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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Programa Nacional de Vacinação: as assimetrias regionais e o refúgio das redes antivacinas em Portugal

O Relatório Anual da Direção Geral de Saúde mostra que a maioria das vacinas infantis tem uma taxa de cobertura superior a 95% em Portugal, mas há concelhos que ficam abaixo dos 60%.A região algarvia mantem baixas taxas de vacinação Desigualdades persistem nas vacinas do HPV, gripe e covid-19.

As autoridades de saúde portuguesas estão a combater as baixas taxas de vacinação no Algarve através de uma estratégia focada na busca ativa de utentes e na proximidade comunitária Os centros de saúde realizam auditorias frequentes aos sistemas informáticos para identificar crianças e jovens com doses em atraso, avançando de imediato com contactos diretos através de telefonemas, SMS ou cartas registadas. Para mitigar o isolamento geográfico de concelhos como Aljezur e Vila do Bispo, equipas móveis de enfermagem deslocam-se às zonas rurais para administrar as vacinas localmente.Nas escolas da região, as autoridades cruzam os dados de matrícula com o registo vacinal para sinalizar alunos em falta e alertar os encarregados de educação. Paralelamente, os serviços de saúde pública trabalham com as autarquias locais para traduzir materiais informativos e integrar as comunidades estrangeiras residentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Por fim, os profissionais de saúde desenvolvem ações de esclarecimento direcionadas para combater mitos e a hesitação vacinal junto de grupos específicos da população. Parece-me insuficiente. 

O debate em torno do movimento antivacinas e da proliferação de comunidades dogmáticas em Portugal exige uma análise objetiva das causas e uma revisão urgente do enquadramento legal. A experiência demonstra que o confronto direto com correntes New Age e determinadas comunidades de permacultura é ineficaz: nestes meios, o ceticismo em relação às vacinas e ao conhecimento científico assenta na construção de identidades, no sentimento de pertença e na rejeição do que consideram a "frieza" do sistema dominante. Esta mentalidade, contudo, gera consequências graves e conduz a mortes perfeitamente evitáveis.

A fixação destas famílias estrangeiras em Portugal - com particular incidência no interior (Beira Alta, região Centro) e no Algarve - resulta diretamente de um fenómeno de "fuga às regras". Países como a França e a Alemanha identificaram o risco do isolamento comunitário e do desrespeito pela saúde pública, endurecendo substancialmente os seus regimes jurídicos. Entre 2018 e 2020, tornaram a vacinação infantil obrigatória para o acesso ao ensino e erradicaram ou restringiram severamente o ensino doméstico (homeschooling).

Enquanto a Europa Central fechou as brechas legais, Portugal manteve-se como um dos países mais permissivos do continente, tornando-se um refúgio para quem procura educar os filhos fora do sistema oficial em redes locais sem controlo rigoroso. Embora a adesão da população nacional ao Programa Nacional de Vacinação seja massiva, a vacinação de menores não é juridicamente obrigatória, o que deixa uma margem de manobra perigosa. 

De salientar que há uma faixa social portuguesa em que a hesitação vacinal dos pais são na maioria da classe média-alta e alta. [artigo científico aqui]

Para proteger a saúde pública e a integração social das crianças, Portugal precisa de importar medidas coercivas inspiradas no modelo alemão, assegurando a devida conformidade constitucional:
  1. Condicionamento de acesso e sanções: nenhuma criança deve ser admitida em creches, escolas (públicas ou privadas), ATL ou colónias de férias sem o boletim de vacinação em dia. Caso seja detetada a ausência de vacinas, deve aplicar-se um prazo limite de três meses para regularização, sob pena de cancelamento da matrícula. Paralelamente, ao tornar o ensino presencial obrigatório e banir o ensino doméstico, os pais incumpridores devem ficar sujeitos a multas administrativas pesadas (a exemplo dos 2.500 euros aplicados na Alemanha).
  2. Abrangência a adultos e profissionais de risco: a obrigatoriedade vacinal deve estender-se a quem lida diretamente com populações vulneráveis - pessoal médico, trabalhadores de hospitais e lares, professores e funcionários de creches ou centros de acolhimento. A ausência de imunização deve proibir a contratação ou motivar a suspensão de funções.
Cabe ao Estado Português atuar legislativamente antes que a permissividade jurídica continue a expor a comunidade a riscos evitáveis.

Ler mais:

terça-feira, 30 de junho de 2026

Sabia que o seu protetor solar está a afetar os oceanos? Saiba como cuidar da sua saúde e proteger os oceanos

Com a chegada do verão e de mais temporadas passadas na praia ou na piscina, é muito importante manter a nossa pele protegida dos raios UV provenientes do sol, através do uso de protetor solar. No entanto, muitos dos filtros solares utilizados nestes produtos são prejudiciais à biodiversidade e aos ecossistemas marinhos.

Existem dois tipos principais de filtros solares: filtros minerais e filtros orgânicos (ou químicos). Estes últimos são os mais problemáticos para várias espécies marinhas, sendo um dos mais usados a oxibenzona. Este químico não se degrada facilmente e, por isso, pode persistir durante muito tempo quando introduzido na natureza. É também um dos mais encontrados em águas naturais.

Estes filtros solares químicos são introduzidos nos ecossistemas marinhos através do protetor solar que usamos na nossa pele e que depois se liberta quando entramos na água do mar, mas também podem ser descartados para a natureza através das estações de tratamento de águas residuais. Os efeitos negativos destes químicos são muito variados. Podem impedir o crescimento e a fotossíntese em algas marinhas, reduzir a fertilidade em peixes, causar danos nos sistemas imunitário e reprodutor de várias espécies de ouriços do mar e bivalves e também acumularem-se nos tecidos dos golfinhos. Um dos piores impactos verifica-se nos corais, nos quais estas substâncias se podem acumular e deformar o seu ADN, podendo levar ao seu branqueamento (uma das principais causas de morte nos corais, também provocada pelo aumento de temperatura da água do mar).

Existe uma lista de químicos potencialmente prejudiciais à vida marinha, publicada pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (conhecida pela sigla NOAA), na qual se incluem: oxibenzona, benzofenona-1, benzofenona-8, p-aminobenzoato de octilo dimetilo (OD-PABA), 4-metilbenzilideno cânfora, 3-benzilideno cânfora, dióxido de nano-titânio, óxido de nano-zinco, octinoxato e octocrileno. A utilização de alguns deles foi proibida na União Europeia, por poderem ser considerados prejudiciais ao ser humano e outros compostos, como a  oxibenzona e o octinoxato foram banidos em alguns locais com o intuito de proteger os corais, como o  Havai e o arquipélago de Palau, mas ainda continuam a ser muito comuns na maioria dos protetores solares.

Em Portugal, um projeto recente denominado Scree&Toxin (coordenado pela universidade de Aveiro) está a estudar de que forma a oxibenzona está a interferir na acumulação de biotoxinas marinhas em conquilhas da espécie Donax trunculus

O que podemos fazer?
Devemos por a nossa saúde em primeiro lugar, não dispensando o uso de proteção solar. No entanto, aquando da escolha de um protetor solar, podemos ter em atenção os ingredientes presentes e tentar evitar estas substâncias. Algumas marcas já apresentam na própria embalagem mensagens de alerta como “Reef Safe”, “Ocean friendly” ou “Respeita os oceanos”. No entanto, devemos ter atenção, pois alguns destes produtos poderão não estar livres de todos os filtros prejudiciais, sendo por isso importante rever a lista de ingredientes. Devemos igualmente adotar comportamentos que podem ser mais amigos do ambiente e também da nossa saúde como evitar a exposição solar nas horas de maior calor e usar roupa de e chapéu para prevenir as queimaduras solares.
Utilizar alguns aplicativos que nos ajudam a destrinçar os seus componentes, como a Yuka.
As marcas de protetores solares ecológicos dividem-se maioritariamente em fórmulas 100% minerais (filtros físicos de zinco ou titânio "não nano") que não prejudicam os corais e utilizam embalagens sustentáveis.
Para quem procura proteger a pele e o oceano, o mercado atual já oferece excelentes plataformas especializadas em cosmética sustentável com envio para Portugal. Se a preferência for explorar lojas multimarcas que fazem uma curadoria rigorosa, a My True Bio destaca-se a nível nacional por disponibilizar uma secção inteiramente dedicada a fórmulas minerais não-nano de marcas conceituadas. No mesmo alinhamento de desperdício zero, a pioneira Organii foca-se em opções biológicas certificadas e formatos inovadores, como os sticks solares sólidos. Já para quem valoriza a maior variedade possível de marcas europeias e quer comparar preços, a versão portuguesa da Ecco Verde oferece um catálogo vastíssimo com filtros estritamente seguros para os corais.

Por outro lado, se o objetivo for comprar diretamente aos fabricantes que lideram esta revolução ecológica, há marcas de referência com lojas online muito acessíveis. Fundada por surfistas, a sueca Suntribe é famosa pelas suas fórmulas ultra-minimalistas (com poucos ingredientes) em embalagens de cartão e alumínio. No campo da alta proteção aliada a uma textura mais fluida, os franceses dos Laboratoires de Biarritz criaram a aclamada gama Alga Maris, enriquecida com algas antioxidantes. Para o dia a dia e com texturas mais adaptadas à rotina urbana, a Freshly Cosmetics disponibiliza protetores físicos em alumínio reciclado que minimizam o habitual tom esbranquiçado na pele. Finalmente, focada na máxima biodegradabilidade para desportos aquáticos, a Amazinc! apresenta soluções líquidas e sólidas em latas totalmente reutilizáveis e livres de plástico

Para saber mais sobre este tema consulte:

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A natureza cura-se quando deixamos de a envenenar


Notícias fantásticas! Desde 2018, após a proibição na França dos pesticidas neonicotinoides - aqueles infames produtos químicos que matam abelhas —, as populações de aves insetívoras, como chapins, pisco-de-peito-ruivo e melros, aumentaram de 2% a 3% em todo o país. Isso é o que mostra um novo estudo publicado em 15 de novembro de 2025 na revista Environmental Pollution.


Mas essa notícia merece uma pequena explicação. Primeiro, deixe-me lembrar que 19% - quase um quinto - das aves da Europa desapareceram em 40 anos. E isso acompanha logicamente o declínio dos insetos visados pelos pesticidas.

Mas, novamente, precisamos evitar a supersimplificação do problema. Nem todas as populações de aves são afetadas da mesma forma. Enquanto o número total de aves caiu 19%, as aves de áreas agrícolas diminuíram impressionantes 60%. A principal causa desse declínio é a agricultura intensiva. E você não precisa de mim para te dizer isso. É a agricultura que usa cada vez mais herbicidas, fungicidas e pesticidas, levando à destruição massiva de insetos, plantas e fungos.

Além disso, a expansão das lavouras e a destruição de áreas húmidas também tornam mais difícil para as aves fazerem ninhos e encontrarem alimento suficiente. As alterações climáticas também são um fator importante. A BirdLife afirma que uma em cada oito espécies de aves no mundo está atualmente ameaçada de extinção. Uma em cada oito!

Tudo isso para dizer que a melhora de 2% a 3% observada neste novo estudo que mencionei no início pode parecer minúscula, mas ainda assim demonstra o impacto imediato e mensurável de mesmo um pequeno esforço para causar um pouco menos de dano ao mundo vivo ao nosso redor.

quinta-feira, 26 de março de 2026

How Do We Protect Children from Becoming Addicted to Social Media?


My granddaughter began scrolling on a cellphone when she was around two years old, her index finger repeatedly swiping across its face as if she were already a teenager.

Some of the 18-year-olds in my classes at Berkeley seem to suffer withdrawal symptoms when I ask them to put away their phones.

I see young people in restaurants sitting with other young people, none saying a word to each other as they lose themselves in their devices.

Are they addicted? Yes, if you define addiction as getting such a dopamine rush that they feel compelled to use their cellphones for hours at a time.

How similar is this to a nicotine addiction? And — as was a central question thirty years ago when Big Tobacco was being sued — is Big Tech intentionally designing its product to hook young people?

The answer appears to be that the addictions are quite similar, and Big Tech is just as culpable as Big Tobacco.

On Wednesday, in California, a young woman prevailed in a lawsuit against social media giants Meta Platforms and Google’s YouTube, in which she accused them of designing their apps to be as addictive and harmful to adolescents as cigarettes. Jurors found the tech companies to be negligent in having failed to provide adequate warnings about the potential dangers of their products.

What seemed to persuade the jury were features that Meta and YouTube had built into their software like infinite scroll, algorithmic recommendations, and autoplay videos — designed to get young users to compulsively engage with the platforms.

Internal company documents from Meta and YouTube executives showed they knew of and discussed the negative effects of their products on children.

In fact, this case and many others likely to follow in its wake (more than 3,000 other similar lawsuits are pending in California courts against Meta, YouTube, Snapchat and TikTok) are rooted in the litigation against Big Tobacco thirty years ago, in which plaintiffs argued that the tobacco corporations created addictive products that harmed their users.

I’m old enough to remember when U.S. Surgeon General Dr. Luther Terry issued the first landmark report warning that cigarette smoking causes cancer and other diseases, on January 11, 1964. I was a teenager then, quietly debating with myself whether to look cool by having a cigarette dangling from my lips.

The report, entitled Smoking and Health: Report of the Advisory Committee to the Surgeon General, sparked a national shift in public health — leading in 1965 to mandatory warnings on cigarette packages. The report and the warnings, and the hullabaloo surrounding them, put me off smoking.

Almost sixty years later, in 2024, U.S. Surgeon General Vivek H. Murthy called for adding warning labels to social media, explaining that the platforms were associated with mental health harms for adolescents. She wrote:

“The mental health crisis among young people is an emergency — and social media has emerged as an important contributor.

Adolescents who spend more than three hours a day on social media face double the risk of anxiety and depression symptoms, and the average daily use in this age group, as of the summer of 2023, was 4.8 hours. Additionally, nearly half of adolescents say social media makes them feel worse about their bodies.

It is time to require a surgeon general’s warning label on social media platforms, stating that social media is associated with significant mental health harms for adolescents.”

She’s right. A surgeon general’s warning label would remind parents and adolescents that social media may be unsafe.

Evidence from tobacco studies show that warning labels can increase awareness and change behavior. When asked if a warning from the surgeon general would prompt them to limit or monitor their children’s social media use, 76 percent of people in one recent survey of Latino parents said yes.

But we shouldn’t stop there, and Big Tech shouldn’t be able to use warning labels as a defense to future lawsuits claiming social media addiction among young people.

Meta, YouTube, and other social media platforms must redesign their products to be less addictive to minors. Yet, as with Big Tobacco, they’re unlikely to do this unless liability judgments against them start mounting substantially.

In the 1998 Tobacco Master Settlement Agreement, the major tobacco companies agreed to pay over $200 billion to 46 states, 5 territories, and the District of Columbia to settle lawsuits over smoking-related health costs. The settlement imposed strict marketing restrictions and funded anti-smoking campaigns.

Now, cigarettes are prohibited in most workplaces and public spaces. The Food and Drug Administration restricts tobacco sales to individuals 21 or older. Additional rules under consideration target menthol flavors, and reduce nicotine levels.

We need to protect our kids from social media no less strictly. Why not ban children under 16 from using social media, prohibit its use in schools, and have Big Tech pay for anti-social media campaigns directed at young people?

In December, Australia issued a ban on young people using social media. Malaysia, Spain, and Denmark made similar rules. American children deserve no less.

A jury in New Mexico found Meta liable for failing to protect young people from online dangers, including sexually explicit content, solicitation and human trafficking, on Tuesday in the first trial of its kind and ordered the company to pay a $375 million penalty. Meta said it respectfully disagreed with the jury and would appeal the ruling.

By focusing on the design of Meta and YouTube’s apps rather than the content posted on them, Kaley’s case sought to get around longstanding legal protections, known as Section 230 of the Communications Decency Act of 1996, that have largely shielded social-media companies from being held liable for content on their platforms.

It is a bellwether case for thousands of similar lawsuits in California, which serves as a test of evidence to see how juries reacted. The outcome doesn’t bind other cases but could encourage settlements now that both sides have a better sense of how their arguments might play out with jurors.

During the seven-week trial, Kaley testified that she started watching YouTube videos at age 6 and made an Instagram account at age 9. She uploaded more than 200 YouTube videos before she turned 10 and created 15 Instagram accounts before she turned 15, Kaley and her lawyers said.

Lanier, Kaley’s lead attorney, said that on one day she spent 16 hours on Instagram.

“I wanted to be on it all the time,” she said. “If I wasn’t on it, I felt like I was going to miss out on something.”

Meanwhile, Meta spent hours in cross examination trying to convince jurors that Kaley’s struggles were caused by other factors, including a difficult family life and bullying at school. Meta lawyer Andrew Stanner said notes from six months of therapy appointments didn’t mention social-media addiction or name any social-media apps.

Jurors also heard from Meta executives Mark Zuckerberg and Adam Mosseri. Mosseri, the Meta executive tasked with running Instagram, testified that the app wasn’t “clinically” addictive, and Zuckerberg said his company’s goal was to give users something useful, not addict them.

“We used to give teams goals on time spent and we don’t do that anymore because I don’t think that’s the best way to do it,” Zuckerberg said when he took the witness stand in the second week of the trial.

On Tuesday evening, Meta introduced a new stock option program for senior executives to motivate them to grow the company at an extremely aggressive pace and reach a $9 trillion-plus valuation.

As the punitive-damages phase of the trial got under way in court on Wednesday, the plaintiff’s attorney, Lanier, revealed a jar of M&Ms—415 of them. Each one represented $1 billion of the $415 billion in total stockholders’ equity of Alphabet Inc., he said. As he removed M&Ms one by one, Lanier noted how the jar barely registered a change, symbolizing how inconsequential even a ruling of $1 billion in damages would be to a company of Alphabet’s value.

Luis Li, an attorney representing YouTube, began his remarks by apologizing to Kaley.

“We at YouTube truly, truly hope that there have been things about YouTube that have enriched your life,” he said. He then began delineating how YouTube has instituted features to interrupt scrolling and give parents an indication of how much time their children are spending on their phones.

“They’re not perfect,” he said, adding, “you can’t walk into someone’s phone and turn on all of these features.”

Paul W. Schmidt, an attorney for Meta, referenced testimony from former company employees who, while critical of the company’s practices, said they did not believe it was intentionally trying to harm young people.

“There wasn’t an intention to do harm,” he said.

quarta-feira, 4 de março de 2026

A coberto da animação de campanhas de associações de estudantes, 79 escolas permitiram a entrada de influenciadores que fazem da sexualização das crianças um negócio

Reportagem do Público

Instaurado inquérito a caso dos influenciadores que promovem sexualização em escolas

O Livre requereu esta terça-feira a audição parlamentar urgente do ministro da Educação e da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas sobre a presença de influenciadores digitais que promovem conteúdos sexuais e misóginos em escolas.

Este requerimento surge após uma reportagem divulgada pelo jornal Público segundo a qual 79 escolas públicas receberam, nos dois últimos anos letivos, influenciadores digitais que promovem conteúdos sexuais e misóginos, a coberto da animação de campanhas de associações de estudantes.

"As notícias conhecidas dão conta de relatos preocupantes de professores, auxiliares de ação educativa e diretores escolares que, em muitos casos, relativizam ou normalizam estes episódios em contexto escolar", criticam os deputados do Livre.

O partido cita ainda declarações do ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, realçando que o governando se limitou "a remeter a responsabilidade para a autonomia das direções das escolas", admitindo "a possibilidade de vir a instaurar inquéritos aos diretores que autorizaram estas iniciativas".

Para o Livre, "a invocação genérica da autonomia das escolas não dispensa a definição, pela tutela, de orientações nacionais claras sobre quem pode entrar em espaço escolar, em que condições e com que tipo de conteúdos, nem exonera o Governo do dever de garantir ambientes escolares seguros, livres de conteúdos misóginos, sexualizantes ou de natureza pornográfica".

Os deputados salientam que "a gravidade dos factos conhecidos, o alarme social gerado e a preocupação manifestada por encarregados de educação e pela sociedade civil tornam indispensável um esclarecimento político cabal por parte do Governo" além da definição de "orientações claras, nacionais, para a prevenção e proibição destas práticas em estabelecimentos de ensino público".

O partido quer que sejam apuradas responsabilidades, conhecer que instruções foram ou não emitidas pelo Ministério e que medidas serão adotadas para garantir que situações semelhantes não se repetem.

Hoje, também o deputado único do BE, Fabian Figueiredo, endereçou ao Governo um conjunto de perguntas sobre o mesmo tema, querendo saber quando é que será formalmente aberta "a investigação pela Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) às 79 escolas identificadas pela investigação jornalística, e qual é o cronograma previsto para a apresentação do relatório final".

O BE quer também saber se o ministério já comunicou estes factos ao Ministério Público e se tenciona "reforçar, em vez de reformular para esvaziar, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento e os conteúdos de Educação Sexual, conforme recomendado por especialistas".

Por último, o partido pergunta ao ministério que ações de fiscalização foram planeadas para impedir a exploração comercial de alunos dentro do espaço escolar, "especificamente no que toca ao pagamento de verbas elevadas a influenciadores por atuações desprovidas de qualquer valor educativo".

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Claro que o partido Chega e Iniciativa Liberal estão contra a proibição das redes sociais aos menores de 16 anos

Na passada quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, o Parlamento português aprovou precisamente um projeto de lei (proposto pelo PSD) que acaba com o acesso livre de menores de 16 anos às redes sociais. Como se previa, o Chega e a Iniciativa Liberal foram os únicos partidos a votar contra a medida. Aqui está o resumo do que aconteceu e os argumentos que sustentam essa posição:
O que foi aprovado?
Idade Mínima: A "maioridade digital" sobe dos 13 para os 16 anos.
Consentimento Parental: Jovens entre os 13 e os 16 anos só podem ter conta se os pais autorizarem através da Chave Móvel Digital.
Restrições Técnicas: As plataformas ficam proibidas de usar scroll infinito, reprodução automática de vídeos (autoplay) e notificações não essenciais para este escalão etário.
Multas: As empresas que não cumprirem podem enfrentar coimas de até 2 milhões de euros.

Os argumentos do "Não" (Chega e IL)
Embora ambos tenham votado contra, as justificações focam-se em ângulos distintos
  1. Argumento Iniciativa Liberal (IL)- Defende que a solução deve passar pela literacia digital e não pela proibição. Mariana Leitão (líder da IL) afirmou que a medida exige uma "vigilância sobre todos" e que o Estado não deve substituir o papel dos pais na educação.
  2. Chega - André Ventura criticou a medida por considerá-la ineficaz e uma intromissão do Estado. O partido argumenta que proibir o acesso a jovens de 14 ou 15 anos — que já têm maturidade para outras decisões — é ignorar a realidade tecnológica atual.
Embora ambos os partidos sejam conhecidos por uma presença digital muito forte, as suas estratégias e "territórios" de eleição nas redes sociais são distintos, refletindo os seus diferentes públicos-alvo.

Com base em dados recentes de 2024 e 2025 (incluindo relatórios da CNE e MediaLab/ISCTE), aqui estão as redes mais utilizadas por cada um:

Chega: O Domínio das Massas e do Vídeo
O Chega foca-se em plataformas que permitem um alcance viral massivo e uma comunicação direta e emocional, centrada fortemente na figura do seu líder, André Ventura.
  1. Facebook: Continua a ser o grande "quartel-general" do partido. É onde obtêm o maior número de interações (reações e partilhas) e visualizações de vídeos, chegando a atingir marcas de 9 milhões de visualizações em períodos eleitorais.
  2. TikTok: É uma ferramenta vital para o partido chegar ao eleitorado mais jovem e segmentar conteúdos curtos e incisivos. Ventura é frequentemente o líder político com mais tração nesta rede.
  3. Instagram: Usado para uma mistura de atividade política e momentos mais humanizados do líder, gerando milhões de interações mensais.
  4. YouTube: Utilizado para transmissões em direto e arquivo de intervenções parlamentares, funcionando como um canal de TV próprio.
  5. WhatsApp e Telegram: Canais crescentes para mobilização direta da base de militantes sem filtros de algoritmos.
Iniciativa Liberal (IL): O "Microcosmos" de Elite e Debates
A Iniciativa Liberal foca-se em redes que privilegiam a discussão de ideias, a literacia financeira/económica e o humor gráfico (memes).
  1. X (antigo Twitter): É historicamente o "porto seguro" da IL. O partido domina frequentemente o debate político nesta rede, sendo onde o seu conteúdo é mais partilhado e discutido pela bolha mediática e política.
  2. Instagram: Usado de forma muito profissional para infográficos, cartazes digitais e uma comunicação visualmente limpa e moderna. É a rede principal para o seu público urbano e jovem adulto.
  3. Facebook: Embora presente, o engagement é geralmente inferior ao do Chega nesta rede, sendo usado mais para fins institucionais e contacto com eleitores fora dos grandes centros.
  4. LinkedIn: Ao contrário da maioria dos partidos, a IL tem uma presença relevante aqui, focando-se no eleitorado corporativo, empreendedores e profissionais liberais.
  5. TikTok: O partido tem vindo a reforçar a aposta aqui para competir pela atenção da Geração Z, embora com um estilo menos agressivo que o do Chega.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Australia banned social media for under-16s. Could other countries do so?

Australia is cracking down on social media for kids under 16, and Denmark  looks set to follow with a ban for under-15s.

From Wednesday, Australia is set to enforce a world-leading social media ban for anyone under 16, as concern grows that kids are getting too swept up in a digitised world of harmful content and commercial interests.

After Australia's first-of-its-kind social media ban for adolescents under the age of 16 came into effect in December, more countries in Europe and elsewhere are taking steps to implement their own restrictions. According to Statista research, France and the United Kingdom have gotten furthest, with laws passing in one chamber each of the countries' bicameral legislatures as of early February. While the latter country is also aiming to ban social media for kids under the age of 16, France's proposed law targets only those under the age of 15.

Six more nations have seen country leaders announce initiatives aiming to ban social media access for adolescents. While Indonesia, Malaysia, New Zealand and Spain all have more restrictive regulations in mind, excluding those under the age of 16, Greece is aiming to exclude those under the age of 15 and Austria those under the age of 14 from social media.

Social media, including personalized algorithms and the possibility to scroll endlessly, is receiving scrutiny for its effect on mental health, especially in younger people. Social media addiction can affect any age group, but it is seen as especially harmful in adolescents which are still developing social behaviors, body image and time management skills.

Two more planned bans announced in Europe, by Portuguese and Danish leadership, are reportedly willing to leave a back door open for parental consent, putting them in a different category that already exists in several nations like France, Italy and, since recently, Brazil, where children of the applicable ages can access social media sites if their parents are in agreement.

While outright bans like the Australian one often plan implementation via a strict official age-verification mechanism, parental consent regulation can work by linking parents accounts, for example. Instagram has meanwhile already rolled out this feature in Europe, the U.S., Australia and Canada, with teenagers between the ages of 13 to 15 only in the position to disable a special restricted account mode with the consent of their parent's account. Like other platforms, Instagram accepts users from the age of 13, but this restriction is so far not tied to verification. In the EU, social media sites are since 2018 under further restrictions concerning the use of personalized ads for minors.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Precisamos de banir PFAS agora mesmo



PFAS, estão por todo o lado. Já deve ter ouvido falar de PFAS em frigideiras antiaderentes e impermeáveis, mas sabia que estes produtos químicos eternos se encontram em inúmeros outros produtos? Até mesmo em embalagens de alimentos, medicamentos e pesticidas. 

Muitos PFAS são tóxicos; outros interferem com o seu sistema hormonal. No entanto, a indústria química recusa-se a eliminar os PFAS, pois lucra com a sua produção, pondo em risco a saúde de milhões de europeus.

A ciência é clara: os PFAS podem causar danos no fígado, distúrbios da tiroide, obesidade, problemas de fertilidade, doenças cardiovasculares e cancro. O Conselho Nórdico de Ministros estimou que o custo dos PFAS para a saúde pública é de uns impressionantes 52 a 84 mil milhões de euros por ano na Europa.

Como os PFAS quase não se degradam naturalmente e são utilizados há décadas, estão agora em todo o lado. Estudos mostram que muitos de nós estão expostos aos PFAS através de alimentos e água potável, criando riscos para a saúde humana.

Isto precisa acabar. Não podemos permitir que a indústria química continue a envenenar o nosso ar, a nossa água potável, o nosso solo e, em última análise, os nossos corpos, para sempre. A nova Comissão Europeia deve agir já:
  1. Proibindo o uso de PFAS na Europa em todos os produtos o mais rapidamente possível.
  2. Obrigar as empresas químicas a pagar os custos de limpeza da poluição por PFAS.
  3. Estabelecendo normas muito mais rigorosas para o PFAS em águas superficiais e potável.
É importante que as nossas vozes sejam ouvidas. A indústria química quer continuar a operar como sempre. E é um adversário formidável: o setor químico é um dos que mais investe em lobistas na Europa. Mas juntos podemos vencê-los.

sábado, 9 de dezembro de 2023

Jogo do Pau


O Jogo do Pau Português traz-nos a história por contar da única arte marcial Portuguesa ainda viva. Trata-se de uma arte marcial centenária que poucos conhecem, mas que está na raiz da nossa história. o Jogo do Pau emerge entre os campos de batalha medievais e os confrontos nas aldeias, feiras e romarias. A arma usada é o pau, acessível a todos, mas exigindo mestria e uma técnica passada através de gerações de mestres de combate.[Documentário
Até inícios do século XX, estudar com um mestre do Jogo do Pau era um privilégio para quem queria aprender técnicas de combate. Mas a proibição da sua prática pelo regime de Salazar nos anos 40 veio tornar o Jogo do Pau numa prática em risco de extinção, não fosse a dedicação e perseverança de alguns mestres.
Apesar dos atropelos do último século, a história do Jogo do Pau sobrevive até hoje, com alguns mestres e praticantes dedicados e é pela primeira vez aqui narrada. Mais do uma forma antiga de combate, o Jogo do Pau é uma técnica arrojada, que carrega o eco da nossa história. Este livro resulta de uma pesquisa detalhada, em documentos e referências históricas, contanto a história da origem e desenvolvimento de uma prática que é ela própria um documento vivo histórico.

Saber mais:
O Jogo do Pau: uma Arte Marcial Renascida



domingo, 8 de outubro de 2023

Petição- pela proibição definitiva do glifosato


A Bayer ocultou os riscos do glifosato para a saúde de mulheres grávidas e crianças, afirma uma queixa criminal apresentada em 2019 na Áustria, que acaba de ser tornada pública.
As evidências são contundentes, mas a investigação pode levar mais meses e não temos esse tempo. Os governos da UE deverão decidir em 12 de outubro se o glifosato será reaprovado por 10 anos ou banido.
Juntamente com a Avaaz, a WeMove e outros parceiros, estamos a fazer uma petição gigantesca para entregar antes da votação dos governos. Quase banimos o glifosato antes – por favor assine e partilhe esta petição para mostrar aos líderes da UE que ainda hoje existe um apoio público massivo à proibição:
Diga aos governos da UE para votarem pela proibição definitiva do glifosato.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Petição - Viver o recreio escolar sem ecrãs de smartphones

ASSINAR Petição

Para: Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Primeiro Ministro, Senhor Ministro da Educação, Direções das Escolas

Petição pública a favor da revisão do atual estatuto do aluno quanto ao uso de telemóveis smartphones nas escolas, a partir do 2º ciclo, em prol da socialização das crianças nos recreios. Para que socializem, conversem cara-a-cara e brinquem. Para que os casos de cyberbulling e contacto com conteúdos impróprios para a sua idade, diminuam.

Numa altura em que vários países e algumas escolas em Portugal, já avançaram com a tomada de decisão de proibir a utilização de telemóveis nas escolas, quer em espaços letivos, como em espaços não letivos, os cidadãos abaixo assinados, apelam ao debate, com a finalidade de se rever o atual estatuto do aluno, onde nos parece faltar sensibilidade e coerência sobre o tema.
Na transição do 4º ano do 1º ciclo, para o 5º ano, do 2º ciclo (9 /10 anos), as crianças ainda precisam de brincar, querem correr e jogar à bola no recreio. Ao brincar, junta-se a questão da integração. Esta é uma fase em que a maioria das crianças irá para uma escola nova, vai ter muitos professores e todo um mundo novo para descobrir.

É nesta fase de mudança que se reforçam e criam novos laços de amizade, tão importantes na criação de relações de confiança entre pares. Deve ser prioridade estimular e fomentar a interação verdadeira, cara-a-cara, para que as crianças possam demonstrar as suas emoções através de expressões faciais e não através de um ecrã.
Consideramos que permitir a utilização de telemóveis nos recreios está a alterar os padrões de socialização das crianças e a sua integração de forma saudável.

Que solução propomos:
Que as escolas estejam equipadas com caixas, cacifos ou armário próprio onde, à primeira hora, os telemóveis sejam guardados e que no final da última hora, os alunos os recolham. Desta forma, os alunos continuam a poder contactar ou ser contactados pelos pais quando chegam à escola e passam a poder fazer atividades de recreio, mas sem utilizar o telemóvel.

Algumas considerações sobre este tema, que constam no atual estatuto do aluno:
r) “Não utilizar quaisquer equipamentos tecnológicos, designadamente, telemóveis, equipamentos, programas ou aplicações informáticas, nos locais onde decorram aulas ou outras atividades formativas ou reuniões de órgãos ou estruturas da escola em que participe, exceto quando a utilização de qualquer dos meios acima referidos esteja diretamente relacionada com as atividades a desenvolver e seja expressamente autorizada pelo professor ou pelo responsável pela direção ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso”;
s) “Não captar sons ou imagens, designadamente, de atividades letivas e não letivas, sem autorização prévia dos professores, dos responsáveis pela direção da escola ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso, bem como, quando for o caso, de qualquer membro da comunidade escolar ou educativa cuja imagem possa, ainda que involuntariamente, ficar registada”;

t) “Não difundir, na escola ou fora dela, nomeadamente, via Internet ou através de outros meios de comunicação, sons ou imagens captados nos momentos letivos e não letivos, sem autorização do diretor da escola”;

Sobre a alínea r) consideramos que há uma falha ao excluir os locais onde não existem atividades não letivas, nomeadamente o recreio;
Por tudo o que já foi exposto, o recreio é o espaço onde as crianças devem socializar. Ao existir a possibilidade de utilização deste tipo de equipamentos no espaço não letivo, nomeadamente no recreio, a socialização saudável diminui drasticamente.

Sobre a alínea s) nesta alínea, já é abordado o local de atividades não letivas, onde achamos que se inclui o recreio, para se falar da captação de som e imagens. O texto diz: (…) não captar sons ou imagens de atividades não letivas
sem a autorização do professor (…). A pergunta que fazemos é: Mas quem vai pedir ao professor se pode fotografar ou filmar um colega no recreio?

Sobre a alínea t), seria mais fácil a total proibição de utilização do telemóvel no recreio. Até porque, considerando a falta de recursos humanos nas escolas, o mais provável é não haver possibilidade de monitorizar estes acontecimentos, pelo que consideramos esta alínea ineficaz.

Reflexões acerca da utilização do telemóvel no recinto escolar

Aos pais:
• Vamos potenciar o brincar ou o jogar online no recreio?
• Preferimos que falem presencialmente ou através de whatsapp, quando muitas vezes estão no mesmo espaço a conversar?
• O controlo parental serve para a nossa criança, na nossa casa, mas não para os telemóveis dos amigos, na escola, por isso, a verdade é que todos acabam por ver tudo, tendo acesso a conteúdos impróprios para a sua idade;
• Existem alternativas aos smartphones para podermos entrar em contacto com as crianças. Os telemóveis smartphones, no espaço escolar, dá-lhes um mundo enorme de possibilidades que acabam por ser viciantes e lhes retiram tempo para outras atividades de socialização.

Aos senhores governantes:
• Que debatam este tema em prol da saúde física e mental das crianças, para que os recreios sejam recreios e que as crianças não se isolem individualmente ou em pares à volta de um telemóvel;
• Que atualizem o estatuto do aluno, no que ao uso do telemóvel no recreio diz respeito;
• Que revejam se faz sentido que o estatuto permita aos professores pedirem telemóvel, sem ser feita uma distinção de ciclos escolares, para elaborar testes e pesquisas, quando há crianças que podem não ter este equipamento;
• Que disponibilizem equipamento mobiliário necessário para armazenar os telemóveis, caso as escolas assim o solicitem;
• Que sensibilizem as direções das escolas a usar os computadores portáteis que o Estado forneceu para os alunos efetuarem as suas pesquisas e não o telemóvel.

Às direções das escolas:
• Pensar em criar o seu próprio regulamento, quanto ao uso do telemóvel na sua escola, tal como fez a escola pública EB3 de Lourosa, no concelho de Santa Maria da Feira e tantas outras privadas;
• Pensar em ter um local próprio para a colocação dos telemóveis à primeira hora e onde os alunos possam recolher o telemóvel no final da última aula;
• Pensar em não incentivar o uso do telemóvel nas salas de aula (a pedido dos professores), quando há crianças que não têm, evidenciando uma diferença entre elas. Esta também é uma forma de exclusão;
• Pensar que os computadores fornecidos pelo Estado podem e devem ter utilidade na escola e não estar apenas em casa;
• Pensar se queremos crianças com vontade de terminar a brincadeira do recreio anterior, ou o nível do jogo online que deixaram a meio;
• Pensar que, mais dia menos dia, já ninguém sabe escrever em papel.

Opinião, Entrevista  e Livro

Escola de Santa Maria da Feira

domingo, 28 de maio de 2023

Há seis anos sem telemóveis, alunos de Lourosa já se esqueceram dos ecrãs no recreio


A diretora da Escola EB 2/3 António Alves Amorim, de Santa Maria da Feira, Mónica Almeida, não tem dúvidas em afirmar que restringir o uso dos referidos aparelhos ao contexto pedagógico, quando solicitado por um professor, foi "a melhor coisa" que aí se fez.

Situada na freguesia de Lourosa e frequentada por 630 alunos dessa região do distrito de Aveiro, a EB 2/3 em causa é apontada como exemplo na petição pública "Viver o recreio escolar sem ecrãs de smartphones", que reúne mais de 3.400 assinaturas apelando a que, a partir do 2.º ciclo, crianças e jovens sejam impedidos de usar telemóveis em ambiente escolar.
Os peticionários defendem que a proibição ajudará os alunos a desenvolverem as suas capacidades de socialização e comunicação oral, e também fará diminuir o 'bullying' 'online' e a difusão ilegal de imagens e vídeos com menores.

Mónica Almeida concorda. Diz que isso está demonstrado pelos últimos seis anos de experiência da escola e pela animação que se nota no recreio durante os intervalos: há grupos de alunos em altas gargalhadas, miúdas a caminhar juntas em torno de jardins bem cuidados, rapazes a jogar bola no relvado sintético e até pares românticos a beber sumo na esplanada do bar, sob as árvores.

"Implementámos esta medida há seis anos e o principal objetivo era que os nossos alunos pudessem socializar uns com os outros sem recurso ao telemóvel, porque achávamos que nestas idades, de formação do seu caráter, é muito importante a interação de uns com os outros e não por via dos ecrãs", explica Mónica Almeida.

Embora já em 2017 fosse tida como arriscada, a medida foi aprovada sem dificuldade no conselho pedagógico, pelos docentes, e depois validada também pelo conselho geral, em que pais e encarregados de educação também se mostraram "muito a favor" da mudança.

"O mais difícil foi implementá-la nos alunos que já cá estavam há algum tempo, nomeadamente aqueles que usavam de forma sistemática o telemóvel. Mas depois, em reuniões de delegados [de turma], eles foram os primeiros a assumir que foi uma boa medida, porque passaram a conhecer os seus colegas muito melhor", recorda a diretora.

Em termos práticos, os alunos da EB 2/3 de Lourosa podem levar o telemóvel para a escola, mas, na primeira aula, entregam os aparelhos ao professor, que os deposita numa caixa específica para cada turma, guardada num armário próprio da receção do edifício. Depois, independentemente da carga horária letiva de cada dia, só na última aula é que o professor em funções acede novamente à caixa, para devolver os telefones a seu dono.
Os estudantes mais cumpridores podem manter o telemóvel consigo, desde que esse nunca seja consultado. À primeira infração há um aviso; à segunda o aluno fica suspenso três dias -- "ou mais", como aconteceu durante uma semana com o estudante que gravou um professor e partilhou o vídeo nas redes sociais.

Urgências estão previstas: "Sempre que queiram dar um recado aos seus educandos, os pais ligam para a escola e nós fazemo-lo chegar ao aluno. Quando o educando quiser uma chamada para os encarregados de educação, pode sempre fazê-lo, sem nenhum custo".

É por isso que Inês Santos, que tem 11 anos e frequenta o 5.º C, nem leva o telefone para a escola. Está habituada a prescindir dele desde a escola primária e não tem reclamações sobre a medida: "Assim temos mais tempo nos intervalos para conviver uns com os outros. Dou voltas à escola com as minhas amigas, a caminhar; falamos de como correram os testes, das coisas que fazemos ao fim-de-semana".

Já com 14 anos, Frederico Ferreira acrescenta jogos de futebol, ténis de mesa e matrecos à lista de atividades com que substitui os ecrãs. Lamentando que noutras escolas haja "muita gente parada ao telemóvel a mandar mensagens em vez de falar com os colegas", esse aluno do 9.º F aprecia a política da EB 2/3 António Alves Amorim e diz que os pais até tiveram nela um dos principais fatores que os levaram a matriculá-lo aí.

Quando explica essa proibição a amigos de outros estabelecimentos de ensino é que a situação se complica: "As pessoas acham um bocado estranho e a primeira reação é que ficam espantadas. 'Como é possível uma pessoa nesta idade 'viver' sem o telemóvel?'. Porque, efetivamente, isto é uma realidade muito diferente da do resto das escolas".

A confirmá-lo está Camila Oliveira, professora de Matemática e Ciências que, lecionando na EB 2/3 de Lourosa apenas há cinco anos, mal conseguiu conter o entusiasmo ao saber que a proibição de uso de telemóveis nesse estabelecimento de ensino ia ser tema de notícia e dar-lhe oportunidade de traçar a comparação com o local onde trabalhava antes.

"Venho de uma escola onde os miúdos, mal saíam das aulas, escorregavam pela parede abaixo com o telemóvel e ficavam ali agarrados àquilo. Não havia convívio como há aqui e por isso é que achei isto magnífico. Todas as escolas deviam seguir este exemplo", declara.

Realçando "a coragem da direção" ao decidir que os telemóveis seriam proibidos em todo o recinto escolar e não apenas nas salas de aulas (como estipula o Estatuto do Aluno, ao proibir aparelhos informáticos "nos locais onde decorram aulas ou outras atividades formativas"), Camila Oliveira acrescenta: "Estamos na era das comunicações, mas a nossa sociedade está a ficar doente por causa da falta de comunicação física, presencial. Acho esta medida importantíssima, pela saúde dos nossos filhos -- principalmente a mental".

Maior capacidade de socialização, desenvoltura argumentativa, segurança no discurso em público e empatia são algumas das competências que as duas professoras dizem favorecidas pelo menor contacto com telemóveis. Além disso, a proibição liberta a escola de "um sem-número de problemas, nomeadamente alguns crimes que se cometem nos estabelecimentos de ensino sem que os alunos tenham sequer consciência disso", refere.

Mónica Almeida dá apenas dois exemplos, entre os mais frequentes: a captação ilegal de imagens de alunos, na maioria dos casos em circunstâncias normais de socialização, mas, às vezes, também em situações de 'bullying', 'body shaming' e exposição sexual; e a filmagem de professores em contexto da sala de aula, num crime agravado pela difusão desses conteúdos nas redes sociais.

"Esses comportamentos são da responsabilidade dos pais e nós aqui não temos esse problema. Não usando telemóveis, não compete à escola supervisionar essas questões", conclui.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Petição: Fim das armadilhas para captura de espécies de fauna selvagem


Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República,

Todos os abaixo signatários vêm solicitar a proibição de captura de espécies de fauna selvagem com recurso a qualquer tipo de armadilha e regulamentação que garanta critérios claros e estritos para atribuição de licenças temporárias e excecionais, bem como respetivos mecanismos de controlo, reforçando por essa via a efetiva excecionalidade da sua utilização inscrita de forma genérica na atual lei nacional e diretivas europeias.

A diretiva 92/43/CEE relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e da flora selvagens estabelece a proibição do uso de armadilhas não seletivas nos seus princípios ou condições de utilização de métodos e meios de captura e abate.
De acordo com este princípio o Decreto de Lei (DL) n.º 38/2021, de 31 de Maio, que regulamenta a aplicação da convenção da vida selvagem e dos habitats naturais na Europa, proíbe a captura ou abate de espécimes listadas pelas Convenções de Berna e de Bona com recurso a armadilhas não seletivas, salvo licenciamento excecional a emitir pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF I.P.), obedecendo-se critérios cumulativos de falta de alternativa satisfatória, não prejudicar a manutenção das populações da espécie em causa e o ato ou atividade em causa vise atingir uma das finalidades admissíveis, entre as quais garantir a saúde e a segurança públicas, proteger a flora e a fauna selvagens, evitar graves prejuízos, nomeadamente às culturas, à criação de gado, à apicultura, às florestas, às zonas de pesca e às águas e outras formas de propriedade.

1. A lei da caça de 1967 inscrevia a proibição de “caçar com redes, ratoeiras, laços ou armadilhas de qualquer espécie”. A atual Lei de Bases Gerais da Caça, apesar não incluir a armadilha como possível meio de caça, é omissa relativamente à sua proibição.

2. O DL 38/2021 não descreve nem mensura os critérios para atribuição de licenças excecionais relativamente às referidas “alternativas satisfatórias”, possíveis impactos para “saúde e segurança pública” e “graves prejuízos, nomeadamente às culturas, à criação de gado, à apicultura, às florestas”.

3. É do conhecimento público a atribuição de licenças para efeitos de "correção de densidades populacionais" de espécies cinegéticas sem que seja garantido e atestado qualquer dos atuais critérios genéricos mencionados em lei.

Tendo em conta os ratificados princípios gerais de bem-estar e segurança animal, os signatários desta petição vêm assim requerer legislação que alargue a proibição de captura com recurso a armadilhas a todas as espécies de fauna selvagem e regulamente a atribuição excecional de licenças para controlo de espécies exóticas invasoras com comprovados impactos nos ecossistemas locais, que garanta o mínimo de dor e sofrimento dos animais capturados, estabeleça meios e métodos de abate, encaminhamento das carcaças, locais de colocação de armadilhas e identificação dos responsáveis por verificação e manuseamento da armadilha e animais capturados.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

O que aconteceu com o glifosato?

Obra do pintor bávaro Wilhelm von Kobell, “Rast beim Pflügen”, pintada em 1800.


No dia 15 de dezembro de 2022 aconteceu algo que passou completamente despercebido pela sociedade. Quase nenhum comunicado de imprensa foi coletado. Porém, é algo tão importante quanto chover ou não; tão importante quanto saber se a água que bebemos está contaminada ou não, mas o que foi omitido da sociedade?

A Comissão Europeia decidiu prorrogar, por mais um ano, a permissão de utilização do herbicida glifosato nos nossos campos de cultivo e parques públicos. E fê-lo sem ainda ter disponível o relatório da EFSA que apoia, ou não, a extensão legal da sua utilização. A EFSA é a Agência Europeia para a Segurança Alimentar, responsável por fornecer aconselhamento técnico-científico à Comissão Europeia. Deve recordar-se que esta agência deverá ser um organismo independente. No entanto, os seus relatórios têm sido historicamente influenciados por lobbies. A elaboração do relatório sobre a relação entre a saúde humana e o glifosato, por parte deste órgão, foi prorrogada para cinco anos, desde a anterior prorrogação legal do período de utilização ocorrida em 2017.

Mas não há realmente provas suficientes sobre como o glifosato afecta a biodiversidade dos nossos ecossistemas e a saúde humana? Pelo menos isso parece emergir das ações da Comissão Europeia. Apesar da recusa de vários países em continuar com a legalidade do seu uso como produto fitossanitário, incluindo a França, a UE decidiu usar a sua prerrogativa para desfazer o “bloqueio institucional” que tornou o glifosato ilegal, e assim prorrogar a licença.
Por enquanto, o glifosato é um perturbador comprovado do sistema endócrino, alterando o nosso sistema hormonal desde o primeiro desenvolvimento embrionário. Foi demonstrado que é capaz de alterar a biota intestinal de qualquer organismo a níveis patológicos. Da mesma forma, também provou ser um desregulador do ecossistema, afetando polinizadores, organismos fotossintéticos e a fauna e bactérias que habitam o solo.

Deste grupo dedicamos alguns artigos para demonstrar a abundante evidência científica disponível sobre os efeitos do glifosato na saúde humana ou sobre o seu efeito perturbador nos ecossistemas e a sua limitada capacidade de melhorar as técnicas convencionais de cultivo. Além disso, um estudo epidemiológico recente realizado pela Associação Campagne Glyphosate em França indica que 99,8% dos franceses teriam níveis detectáveis ​​de glifosato nos seus corpos. A quantidade média encontrada é de 1,19 ng/ml; quantidade aparentemente minúscula à qual, no entanto, se observou atividade estrogénica (disrupção endócrina) enquanto altera a expressão do receptor de estrogénio em células humanas em concentrações “ambientalmente relevantes”

Então porque é que a Comissão Europeia concordou em prolongar a sua utilização na União Europeia por mais um ano? O que há de novo nas evidências científicas disponíveis sobre como o herbicida mais utilizado no mundo afeta a saúde humana e os ecossistemas? O seu benefício realmente supera o risco?

Os números do capitalismo herbicida
Entre 2011 e 2020 , foram vendidas em média 350 mil toneladas anuais de pesticidas na União Europeia, herbicidas representando ⅓ do volume total de vendas e, destes, a maior parte deles, 40%, correspondem a herbicidas organofosforados, onde o glifosato é o representante da maioria. Em Espanha, durante estes anos houve um aumento de 46% nas vendas de herbicidas, ascendendo a cerca de 20.000 toneladas por ano.

Apenas um enorme volume de negócios como este pode explicar porque é que mais de 14 países apoiam a continuação da utilização do glifosato nos nossos campos. Países que, no seu conjunto, representam nada menos que 64,73% da população. No entanto, na Comissão de Recursos da Comissão Europeia, onde foi finalmente decidida a extensão da sua utilização, é necessária uma maioria qualificada de ⅔ para aprovar um parecer. O poderoso lobby do agronegócio quase teve sucesso. As grandes abstenções da França, Alemanha e Eslovénia, bem como o voto contra de outros 3 países (Croácia, Luxemburgo e Malta), permitiram bloquear uma votação a favor de uma licença de longo prazo para a utilização deste herbicida.

O grande volume deste negócio pode explicar por que tantos países são a favor do comércio legal desta substância nos nossos campos, apesar das abundantes evidências dos danos que causa à nossa saúde e aos ecossistemas. As vendas da empresa criadora do herbicida, Bayer-Monsanto, ascenderam em 2021 a cerca de 4.200 milhões de euros . É um herbicida que, comercialmente, apresenta cerca de 200 formulações e que existem diversas empresas que o comercializam. Nos EUA, as vendas totais deste herbicida ascenderam a mil milhões de dólares em 2018, enquanto em Espanha representaram cerca de 1.100 milhões de euros em 2017.

Em contraste com o poder das empresas que lucram com este negócio, destacam-se os quase 1,5 milhões de pessoas na Europa que se apresentaram e assinaram a favor da proibição do glifosato em 2017, quando a proibição estava a ser discutida pela primeira vez. .

Saúde humana
Desde que a proibição do glifosato foi rejeitada na UE em 2017, foram descobertos novos efeitos na saúde humana, tais como danos neurológicos e sintomas psicológicos decorrentes da exposição continuada. Além disso, já existe uma base empírica sólida que liga o glifosato a danos no tecido neuronal e algumas hipóteses sobre as vias de ação do glifosato na produção desses sintomas preocupantes.

Por outro lado, uma revisão da bibliografia recente, realizada pela pesquisadora Bożena Bukowska e vários colegas da Universidade de Łódź (Polónia), mostra que o glifosato estaria afetando a sociedade de forma sistêmica, além de poder prejudicar tecidos específicos. O herbicida seria capaz de alterar o padrão de expressão de múltiplos genes, inclusive daqueles que controlam a estrutura tridimensional do DNA quando ele está compactado no núcleo de nossas células. Essa estrutura tridimensional, que se forma graças a diferentes proteínas, inclusive as histonas, é chamada de cromatina. O glifosato estaria afetando a produção de algumas proteínas que controlam o grau de compactação da cromatina. Assim, muitas outras proteínas que devem se ligar a determinados locais para regular a expressão dos genes (proteínas chamadas fatores de transcrição) não seriam capazes de fazê-lo.

O grau de alteração é muito grande.Tanto que afeta a regulação do ciclo celular. O ciclo celular é um padrão altamente regulado de função, crescimento e divisão. Sua alteração é um dos requisitos na formação de tumores. Além disso, segundo Bukowska, não apenas a expressão desses “oncogenes” seria alterada, mas a expressão de outros genes importantes no metabolismo e na própria regulação da expressão gênica seria alterada. Mesmo em baixas concentrações de glifosato. Mas a coisa é ainda pior: existem alguns destes mecanismos reguladores cuja modificação durante a vida (seja pelo glifosato, por outros contaminantes, por estilos de vida e outros factores) é herdada pela descendência, pelo que potencialmente a nossa exposição ao glifosato pode afectar a vida dos gerações futuras.Isso é conhecido como epigenética e o glifosato estaria alterando isso.

Outra descoberta recente mostrou uma ligação plausível entre a exposição ao glifosato durante a gravidez e o nascimento prematuro.
O trabalho, realizado por um grupo interdisciplinar liderado por Corina Lesseur, do Departamento de Medicina Ambiental e Saúde Pública da Icahn School of Medicine (Nova Iorque, EUA), afirma que a exposição ao glifosato "pode ​​afetar a saúde reprodutiva, encurtando a duração do gestação” e lamentam a escassez de estudos a este respeito “dada a crescente exposição [ao herbicida] e o fardo para a saúde pública do nascimento prematuro”.

Na mesma linha, também foram encontradas evidências de que diminuiria o crescimento fetal nas concentrações atualmente presentes em nossos corpos.

Ecossistemas e biodiversidade
Recentemente, um grupo de pesquisadores da Universidade de Konstanz (Alemanha) encontrou mais um efeito do glifosato nos polinizadores. Já sabíamos que afectava a microbiota simbiótica das abelhas melíferas, mas o que não se sabia era que os zangões selvagens podiam ver a sobrevivência da sua ninhada afectada porque “a capacidade colectiva de manter as altas temperaturas necessárias da ninhada diminui em mais de 25% durante os períodos de limitação de recursos” na presença de concentrações de glifosato comuns em nossos ecossistemas. Para os polinizadores nos nossos ecossistemas altamente stressados, a exposição ao glifosato acarreta custos ocultos que até agora têm sido largamente ignorados.Na mesma linha, um estudo aprofundado dos efeitos do glifosato na microbiota e no sistema imunológico das abelhas melíferas, liderado por Erick VS Motta, da Universidade de Austin (Texas, EUA), não deixa margem para dúvidas:
As concentrações presentes nos campos de cultivo produzem uma inibição do sistema imunológico das abelhas melíferas e simplificam a sua microbiota intestinal, tornando-as mais suscetíveis a infecções por bactérias e fungos oportunistas.

Conclusão
Uma pesquisa publicada recentemente mostrou os efeitos nocivos do glifosato nos ecossistemas e na própria saúde humana. A Comissão Europeia não pode fazer ouvidos moucos às provas disponíveis de quantidade e qualidade suficientes para aplicar uma suspensão do uso de glifosato enquanto a legislação o permitir. O número de distúrbios de saúde que pode produzir e a profundidade das alterações sistémicas no nosso ecossistema não podem ser ignorados antes do relatório da EFSA, que será publicado ao longo deste ano. Nem sequer é necessário recorrer ao princípio da precaução dado o número de casos.

No entanto, a última decisão está nas mãos dos interesses políticos e dos mercados. E é aí que a sociedade civil deve organizar-se e influenciar para mudar as posições das suas elites políticas e assim evitar uma nova licença para este herbicida. O dilema é claro : a divulgação deste facto é necessária e o pessoal científico não pode ficar calado face a outro desastre para a vida no nosso planeta, como o glifosato.