede Natura 2000 e florestas virgens.
  3. Falta de controlo sobre subempreiteiros: embora a IKEA afirme cumprir todas as normas legais vigentes, a fiscalização sobre as empresas terceiras contratadas para fazer o abate e a extração da madeira falha sistematicamente, permitindo a infiltração de práticas criminosas no circuito comercial.
  4. O fim da "Mobília Rápida": os analistas e ativistas concluem que o atual modelo de negócio baseado no consumo em massa de mobiliário barato e descartável não é compatível com a preservação a longo prazo dos recursos naturais do planeta. A IKEA, sendo a maior consumidora de madeira do mundo, dita a pressão global sobre as florestas e precisa de rever estruturalmente a sustentabilidade real do seu modelo produtivo.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Ciclovias: Portugal pedala na cauda da Europa


No acesso a ciclovias seguras, Portugal ainda pedala na cauda da Europa. Neste novo indicador do Atlas of Sustainable City Transport , Portugal regista 13%, ficando apenas à frente da Grécia (6%), Roménia (6%), Ucrânia (7%) e Bielorrússia (10%). No topo da tabela de países que têm melhor cobertura estão Finlândia (97%), Dinamarca (94%), Suécia (89%) e Países Baixos (85%). 
Público 4jun2024

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Dia Internacional da Dança


O Dia Internacional da Dança é celebrado todos os anos a 29 de abril desde 1982. O dia assinala o aniversário de Jean-Georges Noverre, o criador do ballet moderno.

O objetivo do Dia Internacional da Dança, segundo o seu organizador, o Instituto Internacional do Teatro, é aproximar as pessoas de todo o mundo através da linguagem comum da dança.

Todos os anos, um coreógrafo ou bailarino é destacado e uma mensagem escrita por ele é divulgada em todo o mundo.

A argentina Marianela Núñez é a bailarina em destaque este ano, e a sua mensagem é honrar a história e as tradições que serviram de base ao panorama atual da dança.

Inspire-se com estas contas europeias de dança no Instagram

1. Little Shao - Breakdancing na Cidade Luz
Little Shao, fotógrafo de dança baseado em Paris, tem vindo a documentar dançarinos de todo o mundo há anos. As suas fotografias espetaculares mostram alguns dos locais mais emblemáticos da Cidade Luz, que ganham vida através de poses ainda mais espetaculares de bailarinos de topo. Little Shao, que cresceu nos subúrbios de Paris, é um dos fotógrafos oficiais do breakdance nos Jogos Olímpicos de verão deste ano em Paris - e ele próprio é um b-boy.

“Comecei a tirar fotos para poder representar melhor este estilo de dança, para que as pessoas pudessem perceber o que é o breakdance”, disse aos meios de comunicação franceses. “Para mim, o breakdancing é uma forma de arte. Há algo muito libertador no breakdance e no hip-hop em geral.”

2.Cairde - a dança irlandesa passa a ser global
Este grupo de rapazes deu a conhecer ao mundo a dança irlandesa através dos seus vídeos virais nas redes sociais, onde batem os dedos dos pés ao som de canções populares, de Taylor Swift a The Game. Os seus vídeos a cappella também são um sucesso entre os fãs de ASMR. O grupo já viajou por todo o mundo, atuando em Paris para uma multidão de 80.000 pessoas e na Casa Branca para o Presidente Joe Biden. Veja-os para uma dose de boas vibrações.

3. Ghetto Funk Collective - Trazendo o boogie
Por falar em boas vibrações, o grupo de dança Ghetto Funk Collective, sediado em Roterdão, é uma fonte garantida de sorrisos. Trazem o funk e também podem ensiná-lo a fazer boogie através da sua nova master class de locking. Se tiver pouco ritmo, pode ainda assim sentir algumas vibrações através dos seus vídeos contagiantes e alegres.

4. Biscuit Ballerina - Rir na dor do perfecionismo do ballet
A bailarina Shelby Williams, solista do Ballett Zürich, goza com o perfecionismo frequentemente exigido aos bailarinos com a sua conta de dança cómica Biscuit Ballerina.

"É uma sátira de ballet que transforma todas as falhas do ballet numa caricatura gigante, da qual os bailarinos se podem rir e ultrapassar na sua própria busca da perfeição", afirmou.

Williams apresenta bloopers de outros bailarinos, bem como cenas leves que oferecem uma nova visão das dificuldades da dança. Nem tudo é graça e elegância, malta.

Sair de casa e assistir a espectáculos de dança ao vivo

1. Bélgica - Festival Danses en Fête
É o último dia do festival Danses en Fête na Bélgica e há eventos a decorrer em todo o país. O festival anual inclui exposições, conferências, espectáculos e aulas de mestrado sobre diferentes tipos de dança. Esta segunda-feira, pode ter aulas de dança, participar em workshops, assistir a danças ao ar livre e reimaginar a dança do varão com um artista de Bruxelas.

Consulte a programação completa aqui.

2. Budapeste - 24º Festival Internacional de Dança de Budapeste
A capital húngara acolhe o 24.º Festival Internacional de Dança de Budapeste até 11 de maio, com uma celebração da dança contemporânea - tanto local como global. Para assinalar o Dia Internacional da Dança, a Associação de Artistas de Dança Húngaros e o Teatro Nacional de Dança apresentam um espetáculo de gala conjunto com o trabalho do diretor-coreógrafo Balázs Vincze.

Para mais informações e toda a programação do festival, clique aqui

3. Paris - Jovens bailarinos no centro das atenções para "Puzzle"
Dirija-se ao Le Jeune Ballet Européen na capital francesa para fazer uma viagem através de 10 universos diferentes de dança com alguns dos mais talentosos jovens bailarinos em cena. O espetáculo "Puzzle" apresenta 10 peças curtas que vão do hip-hop ao ballet e à dança contemporânea, mostrando o talento de 29 jovens artistas.

A companhia de estudantes permite que os jovens bailarinos cresçam e aprendam através de espectáculos apresentados ao público ao vivo. São apoiados por coreógrafos, directores de cena e técnicos experientes. Assista a um espetáculo esta noite, ou até 24 de junho.

Veja as transmissões em direto do Dia Internacional da Dança na OperaVision
Se preferir ficar no sofá e assistir a alguns bailarinos profissionais a partir de casa, a OperaVision tem um dia inteiro de programação em direto no YouTube com danças de toda a Europa. Mergulhe na dança folclórica romena ou assista a actuações do Royal Swedish Ballet, do Lviv National Ballet e do Opera Ballet Vlaanderen.

Poema sobre Dança

quisera, tão só, ser movimento
no teu corpo faminto
de dança.

João Costa, dezembro.2015

sábado, 20 de abril de 2024

Visão Europeu - Criticamente Em Perigo de Extinção


Actualmente existem menos de 500 indivíduos da espécie em Espanha, no País Basco, Navarra, La Rioja, extremo noroeste de Aragão e extremo nordeste de Castela e Leão. É possível que tenha ocorrido no nordeste transmontano; ainda hoje se debate a origem do visão do Velho Mundo na Península Ibérica e a sua área máxima de distribuição.

Actualmente existe um programa de reprodução em cativeiro na região de Toledo para tentar recuperar o nosso visão no nordeste de Espanha. A espécie está classificada como Criticamente Em Perigo de extinção na Lista Vermelha da UICN. Existem apenas três população viáveis, na Rússia, Roménia, e sudoeste de França e nordeste de Espanha. Uma das maiores ameaças a este mamífero é a competição com o visão-americano (Neovison vison), uma espécie exótica e invasora, que tem proliferado um pouco por todo o continente europeu, e está também presente no Norte de Portugal. Outras ameaças incluem a poluição de cursos de água, a destruição de habitat e humanização das paisagens.

terça-feira, 12 de março de 2024

Juno Reactor - God is God (2024)


Portanto, em 1997, juntei-me a Ray Stevens para criar o videoclipe de "God is God". Consegui os direitos de "A Cor da Romã", um filme de Sergei Parajanov. Um dos dez melhores filmes de Martin Scorsese.

Provavelmente, terminei o videoclipe por volta da altura do primeiro álbum, "Transmissions", mas simplesmente não combinava com os temas desses primeiros álbuns. Foi apenas em "Bible of Dreams" que Greg Hunter, um grande engenheiro e produtor, o misturou.

Uma coisa engraçada é que, quando "God Is God" foi lançado, fez furor nos programas de dança da noite da MTV e chamou a atenção de Alice Cooper e Mariah Carey. O marido de Mariah Carey, Tommy Mattola, CEO da Sony Records, chegou mesmo a contactar o meu manager, Mick Paterson, querendo que eu realizasse o próximo videoclipe da Mariah. Eu disse que não. Primeiro, porque tenho muito respeito por Sergei Parajanov e pelo seu trabalho original. Além disso, realizar um videoclipe com um orçamento tão grande! Tudo o que tinha feito até então era filmar em Super 8. E, sinceramente, fazer um vídeo para uma grande estrela não me parecia bem. Mesmo depois de o Tommy insistir, eu disse que não.
Um grande obrigado a Mike Stanton por sincronizar as filmagens e edições com uma versão ampliada do filme. A antiga estava meio desfocada.

[sample] 00:09 - que enterrou dois pastores [source] - Stefka Sabotinova and Marcel Cellier- Prïtourïtze Planinata (Chant De La Plaine Thrace Av. Orch.)
Le Mystère Des Voix Bulgares (Volume 1) Disques Cellier 1975 (appears at 0:16) [sample] 00:57 - You shall see hail fall from a clear sky. You shall see darkness... God is God. [source] - The Ten Commandments: (Cecil B. DeMille, 1956) Charlton Heston (as Moses) [sample] 03:50 - You shall see.. good.. and evil. You shall see.. bitter waters. You shall see.. laws of life. [source] - The Ten Commandments: (Cecil B. DeMille, 1956) Charlton Heston (as Moses) vocal Natacha Atlas The music video uses footage from The Color of Pomegranates. 1969 directed by Sergei Parajanov.

terça-feira, 5 de março de 2024

Le concours des castrats: Arias with Mineccia, Mariño and Sabadus


Baroque recital: Concours de virtuosité des castrati 

00:00:00 - Ouverture - Vespasiano | Ariosti 
00:04:51 - Sagace è la mano | Hasse 
00:10:47 - Lascia la spina | Handel 
00:17:25 - Tra le procelle assorto | Graun 
00:24:25 - Se il mio amor fu il tuo delitto | Handel 
00:30:15 - La gioia immortal | Porpora 
00:35:14 - Arrival of the Queen of Sheba | Handel 
00:38:28 - Crude furie degli orridi abissi | Handel 
00:42:19 - Alto Giove | Porpora 
00:53:24 - Vo solcando un mar crudele | Vinci 
01:01:12 - Temi lo sdegno mio | Porpora 
01:06:17 - Sound the trumpet | Purcell 
01:09:17 - Pur ti miro | Monteverdi 

Filippo Mineccia | Alto 
Samuel Mariño | Soprano 
Valer Sabadus | Mezzo-soprano 
Orchestre de l'Opéra Royal 
Conducted by Stefan Plewniak

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Florestas antigas ucranianas destruídas para o mercado da UE


As empresas europeias são cúmplices na destruição de florestas antigas nos Cárpatos ucranianos, cuja madeira é vendida em toda a União Europeia. Esta é a descoberta chocante de uma pesquisa e viagem de campo do Greenpeace na Europa Central e Oriental à floresta antiga ucraniana.
A Greenpeace CEE está actualmente a liderar uma Expedição de 40 dias, para lançar luz sobre a destruição maciça que afecta as florestas dos Cárpatos em cinco países: Roménia, Ucrânia, Hungria, Eslováquia e Polónia.
A Greenpeace apela à União Europeia para que implemente medidas eficazes para proteger este património natural europeu. Se os governos e as instituições europeias levarem a sério a travagem da desflorestação internacional e a melhoria da protecção e restauração das florestas, devem começar por implementar os seus próprios compromissos e obrigações em matéria de protecção da natureza.

Yehor Hrynyk, um biólogo ucraniano, membro da expedição, disse : "Os Cárpatos ucranianos abrigam grandes áreas de florestas antigas que são um hotspot essencial de biodiversidade. Infelizmente, a indústria florestal da Europa Ocidental os vê apenas como uma fonte de lucro. As consequências da exploração madeireira irresponsável nesta região são devastadoras, num país que já sofre uma guerra injustificada e onde é mais difícil do que nunca aplicar os princípios da conservação da natureza. As áreas protegidas não estão a ser estabelecidas em florestas com elevados níveis de conservação. valores para que a procura do mercado europeu por madeira e produtos de madeira seja atendida.”

O mais recente Relatório do Greenpeace CEE, publicado em novembro de 2022, revelou até que ponto as florestas dos Cárpatos foram impactadas pela exploração madeireira industrial. De forma alarmante, menos de 3% dos ecossistemas críticos estão estritamente protegidos, estando a maioria exposta à exploração madeireira e exploração generalizada.

Segundo estatísticas oficiais [1], a União Europeia é o principal importador de madeira e produtos florestais ucranianos. A Greenpeace CEE, juntamente com activistas ucranianos, visitou vários locais de exploração madeireira localizados em áreas florestais antigas durante o ano passado, onde os impactos da exploração madeireira industrial são claramente visíveis.
Uma das empresas que utiliza madeira proveniente de florestas antigas dos Cárpatos ucranianos é a empresa suíça Coroa suíça. Esta empresa é especializada na produção de painéis de partículas para o mercado ucraniano e para exportação. No seu website, a Swiss Krono afirma que a madeira que compra é sustentável, apesar de a madeira proveniente de locais de exploração madeireira em áreas florestais antigas ter sido anteriormente fornecida à Swiss Krono.
Durante a expedição aos Cárpatos, a equipe do Greenpeace de ativistas ucranianos, poloneses e romenos visitou o local de extração de madeira que fornece madeira para a coroa suíça e um dos locais de processamento da coroa suíça em Broshniv-Osada. O Greenpeace CEE apela à empresa para que deixe de utilizar madeira proveniente de florestas imaculadas dos Cárpatos.

Robert Cyglicki, Diretor do Programa do Greenpeace CEE, disse : "Os governos e autoridades europeus devem garantir que todas as florestas dos Cárpatos de alto valor de conservação, incluindo aquelas localizadas na Ucrânia, sejam estritamente protegidas. Se as tendências atuais continuarem, as florestas desprotegidas, essenciais para a restauração e ecossistemas vitais para espécies ameaçadas, serão erradicadas. Para enfrentar as crises climáticas e naturais, a UE deve proteger os sítios naturais excepcionais que permanecem em solo europeu de qualquer tipo de extracção. Ao mesmo tempo, as empresas devem retirar as mãos destes locais únicos e antigos. florestas."

Fonte: aqui
Imagens fotográficas e de vídeo da investigação podem ser baixadas através de nossa Biblioteca de Mídia internacional 
Para informações adicionais e entrevistas, também podemos conectar-nos aos nossos parceiros ucranianos

Notas aos editores:
[1] De acordo com estatísticas oficiais, em 2021 a Ucrânia exportou 4.645.549 toneladas de madeira e produtos de madeira com um valor total de 2.005.803 USD (grupos de mercadorias 44-46). Apesar da guerra, em 2022 as exportações de madeira e produtos representaram 94% do valor do ano passado (1.885.422 dólares), o que representou 4,3% do total das exportações da Ucrânia em termos monetários.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Herta Müller - Já então a Raposa era o Caçador

Lido. Muito bom. Roménia nos últimos dias do regime de Ceausescu: amigos que se fizeram traidores, outros que desapareceram, provavelmente assassinados; ex-diretores tornam-se professores, fiéis de armazém tornam-se diretores. Numa atmosfera onde o medo e o horror são omnipresentes, a professora Adina, a operária fabril Clara e o músico Paul tentam sobreviver. Mesmo depois da queda do regime, a ameaça não se dissipa. A raposa continuou a ser o caçador. Herta Müller, uma das mais proeminentes autoras de língua alemã, combina o vigor imagético e a prosa rítmica numa singular abordagem do totalitarismo. Na fundamentação da Academia Sueca de Estocolmo, lê-se sobre a autora galardoada com o Prémio Nobel de Literatura de 2009 que «retrata, através da concentração da poesia e a franqueza da prosa, a paisagem dos desapossados».

Herta Müller (1953) nasceu na Roménia e vive em Berlim desde 1987. Estudou Filologia alemã e romena em Temeswar e é membro da Academia Alemã da Língua e Literatura de Darmstadt. Antes de ir para a Alemanha, esteve exposta continuamente aos interrogatórios, registos domiciliários e ameaças da Securitate, o Serviço Secreto romeno, acontecimentos que, não por acaso, estão bem presentes em alguns dos seus livros.
De entre os mais importantes prémios que Herta Müller recebeu encontram-se o Impac Dublin Literary Award, em 1998, o de Literatura de Berlim 2005, o Würth de Literatura Europeia 2005, o de Literatura de Walter Hasenclever 2006, o Franz Werfel de Direitos Humanos 2009, o Prémio Nobel de Literatura 2009 e o Hoffmann von Fallersberg 2010.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Filme: Filantropica (2002)


Por apresentar um ponto de vista que pode ser desconhecido ou difícil de captar para muitos espectadores não romenos, é recomendado conhecer algo da conjuntura histórica utilizada como pano de fundo do filme para uma melhor inteligibilidade. Trata-se do chamado “período de transição”, que foi um termo utilizado para descrever o período entre a Roménia comunista, do ditador Nicolae Ceausescu, e uma sociedade “normal”. Foi um período em que as pessoas teoricamente poderiam recuperar a dignidade, aprender a falar a verdade e confiar em seus semelhantes. A questão é que, na Roménia, como em todos os outros países ex-comunistas, esse período foi marcado por muitas desilusões, por muitos sonhos e destinos desfeitos, pois a recuperação não se mostrou fácil nem nos planos económicos, nem nos humanos. O lugar das relações humanas foi ocupado por artimanhas e roubos, o vazio dos slogans comunistas foi substituído pelo vazio da TV comercial. Sobreviver como ser humano era uma tarefa difícil. Outro ponto importante a se conhecer é que a literatura e o teatro romenos têm uma grande tradição satírica e isso é muito explorado na obra.

Contextualização histórica à parte, o filme é uma crítica à “nova ordem” instalada na Roménia após o fim do comunismo em 1989 com a Revolução Romena, e atribui ao novo regime a grande quantidade de mendigos, os golpes constantes, o sistema educacional deficitário, etc. Não vou me ater a estas peculiaridades, e sim ao roteiro, pois, dada a atual conjuntura brasileira, achamos tudo isso muito próximo de nossa realidade. Quem nunca se compadeceu por conta de algum pedinte com alguma história miserável? Quantas vezes ajudamos, mas ficamos desconfiados? Após assistirmos ao filme, é bastante natural que fiquemos pensando se isto realmente existe e quantas vezes já fomos enganados. Golpistas existem em todos os lugares do mundo, e ninguém esta imune às ações desse tipo de gente. Deve-se dar destaque, nesse contexto, às histórias inventadas por Don Pepe para seus “coletores de esmolas”, que são mirabolantes e espetaculares. No geral, porém, fica claro que a versão superficial e degenerada da nova ordem é o foco principal do filme.

Ovidiu é manipulado por Don Pepe e acaba até perdendo a sua própria identidade, ao entrar para esta orquestra de fraudes, em nome de sua condição de homem solitário e carente. É isso que Don Pepe procura: pessoas emocionalmente fragilizadas, necessitadas e ávidas por dinheiro fácil. Isso nada difere da situação de diversas pessoas utilizadas no tráfico de drogas, por exemplo. Nesse sentido, o filme acaba sendo bastante realista.

Temos atuações bem convincentes, por vezes até exageradas, mas é bom sempre ter em mente que estamos diante de uma sátira. Não há destaques absolutos, pois todos os artistas estão muito bem em tela, entretanto, os protagonistas Ovidiu, interpretado por um ator muito talentoso, diga-se de passagem, e o Sr. Puiutz realmente atraem os holofotes sempre que estão em cena através de um magnetismo impressionante.

As temáticas abordadas pelo filme, num primeiro olhar, nada combinam com uma comédia tão interessante, mas é para isso que temos bons diretores: para transformar temas pesados, como a miséria, em sorrisos. Mario Monicelli e seu fantástico “Feios, sujos e malvados” (1976) é um ótimo exemplo do tipo da manipulação da linguagem cinematográfica vista em “Filantrópica“, para que o leitor/espectador perceba que não estamos de algo originalíssimo, mas, de certo, muito especial. Abordar temáticas sociais de maneira leve é sempre uma boa estratégia para se transmitir a mensagem sem chocar. No fim das contas, vale muito a pena a audiência, pois proporciona boas gargalhadas e muitas reflexões. Rir e pensar andam de mãos dadas nessa grande obra da cinematografia romena. Mentiras podem ser vividas numa plena realidade!

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Documentário da Semana - Bioenergy: The Ugly Truth


It was supposed to be the best of all worlds: renewable, clean energy from organic matter and residues. But it also became land grabbing, nonsensical forest destruction and a festival of national subsidies that have caused more distortions that what you can think of. 
From Russia to Italy, through Germany and Romania, follow our cameramen as they document abuses, malpractice and paradoxes in the production of bioenergy. 

In this documentary co-produced by BirdLife Europe and Central Asia, and Transport & Environment, we expose some of the distortions that have turned a solution... into a problem.

Leia mais:
EU Bioenergy Blog 

domingo, 23 de agosto de 2020

O Ouro dos Tolos e o Odor de Alho: A Peculiar História Química do Telúrio


E-livro


Identificado no século XVIII na Transilvânia, o elemento batizado em homenagem à Terra é tão fascinante quanto invulgar.

A descoberta do telúrio remonta ao ano de 1782, nas regiões de mineração da Transilvânia (atual Roménia). O mineralogista austríaco Franz-Joseph Müller von Reichenstein analisava um minério de ouro local atípico - apelidado por mineiros de aurum album (ouro branco) ou "ouro dos tolos" -, que continha menos ouro do que o esperado e um elemento desconhecido que interferia no processo de extração do metal precioso.

Müller von Reichenstein suspeitou ter encontrado um novo elemento, mas foram precisos mais de 15 anos para que a descoberta fosse formalmente confirmada. Em 1798, o influente químico alemão Martin Heinrich Klaproth isolou o elemento e deu-lhe o nome de telúrio, derivado de Tellus, a deusa romana e personificação da Terra (fazendo um par conceptual com o elemento selénio, descoberto mais tarde e batizado em honra à Lua, Selene), como regista a Royal Society of Chemistry.

Na tabela periódica, o telúrio pertence ao grupo dos calcogénios (a mesma família do oxigénio e do enxofre). Na sua forma pura, é um elemento de aspeto prateado, brilhante e quebradiço. Quando queimado em presença de ar, produz uma chama azul brilhante e forma dióxido de telúrio.

Apesar das suas propriedades químicas e semicondutoras úteis, o telúrio carrega uma das características biológicas mais invulgares da química organometálica: o chamado "hálito de telúrio".

Quando humanos ou animais são expostos a pequenas quantidades de compostos de telúrio (mesmo através do contacto cutâneo ou inalação), o organismo metaboliza o elemento convertendo-o em dimetil telureto. Esta substância volátil é eliminada através dos pulmões e dos poros da pele, conferindo ao indivíduo um odor extremamente penetrante, semelhante ao do alho estragado. O efeito é notável por duas razões:
  1. O odor manifesta-se mesmo com doses de exposição microscopicamente pequenas (frações de miligrama).
  2. A duração do efeito é notavelmente persistente, podendo durar semanas ou meses após uma única exposição acidental, de acordo com relatórios de segurança da CDC / NIOSH.
Hoje em dia, com protocolos estritos de higiene e segurança industrial nas fábricas de semicondutores e metalurgia, os riscos de exposição grave foram drasticamente reduzidos. No entanto, o "efeito alho" permanece na história da ciência como uma lembrança pitoresca das peculiaridades biológicas do elemento que veio das entranhas da Transilvânia para moldar a tecnologia moderna.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Música do BioTerra: COMA feat. Sunetele Padurilor - Cel mai frumos loc de pe pamant


Norii se repetau de ceva timp
Când deodată-ai apărut
Iar mâna ta m-a prins mai altfel ca oricând..

Mii de metafore se-nfruntă
Mii de cuvinte stau la rând..
Pentru că azi nu eşti decât cel mai frumos loc de pe Pământ!.

E aceeaşi poveste de mult
Cu-acelaşi vechi vas de lut
Şi-acelaşi fluture surd ce nu vrea să moară….

Pe-acelaşi curs adormit
De sub acel pietroi-neferit
De-acelaşi ac otrăvit ce nu vrea sa doară….

Plecam să nu mai aud
De viitoruri sau de trecut,
Când mâna ta m-a prins..

Iar ochii tăi m-au privit
Ca niciun alt "Bun venit!"
Din lumi de ieri.

Iar gura ta mi-a vorbit
Ca nicio alta venind
În urma ei,
De lacrimi şi scântei..

Emoţii, ură, suspin,
Şi dor şi drag şi vestitul "toate-or să treacă".

Aceleaşi clipe din care respir
Şi clipe de care mă mir
Şi-aceleaşi clipe-ntregi ce nu stau deloc laolaltă.

Plecam să nu mai aud

De viitoruri sau de trecut,
Când mana ta m-a prins..

Iar ochii tăi m-au privit
Ca niciun alt "Bun venit!"
Din lumi de ieri.

Iar gura ta mi-a vorbit
Ca nicio alta venind
În urma ei.

Şi atunci cu tot ce-aveam pus la zid
Spre nori m-am repezit
Şi-am dat în ei!.

Şi spre oriunde s-au năpustit
În urma ne mai privind
Purtând pe ei.

Urme de lacrimi şi scântei
Suntem şi lacrimi şi scântei
Suntem şi lacrimi şi scântei.

Norii se-nclină când din lacrimi ies scântei.

Norii se repetau de ceva timp
Când deodată-ai apărut
Iar mâna ta m-a prins mai altfel ca oricând..

Mii de metafore se-nfruntă
Mii de cuvinte stau la rând..
Pentru că azi nu eşti decât cel mai frumos loc de pe Pământ!

Biografia e Discografia
Coma (banda)

Página Oficial

Youtube

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A tempestade da bondade



Rick Robin, artista visual neo-futurista, lança mão das novas tecnologias computorizadas e traz-nos neste vídeo uma arquitectura dinâmica de imagens oníricas e surreais que nos falam dum porvir abençoado. Concordantemente sublime a interpretação em “arpeggio” da vocalista romena Adda Kaleh.

Melhor som aqui e em Mosaic

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Emil Cioran - O filósofo da melancolia



Preparem-se para pensamentos melancólicos. Para ideias desconcertantes. Para ideias que nos incomodam. Se forem de natureza macambúzia e com pouco senso de reflexão, sugiro que não se apercebam do filósofo romeno Emil Cioran, que nasceu em Rășinari, uma área rural da Transilvânia (portanto, conterrâneo do Conde Drácula) em 1911 e que faleceu em Paris, no ano de 1995. Ainda na Roménia, aos 17 anos ingressou na Faculdade de Filosofia, e encantou-se pela política partidária aderindo a um Partido Nacionalista, inspirado no Nazismo, mas na fase adulta reconheceu este erro e acabou por se desculpar; mas foi em Paris que se radicou e tentava viver como estudante apenas.

Tanto é que foi chamado à responsabilidade pela administração da Sorbonne, pois já estava com 40 anos e havia estado há muito na instituição, aproveitando-se das refeições baratas nos bandejões da cantina da universidade. Assim, teve que se desligar da instituição (ou desligaram-lhe) e entronizou a característica com a qual gostaria de ser conhecido e reconhecido: a de um eterno estudante.

Nos primeiros ensinamentos da Filosofia, encantou-se com Immanuel Kant (1724-1804), Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Contudo, refutou a Filosofia como o grande esquema de explicação do mundo e de Nietzsche herdou a característica de se expressar por aforismos, tais como:

“Amo o pensamento que guarda um gosto de carne e sangue, e a uma abstração vazia prefiro mil vezes uma reflexão surgida de uma exaltação dos sentidos ou de uma depressão nervosa“.

Cioran é de um pessimismo impressionante. Mas, quando leio alguns dos seus pensamentos, consigo encontrar humor, mesmo que negro, das suas provocações. Na fase adulta, foi acometido por uma insónia que não o deixava aspirar a novos começos, pois, segundo ele, só aqueles que dormem e se levantam normalmente na manhã seguinte têm o direito de aspirar a coisas novas, sonhos novos, projetos novos.

Saindo do seu quarto barato de hotel, pela madrugada lá ia Cioran perambular pela Cidade Luz, em becos escuros contando com a companhia de putas tristes que formavam as cenas. Sem aspiração alguma, pessoal ou profissional, sem compromissos e sem ter que prestar contas a ninguém, Cioran tinha tempo de sobra para refletir e tirar extratos destas sinapses, tais: “O paraíso é a ausência do homem“.

O mundo de Cioran é cinza e não intenta nenhuma metafísica. Ele mesmo desejava uma vida de inseto, tipo “A Metamorfose” de Franz Kafka e fico aqui a pensar se este desapego à vida é que não fez com que, contraditoriamente, vivesse tanto, afinal, morreu aos 84 anos, precedido pelo Mal de Alzheimer.

Os seus livros mais conhecidos são “A Tentação de Existir“, “Exercícios de Admiração“, “Breviário de Decomposição” e “Silogismos da Amargura“. Citando fontes, o filósofo foi-me apresentado pelo excelente artigo de Paulo Jonas de Lima Piva, “Cioran Uma Mente Desconcertante“, publicado na Revista Discutindo Filosofia (Ano 1, n.º 2). Do mesmo modo que a partir desta apresentação procurei inteirar-me mais sobre Cioran, espero que este artigo em questão lhes possa proporcionar isso.

Deixo-lhes alguns pensamentos, e esclareço que não me aprofundei mais para dar um certo estilo às intenções de Cioran: mais vale uma vida vivida com toda a sua contrariedade a esquemas de reflexões e de salvação do mundo, pelo menos a nossa própria. Tentem não se matar ao lerem estas reflexões tortas. Ao menos para mim, significou deleite puro, pois, para além da seriedade das sentenças, percebi um certo sorrisinho de mofa.

“No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!“;

“O momento em que pensamos ter compreendido tudo dá-nos ar de assassinos“;

“O destino do homem é esgotar a ideia de Deus“;

“A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade“;

“Que vale mais: realizar-se na ordem literária ou na ordem espiritual, ter talento ou força interior? Parece a segunda fórmula a preferível, pois mais rara e enriquecedora. O talento destina-se ao olvido, em contrapartida a força interior aumenta com os anos, podendo atingir o seu apogeu no momento em que a pessoa expira“.