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domingo, 30 de agosto de 2026

60 anos - graças à família, amigos, activismo concretizado e à Vida

Fazer 60 anos é um marco, mas, sinceramente, não o sinto - no fundo, ainda tenho 15 anos: cheio de amor para dar e de coragem para enfrentar o que quer que venha a seguir. Agarro-me firmemente aos valores que sempre me definiram - o ecopacifismo, a ecologia e a força do coletivo. Levo comigo os nobres ensinamentos daqueles que já não estão cá nas minhas ações diárias, mantendo viva a sua memória enquanto enfrento os desafios da vida com determinação pragmática. Acima de tudo, estou profundamente grato por ainda estar aqui.

Neste poema autobiográfico exploro o activismo entretanto já realizado. Tudo começou ainda no antigo Liceu de Gaia (Escola Secundária Almeida Garrett) era então presidente da Associação de Estudantes, que mantive entre os meus 15 anos até aos 17, plantamos uma horta comunitária. Pioneira em 1981. Mal entrei no curso de Biologia inscrevi-me como sócio nº 29 da Quercus. Aí fui combativo contra a feira dos pássaros do Porto. E conseguimos. E tantas, tantas actividades pró-ambientais.


A minha leitura do mundo é moldada pelo rigor científico da Biologia e pela visão holística que desenvolvi ao concluir o meu Mestrado em Ecologia. Foi na academia que aprendi a descodificar a dinâmica dos ecossistemas, mas foi na práxis do trabalho de campo e na divulgação científica contínua que essa teoria se transformou numa vocação viva e orientada para a ação.  A minha bússola intelectual assenta na Ecologia Profunda de Arne Næss. Na esteira de autoras como Rachel Carson e Robin Wall Kimmerer, recusei a perspectiva utilitarista e antropocêntrica que reduz a Natureza a um mero stock de recursos económicos. Para mim, as espécies, os habitats e os processos ecológicos possuem um valor intrínseco fundamental. Como biólogo, sei que a teia da vida não existe para servir o crescimento humano; nós é que somos uma parte dependente e interligada dessa matriz. 

Na linha da frente da conservação e do combate à crise acelerada da biodiversidade, inspiro-me na visão de E.O. Wilson e nas propostas de rewilding de George Monbiot. Compreendi cedo que a criação de pequenas reservas isoladas já não basta. Para travar o declínio de espécies, precisamos de restaurar corredores ecológicos, devolver espaço a processos selvagens e permitir que a dinâmica dos ecossistemas recupere a sua capacidade intrínseca de autorregulação.

A minha ética de intervenção cruza-se com o Ecopacifismo, fortemente alinhado com o pensamento de Vandana Shiva e Wangari Maathai, integrando os contributos fundamentais da ecologia política e da ação direta não-violenta. Apoio-me na visão de Petra Kelly, cofundadora do movimento ecologista alemão, que uniu de forma indissociável a luta pelo desarmamento global à proteção do ambiente, defendendo uma revolução ecológica profundamente pacífica. Cruzo o meu pensamento com a Ecologia Social de Murray Bookchin, que demonstra como o domínio humano sobre a natureza deriva diretamente das estruturas de dominação entre os próprios seres humanos, exigindo uma transição comunitária e descentralizada. Incorporo ainda a herança de Aldous Huxley e da tradição pacifista, pioneiros no alerta para as ligações destrutivas entre a expansão industrial militarizada e a degradação da biosfera.

Compreender esta teia de pensamento reforça em mim a convicção de que não haverá paz duradoura nem justiça ambiental enquanto continuarmos a tratar o planeta e as comunidades através de lógicas de exploração. Travar o colapso ecológico não é apenas um desafio técnico ou científico, mas uma transformação ética e política profunda: só libertando a sociedade da obsessão pelo rendimento, do militarismo e do extrativismo será possível devolver espaço à vida selvagem e garantir um futuro verdadeiramente justo, pacífico e sustentável.

No plano da sustentabilidade e da economia, recuso o paradigma do crescimento ilimitado. Apoio-me na Economia Ecológica de Herman Daly e nos modelos da Economia do Donut de Kate Raworth para defender caminhos de pós-crescimento e transição justa:
  1. Conservação baseada na Ciência: Aplicação do conhecimento ecológico rigoroso no desenho de redes de áreas protegidas, restauração de solos e monitorização da biodiversidade.
  2. Literacia e consciência ambiental: Tradução do conhecimento científico em reflexão crítica acessível ao público, incentivando o debate sobre a transição ecológica.
  3. Modelos de pós-crescimento: promoção de dinâmicas de economia circular, soberania alimentar e sistemas produtivos que operem estritamente dentro dos limites ecológicos do planeta.
Escrevo esta trajetória não como uma conclusão, mas como um compromisso contínuo. Entre a investigação, a ecologia aplicada e o debate público, sigo empenhado em construir uma relação sustentável, justa e ecocêntrica entre a humanidade e a Terra.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Por que razão as mentiras prosperam?


O episódio "A Guerra Contra a Verdade" examina o impacto generalizado e transformador da desinformação na era digital. Rastreando as suas raízes, desde a propaganda à sua rápida disseminação através de algoritmos de redes sociais, o episódio explora os factores que impulsionam as notícias falsas e as suas consequências, como a polarização e a erosão da confiança pública.

Apresentando histórias impactantes, incluindo as eleições nos Estados Unidos, a gripe aviária e a desinformação sobre a COVID-19, com análises de especialistas, o episódio utiliza recursos visuais dinâmicos e infográficos para dissecar esta questão urgente e oferecer soluções.

Saber mais:
E-Livro: Neil Postman (1985) - Amusing Ourselves to Death

Estudo do MIT (2018):  On Twitter, false news travels faster than true stories

Dave Hallmon (2025) - What Huxley, Orwell, and Postman teach us about today’s media culture and consumption

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Geração QI inferior ao dos pais

Pela primeira vez na História, filhos têm quociente de inteligência menor. A culpa também é das telas.



A Fábrica de Cretinos Digitais. Este é o título do último livro do neurocientista francês Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, em que apresenta, com dados concretos e de forma conclusiva, como os dispositivos digitais estão afetando seriamente — e para o mal — o desenvolvimento neural de crianças e jovens.

"Simplesmente não há desculpa para o que estamos fazendo com nossos filhos e como estamos colocando em risco seu futuro e desenvolvimento", alerta o especialista em entrevista à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

As evidências são palpáveis: já há um tempo que testes de QI (Quociente de Inteligência) têm apontado que as novas gerações são menos inteligentes que anteriores.

Desmurget acumula vasta publicação científica e já passou por centros de pesquisa renomados como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

Seu livro se tornou um best-seller gigantesco na França. Veja abaixo trechos da entrevista com ele.

BBC News Mundo: Os jovens de hoje são a primeira geração da história com um QI (Quociente de Inteligência) mais baixo do que a última?
Michel Desmurget: Sim. O QI é medido por um teste padrão. No entanto, não é um teste "estático", sendo frequentemente revisado. Meus pais não fizeram o mesmo teste que eu, por exemplo, mas um grupo de pessoas pode ser submetido a uma versão antiga do teste.


Neurocientista Michel Desmurget acredita que infância de hoje está exposta a uma "orgia digital"

E, ao fazer isso, os pesquisadores observaram em muitas partes do mundo que o QI aumentou de geração em geração. Isso foi chamado de 'efeito Flynn', em referência ao psicólogo americano que descreveu esse fenômeno. Mas recentemente, essa tendência começou a se reverter em vários países.

É verdade que o QI é fortemente afetado por fatores como o sistema de saúde, o sistema escolar, a nutrição, etc. Mas se considerarmos os países onde os fatores socioeconômicos têm sido bastante estáveis por décadas, o 'efeito Flynn' começa a diminuir.

Nesses países, os "nativos digitais" são os primeiros filhos a ter QI inferior ao dos pais. É uma tendência que foi documentada na Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda, França, etc.

BBC News Mundo: E o que está causando essa diminuição no QI?
Desmurget: Infelizmente, ainda não é possível determinar o papel específico de cada fator, incluindo por exemplo a poluição (especialmente a exposição precoce a pesticidas) ou a exposição a telas. O que sabemos com certeza é que, mesmo que o tempo de tela de uma criança não seja o único culpado, isso tem um efeito significativo em seu QI. Vários estudos têm mostrado que quando o uso de televisão ou videogame aumenta, o QI e o desenvolvimento cognitivo diminuem.

Os principais alicerces da nossa inteligência são afetados: linguagem, concentração, memória, cultura (definida como um corpo de conhecimento que nos ajuda a organizar e compreender o mundo). Em última análise, esses impactos levam a uma queda significativa no desempenho acadêmico.

BBC News Mundo: E por que o uso de dispositivos digitais causa tudo isso?
Desmurget: As causas também são claramente identificadas: diminuição da qualidade e quantidade das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional; diminuição do tempo dedicado a outras atividades mais enriquecedoras (lição de casa, música, arte, leitura, etc.); perturbação do sono, que é quantitativamente reduzido e qualitativamente degradado; superestimulação da atenção, levando a distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade; subestimulação intelectual, que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial; e o sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal, influencia a maturação cerebral.

BBC News Mundo: Que dano exatamente as telas causam ao sistema neurológico?
Desmurget: O cérebro não é um órgão "estável". Suas características 'finais' dependem da nossa experiência. O mundo em que vivemos, os desafios que enfrentamos, modificam tanto a estrutura quanto o seu funcionamento, e algumas regiões do cérebro se especializam, algumas redes são criadas e fortalecidas, outras se perdem, algumas se tornam mais densas e outras mais finas.


Nossos pais não passaram no mesmo teste de QI que nós, observa neurocientista

Observou-se que o tempo gasto em frente a uma tela para fins recreativos atrasa a maturação anatômica e funcional do cérebro em várias redes cognitivas relacionadas à linguagem e à atenção.
Deve-se ressaltar que nem todas as atividades alimentam a construção do cérebro com a mesma eficiência.

BBC News Mundo: O que isso quer dizer?
Desmurget: Atividades relacionadas à escola, trabalho intelectual, leitura, música, arte, esportes… todas têm um poder de estruturação e nutrição muito maior para o cérebro do que as telas.
Mas nada dura para sempre. O potencial para a plasticidade cerebral é extremo durante a infância e a adolescência. Depois, ele começa a desaparecer. Ele não vai embora, mas se torna muito menos eficiente.
O cérebro pode ser comparado a uma massa de modelar. No início, é húmida e fácil de esculpir. Mas, com o tempo, fica mais seca e muito mais difícil de modelar. O problema com as telas é que elas alteram o desenvolvimento do cérebro de nossos filhos e o empobrecem.

BBC News Mundo: Todas as telas são igualmente prejudiciais?
Desmurget: Ninguém diz que a "revolução digital" é ruim e deve ser interrompida. Eu próprio passo boa parte do meu dia de trabalho com ferramentas digitais. E quando minha filha entrou na escola primária, comecei a ensiná-la a usar alguns softwares de escritório e a pesquisar informações na internet.
Os alunos devem aprender habilidades e ferramentas básicas de informática? Claro. Da mesma forma, pode a tecnologia digital ser uma ferramenta relevante no arsenal pedagógico dos professores? Claro, se faz parte de um projeto educacional estruturado e se o uso de um determinado software promove efetivamente a transmissão do conhecimento.
Porém, quando uma tela é colocada nas mãos de uma criança ou adolescente, quase sempre prevalecem os usos recreativos mais empobrecedores. Isso inclui, em ordem de importância: televisão, que continua sendo a tela número um de todas as idades (filmes, séries, clipes, etc.); depois os videogames (principalmente de ação e violentos) e, finalmente, na adolescência, um frenesi de autoexposição inútil nas redes sociais.

BBC News Mundo: Quanto tempo as crianças e os jovens costumam passar em frente às telas?
Desmurget: Em média, quase três horas por dia para crianças de 2 anos, cerca de cinco horas para crianças de 8 anos e mais de sete horas para adolescentes.


Uma criança de 2 anos passa quase três horas por dia em frente às telas, em média

Isso significa que antes de completar 18 anos, nossos filhos terão passado o equivalente a 30 anos letivos em frente às telas ou, se preferir, 16 anos trabalhando em tempo integral!
É simplesmente insano e irresponsável.

BBC News Mundo: Quanto tempo as crianças devem passar em frente a telas?
Desmurget: Envolver as crianças é importante. Elas precisam ser informados de que as telas danificam o cérebro, prejudicam o sono, interferem na aquisição da linguagem, enfraquecem o desempenho acadêmico, prejudicam a concentração, aumentam o risco de obesidade, etc.
Alguns estudos mostram que é mais fácil para crianças e adolescentes seguirem as regras sobre telas quando sua razão de ser é explicada e discutida com eles. A partir daí, a ideia geral é simples: em qualquer idade, o mínimo é o melhor.
Além dessa regra geral, diretrizes mais específicas podem ser fornecidas com base na idade da criança. Antes dos seis anos, o ideal é não ter telas (o que não significa que de vez em quando você não possa assistir a desenhos com seus filhos).
Quanto mais cedo forem expostos, maiores serão os impactos negativos e o risco de consumo excessivo subsequente.
A partir dos seis anos, se os conteúdos forem adaptados e o sono preservado, o tempo em frente à tela pode chegar até meia hora ou até uma hora por dia, sem uma influência negativa apreciável.
Outras regras relevantes: sem telas pela manhã antes de ir para a escola, nada à noite antes de ir para a cama ou quando estiver com outras pessoas. E, acima de tudo, sem telas no quarto.
Mas é difícil dizer aos nossos filhos que as telas são um problema quando nós, como pais, estamos constantemente conectados aos nossos smartphones ou consolas de jogos.

BBC News Mundo: Por que muitos pais desconhecem os perigos das telas?
Desmurget: Porque a informação dada aos pais é parcial e tendenciosa. A grande media está repleta de afirmações infundadas, propaganda enganosa e informações imprecisas. A discrepância entre o conteúdo da mídia e a realidade científica costuma ser perturbadora, se não enfurecedora. Não quero dizer que a mídia seja desonesta: separar o joio do trigo não é fácil, mesmo para jornalistas honestos e conscienciosos.
Mas não é surpreendente. A indústria digital gera biliões de dólares em lucros a cada ano. E, obviamente, crianças e adolescentes são um recurso muito lucrativo. E para empresas que valem biliões de dólares, é fácil encontrar cientistas complacentes e lobistas dedicados.


Empresas digitais contratam especialistas para explicar como os jogadores inteligentes são e como é bom jogar videogame

Recentemente, uma psicóloga, supostamente especialista em videogames, explicou em vários meios de comunicação que esses jogos têm efeitos positivos, que não devem ser demonizados, que não jogá-los pode ser até uma desvantagem para o futuro de uma criança, que os jogos mais violentos podem ter ações terapêuticas e ser capaz de aplacar a raiva dos jogadores, etc.
O problema é que nenhum dos jornalistas que entrevistaram essa "especialista" mencionou que ela trabalhava para a indústria de videogames. E este é apenas um exemplo entre muitos descritos em meu livro.
Isso não é algo novo: já aconteceu no passado com o tabaco, aquecimento global, pesticidas, açúcar, etc.
Mas acho que há espaço para esperança. Com o tempo, a realidade se torna cada vez mais difícil de negar.

BBC News Mundo: Há estudos que afirmam, por exemplo, que os videogames ajudam a obter melhores resultados acadêmicos…
Desmurget: Digo com franqueza: isso é um absurdo.
Essa ideia é uma verdadeira obra-prima de propaganda. Baseia-se principalmente em alguns estudos isolados com dados imprecisos, que são publicados em periódicos secundários, pois muitas vezes se contradizem.
Numa interessante pesquisa experimental, consoles de jogos foram dados a crianças que iam bem na escola. Depois de quatro meses, elas passaram mais tempo jogando e menos fazendo o dever de casa. Suas notas caíram cerca de 5% (o que é muito em apenas quatro meses!).
Noutro estudo, as crianças tiveram que aprender uma lista de palavras. Uma hora depois, algumas puderam jogar um jogo de corrida de carros. Duas horas depois, foram para a cama.
Na manhã seguinte, as crianças que não jogaram lembravam cerca de 80% da aula em comparação com 50% das que jogaram.
Os autores descobriram que brincar interferia no sono e na memorização.

BBC News Mundo: Como o Sr. acha que os membros dessa geração digital serão quando se tornarem adultos?
Desmurget: Costumo ouvir que os nativos digitais sabem "de maneira diferente". A ideia é que embora apresentem déficits linguísticos, de atenção e de conhecimento, são muito bons em "outras coisas". A questão está na definição dessas "outras coisas".
Vários estudos indicam que, ao contrário das crenças comuns, eles não são muito bons com computadores. Um relatório da União Europeia explica que a baixa competência digital impede a adoção de tecnologias educacionais nas escolas.


Vários países estão começando a legislar contra o uso das telas

Outros estudos também indicam que eles não são muito eficientes no processamento e entendimento da vasta quantidade de informações disponíveis na internet.
Então, o que resta? Eles são obviamente bons para usar aplicativos digitais básicos, comprar produtos online, baixar músicas e filmes, etc.
Para mim, essas crianças se assemelham às descritas por Aldous Huxley em seu famoso romance distópico Admirável Mundo Novo: atordoadas por entretenimento bobo, privadas de linguagem, incapazes de refletir sobre o mundo, mas felizes com sua sina.

BBC News Mundo: Alguns países estão começando a legislar contra o uso de telas?
Desmurget: Sim, especialmente na Ásia. Taiwan, por exemplo, considera o uso excessivo de telas uma forma de abuso infantil e aprovou uma lei que estabelece multas pesadas para pais que expõem crianças menores de 24 meses a qualquer aplicativo digital e que não limita o tempo de tela de meninos e meninas entre 2 e 18 anos.
Na China, as autoridades tomaram medidas drásticas para regulamentar o consumo de videogames por menores: crianças e adolescentes não podem mais brincar à noite (entre 22h e 8h) ou ultrapassar 90 minutos de exposição diária durante a semana (180 minutos nos finais de semana e férias escolares).

BBC News Mundo: O Sr. acredita que é bom que existam leis que protegem as crianças das telas?
Desmurget: Não gosto de proibições e não quero que ninguém me diga como criar a minha filha. No entanto, é claro que as escolhas educacionais só podem ser exercidas livremente quando as informações fornecidas aos pais são honestas e abrangentes.
Acho que uma campanha de informação justa sobre o impacto das telas no desenvolvimento com diretrizes claras seria um bom começo: nada de telas para crianças de até seis anos de idade e não mais do que 30-60 minutos por dia.

BBC News Mundo: Se essa orgia digital, como você a define, não para, o que podemos esperar?
Desmurget: Um aumento das desigualdades sociais e uma divisão progressiva da nossa sociedade entre uma minoria de crianças preservadas desta "orgia digital" — os chamados alfas do livro de Huxley —, que possuirão, através da cultura e da linguagem, todas as ferramentas necessárias pensar e refletir sobre o mundo, e uma maioria de crianças com ferramentas cognitivas e culturais limitadas — os chamados gamas na mesma obra —, incapazes de compreender o mundo e agir como cidadãos cultos.
alOs alfas frequentarão escolas particulares caras com professores humanos "reais". Já os gamas irão para escolas públicas virtuais com suporte humano limitado, onde serão alimentados com uma pseudo-linguagem semelhante à "novilíngua" de (George) Orwell (em 1984) e aprenderão as habilidades básicas de técnicos de médio ou baixo nível (projeções económicas dizem que este tipo de emprego será super-representados na força de trabalho de amanhã).
Um mundo triste em que, como disse o sociólogo Neil Postman, eles vão se divertir até a morte. Um mundo no qual, através do acesso constante e debilitante ao entretenimento, eles aprenderão a amar sua servidão. Desculpe por não ser mais otimista.
Talvez (e espero que sim) eu esteja errado. Mas simplesmente não há desculpa para o que estamos fazendo com nossos filhos e como estamos colocando em risco seu futuro e desenvolvimento.


Saber mais:

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

As Origens do Ecopacifismo

Gosto de aproveitar o meu dia de aniversário para pensar nos caminhos que nos trouxeram até aqui. Em vez dos habituais balanços pessoais, decidi debruçar-me sobre um tema que me é caro: as raízes do Ecopacifismo. Da intuição de que a paz com a natureza e a paz entre as nações são inseparáveis, nasceu um movimento que moldou a nossa consciência ecológica moderna. É sobre esse encontro entre a recusa da guerra e a defesa da Terra que proponho refletirmos hoje.

A emergência do militarismo industrializado ao longo do século XX não transformou apenas a geopolítica mundial; desencadeou um modelo de exploração técnica que a tradição pacifista identificou precocemente como uma ameaça existencial à biosfera. Muito antes de a crise climática se tornar um tema central do debate público, intelectuais e movimentos religiosos perceberam que a corrida armamentista e a destruição ambiental eram manifestações indissociáveis da mesma lógica de dominação e consumo desmedido.

A Crítica Ecológica de Aldous Huxley
Entre os pensadores que lideraram essa virada conceptual, destaca-se Aldous Huxley. A sua trajetória intelectual articulou a crítica ao militarismo com uma profunda compreensão da interdependência biológica, defendendo que a preparação constante para a guerra exige um modelo de extrativismo contínuo e devastador. Em obras fundamentais como o ensaio filosófico Ends and Means (1937) e a reflexão tardia em The Politics of Ecology (1963), Huxley argumentou que o complexo industrial mobilizado pelos Estados exige volumes gigantescos de recursos naturais, transformando florestas, solos e ecossistemas inteiros em meros insumos para a máquina bélica.

Para Huxley, as tecnologias desenvolvidas no contexto militar - como a química industrial pesada e a manipulação da energia nuclear - foram subsequentemente redirecionadas para uma "guerra contra a natureza". A erosão dos solos, a desflorestação e a contaminação por resíduos tóxicos ou pelo Estrôncio-90 derivado de testes atómicos não constituíam danos colaterais acidentais, mas o resultado direto de uma mentalidade produtivista. Ao prever que a degradação da biosfera geraria inevitavelmente novas disputas por recursos escassos, Huxley lançou as bases para a moderna ecologia política, propondo uma transição filosófica do antropocentrismo destrutivo para uma ética de convivência simbiótica.

A Herança Quacre: Do Testemunho à Ação Direta
Essa leitura ecológica do pacifismo encontrou um terreno fértil na reflexão de intelectuais como Bertrand Russell e, fundamentalmente, nas práticas da Sociedade dos Amigos (Quacres). O movimento quacre - cujos membros são designados tanto pelo aportuguesamento "quacre" (ou "quáquer") como pelo termo original quaker - contribuiu significativamente para a gênese do ativismo ambiental contemporâneo através de duas dimensões centrais: a prática do testemunho e a fundamentação ética da simplicidade.

Historicamente, o Testemunho da Simplicidade (Testimony of Simplicity), formulado no século XVII, antecipou de forma pioneira os conceitos modernos de sustentabilidade e de decrecimento (degrowth). Ao recusar o acúmulo supérfluo e a busca obsessiva pela expansão material, a ética quacre desafiou a premissa do crescimento econômico ilimitado muito antes da formulação dos limites biofísicos do planeta. Figuras como John Woolman, no século XVIII, alertavam que o luxo e o consumo excessivo continham as "sementes da guerra", uma vez que exigiam a exploração predatória de recursos e a consequente disputa violenta pela sua posse. Em vez da dominação da natureza, a teologia quacre promoveu a ideia de stewardship (responsabilidade e cuidado), encarando a humanidade como guardiã temporária da Criação.

No século XX, essa postura ética traduziu-se em ação direta não-violenta. A prática do "Bearing Witness" (Prestar Testemunho) - o dever moral de interpor o próprio corpo diante da injustiça - moldou os métodos do movimento ambientalista. Em 1958, o protesto do Quacre Albert Bigelow, que navegou o veleiro Golden Rule em direção a uma zona de testes nucleares no Pacífico, serviu de modelo direto para a criação do comitê Don't Make a Wave e a subsequente fundação do Greenpeace em 1971 por ativistas como Irving e Dorothy Stowe.

A trajetória que une a crítica socioecológica de Aldous Huxley às práticas de resistência e simplicidade da tradição quacre demonstra que o movimento ambientalista moderno não nasceu apenas de descobertas científicas, mas de uma profunda reavaliação ética que identificou a paz, a justiça social e a preservação do planeta como elementos absolutamente inseparáveis.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O pensamento de George Ohsawa

O pensamento de George Ohsawa é uma síntese filosófica que transcende a simples dietética para se afirmar como um sistema de compreensão do mundo. No âmago da sua doutrina reside o Princípio Único, a lei da mudança eterna regida pela dinâmica entre o Yin e o Yang. Para Ohsawa, o universo não é um conjunto de objetos isolados, mas sim um fluxo constante de energia onde os opostos se procuram e se transformam mutuamente. Esta visão cosmológica serve de base para o que ele designou como o "Julgamento Supremo", a capacidade humana de perceber a unidade por trás de toda a dualidade e, assim, alcançar a liberdade absoluta.

A saúde, neste contexto, é interpretada como um estado de harmonia biológica que permite a expansão da consciência. Ohsawa defendia que o sangue é o suporte físico do pensamento e que a sua qualidade depende inteiramente do que ingerimos e do ambiente onde vivemos. Ao escolhermos alimentos que respeitam a ordem da natureza — privilegiando os cereais integrais como centro equilibrador e os produtos locais e sazonais — estaríamos a alinhar a nossa vibração interna com a do planeta. A doença não era vista por ele como um inimigo a abater, mas como um sinal corretor, um aviso pedagógico de que o indivíduo se desviou das leis naturais.

Para além da mesa, o pensamento de Ohsawa é profundamente ético e pragmático. Ele acreditava que a paz mundial e a felicidade individual eram impossíveis sem a reforma do entendimento humano através da autodisciplina. O seu conceito de "Não-Dualidade" implica que a felicidade e a infelicidade são duas faces da mesma moeda, e que o homem sábio é aquele que aceita as dificuldades com gratidão, utilizando-as como combustível para o crescimento espiritual. Em última análise, a Macrobiótica de Ohsawa é um convite à autonomia: uma via para que cada ser humano se torne o seu próprio mestre, capaz de gerir a sua saúde e o seu destino através da compreensão das leis universais.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Encontros Improváveis- Aldous Huxley e Nigel

Arte de Rua em São Paulo, por Nigel

"A ditadura perfeita terá as aparências de uma democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros sequer sonharão com a fuga. Um sistema de escravatura onde graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravatura." ~ Aldous Huxley

sábado, 1 de outubro de 2016

Música do Bioterra: Patrick Watson - Places You Will Go

"Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música." - Aldous Huxley
Escolha do Bioterra para o Dia Mundial da Música
[Verse 1]
You gonna swim to the top of the water, boys
Into the wells of the shimmer light
She's gonna drag you to the shore
But you don't know who you are
Take, take your time for now
You gonna take, take your time


[Chorus]
Welcome to the city with too many roads
You're not gonna know where to go
Just follow all the pretty lights
Get lost till it feels right
The places you will go

[Verse 2]
It can be shiny, tiny, strange and windy
But if you're doing it right
It's gonna get a little lonely
But that's all right
The only thing you need to fear
Is shaking hands with the man in the mirror

[Chorus]
Blah blah, blah blah blah
Big talkers are talking
But you don't wanna hear
Cause when it gets easy
Don't be drowning in the dreamer's hands
Don't be drowning in the dreamer's hands
Get out, get out while you can

Oh, the places you will go
Get out, get out, get out, get out
Sometimes you don't even wanna know
Get out, get out, get out, get out

[Bridge]
The storm, she's breaking hard tonight
Just put your head down on her shoulders
Cause you know, cause you know, you know she's gonna pass
Take your time and make this moment lasts
Take your time, take your time, take your time tonight
Take your time before it's over

[Instrumental]

[Outro]
Doesn't really matter where you are
Oh, the places you will go from here

Biografia

Página Oficial

A canção “Places You Will Go” de Patrick Watson, é uma peça central do álbum Love Songs For Robots (2015) fala sobre a viagem da vida, o crescimento pessoal e a aceitação das mudanças. Transmite uma sensação de ternura, nostalgia e esperança, mostrando que cada lugar — físico ou emocional — faz parte da nossa transformação. É uma reflexão poética sobre seguir em frente, aceitar a incerteza e abraçar o percurso da vida com o coração aberto.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

As ditaduras tecnológicas futuras por ALDOUS HUXLEY, entrevista em 18.05.1958



Aldous Huxley (1894 — 1963) foi um escritor inglês e um dos mais proeminentes membros da família Huxley. Passou parte da sua vida nos Estados Unidos, e viveu em Los Angeles de 1937 até à sua morte, em 1963. Huxley produziu um total de 47 livros ao longo de sua vida entre os quais está o famoso "Brave New World" 
Fonte: Movimento de Democracia Directa

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Leituras: Porque somos diferentes?

Encontrei este artigo na internet, agora que estou a finalizar os conteúdos programáticos em Formação Cívica, 10º Ano, sobre Educação Sexual e é tão interessante que só poderia reproduzir no meu blogue.
Fonte: Super Interessante, Agosto 2010

A diversidade de comportamentos eróticos nas diferentes culturas e no interior de cada sociedade deixa a ciência intrigada. O ambiente e os genes têm muito a dizer.

Tonga é um pequeno país insular situado a Leste da Austrália, no Pacífico Sul. O actual rei continua a desempenhar certas funções (trata-se de uma monarquia constitucional), mas há muito que já não tem a obrigação de desflorar as mulheres virgens da ilha. Um dos seus antepassados, Fatefehi, foi obrigado a cumprir o extenuante dever durante anos: estima-se que iniciou nas artes do amor 37.800 raparigas, entre 1770 e 1784, a um ritmo de seis ou sete por dia.

As mulheres nayares da Índia também podem manter um número considerável de relações sexuais, mas não como uma obrigação; fazem-no por diversão. Nesta casta de guerreiros hindus (ou seja, a nayar), as meninas devem passar por uma cerimónia que dura quatro dias antes da primeira menstruação. No fim do ritual, recebem o tali, um colar que simboliza que contraíram matrimónio. A partir desse momento, podem manter relações sexuais com quantos amantes (sambandha) quiserem, um de cada vez ou no número que considerem mais apetecível. Um deles poderá tornar-se seu marido, mas isso não é obrigatório. De facto, não costuma ser habitual.

Depósito de esperma em reserva
Os jovens etoros da Papuásia/Nova Guiné, pelo contrário, tratam de restringir o número de parceiros eróticos e a quantidade de relações sexuais que mantêm ao longo da existência. Praticam a castidade ("a mais desnaturada das perversões sexuais", segundo o escritor inglês Aldous Huxley ) com as suas companheiras durante a maior parte do tempo. O motivo é simples: acreditam que a quantidade de sémen é limitada e que morrerão quando esgotarem as suas reservas. A quantidade do precioso fluido de que um homem etoro poderá dispor ao longo da vida é adquirida durante a adolescência. Como? Através da prática de sexo oral aos homens maduros da tribo. Por isso, um jovem não pode ter um aspecto demasiado saudável: considera-se que abusou do sexo oral e que ingeriu demasiado sémen. Nesse caso, é obrigado a manter relações sexuais com mulheres para recuperar o equilíbrio.

No mundo ocidental, semelhante teoria seria liminarmente descartada; ninguém acredita que se tenha de limitar o número de coitos para racionar o sémen. O que se verifica na nossa sociedade é a castidade voluntária: um número considerável de indivíduos não praticam sexo porque não desejam fazê-lo. A Sociedade Assexual Americana estima que esse grupo integra cerca de três por cento da população mundial, mas talvez a percentagem real seja ainda maior, agora que já não se esconde a opção assexual. No Japão, país que muitos especialistas consideram ser um exportador de tendências, cada vez se mantêm menos relações. Uma sondagem da Associação Japonesa de Planeamento Familiar efectuada junto de pessoas entre os 16 e os 49 anos mostrou que 31% não tiveram contactos sexuais no último mês, "sem qualquer razão especial".

altOs genes que nos arrastam
A variedade de comportamentos que emerge destes exemplos dá uma ideia da diversidade sexual humana. Os antropólogos assinalam que a nossa conduta erótica poderá ser mais heterogénea do que a forma de vestir, os hábitos alimentares ou as normas éticas. A cantora e actriz norte-americana Bette Midler perguntava há tempos: "Se o sexo é um fenómeno tão natural, por que existem tantos livros sobre como fazê-lo?" A verdade é que os cientistas continuam a interrogar-se por que motivo reagimos de forma tão variada a algo que é, na sua essência, uma imposição biológica.

A motivação sexual é o mecanismo que favoreceu a selecção natural para aumentar a probabilidade de sobrevivência da espécie. Quando duas pessoas se sentem atraídas, não costumam parar para pensar que estão a ser guiadas pelos seus genes, mas o prazer que as move é um mecanismo mental, dirigido pela pulsão biológica, que é fruto da adaptação. Talvez essa inconsciência que a natureza estabelece seja a causa para se ter demorado tanto a começar a estudar as estratégias sexuais humanas.

Um dos primeiros especialistas a tentar quebrar o tabu foi Alfred Kinsey, professor catedrático de biologia e zoologia da Universidade do Indiana: surpreendido por haver tantas referências à sexualidade animal e tão poucas à nossa, decidiu efectuar um macro-inquérito. Foi alvo de acesas críticas por parte de sectores médicos e grupos religiosos, que chegaram a ameaçar incendiar-lhe a casa, mas não conseguiram intimidá-lo. O célebre Relatório Kinsey, publicado em 1948 (homens) e 1953 (mulheres), reunia dados sobre a vida erótica de 11.240 pessoas e os resultados deixaram a sociedade norte-americana atónita, pois mostravam um panorama inesperadamente heterogéneo que não correspondia ao que era considerado "normal". Por exemplo, 37% dos homens tinham tido uma experiência homossexual, 62% das mulheres tinham-se masturbado e quase metade tinham tido relações antes do casamento.

Todavia, o que mais chamava a atenção era a grande diversidade na actividade sexual quotidiana. Surgiam homens e mulheres que afirmavam nunca ter tido um orgasmo, e outros que usufruíam de quatro ou mais por dia. Os dados também mencionavam pessoas absolutamente monógamas que há décadas mantinham relações com a mesma pessoa (a única parceira sexual da sua vida) e outras que não conseguiam manter-se fiéis mais de um ano. Isto para não falar das singularidades e dos comportamentos excêntricos: daqueles cuja maior fonte de excitação eram os dentes, os sapatos de salto alto ou as reuniões de trabalho.

O que tornava o estudo revolucionário era a sua metodologia. Kinsey adoptou uma abordagem relativamente ao sexo inédita na altura: o chamado "ponto de vista etic". Os antropólogos designam assim os estudos que procuram investigar o funcionamento de uma cultura de forma objectiva, baseando-se em números e dados reais, e não no que os indivíduos supõem sobre o que os seus vizinhos fazem ou não. O biólogo sabia que, quando se trabalha com interpretações (com o que os membros de uma cultura pensam que acontece na sociedade em que vivem, o "ponto de vista emic"), é fácil cair num padrão de normalidade fictícia. Kinsey averiguou o que se passava verdadeiramente nos quartos sem deixar que ninguém lhe filtrasse a realidade, e descobriu uma grande variedade de comportamentos eróticos.

A economia também conta
A partir do relatório que publicou, a homogeneidade foi cientificamente descartada e os estudos centraram-se em procurar explicar a diversidade. Marvin Harris, professor de antropologia nas universidades de Columbia (Nova Iorque) e da Florida, é um dos principais representantes dessa corrente. O "pai" do materialismo cultural coloca em questão "que existam em absoluto modos de sexualidade humana obrigatórios, para além dos impostos por prescrição cultural". Nada funciona de forma idêntica em todas as culturas. Segundo Harris, as condições materiais constituem o principal factor a condicionar os conceitos sobre sexualidade. A proporção de comportamentos homossexuais, o grau em que se permitem relações consanguíneas ou as leis implícitas e explícitas sobre o adultério podem ser explicadas com base na adaptação ao meio em que cada colectividade vive. E indica um exemplo: quando o investimento na prole se torna muito dispendioso, a sociedade torna-se mais puritana, pois é mau negócio andar a criar e educar filhos alheios. Em contrapartida, nas populações onde esse custo é menor, os costumes tornam-se mais permissivos relativamente ao adultério e à promiscuidade.

O antropólogo francês Pascal Dibie, professor da Universidade de Paris VII, oferece outro exemplo de como a socieade nos molda em função das necessidades materiais. Em Etnologia do Quarto de Cama, fala do ghotul, uma escola erótica frequentada de noite pelos adolescentes da etnia muria, na Índia. As regras deste local de iniciação sexual foram alteradas: antes, os que ali se dirigiam ficavam com o mesmo par dia após dia para aprender as artes do amor. Todavia, no ghotul moderno, as relações duradouras são proibidas: permanecer mais de três dias com o mesmo companheiro ou companheira acarreta sanções.

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O êxito da diversidade
O motivo, segundo Dibie, é a necessidade de preservar a ordem social numa cultura cada vez mais permeada por valores e formas de vida alheias. Até agora, os jovens não questionavam os casamentos arranjados tradicionais dos murias. Agora, no entanto, reivindicam o amor e as uniões espontâneas ou por paixão. Como esse tipo de relações quebraria alianças antigas, criaria tensões desnecessárias e complicaria o pagamento de certas dívidas, os adultos procuram proibi-las. Para dissuadir os adolescentes e atenuar a sua curiosidade sexual, permitem que se deitem com todos os membros do ghotul. Argumentam que se reduz, deste modo, o risco de adultério e os ciúmes nos futuros casamentos. Mais uma vez, vemos uma explicação emic (a suposta vantagem para a harmonia do casal) a servir para disfarçar causas etic (a preservação das convenções sociais e económicas). A necessidade adaptativa promove uma promiscuidade que seria sancionada noutro contexto.

Os casos já referidos recordam-nos o valor evolutivo da heterogeneidade, algo que não suscita, sobretudo desde a revolução darwiniana, qualquer dúvida aos cientistas. A variabilidade é a matéria-prima da evolução, pois o que funciona num ambiente pode ser um desastre noutro. Assim, para que a selecção natural possa agir sobre uma característica, tem de haver diferentes versões do gene (ou genes) que o controlam. Ronald Fisher, um dos fundadores da genética de populações, demonstrou matematicamente que quanto mais alelos (variantes) existirem de um gene, maior será a probabilidade de um se conseguir impor aos restantes. Isso implica que uma maior variabilidade genética se traduz num maior ritmo de evolução de uma população.

A sexualidade constitui a base de propagação e sobrevivência dos genes. Quanto maiores as diferenças entre nós, maiores probabilidades teremos de subsistir em qualquer tipo de circunstâncias. Marilyn Monroe afirmou: "O sexo faz parte da Natureza, e eu dou-me maravilhosamente com a Natureza." A ciência actual recorda que darmo-nos bem com o biológico implica entender e respeitar a diversidade. Castos ou promíscuos; pessoas que associam o sexo ao amor e outras a quem os sentimentos diminuem a líbido; heterossexuais, homossexuais, bissexuais e "quadsexuais" (uma nova categoria lançada por Angelina Jolie que engloba os que gostam de homens, mulheres, homossexuais e transsexuais)... Todos contam.

Atlas da diversidade erótica
Ainda persistem curiosos comportamentos sexuais noutras culturas, surpreendentes ou mesmo questionáveis, de acordo com a nossa perspectiva.

A iniciação sexual em muitas tribos africanas é muito precoce. Os chewas (ou chicheuas, da Zâmbia e do Malawi) acreditam que se deve manter uma intensa actividade erótica durante a infância para se ser fecundo na idade adulta. Todavia, o elevado risco de contágio da sida fez subir a idade de iniciação.
Na tribo dos nandi, no Quénia, as meninas de oito anos são consideradas maduras para terem relações e tornam-se propriedade de todos.
Os turus da Tanzânia aceitam que as esposas tenham amantes desde que mantenham as aparências. Os vizinhos colaboram e não as denunciam.
Os adolescentes das ilhas Trobriand, na Papuásia/Nova Guiné, dispõem de uma casa de solteiros onde mudam de parceira todas as noites.
Algumas mulheres do Iémen pintam a pele de negro com pigmentos naturais antes de se deitarem com um homem, pois pensam que essa cor aumenta a potência sexual masculina.
No ritual matrimonial dos arandas, na Austrália central, a noiva deve passar uma noite com os pais do noivo antes de ir para a cama com ele.
Em Samoa, ver um umbigo é muito excitante; na ilha de Celebes, o mais apetecível é mostrar o joelho, enquanto para os hotentotes, etnia do Sudoeste africano, picante é observar os genitais dos animais.
Entre os sakalaves de Madagáscar, o estranho é ser exclusivamente heterossexual, pelo que praticam uma espécie de pansexualidade.
Entre vários povos da Nova Guiné, os adolescentes preparam-se mantendo relações homossexuais, mas, depois do casamento, tornam-se heterossexuais.

Normal vs. perverso
Ao longo da História, as instituições religiosas e jurídicas tentaram controlar o comportamento erótico dos cidadãos, apesar das diferenças naturais que existiam em matéria de gostos e tendências sexuais. Para atingir os seus objectivos, classificavam como perversão tudo o que se afastava da alegada normalidade.

O tabu era criado com base em critérios religiosos (pecado) ou jurídicos (delito); começaram também a ser esgrimidos, desde o século XIX, motivos de saúde para anatemizar os instintos desregrados.

Por exemplo, o médico britânico William Acton tornou público, em 1857, um estudo em que afirmava que algumas mulheres tinham orgasmos durante o coito, concluindo que esse efeito era um distúrbio produzido pela sobre-estimulação. Um século depois, William Masters e Virginia Johnson trocaram-lhe as voltas e afirmaram que o anómalo era a anorgasmia.

Até 1973, a homossexualidade foi considerada uma doença mental e constituía um delito em muitos países. Ainda hoje é considerada crime em cerca de 70 estados. Em Portugal, só foi despenalizada em 1982.