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domingo, 13 de setembro de 2026

Como fazer a ruptura pós-capitalista

Löwy: crise climática pede a ruptura do capitalismo
O grande erro dos movimentos ecológicos atuais é continuarem a agir como se estivéssemos em meados do século passado, acreditando que basta organizar marchas, erguer cartazes e divulgar relatórios científicos para despertar a consciência das pessoas. Essa abordagem ignora uma mudança profunda: a praça pública de outrora foi substituída por um ecossistema digital desenhado ao milímetro para manter a população num estado de anestesia e distração permanentes. Esperar por uma revolução ética de baixo para cima quando a sociedade passa o dia a consumir dopamina rápida em ecrãs hipervigilados é uma ilusão ingénua - e um luxo que o relógio climático não nos concede.

Como já tinha referido aqui e aqui, para que o Ecologismo e o Humanismo Activo deixem de ser uma carta de intenções morais e se tornem uma força política real, a estratégia tem de deixar de ser pedagógica e passar a ser infraestrutural. Se a consciência coletiva está bloqueada pela arquitetura do capitalismo de vigilância descrita por Shoshana Zuboff, o primeiro passo não é tentar convencer o indivíduo sedado, mas desmontar a engenharia do vício. Isso exige tratar o assalto ao tempo e à cognição analisado por Jonathan Crary ou Bernard Stiegler como uma ameaça direta à própria capacidade de organização política. Sem resgatar o tempo e a lucidez roubados pelas plataformas digitais, qualquer tentativa de mobilização dilui-se inevitavelmente no ruído algorítmico.

Ao mesmo tempo, perante a paralisia cultural do "realismo capitalista" teorizada por Mark Fisher - em que se tornou mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema económico -, o movimento precisa de abandonar a mera protestação simbólica. Como defende o historiador Andreas Malm, a escassez de tempo exige uma transição para a ação direta de alta fricção, focada no desmantelamento tático e financeiro das infraestruturas fósseis. O foco deixa de ser agradar à opinião pública e passa a ser tornar a atividade poluidora economicamente inviável. Essa disrupção física deve ser acompanhada por aquilo a que Ivan Illich chamava "ferramentas de convivência": a criação de redes locais e analógicas de sobrevivência alimentar, energética e comunitária. É na junção entre o resgate da atenção, a paralisação do capital ecocida e a construção de resiliência no terreno que a ética ambiental encontra a sua tradução em poder político efetivo.

Os Autores e Teóricos Subjacentes a Esta Tese

  • Shoshana Zuboff (A Era do Capitalismo de Vigilância): Dá-lhe o argumento central sobre como as plataformas digitais não são meros meios de comunicação, mas indústrias de modificação comportamental que destroem a autonomia e a capacidade de organização coletiva.
  • Andreas Malm (Como Salvar um Planeta em Chamas / How to Blow Up a Pipeline): Fundamenta a crítica ao pacifismo estratégico tradicional. Malm defende que, perante a urgência, o movimento ecológico tem de ultrapassar os protestos simbólicos e adotar a sabotagem tática de infraestruturas fósseis (sem violência contra pessoas) para encarecer o capital poluidor.
  • Mark Fisher (Realismo Capitalista): Sustenta a tese da alienação e da paralisia: a ideia de que o sistema criou uma anestesia cultural onde é "mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", transformando o sofrimento e a ansiedade em consumo passivo.
  • Ivan Illich (Tools for Conviviality): Alimenta a ideia da construção de "cidadelas analógicas" — a necessidade de criar tecnologias e redes de escala humana, locais e desvinculadas dos megassistemas industriais e digitais para devolver a autonomia às comunidades.
  • Cédric Durand ou Nick Srnicek (Capitalismo de Plataforma / Feudalismo Digital): Em vez de olhar para a psicologia do ecrã (como Han faz), estes autores explicam a arquitetura económica real de como as grandes plataformas extraem renda e capturam o comportamento humano.
  • Bernard Stiegler: Para uma crítica da tecnologia incomparavelmente mais rigorosa e profunda. Stiegler concilia a filosofia da técnica com a neurobiologia e a economia política, explicando como a tecnologia digital nos priva do "saber-fazer" e do "saber-viver", gerando uma proletarização da mente.
  • Bernard Stiegler (24/7: O Capitalismo Tardio e os Fins do Sono): Examina como o capitalismo do século XXI tenta eliminar as pausas humanas naturais (como o sono e a reflexão), transformando o tempo contínuo num mercado de consumo e vigilância.

domingo, 8 de março de 2026

Sangue e Petróleo: A Ecologia Política do Fascismo Fóssil Contemporâneo

Robin Mackay (esquerda) e Mark Alizart (direita)

A emergência do conceito de carbofascismo (ou fascismo fóssil) marca uma rutura analítica necessária na compreensão das extremas-direitas contemporâneas. Ao contrário do ecofascismo tradicional, que instrumentaliza a preservação da natureza para justificar a exclusão xenófoba e o controlo populacional, o carbofascismo manifesta-se como uma defesa militante e autoritária da economia extrativista. Esta ideologia não é apenas um subproduto da ignorância científica; é uma reforma identitária que funde a supremacia branca e o destino das nações industrializadas ao consumo desenfreado de hidrocarbonetos. No centro desta tese, Andreas Malm e o Zetkin Collective argumentam que o investimento histórico no capital fóssil criou uma estrutura de dominação que as elites globais não estão dispostas a abandonar, mesmo perante o colapso biosférico.

O fenómeno assenta naquilo que a investigadora Cara Daggett denomina como petromasculinidade. Nesta ótica, a queima de combustíveis fósseis é interpretada como um símbolo de virilidade, autonomia e poder patriarcal. A transição para energias renováveis não é vista apenas como uma mudança técnica, mas como uma ameaça à própria identidade do "homem ocidental" e à sua posição de domínio sobre a natureza e os povos do Sul Global. Assim, o negacionismo climático deixa de ser um debate sobre factos para se tornar uma guerra cultural, onde o carro a gasóleo e a extração de carvão são elevados a totens de liberdade contra uma suposta "tirania ecológica" das instituições transnacionais.

Historicamente, o fascismo sempre teve uma relação ambivalente com a tecnologia e a natureza. No entanto, o fascismo fóssil do século XXI radicaliza esta ligação ao defender a continuidade do status quo energético através da repressão estatal e da violência contra os movimentos de justiça ambiental. À medida que os efeitos do aquecimento global intensificam as crises migratórias, o carbofascismo propõe uma solução de "fortaleza": garantir o acesso aos recursos energéticos para os grupos dominantes enquanto se militarizam as fronteiras contra as vítimas da degradação ambiental que o próprio sistema produz. 

Para Alizart, a negação das alterações climáticas por parte de certas elites não é ignorância, mas uma estratégia deliberada. O carbofascismo descreve um sistema onde o colapso ambiental é utilizado para justificar regimes autoritários, o fecho de fronteiras e a exclusão de populações inteiras "excedentes" que não caberão nos recursos escassos do futuro. Alizart utiliza o termo termoplítica para explicar como a gestão do calor e da energia se tornou a nova ferramenta de controle social. No cenário do carbofascismo, quem controla o carbono e a energia controla a vida e a morte.

Mackay tem um histórico ligado ao CCRU (Cybernetic Culture Research Unit). A sua visão sobre o carbofascismo é matizada pela ideia de que o sistema atual não está "quebrado", mas sim acelerando em direção a uma forma de controle autoritário baseada na escassez de recursos.

Em suma, o "Sangue e Petróleo" representa a fase final de um sistema que prefere o autoritarismo à descarbonização, transformando a geologia em ideologia de sobrevivência seletiva.

Referências Académicas
Alizart, M (2021). The Climate Coup
Daggett, C. (2018). Petro-masculinity: Fueling conspiracy theories and authoritarian desire. Millennium: Journal of International Studies, 47(1), 25-44.
Malm, A., & Zetkin Collective. (2021). White Skin, Black Fuel: On the Dangers of Fossil Fascism. Londres: Verso Books.
Moore, J. W. (2015). Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. Nova Iorque: Verso Books.
Staudenmaier, P. (2011). Ecofascism Revisited: Lessons from the German Experience. Porsgrunn: New Compass Press.
Turner, J., & Bailey, C. (2022). "Ecotype": Understanding the extremist environmental transitions. Studies in Conflict & Terrorism.