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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Quercus exige avaliação ambiental conjunta dos centros de dados de Abrantes

A Quercus considerou hoje que os dois centros de dados previstos para o município de Abrantes poderão consumir anualmente quase 19 vezes mais eletricidade do que o concelho e exigiu estudos de impacte ambiental para os projetos.

Em comunicado, a associação ambientalista manifesta preocupação com a construção de um segundo centro de dados no concelho, junto à rotunda de Alvega, alertando que a coexistência com o empreendimento já previsto para os terrenos da antiga central termoelétrica do Pego levanta questões sobre os impactes ambientais cumulativos.

“Trata-se de um empreendimento, por si só, excessivo para o território que pretende ocupar, com potenciais impactos ambientais, hídricos e territoriais”, afirma a Quercus, referindo-se a um projeto promovido pelo grupo Hyperion e defendendo a realização de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) antes de qualquer eventual licenciamento.

O projeto da Hyperion prevê cerca de 151 mil metros quadrados de área de implantação, 287 mil metros quadrados de área de construção e uma ligação elétrica de 200 megavolt-amperes (MVA).

Este centro de dados, o segundo previsto para o concelho de Abrantes, no distrito de Santarém, foi objeto em maio deste ano de uma pronúncia favorável do município, no âmbito de um Pedido de Informação Prévia, não estando então ainda em causa a aprovação definitiva do projeto.

Por sua vez, a Hyperion indicou à Lusa que o empreendimento estava em fase de licenciamento e previu uma entrada em funcionamento em 2029.

Está previsto também outro centro de dados de grande dimensão, promovido pela empresa EDC ONE, nos terrenos da antiga central termoelétrica do Pego, com uma potência anunciada de 300 megawatts (MW), enquanto o projeto da Hyperion prevê 20 MW.

No caso do projeto do Pego, a Câmara de Abrantes declarou o investimento de interesse municipal em setembro de 2025 e aprovou isenções de impostos (IMI, IMT e Derrama) no valor global de 16,2 milhões de euros.

O empreendimento prevê um investimento de sete mil milhões de euros e a criação de 450 postos de trabalho diretos e 700 indiretos até 2030.

“A coexistência de dois projetos desta magnitude no mesmo concelho, ambos dependentes do ponto de ligação à rede na Central do Pego, levanta questões de impactes cumulativos, ao nível do consumo e contaminação de recursos naturais, da pressão sobre solos agrícolas e florestais, e da alteração da paisagem e do ordenamento territorial”, alerta a Quercus.

A nível energético, a associação ambientalista estima que, “num cenário conservador de utilização” média de 30% da potência instalada, o consumo conjunto dos dois centros será de cerca de 841 gigawatts-hora (GWh) por ano, “aproximadamente 5,7 vezes o consumo anual de eletricidade do concelho de Abrantes em 2024”.

“À plena capacidade, o consumo poderá atingir cerca de 2,8 TWh/ano [terawatts-hora], correspondente a quase 19 vezes o consumo anual atual do concelho”, apontam.

Por outro lado, a Quercus alerta igualmente para o consumo intensivo de água dos centros de dados, considerando particularmente preocupante a instalação destas infraestruturas num território sujeito a pressão sobre os recursos hídricos.

“É precisamente neste contexto de recursos hídricos já sob pressão que se pretende instalar mais uma infraestrutura industrial de consumo intensivo de água”, critica, citando o diagnóstico da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para o período 2028-2033, que aponta para um índice de escassez hídrica de 40% no rio Tejo.

Nesse sentido, os ambientalistas exigem a realização de um EIA que avalie conjuntamente os impactos dos dois projetos nos recursos hídricos e na rede elétrica regional, o aumento da temperatura local, áreas agrícolas e florestais e poluição hídrica e sonora, antes que seja emitido um parecer favorável.

“As metas de transição digital e energética não podem atropelar a salvaguarda ambiental e o ordenamento do território”, sustentam.

A Quercus pretende também que seja reavaliada a dimensão territorial da Zona Livre Tecnológica de energias renováveis de Abrantes, alegando que esta abrange mais de metade do concelho.

A regulamentação da Zona Livre Tecnológica de Abrantes foi aprovada em março e destina-se a projetos de investigação, desenvolvimento e inovação relacionados com a produção, o armazenamento e o autoconsumo de eletricidade proveniente de fontes renováveis.

O comunicado da Quercus não inclui reações da Câmara Municipal de Abrantes, das empresas promotoras, da Agência Portuguesa do Ambiente ou da CCDR de Lisboa e Vale do Tejo às preocupações agora apresentadas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A bolha da inteligência artificial vai mesmo rebentar? O alerta do BCE e o dilema das gigantes de tecnologia


Há meses que os peritos e analistas do ecossistema tecnológico avisam que a bolha da Inteligência Artificial está prestes a rebentar. Contudo, olhando para a disparidade entre o investimento e o retorno financeiro real, torna-se evidente que o mercado já entrou numa fase clara de desaceleração e reajuste.

A narrativa de que mesmo empresas consolidadas como a Google enfrentam dificuldades em rentabilizar a IA reflete um problema estrutural no setor. Embora seja um mito que a Alphabet (dona da Google) tenha registado prejuízos trimestrais globais - mantendo-se como uma das empresas mais lucrativas do mundo -, a verdade é que os custos de infraestrutura exigidos pela IA generativa estão a pressionar fortemente as margens de lucro de todas as gigantes tecnológicas.

A matemática por trás desta crise de expectativas é simples. Estima-se que tenham sido investidos mais de 2 triliões de dólares à escala global em centros de dados, processadores e modelos de linguagem. No entanto, as receitas diretas geradas por serviços de IA permanecem numa fração muito reduzida desse valor. O investimento em capital (Capex) para infraestrutura de IA (centros de dados, energia e chips) ascende a centenas de milhares de milhões de dólares, enquanto as receitas diretas geradas por subscrições e APIs ainda crescem a um ritmo muito mais lento. Processar uma pesquisa ou tarefa através de um modelo de linguagem avançado custa substancialmente mais do que uma pesquisa tradicional na web, o que pressiona as margens de lucro mesmo com uma adoção massiva por parte dos utilizadores. À medida que as empresas tentam integrar estas ferramentas nos ecossistemas empresariais e nos smartphones, a pergunta impõe-se: quem vai pagar a conta a longo prazo?

A Nvidia continua a registar receitas recorde. No entanto, a sua rentabilidade a longo prazo depende diretamente de os seus clientes (Microsoft, Alphabet, Meta, Amazon) encontrarem modelos de negócio sustentáveis para rentabilizar essa capacidade computacional.

Esta incerteza operacional começou a ecoar nas instâncias reguladoras internacionais. Num relatório assinado por investigadores do Banco Central Europeu, a instituição emitiu um aviso formal sobre o risco de uma correção severa nos mercados acionistas dos Estados Unidos. O BCE traça um paralelo direto com anteriores expansões tecnológicas - como a bolha dot-com do final dos anos 90 ou o boom ferroviário do século XIX -, sublinhando que as atuais avaliações de mercado em Wall Street estão muito próximas de picos históricos irrealistas.

O grande perigo assinalado pelo regulador europeu reside no efeito de contágio sistémico. Embora a adoção da IA na Zona Euro seja mais moderada, os cidadãos e as instituições europeias têm uma exposição estimada em mais de 440 mil milhões de euros em ações tecnológicas norte-americanas através de fundos de pensões, seguradoras e instrumentos de poupança. Se a bolha rebentar em Nova Iorque, o impacto financeiro será sentido de forma direta na economia real do continente europeu.

Concluindo, a situação atual não significa o fim da Inteligência Artificial enquanto tecnologia transformadora, da mesma forma que o colapso do ano 2000 não destruiu a Internet. O mercado está sim a atravessar uma transição inevitável: o fim do capital especulativo ilimitado e a entrada numa fase de disciplina financeira, onde apenas as empresas capazes de demonstrar utilidade real e modelos de negócio rentáveis conseguirão sobreviver.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O Telhado Chegava

Ricardo Meireles
No dia 28 de Abril de 2025, ao princípio da tarde, a Península Ibérica apagou-se em cinco segundos. Tenho familiares que nesse dia estavam debaixo de um telhado coberto de painéis, pagos à EDP, com o inversor de corrente instalado e a funcionar. O sol caía em cima da casa, os painéis absorviam a energia toda, e essa energia ia parar a lado nenhum. Nem uma luz se acendia lá dentro.

No mesmo dia, um casal amigo, a Alice e o André, que há muitos anos exploram com persistência os modos de vida mais resilientes, publicava numa rede social que o sol e umas baterias de chumbo compradas a preço acessível lhes estavam a dar a energia toda de que precisam para a vida frugal que com orgulho vão mostrando. O post recebeu uma série de comentários depreciativos. Entre eles, o argumento de que é muito fácil para quem tem terreno. Os painéis deles estão no telhado. Curioso.

Duas casas portuguesas, o mesmo sol, o mesmo dia. Numa, o investimento grande, o contrato com a empresa, a escuridão. Na outra, os painéis apoiados pelas baterias de chumbo e a luz acesa. A explicação técnica é simples: os sistemas ligados à rede desligam o inversor quando a rede cai, por segurança de quem repara as linhas, e os painéis ficam inúteis exactamente no momento em que fariam mais falta. O sistema foi desenhado para que os painéis sirvam a rede primeiro e a família depois. No dia em que a rede caiu, ficou claro quem serve quem.

A história por trás da explicação técnica é a de como um país desenhou, e depois desmontou, a hipótese de uma energia democrática.

Em 2007 a política energética portuguesa promovia a microprodução doméstica: instalava-se, ligava-se à rede, vendia-se tudo a uma tarifa bonificada, calculada de maneira a que o investimento se pagasse a si próprio. Milhares de famílias fizeram as contas, pediram crédito e ousaram subir ao telhado. E a área chegava. Chega ainda. João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Nova e ligado ao partido do Governo (PSD), resume o que os estudos dizem: “no edificado doméstico e de serviços português, temos área suficiente para produzir duas a três vezes o consumo das famílias e dessas empresas”. Três vezes. Sobre o caminho que se seguiu em vez desse: “Isto é uma iniquidade e um erro estratégico. Devíamos ter um metro descentralizado por cada metro centralizado.”

Um país com área construída para o triplo do que consome em casa reservou 456 mil hectares de solo rústico para centrais de escala. Entre uma frase e a outra há uma distância. Este texto é sobre a maneira como ela se foi abrindo. Ler texto completo aqui

Minha Análise
Caro Ricardo,
O teu texto é de uma lucidez e sensibilidade raras, porque consegue desmontar a narrativa oficial da transição verde a partir da realidade concreta da terra, da fatura das famílias e da própria física dos sistemas. A imagem do apagão - o contraste entre as casas conectadas à rede que ficaram às escuras e a resiliência simples da casa off-grid - resume com precisão a grande contradição do nosso tempo. O sistema não foi desenhado para dar autonomia aos cidadãos, mas para canalizar fluxos de capital e garantir o abastecimento de grandes atores.
Subscrevo por inteiro a tua crítica à ocupação de 456 mil hectares de solo rústico quando temos telhados e zonas impermeabilizadas de sobra. Ainda assim, a leitura do teu artigo faz-me pensar em alguns pontos que tornam esta equação ainda mais perversa e que reforçam a gravidade do que está a acontecer com o PSZAER.
Em primeiro lugar, há a questão do próprio consumidor que investe no telhado. Não se trata apenas de o inversor desligar por razões de segurança da rede; trata-se de um enquadramento regulatório que desincentiva ativamente a instalação de sistemas híbridos com comutação automática. A regulamentação e as exigências técnicas da DGEG e da ERSE foram construídas de tal forma que amarram o cidadão à infraestrutura central. Quem tenta criar a sua própria resiliência com armazenamento encontra barreiras burocráticas e custos acrescidos. Pagas o equipamento, mas a regra do jogo impede-te de usar a tua própria energia quando a rede falha.
Depois, há um lado de usurpação do planeamento local que o PSZAER concretiza sem rodeios. Ao transformar vastas manchas de solo rústico em zonas de aceleração, o poder central passa por cima dos Planos Diretores Municipais e da vontade das comunidades locais. Isto gera uma pressão especulativa brutal no campo: o pequeno agricultor ou quem está no terreno a tentar regenerar a terra com técnicas agroecológicas simplesmente não consegue competir com as rendas anuais por hectare oferecidas pelas multinacionais da energia. O programa não está apenas a disputar espaço ao eucaliptal; está a bloquear ativamente a regeneração e a soberania alimentar.
Outra grande contradição que se esconde por trás desses 456 mil hectares é a própria incapacidade física da rede elétrica nacional para absorver tanta energia sem armazenamento em grande escala. Nos dias de pico solar, o excesso de oferta sem capacidade de rede vai inevitavelmente conduzir ao corte forçado de produção, o chamado curtailment. Ou seja, vamos ver ecossistemas destruídos e solos selados para instalar painéis que, em vários momentos do ano, terão de ser desligados porque não há onde meter a eletricidade. E a ineficiência deste modelo acabará, como sempre, refletida na tarifa de uso da rede paga por todos nós.
Ao mesmo tempo, ao extrativismo energético para alimentar os data centers de Sines e a inteligência artificial do outro lado do Atlântico junta-se uma pegada hídrica da qual quase não se fala. Estes grandes agregados de servidores exigem volumes gigantescos de água para os seus sistemas de arrefecimento. Numa região do país estruturalmente fustigada pela seca, estamos a entregar o solo para a produção fotovoltaica e os aquíferos para arrefecer máquinas, tudo para processar dados que não deixam valor real no território que os acolhe.
No fundo, aquilo que o teu ensaio expõe brilhantemente é que a transição energética em curso não é uma transição de paradigma, mas apenas uma transição de combustível. Mantém-se a mesma lógica centralizadora, extrativista e colonizadora do território, trocando o carvão e o gás por hectares de silicone, e sacrificando a esponja viva do húmus em nome do consumo ilimitado das metrópoles e das grandes tecnológicas. Obrigado por pores em palavras aquilo que a terra e quem trabalha nela já sentem há muito tempo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Inteligência Artificial e água: a fatura invisível


Tendemos a ver o armazenamento em “nuvem” como um conceito abstrato. Mas cada pergunta que fazemos a um assistente de inteligência artificial (IA) depende de uma estrutura física concreta: um centro de dados onde milhares de servidores trabalham sem interrupção, aquecem e precisam de ser arrefecidos. E, na maioria dos casos, esse arrefecimento faz-se com água que evapora em torres de arrefecimento e não regressa ao sistema. À pegada direta soma-se a indireta: a água consumida na produção da eletricidade que alimenta estas infraestruturas e no fabrico dos chips que as equipam.

Os números começam a ser conhecidos e não são tranquilizadores. Investigadores da Universidade da Califórnia estimaram que o treino do modelo GPT-3 terá evaporado cerca de 700 mil litros de água doce apenas nos centros de dados norte-americanos da Microsoft, e que uma conversa de 10 a 50 interações com um destes modelos consome, em média, o equivalente a uma garrafa de meio litro de água. O mesmo estudo, publicado na Communications of the ACM ("Making AI Less 'Thirsty': Uncovering and Addressing the Environmental Footprint of AI Models"), projeta que a procura global de IA possa representar, já em 2027, uma captação de água entre 4,2 e 6,6 mil milhões de metros cúbicos por ano. É certo que são estimativas, mas a falta de transparência das empresas tecnológicas quanto aos seus consumos reais é, em si mesma, parte do problema.

Poderíamos pensar que esta é uma preocupação distante, já que quase metade dos centros de dados de todo o mundo se localizam nos Estados Unidos, parte deles em áreas desérticas ou semidesérticas. Não é. Portugal está a posicionar-se agressivamente como destino europeu para esta indústria e fá-lo quando grande parte do território do continente vive em situação de escassez hídrica estrutural. O índice de escassez WEI+ para Portugal continental subiu para 34% no período 1989-2015, atingindo 74% na região hidrográfica do Sado e Mira e 66% nas Ribeiras do Algarve, existindo ainda o risco de perdermos 30 a 40% da disponibilidade das nossas massas de água até 2050, num contexto de redução de 25% da precipitação face aos valores históricos (dados do Relatório do Estado do Ambiente / APA). É neste país que decidimos instalar infraestruturas que funcionam 24 horas por dia e cuja sede de água e energia cresce ao ritmo da procura de IA.

O caso de Sines é paradigmático e, em parte, um exemplo a reter. O mega-campus de data-centers em desenvolvimento na antiga zona da central termoelétrica, que poderá atingir 1,2 GW de capacidade, foi desenhado para arrefecer os servidores com água do mar, reaproveitando os canais de captação e devolução da antiga central, sem consumo evaporativo de água doce nos processos de arrefecimento. De acordo com o estudo de impacte ambiental, o consumo de água potável do campus completo ficará limitado a usos humanos (cerca de 275 m³/dia), quando um centro de dados convencional de dimensão equivalente poderia consumir mais de mil milhões de litros de água por mês em arrefecimento, o equivalente a quase 50 mil famílias. A diferença entre uma solução e outra é abissal e demonstra que as escolhas de projeto e de localização importam, e muito. Ainda assim, importa não esquecer que a própria utilização de água do mar tem impactes que não podem ser desvalorizados, desde a afetação de organismos marinhos na captação à devolução de salmoura e de água a temperatura mais elevada, e que exigem avaliação, monitorização e minimização rigorosas.

Mas seria um erro descansar sobre este exemplo. Primeiro, porque o litígio que hoje opõe a EDP ao Estado quanto à titularidade das infraestruturas de captação de água do mar em Sines mostra como estas soluções dependem de condições muito específicas, dificilmente replicáveis noutros pontos do território. Segundo, porque a corrida aos centros de dados não se esgota em Sines, multiplicam-se projetos e intenções de investimento por todo o país, incluindo em regiões onde não há mar por perto nem folga hídrica para acomodar novos consumos. Terceiro, porque a pressão sobre a água de todo o conjunto dos projetos de interesse nacional previstos para a zona industrial de Sines representa uma necessidade agregada de água doce na ordem dos 10 hectómetros cúbicos por ano, equivalente ao consumo de um concelho de média dimensão, numa região servida por albufeiras que já abastecem populações e regadio em expansão.

Já não é possível defender um regresso a um mundo sem inteligência artificial, sendo necessário reconhecer o seu potencial em áreas como a gestão da água, desde a deteção de perdas nas redes e a otimização do regadio até à modelação hidrológica que suporta os Planos de Gestão de Região Hidrográfica. No entanto, é essencial assegurar que o desenvolvimento da IA decorra dentro dos limites planetários, respeitando a disponibilidade de recursos naturais, nomeadamente energia, água e matérias-primas, e garantindo que os seus benefícios sociais e ambientais superam os impactos da infraestrutura que a suporta. E isso tem tradução concreta na política da água.

Desde logo, transparência: os consumos de água (e energia) dos centros de dados devem ser públicos, medidos e reportados, instalação a instalação, e não escondidos atrás de médias corporativas ou de segredos comerciais. Depois, planeamento: a decisão sobre onde instalar estas infraestruturas tem de estar subordinada aos balanços hídricos regionais e aos Planos de Gestão de Região Hidrográfica, cujo 4.º ciclo (2028-2033) está em preparação e não pode ignorar esta nova categoria de utilizadores, privilegiando localizações com soluções de arrefecimento sem consumo de água doce, como a água do mar ou circuitos fechados, e o recurso a águas residuais tratadas em vez de água potável. Importa, contudo, ressalvar que o recurso à água do mar e, em particular, a dessalinizada não é isento de impactes, pelo que estas soluções devem ser sujeitas a avaliação de impacte ambiental exigente, sem nunca substituírem a prioridade que deve ser dada à eficiência e à necessidade de redução da procura. A recente Estratégia Europeia para a Resiliência Hídrica, que aponta para uma melhoria de pelo menos 10% na eficiência hídrica na União Europeia até 2030, deve ser o referencial mínimo. Finalmente, hierarquia de usos: em situação de seca, o abastecimento humano e os ecossistemas têm prioridade, e os títulos de utilização de recursos hídricos atribuídos a estas infraestruturas devem prever, desde o licenciamento, mecanismos de redução e contingência, tal como se exige a outros setores.

A água que os nossos rios e aquíferos já não garantem em cada verão não pode ser hipotecada a uma indústria que cresce mais depressa do que a nossa capacidade de a planear. Portugal tem uma oportunidade real de acolher a economia digital pela via certa, mas só o fará se a política da água deixar de correr atrás dos investimentos e passar a estar, de uma vez por todas, à frente deles.

Saber mais
Iniciativa da UE para Resiliência Hídrica:


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

China morde os calcanhares dos EUA na corrida à IA. "A questão é quanto tempo é que esta liderança se vai manter"

A estratégia está longe de ser de agora. Começou há duas décadas e está a dar cada vez mais frutos. Só no último mês, multiplicaram-se as notícias de que a China ocupa o lugar cimeiro numa série de setores de Investigação & Desenvolvimento, da produção de chips avançados ao registo de patentes, da exploração espacial à matemática.

O desenvolvimento científico e tecnológico tem sido de tal forma que, numa sondagem do Pew Research publicada no mês passado, um número recorde de norte-americanos considerou que o líder global em Inteligência Artificial (IA) é a China e não os EUA, com mais de um terço dos inquiridos a considerar isso mesmo, contra apenas 12% que consideram que são os Estados Unidos quem vai à frente nessa corrida. Esta perceção, contudo, não corresponde à realidade, ressalta Bernardo Forbes Costa, professor da Nova School of Business and Economics especializado em ciência de dados e IA.

“Temos de ser claros: ao dia de hoje, a dominância no que toca à Inteligência Artificial reside nos Estados Unidos, o líder mundial são os EUA, em particular os laboratórios da Anthropic e da OpenAI, isso é claro para toda a gente”, garante o especialista. “A questão é quanto tempo é que isto vai durar e se realmente essa liderança se vai manter ao longo do tempo ou se vai haver dispersão", contrapõe. "Acho que há dinâmicas nesse sentido e há, sem dúvida, uma corrida a acontecer.”

A corrida está a ser tão frenética e a liderança dos EUA está tão ameaçada que, no espaço de uma semana, o The Guardian dedicou dois longos artigos ao assunto, referindo num primeiro momento a “dor de cabeça para Silicon Valley” enquanto a China “reduz a vantagem em relação aos EUA na corrida à IA” e, dias depois, como o debate sobre o futuro da IA está a “dividir Silicon Valley à medida que a China ganha terreno”.

Trump mostra decreto a lançar a Iniciativa IA, integrada num plano de ação de 5 mil milhões de dólares focado na desregulação do setor e no investimento em infraestruturas; ao mesmo tempo, está em curso um debate interno na administração norte-americana sobre os riscos associados a essa desregulação. 

“Se nós pensarmos no que gera valor para um país, temos três fatores – tecnologia, trabalho e capital - e quando falamos de IA, estamos a falar da primeira componente enquanto multiplicadora das outras duas”, explica Forbes Costa. “Quem tem maior acesso ao mesmo nível de capital e trabalho, e acesso a uma maior capacidade de tecnologia, tem um multiplicador maior e as suas economias irão crescer. É, sem dúvida, uma vantagem competitiva gigantesca - e o que a China fez foi dizer ‘OK, vamos competir, vamos tentar destronar os EUA e os laboratórios que estão na fronteira’, apostando no custo e na eficiência, fornecendo alternativas muito baratas ou praticamente gratuitas, modelos baratos e eficazes, para criar pressão competitiva nestes laboratórios e, por conseguinte, na economia americana, enquanto nos EUA a estratégia foi ‘vamos tentar ter o melhor modelo pelo preço mais caro’.”

Com ecos de estratégias passadas, em que a China conseguiu, em pouco tempo, tornar-se competitiva produzindo o mesmo que o Ocidente mas com custos mais baixos, a rota rumo à dominância em Inteligência Artificial está a começar a dar frutos. E os EUA estão preocupados. Há poucos dias, o Axios noticiou em exclusivo “a batalha secreta da administração Trump para combater a IA chinesa”, com base em “sinais” vindos do governo federal de que “poderá banir os modelos chineses de IA de ponta – uma medida de grande impacto que poderá consolidar o domínio da OpenAI e da Anthropic”.

Também esta intenção não é uma novidade, tendo em conta os esforços da administração Trump ao longo de 2025 para limitar ou proibir o acesso de laboratórios de IA chineses ao mercado norte-americano. De acordo com fontes ao Axios, no ano passado o Departamento do Comércio considerou incluir esses laboratórios na sua “Lista de Entidades”, uma medida que, na prática, bloquearia o acesso dos EUA aos mesmos sem uma licença, e a Agência de Segurança Nacional (NSA) e o gabinete do Diretor Nacional de Cibernética da Casa Branca também ponderaram emitir um alerta sobre as ameaças que estes laboratórios chineses representam, na prática desencorajando as empresas norte-americanas de utilizarem tecnologias norte-americanas.

Nada disso chegou a acontecer até dezembro, mas meio ano depois os esforços ganharam novo fôlego perante o lançamento do modelo Kimi 3 pela chinesa Moonshot IA há duas semanas. O modelo gerou uma tal procura que, em poucos dias, a empresa teve de suspender novos registos, fazendo deflagrar novas preocupações entre alguns funcionários do governo Trump e um choque destes com outros mais pró-competitividade.

“Autoridades governamentais ansiosas por evitar que as regulamentações sufoquem a inovação puseram a fim a todos estes esforços [mas] vozes importantes como a do ex-conselheiro da Casa Branca Siriam Krishnan abandonaram entretanto os seus cargos, e os defensores de uma postura mais conservadora em relação à segurança nacional tornaram-se mais incisivos”, escreve o portal de notícias. “Com esta mudança de pessoal – juntamente com a ascensão de empresas tecnológicas chinesas mais poderosas e novos receios em relação à cibersegurança – o movimento de proibição está novamente a ganhar força.”

Fonte aberta: benefícios vs. riscos
Estes esforços serviram de pano de fundo à carta aberta que uma série de tecnológicas norte-americanas, com a Microsoft à cabeça, publicaram no final de julho a defender a necessidade de ter uma IA de código aberto. Apenas a Anthropic não subscreveu a missiva. E mesmo dentro dos laboratórios há quem não concorde com a posição . caso de Dean W. Ball, diretor de futuros estratégicos na OpenAI, que recorreu à X para argumentar que abraçar a chamada IA de open-weights só iria beneficiar a China e conduzir ao “comunismo pleno da IA”.

“É interessante ver empresas, nomeadamente americanas, a apoiar esta posição”, refere Bernardo Forbes Costa. “Esta discussão sobre open-weight não é nova nem exclusiva da IA, sendo a premissa a de que, se a ciência, por exemplo, for aberta, e estiver disponível para todos, isso promove o desenvolvimento científico e gera valor para a sociedade como um todo”, adianta, dando como exemplo as vacinas contra a Covid-19, que envolveu um “esforço aberto a nível mundial para colaborar e partilhar patentes”, tornando mais rápido o acesso à inoculação.

Enquanto especialista em IA e ciência de dados, Forbes Costa ressalta que esta aposta “não iria beneficiar só a China, mas também as empresas privadas, como a NVIDIA, a IBM, a Microsoft, em primeiro lugar porque vendem infraestrutura, ou seja, o modelo existe e é acessível, mas é preciso computação – havendo mais necessidade de modelos de IA, há mais necessidade de infraestrutura e de computação, o que faz com que estas empresas ganhem com isso”.

O laboratório norte-americano da Anthropic, que lidera a corrida da IA juntamente com a OpenAI, foi a única que não subscreveu a carta aberta divulgada em julho, na qual as tecnológicas pedem que se evite a "sobrerregulação" do setor e se aposte em modelos de fonte aberta. 

Mas isso, assume o especialista, acarreta os seus riscos, o que, em parte, explica a posição da equipa de Trump. “Se tivermos uma administração que é agressiva, se calhar mais nacionalista, que é mais protecionista daquilo que são os interesse americanos, e sendo este um fator determinante para o mercado económico global, vai ser uma prioridade e vamos ter uma abordagem mais protecionista destes fatores tecnológicos, pelo que não me surpreende que seja essa a postura.”

«Ainda assim, Forbes Costa contrapõe que existem formas de proteger os interesses fomentando a IA open-weight, porque “não temos necessariamente de disponibilizar tudo, nem de pôr de lado a vantagem competitiva das empresas americanas, podemos simplesmente ter quase como se fossem vários níveis de abertura com suficiente capacidade mas cientes dos riscos que pode ter para a sociedade”, argumenta. “É tal qual como termos uma fórmula química altamente aberta, com certeza haverá malfeitores que irão usar essa fórmula para criar armas químicas, neste caso cometer crimes com os modelos em particular. E portanto o que é preciso é regular.”

Aqui entra na equação a União Europeia que, sendo “uma região francamente muito pobre em termos de progresso tecnológico no que toca à IA”, não só teria a ganhar com tecnologia de fonte aberta, como já tem regulação implementada para acautelar potenciais riscos. Este domingo entrou em funcionamento uma unidade da Comissão Europeia criada há dois anos para reforçar ainda mais a regulação do setor, com um arsenal de poderes regulatórios destinados a supervisionar as ações de gigantes da IA, como as norte-americanas OpenAI e Anthropic, mas também das suas concorrentes chinesas, como a Moonshot e a Deepseek.

As frentes de batalha da administração Trump
A partir de agora, se os reguladores da UE não aprovarem determinadas ações das tecnológicas, terão o poder de aplicar multas e até mesmo bani-las do mercado comum, no âmbito do chamado AI Act, que Forbes Costa considera como “um conjunto de regulamentações muito exigente e sem cooperação total com o que se pratica nos EUA” – mas que tem levado a crescentes pressões da administração Trump sobre a UE para desregulamentar o setor.

“É preciso dar o devido valor à UE por ser organizada, por ter tido esta iniciativa de garantir que, sim, o processo existe, mas há gestão do seu impacto na sociedade, isso é excecional e realmente mostra que os valores europeus são fortes e benéficos para todos”, ressalta o especialista português. “Mas há aqui esta outra questão da competitividade que é preciso ter em conta, porque a cautela tem um custo – se realmente vivemos num mercado global em que todos temos acesso a uma ferramenta que existe, e que no caso foi feita nos EUA, o facto de irmos devagar ou com mais cautela prejudica-nos”.

Da mesma forma, também tem havido pressões vindas do outro lado do Atlântico para negociar com os EUA em detrimento da China, apesar de os chineses fornecerem alternativas igualmente boas mas mais baratas numa série de setores, como o dos carros elétricos – só em Portugal há seis marcas chinesas a circular, como ressalta Forbes Costa.

Há um ano, quando o governo português e a chinesa CALB anunciaram um enorme investimento em Sines para construir uma fábrica de baterias de lítio, Daniel S. Hamilton, do Diálogo Transatlântico sobre Comércio, Tecnologia e Segurança, já tinha ressaltado à CNN Portugal que “cada lado [EUA e UE] aborda a China a partir de uma posição estratégica diferente, com instrumentos e prioridades diferentes”. E isso também se aplica à IA.

Fontes dizem à Reuters que EUA e China vão discutir Inteligência Artificial antes da cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping, marcada para 24 de setembro na Casa Branca; os detalhes desse encontro técnico ainda não são conhecidos.

Há duas semanas, cinco fontes com conhecimento das políticas da administração disseram à Reuters que os EUA e a China vão realizar conversações sobre IA em setembro, antes de uma antecipada cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping na Casa Branca marcada para o dia 24 do mesmo mês. “À medida que as superpotências procuram formas de mitigar os riscos representados pelos modelos de fronteira – cada vez mais poderosos – desenvolvidos por ambos os lados”, refere a agência, “Pequim e Washington estão a avaliar como regular modelos avançados de IA que poderiam fortalecer as capacidades militares, viabilizar ataques cibernéticos a infraestruturas críticas e perturbar os mercados de trabalho”.

Quatro das cinco fontes dizem que este encontro vai ser liderado por Scott Bessent, o secretário norte-americano do Tesouro, com outras três a referirem que nada está ainda decidido - nem as identidades dos restantes participantes de ambos os lados, nem a agenda ou o local onde as conversas terão lugar. Questionado sobre o que Trump pretende debater com Xi na cimeira de finais de setembro após um encontro com o seu homólogo chinês na semana passada, o secretário de Estado de Trump escusou-se a adiantar informações, dizendo apenas que o objetivo é definir potenciais áreas de cooperação.

“O trabalho que precisamos de fazer agora, em setembro, é identificar quais são essas áreas, para que possamos lançar as bases para uma visita muito positiva, falámos muito sobre isso”, disse Marco Rubio aos jornalistas à saída da reunião com Wang Yi. “Há áreas de grandes divergências. Ambos os lados reconhecerão isso. Teremos de trabalhar nestas questões, e penso que essas diferenças existirão num futuro próximo. Obviamente defenderemos sempre os nossos interesse nacionais, e antecipo que eles façam o mesmo, da forma que os definem, mas penso que existem algumas áreas de potencial cooperação.”

Os media estatais chineses e os comentadores têm pintado a cimeira Trump-Xi de setembro como fruto dos receios dos EUA de que a China venha a ganhar vantagem na corrida global da IA. E com Pequim a morder-lhe os calcanhares, Washington está empenhado em fazer de tudo para manter a pole position na corrida mais importante e frenética desta era. A questão é que nada garante que vá continuar ao leme.

“Havendo esta iniciativa de openweight, de disseminação da tecnologia, mais depressa esta vantagem competitiva dos laboratórios norte-americanos se pode espremer e ficar cada vez mais reduzida, porque havendo mais modelos abertos e esse conhecimento gratuito acessível a todos, mais depressa a China pode convergir”, ressalta Bernardo Forbes Costa. “É por isso que a carta aberta, subscrita por algumas empresas, como a OpenAI, quase que de forma silenciosa, é tão interessante - e as medidas que a administração Trump está a ponderar surgem quase como uma contramedida face à disponibilização destes modelos de fonte aberta”.

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segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Bem-vindo a 2030": por que razão não terá nada (e não será feliz)


“Bem-vindo a 2030. Eu sou dono de nada, não tenho privacidade e a vida nunca foi melhor”. Esta frase aparentemente contraditória é o título de um artigo publicado pelo Fórum Económico Mundial em 2016, da autoria de Ida Auken, uma parlamentar da Dinamarca.
A ideia dela nunca foi fazer uma profecia, mas sim especular sobre um futuro dominado pela economia circular - e ali descreve uma realidade em que ficou tão fácil, rápido e barato simplesmente alugar e usar imediatamente qualquer coisa, que já nem faz sentido ser proprietário de algo. Na teoria detalhada no texto, este verdadeiro ecossistema de acesso contínuo permitiria a todos ter o que quisessem quando desejassem, tudo isso com energia limpa, zero desperdício e muito mais tempo livre.
Ainda faltam alguns anos para chegarmos a 2030, mas na prática o que este caminho tem vindo a gerar é uma dependência crescente e escassez artificial.

Nos últimos 10 anos, pode dizer-se que a imaginação de Ida Auken conseguiu antecipar uma dinâmica real, mas errou redondamente no diagnóstico humano e económico. A nossa realidade está a caminhar na direção de não sermos donos de coisa nenhuma e não termos privacidade, mas tanto as causas como as consequências desta situação não têm o mesmo tom cor-de-rosa de otimismo da previsão.

O ciclo da "Merdificação": do encanto da Netflix à morte dos suportes físicos
Um bom exemplo de como e por que razão as coisas descarrilaram é o mercado do entretenimento, especificamente o de filmes e séries. A plataforma de streaming da Netflix mostrava em 2016 quão bom poderia ser abdicar de querer ser dono das coisas. Em vez de gastar rios de dinheiro a construir coleções de DVDs e a subscrever canais e mais canais de TV por cabo, bastava pagar uma mensalidade mais barata do que uma pizza e tinha-se acesso imediato e irrestrito a um catálogo de filmes e séries que continha praticamente tudo o que se poderia querer ver.

Não é por acaso que a Netflix fez o sucesso que fez e cresceu ao ponto de, durante muitos anos, ter impacto até na pirataria. O problema é que a forma como o mercado internacional funciona impede que algo assim continue por muito tempo, uma vez que a situação da Netflix em 2016 só era possível por uma combinação de subsídio vindo de capital de risco, o que era viabilizado apenas por políticas de juros baixos, e por licenças baratas que só existiam porque os estúdios tradicionais ainda não sabiam fixar o preço da distribuição digital de conteúdos. Era uma questão de tempo até que alguns fatores mudassem a situação.

Por um lado, outras empresas percebem o potencial do novo mercado e passam a competir por um espaço próprio nele; como algumas dessas empresas são as produtoras dos conteúdos que estavam disponíveis na Netflix, faz-lhes mais sentido retirar as suas produções de lá e colocá-las nos seus próprios serviços, pulverizando o acesso. Por outro lado, a própria Netflix, até então inquestionavelmente dominante no espaço do streaming, passa a ter de investir cada vez mais na caríssima produção de conteúdos próprios enquanto, simultaneamente, vê o crescimento do número de utilizadores desacelerar com a chegada de concorrentes de peso.

Para os acionistas, não existe a opção de aceitar que o valor das suas ações não vá aumentar o máximo possível para manter a qualidade e a relação custo-benefício da plataforma para o público. Assim, com a aquisição de novos utilizadores em queda, a solução é espremer lucros daqueles que já existem. Por isso, os preços aumentam, surgem planos com anúncios e os novos conteúdos de qualidade são substituídos cada vez mais por produções pasteurizadas, com fórmulas repetitivas e uso de IA no que for possível para tornar o processo mais ágil e barato.

Este processo, popularmente conhecido como “enshittification” (ou “merdificação”, em tradução livre), não é exclusivo da Netflix e já foi observado numa quantidade enorme de mercados, plataformas e produtos.

Ilusão da licença digital
Um exemplo mais recente foi o anúncio da Sony sobre o seu plano para encerrar de vez a fabricação de suportes físicos para os seus jogos. Com o fim dos discos, agora vai ser tudo digital através da loja oficial da PlayStation – esqueça a possibilidade de revender jogos que já terminou ou emprestar jogos facilmente aos seus amigos. Se por algum motivo algum título que comprou for retirado da loja e não o tiver descarregado, adeus, sem hipótese de o recuperar.

Caso a sua conta seja pirateada e a Sony decida que não quer ajudar a recuperá-la por iniciativa própria, terá de ser você a lutar na Justiça para tentar forçar a gigante corporativa a fazer o mínimo. E antes que alguém me acuse de terrorismo psicológico, aconteceu exatamente isso a um utilizador brasileiro identificado pela gamertag Ordo_Liberal: a conta Xbox dele foi invadida mesmo com a autenticação de dois fatores ativada e a Microsoft recusou-se a recuperá-la, argumentando que, como ele apenas tinha acesso a uma licença dos jogos, teria de comprar tudo novamente numa conta nova. O jogador teve de derrotar uma verdadeira equipa de advogados da empresa para conseguir forçar a recuperação da conta original com a biblioteca completa.

Caberiam mais uma série de exemplos aqui, desde a Uber e Lyft até ao motor de busca do Google, às recomendações (e fabrico) de produtos da Amazon e até aos smartglasses da Meta, mas cada um destes casos tem contextos socioeconómicos ligeiramente diferentes por trás da merdificação. Ainda assim, já dá para ter uma ideia de quão universal é a presença desta regra informal quando falamos de produtos e serviços, não é?

Hoje, esta dinâmica de subscrição forçada já avança sobre os eletrónicos físicos: desde smartphones de última geração alugados até construtoras automóveis que exigem mensalidades para libertar funções de hardware que já estão instaladas no seu próprio carro. E isto vale também para setores de produtos fora da área que costumamos associar mais à tecnologia.

Crise das memórias: IA devora o hardware do consumidor
Ao mesmo tempo que esta triste realidade do mundo corporativo já nos empurrava para o modelo de subscrições infinitas, a chegada da IA generativa e dos robôs não só acelerou este comboio para a velocidade máxima, como também cortou todos os travões da locomotiva. Estes sistemas ameaçam de forma não muito velada o trabalho de absolutamente toda a gente, eliminando a fonte de rendimento de grande parte da população mundial e concentrando ainda mais a riqueza nas mãos de poucos.

A IA não está a libertar o ser humano do trabalho braçal para que este produza mais arte, cultura e entretenimento enquanto aproveita melhor a vida. Está a precarizar o trabalho intelectual, a roubar trabalho autoral sem permissão nem distribuição de receita, e a usar mão de obra sub-remunerada em países mais pobres para treinar os robôs que vão ocupar os seus postos de trabalho no futuro.

A falta de regulamentação e o comportamento das Big Techs de “agir primeiro, pedir desculpa depois” já se transformou em vários processos de direitos de autor movidos por consórcios de artistas e órgãos de comunicação social contra as gigantes da IA. Nos escritórios, a transição é imposta à força: profissionais de criação e programadores enfrentam metas de produtividade absurdas sob a justificativa de que a IA deve acelerar o processo - ignorando a perda de qualidade e o aumento de erros no produto final.

Ao mesmo tempo, os centros de dados que vão permitir que as capacidades das IAs aumentem cada vez mais exigem expansão e atualização constantes. Isto deu origem a uma competição desequilibrada por semicondutores, especialmente no que diz respeito à memória RAM, e os três grandes fornecedores de memória que basicamente dominam quase toda a produção global escolheram, logicamente, vender às Big Techs dispostas a pagar o preço que for preciso, em vez de venderem a quem produz dispositivos para o consumidor final. O ritmo é tão intenso que mais de 70% da produção de memória de alta velocidade é consumida hoje justamente pelo mercado da inteligência artificial, deixando o mercado de eletrónicos de consumo a disputar as migalhas a preços inflacionados.

Os componentes tornaram-se tão escassos que até gigantes dos dispositivos de consumo direto, como a Apple e a Samsung, estão a ter de aumentar os preços dos seus produtos para manter parte das suas margens de lucro.

Com margens ainda menores, fabricantes de escala global, mas um pouco mais pequenas, sofrem agravamentos mais significativos – isto quando não são forçadas a adiar lançamentos e a revelar novidades com preços que há dois anos seriam considerados delirantes, como a nova Steam Machine a partir de 1050 $. As consolas de jogos, que tradicionalmente deveriam ir ficando mais baratas com o tempo, passam por aumentos grandes e consecutivos mesmo 6 anos após o lançamento.

Quando é que a crise acaba?
A pior parte é que não dá para dizer que esta seja uma crise passageira. As empresas de memória estão a lucrar como nunca. Segundo analistas, a receita operacional da Micron só em 2026 deverá ficar entre os 90 e os 100 mil milhões de dólares, o que é mais do que a soma de todo o lucro acumulado pela empresa nos 35 anos anteriores.

A situação é muito parecida na Samsung e na SK Hynix, que compõem o resto do trio que domina 90% do mercado de DRAM e também a totalidade da produção de memórias HBM, as mais rápidas e desejadas. Por isso, é óbvio que não têm qualquer motivação para mudar a situação, ainda para mais considerando que, antes da explosão da IA, estas mesmas fabricantes sofriam para fechar o balanço financeiro no verde, já que tinham de ceder às pressões das grandes empresas de eletrónicos e vender a sua produção com descontos agressivos.

Ao ritmo atual, a previsão é que a parte mais dolorosa desta crise dure no mínimo até 2028, com escassez e subida de preços a continuarem pelo menos até meados de 2030; mesmo depois disso, é improvável que os preços voltem ao “normal” de antigamente – deverão apenas parar de aumentar tanto e tão rapidamente. E mesmo isto pode ser otimismo, com o CEO da SK Hynix, uma das três grandes fabricantes de memória, a avisar que 2027 vai ser o pior ano de todos nesta crise e que a procura deverá continuar maior do que a oferta mesmo depois de 2030.

Também não adianta torcer pelo “rebentamento da bolha da IA”, uma vez que o nível de investimento associado às gigantes do setor é hoje tão grande que isso provavelmente afundaria o mundo numa depressão económica de níveis catastróficos.

A escolha forçada: por que razão não terá nada?
Com a combinação desta provável concentração de rendimento acelerada pela IA e pelos robôs, somada aos aumentos de preços de todo o tipo de produtos devido à crise das memórias, um futuro em que não seremos donos de nada parece-me cada vez mais inevitável. Não por causa de uma realidade utópica em que os produtos como serviço são melhores e mais baratos – a merdificação encarregar-se-á de eliminar o que surgir nesse sentido –, mas sim porque, em breve, a maioria de nós já não terá o poder de compra necessário para possuir algo próprio.

E aí, o que resta para todos nós, os 99% de não-milionários, é escolher entre três opções bastante difíceis: ou aceitamos a crescente realidade em que tudo é um serviço por subscrição e nos submetemos aos caprichos das Big Techs, ou desistimos de tudo e acabamos cada vez mais marginalizados e desatualizados, ou então apertamos os cintos para resistir por conta própria enquanto exigimos a políticos e entidades reguladoras legislações que, para ser sincero, provavelmente virão tarde demais.

Se, como eu, acha a terceira opção mais interessante, então a forma de resistir é estudar. Como utilizar sistemas abertos como as diferentes distribuições de Linux? Como fazer jailbreak em dispositivos como smartphones para estender o seu suporte de hardware por mais tempo? Como montar um servidor próprio (NAS) usando o que tiver de máquinas velhas em casa para armazenar os seus ficheiros e centralizar os seus conteúdos multimédia sem depender de nuvens pagas? Como reaproveitar tablets e portáteis antigos para dar uma nova vida a equipamentos que iriam para o lixo? Estes conhecimentos não vão mudar o contexto macroeconómico que nos trouxe até aqui, mas são o único escudo real para o ajudar a continuar no controlo da sua própria vida digital, na medida do possível.

Ler mais:
  1. Sophia Harris (2015) - Netflix helps reform hard-core movie pirates, but at a cost
  2. Mauritaz Wagner (2020) - The effect of Netflix on movie piracy and its impact on the movie industry
  3. Sarah Frick, et al (2023) - Pirate and chill: The effect of netflix on illegal streaming
  4. "Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Acabei de submeter o meu parecer de discordância relativamente ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER)

Ler o texto aqui


Anexei o relatório do próprio Governo (Agenda Nacional de IA) e o mais recente relatório “Global Data Centers Outlook 2026”, elaborado pela JLL.

𝐀𝐜𝐞𝐥𝐞𝐫𝐚𝐫 𝐚𝐬 𝐙𝐀𝐄𝐑 𝐚 𝐭𝐨𝐝𝐨 𝐨 𝐜𝐮𝐬𝐭𝐨? 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜̧𝐨
Como o litoral e as grandes áreas metropolitanas (como Lisboa e Porto) estão com a rede elétrica severamente saturada, direcionar as ZAER para o interior ajuda a equilibrar a Rede Elétrica Nacional (REN). Ao produzir energia nestas zonas e ao acoplá-las a novos sistemas de armazenamento de grande escala (baterias), torna-se viável abastecer os grandes centros de consumo e de dados através de linhas de transporte de alta tensão que atravessam o país, sem sobrecarregar ainda mais os nós elétricos do litoral.

Isto é a narrativa por detrás das ZAER.

O grande paradoxo de toda esta história é simples: a eletricidade produzida nestes novos moldes não vai para as pessoas que vivem na região. Vai, quase toda, alimentar os servidores gigantes de multinacionais como a Amazon, a Google ou a Microsoft.

O negócio funciona através de acordos privados a longo prazo, conhecidos na gíria como PPAs (Power Purchase Agreements). Na prática, uma elétrica constrói o parque solar no Alentejo ou no interior e vende essa energia diretamente à tecnológica por um preço fechado e muito baixo durante 10 ou 15 anos. Com isto, a multinacional garante energia barata e o "selo verde" para os seus relatórios financeiros de sustentabilidade, o promotor assegura o retorno do investimento e as populações locais ficam apenas com a paisagem desfigurada e menos terra para trabalhar.

Há ainda outro pormenor que quase ninguém explica e que pesa no bolso de todos. Para que essa eletricidade viaje do interior até aos grandes centros de dados ou ao litoral, é preciso construir novas linhas de alta tensão e subestações. Quem paga esta fatura milionária de expansão da rede? Nós. O custo das infraestruturas é diluído nas tarifas de acesso à rede que aparecem na fatura da luz de qualquer família portuguesa ao fim do mês. Acabamos, no fundo, a subsidiar indiretamente a rede que serve estas tecnológicas.

A Agência Europeia do Ambiente (AEA) classifica Portugal, a par de outros países do sul do continente como Espanha, Itália e Grécia, como uma das regiões europeias mais vulneráveis e pressionadas pelo stress hídrico. A agência considera a escassez de água no território nacional um problema altamente premente que exige políticas urgentes de resiliência. Atualmente, o país encontra-se bem acima do limiar de alerta de stress hídrico da União Europeia, sendo frequentemente apontado como o sexto país com maior pressão sobre os recursos hídricos durante o período do verão. Esta classificação sazonal deve-se ao facto de o período estival combinar uma seca meteorológica acentuada com uma redução severa dos caudais dos rios e um aumento drástico das captações para a agricultura irrigada, o turismo e o consumo doméstico.

Para medir esta pressão de forma técnica, a AEA utiliza o indicador de exploração de água conhecido como WEI+, que calcula a percentagem de água doce consumida face aos recursos renováveis disponíveis em cada região. Os padrões europeus estipulam que valores acima de 20% indicam stress hídrico, ao passo que valores acima de 40% sinalizam um stress severo e um uso insustentável da água. Embora a média anual portuguesa possa parecer moderada à escala global, as análises regionais e sazonais da agência revelam que as bacias hidrográficas do sul, nomeadamente as do Sado, do Mira e do Algarve, ultrapassam com frequência e de forma alarmante o limiar crítico de 40% durante a primavera e o verão.

Claro que Portugal precisa de apostar nas renováveis e fechar as centrais poluentes. Ninguém discute isso. Mas o modelo atual tem um forte cunho extrativista: o interior arca com os custos ambientais, perde o montado ou o olival e vê a sua paisagem descaracterizada, enquanto a riqueza, a eletricidade barata e os empregos qualificados vão para as sedes das empresas e para os polos tecnológicos do litoral.

A solução não passa por travar a transição, mas por mudar as regras do jogo. O licenciamento destes grandes projetos devia obrigar à criação de comunidades de energia locais, que distribuíssem parte da eletricidade de graça ou a preço de custo a quem vive e trabalha nessas regiões. Sem regras que protejam quem lá está, as novas zonas de aceleração do interior correm o risco de ser apenas o quintal de energia barata das grandes tecnológicas.

Esta vulnerabilidade é substancialmente agravada pela elevada dependência transfronteiriça de Portugal, uma vez que o país depende fortemente dos caudais de rios internacionais como o Tejo, o Douro e o Guadiana, que nascem em território espanhol. Esta circunstância deixa a segurança hídrica nacional exposta às decisões de gestão do país vizinho, especialmente em anos de seca ibérica severa. Além disso, a AEA aponta no seu diagnóstico que o problema em Portugal é potenciado pela ineficiência no consumo, estimando que até metade da água captada para a agricultura seja perdida por sistemas de rega desatualizados, enquanto as perdas nos setores industrial e urbano também continuam elevadas. Face ao cenário de alterações climáticas, as projeções da agência apontam para reduções que podem atingir 40% nos caudais dos rios durante o verão, reforçando o aviso de que o país não pode sustentar novos projetos de consumo intensivo e inflexível de água sem uma transição urgente para a reutilização de águas residuais tratadas.

Ambientalistas alertam que zonas de aceleração de renováveis ameaçam áreas de valor ecológico no Algarve


O Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) compromete áreas de valor ecológico e a conservação de espécies ameaçadas no Algarve, alertou hoje a Plataforma Pela Sustentabilidade e Biodiversidade do Algarve e Alentejo (PPSBAA).

Em comunicado enviado à agência Lusa, a plataforma ambientalista afirma que o plano identifica, no Algarve e Alentejo, áreas que coincidem com territórios considerados essenciais para a conservação da natureza e de espécies classificadas como «em perigo» ou «criticamente em perigo» de extinção.

A discussão pública da proposta do PSZAER, disponível no Portal Participa, decorre até ao final do hoje.

O documento é um instrumento nacional de ordenamento do território criado para identificar, à escala nacional, as áreas consideradas mais adequadas para a instalação de projetos de energias renováveis (como centrais solares, parques eólicos e infraestruturas associadas), visando acelerar o seu licenciamento.

A proposta identifica cerca de 7% do território continental com potencial para acelerar projetos solares e eólicos, mas alerta que a concretização depende de rede, licenciamento, mercado e aceitação pública.

A conclusão consta da Avaliação Ambiental Estratégica e proposta de Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis, um trabalho técnico colocado em consulta pública sobre a delimitação final das áreas.

Segundo a plataforma, o PSZAER «não garante a salvaguarda do corredor migratório das serras algarvias», utilizado por milhares de aves durante a migração outonal para África.

No mesmo sentido, adianta, não assegura a integridade dos corredores ecológicos que ligam a Serra de Monchique à Serra do Caldeirão e o nordeste algarvio ao vale do Guadiana e à Estremadura espanhola.

A plataforma sustenta que o plano abrange montados, mosaicos agroflorestais de azinheira e sobreiro, bem como habitats considerados «fundamentais para várias espécies com estatuto de conservação crítico».

De acordo com a organização ambientalista, a inclusão destas áreas sensíveis aumenta o risco de mortalidade por colisão, fragmentação e perda de ‘habitats’, bem como do chamado «efeito barreira».

Para a PPSBAA, fica comprometida a sobrevivência de espécies como o abutre-preto, britango, cegonha-preta, águia-imperial-ibérica, abetarda, sisão, rolieiro, francelho, tartaranhão-caçador, cortiçol-de-barriga-preta, morcego-de-ferradura-mourisco, morcego-rato-pequeno, gato-bravo, coelho-bravo e lince-ibérico.

No caso do lince-ibérico, a plataforma refere que o plano inclui, no nordeste algarvio, áreas de reprodução e expansão da espécie, alertando que a crescente artificialização do território «poderá também afetar habitats essenciais para a águia-de-bonelli e a águia-imperial-ibérica».

A plataforma considera que as opções previstas no PSZAER comprometem «décadas de investimento público e científico» na recuperação destas espécies, ao reduzirem as condições ecológicas necessárias para a consolidação das suas populações no sul de Portugal.

Como alternativa, a PPSBAA defende que a expansão das energias renováveis deve privilegiar áreas já artificializadas, como edifícios, zonas industriais e outras infraestruturas, bem como o sobre-equipamento e a repotenciação de parques eólicos existentes, reduzindo a necessidade de ocupar novas áreas naturais.

Por estes motivos, a plataforma manifesta a sua oposição ao PSZAER, apelando à revisão da proposta para compatibilizar o desenvolvimento das energias renováveis com a proteção da biodiversidade.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Boom da IA que sustenta mercados pode causar próxima queda, alertam bancos centrais


No seu Relatório Económico Anual, publicado no domingo, o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais, alertou que o enorme volume de gastos em IA está a acumular vulnerabilidades financeiras que podem amplificar qualquer choque futuro e propagar-se dos mercados à economia em geral.
Ao apresentar as conclusões, o diretor-geral do BIS, Pablo Hernández de Cos, afirmou que a mensagem é de "urgência", apelando a que os decisores políticos atuem antes de qualquer inversão tornar o ajustamento final mais doloroso.
No centro do alerta está a dimensão do investimento, apesar de o forte fluxo de capitais ter sustentado o crescimento mundial no último ano.
Os cinco maiores "hyperscalers", os gigantes tecnológicos que correm para construir a infraestrutura de IA, deverão comprometer mais de 1 bilião de dólares (878 mil milhões de euros) em investimento ligado à IA em 2025 e 2026, a um ritmo que ultrapassa os lucros e o fluxo de caixa livre e leva alguns a endividarem-se fortemente para acompanhar.
O BIS considera que esta corrida é alimentada pela convicção de que apenas um pequeno número de atores dominantes acabará por prevalecer, o que incentiva as empresas a canalizar dinheiro para projetos cuyos retornos permanecem profundamente incertos.

Ecos de manias passadas
O relatório compara o boom atual da IA com uma longa sucessão histórica, da mania dos canais na década de 1830 e da mania ferroviária britânica nos anos 1840 à eletrificação dos anos 1920 e à bolha das dotcom.
Cada episódio começou com uma verdadeira inovação tecnológica que atraiu mais capital do que os retornos comerciais justificavam, assinala o BIS, tendo todos terminado "com uma eventual inversão do investimento, que desencadeou recessões em toda a economia".
A agravar o risco estão cotações esticadas e esquemas de financiamento pouco transparentes.
O BIS destaca a proliferação de "financiamento circular", em que fabricantes de chips e gigantes da computação em nuvem tomam participações em laboratórios de IA que se comprometem depois a comprar os seus chips e capacidade de computação, reciclando na prática o dinheiro de volta para os investidores originais sob a forma de receitas.
Grande parte do financiamento passa agora por fundos de cobertura e veículos de crédito privado sujeitos a uma supervisão mais leve do que os bancos.
Segundo Zhang Tao, representante-chefe do BIS para a Ásia e o Pacífico, essa dependência de canais não bancários significa que uma desaceleração da IA pode transformar-se numa correção mais acentuada e rápida do que uma crise bancária tradicional.

Custos ocultos dos centros de dados
Para lá dos mercados financeiros, críticos defendem que o verdadeiro custo da expansão da IA está a ser escondido à vista de todos.
Uma preocupação central, analisada pelo Wall Street Journal, é a forma como os gigantes tecnológicos registam contabilisticamente os seus centros de dados.
Ao assumirem que o equipamento dispendioso no interior destes centros permanecerá útil durante mais tempo, as empresas podem diluir o seu custo por mais anos, reduzindo a depreciação registada contra os lucros em cada período e fazendo com que os resultados pareçam mais saudáveis do que o real consumo de caixa sugere.
Mas os chips especializados que estão no coração destas instalações podem tornar-se obsoletos muito mais depressa do que esses calendários prolongados pressupõem, abrindo um fosso entre os lucros reportados e a realidade económica e deixando o balanço mais exposto do que aparenta, caso a procura decepcione ou surjam necessidades significativas de substituição de hardware.

A dimensão física é impressionante.
O economista da Universidade de Columbia Stijn Van Nieuwerburgh estima que esta expansão poderá custar cerca de 8 biliões de dólares (7 biliões de euros) nos próximos seis anos, financiados em parte através de acordos fora de balanço do tipo que o BIS assinalou.
Os custos também já não se limitam às contas das empresas.
Alguns economistas alertam agora para uma chamada "terceira vaga" de inflação, após a pandemia e as tarifas, alimentada desta vez pela expansão da IA. À medida que os fabricantes de chips dão prioridade às peças de maior margem para servidores de IA, a pressão sobre memória e armazenamento repercute-se na eletrónica de consumo.
Na semana passada, a Apple aumentou os preços dos MacBooks, iPads e outros dispositivos, citando um "surto extraordinário de procura de memória e armazenamento" e afirmando nunca ter visto "um aumento do preço de componentes tão elevado, em tão pouco tempo".
As ações da empresa caíram cerca de 6%, a sua pior sessão em mais de um ano, numa altura em que a Microsoft, a Nintendo e a Sony também tomaram medidas semelhantes.
A recente queda da SpaceX, que perdeu mais de 600 mil milhões de dólares em valor de mercado num espaço de três dias, representa um evento de proporções históricas que cruza a volatilidade financeira com a alta geopolítica.
Para lá dos custos ocultos e das pressões inflacionistas, o impacto poderá sentir-se de forma mais alargada na energia.
A Goldman Sachs prevê que os centros de dados representem quase metade do crescimento da procura de eletricidade nos Estados Unidos até 2030, com os preços da energia para os consumidores a deverem subir cerca de 6% ao ano em 2026 e 2027.
O próprio BIS assinala que a fome de eletricidade desta expansão já está a pressionar preços e custos de produção, com possíveis efeitos sobre a inflação, embora sublinhe, tal como muitos economistas, que a IA poderá ainda revelar-se desinflacionista se as prometidas melhorias de produtividade se materializarem.

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E se o "Fascismo Eterno" de Umberto Eco, tivesse encontrado a ferramenta perfeita na Inteligência Artificial?

O custo da IA não é apenas ecológico; é cultural e político. Convoco os meus amigos à leitura desta minha reflexão profunda sobre o mundo que estamos a construir e a leitura que nos pode salvar do fascismo eterno.

𝐏𝐨𝐧𝐭𝐨 𝐩𝐫𝐞́𝐯𝐢𝐨
Atualmente, o grande desafio é o crescimento exponencial da Inteligência Artificial - um campo que nasceu em meados do século XX, mas que hoje atinge proporções sem precedentes. Os chips de IA, como os GPUs, consomem muito mais energia do que os servidores tradicionais. Este aumento súbito na procura de eletricidade está a pressionar as redes elétricas e, em algumas regiões, a obrigar ao prolongamento da atividade de centrais a gás ou carvão, dificultando as metas de descarbonização.

Para além da eletricidade, a corrida aos minerais raros para construir estes componentes tornou-se insuportável e insustentável. É neste cenário - um mundo polarizado, minado por fraudes e mergulhado numa nova era tecnológica quase imposta - que os algoritmos disparam em todas as direções, perpetuando vieses políticos e alimentando bolhas ideológicas para maximizar o lucro. É assim que o tecnofascismo e o carbofascismo se impõem numa era tecnológica quase imposta. A verdade é que não estamos preparados. Explico porquê no segundo texto.

𝐒𝐞𝐠𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐨 - 𝐀 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐚 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐔𝐦𝐛𝐞𝐫𝐭𝐨 𝐄𝐜𝐨 𝐞 𝐚 𝐞𝐫𝐚 𝐝𝐢𝐠𝐢𝐭𝐚𝐥: 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐧𝐝𝐞𝐫𝐦𝐨𝐬?

O Fascismo Eterno, obra em que Umberto Eco analisa as estruturas mentais e socioculturais do autoritarismo, ganha uma relevância alarmante quando confrontado com a atual e acelerada evolução da Inteligência Artificial. Embora o ensaio tenha sido escrito na década de 1990, muito antes da explosão dos modelos generativos e dos algoritmos avançados, as catorze características do Ur-Fascismo identificadas pelo filósofo italiano servem como um aviso severo sobre os impactos culturais e políticos da automação tecnológica no comportamento humano.

A primeira grande interseção reside no conceito de novilíngua. Eco alertava que o fascismo eterno recorre a um vocabulário empobrecido e a uma sintaxe elementar para limitar o raciocínio complexo e eliminar o pensamento crítico. Ao transferirmos a produção de textos, discursos e comunicações diárias para sistemas de IA, corremos o risco de padronizar a linguagem de forma global. Estes modelos tendem a gerar respostas estatisticamente previsíveis e polidas, o que pode esvaziar a riqueza linguística, a ironia e a profundidade do debate público, pavimentando o caminho para uma sociedade que aceita mais facilmente narrativas simplistas e polarizadas.

Além disso, o culto da ação pela ação e o consequente desprezo pela reflexão intelectual encontram um terreno fértil na busca cega pela produtividade algorítmica. A pressa em obter resultados imediatos através de prompts substitui muitas vezes o processo humano de pesquisa profunda, erro e ponderação. Quando o ato de pensar é delegado à máquina em nome da eficiência, a capacidade da sociedade para exercer a dúvida filosófica e a contestação - defesas vitais contra regimes autoritários - acaba por atrofiar.

Outro ponto crítico é a obsessão pelo complô e a criação de inimigos imaginários, dinâmicas que alimentam o ecossistema fascista. Atualmente, a Inteligência Artificial é utilizada para potenciar bolhas de radicalização através de algoritmos de recomendação baseados no envolvimento pela indignação e, ironicamente, maximizando o lucro dos plutocratas . A capacidade de gerar desinformação em massa, clones de voz e deepfakes de forma automatizada e barata permite que atores maliciosos criem conspirações personalizadas para diferentes franjas da população, fraturando o tecido social à escala industrial.

Por fim, o populismo qualitativo, onde o líder se assume como a encarnação da vontade de uma massa homogénea, ganha contornos de precisão cirúrgica com o uso de dados processados por IA. A análise automatizada do sentimento das redes sociais permite moldar discursos políticos que não convidam ao debate, mas que ecoam de forma artificial os medos e preconceitos do eleitorado. Assim, o maior perigo não reside numa revolta das máquinas contra a humanidade, mas sim na possibilidade de a IA ser utilizada para automatizar e perpetuar os hábitos mentais mais primitivos e intolerantes que Umberto Eco nos instou a combater.

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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Paul Krugman - Porque é que toda a gente odeia a IA


Muitos leitores estarão provavelmente parados na cena do vídeo acima: Eric Schmidt, o antigo CEO da Google, fez recentemente um discurso de formatura no qual anunciou a chegada da IA - e foi fortemente vaiado pelos estudantes. Isto não foi um caso isolado. Têm ocorrido vários incidentes semelhantes ultimamente, prova de que muita gente odeia agora genuinamente a IA.

Estaremos a falar de uma minoria barulhenta mas não representativa? Não. Uma sondagem recente do Pew Research Center revelou que os adultos americanos acreditam, por uma margem larga, que a IA será negativa para a sociedade e, por uma margem menor, que será má para eles a nível pessoal.


Mas não se sentirá o público sempre assim perante a inovação? A análise do Pew sobre as suas próprias conclusões deu a entender isso mesmo, declarando que:
"A nova tecnologia é frequentemente recebida com um certo grau de curiosidade, bem como de ceticismo. À medida que mais americanos incorporam a IA nas suas vidas, surgem preocupações generalizadas sobre o seu impacto, a sua velocidade e sobre se o governo a consegue regular adequadamente."
Contudo, as próprias sondagens passadas do Pew sugerem que, historicamente, a maioria dos americanos acolheu bem os avanços nas tecnologias de informação. Uma sondagem de 1999 sobre as atitudes face à internet (que ainda era uma novidade) revelou visões extremamente positivas sobre os computadores e a tecnologia, especialmente entre os utilizadores da internet.

E em 2015, quando as redes sociais eram ainda relativamente recentes, o Pew descobriu que 71% do público afirmava que as empresas tecnológicas "têm um impacto positivo na forma como as coisas estão a correr neste país", com apenas 17% a expressar uma opinião negativa.

O facto é que, no passado, os americanos geralmente recebiam as tecnologias emergentes com otimismo. O que explica, então, a atual hostilidade contra a IA? Permitam-me oferecer várias explicações que não se excluem mutuamente.

Primeiro, tememos que a IA faça coisas terríveis porque as empresas que a vendem nos disseram que ela faria coisas terríveis. No ano passado, por exemplo, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, declarou numa entrevista à Axios que a IA poderia eliminar metade dos empregos administrativos de nível de entrada e elevar o desemprego geral para uns impressionantes 20% no espaço de 1 a 5 anos.

Mais recentemente, Amodei e Sam Altman, da OpenAI, tentaram recuar nas suas previsões de um "apocalipse do emprego". Mas por que razão estiveram eles tão dispostos a promover visões apocalípticas em primeiro lugar? A resposta é dinheiro. Eles promoveram a ideia de que tinham uma tecnologia que iria transformar rápida e radicalmente a economia, em parte para deslumbrar Wall Street e garantir financiamento, e em parte para assustar as empresas, levando-as a correr para a adoção da IA por medo de ficarem para trás.

Só tardiamente se deram conta de que declarar que a sua tecnologia iria causar devastação geraria uma reação pública adversa, e que essa reação seria um problema sério. Na verdade, não é apenas o público em geral que está a atacar as empresas que usam ameaças de um apocalipse como estratégia de marketing. Até as grandes corporações dizem que já basta. Satya Nadella, CEO da Microsoft, que se tem mostrado visivelmente relutante em alinhar no fanatismo da IA, disse recentemente ao Wall Street Journal:
"Não se pode dizer, 'olhem, todos os empregos administrativos desapareceram, isto pode até ser uma arma e vamos usar toda a energia disponível para construir centros de dados'."
Segundo, muitas pessoas comuns veem a IA de forma negativa porque sentem que esta lhes está a ser imposta.
É verdade que muitas pessoas utilizam voluntariamente grandes modelos de linguagem (LLMs) por conveniência pessoal ou como ferramenta de produtividade profissional. Mas uma parte significativa do uso da IA não é voluntária. Esta manchete do Wall Street Journal de fevereiro diz tudo: "Empresas obrigam trabalhadores a usar ferramentas de IA".

Porque estão as empresas a fazer isto? Presumivelmente, acreditam que a IA irá aumentar a produtividade. Mas, de igual modo, estão a responder à pressão dos mercados financeiros, que estão a recompensar as empresas que adotam rapidamente a IA, aparentemente sem olhar a resultados demonstrados.

E enquanto os trabalhadores americanos são coagidos a usar a IA, os consumidores americanos estão a ser alimentados à força com IA, queiram ou não. O caso mais dramático é o da Google, que substituiu o seu motor de busca pela IA, sem oferecer a opção de desativar essa função. É preciso recorrer a truques obscuros ou a sites de terceiros para obter os resultados de pesquisa tradicionais.

Portanto, muitas pessoas sentem, com razão, que não estão a ter a liberdade de escolher se querem ou não usar a IA — não usar IA tornou-se difícil, tanto como trabalhador quanto como consumidor.

Terceiro, os centros de dados (datacenters) são uma lembrança altamente visível dos custos da IA. Os centros de dados ocupam extensões enormes de terra — um local proposto no Utah terá o dobro do tamanho de Manhattan. Eles devoram eletricidade e água. Quando geram parte da sua própria energia, criam uma enorme poluição local. Como seria de esperar, há uma oposição intensa à construção de centros de dados. De acordo com uma sondagem da Reuters/Ipsos, 57% os americanos — dois terços dos democratas e metade dos republicanos — opor-se-iam a um centro de dados no seu bairro. Apenas 14% apoiariam.

Quarto, mesmo antes do advento da IA, as empresas tecnológicas já tinham perdido a confiança do público. Ao longo dos anos, o Pew tem questionado regularmente o público sobre as suas opiniões acerca das empresas de tecnologia, perguntando se estas têm um efeito positivo ou negativo "na forma como as coisas estão a correr". Em 2015, a opinião pública sobre as tecnológicas era esmagadoramente positiva. Em 2022, o ano em que o ChatGPT foi lançado, essa boa vontade tinha-se evaporado.


Porque é que os americanos se viraram contra as empresas tecnológicas? Embora isso reflita certamente uma crescente consciencialização dos danos psicológicos e sociais causados pelas redes sociais, muito deve-se também à "merdificação" (enshittification) dos produtos tecnológicos.

Finalmente, a IA está fortemente ligada, na mente do público, aos oligarcas tecnológicos que a estão a impulsionar. Há uma perceção generalizada da crescente concentração de riqueza e poder no topo, e de como isso está a distorcer a nossa política e a prejudicar a nossa sociedade. À exceção dos fiéis do movimento MAGA, os americanos apoiam esmagadoramente políticas governamentais para reduzir a desigualdade de riqueza.



E a IA é amplamente vista, com boas razões, como uma tecnologia que irá aumentar a concentração de riqueza no topo. De facto, como referi, as próprias empresas de IA já nos disseram que a tecnologia terá efeitos extremamente negativos nos trabalhadores.

Existem, portanto, múltiplas razões que se reforçam mutuamente para o público ver a IA de forma negativa. E não, isto não é o ceticismo normal diante da mudança. Esta reação adversa intensa é especial.

E esta reação já está a ter grandes consequências políticas. É verdade que a indústria da IA, fiel ao seu estilo, tem injetado dinheiro nas eleições num esforço para impulsionar políticos amigáveis e derrotar os críticos. Mas a maioria destes esforços falhou. Na verdade, aceitar dinheiro da IA ou estar associado à tecnologia em geral está a começar a parecer politicamente tóxico.

Há um forte elemento de justiça poética nesta reviravolta. A indústria da IA tornou-se deliberadamente ameaçadora como estratégia financeira, acreditando que os mercados recompensariam a aparência de estar na "vanguarda radical". Ao fazê-lo, no entanto, a tecnologia tornou-se altamente impopular. E mesmo numa era em que o dinheiro compra o poder demasiadas vezes, a opinião pública importa.