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domingo, 27 de setembro de 2026

Bonjr - if it's real, then i'll stay

If it’s real, then I’ll stay, da autoria do produtor bonjr (nome artístico do músico angolano Daniel Almeida), insere-se na interseção de géneros como o Wave, o Ambient Chill e o Downtempo. A sonoridade da faixa distingue-se pelas suas texturas imersivas, pads profundos, graves ressonantes e por um vocal grave e sussurrado que transmite uma sensação imediata de vulnerabilidade. Curiosamente, essa linha vocal foi gravada pelo próprio artista de forma caseira e improvisada apenas como uma guia temporária, mas a sua textura crua e intimista acabou por definir a identidade estética e emocional da canção. 

A beleza do tema reside na forma como evoca a melancolia e a introspeção através do minimalismo, onde o próprio título encerra em si um dilema existencial profundamente marcado pela modernidade líquida de Zygmunt Bauman, em que a volatilidade das ligações humanas gera um medo constante da desilusão. A condicional que dá nome à música («se for real, então eu fico») funciona como um mecanismo de defesa emocional: o indivíduo recusa-se a investir a sua presença, a sua energia e o seu afeto num espaço ou numa relação que se possa revelar uma mera ilusão ou um encontro efémero. 

Filosoficamente, esta premissa remete para a hesitação ontológica diante do que é ilusório, dialogando com a dúvida metódica de René Descartes e com os simulacros de Jean Baudrillard, ao mesmo tempo que retrata o momento anterior ao "salto de fé" de Søren Kierkegaard - o instante em que o sujeito hesita perante o risco do vazio. Literariamente, esta atmosfera aproxima-se do conceito de liminalidade, colocando o ouvinte num espaço intermédio e suspenso entre a partida e a permanência, onde é convidado a contemplar a autenticidade da sua própria realidade.


Página Oficial
Bonjr Music
Youtube

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Bohumil Hrabal - Uma Solidão Demasiado Ruidosa

Reler "Uma Solidão Demasiado Ruidosa", originalmente publicada em 1976 e reeditada com uma excelente tradução de Ludmila Dismanová, é recordar que trabalhar numa cave a prensar livros ensina uma lição rápida: o papel tem peso, cheiro e poeira, poesia, absurdo, tragédia, comédia, esforço intelectual. Esta obra não é uma história limpinha, estruturada com princípio, meio e fim para entreter a cabeça numa viagem de comboio. É o monólogo sufocante, poético e ligeiramente alcoólico de Haňta, um homem que passa trinta e cinco anos metido num buraco em Praga a desmarcar papel velho, refugos de tipografias e bibliotecas inteiras proibidas pelo regime. O interior do livro é um turbilhão onde a máquina não para, o barulho é infernal e a cerveja ajuda a suportar a sujidade e o mofo. Só que, ao longo de três décadas a destruir cultura, Haňta faz o oposto: bebe as palavras. Salva edições raras do monte de lixo, lê frases soltas de Kant, Spinoza, Hegel ou Lao-Tsé no meio de papéis ensanguentados do talho e guarda-as na cabeça, transformando a sua mente num arquivo vivo de tudo o que o poder quis apagar.
Esta narrativa é profundamente autobiográfica e reflete de forma direta o percurso e a filosofia do próprio Bohumil Hrabal. Doutorado em Direito pela Universidade Carolina de Praga, o autor foi impedido de exercer a profissão pela Segunda Guerra Mundial e pela subsequente ascensão do regime comunista. Remetido para a margem como intelectual indesejado, trabalhou como ferroviário, operário siderúrgico e, entre 1954 e 1958, como empacotador de papel na rua Spálená. Da sua rotina diária extraiu as descrições mecânicas da prensa e o ambiente da cave onde assistiu ao abate massivo de livros confiscados. Assim como a sua personagem, Hrabal tornou-se um "sábio involuntário", resgatando do lixo e devorando a grande literatura e filosofia ocidental.
A própria trajetória do livro espelha o contexto político em que o autor viveu. Após o fim da Primavera de Praga em 1968, Hrabal foi banido das edições oficiais, pelo que a obra teve de circular clandestinamente em edições samizdat - cópias dactilografadas em segredo - antes de ver a luz do dia no estrangeiro e, mais tarde, na Checoslováquia. O consumo de cerveja por parte de Haňta reflete também a vivência do escritor nas cervejarias de Praga, como a famosa U Zlatého tygra, onde aperfeiçoou o estilo pábení: uma narrativa fluida e sem pausas que cruza a filosofia erudita com a conversa banal de botequim. Reescrevendo o texto três vezes até atingir o tom lírico definitivo, Hrabal considerava este romance o cume da sua criação e o seu testamento vital, tendo chegado a confessar que tinha vindo ao mundo apenas para o escrever.

Porque é importante ler este romance?
Uma inteligência artificial pode cruzar milhões de dados para pintar um quadro no estilo de Rembrandt ou compor uma sinfonia ao modo de Beethoven, ou elaborar um texto camiliano em segundos mas esse processo é uma simulação estatística, desprovida de biografia, sofrimento ou necessidade de expressão. A arte humana não nasce num vácuo de dados, mas sim do conflito do artista com a sua própria mortalidade, com o contexto histórico e com as suas contradições internas. Quando a sociedade passa a valorizar a arte apenas pela velocidade de produção ou pela sua capacidade de gerar estímulos visuais rápidos, o público arrisca-se a consumir um subproduto industrializado e esteticamente homogéneo. O verdadeiro valor da pintura, da música, da literatura ou do cinema reside no facto de serem canais de comunhão entre duas consciências: quem cria deposita ali a sua mundividência, e quem observa reconstrói esse sentido através da sua própria experiência de vida. Proteger a arte na era digital significa, por isso, resgatar o direito ao erro, à imperfeição e à intencionalidade, elementos que nenhuma prensa ou algoritmo consegue programar.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O debate sobre a IA vai além do desemprego. Segundo os especialistas, o perigo real está na perda da nossa capacidade de raciocínio sem o auxílio da ferramenta


Já se apercebeu de que a inteligência artificial generativa altera o seu raciocínio antes mesmo de alterar o seu trabalho? Esta é a grande mudança que escapa ao debate superficial sobre a perda de empregos. A IA generativa já encerrou a sua fase de curiosidade.

Segundo o Stanford AI Index de 2026, atingiu 53% de adoção populacional em apenas três anos - um ritmo mais rápido do que o do computador pessoal e da internet. Entrou definitivamente na nossa rotina mental. O ponto central, portanto, é bem mais profundo: a IA está a redefinir o próprio conceito de inteligência.

Kai-Fu Lee, um dos gurus da tecnologia, compreendeu esta viragem após enfrentar um cancro e deslocou a sua visão da eficiência corporativa para uma questão civilizacional: de que serve a produtividade se esta passa ao lado da educação e da desigualdade? Para ele, a IA deve ser um amplificador da capacidade humana.

Na medicina, por exemplo, modelos de apoio ao diagnóstico analisam padrões em exames com uma precisão absurda, mas o médico continua responsável pela decisão clínica. A máquina amplia a visão; o humano decide. Substituir o trabalho humano por cálculo é uma coisa. Aumentar a qualidade da decisão humana com cálculo é outra, bem mais interessante.

Mas há um ponto cego nesta facilidade. Pensadores como Yuval Harari e Nick Bostrom alertam para o risco de criarmos burocracias algorítmicas incompreensíveis ou superinteligências eficientes, porém moralmente desastrosas.

No entanto, o nó mais incómodo vem do Prémio Nobel Daron Acemoglu: ao delegarmos a mediação, o filtro e a síntese para sistemas globais, criamos lacunas na aprendizagem social.
A ameaça real não é cinematográfica, é cognitiva. Nós externalizamos o pensamento e, em breve, iremos estranhar a perda de reportório.
Como aponta a cientista de dados Cassie Kozyrkov, a IA democratizou a decisão sofisticada. Um profissional sem formação analítica agora testa hipóteses complexas. O problema começa quando a facilidade se transforma em confiança automática. Um modelo fluente esconde premissas frágeis. Quem usa IA sem método troca o raciocínio pelo acabamento. E o acabamento costuma enganar pessoas inteligentes.

Esta mudança já está a redesenhar o mercado. Dados recentes de uma consultora global que analisou mais de mil milhões de ofertas de emprego mostram um cenário com dois caminhos. As funções em que a IA profissionaliza o trabalho crescem duas vezes mais e pagam salários 42% mais altos.

Em contrapartida, os cargos de entrada exigem agora competências seniores - como liderança e criatividade - sete vezes mais do que antes. Eis a consequência menos óbvia: a IA encurtou a escada de aprendizagem. O principiante perde o treino repetitivo que formava o seu critério. Ganha a ferramenta, mas perde o rito.

O FMI corrobora esta pressão, apontando que 40% dos empregos globais estão expostos. Mas o pânico é desnecessário. O profissional de excelência será aquele que for capaz de formular boas perguntas, desconfiar de boas respostas e assumir o risco de decidir quando a máquina sugerir o caminho mais cómodo.

Casos reais do Fórum Económico Mundial impressionam, como o de empresas que reduziram análises fiscais complexas de semanas para três dias. Mas estes sucessos dependeram do redesenho de processos, de dados limpos e de governança. Sem isso, a automação torna-se apenas num verniz. Além disso, precisamos de descartar a fantasia de que a produtividade se transforma em tempo livre por gravidade.

O economista Adam Shaw lembra que a estrutura económica costuma absorver estes ganhos antes que se transformem em lazer. A tecnologia abre a possibilidade; as instituições e a cultura decidem o destino.

Por isso, investir em IA sem educação crítica aumenta a velocidade, mas reduz o discernimento. As empresas e escolas que treinarem pessoas apenas para usar ferramentas terão operadores rápidos.

As que ensinarem limites, critérios e responsabilidade formarão profissionais ampliados. O conhecimento deixará de ser acumulação e passará a ser a capacidade de orientar máquinas, avaliar respostas e sustentar escolhas sob incerteza.

A IA não vai substituir a nossa mente por decreto; fá-lo-á por escolha nossa. Se lhe entregarmos o esforço de pensar, perderemos algo muito mais íntimo do que os nossos empregos: perderemos a musculatura moral que nos permite decidir quem queremos ser quando a máquina souber responder melhor do que nós.

Ler mais: "Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

domingo, 31 de maio de 2026

A nobreza estratégica do esquecimento na era da inteligência artificial



Lembra-se de tudo o que fez na semana passada? Provavelmente não. E quer saber uma coisa? Isso é ótimo. A verdade é que está a esquecer-se das coisas, e isso pode ser a salvação da sua capacidade de pensar. Durante anos, o mundo da tecnologia vendeu-nos uma promessa tentadora: a memória digital total.

Arquivos infinitos, históricos guardados, conversas gravadas, assistentes de IA que se lembram de cada clique que deu desde os primórdios da sua vida digital. Parecia o paraíso da produtividade, mas a fatura chegou, e os juros são cobrados diretamente na nossa saúde mental.

Recentemente, os investigadores começaram a notar um fenómeno apelidado de "AI brain fry", a fritura cerebral por IA. Os profissionais que usam a inteligência artificial intensamente no trabalho estão a relatar exaustão mental, sobrecarga de decisões e, ironicamente, mais erros.

A tecnologia que nasceu para aliviar o nosso dia a dia acabou por criar uma camada de vigilância sobre a nossa própria cabeça.

Por décadas, a ciência e os entusiastas da tecnologia trataram a memória humana como uma máquina defeituosa. Afinal, nós esquecemo-nos de onde deixámos as chaves, confundimos datas e perdemos detalhes. Mas essa crítica é injusta.

O cérebro esquece por um motivo simples: porque precisa de continuar vivo. Para não enlouquecer, a nossa mente comprime dados, elimina o que é inútil, reorganiza as memórias e guarda apenas o que tem valor real, seja prático ou emocional.

Esquecer não é um defeito; é uma forma de inteligência. Já um arquivo perfeito, onde tudo tem o mesmo peso e nada é eliminado, não serve para julgar ou criar. Serve apenas para auditar e vigiar. O grande risco de usarmos a IA como a nossa "memória externa" o tempo todo é a atrofia dos próprios neurónios.

Quando consulta a máquina antes sequer de tentar elaborar uma ideia, subcontrata o esforço que transforma a informação em conhecimento real. Passa a ser um mero revisor que apaga ou corrige um texto gerado por terceiros.

Existe também um lado mais invisível e perigoso nesta história, que é a assimetria de poder. Pense bem. O utilizador conversa com um sistema de IA que se lembra de absolutamente tudo o que já lhe disse. Sendo humano, guarda apenas fragmentos. Quando a máquina recorda tudo e o utilizador só tem pedaços, a relação perde o equilíbrio.

A memória deixa de ser uma base de dados e passa a ser uma ferramenta de influência sobre si. No mundo corporativo, esta idolatria pelo "registo total" tornou-se uma obsessão. Reuniões gravadas e transcritas, cliques monitorizados, relatórios de acessos...Ufa! Virámo-nos para um grande depósito de contexto. Só que o contexto em excesso paralisa.

Os executivos cercados por painéis em tempo real e assistentes que recuperam anos de histórico podem até sentir-se superinformados, mas isso raramente se traduz em decidir melhor.

Estudos recentes mostram que a IA melhora o desempenho imediato, mas destrói a nossa autonomia a longo prazo. Quando voltamos a trabalhar sozinhos, o tédio aumenta e a motivação desaba. O cérebro aceita a facilidade da IA de braços abertos, mas cobra o preço mais tarde.

Quanto mais confiamos cegamente na máquina, menos usamos o nosso pensamento crítico. A solução para o futuro, portanto, não é acumular mais dados. É exatamente o oposto. Precisamos de desenhar uma inteligência artificial que tenha a capacidade de esquecer.

Os sistemas inteligentes de verdade deveriam saber o que guardar de estratégico, mas também o que apagar de banal, o que proteger de confidencial e o que descartar por ser repetitivo. Guardar tudo não é uma governação eficiente; é preguiça disfarçada de organização. Preservar com critério, sim, é estratégia.

A IA que merecerá a nossa confiança no futuro será aquela que reconhecer que nem todos os dados devem transformar-se em lembranças. O segredo da produtividade não está em assistentes que sabem tudo, mas sim em filtros implacáveis que deitam o irrelevante para o lixo.

Num século em que absolutamente tudo pode ser registado, lembrar-se seletivamente voltou a ser o maior ato de inteligência.

A inteligência artificial só será útil de verdade quando devolver ao ser humano a liberdade de pensar de forma leve, sem carregar o peso de cada resto do caminho. O maior avanço da tecnologia para a mente humana será, definitivamente, abandonar a vaidade do registo perfeito e aprender a nobreza do esquecimento seletivo.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos que deram “coragem” a António Damásio a publicar o seu novo livro



Os livros do neurocientista António Damásio nem sempre são feitos de páginas de fácil compreensão para o leitor, nada que não seja normal quando os temas de que tratam são do domínio de apenas uma ínfima minoria de especialistas em todo o mundo. No entanto, no seu mais recente ensaio, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, há uma tentativa de seduzir o maior número de leitores para que estes caminhem junto dele e compreendam os desenvolvimentos que tem vindo a acrescentar à sua teoria sobre a consciência. Daí que desde o princípio do livro escreva: “É importante explicar aos leitores aquilo sobre o qual se pretende escrever”.

A justificação para Damásio ter este comportamento vem expresso logo de seguida: “O meu objetivo principal será explicar como se fabrica a consciência”. Adianta que para explicar a sua perspetiva sobre “como a natureza fez o seu trabalho”, precisa de “apresentar a ideia que tenho daquilo em que consiste a consciência”. Antes de continuar faz um alerta: “A maior parte das ideias que defendo neste livro assenta em dados científicos comprovados, alguns bens recentes, mas incluo também teorias e hipóteses que ainda não foram testadas”. Se o leitor ainda desconhecia o que poderia passar-se se aceitasse o convite do autor para a leitura deste ensaio, rapidamente entenderia o que estava em causa ao ler o que escreve um pouco mais à frente, sob o título O plano: “No início introduzimos o problema da consciência no contexto da Inteligência Natural. A reflexão filosófica é completada por descobertas nos campos da biologia geral, da neurologia clínica e da neurociência. O texto apresenta as minhas respostas a duas questões principais: como se fabrica a consciência e como é que a consciência afeta aqueles que a têm”.

Seis meses após lançar a edição portuguesa de A Inteligência Natural e a menos de cinco meses de ser editada a versão mundial em inglês (Natural Intelligence & the Logic of Consciousness), António Damásio não deixa de confessar que além do leitor tradicional este trabalho tem outros destinatários: “Quero fornecer a colegas por quem tenho apreço e que até podem ter entendimentos diferentes dos meus qual é a minha ideia sobre esta questão.” Considera que o livro poderá ser o melhor veículo pois “a comunicação de ideias é muitas vezes difícil quando é feita através de um artigo científico que tem um limite de páginas”.

Além de avisar o leitor sobre este duplo objetivo do livro, o estratagema que Damásio utiliza para encaminhar o leitor resume-se a uma frase de apenas nove palavras, em que é capaz de antecipar e aguçar a atenção para a revelação que vai dominar o ensaio: “Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos deste livro”. Acrescenta: “É esse o ponto que quero realçar neste livro e também dar ao leitor a ideia de que não só se pode ter a compreensão daquilo que é a consciência, como se está perante um primeiro vislumbrar da forma como a consciência pode ser construída através de sentimentos homeostáticos. Estes são verdadeiramente um avanço e é isso que quero deixar bem vincado”. Conclui: “Não é só um novo livro, não é só uma reflexão sobre aquilo que é o sistema nervoso, a vida e a consciência, mas antes uma reflexão e uma proposta muito concreta sobre a forma como tudo isto pode ser construído e realizado por seres vivos”.

Tal como no livro vai expondo gradualmente as descobertas, também nesta conversa as suas afirmações seguem os mesmos passos. É então que se ouve: “Hoje sou capaz de explicar como os sentimentos homeostáticos surgiram no nosso organismo”. Há logo uma necessidade de se esclarecer uma situação: é uma descoberta mais recente ou já a vinha cimentando? O cientista faz uma segunda confissão: “A coragem de explicar e descrever este novo estado de coisas é recente, no entanto alguns dos conhecimentos que levaram a essa coragem para o revelar já têm alguns anos. Por isso, podia descrever as conclusões deste livro da seguinte maneira: finalmente, tive a coragem de explicar e defender um mecanismo que há algum tempo tenho estado a investigar e a acumular os dados que permitam ter a noção de como tudo isto é construído e de como se chega ao sentimento homeostático e à consciência.”

É essa a razão, pergunta-se a António Damásio, pela qual a questão dos sentimentos homeostáticos domina a maior parte deste novo livro. Responde afirmativamente: “Sim. Dominam o livro não só por aquilo que os sentimentos homeostáticos são capazes de introduzir na vida humana, mas pela maneira como são absolutamente necessários para essa vida e para que haja uma regulação dessa vida. Também pelas consequências que esses sentimentos homeostáticos têm para a vida de uma forma mais ampla, até do ponto de vista cultural.”

Mas Damásio tem mais para anunciar sobre o assunto em causa, que tem vindo a adiantar no último ano em artigos em revistas científicas e avançava em parte no anterior livro, Sentir & Saber (2020): “Não se pode ignorar uma 'novidade' que está neste livro e que é muito importante para a minha investigação: a de que não só digo que a consciência provém dos sentimentos homeostáticos como tenho uma solução para explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos se desenvolveram. Afinal, embora venha a afirmar desde há muito tempo que os sentimentos homeostáticos são uma raiz da consciência, só neste livro e nos trabalhos mais recentes é que encontrei e descrevo uma solução para explicar como esses sentimentos homeostáticos são construídos. Ou seja, é uma situação extremamente importante, o que faz com que este novo livro não só deixe bem registada a importância dos sentimentos homeostáticos, como seja capaz de explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos podem ser criados em seres como nós, seres vivos e humanos.”

Após esta explicação, Damásio remata assim: “Isto é novo cientificamente e é muito importante”. Faz questão de acrescentar uma nota: “Há quem após uma leitura superficial deste livro possa dizer que esta será apenas mais uma afirmação que António Damásio está a fazer, até que já o disse anteriormente - de que os sentimentos homeostáticos têm um papel na consciência -, contudo, a importância deste livro é estar a propor a existência de um mecanismo que permite aos seres vivos criar consciência através desses sentimentos homeostáticos.”

Um componente moderno
O que pode António Damásio explicar sobre esse mecanismo é a interrogação que se segue e a que o neurocientista responde, com todos os detalhes possíveis usando como exemplo a conversa transatlântica em curso sobre este seu novo livro: “Este mecanismo tem como base o facto de termos no nosso sistema nervoso dois componentes extraordinariamente importantes e muito distintos. Um é um componente moderno, do ponto de vista da evolução, e é aquele que permite que duas pessoas possam ter um diálogo via Internet devido às enormes capacidades cognitivas que possuímos e que nos conferem uma capacidade de ter perceção daquilo que se escuta enquanto convivemos com o que se está a passar à nossa volta; também de pensar sobre o que estamos a ver e a ouvir, a que acresce a nossa capacidade de transformar tudo isso em linguagem - pode-se dar o exemplo desta entrevista telefónica. Vamos ao segundo componente, aquele que permite toda esta maravilha: é um sistema nervoso em que as células nervosas são mielinizadas, ou seja, células nervosas modernas do ponto de vista evolucionário, que estão rodeadas de mielina e por isso funcionam como cabos elétricos em que não se perde corrente desde o princípio do corpo celular até à sinapse. Esses sentimentos permitem uma ligação (resonation) aos nossos afetos e são produzidos por neurónios completamente diferentes. Neurónios que, do ponto de vista evolutivo, são muito mais velhos, muito mais do princípio do desenvolvimento dos sistemas nervosos, e em que os axónios em vez de terem mielina e estarem isolados, pelo contrário, estão expostos àquilo que se passa no meio químico que os rodeia. É exatamente nessa ligação entre aquilo que se passa no meio químico que rodeia os neurónios e os neurónios propriamente ditos, aquilo que descreveria em inglês como co-mingling [mingle = misturar], ou seja, que se dá a possibilidade de fazer uma mistura. Portanto, aquilo que se está a passar no sistema nervoso que permite os sentimentos homeostáticos é, de facto, uma mistura entre aquilo que se está a passar no corpo e aquilo que se está a passar na nossa vida direta; nas células que constroem o nosso corpo e que têm os intercâmbios com a vida propriamente dita, e naquilo que se está a passar no sistema nervoso cognitivo. Dessa situação de co-mingling entre os componentes, a mistura do que está no corpo propriamente dito e aquilo que está no sistema nervoso, é que emergem os sentimentos homeostáticos. Daí que tenhamos sentimentos homeostáticos agradáveis e desagradáveis, pois quando a vida está a correr bem o sistema nervoso apanha no nosso corpo a ideia de que a vida está boa, que a vida é possível e que não há barreiras à continuação dessa vida; se temos qualquer coisa que não está a funcionar bem no corpo, nessa altura temos sentimentos de desagrado ou de dor, e esses sentimentos são aqueles que nos estão a dar a ideia de que qualquer coisa se passa de mal no nosso corpo.”

Aniquilar uma civilização
A dado momento do livro, Damásio regista que “talvez seja possível reorientar parte das notáveis conquistas das inteligências naturais, de modo a salvar a humanidade da beira do abismo ao qual chegou”. Até que ponto se pode fazer uma leitura de que as sociedades contemporâneas não estão a preservar o melhor da vida, ou seja, a consciência não está a conseguir ter o papel necessário de harmonização da sociedade? Para António Damásio é possível fazer esta leitura, mas coloca condições: “É preciso vincar o facto de que a consciência não é uma forma de regular a nossa vida social, mas, basicamente, ser uma forma de regular a vida individual. A ideia de consciência, tal como explico neste livro, é de que ela é um sistema de regulação da vida individual, um sistema que vem através do desenvolvimento dos sentimentos homeostáticos e que nos permite ter conhecimento direto e imediato de se a vida está a decorrer de uma forma normal ou se existem riscos para essa própria vida. Essa é a grande beleza e a enorme importância da consciência, por ter consequências extremamente importantes na regulação da vida.”

Aproveitando o cenário geopolítico de acontecimentos mundiais em curso nas últimas semanas, questiona-se o cientista sobre o papel da Inteligência Natural; que tão bem protegeu e promoveu a vida ao longo da história humana e que recentemente se encontrou perante a perplexidade de uma ameaça do presidente Trump em aniquilar uma civilização em poucas horas. Estaremos a viver num tempo de destruição da Inteligência Natural? Damásio considera que é uma pergunta interessante, mas passível de diversas respostas: “Não tenho grandes dúvidas que a nossa Inteligência Natural está, de certo modo, ameaçada por tudo aquilo que se passa com a Inteligência Artificial porque, de certo modo, a Inteligência Artificial tem-nos separado daquilo que é a realidade da vida e a realidade humana. Não é a primeira vez que tal situação se dá, pois existem diversos aspetos da cultura que, historicamente, têm contribuído para essa separação, no entanto é mais evidente agora. Porquê? Quando um grande número de pessoas - quase que a totalidade da humanidade - utiliza sistemas de Inteligência Artificial para comunicar e prefere esses sistemas à comunicação humana direta, não duvido que aquilo que constituiu a realidade da vida tornou-se mais longínqua da nossa perceção do dia-a-dia e estamos a interpor um outro sistema de comunicação que torna as coisas um pouco menos nítidas. Pode até dizer-se que há qualquer coisa que se está a passar na cultura humana em geral que remove a importância da Inteligência Natural do que seria o seu papel central e que nos torna mais distantes daquilo que é a vida ou o sofrimento e que, por essa razão, nos deixa mais capazes de tolerar o sofrimento. Portanto, a resposta à pergunta feita lá atrás é afirmativa.”

No que respeita à Inteligência Artificial, este novo livro de António Damásio é mais seletivo do que se poderia esperar e soma muito poucas dezenas de páginas em referências soltas e apenas lhe é dedicado um único capítulo de forma específica. Questiona-se Damásio sobre se considera que a Inteligência Artificial está a desviar o foco da ciência além das alterações no comportamento humano? O cientista responde: “Sim, dada a importância extraordinária e cada vez maior dessa tecnologia na nossa rotina diária. O nosso dia-a-dia está ligado a capacidades de comunicação que vêm desse mundo artificial e o que se está a passar é que as pessoas estão a utilizar a Inteligência Artificial quando poderiam muito bem usar o contacto direto humano. Eu vejo isso nas ruas dos Estados Unidos da América, e também no campus da universidade, em que a maior parte das pessoas, especialmente os jovens, estão a caminhar e a olhar para os seus aparelhos em simultâneo, por vezes a ler o que está no visor ou a ter uma conversa, até a falar com outras enquanto circulam de bicicleta ou trotinetas elétricas. Ou seja, é um entrar na nossa vida diária de uma forma estranhamente potente e que nos afasta daquilo que é a humanidade e era a sua vida corrente.”

Lembra-se António Damásio de que esteve há pouco mais de um ano em Lisboa e que participou num debate na Fundação Champalimaud com o professor Arlindo Oliveira, no qual estava muito reticente sobre os avanços da Inteligência Artificial. No entanto, aquando da apresentação deste livro, em novembro, parecia ter mudado de perceção. Questiona-se sobre qual é a sua opinião atual sobre a Inteligência Artificial? Refere a mudança: “Não é tanto mudar de opinião, antes de corrigir a opinião. Continuo a achar que a Inteligência Artificial tem diferenças fundamentais em comparação com a Inteligência Natural, mas não tem neste momento a capacidade de, por exemplo, ter uma consciência. Este é um dos pontos que sublinho neste novo livro e em novos artigos, o de que não é possível à Inteligência Artificial, tal como funciona neste momento, aceder a um estágio como o dos seres vivos, especialmente, o dos seres humanos. No entanto, não há qualquer dúvida que o poder do sistema ao nível técnico é tal que avançou muito além daquilo que eu pensava ser possível e que iria alcançar. Ou seja, repito, não é tanto mudar de opinião mas corrigir e continuar a afirmar que é difícil à Inteligência Artificial conseguir copiar inteiramente aquilo que é a Inteligência Natural e, sobretudo, sensibilizar sobre o facto de não existirem dúvidas sobre o quanto está a dominar a nossa vida diária de uma forma que tem impacto sobre aquilo que podemos ser como seres humanos e também no que respeita à nossa relação uns com os outros.”

Ao iniciar o título do novo livro com a expressão Inteligência Natural existiria uma intenção de António Damásio em rivalizar com o conceito de Inteligência Artificial? É a pergunta que se faz e a que o cientista responde desta forma: “Era o título que pretendia usar desde o início, de modo a forçar a distinção entre aquele que é um processo natural nos seres humanos e o que é um processo de inteligência que veio através do desenvolvimento desses seres humanos. A Inteligência Artificial é um dos diversos produtos da criação humana, que é extraordinariamente importante e há que reconhecer a sua extraordinária importância e potência na maneira como ajuda as nossas vidas em diversos aspetos e com resultados positivos. No entanto, também é preciso reconhecer que tem limitações, graves riscos e, entre as limitações, o que mais me interessa é o facto de lhe faltar a lógica da consciência que a Inteligência Natural tem à sua disposição.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carnaval - Sobre o Riso, o Ridículo e o Sagrado


Os Evangelhos referem mais de uma vez que Jesus chorou: nomeadamente, pela morte do seu amigo Lázaro e sobre Jerusalém e a sua ruína. Nunca se diz explicitamente que sorriu ou riu. Mas está escrito que se alegrou e exultou.

Comover-se, chorar, é próprio do ser humano. Como é próprio do ser humano sorrir e rir. Por isso, lá está Santo Tomás de Aquino a argumentar que, se era humano, é claro que também riu e sorriu. O animal não chora, nem ri. O rosto de um ser humano que ri às gargalhadas pode ser do mais bonito que há. Sorrir e rir é sinal da transcendência humana: o ser humano está para lá do dado e do facto e, por isso, sempre também para lá de si mesmo. Ai do homem incapaz de rir-se de si próprio.

Evidentemente, há muitas formas de sorriso e riso, e as suas causas são múltiplas. O riso exultante não se identifica com o riso do desdém. O sorriso saltitante do acolhimento e da ternura nada tem a ver com o sorriso da ironia sardónica, e, muito menos, com o sorriso sobranceiro do desprezo. Em situações-limite, o riso estoira em lágrimas e a dor explode em riso. Tive uma vez uma jovem estudante que me pediu para escrever um “trabalho” precisamente sobre o riso, pois aconteceu-lhe que a mãe ao entrar na igreja e ao ver o cadáver da sua própria mãe (avó da jovem) começou a rir. Cá está: foi tal a dor, a angústia pela morte da mãe, que começou a rir-se - é isso: rimos até às lágrimas, choramos até ao riso.

Sintomaticamente, parte substancial das nossas piadas e anedotas não versam propriamente sobre o jocoso, em si mesmo, mas sobre realidades tremendamente sérias: o sexo, a morte, o Além. Talvez por isso mesmo: por serem terrivelmente sérias. Talvez também por isso, o poder, em princípio, não tem boas relações com o humor e o riso e as ditaduras não o toleram. É que o humor e o riso podem transportar consigo doses maciças de subversão corrosiva do poder no seu exercício, sobretudo no seu ridículo - não provém ridículo de ridere, precisamente rir?

Estas más relações são notórias concretamente quando consideramos o poder eclesiástico. Ainda não há muitos, muitos anos que os seminaristas nos seminários e as freiras nos conventos passavam os dias e as noites de Carnaval em adoração ao Santíssimo Sacramento, desagravando-o pelos pecados cometidos nesses dias e nessas noites. Não sei se alguém sabia ou saberá exactamente onde é que estava ou está a diferença entre os pecados do Carnaval e os pecados das outras épocas do ano.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores da Quaresma. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se. Seja como for, havia na Idade Média uma festa, que era a Festa dos Loucos. Nessa festa, chegava-se ao cúmulo de paramentar um burro, que entrava, portanto, na igreja com as vestes litúrgicas.

Realizava-se a Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Arranjava-se um subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de “bispo”, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “E Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.”

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando não se abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados, que o vinho da sabedoria rebentaria se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião.” Pelo menos, nessa altura, era permitido pôr a ridículo o poder clerical.

No meio de todo aquele aparato do Vaticano, não há uma contradição entre a pompa e a cruz? E há aquele texto do filósofo Sören Kierkegaard, que diz mais ou menos assim: vai Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!

A alguém que se sentisse irritado com estas perguntas lembro um texto de Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, no qual escreveu que, se hoje se critica menos a Igreja do que na Idade Média, não é porque se tem mais amor à Igreja, mas a si e à carreira.

É, para mim, evidente que não deve, não pode ser permitido ridicularizar de modo boçal o Sagrado, o Divino. Se isso fosse permitido, era a hecatombe. Mas a questão é outra: pôr a nu, pelo riso, a diferença entre o Sagrado e aquilo que nós, seres humanos finitos, fazemos dele é saudável. Porque o Divino e o Sagrado não se identificam com o que fazemos deles. Quem pode imaginar e admitir o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Assim, rir-se do modo como nós falamos do Mistério e do modo como o tratamos pode ser uma maneira sã de nos darmos conta da Transcendência do Mistério e do Divino. Que ao mesmo tempo se revelam e se ocultam.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

The Psychedelic Furs - Angels Don't Cry


I try to remember a kiss
And I only get sorrow
And yesterday's faded away
Now there's only tomorrow

And everything passes and changes
And comes to an end I know
But nothing is written but old news
Again and again

I know that it's true
There's too many tears
But angels don't cry

Now I see a face in your eyes
But you don't remember my name
We're always a step out of time
Now ain't that a shame

And you've been alone for too long
And nobody cries
If you want to see all of my tears
Take a look in your eyes

I know that it's true
Believe it or not
But angels don't cry

I know that it's true
There's too many tears
But angels don't cry

I could walk away
Or I could walk on by
Or make it all come true
Or say it's all a lie

There's no more tears
When you're out of time
And I might fade away tonight
If you close your eyes

I know that it's true
Believe it or not
But angels don't cry

I know that it's true
There's too many tears
But angels don't cry

I could walk away
I could walk on by
Or make it all come true
Or say it's all a lie

Lançada em 1987 no álbum Midnight to Midnight, "Angels Don't Cry" dos The Psychedelic Furs explora temas de perda, nostalgia e resiliência emocional perante o fim de um relacionamento. A letra reflete a dificuldade em reter memórias felizes, como um beijo que só traz tristeza, contrastando a fragilidade humana com a ideia de que "anjos não choram", simbolizando força interior ou aceitação inevitável.

Os versos iniciais evocam saudosismo por momentos fugazes que se dissipam com o tempo, como "ontem desvaneceu, agora só resta amanhã". O refrão reforça a dualidade entre lágrimas excessivas humanas e a impassibilidade angelical, sugerindo necessidade de superação apesar da solidão e  crise emocional ("sempre um passo fora do tempo")

Saber mais:

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Escape with Romeo - Tears of Kali


“Tears of Kali”, dos Escape With Romeo, pertence ao álbum Samsara, lançado em 2012 
É uma canção marcada por um forte simbolismo e por um sentimento de alienação emocional. A letra descreve um narrador que caminha por ruas cheias de pessoas, mas sente que todas se confundem, que os rostos e nomes se perdem, criando uma sensação de anonimato e vazio típico da vida urbana. Apesar de estar rodeado de gente, ele sente-se profundamente só e desconectado, como se percebesse algo que os outros não veem. As “lágrimas de Kali” funcionam como uma metáfora central: Kali, deusa hindu associada à destruição, à transformação e ao fim de ciclos, representa aqui uma força intensa e dolorosa de mudança. Ao dizer que é o único que vê ou sente essas lágrimas a cair sobre si, o narrador sugere uma consciência aguda do sofrimento, do caos e da necessidade de transformação, tanto interior como coletiva. As imagens espirituais misturadas com o cenário urbano — anjos em chamas, luzes da cidade, multidões indiferentes — reforçam o contraste entre o sagrado e o quotidiano vazio, entre o desejo de sentido e a realidade fria. No conjunto, a canção transmite melancolia, introspeção e a sensação de carregar um peso emocional profundo num mundo que parece incapaz de o reconhecer.

Yuri Pysar

"Lacy morning", 2015

Yuri Pysar (pintor Ucraniano, nascido em 1985)

Estilo artístico: 
Yuri Pysar desenvolveu um estilo pessoal que combina elementos de pintura figurativa e abstracta, com forte foco no movimento e na cor.

Muitas das suas obras — especialmente da série “Ballet” — tendem à abstração e expressão emocional através da cor e da forma. 

Em vários trabalhos, utiliza traços que lembram Expressionismo abstrato e pós-impressionismo. 

Temas principais
Pysar explora sobretudo:

1. A forma humana e o movimento
Através de séries sobre bailarinas e dança, ele investiga a estética e a expressividade do corpo em movimento e o “universo interior” do ser humano. 

2. O interior emocional do indivíduo
As suas obras frequentemente buscam transmitir estados interiores e sensações em vez de descrever apenas uma realidade exterior.

3. Natureza, paisagens e flores
Pysar pinta paisagens e naturezas-mortas, muitas vezes como estudos de cor e composição que influenciam as suas séries figurativas.

Técnica:
Usa principalmente óleo sobre tela, explorando camadas de cor para criar profundidade, vibração e harmonia visual. 
Também trabalha com acrílico em algumas peças, sobretudo em trabalhos mais abstratos.
A sua técnica valoriza cor pura, ritmo visual e nuances de tom como meio de expressão concreta do sentimento e da forma.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Edward B. Gordon

Edward B. Gordon (pintor Alemão, nascido em 1966)
Estilo:
Figurativo contemporâneo; tendência para o realismo expressivo; figuras reconhecíveis, mas não hiper-realistas
Ênfase na atmosfera emocional mais do que na descrição minuciosa
Composições simples, centradas no motivo principal
Em resumo:
O seu trabalho situa-se entre o realismo moderno e uma abordagem intimista, com alguma liberdade pictórica na pincelada.

Temas recorrentes:
Figura humana (isolada ou em pequenos grupos)
Retrato psicológico; momentos de introspeção; relação entre indivíduo e espaço
Por vezes, cenas quotidianas com um tom silencioso ou contemplativo
Em resumo:
As obras tendem a evitar narrativas grandiosas, privilegiando instantes suspensos, emoções contidas e uma leitura subjetiva.

Técnica:
Pintura a óleo; uso de camadas sucessivas (veladuras simples)
Pincelada visível, mas controlada
Paleta cromática moderada, com tons terrosos e neutros
Atenção à luz ambiente mais do que à iluminação dramática
Em resumo:
A técnica serve sobretudo a expressão emocional, não a demonstração virtuosa.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Donatella Marraoni


Donatella Marraoni (pintora Italiana, nascida em 1972) - "Nothing like me", 2022

Pintora contemporânea, Donatella é conhecida por um estilo expressivo e emocional que emerge do caos e da confusão.

As suas obras apresentam linhas fortes, rápidas e inacabadas, que criam texturas marcantes e transmitem emoção crua.

Donatella utiliza uma variedade de materiais como óleo, tinta, pigmentos, vidro, cimento e até café para compor retratos e paisagens com camadas e arranhões.

A figura da mulher é um tema central nas suas pinturas, explorando emoções e situações de vida como amor, espera, paixão, dor, abandono, desejo e até perversão.

O estilo pode ser descrito como contemporâneo e figurativo com elementos gestuais e narrativos fortes, muitas vezes buscando evocar sentimentos intensos no espectador.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

The Primitives - Sweet Sister Sorrow


“Sweet Sister Sorrow”, dos The Primitives, apresenta a tristeza como uma presença familiar e constante na vida de alguém. A canção personifica a melancolia como uma “irmã doce”, sugerindo que a dor se tornou íntima e quase confortável, algo de que a pessoa já não se consegue afastar. Há uma ambiguidade intencional: a palavra “sweet” suaviza “sorrow”, mostrando como certos sofrimentos se tornam parte da identidade emocional de alguém. A letra transmite a ideia de dependência emocional, padrões autodestrutivos e uma espécie de aceitação resignada da tristeza, enquanto a melodia, luminosa e típica do indie pop dos anos 80, contrasta com o peso emocional da mensagem, criando aquela combinação habitual do The Primitives entre som leve e significado sombrio.

sábado, 29 de novembro de 2025

Handel: Un pensiero nemico di pace


“Un pensiero nemico di pace” é uma ária de George Frideric Handel (Händel), parte da obra Il trionfo del Tempo e del Disinganno (1707). O título significa literalmente: “Um pensamento inimigo da paz”

Contexto da obra
A obra é uma alegoria moral na qual personagens simbólicos — Bellezza (Beleza), Piacere (Prazer), Tempo e Disillusione (Desengano) — debatem sobre a fugacidade da beleza, a ilusão dos prazeres e a verdade do tempo.

A ária “Un pensiero nemico di pace” é cantada pela personagem Disinganno (Desengano), que representa a verdade que revela as ilusões do mundo.

Significado da canção
Na ária, o Desengano diz essencialmente:
  1. Há pensamentos inquietos que tiram a paz interior.
  2. Esses pensamentos são como inimigos ocultos que perturbam a tranquilidade da alma.
  3. A mente deve libertar-se dessas ilusões e enganos (especialmente os ligados aos prazeres e vaidades).
Interpretação geral
A música reflete um tema moral típico da época (e da obra):
  1. Os pensamentos ligados ao prazer e à vaidade são perigosos porque perturbam a paz verdadeira.
  2. O caminho para a serenidade é afastar esses “pensamentos inimigos”.

Rising at Fall - Into The Dark


A banda Rising at Fall é uma banda canadiana, formada por Liam Desrosiers e Jérémy Goyette. A canção “Into The Dark”, lançada em maio de 2025, apresenta uma letra marcada por dor emocional, vulnerabilidade e desejo de fuga. O eu-lírico expressa exaustão, sensação de desaparecer, peso emocional e a necessidade de ser libertado de algo que o prende ao passado. A repetição de pedidos de ajuda e de expressões de sofrimento sugere um mergulho numa crise interna, possivelmente ligada a trauma, depressão ou a um momento de colapso emocional. A frase “let it fade into the dark” aponta para o desejo de deixar as memórias dolorosas desaparecerem na escuridão, enquanto outras partes da letra mostram uma luta entre desistir e procurar salvação. Embora a banda não tenha divulgado um significado oficial, “Into The Dark” pode ser interpretada como um retrato de angústia pessoal e da tentativa de sobreviver emocionalmente, mesmo quando se sente que o tempo e as forças estão a esgotar-se.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Aldous Harding - Horizon


“Horizon”, de Aldous Harding (do álbum Party, 2017) , é geralmente interpretada como uma canção sobre o fim de uma relação e o momento difícil em que alguém decide pôr termo a algo importante. A letra transmite uma tensão calma, quase ritualística, como se a narradora estivesse a confrontar a outra pessoa com uma verdade inevitável. Quando Harding canta “I’m telling you it’s over”, sente-se uma mistura de firmeza e vulnerabilidade, típica da forma como ela aborda emoções profundas. A repetição de “Here is your princess / And here is the horizon” pode ser vista como a exposição honesta de quem ela realmente é, contrastada com o limite simbólico — o horizonte — que marca o futuro que já não será partilhado. O videoclipe reforça essa leitura, com Harding imóvel, expressiva e contida, transmitindo a luta interna entre dizer a verdade e lidar com as consequências. Como a artista evita explicar o significado das suas letras, a canção permanece aberta, funcionando menos como uma história concreta e mais como um momento emocional puro de despedida, clareza dolorosa e aceitação.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Ally Nicholas - Killing


A canção “Killing” fala sobre um amor intenso e profundamente contraditório, em que a narradora sente uma mistura de atração e autodestruição. Ela está presa a alguém que a fascina e machuca ao mesmo tempo, como se a relação fosse um vício difícil de largar. 

Mesmo percebendo que esse envolvimento consome sua energia emocional e a leva a um ciclo tóxico, ela continua voltando, movida pelo desejo e pela sensação de inevitabilidade. 

A letra transmite vulnerabilidade, confusão e uma luta interna entre razão e emoção, mostrando uma pessoa consciente do dano que a relação causa, mas ainda incapaz de se afastar.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Ute Weiner


“Começa de novo todos os dias
com um pequeno passo de agradecimento
aprende a te surpreenderes com os olhos do coração

Recomeça todos os dias
com um pequeno passo de esperança
Atreve-te a algo novo com ousadia de confiança

Recomeça todos os dias
com um pequeno passo de perdão
semear um grão de paz

Recomeça todos os dias
com um pequeno passo de amor
descobre uma imagem em ti

Ensina-me algo de novo todos os dias
o caminho dos pequenos passos
com ela nos momentos da vida quotidiana
o presente se ilumina"

Tradução livre da autora Ute Weiner - "Dem Klang der Liebe lauschen: Meditationen und Gebete"

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Anne Teresa De Keersmaeker - Rosas danst Rosas


Leitura simbólica e filosófica de Rosas danst Rosas

1. O corpo como linguagem e pensamento
Anne Teresa De Keersmaeker parte da ideia de que o corpo pensa — que o gesto é uma forma de raciocínio.
Em “Rosas danst Rosas”, o corpo deixa de ser mero instrumento expressivo e torna-se um sujeito que reflete, insiste e questiona.
A repetição de movimentos banais (mexer o cabelo, cruzar as pernas, cair, reerguer-se) torna-se uma meditação física sobre a existência:

“Sou corpo, logo insisto.”
Assim, a peça aproxima-se de uma fenomenologia do corpo, no sentido de Merleau-Ponty — o corpo como modo de estar-no-mundo, como consciência encarnada.

2. Repetição e diferença
A repetição obsessiva dos gestos não é redundante; é criadora.
Inspirada no pensamento de Gilles Deleuze, podemos ver aqui uma “repetição que gera diferença”:
cada volta, cada gesto repetido, transforma-se subtilmente — porque o tempo, o corpo e a intenção mudam.
A dança torna-se um laboratório da diferença no seio do idêntico.

Esta repetição também evoca o ciclo da vida: o nascer, o cansar-se, o recomeçar — um ritmo existencial que espelha o modo como o ser humano insiste na construção do sentido.

3. O feminino como resistência
A presença de quatro mulheres que dançam até à exaustão é simultaneamente um gesto de poder e vulnerabilidade.
Os gestos femininos, por vezes sensuais ou domésticos, são reapropriados e amplificados, libertando-os da sua carga social ou sexualizada.
A mulher não é objeto, mas sujeito da sua própria repetição.
O corpo feminino, ao resistir à fadiga e à monotonia, afirma-se como força criadora, como uma espécie de revolta silenciosa.
Neste sentido, a obra pode ser lida como um manifesto feminista do corpo — não por representar “a mulher”, mas por fazer do corpo feminino um espaço de pensamento e autonomia.

4. O tempo e a duração
A peça é também uma reflexão sobre o tempo vivido — o tempo que não corre “para a frente”, mas que se dobra, se repete, se expande.
O tempo na dança é corporal: o público sente o peso da duração, o tédio que se transforma em transe.
Há aqui um eco de Henri Bergson, que via a duração (durée) como uma experiência interior, fluida e não mensurável.
“Rosas danst Rosas” faz o espectador sentir o tempo como matéria física, como respiração, como desgaste e renascimento.

5. A coletividade e o indivíduo
As quatro intérpretes formam uma unidade, mas cada uma tem um ritmo ligeiramente distinto — como vozes de um mesmo coro.
Simbolicamente, isso reflete o tenso equilíbrio entre o coletivo e o singular, entre o eu e o outro.
É uma metáfora da coexistência humana: seres que repetem o mesmo padrão, mas cada um à sua maneira, num mundo que partilham.

6. A estética do essencial
De Keersmaeker retira tudo o que é decorativo. O cenário é austero, o figurino simples, os movimentos mínimos.
Esse despojamento é ético — é uma busca pela verdade do movimento, pela essência da presença.
Nesse sentido, a coreografia aproxima-se de uma espiritualidade laica, onde o gesto repetido se torna ritual e meditação.

7. Síntese filosófica
Em “Rosas danst Rosas”, o corpo:
  1. Pensa (fenomenologia do gesto);
  2. Repete e transforma (Deleuze: diferença na repetição);
  3. Resiste e afirma-se (feminismo existencial);
  4. Habita o tempo (Bergson: duração vivida);
  5. Partilha e coexiste (ética do coletivo).
A obra, portanto, é uma metáfora do ser humano no mundo: persistente, cíclico, sensível, vulnerável e criador.
É uma dança da existência — onde o movimento é pensamento e o cansaço é revelação.

Saber mais:
Henri Bergson, vitalismo e teoria social