domingo, 31 de outubro de 2021

Presidente executivo da Web Summit destaca clima e futuro do trabalho na edição deste ano

Paddy Cosgrave considerou que "muita gente se vai interessar pelo período" que se vive relativamente ao meio ambiente.

O presidente executivo da Web Summit destacou o clima e o futuro do trabalho como dois dos temas que estarão em destaque na edição deste ano, que conta com mas de 200 'startups' focadas na sustentabilidade.

Instado a destacar três temas na edição deste ano da cimeira tecnológica, que arranca na segunda-feira, em Lisboa, Paddy Cosgrave considerou que "muita gente se vai interessar pelo período" que se vive relativamente ao meio ambiente.

"Temos mais de 200 'startups' com foco na sustentabilidade, elas estão a fazer tudo o que poderia imaginar" para lidar com tudo, "desde a criação ao consumo de energia e tudo mais", acrescentou.

"Além do clima, energia e meio ambiente, temos também um grande foco na cripto", salientou.

A noite de abertura conta com o fundador da plataforma NFT de criptomoedas e a denunciante do Facebook Frances Haugen.

"E encerramos a Web Summit com uma conversa com Tim Berners-Lee, que criou a 'web', sobre o futuro da 'web' e o papel que a descentralização de protocolos e tecnologias podem desempenhar", acrescentou Cosgrave.

O terceiro tema "que estamos a ver a partir dos dados de todos os nossos participantes é o futuro do trabalho", apontou.

"Temos um novo palco inteiramente dedicado a discussões e debates sobre como o trabalho vai ser no futuro", porque "não acho que tudo venha a ser remoto, mas também não acho que vamos voltar aos velhos tempos", considerou.

Por isso, "o que é que vai funcionar para a maioria dos empregados? E para a maioria das empresas? Acho que isso não está claro e que todos estão a tentar descobrir" e este é um tema do interesse de muita gente, salientou o cofundador da Web Summit.

Este ano, a edição contará com 40.000 participantes porque a prioridade "é a saúde e segurança", afirmou, salientando que a organização trabalhou em "estreita colaboração com a DGS.

"Aprovaram a nossa licença há duas semanas e o principal para a aprovação da licença foi que cumpramos todas as regras e regulamentos que aconselharam, incluindo distanciamento social, incluindo como construímos o espaço, que tipo de espaços usamos", explicou.

"Como consequência, a única maneira de o fazer de forma segura e respeitando todas das regras é aumentar o espaço à disposição de todos. Portanto, este ano a capacidade máxima é de 40.000", disse, apontando que o evento está "muito perto de estar cheio".

Questionado se espera duplicar o espaço para o próximo ano, Paddy Cosgrave disse que sim.

"A menos que haja algo que eu não saiba, a minha expectativa é que o espaço seja duplicado, a construção de espaços para convenções é muito, muito rápida", leva cerca de seis meses para ficar concluída, disse.

Com o aumento do espaço, a organização espera acolher mais de 100.000 participantes

"Não tenho dúvidas de que a Web Summit poderá ter várias vezes o tamanho do que é hoje se tivéssemos mais espaço", salientou.

Na edição deste ano haverá "literalmente milhares de 'startups', 1.500 'startups' farão parte do nosso programa. Várias centenas delas irão aparecer no palco. Acho que há um grupo particular de 'startups' que estão na minha mente, as mais entusiasmantes ou mais importantes", disse, apontando as 200 focadas no clima.

Além disso, a "COP26 [conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas] estará a acontecer ao mesmo tempo. E temos líderes políticos de todo mundo e os maiores poluidores. Não sei por que é que eles estão lá. Esperançosamente, esperam que o acordo seja favorável", comentou.

"Mas na Web Summit temos vários empreendedores que esperam que as suas empresas e as suas inovações venham a ajudar-nos a criar um planeta mais habitável nos próximos anos, um planeta mais sustentável", disse.

Em termos de países, o Reino Unido lidera, apesar do Brexit, seguido da Alemanha, com o Brasil a ocupar o 'top 5' dos países de origem das 'startups'.

"Acho que há um gigante adormecido na América Latina que está lentamente a acordar e as suas 'startups' estão interessadas em conquistar a Europa e estão a vir à Web Summit em números cada vez maiores", contou.

Empresas de Angola, Moçambique e Cabo Verde também participam na edição deste ano.

"Acho que o continente mais desafiante na participação [desde evento] é África por causa das taxas de vacinação", que estão "abaixo dos 5% na maioria dos países, o que torna impossível, na maioria dos casos, as viagens dessas pessoas", lamentou.

Em termos de media, estão registados 1.500. No que respeita à participação por género, "mais de 40% das participantes" e "mais de 30% dos oradores" são do sexo feminino

Sobre a oradora Frances Haugen, denunciante das práticas do Facebook, cujo tema tem estado na ordem do dia, Paddy Cosgrave disse que todos na Web Summit "são crescidos e compreendem que "estas são as conversas" que é preciso ter no evento.

"Acho que os participantes preferem ouvir estas conversas do que demonstrações sem fim de pequenos produtos de tecnologia que podem ou não funcionar", considerou.

Sobre a expansão de eventos além da Web Summit, Cosgrave apontou que na próxima década os maiores mercados de crescimento para a cimeira são a América do Sul, África, Médio Oriente e Ásia.

"Estamos a planear nos próximos três anos começar eventos regionais Web Summit" nestes mercados, apontando que tal deverá arrancar em 2023.

"Se queremos crescer o evento anual, precisamos de ir a mercados onde o potencial de crescimento existe", porque assim é "mais fácil persuadir" as pessoas a apanhar aviões e voar de outras partes do mundo para vir para Lisboa todos os anos, argumentou.

Paddy Cosgrave salienta que se assistiu a mudanças no ecossistema português: primeiro, os empreendedores eram todos homens, o que hoje já não acontece, e eram todos portugueses, o que também já não é verdade.

"Diria que pelo menos um terço, senão metade dos empresários, são de outros países ao redor do mundo que decidiram" vir para Portugal, apontou.

"Acho que uma das mudanças mais surpreendentes é o número de pessoas que abrem empresas em Portugal, o que diz muito", e quando uma empresa nova decide escolher o país para abrir o negócio, isso "enriquece todo o ecossistema".

Sobre a possibilidade de Portugal criar um 'hub' de inteligência artificial (IA), Paddy Cosgrave salientou que esta é uma área que "obviamente vai ter um enorme papel no futuro da medicina, segurança", em quase todos os aspetos da vida das pessoas.

"Portanto, quanto mais Portugal puder fazer para apoiar investigação de ponta e depois ajudar a agrupar empresas líderes no espaço, acho que acaba por ter um efeito cumulativo positivo no ecossistema", defendeu, embora admita que na área da IA ainda há muitas coisas que não são claras.

"Tenho certeza de que há um futuro, é apenas incerto quão grande será esse futuro e quão grande será o papel que terá para Portugal", rematou.

Quanto as expectativas para a edição deste ano, Cosgrave afirmou que nunca viu tantas pessoas "entusiasmadas" com a Web Summit como agora.

"Acho que as pessoas estão simplesmente animadas por estar de volta", disse, esperando que as expectativas delas correspondam à realidade.

"O que é importante para nós (...) é que garantimos o máximo possível que o evento seja seguro" e que "haja café disponível", disse, a sorrir.


"E, depois disso, toda a magia e toda a 'networking' deverá simplesmente acontecer", concluiu Paddy Cosgrave.

Mudança da hora: Era para acabar mas continua e as opiniões dividem-se. O que dizem os argumentos contra e a favor

Este fim de semana voltámos a mexer nos relógios para os atrasar 60 minutos e voltar a hora de inverno. Estes são os argumentos para mudar (ou não) a hora

Foi esta madrugada que voltámos a mexer nos relógios, mas desta vez para ganhar uma hora de sono. Na madrugada de sábado, 30, para domingo, 31, em Portugal Continental e na Madeira, quando eram 2h00 da manhã, os ponteiros recuaram 60 minutos. Já nos Açores o mesmo sucedeu à 1h00, voltando à meia-noite.

Ao contrário do que aconteceu a 27 de março, quando Portugal entrou no horário de verão – o horário que mais questões levanta, dividindo as opiniões dos especialistas e também dentro da União Europeia (UE) – e todos ficámos com menos uma hora de sono nessa noite, desta vez, e como acontece todos os anos, com a chegada do horário de inverno, “ganhámos” essa hora.

O horário de verão foi implementado na Alemanha, a 30 de abril de 1916. Esta foi a primeira vez que os relógios foram adiantados e o objetivo era poupar energia. Estando o Velho Continente em plena I Guerra Mundial, poupar na iluminação artificial e economizar combustível para depois ser usado no esforço bélico era essencial. Muitos foram os países que seguiram o exemplo da Alemanha, como Portugal que o fez ainda em 1916. Muitas oscilações se deram ao longo dos anos, levando os vários países da UE a alternar entre mudar e não mudar a hora. No entanto, esta tornou-se definitiva em 2001, com a implementação da diretiva 200/84/EC na UE, que faz com que todos os estados-membros sejam obrigados a mudar a hora duas vezes por ano.

Se em tempos de guerra a mudança era consensual, passado mais de um século o mesmo não se verifica. Estados-membros, como a Finlândia e a Lituânia, têm vindo a manifestar o seu desagrado com esta prática e este descontentamento ganhou amplitude em 2018, quando a Comissão Europeia (CE) revelou os resultados de um inquérito online em que a maioria dos participantes mostrava querer acabar com a mudança horária. Este foi um dos estudos de opinião com maior participação realizados pela CE, com um total de 4,6 milhões de respostas. Cerca de 84% eram a favor do fim da mudança, com 76% considerando-a “negativa” ou “muito negativa”. É importante notar, no entanto, que a União Europeia tem cerca de 450 milhões de cidadãos, sendo que este inquérito também não tem uma distribuição igual entre todos os estados-membros. Em Portugal, por exemplo, a participação foi de apenas 0,33 por cento.

O caso seguiu para o Parlamento Europeu (PE), onde em 2019, foi aprovado o fim da mudança bianual da hora. A decisão teve 410 votos a favor de abolir, 192 contra e 51 abstenções. Esta decisão foi, então, adiada para 2021, ano em que os países deveriam fazer a última mudança da hora, decidindo se ficavam com o horário de verão ou de inverno. Os países deveriam avisar, até 1 de abril de 2020, qual seria o horário com que iriam ficar. Mas, então, o que aconteceu? “Devido à pandemia a CE ainda não tomou a decisão sobre esse assunto e não há nenhuma informação de quando será tomada”, explica à VISÃO Suzana Ferreira, astrónoma do Observatório Astronómico de Lisboa.

Em Portugal, o primeiro-ministro, António Costa, manifestou, ainda em 2018, a intenção de manter o atual regime bi-horário. No entanto, como afirma a astrónoma, quando for tomada a decisão na UE “todos os países têm de fazer igual”. Assim, mesmo não querendo, se for essa a decisão da CE, teremos de escolher com que fuso horário ficamos. “Portugal pode escolher se fica com a hora de inverno ou se fica com a de verão. Mas pode nem chegar a esse ponto” explica Suzana Ferreira. Depende, então, se a decisão da CE irá, ou não, avançar.

Argumentos para continuar (ou não) a mudar a hora

O argumento de António Costa baseia-se no relatório do Observatório Astronómico de Lisboa realizado em 2018, pelo seu diretor na altura, Rui Jorge Agostinho, onde se defende a posição de “aproveitar a luz solar ao máximo”. “Na nossa posição a nível geográfico faz sentido haver mudança da hora, enquanto que outros países, mais a norte, como têm dias muito pequeninos ou muito grandes, não faz sentido” acrescenta Suzana Ferreira, explicando que o principal problema de não mudar a hora seria desperdiçar a luz solar, uma vez que, no verão, o sol nasceria por volta das 5h da manhã, não sendo aproveitado pelas pessoas por ainda estarem a dormir. Já no inverno, só nasceria às 9h, o que nos faria ir para o trabalho e para a escola de noite. “A população iria começar o horário de trabalho ainda de noite e isso é mau para o nosso organismo. Nós acordamos com a claridade do sol e naquele caso ainda estaríamos um bocado dormentes”, explica.

Já o principal argumento de quem defende, em Portugal, que se deveria acabar com esta mudança tem a ver com a alteração dos ritmos biológicos e do sono. Miguel Meira Cruz, diretor clínico do Centro Europeu do Sono e autor de um estudo sobre a temática, afirmou, em 2019, à Lusa, que não fazia sentido continuar com a mudança da hora, considerando que mudar a hora duas vezes por ano pode ser “bastante nocivo sobretudo para alguns grupos populacionais”, como é o caso de pessoas vulneráveis em relação ao sono, pessoas imunodeprimidas ou pessoas mais velhas. “A agressão maior não é exatamente nós mudarmos a hora, porque adaptar-nos-íamos, uns mais depressa e outros menos depressa. A questão é que duas vezes por ano ora andamos para a frente, ora andamos para trás, e exigimos que os nossos genes, que são coisas que demoram muitos, muitos anos a adaptar, se adaptem imediatamente. E isso não acontece”, explicou. Já em 2020 afirmou que devido ao confinamento este impacto nocivo pode ainda ser mais problemático.

Para saber mais

Música do BioTerra: Drugstore feat. Thom Yorke - El President


[It came from the skies
It burst through the gates
With no mercy or disguise
With their hearts set out in flames
I know I've seen the master plan]

Well I'm just a man
[I am just a man]
I'm not giving in
All the people understand
Cos they all fell down and prayed
I know, I've seen the master plan

They've killed the president
They've killed the president

[It came from the skies] It came from the skies [In all shades of green We can always justify You can measure up your dreams I know I've seen the master plan] They've killed the president
I'm just a man...

sábado, 30 de outubro de 2021

Efeitos das alterações climáticas nos incêndios são cada vez mais evidentes



O Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia disse este sábado que os efeitos das alterações climáticas são "cada vez mais evidentes", alertando para a época de incêndios deste ano ser pior do que a do ano passado.

"Os efeitos das alterações climáticas são, também, cada vez mais evidentes; verifica-se uma tendência crescente, claramente observável, de aumento dos riscos de incêndio, épocas de incêndio mais longas e intensos 'megaincêndios' que se propagam rapidamente e relativamente aos quais os meios tradicionais de combate a incêndios pouco podem fazer", lê-se na nota de imprensa sobre o relatório dos incêndios, divulgada nas vésperas da reunião da COP26, que decorre a partir de segunda-feira em Glasgow.

"Após 2019, o pior ano jamais registado, os incêndios voltaram, em 2020, a queimar vastas áreas de terreno natural na Europa", tendo ardido 340 mil hectares, o que representa uma área 30% superior à do Luxemburgo, aponta Bruxelas.

Este ano, alerta-se, "a época de incêndios está a ser ainda pior", com uma área ardida de quase 500 mil hectares, estando 61% desta área em florestas.

No final de junho, altura que, tradicionalmente, marca o início da época de incêndios, tinham já ardido cerca de 130 mil hectares, que não afetam apenas os países meridionais, alerta o JRC.

"Os incêndios já não afetam apenas os Estados meridionais, mas constituem agora uma ameaça crescente também para a Europa Central e Setentrional", afirma o comunicado, que diz que nove em cada dez incêndios são de origem humana.

"O primeiro semestre de 2020 caracterizou-se por um elevado número de incêndios florestais; os incêndios eclodiram, no inverno, no delta do Danúbio e nos Pirenéus e, na primavera, principalmente na região dos Balcãs, e, durante o verão e o outono, os países mais afetados foram os mediterrânicos, especificamente Espanha e Portugal, que registaram os maiores incêndios de 2020 na UE", diz o documento.

Para a comissária da Inovação, Investigação, Cultura, Educação e Juventude e responsável pelo JRC, Mariya Gabriel, "as alterações climáticas estão a agravar os riscos e a magnitude dos incêndios florestais em todo o mundo".

Também citado no comunicado, o comissário responsável pela Gestão de Crises, Janez Lenarcic, afirmou que "os incêndios florestais apresentam um elevado risco de catástrofe tanto na Europa como no resto do mundo", e acrescentou que "as alterações climáticas estão também a prolongar a época dos incêndios florestais por vários meses, o que aumenta as probabilidades de as comunidades da Europa terem, no futuro, de afrontar ainda mais incêndios florestais".

Os relatórios do JRC sobre incêndios florestais na Europa, no Médio Oriente e no Norte de África oferecem uma vasta panorâmica da situação deste tipo de incêndios, e a publicação relativa a 2020, hoje divulgada, inclui a análise de 33 países.

Veja também

Projeto Life Maronesa Quer Combater as Alterações Climáticas e Prevenir Fogos



Um projeto-piloto implementado numa exploração de vacas maronesas, em Vila Pouca de Aguiar, quer ajudar a combater as alterações climáticas, reduzir o risco de incêndio, quantificar a produção de biomassa nas pastagens e os efeitos do pastoreio.

O projeto Life Maronesa tem um financiamento de cerca de dois milhões de euros, comparticipado em 55% pela União Europeia, e estende-se até 2025.

“Aqui, na área do Casal da Bouça, nós adquirimos experiência com estas práticas mais sustentáveis e que estão, de forma natural, mais adaptadas ao impacto das alterações climáticas”, afirmou à agência Lusa Juliana Salvação, da associação florestal Aguiarfloresta, coordenadora do projeto.

A gestora do projeto destacou ainda o contributo do pastoreio para a redução do risco de incêndio florestal e a importância de replicar as “boas práticas” em outros baldios que fazem parte do Life, em Mondim de Basto, Ribeira de Pena e Vila Real, concelhos que são “solar” da raça autóctone maronesa.

No Casal da Bouça, na aldeia de Souto, em Vila Pouca de Aguiar, o produtor António Moutinho tem 130 vacas e novilhas em regime extensivo, ou seja, os animais andam a maior parte do tempo ao ar livre entre a serra do Alvão e os lameiros.

Esta exploração transformou-se numa “área de demonstração”. Ali foi construída, há já uma década, uma manga de maneio dos animais que é considerada única na região e “anti-stress” para as vacas e, nos lameiros e na montanha, foram colocados cercados e gaiolas de exclusão (de monitorização da herbivoria).

Também ali está a ser quantificada, pela primeira vez, a biomassa consumida pelas vacas, por dia, o que permitirá, também, apurar o rendimento do animal, por dia, em serviços de ecossistema, ou seja, os benefícios desta raça para o ambiente.

Trata-se, segundo o investigador Carlos Aguiar, do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), de “um ensaio fatorial” onde foram introduzidas variáveis: num cercado não há pastoreio, em outro corta-se o feno e num outro corta-se o feno e há pastoreio.

“E nós vamos ver o que acontece à flora e à produtividade”, referiu.

Com este estudo pretende-se recolher dados científicos e números que, segundo o responsável, “nunca foram quantificados”.

“No final vamos ficar a saber quantos quilos de biomassa produz um lameiro, mas também quantos quilos consome uma vaca”, salientou.

Carlos Aguiar explicou que o Life Maronesa “tem várias frentes”, desde a recuperação da fertilidade das terras nos lameiros, através da aplicação de calcário magnesiano, medida que classificou como importante porque a “produção de feno e de pasto condiciona o número e animais” que os criadores podem ter.

Outra frente é a recuperação dos solos nas montanhas, devastadas pelos incêndios de grande severidade, apostando nos fogos controlados, de baixa densidade, associados à herbivoria, ou seja, à ingestão das plantas por parte dos animais.

Carlos Aguiar referiu que “as vacas podem trazer atrás de si mais animais e mais plantas”.

“O discurso que liga a criação de gado à libertação de metano e a carbono na atmosfera, ao aquecimento global, aqui não, é ao contrário”, salientou.

Por sua vez, o produtor António Moutinho explicou a manga de maneio, construída pelo próprio, que foi inspirada num modelo americano e que visa o bem-estar dos animais.

Ao longo de um cercado com três círculos os animais são conduzidos para uma espécie de tronco, onde entram individualmente e são manuseados “sem entrarem em stress”, o que facilita as intervenções veterinárias, de sanidade e o seu transporte.

“O projeto tenta replicar o que estamos a fazer nesta exploração para outros criadores no sentido de introduzir alguma inovação para tornar as explorações mais sustentáveis ambiental, económica e socialmente”, salientou António Moutinho.

Para levar visitantes ou técnicos ao terreno foi criado o percurso do Pastoreio Sustentável e da Gestão da Paisagem Clima +, onde ao longo de 13 quilómetros foram espalhados 32 painéis, entre o Casal da Bouça até à Serra do Alvão, que descrevem as várias etapas e iniciativas do projeto.

Os mentores do projeto acreditam que o incremento do consumo e do preço da carne de raças autóctones de montanha, criadas em extensivo, traduz-se em fogos de menor intensidade, mais carbono sequestrado no solo, maior diversidade de espécies e ecossistemas, ganhos de bem-estar animal e em rendimentos acrescidos dos criadores de gado.

“O número de animais e de produtores tem vindo a diminuir e é importante valorizar estas atividade enquanto motor de desenvolvimento rural e social e cativar novos pastores e produtores e gado para a região”, afirmou Juliana Salvação.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

"As alterações climáticas vão atuar como um multiplicador de ameaças"

Serge Stroobants é o diretor para a Europa, Médio Oriente e Norte de África do Instituto de Economia e Paz, conhecido pelo seu Global Peace Index, e apresenta hoje em Lisboa o Relatório de Ameaças Ecológicas. Ao DN, por email, falou do aquecimento global e do aumento da violência no mundo.

                               

Normalmente quando pensamos em aquecimento global ou alterações climáticas não pensamos em conflitos ou guerra. Qual é a ligação entre os dois conceitos?
O Relatório de Ameaças Ecológicas [ETR, na sigla em inglês] mostra que estas e as alterações climáticas representam sérias ameaças ao desenvolvimento global e à paz. Os efeitos adversos vão afetar de forma desproporcional os países mais pobres e mais vulneráveis do mundo e criar pressões indiretas nos países vizinhos através do movimento em massa de pessoas e extração de recursos. Construir resiliência às ameaças ecológicas será cada vez mais importante e irá requerer já hoje um investimento substancial. Muitas ameaças ecológicas existem independentemente das alterações climáticas. Contudo, estas têm um efeito amplificador, causando mais degradação ecológica e empurrando alguns países para pontos de inflexão violentos. Olhando para o futuro, as alterações climáticas vão atuar como um multiplicador de ameaças, exacerbando potencialmente a concorrência e tensões entre os países com menos recursos e resiliência.

E que países são esses?
O relatório identificou 30 países que são hotspots [pontos quentes], sendo que 28 desses 30 estão também na metade inferior do Global Peace Index [GPI] do Instituto de Economia e Paz. Onze dos 15 países com maior impacto ecológico estão já em conflito e os outros quatro países estão a cair na armadilha da violência e estão à beira desse conflito. Os recursos vão continuar a esgotar-se e a luta para aceder e eventualmente gerir esses recursos vai continuar a intensificar-se. Por exemplo, notámos um aumento de 270% nas disputas relacionadas com água na última década, concentradas em países como o Iraque ou o Iémen, mas também vimos um aumento forte (250%) da violência para resolver essas disputas. Esta é uma tendência que irá continuar. Estes são os ciclos viciosos que o relatório
 menciona.

É importante a Administração de Joe Biden ter vindo dizer que as alterações climáticas representam uma ameaça crescente à segurança nacional dos EUA?
É importante porque sublinha a relação entre as ameaças ecológicas e a segurança. Chama a atenção para a luta por recursos e os seus efeitos nas migrações. Como disse, o relatório identificou 30 hotspots, países onde o impacto das ameaças é maior e a resiliência é menor. Estes países são a casa de 1,26 mil milhões de pessoas, que enfrentam o risco potencial de deslocamento. Ao todo, 3,3 mil milhões de pessoas vivem hoje em 47 países que enfrentam riscos ecológicos elevados ou extremos, sendo que o número irá aumentar 2% até 2050, quando 4,7 mil milhões de pessoas ou 48,7% da população mundial viverá nesses países. O relatório refere ainda que a evolução demográfica será mais forte nos países mais afetados ou onde a ameaça é maior, que são também países com níveis baixos ou muito baixos de paz.

Quais são as ameaças para Portugal?
Portugal tem uma pontuação de 1 no índice, o que revela uma ameaça muito baixa. Está em 28.º de 178 países, mas esta é uma classificação relativa. O maior risco prende-se com o indicador da água e das anomalias de temperatura. Mas Portugal é um país europeu e, como a maioria dos países da União Europeia, está exposto a um número reduzido de ameaças e desenvolveu altos níveis de resiliência. Daí o ranking muito bom. Os países onde a resiliência é alta não têm pontuações más, porque têm a adaptabilidade para tomar os passos necessários para evitar ou mitigar as ameaças.

Falou no GPI, pelo qual o instituto é mais conhecido. Este é o segundo relatório sobre ameaças ecológicas. Porque é que decidiram abordar este tema e qual é a correlação entre os dois relatórios?
Foi simplesmente por causa da forte relação entre a degradação ecológica e os conflitos. O instituto tem como objetivo uma mudança de paradigma de forma a que o mundo pense na paz, usando investigação baseada em dados para mostrar que a paz é uma medida positiva, tangível e alcançável do bem-estar humano e desenvolvimento. Fazemos isto desenvolvendo índices globais e nacionais, calculando os custos económicos da violência, analisando o risco dos países e as fragilidades e compreendendo a Paz Positiva. Ao todo, 19 dos 20 países com a maior pontuação no ETR estão entre os cem países menos pacíficos medidos pelo GPI. Estes países incluem o Afeganistão, o Iémen, a Somália, o Níger, o Burkina Faso e o Paquistão. À medida que a paz se deteriora, o nível do ETR tende a piorar. Como resultado, os países com alto ou muito alto índice de paz tendem a ter um ETR melhor do que os países com níveis de paz médios, baixos ou muito baixos.

Angola e Moçambique, dois dos membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, estão entre aqueles com o ETR mais elevado. Porquê?
As previsões apontam para que ambos dupliquem a sua população até 2050. No caso de Angola terá o segundo maior crescimento populacional a nível mundial. Ambos também têm alguns dos níveis mais elevados de malnutrição e insegurança alimentar. A relação entre a paz e a insegurança alimentar, a falta de água e o crescimento populacional é complexa. Mudanças adversas no ambiente natural podem levar ao aumento das tensões sociais e à agitação civil se as sociedades não tiverem os níveis necessários de resiliência para lidar com estas ameaças. Da mesma maneira, o conflito e o crescimento populacional descontrolado têm impactos bem documentados no ambiente. Estas duas dinâmicas - de aumento da escassez de recursos e conflito - podem criar um ciclo vicioso onde uma aumenta a possibilidade da outra, levando a sociedades falhadas.

O vosso relatório não mostra apenas o cenário negro, também oferece recomendações para tentar quebrar este ciclo. O que pode ser feito para impedir que a situação piore?
Em 2020, o instituto organizou uma série de seis seminários com 60 peritos de governos, think tanks, instituições militares e organizações de desenvolvimento para explorar opções políticas com base no relatório do ano passado. A principal contribuição desse relatório foi a identificação e análise do ciclo vicioso que existe entre os conflitos violentos e a degradação dos recursos. Países que sofrem a pior degradação ecológica também tendem a ser alguns dos mais violentos. Uma mensagem recorrente dos seminários foi que é pouco provável que a comunidade internacional consiga reverter os ciclos viciosos em algumas partes do mundo. É o caso em particular no Sahel ou no Corno de África, com os seus elevados níveis de degradação de recursos, crescimento populacional e correntes conflitos.
A recente queda do Afeganistão para os talibãs pôs em destaque a incapacidade de as grandes democracias ocidentais implementarem uma agenda de desenvolvimento para o país. O estudo da Universidade de Brown sobre os custos da guerra diz que o governo norte-americano gastou 2,261 biliões de dólares na guerra do Afeganistão. Isso não inclui os gastos das forças da coligação ou os gastos norte-americanos no vizinho Paquistão. Ou seja, o custo per capita da guerra é mais do que cem vezes o rendimento anual per capita do Afeganistão e dado que o estudo foi conservador, o verdadeiro custo pode ser muito maior. O exemplo afegão demonstra que o modelo para os programas de desenvolvimento e de construção de resiliência precisa de ser revisto para desenvolver um alinhamento mais próximo às necessidades das comunidades locais. Os desafios sistémicos requerem análises sistémicas que levam a soluções sistémicas. Aconselhamos o agilizar da revisão dos esforços de desenvolvimento com uma abordagem internacional compreensiva e concertada. Enfrentar a degradação ecológica reforçada pelas alterações climáticas está na casa dos mil milhões agora, mas irá ser de biliões nos próximos anos. Só os conflitos custam 600 mil milhões por ano, isto irá aumentar gradualmente até aos biliões se não for tratado de forma adequada e sistemática. O custo total da violência é estimado em 14,5 biliões. Imagine quanto dinheiro poderia ser redirecionado para a ajuda ao desenvolvimento e climática se mudássemos o paradigma existente! Apenas um ou dois por cento, sendo que 1% já representa o equivalente ao orçamento para a ajuda global ao desenvolvimento.

O que espera ver dos líderes mundiais na cimeira do clima em Glasgow (COP26) que começa no domingo? Acha que haverá algum avanço?
Eles precisam de concordar num investimento mais considerável do que o que está a ser feito hoje para responder a muitos dos temas e quebrar o ciclo vicioso de degradação ecológica e violência que muitos países sofrem e vão continuar a sofrer. O que devíamos esperar dos nossos líderes era uma mudança de paradigma e a concentração na natureza sistémica dos problemas em causa.Serge Stroobants

From Paris to Glasgow: fossil fuel interests continue to block climate action



COP26 will kick off next Sunday 31 October, following a one-year delay due to the pandemic. The past weeks have been filled with attention-grabbing demonstrations, including a sit-in outside the Dutch parliament in The Hague and a harbour blockade of Shell’s refinery in Rotterdam. The urgent underlying message from civil society to world leaders remains the same: stop talking, start doing!

Will COP26 bring about the necessary action? Current forecasts are gloomy. The summit is on track to become the least inclusive COP to date. The UK government was recently urged by 1,500 civil society organisations to postpone the summit after it became apparent that most delegates from the Global South could not attend due to a combination of ‘vaccine apartheid’ and the UK’s stumbling COVID-19 response.

But it’s exactly these voices that must be heard, as people in developing countries are currently experiencing the most extreme impacts of the climate crisis. In a cruel twist, the same oil and gas companies that are most responsible plan to be in full attendance at the upcoming COP.

Let’s look back to 2015, when COP21 established the Paris Agreement commitments and provided a glimmer of hope. To reach the Paris goal of keeping warming below 1.5°C, almost 60% of oil and gas reserves and 90% of coal must remain in the ground. Yet seven years later we are failing dismally to reduce fossil fuel production. As Greta Thunberg recently wrote, we are currently on track for a world that is at least 2.7°C hotter by the end of the century – and that’s only if countries meet their current pledges.

Expect news, in-depth analysis, and a carefully curated round-up of links from our global team, campaigners and other media sites to keep you updated on everything that's going on before, during and after this vitally important event.`SUBSCRIBE NOW

To understand why we’re still setting the planet on fire, despite a scientific consensus and a plethora of feasible solutions, we must investigate what is happening behind the scenes. It is well established that the fossil fuel industry is blocking any governmental action that would disrupt drilling and burning as usual. There is less focus, however, on the mechanisms used by oil and gas companies to tie the hands of our political leaders.

For decades, fossil fuel companies have lobbied against effective climate action at the national, EU and international levels. Their threefold bag of lobbying tricks includes privileged access to decision makers, huge lobby spending and a revolving door with the public sector. The result is the widespread capture of decision-making processes and the mainstreaming of fossil fuel interests.

Our new research looks at the use of these three tools by six fossil fuel giants – Shell, BP, Total, Equinor, ENI and Galp – in the period between Paris and Glasgow. Remarkably, this small club of companies, together with five of their lobby groups, managed to meet with top Commission officials a total of 568 times since 2015. And these talks did not come cheap: together, these companies spent over €170 million on their EU lobbying activities.

The same period also saw more than 70 revolving door cases: the hiring by companies of people who formerly held positions in the EU apparatus, international institutions, national governments and agencies and vice versa. Our research exposes a former chief spy who was hired by BP, a deputy prime minister who took up a position in Shell, and the former director of the International Energy Agency who now sits on Total’s board. The implications of revolving door cases, particularly such high-level ones, are significant. A top-ranking civil servant or minister arrives with perks, including a network of influential contacts and insider information about files and processes.

For decades, fossil fuel companies have lobbied against effective climate action at the national, EU and international levels.

Let’s zoom into some of our 70+ revolving door cases. Take, for example, Gerrit Zalm, a former Minister of Finance and Deputy Prime Minister for the Liberal Party (VVD), who was being paid as a Non-Executive Independent Director at Shell while chairing negotiations as a mediator to form a new Dutch government in 2017. Under Zalm’s supervision, a policy to eliminate dividend tax was included into the coalition agreement which Shell had been demanding for years but had not been included in any of the election manifestos.

Or take Helge Lund, currently the chair of BP’s board. He was a member of the UN Secretary General’s Advisory Group on Sustainable Energy from 2011-2014, while he was also CEO of the Norwegian fossil company Statoil. CO2 emissions from this company, now rebranded as Equinor, continue to increase, despite the company’s claims to be transitioning away from oil and gas.

In 2020 Equinor recruited Amber Rudd, the UK’s former Secretary of State for Energy and Climate Change and leader of the country’s delegation to Paris, for its international advisory board. She is a major supporter of carbon capture and storage (CCS), a costly and experimental technology that has failed to deliver despite decades of wasted public subsidies. CCS is also one of the ‘false solutions’ engineered by companies so they can keep burning fossil fuels. Equinor has big plans for CCS, including a controversial fossil hydrogen plant in the UK.

Fossil hydrogen and CCS are just two of the risky technologies and flawed schemes that are part of fossil fuel companies’ ‘net zero’ pledges. By aiming for carbon neutrality by 2050, they have ensured that they can continue to burn fossil fuels into the next decade. These plans are a smokescreen that distracts from the need to dramatically cut fossil fuel consumption and replace it with real alternatives. Nonetheless, most political institutions have fallen into the ‘net zero’ trap: COP26 is dubbed the ‘net zero COP’.

If our world leaders are to act, the revolving door between institutions, governments and the fossil fuel industry must stop. A core demand of the Fossil Free Politics platform is the removal of fossil fuels from politics, as their business model and interests cannot be reconciled with the implementation of policies to limit global warming to 1.5°C. As in the case of the tobacco lobby, a firewall between the fossil fuels lobby and our decision makers is needed. An essential start is the exclusion of oil and gas interests from COP26. This will create the space we need to ensure a controlled phase out of fossil fuel production so that we can reach ‘real zero’.

António Guterres alerta para “risco sério” de falhanço na cimeira do clima




O secretário-geral das Nações Unidas avisou hoje que há um “risco sério” de a cimeira do clima que começa domingo em Glasgow falhar nas metas de aprofundamento do Acordo de Paris para combater as alterações climáticas.

“Há um sério risco de que Glasgow não cumpra”, declarou António Guterres aos jornalistas em Roma, antes de uma cimeira que junta as 20 maiores economias mundiais.

Guterres indicou que há “dúvidas sérias” sobre os compromissos que muitos países continuam sem apresentar e sem os quais se continua a “caminhar para uma catástrofe climática”.

Mesmo que os países que ainda não renovaram os seus compromissos nacionais o façam, comprometendo-se com reduções substanciais de emissões de gases com efeito de estufa, poderão não ser suficientes para manter o aquecimento global até fim do século em dois graus centígrados acima do que se verificava na era pré-industrial.

Indicou que os líderes dos países do G-20 que estão em Roma, e que são responsáveis pela maior parte das emissões, têm uma oportunidade de “encaminhar as coisas” para a cimeira de Glasgow (COP26) resultar.

A 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas decorre de 31 de outubro a 12 de novembro.

Expectativa de melhorar o nível de vida é menor do que na década de 1940


A pobreza e a riqueza tendem a perpetuar-se durante gerações e a possibilidade de uma criança aspirar a ter uma vida melhor que a dos pais é menor do que na década de 1940, segundo a ONU.

A conclusão consta num relatório do relator especial da ONU para a pobreza extrema e direitos humanos, Olivier De Schutter.

O relatório, divulgado na quarta-feira, refere que a escola é um lugar "onde as hierarquias se reproduzem e, no pior dos casos, se magnificam".

Nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), as crianças pobres tardam em média quatro a cinco gerações para alcançar o rendimento médio do seu país. No Brasil, Colômbia e África do Sul demoram nove ou mais gerações.

Nos Estados Unidos, uma criança de uma família de rendimentos altos conhece o dobro das palavras face a uma criança de uma família pobre, realça o relatório, exemplificando as desigualdades de oportunidades.

O documento conclui que a pobreza "não resulta da preguiça, da falta de autocontrolo ou de um planeamento deficiente", mas antes de "fatores estruturantes, como o desemprego alto, os salários estagnados e a discriminação".

Para o relator Olivier De Schutter, será necessário "investir na educação e nos cuidados na primeira infância, garantir que as escolas são verdadeiramente inclusivas e apoiar os jovens mediante uma garantia de rendimento básico" para que se possa quebrar "os círculos viciosos que fazem com que a pobreza se perpetue".

De acordo com Olivier De Schutter, a sociedade "não pode permitir-se a desperdiçar talento nem deteriorar o tecido social".

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Causas, impactos e consequências das alterações climáticas: o que está a acontecer em Portugal?

Francisco Ferreira, presidente da ZERO, acredita que “quer à escala das políticas, quer à escala dos indivíduos” ainda há um caminho a percorrer.

Se o mar invadir as zonas costeiras, as cheias começarem a ser recorrentes, as tempestades se formarem a uma velocidade nunca antes vista, as secas impedirem a agricultura, o aquecimento global provocar a escassez de água, as ondas de calor passarem a ser a normalidade e aparecerem novas doenças e desaparecerem animais e plantas. O que poderá acontecer?

Por ano morrem em Portugal cerca de 200 pessoas devido às alterações climáticas e as mais vulneráveis são as mais afetadas. Em todo mundo calcula-se que morram 10.000 todos os anos, a maioria nos países do sul do globo.

Segundo um estudo da revista científica Lancet, o cumprimento do Acordo de Paris poderia salvar milhões de vidas até 2040 em pelo menos nove países, que representam metade da população mundial e 70% das emissões de gases com efeito de estufa: Brasil, China, Alemanha, Índia, Indonésia, Nigéria, África do Sul, Reino Unido e Estados Unidos. Mas para ser possível salvar milhões de vidas é preciso políticas consistentes com os objetivos do Acordo de Paris e impedir que as temperaturas globais subam mais de 2ºC, e de preferência 1,5ºC, defende o estudo.

Portugal foi a primeira nação do mundo a anunciar, em 2016, uma meta para atingir a neutralidade carbónica. O compromisso é conseguir alcançar um balanço entre a emissão de gases com efeito de estufa e o carbono sequestrado por sumidouros em 2050.

“É um caminho longo até à neutralidade climática”, constata Francisco Ferreira, presidente da Associação ZERO, mas estão a ser feitos “fortíssimos investimentos no sentido de reduzir a nossa pegada, por exemplo no que diz respeito às energias renováveis”, acrescenta.

Francisco Ferreira coloca a hipótese de a data para atingir a neutralidade carbónica ser antecipada “dada a emergência climática que o mundo vive”. Portugal ainda é “um país muito dependente dos combustíveis fósseis”, mas o presidente da ZERO acredita que “quer à escala das políticas, quer à escala dos indivíduos” ainda há “uma margem muito grande para percorrer” e que entende que deve ser acelerada.

A escala e o caminho para a diminuição das emissões

Desde 1990 que as emissões de gases com efeito de estufa, causadoras do aquecimento global e consequentes alterações climáticas, começaram a aumentar em Portugal. A partir do ano de 2005 verificou-se uma redução e Francisco Ferreira aponta duas razões: “Alguns anos depois por causa da crise económica e por lado porque começámos a ter várias fontes renováveis”.

No entanto quando a crise atenuou, em 2014-2015, as emissões voltaram a aumentar e só agora se voltou a registar uma diminuição: “Por exemplo, com a retirada das centrais a carvão é que nós estamos a ter uma redução significativa, mas [há] muitas áreas em que estamos em falta”, diz Francisco Ferreira.

Uma das áreas mais críticas é o edificado: “Nós continuamos a não ter conforto térmico em nossas casas”. Portugal é o país da União Europeia (UE) com os valores mais baixos de poupança energética nos edifícios residenciais, de acordo com um relatório do grupo de investigação da Comissão Europeia. Francisco Ferreira defende que são necessárias apostas “onde não seja à custa do ar condicionado, mas sim à custa de melhor isolamento” que se consiga conforto térmico, para que no futuro seja possível reduzir as emissões.

Mas existem outros setores, como a agricultura, em que há atividades que, apesar de produzirem alimentos, estão associadas a emissões significativas, como a agropecuária.

“O metano é um gás com efeito de estufa e a produção de gado bovino, principalmente de forma intensiva, acaba por ter um papel ainda importante e que se relaciona com a nossa própria seleção do que é a nossa alimentação, que deveria ter uma componente mais vegetariana e reduzirmos nomeadamente o consumo de carne”, explica Francisco Ferreira.

O objetivo para Portugal até 2030 é uma redução de 45 a 55% das emissões de gases com efeito de estufa, mas para a ZERO, e para o país estar em linha com o Acordo de Paris, deveria ser atingida uma redução de 65% das emissões: “Nós achamos que isso é possível se realmente desempenharmos as políticas na área da mobilidade e com o investimento nas [energias] renováveis”.

Portugal tem vindo a investir na energia solar e até há pouco tempo “apenas cerca de 2-3% [da eletricidade] era de origem solar”, o que para o professor universitário significa que há “uma enorme margem de aumento, bem como também noutras áreas das renováveis”.

“Esta questão da promoção da eletricidade é muito importante porque representa um quarto das emissões de gases com efeito de estufa”, explica.

O fecho das centrais a carvão, onde as “emissões são muito significativas”, “estava inicialmente previsto para 2030” e foi antecipada para 2021: “Estamos a fazer esta transição, digamos assim, neste setor e estamos a melhorar, mas é um caminho ainda longo”. No entanto, enquanto a “produção de eletricidade tem vindo a reduzir”, existe “um setor que tem vindo a aumentar muito o seu peso, apesar de começar a haver esforços grandes de redução na área da mobilidade”: “Os transportes neste momento já devem estar próximos dos 30% [das emissões]”.

Francisco Ferreira defende que enquanto houver “muito investimento naquilo que é o caminho errado em relação ao combate às alterações climáticas” ainda não se está “fazer o suficiente”.

“A tendência é continuar a agravar-se e quando nós tomarmos as medidas que podíamos ter antecipado vai demorar muito mais tempo a recuperar.”

Os “efeitos efetivamente dramáticos” das alterações climáticas

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas prevê “efeitos efetivamente dramáticos”. E o Mediterrâneo, incluindo Portugal, é apontado como uma das regiões mais vulneráveis do mundo às alterações climáticas.

“Não é uma questão de estarmos aqui a reagir ao medo, mas é aquilo que a ciência nos diz”, reflete Francisco Ferreira.

Neste momento a “folga já é pequena”: “Nós praticamente já estamos num aumento de 1,1ºC [em relação à era pré-industrial]”. E segundo o relatório do IPCC o “desejável” é que o aquecimento mundial até 2100 seja de 1,5 ºC.

Se o aumento da temperatura for superior a este valor em relação à era pré-industrial, explica Francisco Ferreira, haverá “um aumento do nível do mar, que vai pôr em causa as populações costeiras, um maior número de eventos meteorológicos de secas e cheias, doenças que antes não [existiam]”, poderão desaparecer “várias espécies florestais e agrícolas em Portugal porque não conseguem viver nas novas condições climatéricas” e “obviamente uma falta de água maior, que se prevê com o aquecimento global que vai afetar a Península Ibérica”.

As consequências do aumento da temperatura vão desde a saúde até à economia e se não se trabalhar a partir de agora na “mitigação, redução das emissões, e ao mesmo tempo na adaptação” os “custos serão muito grandes” no futuro.

Para Francisco Ferreira, tudo o que for feito preventivamente vai “sair mais barato a médio-longo prazo”, porque não será necessário lidar com os impactos das alterações climáticas: “Reduzir as emissões tem custos de investimento, [mas] acaba por ser um excelente investimento, se forem medidas estruturantes”.

No entanto, defende que deve ser feito “com um enquadramento em termos de sustentabilidade”, ou seja não ser pensado apenas como uma questão de clima, há que garantir “o bem-estar e qualidade de vida, não é um regresso à idade da pedra”. Para isso é fundamental “reduzir as emissões protegendo [ao mesmo tempo] as populações mais vulneráveis”.

E para que aconteça uma transição justa terá de haver planeamento. Francisco Ferreira dá o exemplo do fecho da refinaria de Matosinhos, que “não aconteceu bem porque esse planeamento não foi feito”: “É não encerrarmos a refinaria de um momento para o outro, é planearmos o inevitável encerramento da refinaria”.

“Precisamos de fazer muito mais e mais depressa”

O processo passa por trabalhar na mitigação, ou seja na redução das emissões, e ao mesmo tempo na adaptação às alterações climáticas.

Na mitigação, “o mais importante será olhar para os setores que são mais críticos em termos de emissões”, como a produção de energia e os transportes. Francisco Ferreira traça alguns objetivos neste âmbito:
  • Mobilidade mais sustentável;
  • 100% de eletricidade renovável em 2035;
  • Toda a energia, não apenas a eletricidade, renovável em 2040;
  • Mudar hábitos de consumo, no que diz respeito à quantidade de bens consumidos;
  • Promover uma economia circular;
  • Reduzir o desperdício.
Na adaptação, destaca o papel dos municípios, onde vários “estão a identificar à sua escala como é que vão lidar com cheias, falta de água, subida do nível do mar, tempestades”.

“O papel das cidades, das autarquias é absolutamente crucial. Porque nós devemos ter planos para a energia e clima, devemos fazer disso uma prioridade em todos os municípios para que se tornem mais resilientes, salvaguardando as populações a médio e longo prazo”, refere.

Porém, existem outros campos onde a adaptação às alterações climáticas está a acontecer, como em alguns sectores da agricultura, diz Francisco Ferreira, como a vinicultura, que já está a planear o que é que pode e deve fazer para lidar com o aumento da temperatura; ou a produção de cortiça, onde o sobreiro “estará em risco também com as alterações climáticas”.

O presidente da ZERO diz que existe “todo um conjunto de ideias para a adaptação que têm de passar do objetivo para a ação”.

“Nós precisamos de fazer muito mais e mais depressa, não vai ser fácil, vai ter sem dúvida uma tradução na economia, que vai chegar ao consumidor, mas é preciso acelerar realmente estas ações.”

Francisco Ferreira admite que nos últimos anos a redução de emissões deveria ter sido mais acentuada “do que tem verdadeiramente acontecido”, reforçando que quanto mais depressa se atuar “mais barato sai e melhores garantias” existem “de que efetivamente a humanidade fica mais salvaguardada, principalmente os mais vulneráveis”.

Por isso considera “muito importante” que haja cada vez mais pessoas sensibilizadas e que entendem a “urgência destas medidas”, mas o essencial é que os Governos tomem medidas que “devem ser concertadas à escala europeia e internacional”.

“O grande problema das alterações climáticas é precisamente esta questão de nós termos uma dependência completa uns dos outros, não basta os EUA fazerem o seu papel, não basta a Europa estar na linha frente, não basta Portugal agora ter um conjunto de investimentos grandes na ferrovia ou em várias áreas para conseguir reduzir as suas emissões, é preciso realmente que todos vão nesse sentido.”

Para a COP 26, Francisco Ferreira explica que haverá uma “agenda ainda complicada”, com diversos assuntos em cima da mesa, mas o “mais importante de todos é realmente aquele que diz respeito às metas que os países vão enunciar e se vão comprometer”: “Temos de fazer esta redução para nosso próprio bem e principalmente para aqueles que virão a seguir e que precisam de encontrar um planeta em condições não tão dramáticas como os cientistas anteveem”.© SIC Notícias

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Áustria prepara-se (e prepara a população) para risco de apagão


“A questão não é se haverá um grande apagão, mas quando”, disse a ministra da Defesa. Além de uma campanha com conselhos sobre o que fazer para se estar prevenido, o país vai fazer investimentos adicionais em áreas como o contraterrorismo e defesa cibernética. Cem quartéis deverão ser autossuficientes em matéria de abastecimento de água, comida e energia até 2021


A Áustria está preocupada com a possibilidade de um ‘apagão’ num futuro próximo e, por isso, empenhada em preparar-se para essa eventualidade. Por um lado, as autoridades lançaram uma campanha para o público, ensinando o que fazer para fazer frente a uma falha de energia por tempo indeterminado; por outro, a ministra da Defesa, Klaudia Tanner, anunciou uma série de investimentos, com vista, nomeadamente, à “ecologização” militar.

Tanner já o tinha dito em abril: “A questão não é se haverá um grande apagão, mas quando”, um risco que considera subestimado. Foi agora mais longe, ao criticar a União Europeia (UE), sublinhando ser uma ilusão que os Estados-nação ainda tenham a capacidade de enfrentar ameaças como esta por conta própria.

“Uma falácia fatal”, frisou, para acrescentar que essa falta de capacidade não é válida apenas para a Áustria, mas para todos os países da UE.
“Quero dizer com toda a clareza: a UE tem que parar de falar apenas sobre Política Comum de Segurança e Defesa e começar a entregar essa segurança à sua população”, afirmou Klaudia Tanner.

O país está a dar passos nesse sentido. No início de outubro foi lançada a campanha informativa, divulgada nos media e em ‘outdoors’, para explicar “o que fazer quando tudo parar”. Os conselhos são muito práticos: ter reservas de água e comida para vários dias, combustível, fogão portátil a gás, algum dinheiro, velas, pilhas e outros artigos essenciais à mão. A referência dada pelo Exército austríaco é preparar um armazenamento como se estivesse em causa uma estadia de duas semanas num acampamento.

Num cenário sem semáforos, computadores, caixas multibanco, internet ou telemóveis, também é recomendado antecipar um esquema de colaboração com familiares e vizinhos, forma de garantir que, em caso de necessidade, ninguém fica sem assistência.

QUARTÉIS AUTOSSUFICIENTES

Quanto à preparação do país, a ministra da Defesa anunciou investimentos adicionais em contraterrorismo, defesa cibernética e controle de acidentes, com a Áustria a planear investir até 800 milhões de euros na chamada “ecologização” do sector de defesa.

A meta está traçada. A partir de 2025, cem dos principais quartéis austríacos serão o mais autossuficientes possível em termos de produção de energia e abastecimento de alimentos, água potável e combustível.
De acordo com o que explicou um tenente-coronel à agência Efe, a partir daí, em caso de apagão, o passo seguinte é apoiar bombeiros e médicos, seja com energia elétrica ou ajuda em termos de coordenação. As Forças Armadas já ensaiaram cenários de catástrofe.

Para o ministro do Interior, Karl Nehammer, um apagão é “uma das maiores ameaças para um Estado moderno”, e pode ter várias origens. A acontecer, as suas potenciais consequências não se ficam pelos problemas de abastecimento, podendo gerar ondas de saques e instabilidade social que coloquem em perigo as infraestruturas mais sensíveis, outra área a exigir a intervenção das forças de ordem.

Carros híbridos são "desastre ambiental" e Estado deve eliminar apoios à compra, diz Zero


Num comunicado divulgado este domingo, a Zero revela as conclusões de um estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambiente, à qual pertence, e segundo o qual este tipo de veículos (PHEV, na sigla em inglês) regista emissões reais que podem ser quase o dobro daquilo que é anunciado, tendo por base testes "em condições reais" de utilização realizados aos três modelos mais vendidos na Europa em 2019: um BMW X5 (o PHEV disponível no mercado com maior autonomia), um Volvo XC60 e um Mitsubishi Outlander.

"O estudo concluiu que, mesmo em condições de teste ótimas, em que os veículos são utilizados da forma mais moderada possível e com as baterias completamente carregadas, as suas emissões são 28%-89% superiores às contabilizadas nos testes. Se forem utilizados em modo convencional, ou seja, usando exclusivamente o motor a combustão, estes carros emitem três a oito vezes mais CO2 [dióxido de carbono] do que aquilo que os testes indicam", refere o comunicado da Zero.

A associação ambientalista acrescenta que "se adicionalmente o motor a combustão for utilizado para carregar as baterias -- algo frequente antes de os condutores entrarem em zonas urbanas de emissões reduzidas -- as emissões, de CO2 e em geral de poluentes com efeitos nocivos diretos na saúde, vão até 12 vezes acima das anunciadas oficialmente".

Os testes constataram níveis de autonomia em modo elétrico inferiores aos publicitados, com o caso mais baixo a corresponder "a uns meros 11 quilómetros", além de concluírem que em condições reais de utilização "o recurso ao motor a combustão é constante", o que significa que "estes automóveis só cumprem o anunciado nos catálogos em viagens muito curtas; por exemplo, numa viagem de 100 quilómetros, emitem até cerca de duas vezes mais do que o valor oficial".

Para a Zero, os testes que regulamentam oficialmente o nível de emissões destes veículos têm o problema de assentar "na suposição excessivamente otimista da parcela de utilização em modo elétrico, ou seja, o fator de utilização elétrica, resultando em valores de CO2 irrealisticamente baixos".

Por isso, previsões mais de acordo com a utilização elétrica real colocariam os níveis de emissões em "valores oficiais 50%-230% superiores aos atualmente em vigor".

A associação ambientalista refere o aumento de vendas de carros PHEV na Europa, com meio milhão de unidades vendidas em 2020, sendo que em Portugal foram vendidos até outubro 8.300 automóveis, "praticamente o dobro do que se vendeu no mesmo período de 2019". Os novos limites em vigor na União Europeia obrigam os fabricantes a vender automóveis com baixas emissões.

A premissa do estudo hoje divulgado era precisamente perceber se as emissões publicitadas correspondiam à redução para um terço das dos automóveis convencionais equivalentes, como os fabricantes anunciam, ou se "são um truque para cumprir os requisitos legais".

Com base nos resultados, a Zero pede o fim dos benefícios fiscais e subsídios para a compra destes veículos, referindo que estes estão estimados em mais de 43 milhões de euros para 2020 em Portugal.

Trata-se de um valor que está a ser desbaratado no apoio a uma tecnologia poluente e que por isso, recomenda a Zero, deve ser canalizado sem demora para tecnologias verdadeiramente verdes", defende a associação.

A Zero entende que estes apoios devem ser reservados para carros 100% elétricos, recomendando que numa fase transitória os apoios e acesso a subsídios sejam concedidos para veículos com uma autonomia mínima de 60 quilómetros e "acesso comprovado" a pontos de carregamento.

Já a redução do Imposto sobre Veículos deve baixar dos 75% para os 25% e as empresas só devem poder reaver metade do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) e não a totalidade, como atualmente.

A nível europeu a Zero pede que deixem de ser atribuídos "supercréditos" à venda de carros PHEV e que os testes passem a ter por base condições reais de utilização. Sugere ainda que a Comissão Europeia legisle para que sejam contabilizadas as emissões reais, apuradas com base no uso registado no computador de bordo do veículo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

1 em Cada 5 Espécies de Aves Está Ameaçada. “As Eólicas São Autênticos Picadores De Carne”

A atualização da Lista Vermelha das Aves da Europa 2021, lançada em outubro deste ano, conclui que 1 em cada 5 espécies de aves na Europa está ameaçada de extinção. Algumas das razões apontadas pela BirdLife International, associação que realizou o estudo, são a agricultura intensiva, a sobrexploração dos recursos marinhos e a poluição das águas. O relatório avaliou o risco de extinção de 544 espécies de aves em mais de 50 países do continente europeu.
Em entrevista à Escola de Ciências, Pedro Gomes, professor do Departamento de Biologia, reflete sobre alguns dos maiores problemas que assombram os diferentes tipos de aves e a tendência de extinção das espécies. A falta de apoio financeiro para os estudos, os biocidas, a crescente urbanização, a destruição de habitat e a sua simplificação são outros destaques da entrevista.

Pedro Gomes é licenciado em Biologia pela Universidade do Porto e doutorado em Ciências pela Universidade do Minho. A sua carreira académica tem estado sempre ligada às áreas da Ecologia e da Zoologia. Parte do seu percurso esteve ligado à ecologia terrestre e à conservação da natureza, com ligações fortes às áreas montanhosas do norte de Portugal. Nos últimos anos, a sua atividade tem-se centrado na zona costeira e no domínio da ecologia e biologia marinha. Em todo o seu percurso, a educação ambiental e a divulgação científica foram sempre uma forte componente da sua atividade, para além da docência em cursos de graduação e pós-graduação.

A Lista Vermelha das Aves da Europa 2021 afirma que 1 em cada 5 espécies de aves está ameaçada. Este número é preocupante?


É um número preocupante. Quando nós falamos das aves, pensamos nas aves em geral, mas há grupos muito mais sensíveis do que outros. Ainda não tive oportunidade de ler o estudo, mas imagino que aquelas que acabam por ser as mais ameaçadas são as aves insetívoras, as aves de rapina e as aves aquáticas. Acabam por ser aquelas que são mais sensíveis ao tipo de ações que nós vamos fazendo, como a introdução de substâncias no meio – substâncias que lhe são perigosas –, destruição de habitats e outras coisas que, aparentemente, são mais inocentes, como por exemplo as torres eólicas, urbanização muito à base de vidros, os nossos gatinhos domésticos... Portanto, tudo isso, aliado à simplificação dos sistemas, é catastrófico.

Essas são algumas das ameaças, mas existem mais...


Sim, isso tem a ver, mais uma vez, com a questão do grupo das aves. Quando falamos de insetos e dizemos que estamos muito preocupados com as abelhas, também temos de perceber que temos de nos preocupar com todos os outros insetos, que são tão ou mais importantes que as abelhas e que são a base alimentar de muitas aves. Portanto, tudo aquilo que afeta os insetos, afeta em cascata as aves insetívoras que se alimentam deles.

Depois temos a questão de alteração de habitat. Falo desta simplificação que nós fazemos – e que não tem apenas a ver com os incêndios, que são a causa subjacente à alteração primária – que é a alteração do coberto vegetal espontâneo para coisas uniformes e diria quase industriais, que não é só o eucalipto: são as exóticas, os pinheiros... Portanto, toda esta simplificação que nós estamos a fazer acaba por afetá-las. Outro exemplo de que se tem falado muito é a industrialização da cultura de oliveira no Alentejo e a intensificação do montado de sobro. Tudo isso é catastrófico para este tipo de organismos. As aves migratórias sofrem muito com a urbanização e destruição de zonas que elas utilizavam tradicionalmente, como as zonas húmidas. Falo da urbanização não no sentido de construir casas, mas por exemplo fazer condomínios fechados em espaços naturais e campos de golfe... Tudo isso acaba por ter consequências por estamos a ocupar espaços a que nós não damos valor, mas que são fundamentais para as aves migratórias.

A nível do impacto nas aves de rapina, temos todas estas torres eólicas que nós estamos a espalhar por todo o lado. Seja em terra e agora no mar, são autênticos picadores de carne, porque as aves durante a noite não veem. Infelizmente os estudos no mar são quase impossíveis de fazer, porque o que cai no mar desaparece. Já em terra vai havendo alguma informação. Mas devemos assumir que no mar está a acontecer, senão o mesmo, pior, porque muitas dessas aves são aves costeiras que se deslocam sobre o mar.

Outro dado importante deste estudo é que não existem informações sobre um quarto das tendências populacionais das espécies. Faz falta mais investimento neste tipo de censos?


Vai havendo informação, só que não é fácil. As equipas não são grandes e, mais uma vez, há sítios onde não temos grande possibilidade de ter acesso, como o mar. Acontece também uma outra questão: as metodologias que nos permitem quantificar são complicadas, em termos logísticos, financeiros e de pessoal. Muitas vezes, esses estudos são dirigidos a determinadas espécies e é muito difícil abranger todas. Há muita coisa que nos escapa. Aquilo que é cinegético e que se caça ainda se vai vendo, o que não é cinegético é mais complicado.

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves afirma, no entanto, que também existiu um impacto positivo nestes últimos anos nos trabalhos de conservação, sendo o priolo dos Açores um desses exemplos. O público em geral está consciente sobre o impacto humano na biodiversidade? Como o caso das eólicas, por exemplo.


As eólicas são sempre apontadas como exemplo de uma energia amiga do ambiente mas a realidade é bastante diferente. Essas questões ecológicas acabam por ter impacto, não só na avifauna, mas também a nível dos insetos e as pessoas não têm essa consciência. Tirando aquilo que se come ou que faz companhia, o público em geral pouco conhece do nosso património natural. É um bocado cultural. Veja o exemplo das pessoas que têm gatos. É muito difícil levar essas pessoas a compreender o impacto que o gatinho que anda a passear tem sobre a fauna selvagem. Mas quando nós temos num bairro 50 ou 60 gatos, é óbvio que só podemos ter pardais e melros... Mesmo assim, os pardais já começam a entrar em declínio e, muitas vezes, os responsáveis são os nossos gatinhos, que são máquinas de matar extremamente eficazes. O impacto é bastante grande.

Não é por acaso que o panda tem o sucesso que tem, porque geralmente é um bichinho mediático e dá bons peluches. Se tivermos uma ave que seja bonita e que dê nas vistas, aí poderá, eventualmente, gerar alguma empatia por parte do público. Mas, na maior parte das vezes, isso não acontece e até sucede o contrário: muitas delas são consideradas aves a abater, como rapinas noturnas e diurnas, por vários motivos, nomeadamente superstição. Não são reconhecidos os benefícios que essas aves nos trazem. Isto para já não falar do antigo costume da captura de pequenas aves insectívoras com armadilhas, que é praticada em algumas regiões do país. É um autêntico tiro no pé do agricultor, pois captura às centenas numa manhã só um dos seus mais preciosos auxiliares no combate às pragas. Mas infelizmente são hábitos difíceis de eliminar, apesar de serem ilegais. E a legislação não ajuda, pois recentemente não foi aprovada uma lei que proíba a comercialização e fabrico desse tipo de armadilhas. Ou seja, a consciencialização também tem que chegar às forças políticas, infelizmente.

E o estudo das aves é um bom indicador para percebermos o estado do planeta?


Como tudo. As aves têm vantagem de se ver e de se criar facilmente empatia com elas. Qualquer que seja a categoria taxonómica que se use como indicador, se se acompanhar por tempo suficiente, verificamos que há variações quer nos efetivos, quer no número de espécies presentes numa dada região e isso são sempre bons indicadores. Infelizmente, estudos quantitativos a longo prazo não são fáceis de implementar.