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terça-feira, 28 de julho de 2026

Por que razão Taiwan é o coração da IA mundial e o ponto mais crítico da geopolítica global?


Quando se fala na revolução da Inteligência Artificial (IA), a atenção recai habitualmente sobre os grandes algoritmos desenvolvidos em Silicon Valley, os supercomputadores de Elon Musk ou os apoios estatais em Pequim. Contudo, toda a arquitetura da economia digital moderna assenta fisicamente sobre uma ilha no Pacífico com cerca de 36 mil quilómetros quadrados: Taiwan.

A relevância de Taiwan ultrapassou a esfera do comércio tradicional para se converter no centro de gravidade da segurança nacional global, da transição energética e do futuro da computação.

O Monopólio da TSMC e o "Escudo de Silício"
Nvidia desenha os processadores gráficos (GPUs) mais potentes do mundo e empresas como a xAI, a Meta e a OpenAI desenvolvem os modelos de IA, mas nenhuma destas entidades fabrica os seus próprios chips.

A produção física de mais de 90% dos semicondutores de ponta do planeta está concentrada numa única empresa taiwanesa: a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company).

Fundada em 1987 por Morris Chang, a TSMC popularizou o modelo de "fundição pura" (pure-play foundry), optando por fabricar os componentes concebidos por terceiros sem competir com eles no design. Esta especialização permitiu à empresa dominar as técnicas de litografia mais avançadas do mundo (nodos de 3nm e 2nm). Sem a precisão atómica das fábricas (fabs) em Hsinchu e Tainan, a produção de novos servidores de IA, processadores para smartphones e sistemas de navegação avançados pararia quase instantaneamente a nível global.

Esta concentração extrema deu origem ao conceito de "Escudo de Silício" (Silicon Shield): a teoria de que a dependência vital do Ocidente e da China em relação aos chips taiwaneses impede uma intervenção militar direta, uma vez que a destruição ou paralisação das infraestruturas da TSMC desencadearia um colapso económico global imediato.

O ponto de falha único na Guerra Fria Tecnológica
A posição geográfica e industrial de Taiwan transformou a ilha no principal ponto de fricção entre as duas maiores potências do mundo:
  1. A perspectiva dos EUA: em Washington, a dependência excessiva em relação à TSMC é encarada como o maior risco estratégico de segurança nacional. As administrações americanas têm pressionado a TSMC a diversificar a produção - construindo fábricas no Arizona e na Europa - enquanto impõem controlos de exportação para impedir que semicondutores avançados produzidos em Taiwan cheguem à China.
  2. A perspectiva da China: Pequim considera Taiwan uma província rebelde e defende a "reunificação" como prioridade nacional. Contudo, as sanções americanas que proíbem a venda de chips da Nvidia fabricados em Taiwan para o mercado chinês aceleraram a corrida de Pequim pela autossuficiência tecnológica, levando laboratórios chineses a apostar fortemente em modelos de IA de código aberto (open weights) para otimizar o hardware de que dispõem localmente.
O Impacto na economia real e na sustentabilidade
A relevância de Taiwan não se esgota no setor da defesa ou da tecnologia pura. Estudos de mercado sobre a transição sustentável - como as análises da Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a Temasek - indicam que centenas de milhares de milhões de euros em ganhos de produtividade futura virão da aplicação de IA em redes elétricas inteligentes, manutenção preditiva e otimização industrial.

Toda esta transformação na economia real depende do fornecimento contínuo de novos chips. Caso a cadeia de abastecimento em Taiwan seja interrompida por um bloqueio naval ou conflito armado, os custos para a economia mundial seriam contados em biliões de dólares, afetando desde a produção automóvel à gestão energética global.

Referências Bibliográficas e Análises de Referência
Para aprofundar a análise sobre a centralidade de Taiwan no ecossistema global de semicondutores e geopolítica, destacam-se as seguintes obras e relatórios essenciais:

A obra de referência sobre a história da indústria dos semicondutores, detalhando como a TSMC e Taiwan se tornaram o ponto mais crítico da economia moderna.

2. Center for Strategic and International Studies (2024). Geopolitics and the Semiconductor Supply Chain. CSIS.
Análises estratégicas sobre o impacto de uma potencial crise no Estreito de Taiwan e a vulnerabilidade da infraestrutura tecnológica ocidental.

3. Boston Consulting Group & Semiconductor Industry Association (2021).Strengthening the Global Semiconductor Supply Chain in an Uncertain Era. BCG / SIA.
Estudo detalhado que mapeia os pontos de falha único (single points of failure) na cadeia de valor dos chips, com destaque para o monopólio de Taiwan na litografia de ponta.

4. TrendForce (2024). Global Semiconductor Foundry Market Share Analysis. TrendForce.
Relatórios de mercado que acompanham a quota de fabricação de semicondutores, demonstrando a liderança superior a 90% da TSMC no segmento de nós avançados para IA.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Toda a verdade sobre a Rússia, NATO, União Europeia, EUA e Ucrânia e, por fim, a China


1. A Ucrânia tem mesmo forças nazis? 
A Ucrânia não é um Estado nazi e Volodymyr Zelensky não lidera forças nazis. A narrativa de que o país está dominado por neonazis é uma das principais ferramentas de propaganda e desinformação utilizadas pelo governo russo para justificar a invasão perante a sua própria população e o mundo. Na verdade, o próprio presidente Zelensky é judeu e perdeu familiares no Holocausto, tendo sido eleito democraticamente em 2019 com mais de 73% dos votos, o que torna a acusação de liderar um regime nazi uma contradição óbvia. Além disso, embora existam grupos de extrema-direita na Ucrânia — assim como na Rússia e na maioria dos países europeus —, o seu peso político real é residual, visto que nas últimas eleições legislativas a coligação de partidos de extrema-direita obteve apenas cerca de 2% dos votos, não conseguindo sequer representação no Parlamento ucraniano.
O mito alimentado por Moscovo baseia-se sobretudo nas origens do Batalhão Azov. Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e fomentou a guerra no Donbass, o exército ucraniano estava desestruturado e surgiram milícias voluntárias para defender o território. O grupo Azov original foi de facto fundado por indivíduos com ligações a fações radicais de ultradireita e claques de futebol, utilizando símbolos visuais controversos. No entanto, ainda no final de 2014, o governo ucraniano integrou oficialmente o grupo na Guarda Nacional, iniciando um processo profundo de reestruturação. Ao longo dos anos, os líderes políticos radicais foram afastados, a unidade foi despolitizada e transformada numa força militar regular de defesa. Inclusive, o governo dos Estados Unidos levantou as restrições ao fornecimento de armas à brigada após confirmar que esta se tinha tornado uma unidade militar profissional padrão. Para a Rússia, o rótulo de "nazi" carrega um peso histórico e emocional gigantesco herdado da Segunda Guerra Mundial, sendo utilizado de forma estratégica para desumanizar o adversário e criar um falso pretexto moral para a agressão militar.

2. As eleições na Rússia não são consideradas democráticas, livres ou justas por analistas internacionais, pelas Nações Unidas, pela União Europeia e por organizações independentes de direitos humanos. 
O sistema político russo é classificado como um regime autoritário ou uma autocracia eleitoral, o que significa que o país mantém a aparência de uma democracia — com urnas, boletins de voto e campanhas —, mas todo o processo é rigidamente controlado pelo Kremlin para garantir a permanência de Vladimir Putin no poder. O principal pilar desta falta de democraticidade é a eliminação sistemática da oposição real, onde qualquer candidato que represente uma ameaça séria é impedido de concorrer, seja através do exílio, de desqualificações burocráticas por parte da Comissão Eleitoral Central ou da prisão sob acusações politizadas, como aconteceu emblematicamente com Alexei Navalny. Para simular uma pluralidade, o regime permite apenas a participação da chamada "oposição sistémica", composta por partidos minoritários que fingem competir, mas que na prática apoiam as diretrizes do governo e nunca criticam diretamente o presidente ou a guerra.
Além da ausência de adversários reais, o processo é profundamente distorcido pelo controlo total dos meios de comunicação social, uma vez que todas as grandes cadeias de televisão, jornais e rádios são estatais ou pertencem a aliados de Putin, enquanto a internet e a imprensa independente enfrentam uma censura feroz. Organizações independentes de monitorização eleitoral denunciam consistentemente fraudes massivas nas contagens de votos, incluindo o enchimento de urnas, a manipulação de sistemas de voto eletrónico que não permitem auditoria e a forte coação sobre funcionários públicos e trabalhadores de empresas estatais, que são obrigados a votar sob ameaça de demissão. Adicionalmente, as eleições russas carecem de observadores internacionais credíveis e incluem votações forçadas em territórios ucranianos ocupados militarmente, o que viola o direito internacional. Em suma, o objetivo destas eleições não é dar uma escolha ao povo, mas sim fazer uma demonstração de força, utilizando maiorias esmagadoras fabricadas para legitimar as políticas do regime perante o mundo e desanimar qualquer oposição interna.

3. E a historieta do Tio Sam e de Putin é também falsa. 
A "historieta do Tio Sam e de Putin" refere-se à narrativa de que a guerra na Ucrânia é apenas um conflito provocado exclusivamente pelo "Tio Sam" (os Estados Unidos) para encurralar o Putin, ou à ideia romântica de que a Rússia é uma vítima inocente que foi obrigada a atacar para se defender do expansionismo ocidental, sim, essa também é uma versão altamente distorcida e falsa da realidade.
Essa narrativa - muito repetida pela propaganda russa e por setores que adotam uma postura anti-EUA automática - ignora deliberadamente a história, a soberania da Ucrânia e as próprias ambições imperialistas de Vladimir Putin. A análise factual desmitifica essa história em bloco:
  • A Ucrânia é um país independente e soberano desde 1991. A decisão de se aproximar da União Europeia ou da NATO não foi uma "invasão disfarçada" dos Estados Unidos, mas sim uma escolha democrática do próprio povo ucraniano. 
  •  Histórica e economicamente, os ucranianos assistiram ao crescimento e à prosperidade de vizinhos ex-comunistas que se juntaram ao Ocidente (como a Polónia e os países bálticos), enquanto as nações que ficaram sob a órbita da Rússia (como a Bielorrússia) estagnaram em ditaduras. 
  • A aproximação ao Ocidente foi uma tentativa da Ucrânia de garantir a sua própria segurança e modernização, e não uma conspiração americana.
Além disso, a própria NATO nunca forçou a entrada de nenhum país. São os países da Europa de Leste que pedem desesperadamente para aderir à aliança porque têm, compreensivelmente, medo do histórico de agressão da Rússia. O argumento de Putin de que se sentiu "ameaçado" cai por terra quando olhamos para os factos: a NATO é uma aliança defensiva e nenhum país ocidental tinha planos ou intenções de invadir o território russo, que possui o maior arsenal nuclear do planeta e, portanto, uma capacidade de dissuasão total.
O erro central dessa "historieta" é retirar totalmente a culpa a Vladimir Putin e o direito de escolha à Ucrânia, tratando o conflito como se os ucranianos fossem meros peões sem vontade própria num tabuleiro de xadrez entre Washington e Moscovo. A verdade é que a invasão foi um ato de agressão deliberado, planeado pelo Kremlin com o objetivo de anexar territórios, travar a democratização de um país vizinho e restaurar a antiga esfera de influência da era soviética.

4. A afirmação de que o Donbas e a região histórica da Novorossiya -  que engloba cidades como Odessa, Mykolaiv, Dnipro e Kharkiv - nunca foram da Ucrânia é historicamente falsa, tratando-se de um mito construído pelo nacionalismo russo para tentar legitimar as suas pretensões territoriais atuais. 
Muito antes de o Império Russo ou da Imperatriz Catarina, a Grande, terem conquistado estas terras no final do século XVIII, o território do sul e do leste da Ucrânia não era um vazio demográfico; a área era conhecida como os "Campos Selvagens" e estava sob o controlo e a profunda influência dos Cossacos Ucranianos, que ali estabeleceram povoações agrícolas, feitorias e rotas comerciais. O próprio termo Novorossiya ("Nova Rússia") foi apenas uma designação administrativa e colonial criada pelo Império Russo em 1764, funcionando exatamente da mesma forma que o Império Britânico criou a "Nova Inglaterra" na América do Norte. Além disso, os censos do próprio Império Russo (como o de 1897) comprovam que a esmagadora maioria dos camponeses que colonizaram e cultivaram o interior dessa região eram ucranianos, fixando-se os russos sobretudo como funcionários públicos e operários nas grandes cidades nascentes.
A propaganda russa costuma alegar que as grandes cidades da região foram fundadas do zero por russos, mas a verdade é que muitas foram erguidas sobre antigos colonatos ucranianos, tártaros ou fortalezas otomanas já existentes, como é o caso de Odessa, construída no local do antigo porto tártaro de Hadjibey. Com o colapso do Império Russo em 1917, o nome Novorossiya desapareceu dos mapas oficiais e os próprios habitantes escolheram o seu destino ao integrarem o Donbas, Kharkiv, Odessa e Mykolaiv na recém-declarada República Popular da Ucrânia, precisamente porque a maioria da população partilhava essa identidade. Mais tarde, quando os bolcheviques desenharam as fronteiras da União Soviética, incluíram estas regiões na Ucrânia Soviética pelo mesmo motivo demográfico. O teste definitivo de pertença ocorreu em dezembro de 1991, aquando do referendo para a independência da Ucrânia: mesmo nas zonas com maior presença da língua russa, a população votou massivamente a favor de fazer parte da Ucrânia independente, com aprovações que atingiram os 83,9% em Donetsk, 83,8% em Luhansk, 86,3% em Kharkiv e 85,3% em Odessa. Ignorar esta autodeterminação com base num rótulo colonial do século XVIII seria o equivalente a dizer que o Brasil pertence hoje a Portugal ou que os Estados Unidos são território britânico.

Por isso, sim. Portugal proibiu a equipa russa de trampolim de usar bandeira e hino na Taça do Mundo de Ginástica. É apenas um gesto simbólico, mas neste caso e pelo que atrás já referi, Portugal agiu bem.

P.S. A "grande" China, por exemplo, bane qualquer cantor/artista que exiba a bandeira de Taiwan, do Tibete, Hong Kong ou do povo Uigur. 
𝐎 𝐠𝐨𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨 𝐝𝐚 𝐑𝐞𝐩𝐮́𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚 𝐏𝐨𝐩𝐮𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐚 𝐂𝐡𝐢𝐧𝐚 𝐚𝐝𝐨𝐭𝐚 𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐥𝐞𝐫𝐚̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐳𝐞𝐫𝐨 𝐞𝐦 𝐫𝐞𝐥𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐪𝐮𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐟𝐞𝐬𝐭𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐩𝐫𝐞𝐭𝐚𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐮𝐦 𝐪𝐮𝐞𝐬𝐭𝐢𝐨𝐧𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐬𝐨𝐛𝐞𝐫𝐚𝐧𝐢𝐚 𝐭𝐞𝐫𝐫𝐢𝐭𝐨𝐫𝐢𝐚𝐥, 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐢𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢 𝐬𝐢́𝐦𝐛𝐨𝐥𝐨𝐬 𝐥𝐢𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐚 𝐓𝐚𝐢𝐰𝐚𝐧, 𝐚𝐨 𝐓𝐢𝐛𝐞𝐭𝐞, 𝐇𝐨𝐧𝐠 𝐊𝐨𝐧𝐠 𝐞 𝐚̀ 𝐫𝐞𝐠𝐢𝐚̃𝐨 𝐝𝐞 𝐗𝐢𝐧𝐣𝐢𝐚𝐧𝐠, 𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐯𝐨 𝐔𝐢𝐠𝐮𝐫. 
Na massiva e altamente regulada indústria do entretenimento chinesa, a exibição de bandeiras ou o apoio a estas causas resulta num banimento praticamente imediato e severo. Este processo de cancelamento cultural e económico envolve a rescisão instantânea de contratos publicitários, o cancelamento de digressões e a remoção completa do catálogo musical e audiovisual do artista das principais plataformas de streaming do país, como o Weibo e o NetEase. Em casos de produções televisivas ou cinematográficas já gravadas, o governo exige frequentemente que as cenas do artista sejam cortadas ou que o seu rosto seja desfocado digitalmente.
Ao longo dos anos, diversos nomes da cultura pop internacional e regional sofreram estas sanções. A cantora Lady Gaga e a banda Maroon 5, por exemplo, viram as suas músicas banidas e concertos cancelados após demonstrarem apoio ou se encontrarem com o Dalai Lama, líder espiritual tibetano. No cenário do K-pop, a cantora taiwanesa Chou Tzu-yu, integrante do grupo Twice, causou uma enorme polémica na China continental em 2015 após segurar a bandeira de Taiwan num programa de televisão sul-coreano, o que a pressionou a gravar um pedido de desculpas público afirmando que "só existe uma China". Para as autoridades de Pequim, o acesso ao gigantesco mercado de consumo chinês é tratado como um privilégio condicionado ao respeito absoluto pelas diretrizes políticas e pela integridade territorial defendida pelo Partido Comunista Chinês.
A situação aplica-se igualmente a Hong Kong, que se tornou outra das grandes linhas vermelhas para o governo chinês, especialmente após os protestos pró-democracia de 2014 e 2019. Qualquer artista, seja local ou internacional, que expresse a mínima simpatia ou apoio aos manifestantes enfrenta exatamente o mesmo mecanismo de retaliação e censura. Figuras de destaque do entretenimento da própria cidade, como a cantora de Cantopop Denise Ho e o conceituado ator Anthony Wong, viram as suas carreiras na China continental completamente destruídas por demonstrarem apoio ao movimento democrático, resultando na remoção das suas obras de todas as plataformas digitais, contratos rescindidos e um boicote total por parte da indústria, acabando mesmo por sofrer perseguição judicial no próprio território de Hong Kong ao abrigo da nova Lei de Segurança Nacional. No panorama internacional, partilhar uma simples mensagem de solidariedade para com Hong Kong nas redes sociais é o suficiente para desencadear o cancelamento de digressões e a fúria dos consumidores nacionalistas. Tudo isto reforça a mensagem inabalável de Pequim: para operar ou lucrar no mercado chinês, o alinhamento com a narrativa oficial sobre a soberania e a estabilidade de todos os seus territórios, incluindo as suas Regiões Administrativas Especiais, tem de ser absoluto

sexta-feira, 26 de junho de 2026

China zera tarifas para produtos de países africanos - já vemos as diferenças


A China anunciou em 28 de abril que vai abolir  as tarifas de importação para produtos de 53 países africanos. Na prática, isto significa abrir as portas do maior mercado de consumo do planeta a quase todo o continente africano. Não estamos a falar de ajuda humanitária nem de discurso diplomático. Estamos a falar de comércio, investimento e influência.

A medida, que entrou em vigor a 1 de maio, abrange praticamente todo o continente, excluindo apenas o Essuatíni devido às suas relações com Taiwan.

O mais impressionante é que esta decisão não surgiu por acaso. Nos últimos anos, Xi Jinping transformou a África numa das prioridades estratégicas de Pequim. Empresas chinesas construíram estradas, linhas ferroviárias, pontes, centrais elétricas e portos. Hoje em dia, a China já possui o controlo ou participação em cerca de um terço da infraestrutura portuária africana. Agora, além de investir, Pequim está a facilitar a entrada dos produtos africanos no mercado chinês.

Por trás desta decisão existe uma disputa muito maior. Enquanto várias potências ocidentais reduziram a sua presença económica em diversas regiões africanas, a China fez o oposto. Investiu, financiou projetos e ampliou o comércio. O resultado é que muitos governos africanos passaram a encarar Pequim como um parceiro estratégico para o desenvolvimento a longo prazo.

O que Xi Jinping está a construir em África vai muito além de acordos comerciais. É uma rede de influência económica que pode redefinir o equilíbrio de poder nas próximas décadas. E enquanto muitos ainda observam apenas as guerras e crises do momento, a China continua a avançar silenciosamente onde o futuro está a ser construído. É exatamente por isso que a África se tornou uma das peças mais importantes do tabuleiro geopolítico mundial.

Impactos Económicos na Agricultura e Mineração
  1. Agricultura (O maior beneficiado imediato): a remoção de tarifas aumentou de imediato a competitividade de preço dos produtos africanos face a concorrentes da América Latina ou da Ásia (que enfrentam taxas de 20% a 25%). O benefício foca-se na redução de custos logísticos e aduaneiros. Isso estimula o investimento chinês em infraestruturas locais, como cadeias de frio e processamento, elevando os rendimentos rurais. [1, 2, 3]
  2. Mineração (Consolidação do fornecimento): minerais estratégicos para a transição energética (como o cobre, cobalto, lítio e grafite) ganharam maior fluidez. A isenção de tarifas incentiva as empresas mineiras em África a avançar da extração de minério bruto para o processamento local profundo, agregando valor antes da exportação. [1, 2]
O Contraste com as Potências Ocidentais
  1. Unilateralidade sem contrapartidas: a política da China é não-recíproca. Os produtos africanos entram na China sem taxas, mas os países africanos não são obrigados a reduzir as suas tarifas sobre os produtos chineses. [1, 2]
  2. Diferença face aos EUA: contrasta diretamente com programas americanos como o AGOA (African Growth and Opportunity Act), que exige contrapartidas políticas, de direitos humanos e de abertura de mercado. Adicionalmente, Washington aplicou recentemente tarifas pesadas a várias nações africanas. [1]
  3. Diferença face à União Europeia: os acordos da UE (EPAs) exigem frequentemente uma abertura recíproca dos mercados africanos a longo prazo, o que gera receios de desindustrialização local na África. A China posiciona-se assim como o "parceiro mais amigável". [1]

Produtos Africanos com Maior Potencial de Exportação
Abaixo encontram-se os produtos que registam maior crescimento e procura no mercado chinês: [1, 2, 3]


Categoria [1, 2, 3, 4, 5, 6]Produtos de DestaquePaíses Líderes Beneficiados
Frutas e AgroMaçãs, Abacates, CitrinosÁfrica do Sul, Quénia, Egito
CommoditiesCafé, Cacau, Sésamo, Castanha de CajuEtiópia, Costa do Marfim, Tanzânia
Minerais CríticosCobalto, Cobre, Grafite, LítioRDC, Zâmbia, Tanzânia
Bens ProcessadosÓleo de abacate, Couros, Alimentos processadosQuénia, Nigéria, Marrocos

Apesar do otimismo, analistas alertam que as tarifas eram apenas uma das barreiras. Para mitigar o enorme défice comercial com a China, África precisa de superar barreiras não-tarifárias (como exigências fitossanitárias) e melhorar as suas infraestruturas de transporte. A facilidade de comércio impulsionou também o uso do Yuan (RMB) em detrimento do dólar nas transações bilaterais. [1, 3, 4]

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A dupla face da China: líder na transição verde esconde uma corrida às armas nucleares


A geopolítica do século XXI fixou o olhar na China sob o signo de uma profunda contradição. Aos olhos do mundo, Pequim assume-se orgulhosamente como a locomotiva incontestável da transição energética global, liderando a produção de painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos. No entanto, por trás desta fachada de vanguarda ecológica e de um soft power meticulosamente desenhado para projetar a imagem de uma potência responsável, esconde-se uma realidade consideravelmente mais sombria e bélica: uma aposta sem precedentes na expansão do seu arsenal nuclear.

Durante décadas, o regime chinês manteve uma postura de dissuasão minimalista, assegurando ao plano internacional que o seu armamento atómico servia apenas como último recurso defensivo. Contudo, sob a liderança de Xi Jinping, a China iniciou uma aceleração histórica que quebrou este antigo equilíbrio. Campos de centenas de silos para mísseis balísticos intercontinentais surgiram nas zonas remotas do oeste do país, enquanto a nova "tríade nuclear" — capaz de projetar ogivas por terra, mar e ar — passou a ser exibida com pompa militar. Para lá dos mísseis de longo curso, Pequim investe agora fortemente em mísseis hipersónicos e de teatro de operações regional, armas de "capacidade dupla" que baralham as fronteiras entre o convencional e o nuclear, elevando drasticamente o risco de um erro de cálculo global.

Esta corrida ao armamento é alimentada por uma profunda paranoia estrutural face ao Ocidente e, em particular, aos Estados Unidos. Ao observar o tabuleiro internacional e o conflito na Ucrânia, os estrategas chineses retiraram uma lição clara: a ameaça nuclear russa funcionou como um escudo eficaz para paralisar a intervenção direta da NATO no terreno. É este mesmo manual que Pequim ambiciona replicar na Ásia Oriental. O objetivo desta musculação atómica não é necessariamente desencadear o Armagedon, mas sim construir uma barreira de medo tão robusta que desencoraje qualquer intervenção norte-americana ou dos seus aliados numa eventual invasão a Taiwan.

Paralelamente, a narrativa da transição verde e o investimento massivo na energia nuclear civil servem de cobertura perfeita. Enquanto o mundo aplaude os avanços tecnológicos chineses na descarbonização, o complexo militar-industrial do país absorve recursos e tecnologia de ponta para otimizar os seus vetores de destruição. O país que se vende ao exterior como o garante da sustentabilidade do planeta prepara-se, à porta fechada, para cenários de "guerra nuclear limitada", posicionando mísseis concebidos para paralisar bases inimigas no Pacífico sob uma lógica de retaliação imediata. Esta é a verdadeira distopia chinesa: um império que lidera a transição para um futuro verde com uma mão, enquanto com a outra afia as armas que têm o potencial de extinguir o amanhã.

O documentário divide-se em três partes: 

Parte 1: Do Programa Mínimo à Expansão Histórica
  • A Parada de Pequim: a China exibiu publicamente pela primeira vez a sua "tríade nuclear" completa, demonstrando uma capacidade consolidada de lançar armas nucleares por terra, mar e ar.
  • O Ritmo da Expansão: especialistas apontam que a China se encontra no meio de uma expansão nuclear histórica. O Pentágono projeta que o país alcance as 1.500 ogivas nucleares até 2035.
  • A Motivação de Xi Jinping: o líder chinês é movido pelo receio de um confronto inevitável com o Ocidente liderado pelos EUA. A sua estratégia baseia-se no realismo estrutural: demonstrar poder para forçar as potências ocidentais a abandonarem a política de contenção contra a China.
  • A Inspiração na Rússia: Xi Jinping destacou internamente que a Rússia tomou uma decisão correta após a Guerra Fria ao manter o seu grande arsenal nuclear, o que obriga os rivais a moderar as suas políticas.
  • Os Silos de Mísseis: investigadores descobriram, através de imagens de satélite, mais de 300 silos de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) em construção nas zonas remotas do oeste da China. Esta foi a forma mais rápida encontrada por Pequim para expandir o seu arsenal e demonstrar a sua capacidade aos EUA.
Parte 2: O Arsenal da Nova Tríade Nuclear
  • O Vetor Aéreo: a mais recente perna da tríade é o míssil balístico lançado pelo ar, conhecido como Jinglay 1 (JL-1).
  • O Vetor Marítimo e a Geografia: os novos submarinos nucleares chineses estão equipados com o míssil Juulang 3 (JL-3), com um alcance superior a 10.000 km. A China enfrenta restrições geográficas marítimas (a "primeira cadeia de ilhas"), onde os aliados dos EUA monitorizam as saídas para o oceano. É por isso que o Mar do Sul da China e a ilha de Hainan são cruciais para esconder os submarinos. O controlo sobre Taiwan daria à China acesso direto e indetetável ao Oceano Pacífico.
  • Mísseis de Teatro de Operações (Médio Alcance): o míssil DF-26 (apelidado de "Guam Killer") tem um alcance de 4.000 km e consegue atingir as forças dos EUA no Pacífico. Estes mísseis possuem "capacidade dupla", o que significa que podem transportar tanto ogivas convencionais como nucleares. Isto gera um perigo de incerteza em tempos de crise, pois os EUA podem confundir um ataque convencional com um ataque nuclear. O DF-17 é o primeiro sistema hipersónico da China, capaz de manobrar a altas velocidades para evitar as defesas antimísseis.
Parte 3: A Doutrina Nuclear e o Risco de Guerra
  • A Lição da Ucrânia: Pequim observou que as ameaças nucleares implícitas de Vladimir Putin resultaram em impedir que a NATO enviasse tropas para o terreno na Ucrânia. A China ambiciona ter a mesma capacidade de dissuasão para evitar que os EUA intervenham num cenário de invasão a Taiwan.
  • A Política de "Não Primeiro Uso" (No First Use): oficialmente, a China mantém a política de nunca ser a primeira a utilizar armas nucleares. Contudo, existem ambiguidades: analistas indicam que Pequim tem planos para ameaçar com o uso nuclear caso alvos estratégicos convencionais no seu território sejam atacados, argumentando que a política só é tecnicamente violada se as armas forem efetivamente disparadas.
  • Lançamento sob Ataque (Launch Under Attack): com a ajuda tecnológica da Rússia, a China está a desenvolver um sistema de alerta precoce para detetar mísseis inimigos. Isto permite adotar uma postura de disparar os mísseis de volta antes que os mísseis do adversário atinjam os silos chineses. O perigo reside no risco elevado de alarmes falsos e interpretações erradas durante uma crise.
  • Guerra Nuclear Limitada: o desenvolvimento de armas regionais mostra que a China está a preparar-se para a possibilidade de uma guerra nuclear limitada com os EUA. Os estrategistas chineses pensam em alvejar bases militares americanas na região (como em Guam, Japão ou Alasca) para aterrorizar os EUA e ganhar vantagem, sem provocar uma retaliação total que leve à destruição mútua global.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Richard Thorn


Richard Thorn (pintor/aquarelista Britânico, nascido em 1952)

Richard Thorn é um artista fundamentalmente pintor em aquarela, embora também trabalhe com acrílica, gouache e tintas aquosas, explorando a luz, a textura e a sensação de espaço nas suas composições. 

Técnica
A técnica de Richard Thorn caracteriza-se por:
  1. Aquarela como meio principal, usando também gouache, acrílico diluído e técnicas mistas.
  2. Lavagens amplas e transparentes, aplicadas em camadas, para construir atmosfera e profundidade.
  3. Uso frequente de pincel seco, raspagem e remoção de tinta para criar texturas naturais (vegetação, rocha, nuvens).
  4. Controlo da luz como elemento central: muitas obras são estruturadas a partir de contrastes subtis entre luz e sombra.
  5. Composição simplificada, evitando excesso de detalhe e focando-se na sensação do lugar, mais do que na descrição literal.
  6. Trabalho cuidadoso com valores tonais, frequentemente partindo de tons neutros e deixando a cor surgir de forma contida.
Em síntese, a técnica de Thorn privilegia a expressividade da aquarela, a economia de meios e a criação de paisagens atmosféricas e evocativas, próximas de uma abordagem impressionista contemporânea.

Estilo
A sua obra é frequentemente descrita como paisagística e inspirada pela natureza, captando as atmosferas do campo, da costa e da paisagem rural — especialmente no sudoeste da Inglaterra. 

Thorn busca retratar não apenas a imagem visual mas a “alma da cena” que pinta, com grande interesse pelo jogo de luz e a sensação de distância. 

Tem influências de impressionistas franceses e mestres ingleses da aquarela, como William Turner e John Cotman, bem como artistas americanos como Andrew Wyeth e Winslow Homer, que se refletem na sua sensibilidade à cor e atmosfera. 

Reconhecimento:
Robert foi premiado duas vezes com o Best Watercolour nas exposições abertas do Royal Institute of Painters in Water Colours — uma organização de prestígio para aquarelistas — e tem sido exposto internacionalmente (Inglaterra, Europa, EUA e China).

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Chen-Wen Cheng


Chen-Wen Cheng (aquarelista de Taiwan, nascido em 1964) - "Follow you", 2024   
O seu estilo é reconhecido por uma abordagem delicada e detalhada na pintura, com foco em capturar a essência das paisagens, da natureza e da vida quotidiana. Ele é amplamente admirado pelas suas habilidades técnicas excepcionais e pela capacidade de usar a aquarela de maneira inovadora, misturando realismo com toques de abstracção.
A obra de Chen-Wen Cheng costuma ser caracterizada pela fusão entre a precisão dos detalhes e uma sensibilidade expressiva, que são típicas da aquarela. Ele também utiliza um processo gradual de camadas finas de tinta, o que permite que a obra ganhe profundidade e luminosidade.
Além de ser um artista respeitado, Chen-Wen Cheng também é um professor e contribui activamente para a promoção e ensino da técnica de aquarela. Ele é frequentemente convidado para exposições internacionais e workshops, onde compartilha o seu conhecimento com outros artistas.
Prémios e reconhecimento
Chen-Wen Cheng conquistou vários prémios e reconhecimentos, entre os quais: Golden Prize (Medalha de Ouro) no World Watercolor Competition (França, 2014) pela obra “Loving Mother”. 
Prémios em várias exposições importantes em Taiwan. Espólio do autor encontra-se em alguns importantes museus de Arte (Nova Iorque, México, Seul,etc.)

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Constantes ondas de calor estão a acelerar o envelhecimento humano




Um novo estudo inovador publicado na Nature Climate Change revelou que a exposição repetida ao calor extremo pode acelerar o envelhecimento biológico, o tipo de desgaste interno que prevê problemas de saúde graves e morte prematura. 

Os investigadores acompanharam 25.000 adultos em Taiwan durante 15 anos e descobriram que mesmo aumentos modestos na exposição a ondas de calor fizeram com que a sua idade biológica ultrapassasse a idade real, particularmente para os trabalhadores manuais que passam mais tempo ao ar livre.

Em apenas dois anos, a experiência de quatro dias extra de onda de calor correlacionou-se com um aumento de nove dias na idade biológica e, para alguns trabalhadores, este aumento saltou para 33 dias.

Os cientistas afirmam que as descobertas marcam uma “mudança de paradigma” na nossa compreensão dos efeitos a longo prazo do calor na saúde, colocando os seus danos em pé de igualdade com o tabagismo, o consumo excessivo de álcool ou uma dieta inadequada.

A investigação concluiu que à medida que as ondas de calor se tornam mais intensas e frequentes devido às alterações climáticas, milhares de milhões de pessoas- especialmente  as comunidades mais desfavorecidas, sem acesso a aparelhos de refrigeração e quem trabalha ao ar livre, ou a habitação segura -  são mais afetadas por esta exposição e enfrentam um maior risco de envelhecimento precoce e de doenças crónicas. Os danos começam cedo na vida e podem persistir durante toda a vida, agravando as disparidades na saúde. Esta investigação realça a necessidade urgente de ações climáticas globais e de estratégias locais de saúde pública para proteger as populações dos efeitos ocultos e permanentes do aumento das temperaturas.

Outro estudo muito semelhante e complementar foi publicado na Science Advances em fevereiro de 2025 por investigadores da USC, que se concentrou especificamente em adultos mais velhos nos EUA e utilizou relógios epigenéticos para mostrar que aqueles em regiões quentes (como Phoenix) envelheciam biologicamente até 14 meses mais rápido ao longo de alguns anos.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

The World Nuclear Industry Status Report 2024


The World Nuclear Industry Status Report 2024 (WNISR2024) assesses the status and trends of the international nuclear industry. Earth Track was pleased to have contributed to the report again this year, with the focus chapter Power Firming and Competitive Pressure on Nuclear Energy assessing how solar/wind + storage put increasing competitive pressures on the nuclear sector.

By pulling together a mix of core data on the nuclear sector globally while addressing a handful of complex and important special topics each year, the WNISR has become a critical resource for tracking industry trends, pressures, and risks. As part of its core data review, the analysis provides a comprehensive overview of nuclear power plant data, including information on operation, production, fleet age, and construction. The WNISR discusses the status of newbuild programs in existing as well as in potential newcomer nuclear countries; notably in this year's Türkiye Focus which provides critical context to the ongoing construction of the country’s first nuclear power plant. A section is dedicated as well to ambitions and prospects for nuclear deployment in Potential Newcomer Countries in Africa, while Taiwan Focus covers the current situation and implementation of the nuclear phaseout policy.

In addition to the chapter we contributed on power firming, WNISR2024 includes special focus chapters on Nuclear Power vs. Renewable Energy Deployment; developments with Small Modular Reactor (SMR) developments; an analysis of the Russia Nuclear Dependencies of the global nuclear sector with a case study on Russian designed fuel assembly manufacturing; an analysis of the Militarization of Civil Power Plants based on the case study of tritium production for weapons in the United States and its significance for France; and an assessment of Civil-Military Cross-Financing in the U.K. Nuclear Sector discussing how tax- and rate-payers unknowingly subsidize the civil and military nuclear establishments.

The Fukushima Status Report provides an overview of ongoing onsite/offsite challenges of the 2011-disaster. The Decommissioning Status Report looks at the current situation of the now over 210 closed nuclear power reactors, close to one third of all units in the world that have generated electricity at some point. Annex 1 offers an overview by region and country of all operating nuclear programs not covered in the focus chapters.

In addition to this year's report linked to above, Earth Track's contribution on Nuclear Economics and Finance, including a review of fuel chain subsidies around the world, from last year's WNISR can be accessed here.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Tufão Gaemi afeta mais de 600.000 pessoas na China após causar cinco mortes em Taiwan

Taiwan na rota de um dos tufões mais violentos dos últimos anos

Cerca de 630.000 pessoas foram afetadas, no sudeste da China, pela chegada do tufão Gaemi, que desencadeou o primeiro alerta vermelho do ano no país, após ter causado cinco mortos e quase 700 feridos em Taiwan.

Segundo a agência de notícias oficial Xinhua, 290.000 habitantes tiveram de ser temporariamente deslocados devido à tempestade, que atingiu a província de Fujian, no sudeste do país, por volta das 19:50 locais (12:50, em Lisboa) de quinta-feira, com ventos máximos de 118,8 quilómetros por hora.

Entre a manhã de quarta-feira e a manhã desta sexta-feira, dezenas de localidades de Fujian registaram precipitações superiores a 250 milímetros (mm), atingindo, em alguns casos, 512,8 mm.

Prevê-se que o tufão se desloque para noroeste a cerca de 20 quilómetros por hora e perca força até chegar à província vizinha de Jiangxi, na tarde de sexta-feira. De acordo com o portal de acompanhamento de tempestades Zoom.earth, o Gaemi já tinha descido para o nível de tempestade tropical, com ventos de 75 quilómetros por hora, às 12:30 locais (05:30, em Lisboa).

Em vésperas da época dos tufões e das inundações, que se verifica normalmente nas últimas semanas de julho e nas primeiras semanas de agosto, as autoridades chinesas apelaram a uma intensificação dos esforços de prevenção e de salvamento.

Preveem-se inundações ao longo das principais bacias hidrográficas, como o rio Amarelo e o Yangtsé e deslizamentos de terras nas zonas montanhosas.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Dezenas de milhões de pessoas neste país bebem água contaminada com arsénico. A situação pode piorar muito


Incolor, insípido e inodoro. O arsénio é um assassino furtivo, naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas. Há vários países onde se verificam contaminações por arsénico

Começou com pontos espalhados pelo peito e costas das pessoas. Manchas duras invulgares na pele das palmas das mãos e nas solas dos pés. Para alguns, um escurecimento dos dedos dos pés.

Médicos e investigadores começaram a observar pacientes no Bangladesh que apresentavam este tipo de sintomas na década de 1980. Rapidamente se tornou claro o que estavam a ver: sinais clássicos de envenenamento por arsénico.

Numa trágica ironia, a razão acabou por ser atribuída a um programa de saúde pública de enorme sucesso.

Na década de 1970, as crianças do Bangladesh morriam em grande número devido a doenças como a disenteria e a cólera, depois de beberem água suja dos rios, lagos e ribeiros. Em resposta, o governo do Bangladesh, juntamente com agências de ajuda lideradas pela UNICEF, lançou um enorme esforço para obter água mais limpa no subsolo.

Ao longo das duas décadas seguintes, milhões de poços tubulares - tubos estreitos perfurados a profundidades relativamente pequenas - foram enterrados na terra. "No espaço de uma geração, mudaram o comportamento da água potável de toda uma população", disse Seth Frisbie, químico e professor emérito da Universidade de Norwich, que passou décadas a investigar a contaminação por arsénico.

Os números de crianças a morrer diminuíram significativamente. Ainda assim, nos anos 90, tornou-se claro que o projeto tinha falhado a ter em conta um problema enorme e mortal: grande parte das águas subterrâneas continha níveis elevadíssimos de arsénico, um conhecido agente cancerígeno ligado a uma série de outros impactos negativos para a saúde.

Os especialistas em saúde classificaram-no como o "pior envenenamento em massa" de uma população na história - com dezenas de milhões de pessoas afetadas. Embora o governo, a UNICEF e outras agências de ajuda humanitária se tenham esforçado por combater a contaminação, os impactos do envenenamento continuam a ser generalizados. Estima-se que 43.000 pessoas morrem todos os anos devido a doenças relacionadas com o arsénico no Bangladesh, de acordo com um estudo.

Agora, numa reviravolta cruel, a situação pode estar a piorar. Novas evidências sugerem que os impactos da crise climática causada pelo homem - incluindo as inundações e o aumento do nível do mar - estão a alterar a química da água no subsolo e a aumentar ainda mais os níveis de arsénico.


O problema estende-se muito para além do Bangladesh.
Um número crescente de estudos realizados noutros países, incluindo os Estados Unidos, sugere que o aquecimento global pode estar a superalimentar o problema da água contaminada com arsénico em todo o mundo.

"Afeta todos os órgãos do corpo"
O arsénico é naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas, não só no Bangladesh, mas também em países como a Índia, China, Taiwan, Vietname, Argentina, Chile, México, partes da Europa, Austrália e EUA.

Enquanto as águas superficiais poluídas adoecem rapidamente as pessoas, o arsénico é um assassino furtivo.

É incolor, insípido e inodoro. Não há forma de o detetar sem testes e os seus impactos tendem a surgir ao fim de muitos anos.

A exposição crónica pode revelar-se através da pele endurecida das mãos e dos pés, chamada queratose, do aparecimento de manchas pigmentadas na pele e até da "doença do pé negro", uma doença vascular que pode causar gangrena - tecido morto causado pela falta de fluxo sanguíneo.

Os seus efeitos nocivos continuam no interior do corpo das pessoas, onde aumenta o risco de cancro da pele, do fígado, dos pulmões e da bexiga, bem como de doenças cardíacas e diabetes. O arsénico também tem sido associado à perda da gravidez, a atrasos no desenvolvimento das crianças e a doenças respiratórias.

"Afeta todos os órgãos do corpo", afirma Rubhana Raqib, cientista sénior do Centro Internacional de Investigação sobre Doenças Diarreicas no Bangladesh (ICDDR,B - na sigla original).

Alguns peritos sugeriram que a escala do envenenamento no Bangladesh ultrapassa largamente a de outras catástrofes mais conhecidas causadas pelo homem, como o desastre nuclear de Chernobyl. Mas o número exato de mortos é quase impossível de calcular, em parte devido às dificuldades em desvendar as causas do cancro.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cerca de 140 milhões de pessoas em pelo menos 70 países têm bebido água contaminada com arsénico a níveis que excedem o limite recomendado de 10 microgramas por litro.

No Bangladesh, onde as diretrizes do governo estão fixadas numas menos restritivas 50 microgramas, acredita-se que milhões de pessoas terão sido afetadas.

Um enorme estudo de análise de poços realizado pelo British Geological Survey, que teve início em 1998 e abrangeu a maior parte do Bangladesh, revelou que 27% dos poços tubulares menos profundos excediam as diretrizes do país, afetando cerca de 35 milhões de pessoas. Cerca de 57 milhões de pessoas foram expostas a níveis que violavam as indicações de 10 microgramas da OMS, de acordo com o estudo - aproximadamente 45% da população.

Frisbie, que passou algum tempo no Bangladesh a produzir mapas da água potável afetada pelo arsénico, disse que o número era evidente.

"Percorri aldeias onde ninguém tinha mais de 30 anos", disse à CNN.

Mesmo as normas mais rigorosas em matéria de arsénico recomendadas pela OMS e adotadas por países como os EUA não proporcionam proteção suficiente, afirmou. "O arsénico é extremamente tóxico. Só porque está a um determinado nível que o governo diz ser seguro... não significa que seja seguro, não significa que as pessoas não vão morrer."

O aquecimento global pode aumentar os riscos
Os riscos são cada vez maiores à medida que os seres humanos continuam a queimar combustíveis fósseis que aquecem o planeta.

Os impactos cada vez mais graves das alterações climáticas podem mudar a química das águas subterrâneas, de acordo com um estudo recente de que Frisbie é coautor.

Isto significa mais problemas para o Bangladesh, que está firmemente na linha da frente da crise climática. Baixa e densamente povoada e com uma longa costa, enfrenta uma imensidão de ameaças, desde a subida do nível do mar até às inundações - todos os anos, cerca de 20% do país fica submerso.

As inundações podem impedir que o oxigénio da atmosfera penetre nas águas subterrâneas, de acordo com a investigação, o que, por sua vez, pode aumentar a libertação de arsénico dos sólidos e sedimentos para a água - um processo designado por "redução".

A subida do nível do mar representa outro desafio, provocando a infiltração de água salgada nas fontes de água subterrâneas. Isto não só faz com que a água tenha um sabor mais salgado, como a presença de sal pode também aumentar as concentrações de arsénico, fazendo com que este se dissolva na água através de um fenómeno chamado "efeito salino".

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Opinião de Dani Rodrik

[original aqui]  Há um ano, os analistas económicos estavam esfuziantemente optimistas sobre as perspectivas de crescimento económico nos países em desenvolvimento. Em contraste com os Estados Unidos e a Europa, onde o panorama do crescimento parecia na melhor das hipóteses fraco, esperava-se que os mercados emergentes sustivessem o forte desempenho da década anterior à crise financeira global, tornando-se assim o motor da economia global.
Economistas no Citigroup, por exemplo, concluíram ousadamente que as circunstâncias nunca tinham sido tão favoráveis ao crescimento amplo e sustentado em todo o mundo, e projectaram uma produção global rapidamente crescente até 2050, liderada por países em desenvolvimento na Ásia e em África. A empresa de contabilidade e consultoria PwC previu que o crescimento do PIB per capita na China, na Índia e na Nigéria excederia 4,5% até meados do século. A empresa de consultoria McKinsey & Company baptizou a África, desde há muito sinónimo de fracasso económico, como a terra dos “leões em movimento.”

Hoje, esse tema foi substituído pela preocupação acerca do que The Economist chama de “grande abrandamento.” A informação económica recente da China, Índia, Brasil e Turquia aponta para o mais fraco desempenho do crescimento nestes países em anos. O optimismo deu lugar à dúvida.

Claro que, tal como foi inapropriado extrapolar a partir da década anterior de forte crescimento, não deveríamos tentar extrair demasiadas conclusões a partir de flutuações de curto prazo. Não obstante, existem razões fortes para crer que o crescimento rápido provará ser a excepção em vez da regra nas décadas que se aproximam.

Para ver porquê, precisamos de entender como os “milagres do crescimento” são feitos. Exceptuando um punhado de pequenos países que beneficiaram de grandes quantidades de recursos naturais, todas as economias bem-sucedidas das últimas seis décadas devem o seu crescimento à industrialização rápida. Se há algo em que todos concordam sobre a receita da Ásia Oriental, é que o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan e claro a China foram todos excepcionalmente bons a mover a sua mão-de-obra dos campos (ou de actividades informais) para a produção organizada. Casos anteriores de recuperação económica bem-sucedida, como os EUA ou a Alemanha, não foram diferentes.

O sector industrial permite a recuperação económica rápida por ser relativamente fácil copiar e implementar tecnologias de produção estrangeiras, mesmo em países pobres que sofram de desvantagens múltiplas. Notavelmente, a minha pesquisa mostra que as indústrias transformadoras tendem a colmatar a lacuna com a fronteira tecnológica à taxa de cerca de 3% ao ano independentemente das políticas, das instituições, ou da geografia. Consequentemente, os países que conseguem transformar agricultores em trabalhadores da indústria colhem um enorme bónus de crescimento. 

É certo que algumas actividades modernas de serviços também permitem a convergência na produtividade. Mas a maior parte dos serviços de alta produtividade requer um conjunto vasto de competências e de capacidades institucionais que as economias em desenvolvimento apenas acumulam de um modo gradual. Um país pobre pode competir facilmente com a Suécia num amplo conjunto de indústrias; mas demora muitas décadas, senão séculos, a atingir o nível das instituições da Suécia.

Considere-se a Índia, para demonstrar as limitações de depender dos serviços em detrimento da indústria nas etapas iniciais do desenvolvimento. O país desenvolveu forças notáveis em serviços de TI, tais como o software ou os call centres. Mas a maioria da mão-de-obra indiana não possui as competências e a educação para ser absorvida por esses sectores. Na Ásia Oriental, trabalhadores indiferenciados foram postos a trabalhar em fábricas urbanas, ganhando várias vezes o salário que auferiam no campo. Na Índia, permanecem nos campos ou movem-se para pequenos serviços onde a sua produtividade não é muito maior.

O desenvolvimento bem-sucedido no longo prazo requer então um empurrão em duas vertentes. Necessita de um esforço de industrialização, acompanhado pela acumulação constante de capital humano e de capacidades institucionais, para sustentar o crescimento promovido pelos serviços quando a industrialização atinge os seus limites. Sem o esforço de industrialização, a descolagem económica torna-se bastante difícil. Sem investimento sustentado em capital humano e na criação de instituições, o crescimento está condenado a esgotar-se.

Mas esta receita testada pelo tempo tornou-se muito menos eficaz hoje em dia, devido a mudanças nas tecnologias de produção industrial e no contexto global. Primeiro, os avanços tecnológicos tornaram a produção industrial muito mais intensiva em capital e em competências do que no passado, mesmo para o caso de produtos de menor qualidade. Como resultado, a capacidade do sector industrial para absorver mão-de-obra tornou-se muito mais limitada. Será impossível para a próxima geração de países em processo de industrialização mover 25% ou mais da sua força de trabalho para a indústria, como fizeram as economias da Ásia Oriental.

Segundo, a globalização em geral, e a ascensão da China em particular, aumentou grandemente a competição nos mercados mundiais, tornando difícil aos recém-chegados obter espaço para si próprios. Embora a mão-de-obra chinesa esteja a encarecer, a China permanece um competidor formidável para qualquer país que contemple a entrada em sectores manufactureiros.

Além disso, é improvável que os países ricos sejam tão permissivos relativamente a políticas de industrialização como o foram no passado. Os legisladores dos países que constituem o núcleo industrial olharam para o lado, enquanto os rapidamente crescentes países da Ásia Oriental adquiriam tecnologias ocidentais e capacidades industriais através de políticas pouco ortodoxas, como subsídios, requisitos de conteúdo local, engenharia inversa, e desvalorização da moeda. Os países do núcleo também mantiveram os seus mercados abertos, permitindo aos países da Ásia Oriental a livre exportação dos produtos manufacturados que daí resultaram.

Agora, contudo, à medida que os países ricos lutam sob o peso combinado da dívida elevada, do baixo crescimento, do desemprego, e da desigualdade, irão aplicar maior pressão nas nações em desenvolvimento para o respeito às regras da Organização Mundial do Comércio, que estreitam o espaço para subsídios industriais. Desvalorizações de moeda à la China não deixarão de ser notadas. Ao proteccionismo, mesmo que não numa forma explícita, será politicamente difícil resistir.

As indústrias transformadoras continuarão a ser as “indústrias de escada-rolante” dos países pobres, mas a escada não se moverá tão depressa, nem subirá tão alto. O crescimento deverá depender muito mais de melhorias sustentadas em capital humano, nas instituições, e no governo. E isso significa que o crescimento permanecerá lento e difícil no melhor dos casos.