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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Dia Internacional do Tigre - do Sandokan à realidade

Quando Emilio Salgari criou o Sandokan no final do século XIX, batizou-o de "Tigre da Malásia" por uma razão simples: na altura, o tigre era o símbolo supremo de uma natureza selvagem, perigosa e indomável, reinando sem rival nas selvas aparentemente infinitas do Sudeste Asiático.

Décadas mais tarde, em 1976, essa figura nobre e invencível ganhou nova vida com a chegada da minissérie da RAI à RTP. Eu tinha 10 anos e o impacto foi enorme. Para os adolescentes da minha geração, o fascínio por Sandokan era inevitável. Tinha tudo: o exotismo de Bornéu e da Malásia, o carisma inegável de Kabir Bedi, a beleza de Marianna - a "Pérola de Labuan" e filha do seu grande inimigo -, a presença marcante do português Yanez de Gomera (interpretado por Philippe Leroy), o sopro irreprimível de aventura e liberdade e, claro, aquela música do genérico que nos ficava a soar na cabeça durante dias.

Fiquei tão rendido que fui de propósito à biblioteca requisitar o livro. Li-o de fio a pavio.

A RTP voltou a transmitir a minissérie, já a cores, na década de 1980
O problema é que, enquanto a ficção vendia o tigre como uma fera imparável, a vida real encarregava-se de fazer o oposto.

Ao longo do século XX, o avanço humano destruiu quase tudo à sua passagem. A desflorestação para a exploração de madeira e para as plantações de palma de óleo cortou as florestas ao meio. A juntar a isto, a caça ilegal para o comércio clandestino de peles e ossos deu o golpe final. Em poucas décadas, o tigre perdeu mais de 90% do seu território original.

A ironia é trágica: no Camboja, no Laos e no Vietname, o tigre já desapareceu completamente da natureza. E na própria Malásia - a terra do herói da televisão -, restam  menos de 150 tigres selvagens a lutar para não se extinguirem de vez.

Hoje, os esforços de conservação em países como a Índia ou o Nepal mostram que nem tudo está perdido e que o número de tigres começou finalmente a subir. Mas o contraste entre a lenda e a realidade fica para a história: o animal que serviu de inspiração para um dos maiores símbolos de coragem e liberdade da televisão revelou-se, afinal, extremamente vulnerável às ações do homem.

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domingo, 7 de abril de 2024

Música do BioTerra: Zanias - Thanatos (feat. Lynette Cerezo of Bestial Mouths)

Melhor som aqui
O toque de Thanatos

Zanias, nome artístico da compositora e produtora australiana Alison Lewis - conhecida por ter sido criada no Sudeste Asiático e radicada no epicentro da música eletrónica em Berlim -, uniu forças com a vocalista norte-americana Lynette Cerezo, líder do projeto industrial Bestial Mouths, para criar a faixa Thanatos. Musicalmente, a colaboração se enquadra perfeitamente nas ramificações mais sombrias da darkwave, do EBM (Electronic Body Music) e do post-industrial. A sonoridade é construída sobre sintetizadores densos e batidas eletrónicas pulsantes, servindo de base para vocalizações ritualísticas que alternam entre o tom etéreo de Zanias e a entrega visceral e gutural de Cerezo.

O significado da canção e do seu videoclipe gravita em torno da transitoriedade da vida e do confronto com a finitude. O título remete diretamente ao termo grego para a morte, e a letra funciona como uma catarse ritual sobre a purgação da dor, o colapso dos ciclos psíquicos e o desapego da identidade. No videoclipe, essa atmosfera é traduzida por meio de uma estética minimalista, obscura e altamente corporal. A linguagem visual aposta no transe, na sombra e no contraste de luzes para encenar uma simbiose entre as duas artistas, evocando um ritual de integração da sombra interior (shadow work) e de aceitação do inevitável fim.
Lynette Cerezo (Bestial Mouths) recorre a uma estética vocal post-industrial e gótica visceral, marcada por gritos guturais, projeções dramáticas, respirações audíveis e vocalizações pontuais de transe (mais próximas do sprechgesang ou de cantos rituais do que do lirismo técnico tradicional).

Essa narrativa visual e sonora é profundamente ancorada em referências filosóficas, literárias e psicanalíticas. A principal delas é a teoria freudiana da pulsão de morte (Thanatos), que descreve o impulso inconsciente que impele o indivíduo a buscar a cessação das tensões mentais e o retorno ao estado inorgânico de paz. Paralelamente, a obra dialoga com o existencialismo - abordando a angústia diante da finitude humana presente no pensamento de filósofos como Nietzsche e Kierkegaard - e com o Romantismo Sombrio do século XIX, que enxerga uma beleza trágica na degradação, na melancolia e no mistério que cerca o desconhecido.

Página oficial

Biografia

Entrevista

sexta-feira, 15 de junho de 2018

An Outbreak of Nipah Virus in India Can Help Explain the Future of Infectious Disease


India’s Kerala state has just faced an outbreak of Nipah virus. Seventeen people have died so far. That wouldn’t seem so serious, but only eighteen people were infected.  To make matters worse, there is no known cure or vaccine for Nipah – all doctors can offer is supportive treatment while the victim’s immune system attempts to fight off the virus, which causes brain damage.

Nipah is a near perfect example of an emerging infectious disease. Its history and evolution follow the pattern of almost every new virus.

First of all, it’s not actually new. When we say Nipah is an “emerging” infectious disease, we mean that it is emerging into humans and domestic animals. The virus itself has been in existence for a long time; it’s not something that recently evolved out of nowhere. But it was only identified in 1998, when it first infected humans in Malaysia in the village of Sungai Nipah. In the 1970s, intensive pig farming started in Malaysia, with farmers expanding farmland into wild areas. Nipah, it turns out, was already present in fruit bats. Bats infected pigs, and then pigs infected people. 265 people were infected, and 40% of them died.

Next, Nipah is a Zoonotic disease. It circulates among animals, and can then infect humans. In this case, Nipah has a wild animal reservoir – bats – and when humans began to expand into bat territory, the infection spread. Ebola is the same way; it’s present among wild bats and every so often it spreads into the human population and then among people. As people take over the last wild spaces on the planet, we’re going to see more virus outbreaks like Nipah.

And, finally, like so many viruses, Nipah has no cure. Bacterial infections can almost always be treated or cured through some combination of antibacterial drugs. Viruses are much more difficult to target. HIV can be treated, not cured; the same is true of the herpes virus. There are drugs that treat the influenza virus, but their effectiveness is limited.

This Nipah outbreak was probably caused by bats. Pigs have been ruled out as the infection source. While the India health authorities have not yet identified Nipah in bats in Kerala, Nipah is present it bats all through South and Southeast Asia and it is challenging to identify viruses in wild animals like bats, especially since bats carry the circus without actually getting sick. It’s most likely that some unfortunate person came into contact with a bat or a fruit contaminated with bat saliva and was directly infected.

So far the Indian response has also been exemplary. The outbreak in India seems to be under control. The first cases were identified in Kozhikode district, and were promptly reported to the Indian Ministry of Health and the World Health Organization. The Ministry of Health sent a response team immediately to support response. The Kerala Department of Health and Family Welfare has identified and quarantined every Nipah patient, and they are tracing their contacts to identify people who may have been exposed.

This, though, is what the future looks like. Zoonotic diseases and human deaths, apparently out of the blue. When we’re lucky, the response will look like this too.

Artigos científicos

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Feliz Dia da Terra. Happy Earth Day.



Aerial view of rainforest in Borneo using aerial spectroscopy. Image by Greg Asner and Nick Vaughn, ASU Center for Global Discovery and Conservation Science.

EARTHDAY.ORG’s founders created and organized the very first Earth Day on April 22, 1970, when 20 million people mobilized across the USA calling for greater protections for our planet.

Since then, EARTHDAY.ORG has been mobilizing over 1 billion people annually on Earth Day, and every other day, to protect the planet.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A ilusão verde de Hollywood: o paradoxal império de Leonardo DiCaprio


Por um lado, discursos inflamados na ONU e doações milionárias para a preservação dos oceanos e causas ambientais globais. Por outro, superiates de oligarcas petrolíferos e escândalos de corrupção financeira. Como é que o maior ativista de Hollywood continua a esquivar-se à sua própria pegada de carbono e moral?

No ecossistema mediático contemporâneo, poucas figuras encarnam tão perfeitamente a contradição da elite cultural do Ocidente como Leonardo DiCaprio. Celebrado globalmente não apenas pelo seu talento incontestável no ecrã - reforçado recentemente pelo estrondoso sucesso de O Lobo de Wall Street -, mas também como uma das vozes mais influentes do ativismo climático global, o ator construiu uma imagem pública ancorada na defesa intransigente do planeta. Contudo, sob a superfície polida dos seus discursos recentes na Cimeira do Clima das Nações Unidas e das galas da sua fundação em Saint-Tropez, esconde-se uma teia complexa de conveniência mútua, onde a filantropia ambiental se cruza perigosamente com o grande capital financeiro, o setor petrolífero e figuras do autoritarismo global.

Esta relação assenta num pacto tácito. A vertente ambientalista de DiCaprio depende visceralmente de doações multimilionárias recolhidas em eventos exclusivos de angariação de fundos. Esse ecossistema atrai uma elite de ultrarricos que veem na causa ecológica o veículo perfeito para o greenwashing - uma estratégia calculada para higienizar a reputação pública e mascarar a origem extrativista e poluente de fortunas acumuladas na indústria do petróleo, do gás ou do consumo predatório.

O Paradoxo do Luxo Sem Pegada "Oficial"
Do outro lado desta equação, o ator retira dividendos diretos desta proximidade. As viagens em jatos privados e o descanso em superiates estacionados nos ancoradouros exclusivos de Saint-Barthélemy ou na costa do Brasil durante o Mundial de Futebol não surgem, do ponto de vista contabilístico, em nome do ator. Ao usufruir de convites da elite económica - como o famoso empréstimo do superiate Topaz, propriedade do Sheik Mansour do Emirado de Abu Dhabi -, DiCaprio garante o isolamento total dos paparazzi sem assumir a propriedade direta nem o custo financeiro desses ativos de elevadíssima pegada de carbono. Trata-se de uma privatização dos benefícios do luxo com uma externalização da responsabilidade ambiental.

Enquanto aconselha o público em geral a reduzir o consumo e a pegada pessoal, o ator desfruta do auge da opulência proporcionada precisamente pela infraestrutura energética que publicamente condena.

O dinheiro sujo no ecrã: do financiamento de Wall Street à moralidade pretensiosa
Esta sobreposição entre o topo de Hollywood e os capitais mais obscuros do planeta não se limita aos períodos de férias; infiltrou-se no coração da própria produção cinematográfica. O caso mais emblemático deu-se precisamente no financiamento do recente e aclamado filme "O Lobo de Wall Street", realizado por Martin Scorsese e protagonizado por DiCaprio. A obra, que ironicamente se propõe a denunciar os bastidores imorais e a ganância desmedida do corretor Jordan Belfort, foi financiada por uma produtora emergente, a Red Granite Pictures, fortemente associada a fundos do empresário malaio Jho Low e a movimentações financeiras ligadas ao fundo soberano 1MDB.

Jho Low, figura omnipresente nas festas mais efusivas de Hollywood e Las Vegas, utilizou o financiamento do filme e a oferta de presentes extravagantes - incluindo obras de arte valiosas e festas de aniversário milionárias - para comprar acesso às altas esferas do cinema e ostentar uma proximidade estratégica com DiCaprio. A própria génese do projeto que critica a corrupção financeira acabou por erguer-se sobre opacas redes de capital internacional. Ironia das ironias, o fundo 1MDB foi um dos maiores escândalos de corrupção do mundo, levando mais tarde DiCaprio a ter de devolver presentes e obras de arte doados pelo investidor.

"Boligarcas" e elites extrativas: o limite da tolerância ética
A controvérsia atinge a sua expressão mais crítica na incoerência moral entre as causas sociais que o ator subscreve e as conexões políticas daqueles que lhe oferecem hospitalidade. Fotografado a bordo de embarcações pertencentes a magnatas do Médio Oriente ou a empresários associados à elite venezuelana - a designada classe dos "boligarcas" -, DiCaprio cruza uma linha em que a ingenuidade deixa de ser uma explicação plausível.

A opulência que envolve essas viagens é sustentada por fortunas acumuladas através de:
  1. Exploração desmedida de combustíveis fósseis: a própria causa da crise climática que o ativista afirma combater;
  2. Corrupção estatal sistemática: casos em que recursos públicos foram canalizados para o enriquecimento ilícito de oligarquias, degradando serviços básicos e empobrecendo populações inteiras;
  3. Economias extrativas de duvidosa legalidade: atividades que devastam ecossistemas locais em nome do lucro imediato de poucos.
Ao aceitar estes convites, DiCaprio oferece tacitamente o seu prestígio global como moeda de troca para a legitimação social destas figuras. Não se trata de um lapso ocasional de julgamento, mas de um padrão de conduta repetido ao longo de anos. Enquanto o ativismo de Hollywood continuar a tratar a ética como um adereço descartável quando o luxo privado está em jogo, a mensagem ambiental permanecerá refém da própria hipocrisia de quem a proclama.  É um verdadeiro "eco-hipócrita".