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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Silke Bischoff - Under Your Skin

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O Erotismo Obscuro e a Finitude em "Under Your Skin"
A canção "Under Your Skin" pertence ao projeto musical alemão Silke Bischoff (criado em 1990 por Axel Kretschmann e Felix Flaucher). A faixa é um dos maiores clássicos da cena Darkwave, Wave Gótica e Electro-Goth dos anos 90, combinando batidas eletrónicas atmosféricas, sintetizadores soturnos, guitarras acústicas melancólicas e vocais sussurrados quase hipnóticos.

Em termos de significado da canção, a letra explora uma paixão obsessiva e avassaladora que consome a própria identidade do indivíduo. A metáfora de ter alguém "debaixo da pele" expressa uma devoção que ultrapassa os limites do corpo e da mente, onde o amor se funde com a dor e com uma necessidade visceral de conexão eterna. O videoclipe e a estética do grupo refletem essa mesma atmosfera melancólica e voyeurista, marcada por uma iluminação dramática e minimalista típica do movimento gótico da época. A própria origem do nome da banda remete a um acontecimento real e trágico - o sequestro de Gladbeck em 1988, na Alemanha, no qual a jovem Silke Bischoff perdeu a vida -, o que encharca toda a obra visual e concetual do projeto com temas sobre o trauma, a vulnerabilidade da vida e a perda da inocência.

As influências literárias e filosóficas do grupo ancoram-se fortemente no Romantismo Obscuro e Decadentismo do século XIX, evocando autores como Edgar Allan Poe, Lord Byron e Charles Baudelaire, nos quais o amor é retratado de forma trágica e indissociável da morte (Eros e Thanatos). Há também ressonâncias da filosofia existencialista, onde a obsessão romântica surge como uma tentativa desesperada de conferir sentido à existência perante a solidão e o absurdo do mundo. Além disso, a obra insere-se no contexto cultural da Neue Deutsche Todeskunst corrente que explorava a morbidez, a finitude e a fragilidade humana através da poesia e da música eletrónica soturna.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

London Grammar - Nightcall


A melancolia noturna de "Nightcall": entre o synthwave e o existencialismo dos London Grammar


A letra de "Nightcall" aborda um reencontro noturno e tenso após um afastamento ou um evento traumático, focando-se no contraste entre a atração e o perigo. No original de Kavinsky, a faixa faz parte de uma narrativa concetual sobre um jovem que morre num acidente de carro nos anos 80 e regressa como "zombie" para rever a namorada. Na versão dos London Grammar, essa vertente de ficção científica desaparece, dando lugar a uma metáfora sobre a vulnerabilidade, o isolamento e a complexidade das relações humanas.

Esta narrativa liga-se a várias referências culturais e filosóficas. A figura misteriosa do condutor evoca o Herói Byroniano da literatura romântica - um indivíduo solitário, sombrio e carregado de culpa -, refletindo também o existencialismo urbano através da alienação e da viagem sem rumo na noite. A ideia de que "há algo em ti difícil de explicar" remete para o conceito de Doppelgänger e para a Sombra de Carl Jung, representando o lado oculto da personalidade que emerge no escuro. Além disso, a estética da autoestrada noturna remete para o Cinema Noir e para o conceito de "não-lugar" do antropólogo Marc Augé, onde o espaço urbano serve de palco para a suspensão do tempo e da moral.

O videoclipe oficial dos London Grammar reflete essa mesma atmosfera através de um ritmo lento e parado. Gravado num campo aberto e enevoado durante a noite, o vídeo mostra a banda a tocar sob luzes focadas, rodeada por elementos dispersos e aparentemente sem ligação direta: um carro vermelho com os faróis acesos, uma caravana iluminada, jovens reunidos à volta de uma fogueira e cavalos a correr no meio da névoa.

O significado deste videoclipe não passa por contar uma história linear, mas sim por traduzir visualmente o estado de espírito da canção. A lentidão das imagens e a penumbra reforçam a sensação de isolamento e melancolia. Os vários elementos funcionam como memórias desconexas ou símbolos de transição - o carro representa a viagem, a fogueira o desejo de calor e pertença, e os cavalos em liberdade simbolizam a natureza indomável dos sentimentos. Em vez de recorrer à ação ou à velocidade, o vídeo opta por uma estética contemplativa que deixa a música e a voz de Hannah Reid guiarem toda a carga dramática.

Filme Drive e filme completo aqui

Página oficial

domingo, 26 de julho de 2026

The Smashing Pumpkins e "Zero": niilismo de Nietzsche, o primeiro alter-ego de Billy Corgan e a tragédia que mudou o rumo da banda

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Letra
[Verse 1]
My reflection, dirty mirror
There's no connection to myself
I'm your lover, I'm your zero
I'm the face in your dreams of glass

[Pre-Chorus]
So save your prayers
For when we're really gonna need 'em
Throw out your cares and fly
Wanna go for a ride?

[Chorus]
She's the one for me
She's all I really need, oh yeah
She's the one for me

[Bridge]
Emptiness is loneliness
And loneliness is cleanliness
And cleanliness is godliness
And God is empty just like me

[Verse 2]
Intoxicated with the madness
I'm in love with my sadness
Bullshit fakers, enchanted kingdoms
The fashion victims chew their charcoal teeth

[Pre-Chorus]
I never let on
That I was on a sinkin' ship
I never let on that I was down

[Guitar Solo]

[Pre-Chorus]
You blame yourself
For what you can't ignore
You blame yourself for wanting more

[Chorus]
She's the one for me
She's all I really need, oh yeah
She's the one for me
She's my one and only

Mergulho no abismo do niilismo e na mente de Billy Corgan para desvendar um dos capítulos mais explosivos e trágicos do rock alternativo dos anos 90. 
Se em "The Everlasting Gaze" assistimos a um Billy Corgan focado no gnosticismo e no despertar espiritual, foi anos antes, em "Zero", que o músico atingiu o ponto mais alto do niilismo dos anos 90.

Lançada em outubro de 1995 como uma das faixas mais emblemáticas do lendário álbum duplo Mellon Collie and the Infinite Sadness, "Zero" marcou um ponto de viragem definitivo na carreira dos The Smashing Pumpkins. Antes de Billy Corgan mergulhar no gnosticismo e na busca espiritual de "The Everlasting Gaze", foi em "Zero" que o músico atingiu o ponto mais alto da apatia e da dor existencial. A canção destaca-se de imediato pelo seu riff pesado e cortante em afinação drop D, pontuado por um uso brilhante de harmónicos de guitarra modulados com efeitos de flanger e whammy, conferindo ao tema uma sonoridade mecânica, agressiva e quase industrial.

Apesar de já terem passado mais de três décadas desde o seu lançamento, o impacto de "Zero" e da era Mellon Collie continua a ecoar na cultura pop e na história da música. O álbum, que vendeu mais de 10 milhões de cópias só nos Estados Unidos e alcançou a certificação de Diamante, provou que a banda conseguia rivalizar com o fenómeno do grunge mantendo uma visão estética grandiosa. A fusão única de heavy metal, rock industrial e shoegaze pesado abriu caminho e influenciou diretamente a sonoridade de bandas como Deftones, Marilyn Manson, Garbage e grande parte do movimento nu metal do final da década de 90.

O videoclipe oficial do tema foi assinado pela aclamada artista visual e fotógrafa tcheca Yelena Yemchuk, na altura namorada de Corgan e responsável por toda a identidade gráfica de Mellon Collie. O clipe abdica de uma narrativa linear para apostar numa atmosfera barroca, soturna e claustrofóbica. Filmado numa sala decadente com iluminação fria e sombras profundas, o vídeo coloca a banda a atuar enquanto é observada em silêncio por espetadores voyeuristas e enigmáticos. O objetivo do vídeo foi tecer uma crítica crua à objetificação dos artistas pela indústria cultural, capturando a sensação de isolamento, a paranóia trazida pela fama e a desconexão da banda com o mundo exterior.

Durante este período, Billy Corgan encarnou a estética da canção através do seu primeiro alter-ego, "Zero": cabeça completamente rapada, calças prateadas e a icónica t-shirt preta com a palavra ZERO e o logótipo do coração na manga. Esta persona funcionava como a personificação do niilismo, da dormência emocional e da alienação da "Geração X". É precisamente esta figura que, anos mais tarde, na narrativa do álbum Machina/The Machines of God, "morre" para renascer como a personagem Glass.

Tanto a letra como o conceito por trás de "Zero" estão fortemente impregnados de referências filosóficas e literárias. A constante alusão ao vazio em versos marcantes como "God is empty just like me / Emptiness is loneliness, and loneliness is cleanliness / And cleanliness is godliness, and god is empty just like me" reflete a marca do niilismo de Friedrich Nietzsche e do existencialismo europeu, abordando a perda de absolutos e o absurdo da existência. A par do pensamento nietzschiano, a canção e o álbum duplo absorveram a melancolia trágica e o tom dramático dos poetas do Romantismo (como William Blake e Lord Byron), enquanto a estrutura conceptual da obra evocava uma perda da inocência infantil próxima da literatura de transição do século XIX e do universo de Alice no País das Maravilhas.

No entanto, a verdadeira dimensão e a tragédia da era Mellon Collie acabariam por ser severamente marcadas em julho de 1996, em Nova Iorque, no auge da digressão mundial. O teclista contratado Jonathan Melvoin morreu num quarto de hotel vítima de uma overdose de heroína. O baterista Jimmy Chamberlin, que estava presente na mesma noite e também sofreu uma overdose, sobreviveu, mas o incidente levou a banda a tomar a decisão drástica de o demitir devido ao seu historial crónico de toxicodependência.

O choque emocional causou um trauma profundo no grupo e a ausência forçada da bateria orgânica e virtuosa de Chamberlin mudou radicalmente a orientação artística dos The Smashing Pumpkins. Este trágico acontecimento forçou-os a abandonar as guitarras pesadas e a enveredar por uma sonoridade eletrónica, acústica e profundamente soturna no álbum seguinte, Adore (1998). É precisamente esta transição entre o peso de "Zero", a dor de Adore e a busca espiritual de Machina que faz do percurso da banda uma das jornadas artísticas mais fascinantes e complexas do rock moderno.

sábado, 25 de julho de 2026

The Awakening - Until The Dawn

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Letra
Angels, don't you know you're my lifeline?
When I feel like letting go, I need you by my side
To make these feelings go away
To start the healing once again

Carry me through the dark, I need to know the way out

I hold my breath again as the night falls
I need to let you in through these hollow walls
And take my hand as I pray
Wipe the tears from my face

Carry me through the dark, I need to know the way out

Angels, don't you know you're my lifeline?
Carry me through the dark
Carry me through the dark, I need to know the way out

The Awakening – Until The Dawn: significado, estilo e influências da canção
A banda The Awakening é um dos projetos mais emblemáticos do gothic rock e do darkwave, fundada em Joanesburgo, na África do Sul, em 1995, pelo músico, compositor e produtor Ashton Nyte (atualmente radicado nos Estados Unidos). No tema "Until The Dawn", lançado como o primeiro single do seu décimo terceiro álbum de estúdio (The Lost Theatre), o grupo reafirma a sua identidade musical marcada pela fusão de guitarras melancólicas, ritmos pulsantes do post-punk e pelos profundos vocais barítonos característicos do seu líder. Liricamente, a canção explora a vulnerabilidade e a resiliência humana, focando-se na coragem necessária para pedir ajuda durante momentos de profunda escuridão interior e sofrimento pessoal, transformando o apelo a uma "linha de vida" (lifeline) numa celebração de esperança até ao despontar de um novo dia. Do ponto de vista conceptual e criativo, o universo artístico do projeto é fortemente moldado por influências filosóficas e literárias que vão desde o existencialismo e o romantismo sombrio do século XIX até ao pensamento distópico de George Orwell (em especial a crítica ao isolamento e ao controlo expressa em 1984), combinando de forma poética alegorias espirituais, dilemas éticos e o incessante anseio de redenção e conexão humana.

O tecido literário e filosófico no universo de Ashton Nyte
No universo criativo dos The Awakening e na escrita poética de Ashton Nyte, manifesta em temas como "Until The Dawn" do álbum The Lost Theatre, a música transcende o mero entretenimento para se tornar um espaço de profunda reflexão conceptual. A estética da banda apoia-se num diálogo constante com a literatura clássica e a filosofia existencial, moldando uma narrativa que utiliza a escuridão não como um fim absoluto, mas como o ponto de partida para a iluminação interior.

Do ponto de vista literário, a influência do Romantismo Sombrio e da tradição gótica de figuras como Edgar Allan Poe e Lord Byron é evidente na forma como a noite e a figura simbólica dos "anjos" são evocadas. Longe de uma representação estritamente teológica, o apelo a uma força protetora ou a uma "linha de vida" surge como uma metáfora romântica para a fragilidade da condição humana, a angústia da perda e a necessidade vital de ligação afetiva. A esta sensibilidade junta-se o eco da literatura distópica, em particular a visão de George Orwell em 1984. A ideia de atravessar "paredes ocas" em busca de cura e redenção reflete a luta do indivíduo contra o isolamento alienante e a perda de empatia impostos por uma sociedade fria e desumanizada. Além disso, o próprio enquadramento concetual do álbum remete para o Teatro do Absurdo de Samuel Beckett, no qual a vida é representada como um palco trágico-cómico e o ato de aguardar a alvorada se assemelha à incessante busca por sentido num mundo que parece desprovido dele.

No plano filosófico, a canção mergulha nas correntes do existencialismo de Søren Kierkegaard e Jean-Paul Sartre. A expressão explícita da dor e da vontade de desistir confronta o ouvinte com a angústia existencial e com o desespero interior. A decisão de pedir ajuda e procurar um caminho para fora da escuridão espelha o "salto de fé" de Kierkegaard - o momento em que a vulnerabilidade é aceite e convertida num ato consciente de escolha e resiliência. Esta jornada através das sombras rumo à luz estabelece também uma analogia com a Alegoria da Caverna de Platão, onde a libertação da escuridão simboliza o despertar da consciência e a ultrapassagem do sofrimento. Ao recusar o niilismo passivo e ao transformar a dor numa busca ativa por esperança, Ashton Nyte constrói uma obra em que a literatura e a filosofia se unem para guiar o ouvinte até ao despontar de uma nova alvorada.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

IAMTHESHADOW - Bleed Dry

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Letra
Take my love
And drown it
In the empty dark sky
Hold my breath
Explode me
From the memories of your mind

A place of loss
Has found me
A slice of what was light
And drowned in flames
To bleed dry
The tomb of my mind

Took me a life to be here
Cost me a life to stay near

Built my fate
Around this
Lost and empty sight
And drowned in flames
To bleed dry
The tomb of my mind

Took me a life to be here
Cost me a life to stay near

A noite portuense como espelho da alma darkwave
A sonoridade texturada e melancólica dos IAMTHESHADOW encontra na noite do Porto o seu cenário conceptual perfeito, transformando a geografia da cidade numa extensão física das emoções que moldam "Bleed Dry". Sob a capa da escuridão, o projeto liderado por Pedro Code e Vitor J Moreira cruza a herança estética do Post-Punk e da Coldwave com a essência gótica e introspetiva da Invicta, resultando numa simbiose perfeita entre música, filosofia e arquitetura. 

Quando a luz do dia desaparece, o Porto despe-se da azáfama quotidiana e veste-se de sombras, revelando um labirinto urbano que parece saído diretamente de um conto do romantismo sombrio do século XIX. Caminhar pelas ruelas desertas da Sé ou de Miragaia a estas horas, onde o eco dos passos rebate no granito húmido e nas calçadas escuras, evoca a exata sensação de claustrofobia e isolamento psicológico descrita na letra, que explora de forma visceral a perda e o esgotamento emocional de quem se mantém preso a algo destrutivo. 

A própria humidade e o nevoeiro que frequentemente sobem do rio Douro funcionam como uma neblina cinematográfica real, confundindo as fronteiras entre o espaço físico e a "tumba da mente" a que a voz barítona e aveludada do vocalista se refere, remetendo diretamente para o arquétipo freudiano e junguiano da "sombra" interior e para a tradição literária de autores como Edgar Allan Poe ou Lord Byron. 

Musicalmente, a base rítmica eletrónica marcada e os sintetizadores gélidos da canção encontram um reflexo visual nas luzes públicas que cintilam no chão molhado da cidade, criando uma atmosfera simultaneamente industrial e etérea, onde lendas do género como Joy Division ou Clan of Xymox ganham uma roupagem contemporânea. 

À noite, a imponência das estruturas de ferro e o abismo negro da água que corre em direção à Foz materializam o vazio existencial, o niilismo e o "céu escuro" da composição, onde o sofrimento é esgotado - sangrado até secar - para dar lugar a uma catarse artística. 

O próprio videoclipe da banda, com o seu jogo geométrico de feixes de luz que rasgam a penumbra de forma minimalista, ganha assim uma nova dimensão interpretativa: a luz que corta a escuridão do estúdio é a mesma que tece o contorno dos edifícios históricos do Porto na madrugada, transformando a cidade não apenas num pano de fundo geográfico, mas sim numa cúmplice silenciosa que converte a dor psicológica numa obra de arte incrivelmente bela e hipnótica.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

HAEVN - Where Did You Go

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[Verse 1]
I have been chasing an old place in time
At the town station, we jump the fence at night
Do you ever think of you and I?
I have been waiting every day and night
Have you barricaded all your feelings dry?
Do you ever think of you and I?
Now you're living on the other side

[Chorus]
You left a hole in my world so long, long ago
So where did you go? Another life carried on
Where did you go? Where did you go?
Where did you go? Where did you go?

[Verse 2]
You said that we wasted our younger days in life
But you were just jaded in the heat of the fight
There's no reason to be out of sight
Now you're living on the other side

[Chorus]

[Bridge]
I, alone, love you
Bring me back to what we began
I, alone, love you
Show me all that I'll never have

[Pre-Chorus] 4X
Where did you go? Where did you go?

[Chorus]

Minha análise
Em "Where Did You Go", os HAEVN exploram com mestria a dor da ausência e a profunda dificuldade de lidar com a perda de alguém marcante. A repetição insistente da pergunta "Where did you go?" funciona não apenas como uma busca por respostas concretas, mas sobretudo como um reflexo da incapacidade de aceitar o vazio deixado por quem partiu. O verso "You left a hole in my world so long, long ago" sublinha que o passar do tempo foi insuficiente para cicatrizar esta ferida, reforçando o impacto duradouro e paralisante da separação na vida do narrador.

Inspirada por sentimentos de saudade e desolação após o término de uma relação, a composição recorre a memórias nostálgicas da juventude, como "chasing an old place in time" e "jump the fence at night", para traduzir o desejo desesperado de resgatar e reviver momentos felizes do passado. Versos como "Have you barricaded all your feelings dry?" e "Now you're living on the other side" sugerem uma dolorosa assimetria: enquanto a outra pessoa conseguiu seguir em frente e distanciar-se emocionalmente, quem canta permanece estagnado e refém das lembranças.

Esta divergência de perspetivas torna-se ainda mais evidente na passagem "You said that we wasted our younger days in life, but you were just jaded in the heat of the fight", que expõe ressentimentos antigos e visões opostas sobre o valor daquilo que viveram juntos. Toda esta narrativa melancólica e introspetiva é amplificada pela assinatura sonora dos HAEVN, cujas texturas atmosféricas, cinemáticas e subtilmente próximas do shoegaze intensificam a sensação de solidão, transformando a canção numa busca contínua de sentido num mundo que ficou incompleto.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Daniel Knutz - Victim of Time

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Letra
In the depths of Time I find my reflection
Cannot freeze the hours no escape no protection
Youth slips away like sand through my fingers
I'm just a prisoner as the clock forever lingers

[refrão] 3X
Victim of Time

Shadows of Time I'm lost and confined
A victim of hours that I can’t unwind
The hands keep turning as I fade away
Days are nights and nights are days

[refrão] 4X

Lines on my face tell stories of the years
Each wrinkle a reminder of joys and tears
I try to escape there is no way to go
But I'll keep dancing until Time fades my soul

[refrão] 6X

Significado da canção
A música aborda a crise da autoperceção perante o envelhecimento e a finitude. O eu lírico vê-se ao espelho ("In the depths of Time I find my reflection") e percebe que perdeu o controlo sobre a própria existência.
Há um forte sentimento de impotência ("no escape no protection"). O tempo é retratado como um carcereiro inflexível ("I'm just a prisoner") que transforma a rotina num borrão monótono onde o sentido se perde ("Days are nights and nights are days").
No entanto, o final traz uma reviravolta crucial: a aceitação resiliente. Em vez de se entregar totalmente ao desespero, ele decide resistir através da arte, do movimento e da vida ("But I'll keep dancing until Time fades my soul").

sábado, 21 de março de 2026

IKON - Black Roses


Letra
She doesn't know me
She doesn't care
Behind her darkness
Behind her stare

She sees it all

And in my dying hour
She gives me black roses
And as my time shall pass
I'm falling for her

My time is ending
My time draws near
My time is ending
My time draws near
Behind her darkness
Behind her eyes
Behind her darkness
There she lies

And in my dying hour
She gives me black roses
And as my time shall pass
I'm falling for her
You might also like
I’ve Been

And now my time has passed
I've fallen for her
Sobre a música "Black Roses" (1994)
Esta faixa faz parte do álbum de estreia, No Day Shall Erase You From The Memory Of Time, e é considerada um clássico absoluto do género Gothic-Rock

Ouve-se melhor aqui e este remix (em 2024)

Os Ikon foram fundamentais para manter o movimento gótico vivo nos anos 90, em que as camisas de flanela do Grunge e a ascensão meteórica do Rap e Hip-hop dominavam por completo as rádios e a MTV. Eles conseguiram criar uma sonoridade que era, ao mesmo tempo, nostálgica e autêntica. Eles não se limitaram a copiar o passado; eles reinvigoraram-no.

Apesar de serem australianos, tiveram um impacto enorme em países como a Alemanha e o Reino Unido, onde o movimento Darkwave continuava a ter bases sólidas em clubes underground.

A canção "Black Roses" dos Ikon é uma peça fundamental do Darkwave australiano que encapsula a essência da melancolia romântica e do isolamento existencial típicos dos anos 80. No contexto lírico e sonoro desta banda de Melbourne, a "rosa preta" surge como uma metáfora central para um amor que é, simultaneamente, eterno e fúnebre. A letra explora a beleza que reside na decadência e na dor, sugerindo que certas perdas são tão profundas que se tornam parte da identidade de quem sobrevive.

Musicalmente, o significado da faixa é amplificado por uma produção fria e minimalista, onde a linha de baixo persistente e os sintetizadores gélidos criam uma atmosfera de desespero contido. Não se trata apenas de uma música sobre a morte física, mas sim sobre a morte emocional e o conforto encontrado na sombra. Há uma aceitação do destino e uma entrega à tristeza, elevando o luto a uma forma de arte. Para os Ikon, "Black Roses" funciona como um manifesto de resistência cultural: num mundo que exigia felicidade e cores vibrantes, eles escolheram cultivar a elegância do abismo, transformando a angústia post-punk numa oferenda de devoção eterna aos sentimentos mais sombrios da alma humana.

Sites
IKON bandcamp
IKON wikipedia
IKONtheband youtube

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

John Clare - um poeta maior


Se já é duro ser poeta contemporâneo de Blake, Byron, Burrns, Coleridge, Keats, Shelley e Wordsworth, imagina então frequentar o terreno lírico proveniente da ralé interior. Esse é, sem tirar nem pôr, o drama de John Clare (1793-1864).
Nasceu em Helpston, este The Northamptonshire Peasant Poet. Começou a trabalhar na agricultura ainda em criança, depois foi garçon no bar Blue Bell. Também trabalhou como jardineiro, acampou com ciganos, foi queimador de cal. De saúde precária, mal alimentado, socorreu-se nas paróquias locais. A leitura de The Seasons, de James Thomson, levou-o a escrever os primeiros poemas. Em 1820, sai o seu primeiro livro: Poems Descriptive of Rural Life and Scenery. Não podia ter um título mais adequado. É precisamente isso o que caracteriza grande parte da poesia do primeiro dos três bardos antologiados e traduzidos por Ricardo Marques em Três Bucólicos Ingleses (Elysium, Setembro de 2020): uma poesia descritiva da vida rural, com suas cenas, paisagens, lugares, pessoas, trabalhadores, com sua fauna e flora, as Lebres a brincar, A raposa, a Névoa nos prados, os Estudantes no Inverno.

Clare foi muito elogiado pelos seus poemas iniciais. Casou-se nesse mesmo ano de 1820. Dividido entre os saraus literários londrinos e o analfabetismo da vizinhança, passou por graves momentos de depressão. Perdeu a aura inicial, afogou-se em álcool, procurou refúgio num asilo para doentes mentais. Dizia-se Lord Byron, dedicando-se a reescrever os poemas deste. Também dizia ser Shakespeare, o génio da Renascença, mas no magnífico poema Eu sou!, é perceptível a frustração: «Eu sou o que se consome com os seus problemas». Sentia-se desprezado e abandonado pelos amigos. 

Como referi a sua vida foi um verdadeiro desfile de tragédias e misérias. Primeiro as económicas - família pobre, sem recursos sequer para propiciar-lhe uma educação formal razoável -  depois as afetivas, novamente económicas, até as sociais - internado num asilo em 1837, aí e permanece por quatro anos, fugindo em julho de 41 ("He walked the 80 miles to Northborough, penniless, eating grass by the roadside to stay his hunger", diz a sempre contida Encyclopeadia Britannica);  no final desse ano, é declarado louco e passa os últimos 23 anos de vida num hospício, escrevendo com impulso lírico estranhamente insaciável, algumas das suas melhores poesias.

Teve a Natureza como tema central em seus poemas, sempre louvando-a ou lamentando a sua destruição. Seria um activista ambiental nos nossos dias.

Publicou três livros em vida, nenhum dos quais chegando a render muito, nem crítica ou dinheiro.

Foi redescoberto no séc. XX por Arthur Symons, que em 1908 incluiu-o numa seleção de poetas britânicos. A sua fama e mérito e respeito foi aumentando. Um dos poemas de John Clare serviu de inspiração para a Sinfonia da Primavera de Benjamin Britten e, em 1989, 125 anos após sua morte, ele foi homenageado com uma placa no Poet's Corner, na Abadia de Westminster.



 Aqui Patrick Stewart lê o poema "Ao Outono" junto da casa onde John Clare viveu.


E-Livro: Clare´s Poems, by Norman Gale (1901)

Biografia
John Clare [wiki]

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Twin Tribes - Heart and Feather: história, significado da música e do videoclipe

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Letra
Masked in blood I count the tears
That I missed
A breath, a kiss
Darker days consumed the stars in
The night
The oblivion

Take my hand, star-crossed love
From within
Preachers of sin. A sin
Broken words consumed us
Into the flames
The oblivion

This curse we have we cannot hide
The hourglass defines you
White sands connect us, you and I
Forever intertwined

A metáfora do coração e da pena: da mitologia ao romantismo gótico
Lançada pela dupla norte-americana de darkwave Twin Tribes - composta por Luis Navarro e Joel Niño Jr. — no álbum Ceremony (2019), a canção "Heart and Feather" firmou-se como um dos grandes hinos do pós-punk e da darkwave contemporâneos. A faixa constrói um equilíbrio marcante entre uma melodia dançante e brilhante e uma atmosfera soturna e melancólica, explorando o tema do amor sob a ótica da inexorabilidade do tempo e da inevitabilidade do destino.

No seu cerne, "Heart and Feather" aborda a dualidade do romantismo sombrio, onde o sentimento amoroso é marcado por uma espécie de resignação esperançosa e pela sensação de se estar amaldiçoado pelo tempo. A letra evoca a ideia de um amor fadado e trágico, no qual a conexão profunda entre dois amantes é inquebrável, mas inevitavelmente condicionada por uma limitação temporária. Versos como "This curse we have we cannot hide" e referências a uma união "marcada pelas estrelas" reforçam essa sensação de inevitabilidade fatalista. Paralelamente, elementos como a imagem constante da ampulheta e as areias brancas servem de metáfora para o tempo que se esgota irresistivelmente, devorando ilusões e entrelaçando os amantes até ao esquecimento. O próprio título condensa esta tensão ao unir dois símbolos opostos: o coração, que representa o peso da dor, do apego, da mortalidade e do sangue, e a pena, que simboliza a leveza do espírito, a transitoriedade e o sopro da existência.

O videoclipe oficial de "Heart & Feather" foi dirigido pelo cineasta Sultan Mars, com direção de fotografia de M. Sebastian Kolderup-Lane. Gravado em um marcante e contrastado preto e branco, o vídeo retrata a dupla Luis Navarro e Joel Niño Jr. performando em paisagens desérticas e cenários claustrofóbicos, traduzindo visualmente a estética do pós-punk contemporâneo.

O universo conceitual do Twin Tribes combina o romantismo sombrio, o ocultismo e as reflexões existenciais, sobressaindo em "Heart and Feather" diversas referências literárias, filosóficas e mitológicas. A canção bebe diretamente da tradição do Romantismo Gótico do século XIX, evocando autores como Edgar Allan Poe e Lord Byron ao valorizar a beleza na tragédia e no sofrimento amoroso, onde a morte e o amor surgem como forças entrelaçadas que se eternizam na sombra. Embora a banda não o explicite teoricamente, a junção do coração e da pena faz também eco direto com a mitologia egípcia e o Julgamento de Osíris, descrito no Livro dos Mortos. Nesse mito, o coração do falecido era pesado na balança da deusa Ma'at contra a Pena da Verdade; na canção, essa dicotomia manifesta-se como a busca pela pureza ou aceitação diante da finitude e do julgamento do tempo. Sob uma leitura filosófica, a obra aproxima-se do fatalismo e do conceito de Amor Fati de Friedrich Nietzsche: perante a marcha inexorável do tempo (tempus fugit), resta aos amantes aceitar e abraçar a dor da finitude enquanto tudo ao seu redor é consumido.

Do ponto de vista sonoro e estético, "Heart and Feather" é moldada pela herança do pós-punk e da darkwave clássica dos anos 80, destacando-se a influência de bandas como The Cure (especialmente das fases de Seventeen Seconds e Disintegration), The Chameleons, Clan of Xymox e Joy Division. A arquitetura musical assentam em linhas de baixo melódicas com um chorus proeminente, arpejos de guitarra cristalinos com efeito de delay, sintetizadores vintage (como o Roland JX-3P) e caixas de ritmo marcantes. Além disso, sendo originários da região fronteiriça entre o Texas e o México (Brownsville e Matamoros), os membros do Twin Tribes refletem também o impacto do rock em espanhol mais poético e sombrio, citando nomes icónicos da música latina como Caifanes e Soda Stereo.


Biografia e discografia:
Twin Tribes

Site:
Twin Tribes

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Twin Tribes

segunda-feira, 22 de março de 2021

Mary Shelley: a adolescente que criou Frankenstein e a ficção científica moderna


Descubra a história da adolescente que criou Frankenstein, o primeiro romance da ficção científica moderna

A criação de Frankenstein é parte do panteão de monstros clássicos que existem no imaginário cultural do terror. Famosa pelo impacto da interpretação de Boris Karloff na sua adaptação para o cinema, essa criatura é o protagonista do romance Frankenstein ou o Prometeu moderno, considerado um dos primeiros romances da ficção científica moderna, tanto pelo enredo quanto pelos temas sobre os quais reflete.

Um dos pontos mais marcantes de sua criação, no entanto, não é somente o argumento que impressionou a sociedade do século XIX, como continua a nos impressionar hoje, mas a pessoa que o capturou em palavras: Mary Shelley, uma jovem de apenas 18 anos.

Retrato de Mary Shelley (1797-1851) por Richard Rothwell [Wikicommons]

Infância e adolescência turbulentas

Nasceu na Inglaterra em 1797. Sua mãe, a filósofa e ativista feminista Mary Wollstonecraft, morreu apenas um mês após o parto. O fato fez com que seu pai, o filósofo, político, romancista e primeiro expoente da ideologia anarquista, William Godwin, se encarregasse de sua educação, que, embora informal e caótica, também foi completa e rica. Porém, o segundo casamento de seu pai, com Mary Jane Clairmont, com quem Mary Shelley nunca teve uma boa relação, foi um elemento de tensão que tornou muito problemática sua vida na casa do pai.

Tudo isso contribuiu para que em 1814, aos 16 anos, Mary iniciasse uma relação amorosa com o famoso poeta Percy Bysshe Shelley, um homem casado com quem fugiu. Viajaram pela Europa e viveram um ano numa relação de amor livre. Quando voltaram para a Inglaterra, Mary estava grávida e foram rejeitados pela sociedade puritana da época, subsistindo apenas com o salário familiar de Percy. Casaram-se em 1816, após o suicídio da primeira esposa de Shelley.

Retrato de Percy Bysshe Shelley (1819), Curran [Wikicommons]


Foi então que Mary sofreu uma perda que a marcaria para sempre e que, infelizmente, viveria mais de uma vez: a morte da filha, nascida prematuramente. As tragédias pessoais e sua vida caótica contribuíram para que Mary afundasse em uma depressão da qual surgiria um dos monstros mais conhecidos da história.

Tudo começou durante uma tempestade noturna
Em maio de 1816, o casal decidiu passar o verão na aldeia suíça de Cologny em Villa Diodate com, entre outros, o famoso poeta Lord Byron e a meia-irmã de Mary. O retiro às margens do Lago Léman seria ideal para melhorar seu humor e passar um verão agradável.
Porém, naquele ano o clima decidiu não colaborar, a chuva os manteve em casa por dias seguidas e as histórias de fantasmas tornaram-se uma forma de passar as noites na luxuosa casa.

Fotografia da Villa Diodati de Lord Byron, por Robert Grassi


Numa dessas noites, Byron teve uma ideia: todos os presentes escreveriam uma história de terror que teria que causar incômodo e horror. No início, Mary sofreu: não conseguia pensar em nada e uma ansiedade crescente começou a apoderar-se dela. Mas, numa conversa entre Lord Byron e Shelley, surgiram temas como origem da vida, as experiências da época, os limites da ciência e a ideia de poder reviver um cadáver.

A conversa marcou tanto Shelley que, ao deitar, não conseguiu pegar no sono. Ela afirma que sua mente trouxe a visão de um "estudante de artes sacrílegas ajoelhado diante da criatura que havia criado". As imagens eram de modo tão vívidas que chegou a ficar horrorizada. Naquela noite, em sua mente inquieta, nascia o monstro Frankenstein

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                             Boris Karloff em foto promocional do filme 'A Noiva de Frankenstein' (1935) 
Está vivo!
A ideia se apossou de Mary Shelley desde o primeiro momento: começou a escrevê-la imediatamente, procurando aterrorizar os seus leitores da mesma forma que as visões da noite anterior haviam feito consigo.

A maioria conhece o enredo da história. O cientista Victor Frankenstein, um estudante de medicina, desafia as leis da natureza ao tentar dar vida a uma criatura composta de partes de diferentes cadáveres, que ele "desperta" graças a um processo científico não especificado (embora mencione reiteradamente a energia das tempestades, Shelley nunca escreveu que era eletricidade).

De imediato, Frankenstein percebe o erro e, horrorizado com o ser criado, foge do laboratório. O monstro, abandonado à própria sorte e rejeitado pela sociedade, começa a cometer crimes que culminam no assassinato da pretendente e do melhor amigo de seu criador e, por fim, na morte do próprio Victor.

Na sua primeira versão, Frankenstein não era mais do que um conto, mas o marido encorajou Shelley a transformá-lo em algo mais, um romance, e assim foi publicado anonimamente em 1818.
Ilustração do romance por Theodor von Holst (1831) 

Frankenstein é realmente a primeira obra de ficção científica moderna?
Frankenstein aborda temas que se tornaram pilares da ficção científica moderna: a moral científica, os limites e perigos dos avanços da ciência, o medo motivado pelas primeiras fases da revolução industrial que então se iniciava.

Mostra como as tendências capitalistas atacam a liberdade e a dignidade do ser humano, e a famosa criatura funciona como um castigo pelo uso irresponsável dos avanços da ciência e da tecnologia.
Imagem promocional de 'Frankenstein' (1931), com Colin Clive e Boris Karloff

Assim, embora o romance contenha elementos góticos e enquadre-se no movimento romântico, o escritor Brian Aldiss o definiu, em oposição a outras histórias anteriores mais ou menos fantásticas, como o primeiro romance de ficção científica. Ele acredita que é muito significativo o fato do personagem central utilizar novos experimentos de laboratório para criar o que é, essencialmente, um personagem fantástico.

Por isso, e pelas implicações filosóficas e morais, este romance teve uma enorme influência não apenas na literatura, mas também na cultura popular, na qual abriu novos caminhos para todo tipo de histórias, filmes e peças.
Imagem de Victor Frankenstein e sua criatura na série 'Penny Dreadful', do Showtime

No entanto, o enorme sucesso deste romance mítico não pode e não deve obscurecer as outras facetas da vida e obra desta autora. A morte do marido Percy num naufrágio, quando ela tinha apenas 25 anos, a perda de outros dois filhos e problemas financeiros marcaram os seus últimos anos, nos quais se tornou muito menos radical e inovadora.

Apesar disso, Mary continuou a escrever enquanto editava a obra do marido. Um tumor cerebral abreviou sua vida, aos 53 anos. A  sua produção literária (que abrange romances, artigos, relatos de viagem etc.) e, sobretudo, sua luta pessoal como mulher liberal ("de mente aberta", como definiu o seu pai), foram os pilares que marcaram a sua vida e obra.

Muito influenciada pelos escritos da mãe ("a memória de minha mãe tem sido o orgulho de minha vida", dizia), defendeu, as ideias políticas e feministas da progenitora: a importância da educação, a justiça social, o progresso baseado na cooperação, a melhoria da sociedade através do poder político, a igualdade entre homens e mulheres, a defesa do amor livre - tudo isso apesar das críticas e preconceitos de seu tempo. Foi, como sua mãe havia sido, uma autêntica pioneira do feminismo. Como ela mesmo disse:
"Acredito que possa me sustentar e há algo de inspirador na ideia."

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Irena Žilić - The Moon

Melhor som aqui
Irena Žilić é uma das cantoras e compositoras mais respeitadas da cena alternativa croata, destacando-se por criar um som íntimo, melancólico e poeticamente denso, cantando exclusivamente em inglês. A sua canção "The Moon", que faz parte do aclamado álbum Haze, funciona como uma metáfora sobre o distanciamento emocional, os ciclos da vida e a busca por clareza em meio à névoa mental. Nesta faixa, a lua não surge como um símbolo de romance clichê, mas sim como uma presença fria, distante e constante, uma força que assiste às nossas falhas e transformações sem interferir, espelhando a dor de deixar algo ou alguém para trás e a aceitação da vulnerabilidade sob o luar. A relevância desta obra é tamanha que a famosa banda britânica Morcheeba gravou uma versão oficial do tema, após a artista ter feito a abertura dos seus concertos na Europa.

O estilo musical de Irena Žilić passou por uma evolução nítida ao longo dos anos. Inicialmente ancorada num indie folk acústico tradicional, com arranjos de cordas suaves e dedilhados que remetem para o universo de artistas como Laura Marling ou Cat Power, a compositora expandiu a sua sonoridade em "The Moon". Nesta faixa, o folk alternativo funde-se com texturas eletrónicas subtis e linhas de baixo mais marcadas, criando uma atmosfera sombria, cinematográfica e envolta em névoa.

No que diz respeito às influências filosóficas, romancistas e poéticas, a escrita de Irena bebe diretamente de grandes correntes artísticas e existenciais. Há um forte tom existencialista na sua obra, visível na forma como aborda o isolamento, a nostalgia e o peso das escolhas individuais. Além disso, a sua poética carrega a herança do Romantismo do século XIX, onde os elementos da natureza, como a lua e a neblina, funcionam como extensões diretas do estado psicológico do eu lírico. Esta narrativa introspectiva aproxima-se do romance psicológico, assemelhando-se a páginas arrancadas de um diário íntimo que capturam estados de espírito e vislumbres de lucidez, uma escolha estética que se complementa com a opção de compor em inglês, língua que, segundo a própria, flui de forma mais natural para expressar esta melancolia.

Significado do videoclipe
O videoclipe de "The Moon" é uma obra visual de caráter minimalista e conceitual, realizada em parceria com os coletivos artísticos 73collective e Tricycle Trauma. Gravado no palco do KUC Travno, em Zagreb, o vídeo abdica de qualquer narrativa linear e aposta na dança contemporânea, na acrobacia aérea e no contraste extremo de luz e sombra para traduzir a densidade da música. O cenário, desprovido de ornamentos, coloca Irena Žilić no centro de uma penumbra que simboliza a própria mente humana em um estado de isolamento e vulnerabilidade. Enquanto a cantora interpreta a faixa de forma contida e introspectiva, os performers ao seu redor corporificam os conflitos internos, o cansaço psicológico e a busca por libertação emocional que a letra sugere.

O significado central do videoclipe gira em torno da exaustão e do desapego, ilustrando visualmente a metáfora de "perseguir a lua". A escuridão total do palco representa a estrada escura mencionada nos versos iniciais da canção, funcionando como um reflexo da névoa mental que envolve o eu lírico. Os movimentos dos dançarinos nos tecidos aéreos — repletos de giros, suspensões e quedas controladas - trazem à vida os "fantasmas que não nos libertam". Essa dinâmica física expressa a frustração de tentar alcançar o impossível e a dor de aceitar o fim de um ciclo. No final, o clipe se consolida como uma representação poética sobre encarar as próprias sombras e aceitar a solidão como um passo necessário para encontrar a clareza e a transformação espiritual.

Página Oficial
Irena Žilić

sábado, 1 de setembro de 2012

AND ONE - Killing The Mercy

Melhor som aqui
Letra
Imprisoned in the cell of hell
My execution sealed by law
Since years I'm longing for your smell
But hope is ending at the door

Your phone is ringing once a week
It's good to hear a voice like home
Just twenty seconds left to speak
My love died with a busy tone

But this day something takes too long
Instead of hello just a noise
The number's right, this voice is wrong
It's killing time, I have no choice

What will happen to me
Tell me which love's killing the mercy
A dead man's swimming over the sea
He won't to be (the one who will feel you)
Now it happen to me
Tell me who's gonna die in the deep sea
Killing the mercy (who will feel you?)

I hear the footsteps on the floor
A jailer's scream, a falling key
My life is ending here once more
The time has come to kill me free

With the barrel pointing at my face
I'm knocking on her sinful door
The trigger seals the act of grace
She'll never call me anymore

Rompimento e libertação em "Killing The Mercy"
A canção «Killing The Mercy», lançada em 2012 no álbum S.T.O.P. pela prestigiada banda alemã And One - fundada em Berlim no ano de 1989 por Steve Naghavi e Chris Ruiz , insere-se nos domínios do synthpop, da electronic body music (EBM) e da darkwave. O grupo, profundamente influenciado por nomes estruturantes da música eletrónica europeia como Depeche Mode, Kraftwerk ou Nitzer Ebb, constrói a sua sonoridade através da fusão entre sequenciadores melódicos, batidas eletrónicas marcadas e vocais graves de forte carga dramática.

No que concerne ao seu significado, a composição utiliza a metáfora de um prisioneiro no corredor da morte a aguardar a execução para ilustrar o fim inevitável e doloroso de uma relação amorosa desgastada. A impossibilidade de comunicação e a brevidade do contacto verbal simbolizam a rutura afetiva irreversível, onde o ato de «matar a misericórdia» representa a rejeição da falsa esperança. A execução final surge, assim, como um «ato de graça» libertador que põe termo à complacência sufocante e ao sofrimento prolongado. Por sua vez, o videoclipe da canção, realizado por Adolf Steinhimmel, traduz esta atmosfera através de uma estética minimalista, teatral e sombria, onde o jogo de luzes e sombras e o ambiente claustrofóbico sublinham visualmente a solidão do indivíduo perante o desfecho da sua narrativa pessoal.

Do ponto de vista concetual, a obra estabelece diálogos profundos com diversas influências literárias e filosóficas. O cenário da condenação e o isolamento do protagonista remetem para o existencialismo e para a filosofia do absurdo de autores como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, ecoando a resignação e a tomada de consciência do indivíduo perante o seu próprio destino, de forma análoga ao percurso da personagem principal em O Estrangeiro. Paralelamente, a forte ligação entre a paixão e a ruína aproxima a temática ao romantismo negro e à literatura gótica de Edgar Allan Poe ou Lord Byron, onde a beleza e a tragédia coexistem de forma indissociável. Por fim, assoma também uma perspetiva de cariz niilista, alinhada com a crítica de Friedrich Nietzsche à compaixão passiva: ao advogar o fim da misericórdia, o texto propõe a recusa da piedade como um obstáculo e defende o corte radical como a única via possível para alcançar a verdadeira libertação e a autonomia emocional.