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sábado, 6 de dezembro de 2025

O Avesso das Coisas


Um livro que anda (quase) sempre comigo: O Avesso das Coisas. Livro de aforismos publicado postumamente. Nele, Carlos Drummond de Andrade mostra um quotidiano lírico, curioso, imprevisível e insólito falando de assuntos como paciência, circo, ciúme, natureza, eternidade e literatura.

Por exemplo este: "O tempo consumido em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir as interessantes."

"Assim como os antigos moralistas escreviam máximas, deu-me vontade de escrever o que se poderia chamar de mínimas, ou seja, alguma coisa que, ajustada às limitações do meu engenho, traduzidas um tipo de experiência vivida, que não chega a alcançar a sabedoria mas que, de qualquer modo, é resultado de viver.

Andei reunindo pedacinhos de papel em que estas anotações vadias foram feitas e ofereço-as ao leitor, sem que pretenda convencê-lo do que penso nem convidá-lo a repensar suas idéias. São palavras que, de modo canhestro, aspiram e enveredar pelo avesso das coisas, admitindo-se que elas tenham um avesso, nem sempre perceptível mas às vezes curioso ou surpreendente."

E-Livro: aqui

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Encontros Improváveis - Carlos Drummond de Andrade e Olga Kvasha

Olga Kvasha (pintora Ucraniana, nascida em 1976)
A Palavra Mágica

"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.

Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.

Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra."

Carlos Drummond de Andrade

Leituras importantes:
  1. O Chega e o Ódio
  2. Não há Raças: A Unidade Biológica da Humanidade
  3. Desconstruindo a ideia de "povo lusitano", ou "povo português luso" em detrimento dos "imigrantes"

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Em memória de Daniel - a música que ele mais gostava: Ride - Vapour Trail


Esta música é em memória da morte de um excelente aluno meu, Daniel Moreira que faleceu hoje de cancro aos 23 anos. Foi ele que me deu a conhecer este tema e banda.

Parafraseando Sting

"On and on the rain will fall
Like tears from a star
Like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are
How fragile we are"


Ride - Vapour Trail
First you look so strong
Then you fade away
The sun will blind my eyes
I love you anyway

Thirsty for your smile
I watch you for a while
You are a vapour trail
In a deep blue sky

Tremble with a sigh
Glitter in your eye
You seem to come and go
I never seem to know

And all my time
Is yours as much as mine
We never have enough
Time to show our love

"Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado."
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Mensagem de Ano Novo

"Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre." - Carlos Drummond de Andrade   
          
Paz, construir pontes como dizia o meu grande amigo Miguel Portas. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

"Congresso Internacional do Medo" por Carlos Drummond de Andrade


"Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas"
Carlos Drummond de Andrade,

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Encontros Improváveis: Carlos Drummond de Andrade e Júlio Pereira- Castelo do Pastor



Júlio Pereira e Janita Salomé- Castelo do Pastor

“O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” ― Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Encontros Improváveis: Paula Rego e Carlos Drummond de Andrade [Uma democracia pelo AMOR]



"Love"- Paula Rego


"Que Todos os Dias Sejam Dias de Amor" 

João Brandão pergunta, propõe e decreta:
Se há o Dia dos Namorados, por que não haver o Dia dos Amorosos, o Dia dos Amadores, o Dia dos Amantes? Com todo o fogo desta última palavra, que circula entre o carnal e o sublime?
E o Dia dos Amantes Exemplares e o Dia dos Amantes Platônicos, que também são exemplares à sua maneira, e dizem até que mais?
Por que não instituir, ó psicólogos, ó sociólogos, ó lojistas e publicitários, o Dia do Amor?
O Dia de Fazê-lo, o Dia de Agradecer-lhe, o de Meditá-lo em tudo que encerra de mistério e grandeza, o Dia de Amá-lo? Pois o Amor se desperdiça ou é incompreendido até por aqueles que amam e não sabem, pobrezinhos, como é essencial amar o Amor.
E mais o Dia do Amor Tranqüilo, tão raro e vestido de linho alvo, o Dia do Amor Violento, o Dia do Amor Que Não Ousava Dizer o Seu Nome Mas Agora Ousa, na arrebentação geral do século?
Amor Complicado pede o seu Dia, não para tornar-se pedestre, mas para requintar em sua complicação cheia de vôos fora do horário e da visibilidade. Amor à Primeira Vista, o fulminante, bem que gostava de ter o seu, cortado de relâmpagos. E há motivos de sobra para se estabelecer o Dia do Amor ao Próximo, e o Próximo somos nós, quando nos esquecemos de nós mesmos, abjurando o enfezadíssimo Amor-Próprio.
Depressa, amigos criadores de Dias, criai o do Amor Livre, entendido como tal o que desata as correntes do interesse imediato, da discriminação racial e económica, ri das divisões políticas, das crenças separatórias, e planta o seu estandarte no cimo da cordilheira mais alta. Livre até no impulso egoístico da correspondência geométrica. Amor que nem a si mesmo se escraviza, na total doação que é converter-se no alvo, pois lá diz o que sabe: «Transforma-se o amador na coisa amada.»
Haja também um Dia para o Amor Não Correspondido, em que ele se console e crie alento para perseverar, se esta é a sua condição fatal, melhor direi, a sua graça. Pois todo Amor tem o seu ponto de luz, que às vezes se confunde com a sombra.

O Amor Impossível, exatamente por sua impossibilidade, merece a compensação de um Dia. Concederemos outro ao Amor Perfeito, que não precisa de mais, mergulhado que está na eternidade, a mover os sóis, independentemente da astrofísica. Ao Amor Imperfeito, síntese muito humana de tantos, retrato mal copiado do modelo divino, igualmente, se consagre um Dia generoso.
Amor à Glória não carece ter Dia, nem Amor ao Dinheiro e seu primo (ou irmão) Amor ao Poder. Eles se satisfazem, o primeiro com uma bolha de sabão, os outros dois com a mesa posta. Mas ao Amor faminto e sem talher, e ao que nenhuma iguaria lhe satisfaz, porque sua fome vai além dos alimentos e é a fome em si, a ansiosa procura do que não existe nem pode existir: um Dia para cada um.

E se mais Dias sobrarem, que sejam reservados para os Amores de que não me lembro no momento mas certamente existem, pois sendo o Amor infinito em sua finitude, isto é, fugindo ao tempo no tempo, e multiplicando-se em invenções, sutilezas, desvarios, enigmas e tudo mais, sempre haverá um Amor novo no sujeito amante, dentro do Amor que nele pousou e que cada manhã nasce outra vez, de sorte que o mesmo Amor é cada dia Outro sem deixar de ser o Antigo, e são muitos outros concentrados e não compendiados na potencialidade de amar. Assim sendo, recomendo e requeiro e decreto que todos os dias do ano sejam Dias do Amor, e não mais disso ou daquilo, como erradamente se convencionou e precisa ser corrigido. Tenho dito. Cumpra-se.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Poder Ultrajovem'

domingo, 10 de março de 2013

Velho é o preconceito!

Os Velhos
Todos nasceram velhos — desconfio. Em casas mais velhas que a velhice, em ruas que existiram sempre — sempre assim como estão hoje e não deixarão nunca de estar: soturnas e paradas e indeléveis mesmo no desmoronar do Juízo Final. Os mais velhos têm 100, 200 anos e lá se perde a conta. Os mais novos dos novos, não menos de 50 — enorm'idade. Nenhum olha para mim. A velhice o proíbe. Quem autorizou existirem meninos neste largo municipal? Quem infrigiu a lei da eternidade que não permite recomeçar a vida? Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade de ser também um velho desde sempre. Assim conversarão comigo sobre coisas seladas em cofre de subentendidos a conversa infindável de monossílabos, resmungos, tosse conclusiva. Nem me vêem passar. Não me dão confiança. Confiança! Confiança! Dádiva impensável nos semblantes fechados, nos felpudos redingotes, nos chapéus autoritários, nas barbas de milénios. Sigo, seco e só, atravessando a floresta de velhos. 
Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Eu penso renovar o Homem usando borboletas

Quando era criança tinha uma figueira num quintal muito próximo de casa. Confesso que não era lá grande e rápido escalador, mas só a vontade e persistência de chegar ao cimo dela era ENORME! Percebe-se porquê na postagem do BioTerra de hoje! Sempre que regresso a uma figueira, permaneço no chão, aprecio seu volume, seus ramos e cheiros. Descobri há uns anos uma figueira a crescer nas paredes do castelo de Monsaraz. Os cimos das árvores são poemas vivos, lições de vida e de Vida!


Retrato do Artista quando Coisa

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um

sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros (biografia)
Documentário "Só 10% é mentira"

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Somos todos elefantes

Actualização em 3-12-12: Vale a pena lutar...aos pouquinhos, pequenas vitórias.Ocho meses después del safari del Rey español, Botswana prohíbe la caza de animales grandes

Como é possível/admissível assassinar/caçar tão nobre ser vivo, inspirador de força, união. Inspirador de poetas e de fotógrafos.




Eu sou elefante! 
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa

[ler aqui o poema completo e belíssimo de Carlos Drummond Andrade]

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

"A árvore e o homem" por Carlos Drummond de Andrade

Foto aqui

«Glória aos fotógrafos, a essa objectiva humilde que vai visitar as árvores na mata, no jardim público ou à beira da estrada, e delas recolhe a imagem menos imperfeita, porque menos individualista - árvore em estado de árvore. Não me achando em condições de possuir um sítio, nem mesmo uma araucária particular, incompatível com as dimensões do metro quadrado em que resido, eu (e aqui sou João, Leovigildo, Heitor, homem urbano em geral) consolo-me contemplando algumas fotografias de olmos, faias, eucaliptos, jequitibás, espécies resinosas e essências. Amo vê-las em grupo ou isoladas, oferecendo à pressão do vento a massa compacta de folhagem; reflectindo, interceptando ou matizando os raios solares que tentam penetrá-las; lavando-se à beira da corrente, em sincera solidão; ou ainda contrastando com os frágeis monumentos de pedra, tijolo e cimento, que chamamos de casas, e que é tão raro não "sobrarem" na natureza; e até mesmo esparsas entre esses outros monumentos, os mais frágeis de todos, de nervos e vasos sanguíneos, que chamamos homens, e tampouco sabem integrar-se no conjunto natural onde folhas, raízes, insetos e ventos se organizam sem política.»

Carlos Drummond de Andrade, Passeios na Ilha (1952)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

De Mãos Dadas - um momento de homenagem a Drummond




Hoje seria o aniversário do poeta Drummond (Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). Lembrei-me deste poema. Entre muitos que o Mestre produziu e que mundo belo criou.

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou carta de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Boas Festas a todos


Um video ecoartivista, da minha autoria- agora um ano depois- e um poema de esperança, 40 anos depois!
Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção.

(Carlos Drummond de Andrade, Dezembro de 1968)
Vale a pena reler

Natal Alternativista

Dossiê Educação Ambiental e Espiritualidade

domingo, 8 de junho de 2008

Dia Mundial dos Oceanos - Pluriamar

Corey Arnold -The North Sea

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver

Carlos Drummond de Andrade, Além da Terra, além do Céu


segunda-feira, 9 de outubro de 2006

O Elefante, por Carlos Drummond de Andrade

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis

talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa

O poema "O Elefante", integrante da obra A Rosa do Povo (1945), funciona como uma poderosa alegoria da condição humana e da função da arte em tempos de crise. Escrito sob o peso da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, o texto apresenta um elefante construído com materiais frágeis e quotidianos, como papel e renda, que simboliza a própria criação poética: algo que, embora monumental em intenção, é intrinsecamente vulnerável e artesanal.

Essa criatura desajeitada percorre um cenário urbano marcado pela indiferença e pelo egoísmo, onde o "eu lírico" tenta, sem sucesso, estabelecer uma conexão genuína com os outros. A figura do elefante representa o isolamento do intelectual e do artista que, ao buscar a fraternidade e a compreensão em um mundo endurecido pela rotina e pela violência, acaba encontrando apenas a solidão. No entanto, essa melancolia não se traduz em niilismo; pelo contrário, o poema é um profundo apelo à solidariedade social, tema central da fase "participativa" de Drummond.

O desfecho, marcado pela desintegração física do elefante que "volta para o pó", é o ponto de maior força resiliente da obra. Ao declarar que "amanhã recomeço", o poeta transforma o fracasso imediato num acto de resistência política e existencial. Ele reconhece que, embora a arte possa não transformar o mundo instantaneamente ou ser compreendida pela massa, o esforço contínuo de criação e a tentativa de humanizar o real são tarefas permanentes que definem a dignidade do espírito humano diante da barbárie.