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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Como o Presidente Trump está a influenciar as ações climáticas globais?


Em 2024, pela primeira vez, a temperatura média global ultrapassou 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, tornando ainda mais urgente a necessidade de ações climáticas globais rápidas e coordenadas.

Em vez de apoiar uma eliminação rápida e justa dos combustíveis fósseis, o presidente dos EUA, Donald Trump, está a atacar de forma imprudente os esforços globais para combater as alterações climáticas de cinco formas:
  1. Retirando os EUA dos organismos climáticos globais;
  2. Promovendo uma campanha de desinformação contra a ciência climática;
  3. Recorrendo a medidas intimidadoras e coercivas para promover políticas pró-combustíveis fósseis;
  4. Enfraquecendo as proteções climáticas internas e cortando o financiamento da ciência climática;
  5. Restringindo o espaço cívico, o que prejudica o ativismo climático.
De que organismos climáticos globais os EUA se retiraram e qual o impacto?
A retirada dos EUA do histórico Acordo de Paris entrou em vigor a 27 de janeiro de 2026. Esta é a segunda vez que os EUA se retiram do acordo e vem na sequência da intenção declarada de se retirarem da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e do Fundo Verde para o Clima (GCF). Trump também pediu a saída dos EUA de mais de 60 outras organizações internacionais, incluindo várias relacionadas com as alterações climáticas, a biodiversidade e as energias renováveis, apelidando-as de “desperdiçadoras, ineficazes ou prejudiciais”.

Esses anúncios provavelmente acelerarão o corte de financiamento dos EUA a instituições e programas multilaterais e bilaterais importantes relacionados com o clima. O financiamento dos EUA a essas agências da ONU e ao seu trabalho deve terminar em breve. A ONU já enfrentava uma crise financeira, agravada no último ano pela recusa dos EUA em pagar a sua contribuição para o orçamento regular.

Trump também se recusou a gastar a verba aprovada pelo Congresso norte-americano para assistência externa – incluindo para agências da ONU -; desmantelou a Agência dos Estados Unidos da América para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e outras agências americanas que fornecem apoio direto a comunidades prejudicadas pelas alterações climáticas e atacou programas que abordam as alterações climáticas.

O que é o Acordo de Paris e por que é importante?
A 12 de dezembro de 2015, os países adotaram o quadro mais ambicioso do mundo para combater as alterações climáticas durante a Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas em Paris (COP21). No âmbito do Acordo de Paris, os governos concordaram, pela primeira vez, em tentar limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais para evitar os efeitos mais catastróficos das alterações climáticas. O acordo exige que todos os Estados estabeleçam metas atualizadas regularmente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, tanto a longo como a curto prazo, e partilhem os seus planos para as alcançar.

Qual será o impacto para perdas e danos?
Os EUA também se retiraram do conselho do Fundo das Nações Unidas para Responder a Perdas e Danos (FRLD). Criado após difíceis negociações na COP27 em 2022, o Fundo dedica-se a ajudar nações e comunidades de baixos rendimentos e vulneráveis às mudanças climáticas a recuperarem de desastres “não naturais” relacionados com as alterações climáticas. A 19 de novembro de 2025, um total de cerca de 684 milhões de euros tinha sido prometido ao FRLD, incluindo 14,5 milhões dos EUA. No entanto, não está claro se agora essa promessa modesta será sequer honrada.

A reunião do conselho do FRLD em julho de 2026 deverá concentrar-se na finalização da operacionalização do fundo. Cabe a todos os países que podem, especialmente aqueles mais responsáveis pelas alterações climáticas, dar um passo à frente e garantir que o fundo tenha recursos adequados. Quanto menos os países contribuírem, especialmente os países historicamente com altas emissões, incluindo os EUA, mais custará, a longo prazo, aos países na linha de frente dos danos climáticos lidar com as perdas e prejuízos relacionados com as alterações climáticas.

Qual a posição de Trump sobre as alterações climáticas e como está a incentivar a desinformação sobre a ciência climática?
Trump apelidou as alterações climáticas de “fraude” quando discursou na Assembleia Geral da ONU em 2025. Também chamou as políticas de energia sustentável de “a maior farsa da história” no Fórum Económico Mundial em Davos, em 2026.

Um novo relatório do Departamento de Energia dos EUA afirma que as projeções do aquecimento global futuro são exageradas. Isso faz parte de um esforço da campanha de desinformação do governo Trump para produzir uma narrativa falsa contrária à ciência climática global e ao consenso, e usar essa ciência sem fundamento como justificativa para revogar a regulamentação climática.

Os EUA também cancelaram um relatório histórico sobre as alterações climáticas – a sexta Avaliação Nacional do Clima – e retiraram inúmeras páginas sobre ciência climática de sites oficiais. A eliminação destes e de outros programas e instituições de ciência climática significa que há menos informações fiáveis disponíveis ao público e torna mais difícil aos cientistas de todo o mundo verificar informações enganosas sobre as alterações climáticas.

Como os EUA usaram táticas de intimidação para minar a cooperação global sobre o clima e o meio ambiente?
Mais de 430 milhões de toneladas de plástico são produzidas todos os anos, a maior parte feita a partir de combustíveis fósseis. Esse plástico rapidamente se transforma em resíduos que entopem aterros sanitários ou acabam nos oceanos. No entanto, as negociações para um histórico Tratado Global sobre Plásticos não chegaram a um consenso no ano passado, pois os EUA, juntamente com outros países produtores de combustíveis fósseis, deixaram claro que se opunham a cortes na produção de plástico.

A administração Trump também conseguiu arquivar uma taxa global sobre as emissões de carbono do transporte marítimo, que estava quase finalizada, ameaçando diplomatas envolvidos nas negociações e usando ameaças sobre o aumento das tarifas de importação para pressionar as nações.

Noutros fóruns, a pressão do lobby dos EUA prejudicou muito a diretiva de due diligence de sustentabilidade corporativa (CSDDD) da União Europeia, que exige que as empresas resolvam questões de direitos humanos e ambientais nas suas cadeias de abastecimento. Os EUA também procuraram ativamente alianças com partidos políticos na Europa que são contra a ação climática.

A compra do chamado gás “natural” produzido nos EUA tem sido usada como moeda de troca nas negociações tarifárias. Por outro lado, os bancos americanos retiraram-se das alianças de ação climática.

Qual tem sido o impacto das políticas anticlimáticas de Trump a nível interno?
A administração Trump desmantelou os esforços domésticos de ação climática e envolveu-se numa reversão sem precedentes das regulamentações que protegem as pessoas nos EUA da poluição por combustíveis fósseis e das alterações climáticas.

Destruiu agências governamentais que prestam assistência de emergência às pessoas afetadas por eventos climáticos extremos, que se tornaram mais prováveis e intensos devido às alterações climáticas; cortou o financiamento de programas de diversidade e clima em agências governamentais e universidades dos EUA, o que originou demissões em massa, congelamento de subsídios e ataques; aumentou os subsídios financiados pelos contribuintes à indústria de combustíveis fósseis; e ameaçou — em alguns casos com sucesso — os estados dos EUA com planos para reduzir as emissões de carbono para acabar com essas políticas.

A abordagem “perfura, baby, perfura” de Trump aumentou a produção de petróleo e gás e acelerou a mineração em águas profundas.

Desde que Trump voltou ao cargo, o governo dos EUA reduziu a disponibilidade e a recolha de dados sobre poluição atmosférica, clima e uma série de outros dados ambientais e climáticos que são usados nos EUA e em todo o mundo. A administração Trump também ameaçou diretamente a liberdade académica e o direito de acesso à informação, incluindo sobre as alterações climáticas, como parte de um padrão consistente com práticas autoritárias crescentes.

Os EUA também aumentaram as suas atividades militares, particularmente na América Latina e no Médio Oriente, que têm uma pegada de carbono pesada, sem mencionar os danos ultrajantes causados aos direitos humanos. No caso da Venezuela, o presidente Trump citou a indústria de combustíveis fósseis como parte da sua decisão de tomar medidas ilegais para destituir Nicolás Maduro.

Como a repressão de Trump ao espaço cívico prejudicou o ativismo climático?
O governo dos EUA reprimiu protestos e dissidências, incluindo a limitação da capacidade dos ativistas climáticos de exercerem os seus direitos à liberdade de expressão, associação e reunião pacífica através de intimidação, demonização e ameaças de mudanças nas leis.

O Departamento de Energia terá adicionado “alterações climáticas”, “verde” e “descarbonização” à sua crescente “lista de palavras a evitar”.[Guardian]

Os ativistas climáticos têm sido descritos como “ecoterroristas”, entre outros ataques públicos por parte das autoridades. Isso encorajou as empresas de combustíveis fósseis e outros intervenientes anti ação climática e levou a uma crescente ameaça de litígios judiciais contra ativistas climáticos.

A administração Trump também demonizou populações marginalizadas, usando retórica racial de formas que corroem o apoio público a serviços públicos essenciais — incluindo aqueles críticos para ajudar os americanos a prepararem-se e resistirem aos impactos das alterações climáticas.

O que deve ser feito?
As alterações climáticas transcendem fronteiras e afetam todas as pessoas, em todos os locais. Muitas vezes, são os menos responsáveis que são mais afetados. A cooperação global é essencial para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis de forma equitativa, apoiar uma transição justa para os trabalhadores afetados, proteger as comunidades vulneráveis e financiar a recuperação de perdas e danos. Uma abordagem fragmentada aprofundará os danos climáticos, como o aumento do nível do mar, a escassez de alimentos, incêndios florestais, tempestades e inundações extremas e a falta de acesso a água potável.

As pessoas e os governos em todo o mundo devem resistir a todos os esforços coercivos da administração Trump. Ceder terreno agora coloca em risco o nosso futuro coletivo. A humanidade deve vencer.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

NDC 3.0: planos pouco ambiciosos e ausência de grandes emissores deixam o mundo longe da meta climática


Um novo relatório faz uma avaliação integral da terceira rodada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são fundamentais para a implementação do Acordo de Paris. Aqui, analisamos quatro dos eixos que serão discutidos na COP30.

“Dez anos após sua adoção, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o Acordo de Paris está dando resultados reais. Mas ele precisa funcionar de forma muito mais rápida e justa, e essa aceleração deve começar imediatamente.” A declaração é de Simon Stiell, Secretário Executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), após a apresentação, nesta terça-feira (28), do Synthesis Report, relatório sobre a nova rodada dos planos climáticos que os governos devem apresentar para avançar na implementação do Acordo de Paris.

Esses planos são conhecidos tecnicamente como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês). Neles, a cada cinco anos e de forma cada vez mais ambiciosa, os países devem compartilhar seus compromissos e ações de mitigação e adaptação. A soma de cada compromisso de redução de emissões deve contribuir para limitar o aquecimento global a menos de 1,5 °C, principal meta do acordo firmado em 2015.

O dia 10 de fevereiro de 2025 era a data final para os países apresentarem essa terceira edição das NDCs, mas poucos cumpriram o prazo. Em diversas ocasiões ao longo do ano, a ONU e a presidência brasileira da COP30 convocaram as Partes a fazer suas respectivas apresentações.

O relatório apresentado hoje pela Convenção inclui as 64 novas NDCs que 64 Partes apresentaram formalmente entre 1º de janeiro de 2024 e 30 de setembro de 2025. Estão incluídos os compromissos anunciados pela China e pela União Europeia na Assembleia Geral em Nova York, em setembro? Não na análise geral, porque foram apenas discursos anunciando metas que, naquele momento, não vieram acompanhados da publicação formal dos documentos de NDC completos e detalhados, mas foram incluídos em algumas estimativas específicas.

Também estamos cientes de que os dados contidos no relatório oferecem uma visão bastante limitada, uma vez que o total das NDCs que ele resume representa cerca de um terço das emissões globais.Simon Stiell, Secretário Executivo da UNFCCC

O que o relatório revela sobre esta terceira rodada de NDCs? A seguir, aprofundamos cinco das conclusões da análise que estão vinculadas aos principais temas a ser discutidos na COP30 em Belém.

1- Uma tendência à redução de emissões, ainda sem os maiores emissores
Todos os anos, a principal expectativa em relação ao relatório é qual será a soma total dos compromissos de redução de emissões dos países. Em outras palavras: o quanto estamos perto ou longe de limitar o aquecimento a menos de 1,5°C? Esta edição parte de uma realidade específica: os maiores países emissores ainda não apresentaram seus planos climáticos.

“Este relatório apresenta apenas uma visão parcial. Os principais emissores, como China, União Europeia e Índia, ainda não apresentaram formalmente suas NDCs atualizadas, enquanto vários países em desenvolvimento estão demonstrando como a ação climática pode ser integrada às oportunidades de desenvolvimento”, disse Kaysie Brown, diretora associada de Diplomacia Climática e Geopolítica da E3G.

As 64 NDCs analisadas só cobriram cerca de 30% do total das emissões globais em 2019. O cumprimento dos compromissos de mitigação permitiria uma redução de 17% nas emissões em relação aos níveis de 2019. “De acordo com suas NDCs, as partes estão reduzindo ainda mais as suas curvas de emissões, mas ainda a uma velocidade insuficiente”, afirma o relatório.

“Celebrar uma redução de 17% nas emissões até 2035, quando o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) nos diz que precisamos de 60%, é profundamente enganoso. É uma ilusão de avanço”, disse à InfoAmazonia Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, e acrescentou: “Sim, há avanços na economia real. Mas não se vê um resultado correspondente na política. A pior coisa que pode acontecer agora é a negação na COP30. Os líderes devem transformar o mal-estar político em uma resposta coletiva em Belém.”

As ações com maior potencial para atingir esses objetivos seriam florestamento e reflorestamento, energia solar, eletrificação de veículos e redução de emissões da agricultura.

Em relação a um dos temas que já gera debates no período que antecede a COP30 – a transição que deixe para trás os combustíveis fósseis – quase metade das NDCs analisadas apresentou objetivos quantitativos para reduzir uma proporção de combustíveis fósseis em sua geração de eletricidade até 2030.

A esse respeito, Camila Mercure, coordenadora de Políticas Climáticas da Fundación Ambiente y Recursos Naturales, avalia: “No setor energético, e de acordo com o apelo do Balanço Mundial a uma transição que abandone os combustíveis fósseis, é essencial que as NDCs estabeleçam roteiros claros e progressivos para descarbonizar as matrizes, garantindo que a transição busque a suficiência energética e o acesso universal, acessível e contínuo à energia para pessoas e territórios.”

2- Mais foco na adaptação
Setenta e três por cento das 64 NDCs apresentadas incluíram um componente de adaptação, ou seja, como se preparar melhor diante dos impactos atuais e futuros das mudanças climáticas.

As principais áreas em que esses países estão concentrando suas políticas de adaptação são segurança alimentar e nutrição, recursos hídricos, saúde, ecossistemas terrestres e setores econômicos estratégicos.

As secas apareceram como o fator climático de maior impacto sobre os países que apresentaram planos, com consequências sobre recursos hídricos, ecossistemas terrestres, pobreza e meios de subsistência. As inundações afetam principalmente áreas urbanas e rurais, transporte, infraestrutura e saúde. E o aumento do nível do mar ameaça áreas costeiras, ecossistemas oceânicos, património cultural e turismo.

Em comparação com os planos anteriores dessas 64 partes, observou-se um aumento no número de países que descreveram o estado de seus Planos Nacionais de Adaptação e identificaram sinergias e cobenefícios entre medidas de adaptação e mitigação.

Dos planos que incluíram políticas de adaptação, 94% se referiram a perdas e danos causados pelos impactos das mudanças climáticas. Isso demonstra um aumento no interesse pelo tema, em comparação com os 68% dos países analisados ​​que os haviam mencionado em planos anteriores.

O dado importante: os países apontaram a necessidade de financiamento e capacitação para lidar com perdas e danos. O Fundo de Perdas e Danos, estabelecido na COP27 em 2022, ainda está em fase de detalhamento para começar a funcionar, e ainda não tem recursos financeiros suficientes.

3- O financiamento necessário e transversal
Dos 64 novos planos apresentados, 56 apresentaram informações sobre financiamento. Mais especificamente, a maioria se referiu ao que é necessário para implementar suas políticas climáticas.

Os governos aguardam que Azerbaijão e Brasil, que ocuparam as presidências da COP29 e da COP30, divulguem o relatório do Roteiro de Baku a Belém, sobre como aumentar o financiamento de 300 biliões de dólares para 1,3 trilião. Enquanto isso, 33 partes divulgaram cifras orçamentárias concretas sobre o apoio de que necessitam: cerca de 1,97 bilhão de dólares, em conjunto.

Em que atividades esse dinheiro seria usado? Em políticas de redução de emissões nos setores de energia, agricultura e gestão de resíduos, e em políticas de adaptação em agricultura e segurança alimentar, recursos hídricos, saúde e água.

“A maioria dos países em desenvolvimento condicionou grande parte de suas NDCs ao acesso a financiamento internacional, transferência de tecnologia e apoio à capacitação, ressaltando que fechar a lacuna do financiamento climático é essencial para fechar a lacuna de ambição”, disse à InfoAmazonia Rebecca Thissen, coordenadora de global de incidência da Climate Action Network (CAN). E acrescentou: “Os países em desenvolvimento deixaram claro que sua ambição não é limitada pela visão, e sim pelos recursos.”

Além do valor em dinheiro em si, os países divulgaram desafios e limitações financeiras enfrentados na implementação de seus planos climáticos. Isso inclui acesso limitado e tardio ao financiamento devido a processos burocráticos longos e complexos, e dificuldades na mobilização de financiamento privado devido à baixa rentabilidade em setores vulneráveis, à percepção de altos riscos, ou mesmo ao escasso interesse dos investidores em medidas de adaptação.

“O relatório destaca que o apoio internacional previsível, acessível e ampliado não é esmola, e sim a condição para se implementar a ambição já incorporada às NDCs dos países em desenvolvimento. Isso deve ser acompanhado por uma reforma ambiciosa dos sistemas financeiros atuais, criando o espaço fiscal e político de que os países em desenvolvimento precisam para acelerar sua transição justa”, comenta Thissen.

Considerando que 69% do financiamento climático mobilizado em 2022 se deu na forma de empréstimos, não surpreende que uma barreira a mais seja o peso da dívida e as restrições fiscais geradas pelas modalidades de financiamento baseadas em mais endividamento em nome da ação climática. Esse foi um elemento qualitativo não resolvido pela nova meta de financiamento climático – a NCQG – decidida na COP29 anterior.

“As NDCs não são apenas compromissos climáticos, mas também o prospecto de investimento de um país, ou seja, o sinal mais claro para os mercados globais sobre onde se alinharão as políticas e oportunidades”, comentou María Mendiluce, diretora executiva da We Mean Business Coalition, e acrescentou: “Governos e empresas devem trabalhar juntos para criar as condições fiscais e financeiras que façam com que a energia renovável, a eficiência e a resiliência sejam os investimentos mais atrativos em todos os setores.”

4- Um interesse cada vez maior nos mercados de carbono
Na rodada anterior, 64% das Partes que apresentaram novas NDCs haviam manifestado interesse em participar dos mecanismos de mercado de carbono previstos no Artigo 6 do Acordo de Paris (que os regula), como forma de atingir seus objetivos climáticos. Agora, esse número subiu para 89%, incluindo países como Brasil e Indonésia, o que demonstra um crescimento considerável do interesse pelo tema.

O relatório também tem uma motivação a mais: finalizar os detalhes de implementação do Artigo 6 na COP29 abre caminho para que mais países comecem a pensar em seus marcos regulatórios, jurídicos e institucionais para se envolver nos mercados de carbono e se beneficiar deles. Na verdade, os que os países têm mais intenção ou possibilidades de usar são o Artigo 6.2, sobre o comércio de redução de emissões entre países, e o Artigo 6.4, que trata do novo mercado internacional de carbono, sobre os quais houve decisões em Baku.

Maximiliano Manzoni, diretor da Consenso e jornalista especializado em mercados de carbono, disse à InfoAmazonia que identifica diversos problemas com a intenção de muitos países desenvolvidos de cumprir seus compromissos climáticos usando os mercados de carbono de acordo com o Artigo 6.

“Um problema essencial é que os países do Sul Global acabarão subsidiando, com suas florestas, os custos de mitigação dos países do Norte Global, transferindo esse carbono, ao mesmo tempo em que os do Norte podem alegar estar apoiando com financiamento climático”, diz Manzoni.

E mais: “Outro problema é que, sem normas firmes, essas transferências de carbono capturado pelos países do Sul Global para as NDCs do Norte aumentarão os custos de mitigação dos países em desenvolvimento e, em casos mais extremos, os colocarão na difícil situação de aceitar acordos desiguais como única forma de ter acesso a dinheiro para suas próprias necessidades de mitigação e adaptação.”

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um estudo científico de elevado interesse: Estamos realmente adaptados às alterações climáticas?


November 1, 2010
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McGill Study Asks “Are We Adapting to Climate Change?”

Delegates from around the world are preparing for the UN climate change talks that kick off in Mexico at the end of the month. While debate over emissions targets continues to rage in the wake of last year’s talks in Copenhagen, there is one area where nations agree: we’re going to have to adapt.

Yet despite the newfound interest in adaptation, it remains unclear if adaptation is possible or what challenges we will face. A study released last week in the prestigious scientific journal Global Environmental Change, led by Dr Berrang-Ford at McGill University, sheds light on these questions. Posing the question, Are we adapting to climate change?, the study highlights that adaptation is already taking place and is possible but is piecemeal and ad hoc in nature.
“Human beings will have to adapt to climate change, but there is little evidence of a coherent strategy for adaptation efforts. A strategy or framework for adaptation is clearly needed at international to local levels,” says Dr. Lea Berrang Ford, Assistant Professor of Geography at McGill University. “While we have highly developed methods and frameworks for assessing greenhouse gas emissions within the climate change debate, our ability to track and monitor adaptation is underdeveloped. In the face of the climate changes scientists say we’re already locked into, this is a problem. If we’re to adapt successfully, we have to start taking action now.”
“Most scientific work on adaptation looks at prescriptions or takes a theoretical approach, looking at what needs to be done,” explains the study’s co-author Dr. James Ford. “In this study we actually looked at what has been done to adapt.” The authors will continue to refine their study’s methodology in order to track adaptation progress over time.
“We wanted to take a snapshot of what adaptation is actually occurring, so we developed a technique to rigorously track adaptation progress. One big surprise was that there are fewer reports of adaptation taking place in North America than there are in Africa,” says Ford. However, Ford notes that there is more attention shifting to adaptation and that more reports are now being published that were not ready in time to be included in the McGill review.
“If we are to adapt to climate change, then we need to consider how this can be accomplished as seriously as we debate mitigation,” says Berrang Ford. “What does adaptation look like? Where are our time and money best spent with respect to adaptations? What targets should we aim for?”
“We should be talking not just about ‘Should we mitigate and who should pay?’ but also ‘How do we move forward with the changes that we are locked into?’ and ‘Can we identify new environmental and economic opportunities through adaptation?’. “

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

What Really Happened in Copenhagen?

The iron fist of the market versus iron in the soul of the social movements

When the 15th Conference of the Parties (COP15) of the UN Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) "negotiations" ended in Copenhagen, a colleague from ATTAC France remarked that we might have just witnessed the tipping point of the end of capitalism and the New World Order.

On one hand, there was the official conference representing a corporate- and market-driven system being propped up by governments responsible for this crisis. On the other, there were the thousands that gathered from across the globe to protest false solutions and promote real ones. The road to Copenhagen for many activists began on September 18, 2008 when over 100 people from 21 countries came together to discuss mobilizing for Copenhagen. Over the next year, meetings were held in Poznan, Poland (2008 UN Climate Conference), in Belém, Brazil during the 2009 World Social Forum, and in Copenhagen. Somewhere in the midst of those meetings, Climate Justice Action was formed and became the major network for organizing the demonstrations in Copenhagen. Other Danish organizations pulled together the alternative Peoples' Summit Klimaforum09, which featured workshops, debates, art, and serious discussions that a new world was not only possible, but necessary. An estimated 10,000 people took part each day in Klimaforum09 activities.

The Negotiations

Outrage, confusion, and disgust were the reactions around the Bella Center when Barack Obama waltzed into the main plenary of the UN climate talks on December 18 to announce that the U.S. had struck an accord with the governments of China, Brazil, South Africa, and India. Accord? What happened to the official process?

In typical U.S. fashion, after years of global negotiations to bring all of the countries of the world into a consensus on how to combat climate change as part of the second round of commitments under the Kyoto Protocol, the imperial U.S. bypassed the Kyoto Protocol and its legally-binding commitments to reduce emissions. In his speech, Obama stated, "Here is the bottom line: We can embrace this accord, take a substantial step forward, and continue to refine it and build upon its foundation.... Or we can choose delay, falling back into the same divisions that have stood in the way of action for years...."

Fidel Castro criticized the undemocratic process of Obama et al., stating, "[This] was an antidemocratic and practically clandestine initiative that disregarded the thousands of representatives of social movements, scientific and religious institutions and other participants in the Summit."

After the Copenhagen Accord was announced—the result of the private meetings of 26 unnamed countries—the push was on to get the rest of the countries to agree to it so that they could claim success. There was outrage among the excluded countries. "After keeping us waiting for hours, after several leaders from developed countries have told the media an agreement has been reached when we haven't even been given a text, you throw the paper on the table and try to leave the room," stated Venezuelan delegate Claudia Caldera.

Hugo Chavez explained what was at stake: "In Copenhagen, from the beginning, the cards were on the table for all to see. On the one hand, the cards of brutal meanness and stupidity of capitalism, which did not budge in defense of its logic: the logic of capital, which leaves only death and destruction in its wake at an increasingly rapid pace. On the other hand, the cards of the peoples demanding human dignity, the salvation of the planet, and for a radical change, not of the climate, but of a world system that has brought us to the brink of unprecedented ecological and social catastrophe."

It required significant arm-twisting and blackmail of developing countries to try to get them in line. The government of Lesotho, head of the Least Developed Countries, was told that decisions on extending $7 million in aid would be decided depending on its cooperation with the Accord. Likewise, Palau was told negotiations on a funding package with the U.S. would be decided soon, so it should support the U.S.'s emissions reduction target. Meanwhile, the UK told Bolivia its eligibility for funding could be determined by its cooperation, and it told Bangladesh that money for adaptation was dependent on its agreement to financing going through the World Bank.

Despite these strong-arm tactics, the U.S., UK, and EU did not get the outcome they wanted. The exact text of the final agreement was as follows: "The Conference of the Parties takes note [emphasis added] of the Copenhagen Accord of December 18, 2009." With the refusal of Venezuela and Sudan to knuckle under to U.S. pressure, the COP was unable to "adopt" the flawed Accord—and was relegated to "taking note" of it. In other words, there was no agreement in Copenhagen.

Earlier in the week, some text leaked from secret meetings held by the Danish government, initially dubbed the Copenhagen Agreement, led to a spontaneous protest by the African delegations. They marched through the Bella Center on December 8 chanting, "Two degrees is suicide. One Africa, one degree." This referred to a section of the leaked text that would allow for a global temperature rise of two degrees Celsius. The Copenhagen Accord cabal responded, and on December 15, French President Sarkozy organized a meeting with Ethiopian Prime Minister Meles. After this meeting and a phone call from President Obama, Meles announced that he was speaking for all of Africa when he agreed to the U.S./EU position.

Mithika Mwenda, of the Pan-African Climate Justice Alliance (PACJA), responded, "The IPCC science is clear—2 degrees globally means 3.5 degrees in Africa. This is death to millions of Africans. If Prime Minister Meles wants to sell out the lives and hopes of Africans for a pittance, he is welcome to, but that is not Africa's position. Every other African country has committed to policy based on the science. That means at least 45 percent cuts by rich countries by 2020 and it means $400 billion fast-track finance, not $10 billion."

The language in the Copenhagen Accord guarantees continued runaway climate change. It contains no legally binding targets for emissions reductions, which are selected by each country independently. In the U.S., for example, the target being bandied about in the Senate is for 17 percent emission cuts below 2005 levels by 2020. This translates to less than 4 percent emissions cuts below 1990 levels by 2020. (By comparison, even the grossly inadequate Kyoto Protocol called for 5.2 percent reductions below 1990 levels by 2012.) On top of that, there are many provisions for allowing use of forests and soils as carbon offsets and the introduction of new market mechanisms to create the appearance of emissions cuts. The UNFCCC Secretariat has calculated that the Accord's provisions will lead to a 3-degree rise in temperatures and CO2 levels of 550 ppm. In addition, the Accord calls for a pathetically small $10 billion per year for 3 years for adaptation and mitigation actions in developing countries. There are no references to Indigenous Peoples' Rights or the UN Declaration of the Rights of Indigenous Peoples.

The media made a lot of the announcement by Hillary Clinton at the COP on December 15 of a plan for the U.S. to contribute $100 billion toward adaptation and mitigation for developing countries. As usual, they didn't listen very well. What Clinton actually said was that the U.S. would participate in raising $100 billion per year by 2020 from a variety of sources—including the carbon market and even World Bank loans. Developing countries, meanwhile are calling for $400 billion in public funding (outside of the World Bank) to begin immediately.

The inclusion of forests in the carbon market under the Accord will greatly intensify forest carbon projects and speculation, which critics charge will undoubtedly lead to land grabs, increased violations of Indigenous Peoples' rights and human rights in general, including forced displacements. It will also result in the rapid expansion of monoculture tree plantations (including genetically-engineered trees) as so-called carbon sinks.

In a bitter irony, on December 11 in the midst of the climate conference, U.S. Interior Secretary Ken Salazar announced that the Obama administration had approved Royal Dutch Shell's plan to drill for oil off Alaska's northwest coast as early as next summer, endorsing drilling for fossil fuels in the climate-effected ecosystems of the Arctic, where global warming already impacts Alaska natives and entire villages are in danger of losing their lands and ways of life.

The Anti-Empire Strikes Back

While it is doubtful anyone predicted the Obama administration would so blatantly throw out the UN process, Climate Justice Action had wisely mobilized around the understanding that the talks would not, and could not, come up with any real, effective, or just solutions to the climate crisis. They mobilized to expose COP15 for the profit-driven, trade-focused sham that it had become. For Climate Justice Action, "no deal is better than a bad deal," a sentiment echoed by climate scientist James Hansen.

Even prior to the Copenhagen Accord, after the first week of the talks, disgust over the behavior of rich countries spilled over into the streets. On Saturday, December 12, an estimated 100,000 people marched the 6 kilometers in the bitter cold to the Bella Center in support of effective action on climate change. Climate Justice activists formed a bloc called "Change the System, Not the Climate." The only incident of the day occurred when police vans swooped in suddenly to surround several hundred black bloc marchers. They were corralled on the frozen street for several hours before being taken to jail. This was not the first pre-emptive arrest, however. Police had already raided several of the meeting and sleeping spaces of Climate Justice Action. By the end of the two weeks, approximately 2,000 people had been arrested—nearly all of them having committed no crime.

Four days later, thousands of people again marched through the streets of Copenhagen to the Bella Center, this time as part of the "Reclaim Power" protest organized by Climate Justice Action and Climate Justice Now! (networks that encompass organizations, social movements, farmers, and Indigenous Peoples from both the global North and the global South). Also, between 200 and 300 COP15 delegates marched out of the Bella Center to join the protests outside. The objective was not to close down the summit, but rather, for one day, to open a space for a People's Assembly where real solutions to the climate crisis and ways to expand the global climate justice movement could be discussed. When the group from inside attempted to cross a footbridge to meet their thousands of compatriots on the outside, however, they were met by police swinging truncheons. Accredited UN observers were beaten while chanting, "We're non-violent, why aren't you?"

Stine Gry Jonassen, a spokesperson for Climate Justice Action, explained, "We have no more time to waste. If governments won't solve the problem, then it's time for our diverse people's movements to unite and reclaim the power to shape our future. We are beginning this process with the people's assembly. We will join together all the voices that have been excluded—both within the process and outside of it." Stine and Tannie Nyboe, another Reclaim Power organizer, were brutally attacked by police while speaking from a sound truck. They were thrown off the truck and arrested.

Global Justice Ecology Project (GJEP) accredited Stine for the UN climate talks. She and another organizer, Dr. Tadzio Mueller, participated in a GJEP press conference the day before the action took place. Upon leaving the UN building, Mueller was grabbed by three plainclothes police, arrested pre-emptively, and taken back into the Bella Center to await transport to jail. He was released four days later.

Indigenous Environmental Network Director Tom Goldtooth explained why Indigenous Peoples led the march out of the Bella Center: "It's a sad situation that world leaders representing industrialized society have lost their understanding of the sacredness of Mother Earth. Before we can achieve global action, there needs to be international awareness of why we are really here. We marched out in support of our brother, President Evo Morales of Bolivia, and his demand that the rights of Mother Earth be recognized in the negotiating text here in Copenhagen."

Hundreds of UNFCCC-accredited observers were denied access to the Bella Center on the day of the Reclaim Power action, including the entire Friends of the Earth International and Via Campesina delegations. Anyone who participated in the Reclaim Power action was also banned from the Bella Center. In the days following the action, the exhibition and side event space where many of the NGOs had congregated was eerily quiet and empty. Many of the NGO booths were stripped of their materials and had simple white print outs posted that read "Civil Society Has Been Excluded From The Negotiations."

Climate Justice Now! issued a statement after Copenhagen which reads in part: "The only discussions of real solutions in Copenhagen took place in social movements. Climate Justice Now!, Climate Justice Action and Klimaforum09 articulated many creative ideas and attempted to deliver those ideas to the UN Climate Change Conference through the Klimaforum09 People's Declaration and the Reclaim Power People's Assembly. While Copenhagen has been a disaster for just and equitable climate solutions, it has been an inspiring watershed moment in the battle for climate justice. The governments of the elite have no solutions to offer, but the climate justice movement has provided strong vision and clear alternatives. Copenhagen will be remembered as an historic event for global social movements. It will be remembered, along with Seattle and Cancun, as a critical moment when the diverse agendas of many social movements coalesced and became stronger, asking in one voice for system change, not climate change."

What Are The Next Steps?

In response to the Copenhagen fiasco, Bolivian President Evo Morales announced that a world conference of social movements would take place in Bolivia on April 22, 2010—the International Day of Mother Earth. In Detroit, Michigan this summer, climate justice and other activists will come together for the U.S. Social Forum. Many hope that social movements in the U.S. will unite as an alternative to the farcical "democracy" in this country and work together to find real and just solutions to the climate crisis.

Despite the heavy handed and violent repression of the Reclaim Power action, participants considered it a tremendous success. "The solidarity we experienced today in the face of police intimidation and repression shows that people across the world are standing together to expose the failure of the COP to address the real causes of the climate crisis, and our determination to work together to bring about the changes needed to tackle climate change. The people feel strong together and we will go back home to build the movement for climate justice and for real solutions," said Kingkorn Narintarakul of the Thai Working Group for Climate Justice.

Anne Petermann is executive director of Global Justice Ecology Project (GJEP). Orin Langelle is the co-director/strategist of GJEP. They took the photos in this article. GJEP co-founded Climate Justice Now! in 2007 in Bali, Indonesia and Climate Justice Action in 2008 in Copenhagen. GJEP has its main office in Hinesburg, Vermont with desks in Berkeley, California and Porto Alegre, Brazil. GJEP is the North American Focal Point for the Global Forest Coalition.