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segunda-feira, 29 de junho de 2026

E se o "Fascismo Eterno" de Umberto Eco, tivesse encontrado a ferramenta perfeita na Inteligência Artificial?

O custo da IA não é apenas ecológico; é cultural e político. Convoco os meus amigos à leitura desta minha reflexão profunda sobre o mundo que estamos a construir e a leitura que nos pode salvar do fascismo eterno.

𝐏𝐨𝐧𝐭𝐨 𝐩𝐫𝐞́𝐯𝐢𝐨
Atualmente, o grande desafio é o crescimento exponencial da Inteligência Artificial - um campo que nasceu em meados do século XX, mas que hoje atinge proporções sem precedentes. Os chips de IA, como os GPUs, consomem muito mais energia do que os servidores tradicionais. Este aumento súbito na procura de eletricidade está a pressionar as redes elétricas e, em algumas regiões, a obrigar ao prolongamento da atividade de centrais a gás ou carvão, dificultando as metas de descarbonização.

Para além da eletricidade, a corrida aos minerais raros para construir estes componentes tornou-se insuportável e insustentável. É neste cenário - um mundo polarizado, minado por fraudes e mergulhado numa nova era tecnológica quase imposta - que os algoritmos disparam em todas as direções, perpetuando vieses políticos e alimentando bolhas ideológicas para maximizar o lucro. É assim que o tecnofascismo e o carbofascismo se impõem numa era tecnológica quase imposta. A verdade é que não estamos preparados. Explico porquê no segundo texto.

𝐒𝐞𝐠𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐨 - 𝐀 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐚 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐔𝐦𝐛𝐞𝐫𝐭𝐨 𝐄𝐜𝐨 𝐞 𝐚 𝐞𝐫𝐚 𝐝𝐢𝐠𝐢𝐭𝐚𝐥: 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐧𝐝𝐞𝐫𝐦𝐨𝐬?

O Fascismo Eterno, obra em que Umberto Eco analisa as estruturas mentais e socioculturais do autoritarismo, ganha uma relevância alarmante quando confrontado com a atual e acelerada evolução da Inteligência Artificial. Embora o ensaio tenha sido escrito na década de 1990, muito antes da explosão dos modelos generativos e dos algoritmos avançados, as catorze características do Ur-Fascismo identificadas pelo filósofo italiano servem como um aviso severo sobre os impactos culturais e políticos da automação tecnológica no comportamento humano.

A primeira grande interseção reside no conceito de novilíngua. Eco alertava que o fascismo eterno recorre a um vocabulário empobrecido e a uma sintaxe elementar para limitar o raciocínio complexo e eliminar o pensamento crítico. Ao transferirmos a produção de textos, discursos e comunicações diárias para sistemas de IA, corremos o risco de padronizar a linguagem de forma global. Estes modelos tendem a gerar respostas estatisticamente previsíveis e polidas, o que pode esvaziar a riqueza linguística, a ironia e a profundidade do debate público, pavimentando o caminho para uma sociedade que aceita mais facilmente narrativas simplistas e polarizadas.

Além disso, o culto da ação pela ação e o consequente desprezo pela reflexão intelectual encontram um terreno fértil na busca cega pela produtividade algorítmica. A pressa em obter resultados imediatos através de prompts substitui muitas vezes o processo humano de pesquisa profunda, erro e ponderação. Quando o ato de pensar é delegado à máquina em nome da eficiência, a capacidade da sociedade para exercer a dúvida filosófica e a contestação - defesas vitais contra regimes autoritários - acaba por atrofiar.

Outro ponto crítico é a obsessão pelo complô e a criação de inimigos imaginários, dinâmicas que alimentam o ecossistema fascista. Atualmente, a Inteligência Artificial é utilizada para potenciar bolhas de radicalização através de algoritmos de recomendação baseados no envolvimento pela indignação e, ironicamente, maximizando o lucro dos plutocratas . A capacidade de gerar desinformação em massa, clones de voz e deepfakes de forma automatizada e barata permite que atores maliciosos criem conspirações personalizadas para diferentes franjas da população, fraturando o tecido social à escala industrial.

Por fim, o populismo qualitativo, onde o líder se assume como a encarnação da vontade de uma massa homogénea, ganha contornos de precisão cirúrgica com o uso de dados processados por IA. A análise automatizada do sentimento das redes sociais permite moldar discursos políticos que não convidam ao debate, mas que ecoam de forma artificial os medos e preconceitos do eleitorado. Assim, o maior perigo não reside numa revolta das máquinas contra a humanidade, mas sim na possibilidade de a IA ser utilizada para automatizar e perpetuar os hábitos mentais mais primitivos e intolerantes que Umberto Eco nos instou a combater.

Ler mais:

domingo, 28 de junho de 2026

Bilionário faz acidentalmente a defesa do imposto sobre os ricos


Neste comentário, Robert Reich utiliza a atuação do cofundador da Google, Sergey Brin, para ilustrar a necessidade urgente de taxar as grandes fortunas. Reich explica que o bilionário terá gasto dezenas de milhões de dólares para tentar derrotar uma iniciativa de votação na Califórnia que pretendia aplicar um imposto único sobre a riqueza dos residentes mais ricos do estado. Esse dinheiro seria canalizado para apoiar o sistema público de saúde (Medicaid), que sofreu cortes significativos devido a reformas fiscais federais anteriores que favoreceram os mais abastados.

Embora Reich defenda que a acumulação de riqueza não é obrigatoriamente um jogo de soma zero, o mesmo não se aplica ao poder político. Na sua visão, os super-ricos conseguem converter as suas fortunas em influência política desmedida, comprando eleições, travando o aumento de impostos e moldando as leis a seu favor, o que acaba por silenciar os restantes cidadãos.

A grande ironia apontada no vídeo é que, ao gastar uma fortuna para impedir a criação de um imposto para bilionários, Sergey Brin acabou por demonstrar na perfeição a razão pela qual essa taxa é indispensável. Robert Reich conclui que o objetivo de taxar as grandes fortunas não é punir os indivíduos ou confiscar os seus bens, mas sim garantir a proteção da democracia, impedindo que um pequeno grupo de bilionários domine por completo o panorama político.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O sistema Volta - puro Enshittification


Já tinha falado sobre isso aqui

A SDR Portugal, uma associação sem fins lucrativos, é apresentada como uma das grandes conquistas da nova economia circular. Uma solução moderna, sustentável e inevitável para aumentar as taxas de reciclagem e aproximar Portugal dos objectivos ambientais europeus. A narrativa pública é simples, eficaz e cuidadosamente construída: devolver embalagens para salvar o planeta.

Consumir continua perfeitamente aceitável. Desde que a culpa venha com código de barras e seja colocada na máquina correcta.

O presidente da SDR Portugal é Leonardo Bandeira de Melo Mathias, antigo Secretário de Estado Adjunto e da Economia no governo de Pedro Passos Coelho. Um dos vice-presidentes é António Augusto dos Santos Casanova Pinto, vice-presidente do Conselho de Administração da Sumol Compal Marcas e administrador executivo do grupo.

Segundo o Relatório e Contas de 2024 da própria SDR, os órgãos sociais não são remunerados. No entanto, os gastos com remunerações em 2024 ascenderam a €136.333,25 antes de impostos (Seg. Social + IRS). O número de pessoas ao serviço em 31 de Dezembro de 2024 era de apenas 3, sendo referido no relatório que existia um Director-Geral contratado desde Junho de 2022 e que apenas em Dezembro de 2024 foram contratados um Director de Operações e um Director de Tecnologias de Informação.

Ou seja, durante praticamente todo o exercício de 2024, o grosso dos encargos salariais esteve concentrado numa única pessoa e com um valor (€9.738 líquidos /mês) bastante interessante para uma estrutura ainda em fase inicial de operação. Afinal, até a reciclagem moderna exige a sua pequena aristocracia técnica.

O próprio Relatório e Contas revela ainda outro detalhe particularmente curioso: existe um conjunto de grandes empresas que realizaram empréstimos à SDR, os quais, segundo o Relatório de Gestão, serão pagos “quando a associação tiver meios financeiros para o fazer”.

Traduzindo do dialecto institucional para português corrente: o dinheiro há-de voltar. Ou seja, não se trata propriamente de capital a fundo perdido nem de um gesto puramente filantrópico. Trata-se de dinheiro que deverá regressar futuramente a quem o colocou no sistema.

Entre os credores encontram-se:
Auchan Retail Portugal, S.A.: €247.000
ITMP Alimentar, S.A.: €247.000
Super Bock Bebidas, S.A.: €247.000
Pingo Doce - Distribuição Alimentar, S.A.: €247.000
Lidl & Companhia: €247.000
Modelo Continente Hipermercados, S.A.: €247.000
Sumol Compal Marcas, S.A.: €247.000
Coca-Cola Europacific Partners Unipessoal, Lda: €247.000
SCC - Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, S.A.: €247.000
Unilever Fima, Lda: €247.000
Total: €2.470.000

A pergunta verdadeiramente interessante não é se o sistema é ecológico. É perceber como, quando e através de que mecanismos financeiros estes valores serão recuperados. Porque num sistema financiado por depósitos, taxas, fluxos operacionais e receitas futuras associadas à reciclagem, alguém acabará inevitavelmente por pagar a factura final da virtude ambiental.

No entanto, quando se observa o modelo para além da superfície publicitária e das campanhas institucionais, percebe-se que talvez estejamos perante algo bastante mais complexo do que uma simples iniciativa ecológica.

O que está a ser criado não é apenas um sistema de reciclagem. É uma infraestrutura económica, logística e tecnológica de enorme dimensão, construída em torno da circulação permanente de embalagens, depósitos, dados e contratos.

A lógica do mecanismo parece inocente. O consumidor compra uma bebida, paga um valor adicional associado à embalagem e recupera esse montante caso a devolva num ponto autorizado. À primeira vista, trata-se apenas de um incentivo comportamental. Uma pequena penalização temporária destinada a ensinar adultos a colocar recipientes vazios no sítio correcto. Mas é precisamente aqui que o modelo se torna interessante. O sistema não vive apenas da reciclagem. Vive sobretudo da arquitectura financeira criada à volta da reciclagem.

Cada embalagem deixa de ser apenas um recipiente descartável e transforma-se numa unidade económica rastreável:
- alguém paga
- alguém recolhe
- alguém valida
- alguém transporta
- alguém processa
- alguém monitoriza
- alguém factura

A garrafa já não termina no lixo. Passa a circular dentro de uma cadeia económica cuidadosamente organizada, onde praticamente cada etapa gera actividade financeira.

O primeiro aspecto raramente explicado de forma transparente é a importância dos depósitos não reclamados. Nem todas as pessoas irão devolver embalagens. Nem todas terão tempo. Nem todas terão máquinas próximas. Nem todas guardarão garrafas em casa. Nem todas considerarão justificável deslocar-se por alguns cêntimos. Nem todas transformarão a cozinha numa extensão informal do centro de triagem nacional.

E é precisamente aí que surge uma das peças mais relevantes do sistema. Os depósitos pagos e nunca recuperados permanecem dentro do circuito financeiro da estrutura. Ou seja, uma parte significativa da sustentabilidade económica do modelo assenta não apenas na reciclagem, mas também na inevitável imperfeição humana.

E aqui vale a pena pegar nas próprias palavras do presidente da SDR Portugal:
“Só para lhe dar um enquadramento, são consumidas em Portugal 2,1 mil milhões de garrafas de plástico (PET) até três litros. E as latas de aço e de alumínio, portanto, são 2,1 mil milhões de unidades por ano. Agora imagine…”
Sim, vamos então imaginar.
Com optimismo ambiental, admitamos que 70% das embalagens são devolvidas. Isso significa que 30% ficam fora do circuito de retorno.
2,1 mil milhões × 30% = 630 milhões de embalagens não devolvidas.
Multiplicando por um depósito de 10 cêntimos:
630 milhões × €0,10 = €63 milhões.

Ou seja, mesmo num cenário bastante optimista, estariam potencialmente 63 milhões de euros anuais a permanecer dentro do sistema apenas através de depósitos não reclamados.

Agora abandonemos por momentos o optimismo institucional e ambiental. Se a taxa de retorno fosse de 50%, então metade das embalagens não regressaria:
2,1 mil milhões × 50% = 1.050 milhões de embalagens.
Multiplicando novamente pelos 10 cêntimos:
1.050 milhões × €0,10 = €105 milhões.
Cento e cinco milhões de euros.

Naturalmente, estes valores não representam lucro directo líquido nem podem ser analisados isoladamente dos custos operacionais do sistema. Mas ajudam a perceber a dimensão financeira potencial criada por um mecanismo que depende precisamente de uma percentagem significativa de embalagens nunca ser devolvida.

Há aqui uma ironia difícil de ignorar. O sistema apresenta-se como solução para mudar comportamentos, mas beneficia financeiramente do facto de esses comportamentos nunca mudarem completamente. Se os consumidores devolvessem rigorosamente todas as embalagens, uma das maiores almofadas financeiras do mecanismo desapareceria. Isso obrigaria inevitavelmente a:
- aumentar taxas
- reforçar contribuições da indústria
- procurar mais financiamento público
- ou criar novas formas de receita

Por outras palavras, o sucesso ambiental absoluto poderia transformar-se num problema económico bastante menos sustentável do que os folhetos institucionais sugerem. Naturalmente, esta parte raramente aparece nos vídeos promocionais acompanhados por folhas verdes ao vento, crianças sorridentes e música suficientemente inspiradora para absolver moralmente uma garrafa de plástico. Mas os depósitos não reclamados são apenas uma componente do ecossistema.

Outra dimensão do modelo surge quando se observa a infraestrutura criada à sua volta.
Para operacionalizar a devolução de milhões de embalagens, torna-se necessário construir uma rede nacional composta por:
- máquinas automáticas de recolha
- software de reconhecimento e validação
- sistemas antifraude
- logística reversa
- transporte especializado
- centros de triagem
- compactação industrial
- plataformas digitais
- manutenção técnica
- monitorização estatística
- auditorias
- certificações ambientais
- contratos operacionais

Ou seja, cria-se um novo sector económico completo em torno de algo que, até aqui, cabia essencialmente num ecoponto. E como acontece frequentemente na economia contemporânea, o discurso público concentra-se na moralidade ambiental, enquanto os fluxos financeiros reais se distribuem silenciosamente pelos bastidores tecnológicos e logísticos.

Porque alguém fabrica as máquinas. Alguém fornece o software. Alguém gere os dados. Alguém assegura manutenção. Alguém opera a logística. Alguém ganha contratos. Alguém presta consultoria. Alguém vende a solução para o problema que o próprio sistema ajudou a transformar numa nova necessidade estrutural. O operador central pode apresentar-se como entidade sem fins lucrativos, o que é tecnicamente verdadeiro. Mas isso pouco diz sobre o volume de actividade económica gerada à volta da estrutura.

Aliás, um dos traços mais sofisticados dos modelos contemporâneos é precisamente este: o núcleo institucional mantém uma aparência neutra e moralmente virtuosa, enquanto a rentabilidade se espalha discretamente pelas camadas periféricas do sistema.

Existe ainda uma dimensão menos visível, mas potencialmente mais valiosa a longo prazo: os dados.
Cada devolução gera informação. Cada máquina recolhe padrões de utilização. Cada localização produz métricas comportamentais. Cada embalagem contribui para mapear hábitos de consumo. Num contexto onde indicadores ambientais, métricas ESG* e monitorização de comportamento possuem valor económico crescente, o controlo de uma infraestrutura nacional deste tipo representa muito mais do que reciclagem. Representa capacidade de observação, recolha, análise e venda de dados. (*Indicadores quantitativos e qualitativos que medem o desempenho de uma empresa nas áreas Ambiental, Social e de Gestão)

Quem gere um sistema desta escala passa a ter acesso a:
- padrões de consumo
- volumes regionais
- sazonalidade de vendas
- participação dos consumidores
- fluxos logísticos
-métricas ambientais
- indicadores de conformidade regulatória
O lixo deixa de ser apenas lixo.Torna-se informação.

Outro aspecto particularmente curioso é a transferência parcial de trabalho da indústria para o cidadão. Antes, o consumidor colocava a embalagem no ecoponto e encerrava aí a sua participação. Agora, espera-se que:
- guarde embalagens em casa sem as danificar 
- organize resíduos
- transporte recipientes
- procure máquinas disponíveis
- aguarde validação
- execute parte da logística operacional

Tudo isto naturalmente apresentado como exercício de cidadania ambiental. Na prática, parte do trabalho anteriormente absorvido pelo sistema tradicional de resíduos é silenciosamente transferido para o próprio consumidor, que continua simultaneamente a financiar o processo através dos depósitos pagos.

Entretanto, os grandes produtores de embalagens conseguem algo ainda mais relevante: legitimidade. As empresas responsáveis pela colocação de milhões de embalagens descartáveis no mercado passam a operar dentro de uma arquitectura verde certificada, compatível com exigências regulatórias europeias e extremamente útil para relatórios ESG, reputação corporativa e marketing institucional.

A questão deixa então de ser: “como reduzir embalagens descartáveis?” E passa subtilmente a ser:“como integrar embalagens descartáveis num circuito economicamente rentável e ambientalmente legitimado?”

É uma diferença conceptual importante.
O sistema não elimina o consumo massivo de recipientes descartáveis. Pelo contrário: reorganiza-o, profissionaliza-o e transforma-o numa cadeia económica ainda mais sofisticada.

No fundo, o que está a emergir não é apenas um mecanismo de reciclagem. É a monetização integral da embalagem desde o momento da compra até ao momento da devolução.

A embalagem gera receita quando é vendida. Gera receita quando circula. Gera receita quando não é devolvida. Gera receita quando é devolvida. Gera receita quando é processada. Gera receita enquanto dado estatístico. E gera legitimidade política e ambiental durante todo o percurso. Chama-se a isso enshittification (merdificação)

Nada disto significa que reciclar seja inútil ou que a reutilização de materiais não tenha benefícios reais. O problema não está na reciclagem. Está na forma quase religiosa como certos modelos económicos são apresentados como altruísmo ambiental puro, quando na realidade envolvem estruturas financeiras altamente sofisticadas e interesses económicos evidentes.

Porque quando uma solução ecológica cria uma indústria multimilionária sustentada por depósitos, contratos, dados, logística, tecnologia e falhas previsíveis do comportamento humano, talvez seja legítimo perguntar se o principal objectivo é proteger o ambiente ou descobrir como transformar até o lixo numa fonte permanente de rentabilidade.
E nesse aspecto, convenhamos, o modelo é brilhante.

O ecoponto de rua - esse herói anónimo da reciclagem portuguesa — continua a ser mais eficiente, mais inclusivo e com menor pegada carbónica. Pode não dar vales de desconto, mas pelo menos não exige carregar lixo no porta-bagagens. Faz apenas aquilo que deve: recolher para reciclar. Por isso, continuo fiel a ele. Pode não ser bonito nem moderno, mas funciona - e não precisa de marketing para provar isso.
E mais: 
Aqui em casa uso água da torneira. É o mais ecológico e simples. Quando vou a restaurantes, se bebo água devolvo o talão à menina(o). 

Saber mais:
3. Sistema Volta, as contas da DECO e o peso da tua “preguiça” forçada

domingo, 17 de maio de 2026

Chegou a hora de uma revolução populista?


Um movimento populista económico pode unir o trabalhador, o agricultor e o pequeno empresário — de todas as etnias, religiões e filiações políticas — contra as elites ricas que manipularam o sistema contra eles.
Donald Trump quer que acredite que as pessoas menos poderosas deste país são as principais responsáveis ​​pelos seus problemas. Mas não se resolve uma economia manipulada deportando pessoas.

Antes de ser despedido por Trump por fazer o seu trabalho, o ex-comissário da FTC, Alvaro Bedoya, passou três anos a reunir-se com trabalhadores de toda a América.

Descobriu que todos tinham algo em comum: a elite corporativa estava a explorá-los até à exaustão. Bedoya explica como o populismo económico pode unir trabalhadores de todas as origens — e é o único antídoto real para o trumpismo.

E em Portugal? Marca na agenda: faz greve no dia 3 de Junho

sábado, 16 de maio de 2026

A mercantilização da vida: onde a poesia de Zeca Afonso enfrenta a frieza do "Trabalho XXI"


Rendido a esta interpretação de Gisela João.  E revoltado (ou não, já imaginava a posição do IL que defende flexibilização laboral e aponta rigidez como travão aos salários!!) e enfrentando a desumanização e a máquina trituradora, sem chão, do neoliberalismo, plutocracia, nepotismo,tecnofeudalismo e cleptocracia.

A desumanização das relações e a mercantilização do afeto vertidas em "Que Amor Não Me Engana" espelham de forma crua as dinâmicas socioeconómicas contemporâneas, encontrando um eco surpreendente nas discussões em torno da nova proposta de reforma laboral do Governo — o pacote "Trabalho XXI". 

Quando José Afonso canta sobre a urgência de um amor que não atraiçoe e a amargura de quem olha em redor e, "à porta do muro", não vê ninguém, ele traduz liricamente o isolamento do indivíduo perante estruturas que priorizam a métrica e a eficiência em detrimento da dignidade humana. 

Essa mesma tensão entre a necessidade de conexão genuína e a frieza dos sistemas reflete-se diretamente na flexibilização proposta pelo novo quadro legislativo, nomeadamente através do regresso do banco de horas por acordo individual e do alargamento dos contratos a termo para cinco anos no caso de termos incertos. 

Estas medidas, embora desenhadas sob a premissa de dotar o mercado de maior agilidade e produtividade, correm o risco de aprofundar a precariedade existencial do trabalhador, transformando o tempo de vida e de descanso numa mercadoria transacionável e adiável, onde a segurança psicológica é sacrificada em nome da sobrevivência económica. 

O "engano" de que Zeca falava materializa-se hoje na ilusão de autonomia individual perante plataformas digitais e algoritmos de inteligência artificial que passam a gerir recursos humanos e a ditar despedimentos e avaliações; uma realidade tão desprovida de empatia que a nova lei se vê obrigada a legislar para garantir um controlo humano mínimo sobre as decisões das máquinas. 

No fundo, ao cruzar a poesia de resistência com a nova legislação laboral, percebe-se que a busca por um "amor que não engana" continua a ser a busca por um ecossistema social e profissional que reconheça o trabalhador não como uma ferramenta de rendimento descartável, mas como um ser humano que necessita de amparo, tempo e verdade nas suas relações.

Vamos rebentar o Pacote Laboral do Luís?


Luís Montenegro chama-lhe reforma laboral, modernização do mercado de trabalho, adaptação aos novos tempos e reforço da competitividade das empresas. As palavras mudam conforme o governo, mas a lógica mantém-se sempre igual: retirar direitos a quem trabalha para aumentar a margem de manobra de quem manda. E é importante perceber isto com clareza, porque muitos destes pacotes laborais são apresentados de forma técnica, confusa e quase burocrática, precisamente para que a maioria das pessoas não compreenda imediatamente o impacto real que terão na sua vida quotidiana.

O problema começa logo na própria ideia de “flexibilidade”. Quando um governo fala em flexibilizar horários, facilitar mecanismos de gestão ou adaptar relações laborais às necessidades das empresas, quase nunca está a falar de melhorar a vida do trabalhador. Está a falar de dar ao patrão mais poder para alterar horários, reorganizar turnos, exigir disponibilidade constante e gerir os trabalhadores como peças ajustáveis de uma máquina.

Na prática, isto significa uma vida mais instável. Significa pessoas que deixam de conseguir organizar a semana, marcar consultas, acompanhar os filhos, planear fins de semana ou simplesmente descansar sem ansiedade. Hoje já existem milhares de trabalhadores que vivem permanentemente agarrados ao telemóvel à espera de alterações de turno, chamadas de última hora ou pedidos “urgentes” da empresa. O que este pacote faz é normalizar essa realidade e transformá-la num modelo de funcionamento quase permanente.

E há aqui uma dimensão humana que raramente aparece nos debates televisivos. Um trabalhador não é apenas força de produção. Não é um recurso humano, como gostam agora de dizer. É uma pessoa com corpo, desgaste físico, vida familiar, problemas pessoais, necessidade de descanso e limites emocionais. Quando o trabalho invade tudo, quando a pessoa deixa de conseguir separar vida profissional de vida pessoal, começa um processo lento de destruição psicológica que depois aparece disfarçado em palavras modernas como "burnout", ansiedade crónica ou fadiga emocional. Antigamente chamava-se simplesmente: esgotamento.

Outro aspecto profundamente perigoso deste pacote é a facilitação da precariedade. Contratos mais frágeis, períodos experimentais mais longos, despedimentos indirectamente simplificados e mecanismos que tornam mais fácil substituir trabalhadores permanentes por vínculos temporários criam uma sociedade assente no medo. E o medo é uma das ferramentas mais eficazes de controlo laboral.

Um trabalhador precário raramente reclama.
Aceita mais abusos, faz mais horas, tolera humilhações, evita conflitos e cala injustiças porque sabe que pode ser substituído rapidamente. Quando alguém vive com receio constante de perder o emprego, deixa de negociar condições, passa apenas a tentar sobreviver. É precisamente isso que interessa a muitos sectores patronais: mão-de-obra cansada, insegura e facilmente descartável.

Fala-se muito da necessidade de aumentar a produtividade, mas raramente se diz uma verdade simples: nenhum país constrói prosperidade sustentável à custa de salários baixos e insegurança permanente. Portugal é talvez o melhor exemplo disso. Tivemos décadas de “flexibilidade laboral”, salários comprimidos e precariedade massiva. O resultado não foi uma economia altamente desenvolvida. Foi uma geração inteira obrigada a emigrar, trabalhadores qualificados a ganhar perto do salário mínimo e milhares de pessoas empregadas em full-time que continuam pobres.

Depois existe uma questão central que quase nunca é explicada devidamente à população: o enfraquecimento da contratação colectiva e dos sindicatos. Quando se atacam mecanismos colectivos de negociação, o trabalhador fica isolado perante a empresa. E essa relação nunca é equilibrada. Nunca foi.

Uma empresa possui departamentos jurídicos, recursos financeiros, poder hierárquico e capacidade para pressionar. O trabalhador tem contas para pagar ao fim do mês. É por isso que os direitos laborais nasceram da luta colectiva e não da generosidade patronal. O descanso semanal, as férias pagas, o limite de horas de trabalho, a licença de maternidade, os subsídios e as indemnizações não apareceram porque os patrões decidiram ser bondosos. Foram conquistados com greves, repressão, despedimentos e décadas de conflito social.

Sempre que um governo tenta enfraquecer essa capacidade colectiva de resistência, está objectivamente a transferir poder para o lado empresarial. E quando o equilíbrio desaparece, os abusos aumentam inevitavelmente. Não por maldade individual deste ou daquele patrão, mas porque o próprio sistema funciona assim.

Se houver possibilidade de reduzir despesa à custa do trabalhador, grande parte das empresas acabará por fazê-lo para sobreviver à concorrência.

Há ainda outro problema profundamente grave que raramente entra no debate: a destruição lenta da própria ideia de estabilidade de vida. Durante décadas, trabalhar significava, pelo menos teoricamente, conseguir construir alguma segurança. Ter uma casa, formar família, fazer planos a médio prazo, acreditar minimamente no futuro. Hoje, cada vez mais trabalhadores vivem numa espécie de suspensão permanente. Não sabem quanto tempo ficarão empregados, não conseguem prever rendimentos, não conseguem planear a vida e vivem constantemente entre recibos, contratos curtos, avaliações de desempenho e medo de cortes.

Uma sociedade assim torna-se inevitavelmente mais ansiosa, mais individualista e mais frágil.
As pessoas deixam de participar civicamente, deixam de ter energia psicológica para contestar injustiças e acabam reduzidas a uma rotina de sobrevivência. Trabalham mais horas, vivem pior e sentem-se permanentemente culpadas por não conseguirem acompanhar tudo.

O mais perverso é que tudo isto é apresentado como inevitável, como se fosse uma lei da natureza. Dizem-nos que “o mercado exige”, que “a economia obriga”, que “a competitividade internacional impõe sacrifícios”. Mas não há nada de inevitável aqui. São escolhas políticas muito concretas. Escolhe-se proteger lucros ou proteger trabalhadores. Escolhe-se distribuir riqueza ou concentrá-la. Escolhe-se tratar o trabalho humano como parte digna da vida colectiva ou como mero instrumento de rentabilidade.

E aquilo que este tipo de pacote revela, no fundo, é uma visão muito clara da sociedade, uma visão onde quem trabalha deve estar permanentemente disponível, agradecido por ter emprego e disposto a sacrificar descanso, estabilidade e saúde mental em nome de uma produtividade que quase nunca beneficia verdadeiramente quem produz a riqueza.

É precisamente por isso que a Greve Geral de 3 de Junho é tão importante!
Porque chega um momento em que continuar calado deixa de ser prudência e passa a ser rendição. Quem hoje acha que isto não afectará directamente a sua vida acabará mais cedo ou mais tarde por sentir na pele horários mais desumanos, maior insegurança, mais pressão e menos qualidade de vida. Os direitos laborais nunca foram oferecidos, foram conquistados, e cada vez que os trabalhadores desistem de os defender, o poder económico avança mais um passo sobre aquilo que resta da sua dignidade.

No dia 3 de Junho, estar presente não é apenas um acto político. É um acto de defesa própria!

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jason Hickel: “Os ricos estão a conduzir-nos para a destruição e não se importam”


Learn more about Jason Hickel and his work.
Check out Global Inequality to view Jason’s recent project (created in collaboration with a team of fellow researchers) which visualizes data and research on global inequality.

O Colapso Anunciado e a Ilusão do Crescimento
Na sua intervenção, Jason Hickel apresenta uma crítica mordaz à estrutura do capitalismo contemporâneo. O argumento central é que vivemos num sistema que exige o crescimento infinito do PIB para manter a estabilidade social e financeira. No entanto, Hickel recorda que vivemos num planeta com limites biofísicos finitos. Para o antropólogo, a ideia de que podemos continuar a crescer economicamente enquanto "desligamos" esse crescimento do impacto ambiental — o chamado "Crescimento Verde" — não passa de uma fantasia perigosa.

A Responsabilidade da Classe Alta
O título da entrevista, que refere que "os ricos não se importam", prende-se com a análise da pegada ecológica das elites. Hickel argumenta que a classe ultra-rica e as grandes corporações são os principais motores da destruição, não apenas pelo seu consumo ostensivo (como jatos privados), mas sobretudo pelo controlo que exercem sobre os investimentos e a política. Ele defende que este grupo continua a investir na expansão de combustíveis fósseis e na extração de recursos porque o lucro imediato sobrepõe-se à sobrevivência civilizacional a longo prazo.

O Decrescimento como Solução
A alternativa proposta por Hickel é o Decrescimento. Ao contrário do senso comum, ele esclarece que o decrescimento não é uma recessão (que é um colapso caótico de uma economia dependente de crescimento). O decrescimento é uma redução planeada do uso de energia e de recursos no Norte Global, com o objetivo de alinhar a economia com os limites do planeta e, simultaneamente, melhorar a vida das pessoas.

As medidas sugeridas passam por:
1. Abolir indústrias inúteis: reduzir setores que não contribuem para o bem-estar humano, como o marketing agressivo, o armamento ou a obsolescência programada.

2.Redistribuição radical: Tributar as grandes fortunas para financiar serviços públicos universais (saúde, educação, transportes).

3.Garantia de Emprego: assegurar que a transição para uma economia menor não gera desemprego, mas sim uma redução da carga horária de trabalho, permitindo mais tempo livre e partilha de tarefas.

A Urgência Política
Hickel conclui que a tecnologia, por si só, não nos salvará. Embora as energias renováveis sejam fundamentais, elas não conseguem substituir a escala atual de consumo material do Norte Global. A solução é, portanto, política e de classe: é necessário retirar o poder de decisão das mãos de uma elite que beneficia com a destruição e democratizar a economia para garantir a sobrevivência da biosfera.
Fonte

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A indústria europeia pretende colocar os europeus a financiar a baixa de preços dos medicamentos nos EUA


O presidente da divisão farmacêutica da Bayer avisa que os europeus terão de pagar preços mais elevados pelos medicamentos, sob pena de o continente deixar de ser um mercado atrativo para novos remédios.

“O governo americano deixou claro que não vê porque é que os EUA devem financiar sozinhos a investigação global em investigação e desenvolvimento (R&D)”, afirmou Stefan Oelrich, que também é membro da administração da multinacional, ao jornal Financial Times.

O argumento é que os medicamentos mais caros vendidos aos utentes nos EUA permitem financiar a investigação necessária à descoberta de novos fármacos, com os europeus a serem os grandes beneficiados. Mas a empresa alemã não é a única a avisar que este modelo tem de mudar: as declarações de Oelrich juntam-se a um coro de alertas recentes no mesmo sentido, por parte de empresas como a Pfizer e a Novartis.

O problema não está só na União Europeia. Segundo o Financial Times, a farmacêutica Eli Lilly também já avisou que os seus investimentos no Reino Unido estão dependentes de o NHS — o serviço nacional de saúde britânico — aumentar o preço que paga pelos medicamentos. Um apelo que surge num momento de especial aperto financeiro dos principais sistemas de saúde europeus.

A divisão farmacêutica da Bayer, segundo o FT, equivale a 40% das receitas do grupo. Mas tem várias patentes em vias de expirar e tem planos para expandir o negócio no mercado norte-americano, que espera vir a ser o seu principal. Ao jornal financeiro, o responsável garantiu, contudo, que tem um pipeline robusto de novos produtos farmacêuticos que deverão suportar as receitas mais perto do final desta década.

Lavagem verde
"Em Portugal, a Responsabilidade Social Bayer rege-se por cinco grandes linhas orientadoras: ações com a Comunidade, promoção da Educação e Ciência, e Proteção do Ambiente, promoção de Estilo de Vida Saudável." [Fonte]

quinta-feira, 26 de março de 2026

Porque é que os ricos estão a investir tanta riqueza na política?

O 1% dos americanos mais rico controla atualmente 55,8 triliões de dólares em ativos. Isto é mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos e da China juntos.

Na semana passada, testemunhei numa audição no Congresso organizada pelo senador de Rhode Island, Sheldon Whitehouse, e pelo senador do Novo México, Martin Heinrich, sobre o que as grandes empresas petrolíferas ganharam com a sua enorme contribuição para a campanha de Trump em 2024 — e quanto os americanos estão a pagar por esse suborno em custos mais elevados de combustível e alterações climáticas destrutivas.


Mas este não é o único esquema de corrupção em Washington. A corrupção política está a crescer drasticamente — em parte porque Trump é o presidente mais corrupto da história norte-americana. Mas também porque os ricos da América e as suas empresas têm investido cada vez mais dinheiro na política, uma vez que o retorno desse “investimento” se tornou enorme.

Tenho boas notícias para partilhar convosco sobre tudo isto. Mas antes quero esboçar o problema central, 1-2-3. Depois, sugerirei uma solução, 4.

1. Os 0,1% mais ricos tornaram-se fabulosamente ricos.
Observe o gráfico acima, que mostra os 0,1% dos americanos mais ricos — famílias com património líquido superior a 45 milhões de dólares em 2025 — a distanciarem-se rapidamente do resto da população.

Como se pode ver, de 1990 a aproximadamente 2003, a riqueza da maioria dos americanos cresceu a um ritmo semelhante. A disparidade começou a aumentar por volta de 2003, quando Wall Street entrou numa onda de especulação, criando uma bolha financeira. Quando a bolha rebentou em 2008, os 0,1% mais ricos sofreram um grande impacto.

Mas desde 2008, a riqueza dos 0,1% mais ricos arrancou verdadeiramente. E depois de 2018, explodiu — principalmente devido aos efeitos combinados do corte de impostos de Trump em 2017, da recessão da COVID-19 (quando os ultrarricos usaram as baixas taxas de juro para comprar imóveis e ações) e da subsequente subida do mercado bolsista.

De acordo com a Fed, quase 72% da riqueza dos 0,1% mais ricos é composta por ações de empresas, quotas de fundos mútuos e negócios privados. O índice S&P 500 mais do que triplicou na última década.

2.º Estão a investir cada vez mais dessa riqueza na política.
O jornal The New York Times analisou recentemente dados sobre o financiamento de campanhas para verificar como os doadores ricos têm influenciado a política.

A análise mostra que, nas eleições federais de 2024, apenas 300 multimilionários e os seus familiares diretos contribuíram com mais de 3 mil milhões de dólares para o financiamento de campanhas — direta ou indiretamente, através de comités de ação política. Mais de 2 mil milhões de dólares deste montante foram destinados a candidatos republicanos, incluindo Trump.

Isto representou 19% — quase um quinto — de todas as contribuições políticas.

As famílias bilionárias doaram, em média, um total de 10 milhões de dólares cada, o que equivale aproximadamente ao valor doado por 100 mil doadores políticos típicos, em conjunto.

E isto não inclui as chamadas contribuições de "dinheiro obscuro" canalizadas através de organizações sem fins lucrativos que não são obrigadas a divulgar a sua origem.

3.º Por que razão estão a investir tanto em política?
Parte da razão para a explosão das contribuições políticas dos super-ricos é a decisão do Supremo Tribunal de 2010 no caso Citizens United contra a Comissão Eleitoral Federal, que pôs fim a muitas das restantes restrições ao financiamento de campanhas.

Antes desta decisão, a fatia das despesas dos multimilionários era quase nula — 0,3%.

Mas uma razão ainda maior é a explosão de riqueza no topo da pirâmide social. Isto não só deu aos super-ricos os meios para fazerem contribuições políticas, como também lhes deu um grande incentivo para as fazerem.

Querem impostos mais baixos, menos regulamentos para os seus negócios e leis e regras mais "favoráveis ​​aos negócios".

Por outras palavras, querem ficar com uma maior fatia da sua gigantesca riqueza.

Se for extremamente rico, a democracia pode parecer uma ameaça à sua riqueza. Quanto mais riqueza se acumula, mais assustadora pode parecer a democracia. Isto porque representa uma minoria ínfima. A maioria da população poderia votar a favor de medidas que reduziriam parte da sua riqueza — impostos sobre o rendimento mais elevados, imposto sobre as grandes fortunas, regulamentos que reduzem os poluentes que pode lançar para o ar ou para a água, iniciativas para desmantelar os seus monopólios ou permitir que os seus trabalhadores se sindicalizem e exijam salários mais elevados.

O bilionário Peter Thiel escreveu um dia que "já não acredita que a liberdade e a democracia sejam compatíveis".

Presumivelmente, Thiel define "liberdade" como a capacidade de acumular enormes quantidades de riqueza sem ser impedido por quaisquer responsabilidades para com o resto da sociedade.

Mas existe uma ideia muito diferente de liberdade e democracia, melhor articulada pelo famoso jurista Louis Brandeis, que terá dito: “A América tem uma escolha. Podemos ter uma grande riqueza nas mãos de poucos, ou podemos ter uma democracia. Mas não podemos ter ambas”.

Para Brandeis, a democracia era a fonte da liberdade, e não uma restrição a esta.

À medida que a visão de Thiel ganha mais adeptos entre aqueles que possuem uma grande riqueza — que estão rapidamente a acumular ainda mais e a corromper cada vez mais a política americana — Thiel está, inadvertidamente, a provar o argumento de Brandeis.

4.º Como podemos reverter isto?
Parte da solução é tirar o dinheiro das grandes corporações da política. Já sugeri como isso pode ser feito sem tentar as tarefas quase impossíveis de fazer com que o Supremo Tribunal reverta a sua decisão no caso Citizens United ou aprove uma emenda constitucional. Veja aqui .

A outra parte da resposta é aumentar os impostos sobre os super-ricos — o sonho de Louis Brandeis e o pesadelo de Peter Thiel.

A boa notícia é que — apesar do crescente poder político dos ricos — isso começa a acontecer. Ainda não é um incêndio descontrolado, mas pode vir a ser em breve.

O estado de Washington acaba de aprovar um imposto sobre o rendimento de 9,9% para os residentes que ganhem mais de um milhão de dólares por ano. O estado estima que isto afectará cerca de 20.000 famílias (menos de meio por cento da população do estado). O estado de Washington planeia utilizar as receitas fiscais, estimadas entre 3 mil milhões e 4 mil milhões de dólares por ano, para pagar as refeições escolares às crianças, expandir um crédito fiscal familiar para incluir outras 460 mil famílias de baixos rendimentos e financiar outros serviços essenciais que o orçamento estadual não consegue suportar de outra forma.

A Assembleia Legislativa do estado de Nova Iorque acaba de apresentar uma proposta de aumento de 0,5% no imposto sobre o rendimento dos nova-iorquinos que ganhem mais de 5 milhões de dólares por ano.

Em 2022, os eleitores do Massachusetts aprovaram uma sobretaxa de 4% sobre o rendimento tributável anual que exceda 1 milhão de dólares. Desde que o imposto entrou em vigor em 2023, o estado arrecadou quase 6 mil milhões de dólares em receitas fiscais adicionais — e o número de milionários no estado aumentou, em vez de diminuir.

Nova Jersey detém um imposto sobre o património desde 2020. O Minnesota implementou um imposto sobre os rendimentos de investimentos acima de 1 milhão de dólares em 2024.

A Califórnia está prestes a incluir no boletim de voto estadual de novembro um imposto único de 5% sobre a riqueza dos multimilionários do estado.

São Francisco e Los Angeles estão a planear iniciativas de votação municipal para aumentar os impostos sobre as empresas cujos CEO ganham 100 vezes (na versão de São Francisco) ou 50 vezes (na versão de Los Angeles) o salário médio dos seus funcionários.

No Congresso, o deputado californiano Ro Khanna e o senador do Vermont Bernie Sanders apresentaram um projecto de lei para tributar a riqueza dos multimilionários americanos.

Retirar a influência do dinheiro na política e aumentar os impostos sobre os super-ricos são medidas possíveis — não fáceis, mas possíveis. São também necessárias para inverter a crescente corrupção que está a minar o nosso sistema de capitalismo democrático.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Rosetta Stone - Tomorrow For Us


You're so much better than them
Congratulations on that
Simplify, generalize and condemn them

[Verso 1]
Do you think this was a choice for me?
That I threw my life away for a chance to live in poverty
A sequence of events on repeat for infinity
A costly price you intervene to set us free

[Refrão]
There's no tomorrow for us
No tunnel of light for us to see
No opportunities for us
No aspirations or dreams
Our communities are fucked
Evolved to shit where we eat
No one'll want to nurturе us
One line the privilеged leads

Enjoy your life through random view
No need to wage success
You were born with the best
Of everything

[Verso 1]

[Refrão] 3X

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Youtube

O single “Tomorrow For Us” foi lançado em 2019 e associado ao álbum Seems Like Forever.

A música 'Tomorrow For Us' da banda Rosetta Stone é uma poderosa crítica social que aborda temas de desigualdade, desesperança e a falta de oportunidades. A letra expressa um sentimento de frustração e resignação diante de uma realidade imutável e opressiva. Desde o início, a canção destaca a superioridade percebida de alguns em relação a outros, com a linha 'You're so much better than them' (Você é muito melhor do que eles), sugerindo uma divisão clara entre diferentes classes sociais.

A repetição da pergunta 'Do you think this was a choice for me?' (Você acha que isso foi uma escolha para mim?) enfatiza a falta de controle que muitos têm sobre suas próprias vidas, sendo forçados a viver em condições de pobreza e sem perspectivas de melhoria. A letra também menciona uma 'sequência de eventos em repetição para a eternidade', sugerindo um ciclo vicioso de desvantagem e opressão que parece impossível de quebrar. A referência a um 'preço cósmico' que precisa ser pago para a libertação pode ser interpretada como uma crítica ao destino implacável que aprisiona os menos favorecidos.

A música também aborda a corrupção e a degradação da comunidade, com a linha 'Our community's corrupt, evolved to shit where we eat' (Nossa comunidade está corrompida, evoluiu para merda onde comemos). Isso sugere um ambiente tóxico onde a sobrevivência é difícil e a esperança é escassa. A repetição do refrão 'There's no tomorrow for us' (Não há amanhã para nós) reforça a ideia de que, para muitos, o futuro é sombrio e sem oportunidades. A canção é um grito de desespero e uma chamada à atenção para as injustiças sociais que continuam a afetar tantas vidas.

domingo, 1 de março de 2026

Maruja - Kakistocracy (live in Gârden)


Quando pensa que as bandas de post-punk e dark scene já não existem, pare. Há muitas bandas novas e entusiasmantes a surgir. Maruja, de Manchester, é uma delas. Mal posso esperar para os ver ao vivo no Porto, em Maio de 2026.
O nome "Maruja" foi inspirado numa placa que o vocalista viu durante umas férias em Espanha.
A palavra Kakistocracy foi cunhada já no século XVII e deriva de duas palavras gregas, kákistos (κάκιστος, 'pior') e krátos (κράτος, 'governo'), que juntas significam um sistema de governo onde os líderes são os piores, menos qualificados e/ou mais inescrupulosos cidadãos.

Invasão do Irão


Esta guerra desencadeada contra o Irão não é um desvio táctico nem uma reacção nervosa a uma ameaça iminente, é a manifestação crua de um projecto de poder que perdeu qualquer pudor moral e que actua com a convicção de que a força substitui o direito. O governo de Israel não age como um actor sitiado que responde no limite da sobrevivência, age como uma potência militar convencida de que pode redesenhar o mapa humano da região à custa de quem estiver no seu caminho. O governo dos Estados Unidos, por sua vez, não é um aliado constrangido, é o garante estrutural dessa audácia, o fiador armado de uma política que já mostrou, na Palestina, até onde está disposto a ir.
Em Gaza não houve uma tragédia inevitável, houve um método. Não houve apenas o confronto com o Hamas, houve uma devastação sistemática de um território densamente povoado onde se sabia, com precisão estatística, que morreriam milhares de mulheres e crianças que nada tinham a ver com decisões militares. Quando hospitais são bombardeados, quando bairros inteiros são apagados do mapa, quando a fome e a ausência de cuidados médicos se tornam instrumentos de pressão, não se está perante um erro operacional, está-se perante uma escolha, e essa escolha foi repetida até se tornar uma rotina.
Genocídio é a palavra exacta. Não como um grito emocional, mas como uma descrição política de um processo que destrói deliberadamente as condições de existência de um povo enquanto tal. A morte massiva de civis deixou de ser uma consequência indesejada para se tornar uma variável integrada no cálculo estratégico. 
A indignação internacional é gerida como um ruído de fundo, tolerável enquanto não comprometer as alianças nem os contratos militares.
A ofensiva contra o Irão amplia esta lógica. 
A ameaça futura é convertida numa licença para a destruição presente. Invoca-se o perigo nuclear para justificar ataques, que se sabe de antemão, não ficarão confinados a instalações militares. 
A mensagem é clara e brutal. Quem desafia a arquitectura de poder imposta por Israel e garantida pelos Estados Unidos torna-se um alvo legítimo, e as populações civis tornam-se simplesmente danos previsíveis.
Os Estados Unidos desempenham aqui o papel de motor geopolítico. Financiam, armam, vetam resoluções, moldam narrativas e apresentam como defesa da ordem internacional aquilo que é, na prática, a sua corrosão selectiva. A sua superioridade militar e diplomática funciona como um escudo de impunidade. Israel executa no terreno com a confiança de quem sabe que não será travado por sanções sérias nem por um isolamento efectivo.
Esta convergência transforma ambos numa força motriz de instabilidade que ameaça não apenas uma região, mas o próprio princípio de que a vida civil deve estar protegida em qualquer conflito. Quando dois Estados com tal poder normalizam a destruição de populações inteiras em nome da segurança, enviam ao mundo um sinal devastador: a lei é opcional para quem tem força suficiente para a ignorar.
Não se trata de uma retórica exaltada, trata-se de constatar que esta aliança tem agido como um catalisador de guerras sucessivas, ampliando conflitos e reduzindo o espaço para soluções políticas. Ao escolher reiteradamente a via militar, ao aceitar como custo assumido a morte de inocentes, ao expandir o teatro de operações para além da Palestina até ao Irão, assumem-se como agentes centrais de uma lógica que corrói a própria ideia de uma humanidade partilhada.
A História acabará por registar esta fase não como uma defesa heróica de valores, mas como um período em que duas potências decidiram que a sua segurança e a sua indisfarçável ganância justificava tudo. 
E quando tudo é justificável, nada fica de pé. 
Nem cidades, nem direitos, nem a confiança mínima que sustenta a coexistência entre povos.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Porque votas chega?

Não há nada de revolucionário em votar no Chega.
Há desespero, há raiva, há frustração acumulada. E isso é compreensível, o que não é compreensível é confundir raiva com lucidez.
Durante décadas, Portugal foi governado pelos mesmos blocos políticos. Muitos de vós votaram neles. Outros abstiveram-se. Outros desligaram.
Agora, de repente, apresentam-se como “os que sempre viram a verdade”, como se tivessem acabado de acordar para um país que sempre existiu.
Não acordaram para a verdade!

Acordaram para um discurso simplista que vos disse exactamente aquilo que queriam ouvir!
Há algo que convém não esquecer: uma parte significativa das figuras do Chega vem precisamente desses blocos políticos que dizem combater. Vieram do PSD, do CDS, do sistema que hoje acusam de todos os males.

Durante anos, enquanto lá estiveram, o país não lhes parecia assim tão intolerável. A indignação só apareceu quando perderam espaço, influência ou a possibilidade de subir na hierarquia.

Para alguns, a ruptura não foi moral nem política. Foi uma derrota interna. E a conversão súbita em “anti-sistema” raramente é sinal de virtude tardia. É, muitas vezes, apenas ressentimento reciclado.
É confortável acreditar que existe um culpado único para tudo. É confortável apontar o dedo a “eles”: os imigrantes, os pobres, os dependentes de subsídios, os professores, os jornalistas, os “esquerdistas”, seja lá o que isso signifique esta semana.

É muito mais difícil aceitar que os problemas de um país são estruturais, antigos, complexos, e que não se resolvem com slogans nem com gritos.

Pergunta simples: sabem definir, sem caricaturas, o que é direita e esquerda em política? Sabem distinguir liberalismo económico de conservadorismo moral?

Sabem explicar por que razão o mesmo líder um dia é carne e noutro é peixe? Num dia é liberal e noutro "Esquerdalha"? Num dia é um malfeitor e noutro "respeitador da lei"? Num dia é um racista psicopata e noutro anda a rezar à virgem santíssima?

Não é coerência. É oportunismo.
Não é coragem. É teatro.
O discurso muda conforme a oportunidade. Num dia é lei e ordem, no outro é vitimização. Num dia é liberal selvagem, no outro é sindicalista.

Não há visão de país. Há apenas estímulos emocionais dirigidos a quem está cansado demais para pensar. E pensar dá trabalho.

Pensar obriga a admitir que a corrupção não nasce apenas nos partidos. Nasce na pequena fraude aceite, no jeitinho, na cunha, no “não faz mal”, no “todos fazem”.

Nasce na falta de cultura cívica, na ausência de leitura, na recusa do contraditório, no desprezo pelo conhecimento.

Não é um problema de ideologia. É um problema de carácter colectivo!

Dizem que “andaram a roubar-nos”. Onde estavam vocês enquanto isso acontecia? A participar? A fiscalizar? A informar-se? Ou simplesmente a viver, desligados, até alguém vos apontar um bode expiatório conveniente?

A raiva pode ser compreensível. Mas não é um projecto político. Nunca foi. E quando a raiva governa, não cai sobre os poderosos. Cai sempre sobre os mais fracos. Sobre quem tem menos voz, menos recursos, menos defesa.

Falam muito de crianças e de futuro. Então pensem nisto: que exemplo é ensinar um filho a resolver problemas com ódio, com humilhação, com desprezo pelo outro?

Que futuro se constrói quando se troca pensamento crítico por frases feitas?

Quando foi a última vez que leram um livro? Um qualquer. Quando foi a última vez que ficaram meia hora em silêncio, sem televisão, sem tablet, sem telemóvel, apenas a pensar? Não a reagir. A pensar.
Talvez descubram algo desconfortável: que muitas das palavras que repetem não são vossas. Que a indignação foi cultivada. Que a realidade é mais complexa do que vos disseram. E que ninguém vos está a salvar.

Esse momento dói. Mas liberta.

Porque perceber que o mundo não se conserta esmagando outros é o primeiro passo para deixar de ser manipulado.

Porque perceber que a democracia exige mais do que raiva é o primeiro passo para a levar a sério.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Death in Rome - Christmas song



Christmas Song

in this darkest hour
a light shining still
in this quiet night
there’s still time to kill

the storm moves on
from darkened skies
but bide your time
soon we will rise

and the angels on the gallery
sing about the king
born behind
a discount store
by broken rubbish bins

oh divine amnesia
oh divine forgiveness
oh divine indifference
let them seize you

when the clouds have lifted
a stream from the past
will soothe your mind
and you’ll find peace at last

surrounded by fools
was no place to be
but now we’ve moved on
to a sublime destiny

we’re fighting demons
a struggle everyday
the poison has a grip
it steals our days away

But Saint Joseph, Saint Robert
Saint Nicolas, Saint Rita
Saint Benoit
Are by our side

and glory
to the highest
in the highest
heights

Even if I don’t feel him

and peace
to all
decent people

and truth
only to those
who deserve it

A “Christmas Song” dos Death in Rome pega numa canção de Natal clássica, associada a conforto, família e calor emocional, e transforma-a através da sua interpretação musical. A letra permanece praticamente intacta, mas o arranjo minimalista, frio e melancólico cria um contraste forte com o imaginário tradicional do Natal. É uma crítica subtil ao Natal comercial e automático Em vez de transmitir aconchego e alegria, a música soa distante e desencantada, fazendo com que aquelas imagens de lareira, crianças e votos de felicidade pareçam memórias gastas ou rituais repetidos sem convicção. O resultado é uma leitura irónica e nostálgica, onde o Natal surge menos como um momento de união genuína e mais como uma tradição automática, envolta em solidão e vazio emocional. Assim, a canção não rejeita o Natal em si, mas expõe a fragilidade do seu simbolismo quando separado da experiência humana real, mostrando como a música pode alterar profundamente o significado de uma letra aparentemente inocente.

sábado, 13 de dezembro de 2025

A fuga de talento jovem continua, apesar da narrativa ‘cor-de-rosa’


A ideia de que Portugal deixou para trás o problema da emigração jovem e da fuga líquida de talento não resiste a uma análise séria dos dados completos.

Esta crónica procuro desmontar uma narrativa recente — e agora convenientemente repescada — que retrata a economia portuguesa como estando numa trajetória excecionalmente favorável. Trata-se de uma leitura profundamente deslocada da realidade e enviesada, assente em dados incompletos e interpretações apressadas. Entre os seus argumentos mais repetidos está a ideia de que Portugal estaria finalmente a inverter o seu padrão de especialização, alegadamente sustentado por fluxos migratórios positivos e pelo regresso de jovens emigrantes altamente qualificados. Se tal fosse verdade, significaria que o país teria ultrapassado o problema estrutural da emigração jovem e da contínua fuga de talento.

Nada poderia estar mais distante dos factos. O saldo migratório positivo recentemente observado é essencialmente temporário e artificial, resultando de fatores extraordinários e não de uma mudança estrutural do modelo económico. A fuga de talento não só persiste como continua a refletir o baixo perfil de especialização da economia portuguesa, incapaz de oferecer, de forma consistente, oportunidades qualificadas e bem remuneradas. As leituras otimistas que sugerem o contrário assentam em dados incompletos e em análises que ignoram dimensões essenciais do fenómeno migratório.


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Infelizmente, este retrato “cor-de-rosa” está muito longe de corresponder à realidade. Como mostrarei de seguida, a evidência aponta no sentido inverso, revelando um quadro que contraria de forma quase absoluta essa visão simplista e auto-complacente. E a verdade é dura, mas incontornável: Sem reformas profundas que elevem o perfil de especialização da economia e criem oportunidades qualificadas em todo o território, Portugal continuará a perder jovens e qualificados, prolongando a sangria demográfica e comprometendo o seu potencial de desenvolvimento.

Saldo migratório dos ‘naturais’ positivo apenas conjuntural, já diminuto e dependente de apoios
Decompor o saldo migratório total — entradas menos saídas — entre o contributo dos estrangeiros e o dos nacionais, que inclui tanto os nascidos em Portugal como os que adquiriram a nacionalidade pelos mecanismos previstos na lei, com destaque para a naturalização, não é tarefa simples. Mais difícil ainda é isolar, dentro desse conjunto, o saldo migratório daqueles que efetivamente nasceram em Portugal, a que me refiro ao longo desta crónica como “naturais”.

Os principais resultados da análise encontram-se representados nas Figuras 1 e 2. Os valores dos saldos migratórios — não incluídos nas Figuras — podem ser consultados na parte C da Tabela 1 (que passarei a designar Tabela 1C), construída a partir dos dados de imigrantes (Tabela 1A) e de emigrantes (Tabela 1B). A Tabela 1 apresenta ainda (nas suas três partes), na última linha antes dos dados, o detalhe dos cálculos efetuados, e é acompanhada de notas explicativas, incluindo sobre as assunções relevantes utilizadas.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Netflix, Warner e o velório das salas de cinema - O dia em que Hollywood encolheu


A compra da Warner pela Netflix promete reescrever as regras da indústria. Entre festivais a tremer, espectadores afundados no sofá e salas em risco de extinção, a pergunta é simples: estamos a assistir ao futuro do cinema ou ao seu funeral?

Há muito que sabemos que Hollywood está sobre uma falha sísmica. Porém, a notícia caiu como um meteorito nas redacções nos media, nos grupos de WhatsApp cinéfilos e nas redes sociais, já com as salas de cinema meio vazias, durante a maior parte dos dias da semana, de Portugal: a Netflix decidiu comprar a Warner Bros., a HBO, a HBO Max e tudo o que vier no pacote, incluindo um século de história que agora muda de mãos como quem troca cromos raros. Fala-se ainda em aprovação ou não dos reguladores, em anos de transição, em burocracias, que dará o negócio por concluído em meados de 2026. Mas a verdade é que o estrondo já aconteceu. Hollywood encolheu. E nós encolhemos com ela, enfiados no sofá, a pensar se ainda faz sentido sair de casa para ver um filme que daqui a 17 dias no “padrão Netflix”, já estará no streaming. Este negócio não é apenas mais um capítulo das “guerras do streaming”; é o capítulo em que a espada entra mesmo na carne. Porque se a Disney engoliu a Fox e a Amazon devorou a MGM, agora é a vez da Netflix devorar a Warner, o estúdio que inventou grande parte do mundo que Hollywood hoje tenta desesperadamente salvar. E se alguém acredita que isto não vai mexer com a exibição em sala, sugiro que desligue o Netflix por cinco minutos e respire ar puro.

O Império do Sofá e o Fim da Janela Sagrada
Convém lembrar que a Netflix nunca quis ser Hollywood; quis foi substituí-la. Começou a entregar DVDs pelo correio, como quem distribui pão quente e, em 2013, com "House of Cards", destruiu o hábito televisivo de décadas. Não por amor à arte, mas por amor ao algoritmo. E agora o algoritmo tem nas mãos "Casablanca", "Harry Potter", "Dune", "Game of Thrones", "Batman" e "Superman". Quando se diz que conteúdo é petróleo, este catálogo é uma refinaria privada e de luxo. O discurso oficial de Ted Sarandos, o CEO da Netflix, tenta acalmar os nervos: “continuaremos a lançar filmes em sala”. Pois claro, Ted. Mas por quanto tempo? Uma semana? Dez dias? O suficiente para cumprir os requisitos dos Óscares e regressar o mais depressa possível ao santo graal da Netflix: o sofá do espectador. O cinema, tal como o conhecemos, sobreviveu graças à (grande) janela de exibição: os grandes ecrãs e as salas de cinema. Agora essa janela está a ser serrada com um sorriso corporativo.

A Extinção Lenta do Cinema de Rua
Do ponto de vista empresarial, a fusão é um sonho: menos custos, menos redundâncias, mais lucro e também menos despesas para os consumidores. Do ponto de vista cultural, é o início do velório. Quando o maior serviço de streaming do mundo passa a controlar um dos maiores estúdios de cinema, o resultado é inevitável: menos risco artístico, mais filmes médios, menos diversidade, menos salas. O cinema de rua, esse vestígio romântico onde ainda acreditamos que o grande ecrã é insubstituível, pode transformar-se num nicho tão elitista quanto a ópera. Se é que ainda existem muitos? As associações de exibidores já gritam que é “uma ameaça sem precedentes”. E têm razão. Se as salas tinham dificuldade em competir com as televisões 4K, imaginem agora competir com uma gigante que decide exactamente quando, onde e como um filme existe.

Os Festivais Entre a Asma e a Agonia
Os Festivais de Cannes, Veneza e Berlim podem fingir que continuam a mandar nas sua selecções oficiais, mas sabem bem que o poder mudou de endereço. Se a Netflix controla a Warner, controla as grandes estreias e as respectivas Selecções Oficiais. Se controla as estreias, controla a agenda dos festivais. E, sejamos sinceros, a Netflix nunca teve grande afecto por janelas de exibição, muito menos pela rigidez francesa do Festival de Cannes e dos players que o apoiam. Imagine-se "Dune 3" a estrear em Cannes com 10 dias de janela. Ou "Batman" a passar em competição sabendo que aterra em streaming uma semana depois. O cinema de autor, já frágil, arrisca-se também a tornar-se irrelevante perante um algoritmo que mede emoção com gráficos e estatísticas de gostos e visualizações.

O Espectador Preguiçoso, Somos Todos Nós
A grande verdade é incómoda: o culpado não é só o streaming. Somos nós. Somos nós que preferimos ver um épico de 200 milhões de dólares enfiados na manta, em casa com o telemóvel na mão à espera de notificações. Somos nós que deixámos de ir ao cinema porque o bilhete custa o mesmo que um almoço e as pipocas fazem tremer a economia doméstica. Somos nós que aceitámos substituir a experiência colectiva por uma caixa luminosa apoiada no móvel da sala. A Netflix percebeu isso antes de todos. E ganhou o jogo.

O Cinema Não Morre, Mas as Salas, Sim.
Podemos obviamente manter esperança. Podemos acreditar que o cinema continuará vivo enquanto houver criadores, histórias e público. Mas as salas? As salas estão a descer a encosta com a mesma velocidade que os DVDs desapareceram. Se ninguém travar esta fusão, ou mesmo que travem, já está tudo a mexer-se. O cinema transforma-se. As salas é que não vão sobreviver todas à viagem. E, quando derem por ela, a humanidade estará onde sempre esteve nos últimos dez anos: no sofá, a carregar no “Próximo episódio”, “Escolhemos Para Ti” ou "Os Melhores do Fim de Semana".

Saber mais:
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Compra da Warner Bros. pela Netflix | Qual o significado para o Cinema?
Hollywood | As reações à compra da Warner Brothers pela Netflix