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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Aumento da temperatura global vai atingir pelo menos 1,8°C, avisa ONU, e 'não há bons resultados'

  • Relatório aponta pico de aumento de temperatura no melhor cenário para os 1,8°C; outros sugerem mais de 2°C
  • Acima dos 1,5°C, os impactos climáticos e os riscos de pontos de rutura intensificam-se a cada fração de grau
  • Trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' é a melhor opção restante para ajudar nações e comunidades vulneráveis a responder e a regressar a valores abaixo dos 1,5°C
Nairóbi, 2 de setembro de 2026 - O aumento da temperatura global está prestes a cruzar a barreira dos 1,5°C, provavelmente dentro dos próximos anos, elevando os riscos e impactos climáticos a níveis cada vez mais perigosos. Contudo, ainda é possível reduzir as temperaturas e alcançar as metas globais do Acordo de Paris, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA).

O relatório, Limiting Overshoot, identifica a trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' como a melhor opção restante para minimizar a magnitude e a duração desta ultrapassagem, tentando regressar a valores inferiores a 1,5°C o mais depressa possível.

“O calor escaldante, os incêndios devastadores e as inundações mortais deste verão são um aviso do que nos espera. Temos de fazer com que a ultrapassagem acima dos 1,5 graus seja o menor e mais curta possível. Isso exige uma ultrapassagem de ambição”, afirmou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

Esta trajetória minimizaria o pico de aumento da temperatura através de cortes imediatos e sustentados nas emissões de gases com efeito de estufa, incluindo o metano, a caminho do zero líquido (net-zero). Posteriormente, baixaria as temperaturas através de emissões líquidas negativas a longo prazo, com a Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) devidamente governada - o processo de retirar carbono do ar e armazená-lo através de reflorestação ou outros meios - a assumir-se como parte essencial da solução.

Ao mesmo tempo, seguir este caminho envolveria ações de adaptação que reduzem a vulnerabilidade aos impactos atuais, esperados e inesperados das alterações climáticas nas sociedades, comunidades e economias - embora existam prováveis limites à adaptação e impactos irreversíveis, especialmente se os picos de temperatura não forem minimizados. O relatório reforça que tal trajetória reduziria riscos e impactos, tornaria a adaptação menos difícil e dispendiosa, e aumentaria as hipóteses de baixar as temperaturas.

“Não há bons resultados se permanecermos acima dos 1,5°C. Em todo o mundo, as ondas de calor extremo já provam que os impactos climáticos vão atingir-nos mais rápido, com mais força e durar mais tempo - custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”, disse Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUA. “Agora é o momento de duplicar os esforços na ação climática. Podemos - e devemos - entrar no caminho certo. Cortando emissões de gases com efeito de estufa, reforçando a resiliência e a adaptação, e garantindo que a ultrapassagem dos 1,5°C seja o mais reduzida e curta possível.”

Impactos devastadores
O cenário mais otimista prevê que o pico do aumento de temperatura atinja os 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, superando a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C definida pelo Acordo de Paris. A maioria dos restantes cenários prevê picos ainda mais elevados.

Acima dos 1,5°C, os riscos e impactos intensificar-se-ão a cada fração extra de grau e a cada ano. Os impactos previstos incluem eventos meteorológicos extremos mais intensos, perda de ecossistemas e a submersão de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e cidades costeiras de baixa altitude. Esperam-se danos graves na saúde humana, segurança alimentar, abastecimento de água, natureza, cidades, infraestruturas e economias.

O relatório avisa que a probabilidade de cruzar pontos de rutura irreversíveis aumenta com a magnitude e duração de temperaturas mais elevadas. Estes incluem a desestabilização de grandes calotas polares, a degradação da floresta amazónica e a perturbação da Circulação Meridional do Atlântico (o sistema de correntes que move água quente de superfície para norte e água fria profunda para sul, desempenhando um papel fundamental na regulação do clima). Alguns impactos podem surgir abruptamente, enquanto outros se acumularão ao longo do tempo.

Tendo em conta a dimensão dos riscos e os benefícios paralelos das intervenções climáticas - como a transição rápida dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, melhorando a qualidade do ar e a saúde pública, reduzindo os custos de energia e aumentando o acesso à eletricidade -, o relatório apela a uma ação global, coletiva e acelerada para entrar na trajetória de ultrapassagem, pico e declínio. A rapidez e a força desta ação definirão a forma e a trajetória desse caminho.

Condições para o sucesso
Vontade política forte, multilateralismo, políticas eficazes, governação inclusiva e financiamento são condições essenciais para a ação - e a equidade e a justiça devem fundamentar todas as respostas. Os países com maior responsabilidade pelas alterações climáticas devem agir mais depressa e com maior ambição.

O relatório também conclui que a mitigação e a adaptação, que se reforçam mutuamente, têm de avançar juntas, mantendo-se responsivas a riscos emergentes. Intervenções que atinjam em simultâneo metas de mitigação e adaptação - como o arrefecimento baseado na natureza - devem ser priorizadas.

A adaptação implementada agora forma a base para os esforços futuros, mas tem de se tornar transformacional e capaz de responder a riscos não lineares e abruptos - incluindo aqueles que prejudicarão os esforços de mitigação.

O relatório enfatiza que o zero líquido é apenas um marco a caminho do líquido negativo, sendo a remoção de carbono (CDR) necessária além de - e não em substituição de - reduções sustentadas nas emissões. Contudo, a CDR só pode contribuir de forma credível para o regresso a valores abaixo de 1,5°C se o pico de aquecimento se mantiver bem abaixo dos 2°C e todas as emissões residuais forem reduzidas. Quadros de governação sólidos para a CDR serão críticos para permitir uma implementação responsável e gerir as implicações na integridade ambiental, equidade e escala.

Responder a um futuro alterado
Anos de inação significam que, mesmo que se assegure o regresso a valores inferiores a 1,5°C, perdas irreversíveis e condições permanentemente alteradas são certas. Muitas comunidades podem ser forçadas a relocalizar-se ou a mudar de meios de subsistência, enquanto as sociedades enfrentarão o desafio da readequação. Isto levanta questões de justiça, poder e legitimidade política, que exigirão novos acordos de governação inclusiva para resolver problemas complexos.

Este relatório é um lembrete de que a trajetória de ultrapassagem, pico e declínio é a próxima fronteira climática, mas que não pode ser deixada ao abandono para as próximas gerações resolverem. É necessária ação imediata para que tal caminho continue a ser possível.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Could nature itself hold the solution to climate change?


In 2019, my scientific research was nearly brought to an early end when my team and I published the bombastic statement that natural forest restoration was the “best climate change solution” available in a paper for the peer-reviewed journal Science.

I remember a colleague from the World Wildlife Fund advising me that this message represented career suicide. He argued that people would be furious because reducing greenhouse gas emissions was the most urgent priority. The revival of nature might help with 30% of our carbon drawdown needs, but you cannot stop rising temperatures without cutting emissions.

I agreed both then and now. However, I explained that when we referred to the “best” solution, we didn’t simply mean the one with the largest impact in terms of CO2; we meant the best option for improving the livelihoods and wellbeing of people, too. And that, as we shall see, plays a crucial role in magnifying the beneficial effect.

Many people believe the scale of the climate challenge calls for immense technological innovation, geoengineering, or the transformation of our economy. But with these solutions there are often painful trade-offs. Almost every technological or geoengineering fix you can imagine comes at the expense of something else.

Stratospheric aerosol injection is one example. Creating clouds of reflective particles could block the sun and cool the land below. But alterations in sunlight and rainfall patterns could disrupt the growth of the crops we depend on for food. Similarly, direct air carbon capture has incredible potential to remove C02, but the huge financial and energy costs currently stand in the way of deploying it at the scale we need.

There is one set of solutions, however, that present no trade-off at all when they are done right. The restoration of natural habitats like forests is an exception in our climate toolkit because it draws on the same network of connections that allowed life to flourish in the first place.

The resilience of the natural world comes from ancient, underappreciated forces known as feedback loops. A positive feedback loop occurs when the outcome of a process has an effect that amplifies the process itself. You can see these patterns all the time in different aspects of life: for example whenever your anxiety about sleeping makes it harder to drift off.

Around 3.8bn to 4.2bn years ago, feedback loops allowed life to spread on an otherwise toxic and uninhabitable planet: Earth. As life gained a foothold, it began to transform the environment, making it hospitable to more life. Species emerged that generated opportunities for even more species. This self-reinforcing process created the Eden that allowed our own species to thrive, as well as providing every ounce of food, oxygen, timber, medicine and fuel we have ever needed.

But as we are all aware, the success of our species has initiated new feedback loops. The exploitation of natural resources by human beings has allowed population growth that has driven even more exploitation, which has warmed the planet, causing carbon to be released from the soil, driving more warming. As forests dry out, they are able to store less moisture, which causes more drying. Many loops such as this are now in motion, threatening to tip our planet into an entirely new state.

If we can work with nature’s feedback loops rather than distorting them, we can reap the benefits of their self-sustaining momentum

But just as feedback loops can cause damage, they can be harnessed as a pathway to recovery. They are not objectively good or bad: they are simply agents of change. If we can work with nature’s feedback loops rather than distorting them, we can reap the benefits of their self-sustaining momentum.

In Argentina’s Iberá national park, you can see a stunning example of runaway revival. After decades of degradation, the reintroduction of jaguars has reduced bloated herds of grazing herbivores, allowing wetland plants to recover. The plants’ roots trap moisture in the soil, and their branches provide a habitat for species that make this one of the most spectacular wetlands – and carbon sinks – on the planet. After just a few years, caimans now bask on the banks, macaws flash scarlet across the sky and giant otters patrol the waterways.

Of course, nature-based solutions are not always so successful. Companies have created vast carbon farms via monocultural tree planting, destroying native species in the process. The drying of peatlands to reduce methane production leads to the release of huge amounts of CO2. Nature’s power lies in its complexity, so attempting to simplify or reengineer the system often backfires.

The risks and trade-offs tend to disappear, though, when you get one vital part of the equation right. Time and again, when the revival of local biodiversity improves the livelihoods and wellbeing of local people, change becomes truly sustainable. Whenever people are intrinsically motivated to protect the environment around them, they become an integrated part of a natural feedback loop that can quickly gather momentum.

In the Iberá wetlands example, ecotourism became the engine of a new “restoration economy” employing rangers, chefs, hosts, wildlife trackers and guides. There are hundreds of such examples around the world: in Saseri, northern India, strategic soil management and tree restoration is trapping water to improve the yields of more than 1,200 farmers. A thousand kilometres to the south-west, in Gujarat, Indigenous women are restoring mangroves to protect 12 coastal villages from erosion while simultaneously improving the productivity of fisheries, crops and livestock.

What these and countless other projects illustrate is that we do not need remarkable innovation or great sacrifice to move things forward. We just need to allow a tiny fraction of our collective attention and wealth (perhaps less than 1% of global GDP) to flow towards these rural land stewards, supporting their ongoing efforts. Cumulatively, they result in hundreds of millions of tons of C02 captured – but that is only the beginning of their potential impact.

The more degraded nature becomes, the more desperately we need it. When nature starts to bounce back, it doesn’t only provide livelihoods, food security and carbon storage; it revives the hope, joy and inspiration that our species so desperately needs at this critical moment in time. Though they might seem beside the point, these emotional reactions are the lifeblood of nature restoration, with the potential to generate their own feedback loops, far into the future.

Prof Thomas Crowther is an ecologist and author of Nature’s Echo (Torva). He is Founder of Restor.eco, a non-profit platform for nature restoration sites

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Aquecimento acelera, enquanto resiliência do sistema terrestre diminui, indica relatório lançado na COP30



Os cientistas do clima estão mais preocupados do que nunca, afirma Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, da Alemanha. O cientista sueco, que propôs o conceito de limites planetários para definir as margens seguras para a pressão humana sobre processos ambientais essenciais para a estabilidade do planeta, tem chamado a atenção, com diversos outros pesquisadores, para novas evidências científicas que indicam que o aquecimento global está acelerando, enquanto a resiliência do sistema terrestre diminui.

“Estamos em apuros. O planeta está mostrando os primeiros sinais de redução da capacidade de amortecer e resfriar o estresse que estamos causando por meio de nossas emissões de gases de efeito estufa. Estamos nos aproximando rapidamente do ponto de inflexão e precisamos agir mais rápido do que temos feito até agora”, disse Rockström em palestra de inauguração do Pavilhão da Ciência Planetária, no primeiro dia da COP30.

Um relatório coordenado pelo pesquisador, lançado em setembro, indicou que sete de nove limites da segurança planetária já foram ultrapassados. Entre eles, as mudanças climáticas, a integridade da biosfera, o uso do solo, o uso de água doce, os ciclos biogeoquímicos (nitrogénio e fósforo) e a introdução de novas entidades (como produtos químicos e plásticos).

Agora, um novo relatório elaborado por 70 renomados cientistas de 21 países – entre eles do Brasil –, que foi lançado oficialmente durante a COP30, aponta que os sumidouros naturais de carbono do planeta – entre eles as florestas tropicais – estão atingindo limites críticos, absorvendo menos emissões que as esperadas, enquanto décadas de mudança climática têm debilitado sua capacidade.

Até o oceano, outro sumidouro vital de carbono e calor, está absorvendo menos dióxido de carbono (CO2), enquanto intensas ondas de calor marinhas devastam os ecossistemas e os meios de subsistência costeiros.

“O planeta inteiro está apresentando sinais de diminuição na capacidade de absorção de carbono”, disse Rockström, que é membro do conselho editorial do relatório. “A maior preocupação, com base nos dados atuais, reside nas regiões temperada e boreal e na zona do permafrost [solo congelado em regiões muito frias que retém gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono]”, disse Rockström.

De acordo com dados compilados para o relatório, os ecossistemas do hemisfério Norte começaram a indicar, a partir de 2016, uma redução na capacidade de absorção de carbono.

“Isso está a ficar muito preocupante porque sabemos que muitas áreas da parte brasileira da floresta amazônica já deixaram de ser sumidouros e se tornaram fontes de carbono, mas a mesma coisa está acontecendo com as florestas temperadas e boreais”, ponderou.

Remoção de dióxido de carbono
A ampliação da remoção de dióxido de carbono (CDR, na sigla em inglês) é necessária para complementar – e não substituir – cortes rápidos nas emissões, ponderam os autores do relatório.

O desenvolvimento de diretrizes internacionais robustas e o apoio à pesquisa e à inovação são essenciais para preencher a lacuna de CDR e apoiar tanto as metas de curto prazo quanto a estabilidade climática de longo prazo, garantindo, ao mesmo tempo, salvaguardas ambientais e sociais, apontam.

“As políticas climáticas mais ambiciosas discutidas hoje visam reduzir as emissões em 45% até 2030 e ter uma economia mundial com emissões líquidas zero até 2050, mas ninguém está cumprindo essa meta. Se não ampliarmos a CDR, teremos que descarbonizar a economia global até 2040”, apontou Rockström.

Segundo o cientista, mesmo com as melhores atualizações das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) pelos países, será possível conseguir reduzir as emissões globais em 5% até 2035. Mas as evidências científicas mostram que esse ritmo não será suficiente, ponderou.

“Na verdade, precisamos reduzir as emissões em 5% por ano, e não por década. É isso que a ciência nos diz para, no mínimo, desviar do perigo”, sublinhou.

Subsídio para as negociações
O relatório é fruto de uma iniciativa da Future Earth, da Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, que todos os anos reúnem alguns dos principais cientistas do clima de todo o mundo para analisar as descobertas mais urgentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. Os resultados são apresentados num artigo acadêmico revisado por pares e um relatório de ciência e política para oferecer uma síntese aos formuladores de políticas e à sociedade em geral para subsidiar as negociações das COPs.

“Espero que as conclusões do relatório estimulem o senso de urgência nos formuladores de políticas para que comecem a agir com base nas descobertas científicas”, disse Deliang Chen, professor da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e um dos autores da síntese.

O relatório é complementar aos publicados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas com algumas diferenças, comparam os autores.

“Analisamos, todos os anos, os dados científicos do ano anterior que mostram evidências relacionadas às mudanças climáticas e sintetizamos isso em uma mensagem muito clara e direta. Esperamos que isso funcione de forma muito mais eficiente para a formulação de políticas e, de fato, subsidie as ações que serão tomadas e as negociações”, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e uma das autoras da publicação.