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sábado, 13 de dezembro de 2025

Desligar ou reiniciar o smartphone? FBI explica qual a opção de maior segurança


Muito de nós sempre ouviu dizer que se deve desligar o telemóvel ou o smartphone pelo menos uma vez por semana ou, pelo menos, reiniciar o aparelho. A razão mudou ao longo dos anos mas, essencialmente, a operação promete melhorar a performance, ao eliminar processos de fundo desnecessários, limpar a memória RAM, evitar o sobreaquecimento, ou resolver bugs ou outros problemas momentâneos.

Contudo, cada vez mais se fala numa outra razão, ligada à cibersegurança, um tema tão importante nos dias de hoje. Aqui as opiniões também divergem. Desligar ou reiniciar o smartphone? O FBI e a NSA têm a resposta.

FBI e NSA explicam a melhor opção para a cibersegurança do teu smartphone
Ambas as agências são conhecidas por, entre outros elementos, serem peritas na coleção de informação digital, sendo capazes de alcançar qualquer pessoa e levantando questões sobre o acesso que determinadas entidades devem ter ao cidadão comum. No entanto, o positivo disto, é que são assim as melhores fontes de esclarecimento quanto a este assunto.

Durante anos, tanto o FBI quanto a NSA aconselhavam os utilizadores de telemovel ou smarthphone a desligar os aparelhos completamente pelo menos duas vezes por semana ou, pelo menos, reiniciar. Ambos os concelhos são válidos mas... não se aplicam propriamente aos modelos mais recentes.

Infelizmente, a verdade é que os atacantes estão cada vez mais sofisticados, e muito malware ou spyware consegue sobreviver ao desligar do smartphone. Assim, apesar de não ser completamente inútil, não é bem uma forma infalível de te manteres seguro. Então, qual a solução?

Outros conselhos de ciberseguranca para Android e iOS
Da mesma forma que os cibercriminosos e as empresas de smartphone estão constantemente a sofisticar os seus serviços, também a tua forma de encarar a cibersegurança tem de mudar. Já não estamos nos anos 90 ou 2000. No entanto, não desesperes. As soluções são fáceis de memorizar e é provável que já estejas a adotar algumas.

Por exemplo, é fundamental manteres o teu smartphone atualizado. Tanto a Android como a Apple lançam regularmente atualizações para os seus sistemas operativos, e nem todos são "apenas" bugs que foram corrigidos. Estes updates trazem muitas vezes otimizações no que toca à cibersegurança.

Quanto aos emails, nunca abras links diretamente das mensagens! A Netflix vai cancelar a tua subscrição? Vai ao site da plataforma, abre o teu perfil, e verifica se tens lá um aviso. Tens uma conta de internet para pagar? Vai ao site da operadora. Existe sempre uma forma de confirmares a informação sem teres de clicar em links. E sim, podes e deves confirmar sempre o endereço que enviou a mensagem mas até estes estão cada vez mais sofisticados, como mostrou o mais recente ataque da "Microsoft".

No aparelho em si, deves optar pela biometria ou reconhecimento facial como opção de desbloquear o smartphone ou tablet - até mesmo portáteis. Isto requer a tua presença física, tornando quase impossível o acesso não autorizado. De igual modo, quando crias uma conta em qualquer site, ativa a verificação em dois passos e escolhe passwords fortes e aleatórias - podes e deves usar um gestor de passwords.

Confessa, quantos destes passos de cibersegurança já aplicas no teu dia a dia? Lembra-te que um ataque pode colocar a tua informação pessoal em risco, incluindo cartões de crédito, acessos ao banco, e outros dados sensíveis.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Desmistificando conceitos: o que é a Antroposofia



A antroposofia foi criada no início do século XX pelo filósofo, educador, artista e esoterista austríaco Rudolf Steiner - também fundador da pedagogia Waldorf, da agricultura biodinâmica, da medicina antroposófica e da euritmia. Há até mesmo um Instituto  e uma Faculdade Rudolf Steiner dedicados a disseminar as suas mensagens e ensinamentos.

Segundo a Sociedade Antroposófica do Brasil , ela pode “pode ser caracterizada como um método de conhecimento da natureza do ser humano e do universo, que amplia o conhecimento obtido pelo método científico convencional, bem como a sua aplicação em praticamente todas as áreas da vida humana.”

Justamente por ser tão ampla é que ela pode ser aplicada em diversas frentes, como educação, agricultura, arquitetura e até na medicina. A palavra vem do grego e significa “conhecimento humano”, e é feita de conceitos que dizem respeito à capacidade do ser humano moderno de pensar e compreender o mundo.A Antroposofia busca entender a relação que o mundo ao nosso redor exerce sobre nós

Essa busca pela verdade permeia entre a fé e a ciência, mas define basicamente que a realidade é essencialmente espiritual: ajuda-se o indivíduo a superar o mundo material para então entender o mundo espiritual. Esse entendimento é de suma importância pois, segundo a Antroposofia, há um tipo de percepção independente, não atrelado ao seu corpo, que foge do nosso entendimento físico.

Indo além

Para Steiner, o simples fato de termos consciência do nosso pensar - pois sabemos quando estamos pensando - já demonstra que temos acesso à um outro tipo de consciência, incapaz de ser “rastreada” de maneira física. Num exame, por exemplo, você consegue atestar movimentações cerebrais durante o processo do pensamento, mas não consegue capturá-lo em si.

Em seus escritos, o filósofo definiu a corrente de pensamento como "um caminho de conhecimento para guiar o espiritual do ser humano ao espiritual do universo." Portanto, quem está disposto a mergulhar nessa linha, deve saber que seu objetivo principal é “tornar-se ‘mais humano’, ao aumentar sua consciência e deliberar sobre seus pensamentos e ações; ou seja, tornar-se um ser ‘espiritualmente livre’.”

É fato que o estudioso deixou um grande legado para as diferentes áreas citadas no começo dessa matéria, uma vez que os conceitos dessa filosofia podem ser aplicados de diferentes maneiras. Sua obra toda publicada conta com mais de 350 livros, alguns escritos, e outros frutos de suas mais de 6.000 palestras.

Ele chegou até mesmo a ser presidente da Sociedade Teosófica da Alemanha, corrente que “busca o conhecimento da divindade para alcançar a elevação espiritual”. Mas rompeu com o grupo por considerar que os mesmos não tratavam o Cristianismo e a própria figura do Jesus Cristo com a importância que lhe competiam.

Antroposofia e ciência

Uma das grandes expectativas da Antroposofia é que haja uma renovação das pesquisas científicas, ainda assumindo o antropocentrismo (homem no centro de tudo), mas admitindo também a interferência da natureza. Trazer essa espécie de sensibilidade para os estudos mais complexos pode ser muito vantajoso para a ampliação de teorias, sobretudo na produção de novos medicamentos. Com o aumento dos estudos acerca do tema, aumentou-se também as possibilidades de aplicação - uma delas, no campo da saúde.

E pode-se dizer que isso já está sendo feito. A medicina antroposófica, por exemplo, tem ganho cada vez mais terreno e adeptos, e consequentemente estudos voltam-se para ela. Dentro das práticas dessa medicina, estão incluídos processos terapêuticos como massagens, exercícios, acompanhamento psicológico e alguns medicamentos mais naturais.

A existência dessa corrente aplicada às práticas medicinais geram controvérsias e polémicas, pois não há nenhum estudo científico que comprove sua eficácia, somente testemunhos de pacientes e algumas análises clínicas. O indicado é que as técnicas antroposóficas sejam complementares à outros tratamentos. Você confere no vídeo a seguir, feito pela Associação Brasileira de Medicina Antroposófica, a explicação do médico Bernardo Kaliks sobre um pouco mais desse universo.

Por fim, os antroposóficos insistem que a corrente não é misticismo, ou seja, “baseado em sentimentos e em visões imagéticas sem que sejam acompanhados de um pensamento cognitivo”, mas sim, “fruto de observações permeadas por um pensamento consciente, e é transmitida sob forma de conceitos”.

Ele também não se denomina como religião, não emprega práticas do mediunismo e não possui caráter secreto. A Antroposofia dispensa o que chamam de moralismo, renega a Teosofia (explicada anteriormente) e não pretende ser uma sociedade fechada, mas sim, uma expansão de conhecimento para todos. E você, acredita que fé e ciência podem andar juntos?

sábado, 23 de abril de 2005

Kesang Marstrand: Tibet will be free


A história da relação entre a China e o Tibete é um dos capítulos mais complexos e sensíveis da geopolítica contemporânea. O que para Pequim é uma "libertação pacífica" de um sistema feudal, para o governo tibetano no exílio e grande parte da comunidade internacional é uma ocupação militar que alterou irreversivelmente o destino de uma cultura milenar.

1. Contexto e Causas da Invasão
A invasão começou efetivamente em 1950, pouco depois de Mao Tsé-Tung ter estabelecido a República Popular da China. As causas foram essencialmente estratégicas e ideológicas:
  • Segurança Geopolítica: o Tibete servia como uma "zona tampão" crucial entre a China e a Índia.
  • Recursos Naturais: o controlo das nascentes dos principais rios da Ásia e de vastas reservas minerais.
  • Unificação Nacional: o PCC (Partido Comunista Chinês) reivindicava o Tibete como parte histórica da China, apesar de o território ter gozado de uma independência de facto entre 1912 e 1950.
Em 1951, sob pressão militar, representantes tibetanos assinaram o "Acordo de 17 Pontos", que formalizou a soberania chinesa mas prometia autonomia cultural e religiosa — uma promessa que, segundo os tibetanos, nunca foi cumprida.

2. A Religião e a Resistência
A religião não é apenas uma crença no Tibete; é a espinha dorsal da sua identidade política e social. O Budismo Tibetano e a figura do Dalai Lama representavam o antigo sistema de governo (teocracia).
  • Consequências Religiosas: durante a Revolução Cultural (1966-1976), milhares de mosteiros foram destruídos e textos sagrados queimados. A prática religiosa foi severamente restringida.
  • Fuga para o Exílio: após o levantamento falhado de 1959, o 14.º Dalai Lama fugiu para a Índia, onde estabeleceu um governo no exílio em Dharamsala, que permanece ativo até hoje.
3. Impactos Socioambientais
O Tibete é frequentemente chamado de "Terceiro Polo" devido às suas reservas de água doce (glaciares).
  • Exploração Mineira e Barragens: a China construiu mega-barragens que alteram o fluxo de rios que abastecem o Sudeste Asiático e a Índia, gerando tensões internacionais.
  • Urbanização Forçada: programas de recolocação de nómadas tibetanos em "vilas socialistas" destruíram o modo de vida tradicional de pastoreio, forçando a integração numa economia monetária onde os tibetanos raramente conseguem competir com os migrantes Han.
4. Situação Atual: Resistência vs. Aculturação
Atualmente, o Tibete vive sob uma vigilância tecnológica extrema. A estratégia chinesa evoluiu de uma repressão puramente militar para uma aculturação sistemática:
  • Sinização: o ensino do Mandarim é prioritário em detrimento da língua tibetana. O governo chinês investe fortemente em infraestruturas (como a linha ferroviária Qinghai-Tibet) para facilitar a migração em massa da etnia Han para a região, diluindo a demografia local.
  • Resistência Silenciosa: Perante a impossibilidade de protestos armados ou políticos, a resistência manifestou-se de formas trágicas, como a vaga de autoimolações de monges e leigos na última década, ou através da preservação clandestina da língua e tradições.
  • A Sucessão: o próximo grande ponto de rutura será a morte do atual Dalai Lama (atualmente com 90 anos). A China já afirmou que tem o direito de escolher o seu sucessor, enquanto o Dalai Lama sugere que poderá não reencarnar ou que o fará fora do controlo chinês.
Em suma, o Tibete enfrenta hoje um dilema existencial: embora a modernização trazida pela China tenha melhorado indicadores económicos e de saúde, o preço tem sido a erosão acelerada da identidade única do povo tibetano, num processo que muitos académicos descrevem como um "genocídio cultural" silencioso.

Considerando esta pressão económica e digital, não  acredito que o modelo de "autonomia genuína" proposto pelo Dalai Lama (o chamado Caminho do Meio, onde o Tibete aceitaria ser parte da China em troca de liberdade cultural real) ainda é viável face à atual postura de Pequim
A viabilidade do "Caminho do Meio" (Middle Way Approach) tem-se esboroado perante uma China que, sob a liderança de Xi Jinping, não mostra qualquer abertura para o pluralismo político ou descentralização.

Existem três razões principais que sustentam o meu "não":
1. A Mudança de Paradigma em Pequim
Antigamente, o governo chinês ainda mantinha diálogos intermitentes com representantes do Dalai Lama. Hoje, essa porta está fechada. A estratégia atual não é negociar a autonomia, mas sim integrar totalmente o Tibete através da "Sinização". Para Pequim, qualquer concessão de autonomia é vista como um passo perigoso para a fragmentação do Estado (o medo do "efeito dominó" com Taiwan ou Xinjiang).

2. O Factor Tempo
A China está a jogar o "jogo longo". Eles acreditam que, com o falecimento do atual Dalai Lama, o movimento no exílio perderá a sua figura de união e o seu maior trunfo diplomático. Sem o carisma e a autoridade moral dele, a pressão internacional sobre o Tibete tende a diluir-se, tornando a "questão tibetana" um assunto interno chinês consolidado pelo tempo.

3. A Transformação Demográfica e Tecnológica
Com a vigilância facial, o controlo de dados e a migração de milhões de cidadãos da etnia Han para o planalto, a realidade no terreno mudou. Mesmo que Pequim concedesse autonomia amanhã, o tecido social do Tibete já está tão alterado que a "autonomia genuína" seria difícil de implementar na prática.

Nota de Rodapé Histórica: O Dalai Lama defende este modelo desde os anos 70, argumentando que a modernização da China poderia beneficiar o Tibete se a cultura local fosse respeitada. No entanto, a ala mais jovem e radical do exílio (como o Tibetan Youth Congress) tende a concordar comigo: acham que o diálogo falhou e que a única saída - embora improvável - seria a independência total.

Com a via do diálogo bloqueada, parece que o destino do Tibete está agora mais dependente de uma mudança interna imprevisível no próprio sistema político chinês do que de qualquer negociação diplomática.