Mostrar mensagens com a etiqueta Economia Ecológica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Economia Ecológica. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Marxismo e Ecologia: Fontes comuns de uma Grande Transição



John Bellamy Foster (*)
O pensamento socialista está a reemergir na vanguarda do movimento para a mudança ecológica e social global. Em face da emergência planetária, os teóricos descobriram uma poderosa crítica ecológica do capitalismo na base da concepção materialista da história de Marx. Isto levou a uma conceção mais abrangente do socialismo, enraizada na análise de Marx da ocorrência de uma fratura no “metabolismo universal da natureza" e na sua visão sobre o desenvolvimento humano sustentável. Este trabalho ressoa com outras abordagens para a compreensão e avanço de uma Grande Transição. Tal transformação social e ecológica exigirá uma estratégia em duas etapas. Primeiro, temos de montar lutas por reformas radicais no presente que desafiem a lógica destrutiva do capital. Em segundo lugar, temos de construir o movimento amplo capaz de realizar a longa transição revolucionária que é essencial para a continuação do desenvolvimento da humanidade e sua sobrevivência.

Introdução
Ligar o marxismo e a transição ecológica pode parecer, à primeira vista, como tentar unir dois movimentos e discursos totalmente diferentes, cada um com sua própria história e lógica: um que tem principalmente a ver com as relações de classe, e o outro com as relação entre os seres humanos e o meio ambiente. Historicamente, no entanto, o socialismo tem influenciado o desenvolvimento do pensamento e da prática ecológica, enquanto a ecologia moldou o pensamento e a prática socialista. Desde o século XIX, a relação entre os dois tem sido complexa, interdependente e dialética.

Abordagens marxistas à crise ecológica planetária e às transformações sócio-ecológicas necessárias para a sua resolução evoluíram rapidamente, nas últimas décadas. Isso criou a base para uma luta coletiva muito mais poderosa por uma Grande Transição, na qual os valores de "consumismo, individualismo, e dominação da natureza" serão substituídos por "uma nova tríade: qualidade de vida, solidariedade humana e sensibilidade ecológica" (1). A exigência de uma sociedade dedicada às necessidades humanas, em lugar do lucro, bem como à igualdade e à solidariedade, tem há muito tempo sido associada com o socialismo. Mais recentemente, pensadores socialistas têm dado a mesma importância à sustentabilidade ecológica, com base na crítica ambiental de Karl Marx ao capitalismo e na sua visão pioneira de um desenvolvimento humano sustentável (2).

Este ensaio revela as profundas raízes ecológicas do pensamento de Marx, mostrando como ele utiliza uma perspetiva ambiental em suporte da questão fundamental da transformação social. A partir daí, traça a evolução da ecologia marxista, iluminando a seu profunda e formativa ligação às modernas economia ecológica e ecologia dos sistemas. Conclui discutindo o projecto mais englobante da construção de um movimento social amplo e suficientemente profundo para travar e inverter a atual destruição ecológica e social.

Pela primeira vez na história humana, a nossa espécie enfrenta uma escolha existencial terrível. Podemos continuar na via dos negócio do costume (“business as usual”) arriscando uma mudança catastrófica no sistema-Terra (aquilo que Frederico Engels metaforicamente referiu como a "vingança da natureza"), ou podemos tomar o caminho transformador da mudança do sistema social, visando um desenvolvimento humano igualitário em co-evolução com os parâmetros vitais da Terra (3). É isto que constitui o desafio epocal do nosso tempo: avançar medidas de reforma radical que se oponham à lógica do capital, no presente histórico, em coalescência com uma longa revolução para construir uma nova formação social e ecológica que promova o desenvolvimento humano sustentável.

O Socialismo e as origens da Ecologia de Sistemas
A ecologia, como a entendemos hoje, surgiu apenas com a ascensão da ecologia de sistemas e o conceito de ecossistema. Apesar de Ernst Haeckel, promotor e divulgador do trabalho de Charles Darwin na Alemanha, ter cunhado a palavra ecologia em 1866, o termo foi originalmente usado meramente como um equivalente para o vago conceito darwiniano de "economia da natureza" (4). Esta conceção de ecologia viria a ganhar aceitação como uma forma de lidar com complexas comunidades de plantas em estudos botânicos no início do século XX.

No entanto, a ecologia tinha outras raízes, mais próximas de nossa concepção atual, nos trabalhos iniciais sobre o ciclo nutritivo e na extensão do conceito de metabolismo aos processos ecológicos sistémicos. Uma figura chave a este respeito, o grande químico alemão Justus von Liebig, lançou uma grande crítica ecológica da agricultura industrial britânica no final dos anos 1850 e início dos anos 1860 (5). Liebig acusou os britânicos de desenvolverem uma cultura de roubo, esgotando sistematicamente os nutrientes do solo e exigindo assim a importação de ossos dos campos de batalha napoleónicos e das catacumbas da Europa (bem como de guano do Peru) para reabastecer os campos ingleses. A análise de Liebig era, em si própria, um produto das revoluções que ocorriam na física e na química do século XIX. Em 1845, Julius Robert von Mayer, um dos co-descobridores da conservação de energia, havia descrito o metabolismo dos organismos em termos termodinâmicos. O novo pensamento físicoquímico salientou a interrelação entre o inorgânico e o orgânico (abióticos e bióticos), fornecendo a base inicial para o que viria a tornar-se uma mais vasta teoria dos sistemas ecológicos (6).

Inspirado na obra de Liebig, e na do médico socialista Roland Daniels, Karl Marx introduziu o conceito de "metabolismo social", que desde o final dos anos 1850 ocupou um lugar central em todos os seus trabalhos econômicos (7). Marx definiu o próprio processo de trabalho como um meio pelo qual "o homem, através de suas ações, medeia, regula e controla o metabolismo entre si próprio e a natureza”. A produção humana operava dentro daquilo que ele chamou de “metabolismo universal da natureza”. Nesta base, ele desenvolveu sua própria teoria da crise ecológica, agora conhecida como a teoria da fratura metabólica, apontando para a "ruptura irreparável no processo interdependente do metabolismo social, um metabolismo prescrito pelas leis naturais da própria vida" (8). Como o economista Ravi Bhandari escreveu recentemente, o marxismo foi "a primeira teoria de sistemas" (9). Isto é verdade não apenas em termos político-econômicos, mas também em termos da incorporação em sua análise da termodinâmica e da mais ampla relação metabólica entre a natureza e a sociedade.

Estas duas correntes de análise ecológica – a noção de "ecologia" de Haeckel e a conceção de Liebig e Marx de uma relação metabólica entre sociedade e natureza - evoluíram durante os fins do século XIX e inícios do século XX. Começando na década de 1880, o proeminente zoólogo britânico E. Ray Lankester (protegido de Charles Darwin e Thomas Huxley e amigo próximo de Marx) apresentou uma forte crítica ecológica do capitalismo e do conceito de victoriano de progresso (10). O botânico Arthur George Tansley, estudante de Lankester e, tal como ele, socialista fabiano, fundou a Sociedade Ecológica Britânica. Ele introduziu o conceito de ecossistema em 1935 numa polémica teórica contra o racismo ecológico "holista" do General Jan Smuts e seus seguidores na África do Sul. De passagem, desenvolveu uma abordagem ampla e materialista à ecologia, que incorporou tanto processos inorgânicos como orgânicos (11).

A ecologia, tal como a conhecemos hoje, representa assim o triunfo de uma teoria de sistemas materialista. O conceito de ecossistema de Tansley estava focado em complexos naturais em estado de equilíbrio dinâmico. Os ecossistemas foram vistos como complexos relativamente estáveis (resilientes) que eram, no entanto, vulneráveis e sujeitos a alterações. Ao desenvolver esta análise, ele inspirou-se na perspectiva sistémica do matemático e físico marxista britânico Hyman Levy. Na visão de Tansley, a humanidade foi considerada como uma "fator biótico excecionalmente poderoso" que perturbou e transformou os ecossistemas naturais (12). Correspondentemente, a ecologia em nosso tempo está cada vez mais centrada na perturbação humana dos ecossistemas, do local até ao global.

Desenvolvimentos relacionados com isto ocorreram na União Soviética. No seu trabalho de 1926 "A Biosfera", V. I. Vernadsky argumentou que a vida existia na superfície fina de uma esfera planetária auto-suficiente, sendo em si própria uma força geológica que afeta a Terra como um todo, tendo um impacto sobre o planeta que se tornou mais extensivo ao longo do tempo (13). Estes vislumbres induziram Nikolai Bukharin, uma figura importante da Revolução Russa e da teoria marxista, a reenquadrar o materialismo histórico como o problema do "homem na biosfera" (14). Apesar da purga, sob Stalin, de Bukharin e vários outros pensadores de orientação ecológica, o trabalho de Vernadsky manteve-se central para a ecologia soviética, tendo mais tarde ajudado a inspirar o desenvolvimento da moderna análise do sistema Terra.

Com a ascensão da ecologia dos sistemas, os conceitos marxianos de "metabolismo universal da natureza", "metabolismo social", e de “fratura metabólica” provaram ser inestimáveis para modelar a relação complexa entre sistemas sócio-produtivos, particularmente o capitalismo, e os mais amplos sistemas ecológicos em que eles estão incorporados. Esta abordagem da relação humano-social com a natureza, profundamente entrelaçada com a crítica de Marx à sociedade capitalista de classes, dá ao materialismo histórico uma perspectiva única sobre a crise ecológica contemporânea e o desafio da transição. Marx escreveu sobre uma fratura no metabolismo do solo causada pela agricultura industrializada. Nutrientes essenciais do solo, tais como o nitrogênio, o fósforo, e o potássio, contidos nos alimentos ou nas fibras, foram enviados para centenas, talvez milhares de quilómetros de distância, para cidades densamente povoadas, onde acabaram como resíduos, agravando a poluição urbana, enquanto ficavam perdidos para o solo. O autor de O Capital passou então a enfatizar a necessidade de uma regulação racional do metabolismo entre ser humano e natureza, como fundamental para a criação de uma sociedade racional, para além do capitalismo. O socialismo foi definido em termos ecológicos, requerendo que o "homem socializado, os produtores associados, governem o metabolismo humano na natureza de uma forma racional... realizando-o com o menor dispêndio de energia e em condições mais dignas e adequadas para a sua natureza humana". Terra ou solo constituem "a condição inalienável para a existência e reprodução da cadeia das gerações humanas". Como ele declarou em O Capital: "Mesmo uma sociedade inteira, uma nação, ou todas as sociedades simultaneamente existentes no seu conjunto, não são proprietárias da Terra. Elas são simplesmente as suas possuidoras, as suas beneficiárias, tendo que transmiti-la, num estado melhorado, às gerações seguintes, como boni patres familias [bons chefes de família]" (15).

A Grande Divisão no Marxismo e o problema ecológico
No entanto, se o materialismo histórico clássico incorporou uma poderosa crítica ecológica, porque foi esta esquecida durante tanto tempo dentro do corpo principal do pensamento marxista? Uma resposta parcial pode ser encontrada numa observação da socialista revolucionária do início do século XX Rosa Luxemburgo. Dizia ela que muitos aspetos do vasto quadro teórico proposto por Marx, que se estendem para lá das necessidades mais imediatas do movimento operário, seriam descobertos e incorporados apenas muito mais tarde, quando o movimento socialista amadurecesse e novos desafios históricos emergissem (16). Uma explicação mais direta, no entanto, é o facto de que as ideias ecológicas de Marx foram vítimas da grande divisão que se abriu, em 1930, entre marxismo ocidental e marxismo soviético.

Intelectualmente, o cisma dentro do marxismo centrou-se na aplicabilidade da dialética ao reino natural, e na posição tomada sobre isso por Marx e Engels. O conceito de "dialética da natureza" foi mais estreitamente identificado com Engels do que com Marx. Engels argumentou que o raciocínio dialético – focado sobre o caráter contingente da realidade, os desenvolvimentos contraditórios (ou incompatíveis) dentro da mesma relação, a interpenetração dos contrários, a mudança quantitativa que dá origem à transformação qualitativa e processos de transcendência histórica - era essencial para a nossa compreensão da complexidade e dinamismo do mundo físico. Isso, no entanto, levantou problemas filosóficos profundos (tanto ontológicos como epistemológicos) dentro do discurso marxista.

Pensadores soviéticos continuaram a considerar complexas visões históricas interligada do desenvolvimento, associadas com o raciocínio dialético, como essenciais para a compreensão da natureza e da ciência. No entanto, enquanto o marxismo na União Soviética continuou a abraçar a ciência natural, a sua análise, muitas vezes, assumiu um caráter dogmático, combinado com um otimismo tecnológico exagerado. Essa rigidez foi reforçada pelo lysenkoismo, que criticou a seleção natural darwiniana e a genética mendeliana, assumindo um papel politicamente repressivo durante as depurações da comunidade científica no tempo de Stalin (17).

Em contraste, a tradição filosófica conhecida como marxismo ocidental dissociou o marxismo e a dialética das questões da natureza e da ciência, alegando que o raciocínio dialético, dado o seu caráter reflexivo, aplica-se somente à consciência humana (e à sociedade humana), não podendo ser aplicada ao mundo externo natural (18). Por isso, os marxistas ocidentais, a este respeito representados principalmente pela Escola de Frankfurt, desenvolveram críticas ecológicas que foram em grande parte filosóficas e abstratas, estreitamente relacionadas com as preocupações éticas que vieram mais tarde para dominar a filosofia verde, mas distantes da ciência ecológica e das questões do materialismo. Subvalorização dos desenvolvimentos nas ciências naturais e uma forte inclinação anti-tecnológica colocaram limites estreitos às contribuições da maioria dos marxistas ocidentais a um diálogo ecológico.

A partir dos anos 1950 até aos anos 1970, quando o movimento ambientalista moderno iniciou o seu desenvolvimento, alguns pensadores ambientais pioneiros, como o economista ecológico radical K. William Kapp e o biólogo socialista Barry Commoner, recuperaram a ideia de fratura metabólica de Marx para explicar as contradições ecológicas (19). No entanto, na década de 1980, uma tradição distinta de ecossocialismo surgiu na obra de grandes figuras da Nova Esquerda, incluindo o sociólogo britânico Ted Benton e o filósofo social francês André Gorz. Estes primeiros pensadores ecossocialistas importantes empregaram o novo ecologismo da teoria verde para criticar Marx, por supostamente não ter tratado de questões de sustentabilidade. Na visão de Benton, Marx, na sua crítica de Thomas Malthus, tinha jogado fora o bebé com a água do banho, minimizando ou negando mesmo os limites naturais (20). A resposta oferecida por estes pensadores foi a de enxertar os pressupostos gerais do pensamento verde mais divulgado (incluindo noções malthusianas) na análise de classe marxista. A revista ‘Capitalism Nature Socialism’, fundada pelo economista marxista James O'Connor no final dos anos 1980, de um modo geral negou a existência de qualquer relação significativa com a ecologia na obra do próprio Marx, insistindo em que os conceitos ecológicos prevalecentes deveriam simplesmente ser colados, à maneira de um centauro, ao corpus das perspetivas marxianas de classe - uma posição hoje conhecida como "ecossocialismo da primeira fase" (21).

Esta abordagem híbrida mudou no final dos anos 1990, quando outros, mais destacadamente Paul Burkett, demonstraram o contexto ecológico profundo em que crítica original de Marx tinha sido construída. A nova análise incluiu a reconstrução sistemática do argumento de Marx sobre o metabolismo social. O resultado foi o desenvolvimento de importantes conceitos ecológicos marxistas, juntamente com uma reunificação da teoria marxista. Assim, os "ecosocialistas da segunda fase", ou marxistas ecológicos, como Burkett, reincorporaram as contribuições maiores de Engels ao pensamento ecológico, associadas às suas explorações da dialética da natureza, no núcleo central da teoria marxista, vendo as obras de Marx e de Engels como complementares (22).

Mais recentemente, a importância da ecologia soviética tardia veio à luz do dia. Apesar da sua história tortuosa, a ciência soviética, particularmente no período pós-Stalin, continuou a dar origem a uma compreensão dialética da interdependência dos processos naturais e históricos. A principal inovação foi o conceito de biogeocoenosis (equivalente ao ecossistema, mas emergindo da tradição aberta por Vernadsky, da análise do impacto da vida sobre a terra), desenvolvido, no início dos anos 1940, pelo botânico e silviculturalista Nikolaevich Sukachev. Outro vislumbre sistêmico seminal foi a descoberta, pelo climatologista soviético Michael Budyko, no início da década de 1960, da retroalimentação albedo-gelo, o que fez das alterações climáticas uma questão premente pela primeira vez. Na década de 1970, o reconhecimento da "ecologia global" como um problema distinto relacionado com o sistema Terra cresceu na União Soviética, em alguns aspectos, à frente do Ocidente. Não é por acaso que a palavra Antropoceno (“Anthropocene”) apareceu, pela primeira vez em Inglês, no início dos anos 1970 na Grande Enciclopédia Soviética (23).

Marxismo e Economia Ecológica
No alvorecer do século XXI, a consciência da análise ecológica de Marx inspirou uma reavaliação radical do marxismo, em linha com os fundamentos clássicos do materialismo histórico e sua estrutura ecológica subjacente. Por um longo tempo, pensadores marxistas, particularmente no Ocidente, tinham lamentado que Marx tivesse perdido tanto tempo e energia para o que então pareciam ser temas esotéricos relacionados com a ciência e sem relação com as presumidas bases de sua própria teoria, a situar estritamente no campo das ciências sociais. Marx assistiu com grande interesse a algumas das palestras sobre energia solar do físico britânico John Tyndall, ao longo das quais Tyndall relatou as suas experiências, que demonstraram pela primeira vez que as emissões de dióxido de carbono contribuíam para o efeito estufa. Marx também tomou notas detalhadas sobre como as mudanças isotérmicas na superfície da Terra devidas à mudança climática levaram à extinção de espécies, ao longo da história da Terra. Ele observou como uma mudança climática antropogênica regional, na forma de desertificação, contribuiu para a queda de civilizações antigas, e considerou a forma como isso provavelmente sucederia também com o capitalismo (24). Hoje, a ascensão da ecologia socialista, em resposta a condições em mutação, levou a uma crescente valorização – antecipada por Rosa Luxemburgo - de tais aspetos mais amplos da ciência de Marx e do seu papel essencial no desenvolvimento do seu sistema de pensamento.

A abordagem de Marx (e de Engels) à economia ecológica tomou forma a partir de uma crítica da produção e em particular da produção capitalista de mercadorias. Todos os produtos foram concebidos como tendo uma forma dual, de valor de uso e valor de troca, relacionada, respectivamente, com as suas condições naturais/materiais e com a sua avaliação na troca monetária. Marx viu a tensão antagônica entre valor de uso e valor de troca como chave tanto para as contradições internas do capitalismo como para o seu conflito com o ambiente natural externo. Ele insistiu em que a natureza e o trabalho, em conjunto, constituíam as duas fontes de toda a riqueza. Ao incorporar apenas o trabalho (ou serviços humanos) nos cálculos do valor econômico, o capitalismo assegurou-se de que os custos ecológicos e sociais da produção seriam excluídos dos balanços. De fato, a economia política liberal clássica, argumentou Marx, tratava as condições naturais de produção (as matérias-primas, a energia, a fertilidade do solo, etc.) como "ofertas da natureza" ao capital. Ele baseou sua crítica em uma termodinâmica de sistema aberto, em que a produção é limitada por um orçamento solar e por fornecimentos limitados de combustíveis fósseis - referidos por Engels como sendo "calor solar passado" – que estavam sendo sistematicamente "desbaratados" (25).

Na crítica de Marx, o metabolismo social, ou seja, os processos de trabalho-e-produção, buscavam necessariamente a sua energia e recursos a partir do mais amplo metabolismo universal da natureza. No entanto, a forma antagônica da produção capitalista - tratando os limites naturais como meros obstáculos a serem superados - conduziu inexoravelmente a uma fratura metabólica, minando sistematicamente as bases ecológicas da existência humana. "Ao destruir as circunstâncias deste metabolismo" relacionadas com "a condição natural eterna" que rege a produção humana, esse mesmo processo, escreveu Marx, "obriga à sua restauração sistemática como uma lei reguladora da produção social, e de uma forma adequada para a raça humana" - embora em uma sociedade futura, que transcenda a produção capitalista de mercadorias (26).

Central para esta dinâmica destrutiva é a compulsão inerente ao capital de acumular em escala cada vez maior. O capital, como sistema, estava intrinsecamente voltado para a máxima acumulação possível e o máximo rendimento de matéria e energia, independentemente das necessidades humanas ou de limites naturais (27). Na compreensão de Marx sobre a economia capitalista, a correlação entre fluxos de materiais (relacionados com o valor de uso) e fluxos de valor-trabalho (relacionados com o valor de troca) leva a uma contradição cada vez mais intensificada entre os imperativos da resiliência ambiental e o crescimento econômico.

Paul Burkett delineia duas fontes diferentes de tal desequilíbrio subjacentes à teoria da crise ecológica em Marx. Uma delas toma a forma de crises econômicas associadas à escassez de recursos e aos concomitantes aumentos nos custos do lado da oferta, que comprimem as margens de lucro. Crises ecológicas deste tipo têm um efeito negativo sobre a acumulação e, naturalmente, levam a respostas por parte do capital, como por exemplo a conservação da energia como medida economizadora.

O outro tipo, a crise ecológica propriamente dita, é bastante diferente, sendo mais completamente desenvolvido na concepção marxiana da fratura metabólica. Tem a ver com a interação entre a degradação do meio ambiente e o desenvolvimento humano, de uma forma não contabilizada nas medidas econômicas padrão, como o PIB. Por exemplo, a extinção de espécies ou a destruição de ecossistemas inteiros é logicamente compatível com a expansão da produção capitalista e o crescimento económico. Tais impactos ecológicos negativos são designados como "externalidades", já que a natureza é tratada como um dom gratuito. Como resultado, nenhum mecanismo direto de retroalimentação, intrínseco ao sistema capitalista, impedirá a degradação ambiental à escala planetária.

Uma característica distintiva da teoria ecológica marxista tem sido a sua ênfase nas trocas ecológicas desiguais, ou imperialismo ecológico, pelo qual se entende a exploração ecológica de uns países por outros. Isto pode ser visto na famosa referência de Marx à forma como, durante mais de um século, a Inglaterra tinha "indiretamente exportado o solo da Irlanda", minando a fertilidade a longo prazo da agricultura irlandesa. Nos últimos anos, os teóricos marxistas têm expandido esta análise do imperialismo ecológico, chegando a vê-lo como parte integrante de todas as tentativas para resolver o problema ecológico (28).

Análise marxista da fratura e limites planetários
Como foi descrito acima, a teoria da fratura metabólica de Marx nasceu como uma resposta a esta crise da fertilidade do solo no século XIX. Os problemas da aceleração dos tempos, do aumento da escala e da disjunção espacial (separação entre cidade e campo) na produção capitalista, já foram sublinhados sistematicamente por Marx, em meados do século XIX. Nos últimos anos, os teóricos marxistas basearam-se nesta perspetiva para explorar a fratura global no metabolismo do carbono e uma série de outros problemas de sustentabilidade (29). Durante várias décadas, os ecologistas socialistas argumentaram que o capitalismo gerou uma aceleração da transformação humana do sistema Terra, ocorrida em duas fases principais: (1) a revolução industrial a partir do final do século XVIII e (2) a ascensão do capitalismo monopolista, especialmente em sua fase madura após a Segunda Guerra Mundial, incluindo a revolução científico-técnica do pós-guerra, marcada pelo desenvolvimento da energia nuclear e o uso comercial generalizado de químicos sintéticos (30).

Assim, os teóricos ecológicos socialistas foram rápidos em aderir ao poder explicativo do Antropoceno, que destaca o surgimento, definidor de uma época, da sociedade humana moderna como a principal força geológica planetária em ação nas alterações do sistema Terra. Intimamente relacionado com este fecundo vislumbre, os principais cientistas do sistema Terra delinearam em 2009 o quadro das fronteiras planetárias, para definir um espaço seguro para a humanidade, caraterizado por nove fronteiras planetárias, a maioria das quais estão atualmente em processo de ser atravessadas. Em nosso livro de 2010 The Ecological Rift, Brett Clark, Richard York, e eu próprio integramos a análise marxista da fratura metabólica com o quadro de fronteiras planetárias, descrevendo-as como fraturas no sistema Terra. Nesta visão, a atual emergência planetária poderia ser chamada de "fratura ecológica global", caraterizando-se pela perturbação e desestabilização da relação humana com a natureza em escala planetária, resultante do processo incessante de acumulação de capital (31).

A Grande Convergência
O conceito integrador de "fratura ecológica global" representa uma convergência crescente da análise ecológica de Marx com a teoria do sistema Terra e a perspetiva de uma Grande de Transição, que compartilham todos uma evolução complexa e interligada. Os ecologistas marxistas de hoje começam com a crítica do crescimento económico (na sua caracterização mais abstrata) ou acumulação de capital (visto de forma mais concreta). O crescimento económico continuado e exponencial não pode ocorrer sem fraturas crescentes no sistema Terra. Portanto, a sociedade, particularmente nos países ricos, deve avançar no sentido de um estado estacionário da economia, o que exige uma mudança para uma economia sem formação líquida de capital, uma economia que se mantenha dentro do orçamento solar. O desenvolvimento, particularmente nas economias ricas, deve assumir uma nova forma: qualitativa, coletiva e cultural, enfatizando o desenvolvimento humano sustentável, em harmonia com a visão original de Marx do socialismo. Como Lewis Mumford argumentou, um estado estacionário, promovendo fins ecológicos, exige, para seu cumprimento, as condições igualitárias do "comunismo básico", com a produção a ser determinada "de acordo com a necessidade, não de acordo com a capacidade ou a contribuição produtiva" (32). Um tal afastamento da acumulação de capital rumo a um sistema de satisfação das necessidades coletivas, baseado no princípio da temperança, é obviamente impossível, em qualquer sentido, sob o regime da acumulação de capital. O que se exige, portanto, é uma revolução ecológica e social que facilite uma sociedade de sustentabilidade ecológica e igualdade substantiva.

Se a necessidade objetiva de uma tal revolução ecológica é agora clara, a questão mais difícil de como realizar as transformações sociais necessárias permanece. O movimento ecossocialista adotou a palavra de ordem “mudemos o sistema, não o clima” (“system change, not climate change”), mas um sistema capitalista profundamente enraizado, em todo o mundo, infunde a realidade onipresente atual. O dominância do modo de produção capitalista significa que uma mudança revolucionária na escala necessária para enfrentar a situação de emergência ambiental planetária está para além do horizonte social imediato.

No entanto, temos de levar a sério a relação não linear, contingente, de tudo o que está relacionado com o desenvolvimento humano. O teórico cultural conservador do século XIX Jacob Burckhardt usou o termo "crise histórica" para se referir a situações em que “uma crise em todo o estado de coisas é produzida, envolvendo épocas inteiras e todos ou muitos dos povos de uma mesma civilização". Ele explicou: "O processo histórico é subitamente acelerado de forma assustadora. Desenvolvimentos que de outra forma demorariam séculos parecem fulminar-nos em meses ou semanas, e são consumados" (33). Que acelerações revolucionárias do processo histórico tenham ocorrido no passado, em torno da organização da sociedade humana, em si mesmo não está sujeito a dúvidas. Podemos apontar não só para as grandes revoluções políticas, mas também, para além delas, para transformações tão fundamentais na produção quanto a original Revolução Agrícola e a Revolução Industrial. Hoje, precisamos de uma Revolução Ecológica, equivalente em profundidade e alcance a essas transformações anteriores.

A dificuldade óbvia é a velocidade - e, em alguns aspectos, a irreversibilidade – dos avanços na destruição ambiental. A aceleração concomitante do processo histórico para enfrentar a crise deve começar quanto antes. Subestimar a escala do problema será fatal. Para evitar atingir a trilionésima tonelada acumulada de carbono consumido, equivalente a um aumento de 2° C na temperatura global, as emissões de carbono devem reduzir-se a uma taxa de cerca de 3 por cento ao ano, globalmente. Isso exigiria que as nações ricas reduzissem as suas próprias emissões a uma taxa duas vezes superior, um desafio verdadeiramente assustador. Como sempre, devemos agir com as ferramentas que temos, e lembremo-nos de que nenhuma correção meramente técnica pode resolver um problema devido à maximização sistemática de um crescimento econômico exponencial ad infinitum. Assim, "uma reconstituição revolucionária da sociedade em geral", alterando o sistema de reprodução social metabólica, fornecerá a única alternativa para a iminente “ruína comum das classes em luta" (34).

Para os pensadores marxistas ecológicos, este terrível estado de coisas levou ao desenvolvimento de uma estratégia em duas fases, para uma revolução ecológica e social. A primeira fase concentra-se na questão "O que pode ser feito agora?" - isto é, naquilo que é realista obter a curto prazo, nas condições atuais, indo necessariamente contra a lógica da acumulação do capital. Esta poderá ser considerada a fase ecodemocrática na revolução ecológica mundial. Sob as condições prevalecentes, é preciso combater por uma grande variedade de mudanças drásticas, por intermédio de um movimento radical de base ampla (35). Um tal esforço necessitaria de incluir medidas como as seguintes: um sistema de taxas e dividendos de carbono, com 100 por cento das receitas a ser redistribuídas de volta à população, numa base per capita; a proibição das fábricas movidas a carvão e combustíveis fósseis não convencionais (como as areias betuminosas de petróleo); uma vasta mudança para a energia solar, eólica e outras fontes alternativas e sustentáveis de energia, bem como a promoção da eficiência energética, tudo financiado por cortes nos gastos militares; uma moratória sobre o crescimento econômico nas economias ricas a fim de reduzir as emissões de carbono, juntamente com uma redistribuição radical de rendimentos (e medidas para proteger os mais desfavorecidos); por fim, um novo processo de negociação internacional sobre o clima, tomando como modelo os princípios igualitários e ecocêntricos do 'Acordo dos Povos’ na Conferência dos Povos do Mundo sobre Alterações Climáticas realizada na Bolívia, em 2010 (36).

Todas estas medidas de emergência chocam contra a lógica predominante de acumulação de capital. No entanto, podem concebivelmente ser avançadas sob as condições atuais. Juntamente com uma vasta gama de iniciativas similares, tais medidas constituem o ponto de partida racional e realista para uma revolução ecológica e social, e ainda um meio com o qual se pode mobilizar o público em geral. Não podemos substituir todo o sistema do dia para a noite. A batalha deve começar no presente e se estender para o futuro, acelerando a meio do curso e terminando com um novo metabolismo social, voltado para o desenvolvimento humano sustentável.

O objetivo de longo prazo da transformação sistêmica levanta a questão de uma segunda fase da revolução ecológica, ou a fase ecossocialista. A questão principal, é claro, são as condições históricas em que esta mudança pode ocorrer. Marx referiu-se às pressões ambientais da sua época como uma "tendência socialista inconsciente", que exigiria produtores associados para regular o metabolismo social com a natureza de uma forma racional (37). Essa tendência, no entanto, só pode ser realizada como resultado de uma revolução feita pela maior parte da humanidade, que estabelecerá condições e processos mais igualitários para governar a sociedade global, incluindo o necessário planeamento ecológico, social e económico.

Num futuro não muito distante, um "proletariado ambiental" - sinais do qual já estão presentes atualmente – surgirá quase inevitavelmente da combinação de degradação ecológica e dificuldades econômicas, particularmente na parte inferior da sociedade. Nestas circunstâncias, as crises materiais que afetam a vida das pessoas serão cada vez mais indistinguíveis, em seus múltiplos efeitos ecológicos e económicos (por exemplo, as crises alimentares). Tais condições vão obrigar a população trabalhadora da Terra a se revoltar contra o sistema. A muitas vezes enganosamente chamada "classe média" – as pessoas situadas acima dos trabalhadores pobres, mas com pouco interesse na manutenção do sistema - será sem dúvida arrastada também para esta luta. Como em todas as situações revolucionárias, alguns dos elementos mais esclarecidos da classe dominante irão certamente abandonar os seus interesses de classe, em favor da humanidade e da Terra. Uma vez que o desafio de manter a Terra resiliente diz respeito sobretudo às novas gerações, podemos esperar que a juventude se tornará cada vez mais desencantada e radicalizada, à medida que as condições materiais de existência se deteriorarem. Historicamente, as mulheres têm estado especialmente preocupadas com as questões da reprodução, natural e social. Sem dúvida estarão também na vanguarda da luta por uma sociedade global mais ecologicamente orientada.

Nesta Grande Transição, eu acredito que os socialistas vão desempenhar o papel principal, mesmo que o significado de socialismo evolua entretanto, assumindo uma conotação mais ampla no decurso da luta. O grande artista, escritor e socialista William Morris teve a seguinte declaração famosa: "Os homens lutam e perdem a batalha, e a coisa por que eles lutaram acontece mesmo, apesar da sua derrota, e quando acontece, acaba por não ser afinal o que eles queriam dizer, e outros homens têm de lutar por aquilo que eles quiseram dizer, mas agora com outro nome" (38). Hoje, a luta humana secular pela liberdade e pelo sentido vai conhecer um desfecho. Na nova época diante de nós, a nossa tarefa é clara: lutar por um desenvolvimento humano equitativo e sustentável, em acordo duradouro com a nossa Terra.

(*) John Bellamy Foster (n. 1953) é professor de Sociologia na Universidade de Oregon (E.U.A.) e o atual editor da veterana revista marxista norte-americana Monthly Review. A sua pesquisa se concentra sobretudo na análise crítica de problemas econômicos, políticos e ecológicos do capitalismo e do imperialismo. Entre os livros que publicou incluem-se: The Theory of Monopoly Capitalism (1986, 2014), The Vulnerable Planet (1994, 1999), Marx’s Ecology (2000), Ecology Against Capitalism (2002), Critique of Intelligent Design (com Brett Clark and Richard York, 2008), The Ecological Revolution (2009), The Great Financial Crisis (com Fred Magdoff, 2009), The Ecological Rift (com Brett Clark e Richard York, 2010), What Every Environmentalist Needs to Know about Capitalism (com Fred Magdoff, 2011), The Endless Crisis (com Robert W. McChesney, 2012), e Marx and the Earth (com Paul Burkett, a aparecer em 2016). O presente artigo foi publicado originalmente no sítio Great Transition Initiative, tendo servido depois como “review of the month” no Vol. 67, nº 7 da revista ‘Monthly Review’, dezembro de 2015. Tradução de Ângelo Novo.
____________

NOTAS:
(1) Paul Raskin, The Great Transition Today: A Report from the Future (Boston: Tellus Institute, 2006)
(2) Veja-se Paul Burkett, “Marx’s Vision of Sustainable Human Development”, Monthly Review, vol. 57, n.º 5 (October 2005), pp. 34-62.
(3) Frederick Engels, The Dialectics of Nature, in Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 25 ([1873-1882]; New York: International Publishers, 1975), pp. 460-461.
(4) Frank Benjamin Golley, A History of the Ecosystem Concept in Ecology (New Haven, CT: Yale University Press, 1993), 2, p. 207.
(5) Sobre a crítica ecológica de Liebig leia-se John Bellamy Foster, Marx’s Ecology: Materialism and Nature (New York: Monthly Review Press, 2000), pp. 149-154.
(6) Julius von Mayer, “The Motions of Organisms and Their Relation to Metabolism,” in Julius Robert Mayer: Prophet of Energy, ed. Robert B. Lindsey ([1845]; New York: Pergamon Press, 1973), pp. 75-145.
(7) Roland Daniels, Mikrokosmos ([1851]; New York: Verlag Peter Lang, 1988), p. 49.
(8) Karl Marx, Capital, vol. 3 ([1863-1865]; London: Penguin, 1981), p. 949; Karl Marx, Economic Manuscript of 1861-1863, in Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 30 ([1861-1863]; New York: International Publishers, 1975), pp. 54-66.
(9) Ravi Bhandari, “Marxian Economics: The Oldest Systems Theory is New Again (or Always)?” Institute for New Economics, April 9, 2015.
(10) E. Ray Lankester, Science from an Easy Chair (New York: Henry Holt & Co., 1913), pp. 365-379; Joseph Lester, E. Ray Lankester and the Making of Modern British Biology (Oxford: British Society for the History of Science, 1995).
(11) Arthur G. Tansley, “The Use and Abuse of Vegetational Concepts and Terms,” Ecology 16, n.º 3 (July 1935): pp. 284-307; Peder Anker, Imperial Ecology: Environmental Order in the British Empire, 1895-1945 (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2001).
(12) Tansley, “Use and Abuse,” pp. 303-304; Hyman Levy, The Universe of Science (London: Watts & Co., 1932).
(13) Lynn Margulis, et. al., “Foreword,” in Vladimir I. Vernadsky, The Biosphere, traduzido por D.B. Langmuir ([1926]; New York: Springer-Verlag, 1998), p. 15.
(14) Nikolai Bukharin, “Theory and Practice from the Standpoint of Dialectical Materialism,” in Bukharin, et. al, Science at the Crossroads: Papers Presented to the International Congress of the History of Science and technology Held in London from June 29th to July 3rd, 1931 by the delegates of the U.S.S.R. (London: Frank Cass & Co., 1931), p. 17.
(15) Karl Marx, Capital, vol. 1 ([1867]; London: Penguin, 1976), p. 637; Capital, vol. 3, pp. 754, 911, 949, 959.
(16) Rosa Luxemburgo, “Stagnation and Progress of Marxism”, in Rosa Luxemburg, Rosa Luxemburg Speaks ([1903]; New York: Pathfinder Press, 1970), p. 111.
(17) Para uma discussão informada e equilibrada do lysenkoismo, leia-se Richard Levins e Richard Lewontin, The Dialectical Biologist (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1985), pp. 163-196.
(18) Leia-se Russell Jacoby, “Western Marxism,” in A Dictionary of Marxist Thought, ed. Tom Bottomore (Oxford, UK: Blackwell, 1983), pp. 523-526.
(19) K. William Kapp, The Social Costs of Private Enterprise (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1950), pp. 35-36; Barry Commoner, The Closing Circle: Nature, Man, and Technology (New York: Alfred A. Knopf, 1971), p. 280.
(20) Ted Benton, “Marxism and Natural Limits,” New Left Review, n.º 178 (December 1989): pp. 51-86; André Gorz, Capitalism, Socialism, Ecology (London: Verso, 1994).
(21) Leia-se John Bellamy Foster, “Foreword,” in Paul Burkett, Marx and Nature: A Red and Green Perspective (New York: St. Martin’s Press, 1999; Chicago: Haymarket, 2014), pp. vii-xiii.
(22) Paul Burkett, Marx and Nature, ob. cit..
(23) John Bellamy Foster, “Late Soviet Ecology and the Planetary Crisis”, Monthly Review, vol. 67, n.º 2 (June 2015): p. 20; M.I. Budyko, Global Ecology ([1977]; Moscow: Progress Publishers, 1980); E.V. Shantser, “The Anthropogenic System (Period)”, Great Soviet Encyclopedia, vol. 2 (New York: Macmillan, 1973; tradução para o inglês da terceira edição), p. 140.
(24) Sobre estes aspetos do pensamento de Marx, leia-se John Bellamy Foster, “Capitalism and the Accumulation of Catastrophe”, Monthly Review, vol. 63, n.º 7 (December 2011): pp. 1-17.
(25) Frederick Engels, “Engels to Marx, December 19, 1882,” in Marx and Engels, Collected Works, vol. 46, p. 411; John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York, The Ecological Rift: Capitalism’s War on the Earth (New York: Monthly Review Press, 2010), pp. 61-64.
(26) Marx, Capital, vol. 1, pp. 637-638; Karl Marx, Grundrisse: Outlines of the Critique of Political Economy ([1857-1858]; London: Penguin, 1973), pp. 334-335.
(27) Marx, Capital, vol. 1, p. 742; Foster, Clark e York, The Ecological Rift, pp. 207-11.
(28) Marx, Capital, vol. 1, p. 860; Foster, Clark e York, The Ecological Rift, pp. 345-72; John Bellamy Foster e Hannah Holleman, “The Theory of Unequal Ecological Exchange: A Marx-Odum Dialectic,” The Journal of Peasant Studies vol. 41, n.º 1-2 (March 2014): pp. 199-233.
(29) Leia-se, por exemplo, Stefano Longo, Rebecca Clausen e Brett Clark, The Tragedy of the Commodity: Oceans, Fisheries, and Aquaculture (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 2015). Leia-se ainda Ryan Wishart, Jamil Jonna e Jordan Besek, “The Metabolic Rift: A Select Bibliography”, Monthly Review, October 16, 2013.
(30) Leia-se Ian Angus, “When Did the Anthropocene Begin…and Why Does It Matter?Monthly Review vol. 67, n.º 4 (September 2015): pp. 1-11; John Bellamy Foster, The Vulnerable Planet: A Short Economic History of the Environment (New York: Monthly Review Press, 1994), p. 108.
(31) Foster, Clark e York, The Ecological Rift, pp. 14-15, 18; Johan Rockström, et. al., “A Safe Operating Space for Humanity,” Nature, vol. 461, n.º 24 (September 2009): pp. 472-475.
(32) Lewis Mumford, The Condition of Man (1944; New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1973), p. 411. De forma interessante, Mumford inspirou-se aqui tanto nos Principles of Political Economy (1848) de Mill como na Crítica do Programa de Gotha (1875) de Marx.
(33) Jacob Burckhardt, Reflections on History ([1869]; Indianapolis: Liberty Press, 1979, pp. 214.
(34) Karl Marx e Frederick Engels, The Communist Manifesto (London, 1848; New York: Monthly Review Press, 1964), p. 2. Sobre o conceito de reprodução sócio-metabólica, leia-se István Mészáros, Beyond Capital: Toward a Theory of Transition (New York: Monthly Review Press, 1995), pp. 170-187.
(35) Esta e outras propostas são desenvolvidas em Fred Magdoff e John Bellamy Foster, What Every Environmentalist Needs to Know About Capitalism: A Citizen’s Guide to Capitalism and the Environment (New York: Monthly Review Press, 2011), pp. 124-33.
(36) Ibid.
(37) Karl Marx, “Marx to Engels, March 25, 1868,” in Marx and Engels, Collected Works, vol. 42, pp. 558-59.
(38) William Morris, A Dream of John Ball in Morris, Three Works ([1888]; London: Lawrence and Wishart, 1986), pp. 53.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Crescimento da energia eólica trava em Portugal e coloca pressão sobre metas para 2030

 A energia eólica assegurou 25,4% do consumo de eletricidade em Portugal continental em 2025, mas as metas definidas para 2030 exigem maior ambição e aceleração de novos projetos, segundo um estudo hoje divulgado.

O relatório “Parques Eólicos em Portugal”, elaborado pelo INEGI - Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial - em parceria com a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), divulgado hoje no Dia Mundial do Vento aponta para uma produção eólica de 13,5 terawatts-hora (TWh), face a um consumo total de eletricidade de 53,1 TWh em Portugal continental.

Tendo em conta que o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030) prevê uma capacidade geradora de 10,4 gigawatts (GW) de eólica em terra (‘onshore’) e a concretização de 2 GW de eólica no mar (‘offshore’) até 2030, o estudo considera que este conjunto de metas é “muito ambicioso e exigente”.

Nesse sentido, defende que a sua concretização depende de uma “estreita colaboração entre os agentes públicos e privados", que permita acelerar o desenvolvimento de novos projetos.

Em declarações à Lusa, a coordenadora de Políticas e Inteligência de Mercado da APREN, Susana Serôdio, afirmou que “efetivamente nos últimos anos tem havido aqui uma estagnação da energia eólica” e que esta fonte “não tem acompanhado o que seria expectável face ao que está no PNEC2030”.

“O primeiro [fator], claramente, é a questão do licenciamento e a falta de visibilidade de prazos, dificuldades em algumas áreas de avaliação de impacto ambiental, mas também claramente questões das condições do mercado atual e também de rede”, disse.

De acordo com o mesmo estudo, após um período de crescimento, 2025 evidenciou uma “nova estagnação da capacidade adicional instalada em Portugal”.

Em 2025, encontravam-se mapeados 446,8 megawatts (MW) de potência em fase de construção, dos quais cerca de 80% correspondem a novos projetos, incluindo os parques de Tâmega Norte, com 194,4 MW, e Tâmega Sul, com 79,2 MW.

A maioria destes novos projetos está, contudo, associada a hibridizações, isto é, à combinação de um projeto eólico com outro projeto renovável já existente, como hídrico ou solar, aproveitando pontos de rede já disponíveis.

Os projetos de reequipamento (‘repowering’), que consistem na substituição ou modernização de equipamentos existentes por outros mais eficientes, representam 14% da potência em construção, enquanto os restantes 6% dizem respeito a sobreequipamento, ou seja, à instalação de uma potência de geração superior à capacidade de injeção.

Com 6 GW de capacidade instalada acumulada, Portugal mantém-se no ‘top 10’ europeu da capacidade eólica, num ranking liderado pela Alemanha, com 77,7 GW, e por Espanha, com 33,2 GW.

Em termos geográficos, Viseu mantém-se como o distrito com maior potência eólica instalada em território nacional, com 1.231,1 MW ligados à rede, seguido de Coimbra, com 745,7 MW, Vila Real, com 696,3 MW, e Guarda, com 653,2 MW.

Évora continua a ser o único distrito de Portugal continental sem qualquer aerogerador instalado.

As regiões autónomas concentram um total de 106,4 MW operacionais, repartidos entre 63,8 MW na Madeira e 42,6 MW nos Açores.

Questionada sobre o crescimento futuro em terra, Susana Serôdio defendeu que “o futuro passa pelo reequipamento”, mas ressalvou que “existe, efetivamente, ainda margem para crescer em terra”.

A responsável acrescentou que a hibridização com solar está a ganhar relevância, devido à queda dos preços nas horas de maior produção fotovoltaica.

“À hora de produção solar, efetivamente, os preços são muito baixos e a rentabilidade dos projetos começa a ser muito pequena. E, se hibridizarem com o eólico, geram aqui outro potencial ao projeto”, afirmou.

Dia Mundial do Vento: uma data para celebrar um recurso único

sábado, 6 de junho de 2026

Saber não basta - décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento

O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap) [relatório disponível aqui]

Nunca soubemos tanto sobre o clima. Os modelos atmosféricos tornaram-se mais sofisticados, as redes de monitorização produzem dados em tempo quase real e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) oferecem diagnósticos cada vez mais robustos sobre os riscos associados às trajetórias atuais de desenvolvimento. Paradoxalmente, quanto mais sólido se torna o conhecimento científico, mais insuficiente se revela para promover a transformação social, económica e política que os próprios dados reclamam.

O problema central do nosso tempo já não é a falta de informação. O verdadeiro desafio reside no fosso persistente entre aquilo que sabemos e o que fazemos. Décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento. Quando os riscos são percecionados como distantes, abstratos ou excessivamente complexos, a consciência do problema não se traduz necessariamente em ação.

Esta dificuldade é agravada pela natureza sistémica das crises contemporâneas. Os desafios atuais não surgem de forma isolada. Pelo contrário, interagem entre si de forma não linear. As alterações climáticas afetam a segurança alimentar e hídrica; a instabilidade energética amplia desigualdades económicas; as tensões geopolíticas comprometem respostas coordenadas a problemas globais; e a degradação dos ecossistemas aumenta vulnerabilidades sociais preexistentes. Vivemos numa realidade marcada pela interdependência, na qual perturbações localizadas podem produzir efeitos em cascata à escala planetária.

Durante décadas, as sociedades habituaram-se a interpretar as crises como interrupções temporárias da normalidade. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente. A sucessão de choques ambientais, económicos e geopolíticos sugere que a instabilidade deixou de ser uma exceção para se transformar numa condição. Adaptar-se à incerteza tornou-se uma exigência permanente.

Esta transformação tem consequências profundas. A exposição prolongada a narrativas de risco e urgência gera uma ansiedade difusa, alimentada pela perceção de que os problemas se acumulam mais rapidamente do que a capacidade coletiva para os resolver. A dificuldade crescente em imaginar futuros estáveis e desejáveis converte-se num fator de vulnerabilidade por direito próprio.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. A repetição constante de alertas pode reduzir gradualmente a intensidade da resposta emocional. Embora este mecanismo tenha valor adaptativo no curto prazo, pode tornar-se contraproducente quando prolongado. A preocupação converte-se em resignação, a confiança nas instituições enfraquece e as decisões passam a orientar-se pelo imediato. Um dos maiores riscos das sociedades contemporâneas poderá não ser apenas a multiplicação das crises, mas a erosão da capacidade coletiva para lhes responder.

No entanto, são muitos os progressos alcançados. A expansão das energias renováveis acelerou a um ritmo histórico, os custos da energia solar e do armazenamento diminuíram drasticamente e a capacidade científica para prever fenómenos extremos melhorou de forma notável. Estes avanços demonstram que a inovação, a cooperação e o investimento de longo prazo podem produzir mudanças significativas.

Sabemos hoje mais sobre os riscos que ameaçam as sociedades humanas do que em qualquer outro momento da história. Dispomos de conhecimento científico, capacidade tecnológica e experiência acumulada para enfrentar muitos desses desafios. O verdadeiro teste do nosso tempo já não reside na produção de mais informação, mas na capacidade de traduzir conhecimento em decisão, cooperação e compromisso coletivo. Saber continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente.
Diário de Coimbra, 02/06/2026

Leituras recomendadas:
A. O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap)
A premissa de que "dar informação não muda comportamentos" é o calcanhar de Aquiles da comunicação de ciência.
  • George Marshall (Livro: Don't Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change): Este livro explora exatamente o que a autora descreve: como o cérebro humano lida mal com riscos abstratos, distantes no tempo e geograficamente distantes.

  • Per Espen Stoknes (Livro: What We Think About When We Try Not To Think About Global Warming): Stoknes, um psicólogo e economista norueguês, identificou as "5 barreiras psicológicas" para a ação climática (Distância, Destruição, Dissonância, Negação e Identidade). O texto de Helena Freitas reflete quase diretamente o trabalho de Stoknes ao falar sobre a "redução da resposta emocional" e a "resignação".

B. O Conceito de Policrise e Efeitos em Cascata
A secção sobre crises que "interagem entre si de forma não linear" bebe diretamente da literatura sociológica contemporânea.
  • Adam Tooze (Historiador e Economista): Popularizou o termo "Policrise" para descrever como a crise climática, a geopolítica, a inflação e as pandemias já não são eventos isolados, mas uma rede interligada onde um choque amplifica o outro.

  • Thomas Homer-Dixon (Artigos sobre Complex Systems and Cascading Regimes): Investigador que estuda como o stress ecológico interage com o stress económico e político, levando ao colapso ou à necessidade de resiliência sistémica.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Viver de créditos de biodiversidade ou aprender a viver com o capital natural?


Fala-se cada vez mais de créditos de biodiversidade.

E ainda bem que se fala de biodiversidade, de financiamento da natureza e de novos instrumentos para valorizar aquilo que durante décadas foi tratado como gratuito, invisível ou inesgotável.

Mas há uma palavra que me inquieta: 𝗰𝗿𝗲́𝗱𝗶𝘁𝗼

Na economia, viver a crédito significa muitas vezes usar hoje valor que ainda não temos, empurrando para amanhã uma responsabilidade que não desaparece.

Na biodiversidade, o risco é parecido: convencermo-nos de que podemos degradar aqui, compensar ali, comprar mais tarde, certificar depois. Mas a natureza não é uma folha de cálculo tão obediente.

Um carvalhal maduro, uma linha de água funcional, um solo vivo, uma comunidade de polinizadores, um sapal, uma sebe antiga ou uma árvore urbana adulta não se recriam por transferência bancária. Não são apenas “unidades” substituíveis. 𝗦𝗮̃𝗼 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗮𝗰𝘂𝗺𝘂𝗹𝗮𝗱𝗼, 𝗿𝗲𝗹𝗮𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗲𝗰𝗼𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮𝘀, 𝗺𝗲𝗺𝗼́𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝘁𝗲𝗿𝗿𝗶𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼, 𝗰𝗮𝗽𝗶𝘁𝗮𝗹 𝘃𝗶𝘃𝗼.

Talvez por isso eu goste mais de outra metáfora financeira: não o crédito, mas a conta-poupança.

Gerir biodiversidade devia começar por aquilo que já temos. Conhecer o nosso património natural, medir o seu estado, evitar perdas, restaurar funções ecológicas, aumentar resiliência, reinvestir nos sistemas vivos que sustentam água, solo, alimento, conforto térmico, paisagem e bem-estar.

Ou seja: antes de perguntar “quantos créditos posso comprar?”, talvez devêssemos perguntar, que capital natural tenho, como o estou a gerir, que juros ecológicos me está a devolver e que dívida estou a deixar ao território?

Os créditos de biodiversidade podem vir a ter um papel, se forem rigorosos, transparentes, adicionais, auditáveis e não servirem para legitimar destruição. A própria Comissão Europeia tem vindo a enquadrá-los como instrumentos para mobilizar investimento privado em acções positivas para a natureza, e não como licença para degradar. 

Mas talvez a grande mudança cultural não esteja em criar mais um mercado.
Talvez esteja em perceber que a biodiversidade não é uma despesa ambiental: é património produtivo, infraestrutura natural e capital territorial.

E que, antes de viver a crédito, é melhor aprender a viver com o que temos.
Porque na natureza, ao contrário da banca, quando o capital se perde… nem sempre há refinanciamento possível.

Referências bibliográficas:
  1. Não é só biomassa: preservar a biodiversidade das florestas é urgente e essencial para sua manutenção e também para a resiliência climática
  2. O potencial dos créditos de biodiversidade
  3. Contributos para o estudo do Direito da protecção da biodiversidade
  4. Designing a biodiversity credit accounting framework for environmental investment and financing
  5. Relatório OCDE (2025) - Scaling Up Biodiversity‑ Positive Incentives
  6. Biodiversity credits: Concepts, principles, transactions and challenges
Livros
  1. Cristina Chaves et al (2023)- Economia do Ambiente - conceitos e desenvolvimentos
  2. Field, Barry C.; Field, Martha K (2002)- Environmental Economics – An Introduction , McGraw-Hill(3rd ed.)
  3. Georgescu-Roegen, N. (1971) - The Entropy Law e the Economic Process, Harvard Universidade Press.
  4. Georgescu-Roegen, N. (1977) - Matter matters too‘, in: Wilson, K. D. (ed.), Prospect for Growth: changing expectações for the future, Praeger, New York.
  5. Joan Martínez Alier (1999) - Introduccio A L'Economia Ecologica
  6. Karl Polanyi (1944) A Grande Transformação 
  7. Pearce, David W.; Turner, R. Kerry (1990)- Economics of Natural Resources and the Environment, Harvester Wheatsheaf

terça-feira, 26 de maio de 2026

Could nature itself hold the solution to climate change?


In 2019, my scientific research was nearly brought to an early end when my team and I published the bombastic statement that natural forest restoration was the “best climate change solution” available in a paper for the peer-reviewed journal Science.

I remember a colleague from the World Wildlife Fund advising me that this message represented career suicide. He argued that people would be furious because reducing greenhouse gas emissions was the most urgent priority. The revival of nature might help with 30% of our carbon drawdown needs, but you cannot stop rising temperatures without cutting emissions.

I agreed both then and now. However, I explained that when we referred to the “best” solution, we didn’t simply mean the one with the largest impact in terms of CO2; we meant the best option for improving the livelihoods and wellbeing of people, too. And that, as we shall see, plays a crucial role in magnifying the beneficial effect.

Many people believe the scale of the climate challenge calls for immense technological innovation, geoengineering, or the transformation of our economy. But with these solutions there are often painful trade-offs. Almost every technological or geoengineering fix you can imagine comes at the expense of something else.

Stratospheric aerosol injection is one example. Creating clouds of reflective particles could block the sun and cool the land below. But alterations in sunlight and rainfall patterns could disrupt the growth of the crops we depend on for food. Similarly, direct air carbon capture has incredible potential to remove C02, but the huge financial and energy costs currently stand in the way of deploying it at the scale we need.

There is one set of solutions, however, that present no trade-off at all when they are done right. The restoration of natural habitats like forests is an exception in our climate toolkit because it draws on the same network of connections that allowed life to flourish in the first place.

The resilience of the natural world comes from ancient, underappreciated forces known as feedback loops. A positive feedback loop occurs when the outcome of a process has an effect that amplifies the process itself. You can see these patterns all the time in different aspects of life: for example whenever your anxiety about sleeping makes it harder to drift off.

Around 3.8bn to 4.2bn years ago, feedback loops allowed life to spread on an otherwise toxic and uninhabitable planet: Earth. As life gained a foothold, it began to transform the environment, making it hospitable to more life. Species emerged that generated opportunities for even more species. This self-reinforcing process created the Eden that allowed our own species to thrive, as well as providing every ounce of food, oxygen, timber, medicine and fuel we have ever needed.

But as we are all aware, the success of our species has initiated new feedback loops. The exploitation of natural resources by human beings has allowed population growth that has driven even more exploitation, which has warmed the planet, causing carbon to be released from the soil, driving more warming. As forests dry out, they are able to store less moisture, which causes more drying. Many loops such as this are now in motion, threatening to tip our planet into an entirely new state.

If we can work with nature’s feedback loops rather than distorting them, we can reap the benefits of their self-sustaining momentum

But just as feedback loops can cause damage, they can be harnessed as a pathway to recovery. They are not objectively good or bad: they are simply agents of change. If we can work with nature’s feedback loops rather than distorting them, we can reap the benefits of their self-sustaining momentum.

In Argentina’s Iberá national park, you can see a stunning example of runaway revival. After decades of degradation, the reintroduction of jaguars has reduced bloated herds of grazing herbivores, allowing wetland plants to recover. The plants’ roots trap moisture in the soil, and their branches provide a habitat for species that make this one of the most spectacular wetlands – and carbon sinks – on the planet. After just a few years, caimans now bask on the banks, macaws flash scarlet across the sky and giant otters patrol the waterways.

Of course, nature-based solutions are not always so successful. Companies have created vast carbon farms via monocultural tree planting, destroying native species in the process. The drying of peatlands to reduce methane production leads to the release of huge amounts of CO2. Nature’s power lies in its complexity, so attempting to simplify or reengineer the system often backfires.

The risks and trade-offs tend to disappear, though, when you get one vital part of the equation right. Time and again, when the revival of local biodiversity improves the livelihoods and wellbeing of local people, change becomes truly sustainable. Whenever people are intrinsically motivated to protect the environment around them, they become an integrated part of a natural feedback loop that can quickly gather momentum.

In the Iberá wetlands example, ecotourism became the engine of a new “restoration economy” employing rangers, chefs, hosts, wildlife trackers and guides. There are hundreds of such examples around the world: in Saseri, northern India, strategic soil management and tree restoration is trapping water to improve the yields of more than 1,200 farmers. A thousand kilometres to the south-west, in Gujarat, Indigenous women are restoring mangroves to protect 12 coastal villages from erosion while simultaneously improving the productivity of fisheries, crops and livestock.

What these and countless other projects illustrate is that we do not need remarkable innovation or great sacrifice to move things forward. We just need to allow a tiny fraction of our collective attention and wealth (perhaps less than 1% of global GDP) to flow towards these rural land stewards, supporting their ongoing efforts. Cumulatively, they result in hundreds of millions of tons of C02 captured – but that is only the beginning of their potential impact.

The more degraded nature becomes, the more desperately we need it. When nature starts to bounce back, it doesn’t only provide livelihoods, food security and carbon storage; it revives the hope, joy and inspiration that our species so desperately needs at this critical moment in time. Though they might seem beside the point, these emotional reactions are the lifeblood of nature restoration, with the potential to generate their own feedback loops, far into the future.

Prof Thomas Crowther is an ecologist and author of Nature’s Echo (Torva). He is Founder of Restor.eco, a non-profit platform for nature restoration sites

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O legado ambiental de Ted Turner


Ted Turner é frequentemente recordado como o magnata da comunicação que fundou a CNN, mas o seu impacto mais duradouro reside na escala colossal da sua filantropia e conservação ambiental. Ele não se limitou a doar dinheiro; transformou a forma como os grandes detentores de capital (bilionários) encaram a responsabilidade ecológica, integrando a preservação da natureza na gestão de grandes ativos.
Um dos pilares centrais do seu legado foi a histórica promessa, em 1997, de doar mil milhões de dólares para criar a Fundação das Nações Unidas. Esta iniciativa foi pioneira ao direcionar recursos privados para causas globais, com um foco acentuado na mitigação das alterações climáticas, na promoção de energias limpas e na proteção da biodiversidade, forçando a filantropia internacional a pensar de forma sistémica e transfronteiriça.
No terreno, Turner utilizou a sua vasta propriedade de terras — chegou a ser o maior latifundiário privado dos Estados Unidos — para implementar o que designou como "capitalismo sustentável". O exemplo mais emblemático deste esforço é a recuperação do bisão americano. Através das suas herdades, Turner geriu o maior rebanho privado do mundo, retirando a espécie do limiar da extinção e restaurando o equilíbrio ecológico das Grandes Planícies. Através do Turner Endangered Species Fund, financiou também a reintrodução de predadores e espécies nativas, provando que a exploração económica da terra pode coexistir com a conservação rigorosa.
Além da ação direta, Turner compreendeu o poder da narrativa. Ao co-criar a série de animação Capitão Planeta, educou uma geração sobre a importância da ecologia. Utilizou ainda o seu império mediático para dar palco a documentários e debates ambientais numa época em que o tema era ignorado pelo grande público. Para Ted Turner, a proteção do meio ambiente sempre esteve ligada à segurança global, levando-o a investir também no desarmamento nuclear como forma de prevenir o desastre ecológico definitivo. O seu legado é o de um visionário que transformou a figura do empresário na de um guardião do ecossistema.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Mais de 40 organizações pedem apoio do Brasil a resolução da ONU sobre clima


Mais de 40 organizações da sociedade civil, incluindo a Conectas Direitos Humanos, enviaram uma carta ao governo brasileiro pedindo apoio à resolução de acompanhamento da Opinião Consultiva do Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) sobre as obrigações dos Estados diante da crise climática. A proposta será discutida na Assembleia Geral das Nações Unidas em 22 de abril.

A iniciativa é liderada por Vanuatu, com apoio de um grupo inter-regional de países, e busca transformar o parecer jurídico da corte em ações concretas de cooperação internacional, incluindo transição justa para longe dos combustíveis fósseis, adaptação climática e respostas a perdas e danos.

A carta foi enviada ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e à ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. As organizações pedem que o país participe das negociações e apoie a adoção de uma resolução ambiciosa.

Link para o documento na íntegra (PDF): Carta à Missão Brasileira na ONU - TIJ e Crise Climática

segunda-feira, 23 de março de 2026

Dia Mundial do Urso

Ver com mais detalhe aqui
O seu regresso reflete a capacidade da natureza para recuperar e mostra a necessidade de trabalhar ativamente na forma como as pessoas e a vida selvagem partilham o espaço.

Os ursos pardos ajudam a moldar as paisagens, dispersando sementes, reciclando nutrientes e sustentando uma vasta gama de espécies. A sua presença destaca a importância de paisagens conectadas e funcionais.

Nas nossas paisagens de rewilding, as equipas estão a trabalhar com as comunidades para apoiar o regresso dos ursos de formas que tornem a partilha do espaço mais possível. Estas incluem medidas práticas para reduzir os danos, melhorar a sensibilização, ligar habitats e apoiar economias baseadas na natureza e ligadas à presença da vida selvagem. Saiba mais aqui


Saber mais
World Bear Day

quinta-feira, 19 de março de 2026

A Convergência e Divergência entre Bioeconomia e Economia Ecológica


A transição global para um modelo de desenvolvimento sustentável exige uma reavaliação fundamental da forma como produzimos, consumimos e interagimos com o meio ambiente. Neste cenário, emergem duas abordagens distintas, embora interligadas, que procuram reformular a relação entre a economia e a natureza: a Bioeconomia e a Economia Ecológica. Embora partilhem o objetivo comum de reduzir o impacto ambiental, as suas premissas filosóficas, focos de intervenção e visões sobre o crescimento divergem significativamente, oferecendo caminhos que podem ser complementares, mas também conflituosos.

A Visão da Bioeconomia: Substituição e Eficiência Tecnológica
A Bioeconomia centra-se na substituição de recursos de origem fóssil e de processos industriais intensivos em carbono por alternativas de base biológica. O conceito evoluiu de um foco inicial na biotecnologia para uma visão mais abrangente, que inclui a produção sustentável de biomassa e a sua conversão em produtos de valor acrescentado (alimentos, bioprodutos e bioenergia).

A premissa fundamental da Bioeconomia é que a inovação tecnológica pode promover o "desacoplamento" (decoupling) entre o crescimento económico e a degradação ambiental. Procura-se a eficiência através da utilização da biomassa em cascata, onde cada componente do recurso é aproveitado, aproximando-se dos princípios da economia circular. Nesta ótica, a natureza é frequentemente vista como uma fornecedora de serviços e matérias-primas, enfatizando-se a criação de novos mercados.

A Perspetiva da Economia Ecológica: Limites e Escala Biofísica
Por outro lado, a Economia Ecológica parte do princípio de que a economia é um subsistema de uma biosfera finita e ecologicamente restrita. Esta disciplina não se foca apenas na eficiência, mas sobretudo na escala da atividade económica e na justiça distributiva. Fundamentada nas leis da termodinâmica, a Economia Ecológica argumenta que o crescimento económico perpétuo é impossível num planeta com recursos finitos e capacidade limitada de absorção de resíduos.

O foco não reside apenas em substituir o petróleo, mas em reduzir o "metabolismo social" — o fluxo total de energia e materiais que atravessa a economia. Esta abordagem reconhece o valor intrínseco da natureza e a necessidade de manter a resiliência dos ecossistemas. Para os economistas ecológicos, a sustentabilidade exige limitar o consumo e garantir que as atividades humanas não ultrapassam as fronteiras planetárias.

Pontos de Tensão e Síntese Necessária
As tensões surgem principalmente em torno do crescimento económico. Enquanto a Bioeconomia se alinha com o "Crescimento Verde", a Economia Ecológica é mais cética, defendendo frequentemente o "Decréscimo" (degrowth) ou uma "Economia de Estado Estacionário". Outro ponto de atrito é a visão da natureza: a Bioeconomia pode tender a instrumentalizá-la, enquanto a Economia Ecológica defende a sua preservação para além da utilidade económica.

Concluindo, estas duas correntes não devem ser vistas como mutuamente exclusivas. A Bioeconomia oferece as ferramentas tecnológicas para uma produção mais limpa, enquanto a Economia Ecológica fornece a estrutura macroeconómica e ética necessária para garantir que tais tecnologias sejam aplicadas dentro de limites seguros. A convergência para uma "Bioeconomia Ecologicamente Orientada" poderá ser o caminho mais robusto para uma verdadeira sustentabilidade.

CaracterísticaBioeconomiaEconomia Ecológica
Foco PrincipalSubstituição de recursos fósseis por biológicos (biomassa).Sustentabilidade biofísica e justiça social.
Visão da NaturezaFonte de matéria-prima e motor de inovação tecnológica.Ecossistema complexo que limita e sustenta a economia.
Solução PropostaBiotecnologia, biorrefinarias e novos mercados verdes.Redução da escala económica e respeito pelos limites planetários.
Relação com o PIBProcura o "Crescimento Verde".Defende frequentemente o "Decréscimo" ou o "Pós-crescimento".
Métrica de SucessoEficiência na conversão de recursos e lucro sustentável.Manutenção do capital natural e equidade distributiva.
Referências Bibliográficas 
  1. Bugge, M. M., Hansen, T., & Klitkou, A. (2016). What is the bioeconomy? A review of the literature. Sustainability, 8(7), 691.
  2. Daly, H. E., & Farley, J. (2011). Ecological Economics: Principles and Applications. Island Press.
  3. Georgescu-Roegen, N. (1971). The Entropy Law and the Economic Process. Harvard University Press.
  4. Kenneth Boulding (1966) - The Economics of the Coming Spaceship Earth
  5. Martinez-Alier, J. (2002). The Environmentalism of the Poor: A Study of Ecological Conflicts and Valuation. Edward Elgar Publishing.
  6. OECD (2009). The Bioeconomy to 2030: Designing a Policy Agenda. OECD Publishing.
  7. Vivien, F. D., Nieddu, M., Befort, N., Debref, R., & Giampietro, M. (2019). The hijacking of the bioeconomy predictions by the biotechnology narrative. Ecological Economics, 159, 189-197.