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domingo, 14 de junho de 2026

“Paradoxo da biodiversidade”: Investigação portuguesa avisa que, por vezes, mais pode ser menos


Um novo estudo liderado por Vasco Vieira, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente/ARNET (Universidade NOVA de Lisboa), ajuda a esclarecer um dos paradoxos clássicos da ecologia: porque é que comunidades muito diversas podem perder espécies à medida que crescem.

A investigação, publicada recentemente na revista ‘Communications Earth & Environment’, mostra que as comunidades vegetais naturais atingem um limite físico de compactação de biomassa a partir do qual já não conseguem acomodar mais indivíduos.

Dizem os autores deste trabalho que esse limite, conhecido há décadas para povoamentos monoespecíficos, é agora demonstrado também ao nível comunitário e envolvendo múltiplas espécies.

Quando mais passa a ser menos
O estudo agora publicado dá a conhecer a relação entre biodiversidade e biomassa, e indica que a mesma não é linear, aumentando até um máximo e diminuindo depois, o que aponta para um “paradoxo da biodiversidade”.

Explicam os investigadores que esta relação, definida para comunidades vegetais naturais, permitiu demonstrar o mecanismo que leva comunidades diversas a perder espécies quando atingem densidades elevadas.

Especificamente, o estudo revela a existência de self-thinning ao nível comunitário, um processo em que a competição por espaço elimina os indivíduos e espécies menos competitivas. Até agora, o self-thinning tinha sido demonstrado apenas para povoamentos monoespecíficos, mas esta investigação mostra, pela primeira vez, que o mesmo fenómeno ocorre também em comunidades naturais multiespecíficas.

Água, o fator invisível que dita as regras
Realizado na Charneca de Caparica, o estudo monitorizou um total de 17.089 plantas de 46 espécies, ao longo de 2021 e 2022.

Os investigadores descobriram que a disponibilidade de água é o principal mediador desta dinâmica. Em 2021, com mais chuva, as plantas cresceram mais e ocuparam o espaço com máxima eficiência, o que levou à diminuição da diversidade por exclusão competitiva dos indivíduos e espécies menos competitivas. Em contrapartida, a menor pluviosidade de 2022 travou o crescimento e reduziu a ocupação do espaço, o que se traduziu numa menor competição e consequente aumento da diversidade.

Os resultados confirmaram um padrão bem estabelecido na ecologia, o de que condições ambientais mais favoráveis e estáveis reforçam o domínio de algumas espécies, o que acaba por reduzir a diversidade global do ecossistema.

A este respeito, Vasco Vieira explica que “a um máximo de abundância de vida não corresponde um máximo de diversidade de vida”. Salienta o primeiro autor do estudo que “abundância e diversidade não são sinónimos, e podem mesmo ser antagónicas em caso de extrema abundância”.

Para o cientista do MARE, “a diversidade não pode ser tomada como um bioindicador universal da qualidade ambiental, contrariando a perceção dominante pela sociedade não-especializada, pois a um máximo de diversidade não correspondem máximos de abundância nem de qualidade e estabilidade ambientais”.

Teoria de Allan Savory posta em causa
Uma das conclusões mais surpreendentes do estudo contraria parte da teoria de “Gestão Holística” proposta por Allan Savory. Esse ecólogo, nascido no Zimbabué em 1935, defende que a desertificação de pastagens (particularmente em África) pode também resultar da acumulação de talos secos de plantas mortas por falta de pastoreio, que, ao ocuparem espaço, impediriam o nascimento de novas plantas.

A equipa do MARE testou este cenário ao analisar parcelas cobertas por uma camada espessa de relva morta e seca, com uma média de 354 gramas de matéria seca por metro quadrado.

Os resultados demonstraram o oposto do defendido por Savory. Isto é, que a acumulação de biomassa morta não impediu o desenvolvimento de uma comunidade vegetal diversa. Aliás, mostraram mesmo que essa camada serviu como protetora e promotora do crescimento de plantas mais suscetíveis à herbivoria e dissecação.

O Espaço como indicador ecológico e o combate a invasoras
O estudo aplicou uma métrica ecológica que mede quão perto cada comunidade vegetal está do seu limite máximo de biomassa, que os investigadores dizem ser uma forma objetiva de avaliar a eficiência com que as plantas ocupam o espaço disponível.

Ao calcularem esta eficiência separadamente para a comunidade autóctone e para a invasora Oxalis pes-caprae (também conhecida por nomes vulgares como erva-azeda, trevo-azedo ou erva-canária), comum no sul da Europa, a equipa identificou a principal vantagem competitiva dessa espécie invasora: a capacidade de surgir muito cedo no inverno e ocupar rapidamente o espaço antes das espécies nativas. Esta antecipação ajuda a explicar o seu sucesso em ecossistemas mediterrânicos.

Os autores deste estudo acreditam que as suas descobertas fornecem “ferramentas robustas para decisores políticos e engenheiros ambientais”. E consideram que, ao compreender como a biodiversidade e o espaço interagem em diferentes condições de stress hídrico, torna-se possível desenhar melhores estratégias de restauro ecológico e planos de controlo de espécies invasoras num cenário de alterações climáticas.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Eastgate Center: uma história de bioinspiração não muito verdadeira


No campo da biomimética, existem certas críticas sobre projetos baseados em visões superficiais da natureza e numa economia pretensamente verde, como aqui já foi referido.

Um desses projetos é um dos exemplos arquitetónicos mais famosos da biomimética: o edifício Eastgate Centre, localizado em Harare, Zimbabué, inaugurado em 1996.

O arquiteto Mick Pearce e a empresa Arup ter-se-ão inspirado parcialmente na estrutura das termiteiras locais para construir um edifício adequado a um clima tropical. Na África tropical, as térmitas da subfamília Macrotermitinae constroem ninhos enormes (até 9 metros) onde cultivam fungos em câmaras dentro do ninho.

No entanto, o projeto do edifício não se baseou totalmente no funcionamento real das termiteiras, como veremos adiante.

Modelos de regulação térmica das termiteiras
Na época em que Pearce projetou o edifício, existiam dois modelos propostos e aceitos para explicar a regulação térmica dentro das termiteiras: o modelo de fluxo termossifão e o modelo de fluxo induzido.

Fluxo termossifão: A ventilação é acionada pelo calor; o ar quente gerado pelo ninho sobe até ao topo da térmiteira onde, ao arrefecer, fica mais denso e é forçado para a região abaixo do ninho, repetindo o ciclo.

Fluxo induzido: Aplica-se às termiteiras que têm uma chaminé no topo, exposta a velocidades de vento mais elevadas do que as entradas ao nível do solo. Assim, o fluxo unidirecional atrai ar fresco junto ao solo para o ninho, passando pela chaminé e saindo para o exterior.

Projeto do edifício Eastgate Centre
Os arquitetos que projetaram o Eastgate Centre tentaram incorporar os princípios destes dois modelos. O edifício possui um extenso sistema de condutas dentro das paredes e pisos que movem o ar através da estrutura.

O calor gerado dentro do edifício, juntamente com o calor armazenado na estrutura, cria um efeito de termossifão que atrai o ar para cima. No telhado, localizam-se grandes chaminés, essenciais para criar o fluxo induzido.

No entanto, as histórias populares sobre o Eastgate Centre ignoram um detalhe importante: o edifício utiliza ventiladores de baixa capacidade durante o dia e de alta capacidade durante a noite para evitar a estagnação do ar. Assim, o ar quente acumulado durante o dia é substituído pelo ar fresco da noite. Isto funciona bem e evita o uso de ar condicionado caro, mas, escusado será dizer, nenhuma termiteira utiliza ventiladores.

Críticas ao projeto
O sistema de refrigeração permitiu uma poupança de 10% nos custos iniciais (ao não comprar sistemas de ar condicionado) e uma redução de 20% no preço dos alugueres em comparação com edifícios vizinhos.

Embora o objetivo prático tenha sido atingido, em termos de biomimética o projeto falhou, pois as térmiteiras não ventilam da forma que Mick Pearce pensava. Como escreveu a entomologista Marianne Alleyne:

“Se a biomimética e a bioinspiração desejam ser reconhecidas como áreas de estudo legítimas, é essencial que a ciência em que o campo se baseia seja sólida.”

Como as termiteiras realmente funcionam
Desde 1996, as suposições de Pearce foram refutadas pelos investigadores J. Scott Turner e Rupert C. Soar. Eles verificaram que, embora a temperatura interna varie menos que a externa, ela segue de perto a temperatura do solo circundante ao longo do ano.

O solo tem uma grande capacidade térmica, atuando como um "amortecedor" contra as variações diárias. A arquitetura e a ventilação têm pouco a ver com a temperatura interna, mas sim com a troca de gases. Ao fazerem moldes de gesso dos túneis, os investigadores descobriram que há pouca mistura entre o ar da superfície e o do ninho subterrâneo, propondo que a termiteira é, na verdade, um análogo funcional de um pulmão.

Metamateriais inspirados nas térmitas
Em 2023, David Andréen e Rupert Soar demonstraram que a geometria dos túneis pode otimizar o fluxo de ar e o controlo de humidade. Com base em digitalizações e experiências, criaram estruturas que podem ser integradas nas paredes de futuros edifícios, permitindo: circulação de ar otimizada por sensores; controlo térmico sem componentes mecânicos e consumo mínimo de energia.

Conclusão
As térmitas constroem paredes que interagem com o ambiente, trocando gases e energia em vez de criarem barreiras impenetráveis. Estas descobertas abrem caminho para edifícios com paredes porosas e sistemas de revestimento vivos, que farão parte da nossa "fisiologia estendida", tal como o ninho faz parte da colónia.

Referências:
  1. Termite-inspired metamaterials for flow-active building envelopes.
  2. Beyond biomimicry: What termites can tell us about realizing the living building.
  3. The termite mound: A not-quite-true popular bioinspiration story.
  4. How is the Eastgate Building NOT like a Termite Mound?

Além do erro biológico o Eastgate Centre levanta problemas de transição justa
O Eastgate Centre, em Harare, no  Zimbabwe, apontado como ícone arquitectónico de "inspiração na natureza" serviu apenas como um verniz ecológico para um edifício construído com materiais de elevado impacto ambiental, como o betão e o aço, e destinado a escritórios de luxo e comércio de elite. Enquanto o marketing celebrava a "sabedoria das térmitas", o projeto ignorou a justiça social: a energia que o edifício ainda consome provém de centrais a carvão poluentes e a tecnologia biomimética não é aplicada para melhorar a vida das populações mais pobres na periferia de Harare. Assim, o Eastgate torna-se um caso de estudo sobre como a biomimética pode ser cooptada para validar modelos de negócio tradicionais, focando-se na eficiência técnica para o capital em vez de numa regeneração ecológica e social profunda.

domingo, 15 de março de 2026

Biomimética - uma ciência amiga da sustentabilidade?



O pensamento base da biomimética é o Ecologically Sustainable Design (ESD)

"Does it run on sunlight? 
Does it use only the energy it needs? 
Does it fit form to function? 
Does it recycle everything? 
Does it reward cooperation? 
Does it bank on diversity? 
Does it utilize local expertise? 
Does it curb excess from within? 
Does it tap the power of limits? 
Is it beautiful?" 
(Benyus 1997:291)

Porém, com os avanços e progressos obtidos pela biomimética, ela ainda apresenta problemas em termos de economia circular e casos de lavagem verde.


O risco de Greenwashing ou Lavagem Verde
Muitas vezes, empresas utilizam a biomimética apenas para melhorar a performance (vender mais ou ser mais rápido) sem olhar para o impacto ambiental do ciclo de vida do produto. Se o objetivo for apenas lucro e extração, a biomimética torna-se apenas uma ferramenta de engenharia avançada ("genialidade da natureza") como uma estratégia de marketing para esconder um ciclo de produção poluente, extrativista ou socialmente injusto.

Exemplos:
1. A Pintura "Sharklet" da Airbus
A Airbus desenvolveu extremidades de asas (winglets) inspiradas na forma das barbatanas de tubarão para reduzir o arrasto e poupar combustível. Chamaram-lhes, apropriadamente, "Sharklets".
O marketing: a empresa promoveu estes dispositivos como uma "revolução verde" na aviação, destacando a redução de 4% nas emissões de CO2
O greenwashing: embora a melhoria técnica seja real, usar a imagem do tubarão e da natureza para vender aviões é contraditório. O setor da aviação continua a ser um dos maiores emissores globais e o crescimento do número de voos anula completamente o ganho de 4%. 

2. A Sapatilha "Biosteel" da Adidas
Em 2016, a Adidas apresentou o protótipo Futurecraft Biofabric, uma sapatilha feita de Biosteel, uma fibra que imita a seda da aranha, desenvolvida pela empresa AMSilk.
O marketing: foi vendida como "100% biodegradável" e um exemplo de como a biotecnologia biomimética iria acabar com os resíduos têxteis.
O greenwashing: a sapatilha nunca chegou a ser produzida em massa de forma acessível. Funcionou como um objeto de relações públicas para posicionar a Adidas como líder em sustentabilidade, enquanto a marca continuava a inundar o mercado com milhões de toneladas de plástico virgem e sapatilhas de difícil reciclagem produzidas em cadeias de montagem globais com pegadas de carbono gigantescas.

3. O Edifício "The Gherkin" em Londres (Foster + Partners)
Este icónico arranha-céus foi desenhado com um sistema de ventilação inspirado na estrutura das esponjas-do-mar e das anémonas, que filtram a água para se alimentar e respirar.
O marketing: foi apresentado como o "primeiro arranha-céus ecológico de Londres", prometendo poupanças de energia de até 50% através da ventilação natural inspirada na biologia.
O greenwashing: na prática, o sistema de ventilação natural raramente é usado devido a restrições de segurança e conforto dos escritórios de luxo (os inquilinos preferem o ar condicionado controlado). Além disso, a construção de um gigante de vidro e aço no centro financeiro de Londres tem uma energia incorporada (custo de fabrico dos materiais) imensa. Usar a biologia marinha como metáfora para um centro do capitalismo financeiro é visto como um uso puramente estético e ideológico da natureza.

Outros casos e reflexões 

Conclusão
A biomimética é um caminho para a sustentabilidade porque nos ensina a produzir "como a vida produz". Mas, para ser sustentável na prática, a tecnologia inspirada na natureza tem de ser acompanhada por uma mudança no modelo económico: passar da extração para a regeneração. Isto é, todo o ciclo de produção integrado nos princípios da economia circular. 

Referências bibliográficas

terça-feira, 9 de julho de 2024

A biomimética é infinita – do velcro ao edifício Gherkin

O desenho da Torre Gherkin, em Londres, foi inspirado na esponja de cristal Euplectella aspergillum . Esta esponja especial possui um exoesqueleto em forma de treliça. 

O dicionário Priberam define a biomimética (de bio, “vivo” + mimético, “capaz de imitar”) como uma “área interdisciplinar que pretende utilizar na ciência os conhecimentos da estrutura biológica dos seres vivos”, acrescentando também que “biomimético” é aquele “que imita alguma coisa da natureza ou algum processo natural”. Por outras palavras, a biomimética consiste na aplicação do conhecimento sobre o mundo natural, principalmente ao nível da engenharia ou do design, para solucionar problemas ou suprir necessidades humanas. O termo, que substituiu outros mais antigos, foi cunhado por Otto Herbert Schmitt em 1957, na sua tese de doutoramento que apresentava um aparelho cujo funcionamento era baseado no funcionamento de um nervo de lula.

Desde quando existe a biomimética?
Podemos dizer que a biomimética sempre deve ter existido, pois o homem sempre se inspirou no que via na natureza para resolver problemas práticos. No entanto, a primeira figura que é descrita como tirando inspiração directa da natureza para desenvolver objectos é a figura semi-mitológica chinesa de Lu Ban, do fim da dinastia Zhou, por volta de 500 a.c., a quem é atribuído um sem número de invenções, incluindo a daserra, cuja inspiração seria proveniente de uma planta em que Lu Ban teria cortado acidentalmente a mão na borda em serrilha, percebendo então que poderia usar aquele padrão serrilhado para construir uma ferramenta que mais facilmente lhe permitisse cortar vários materiais.

Mais tarde, durante o Renascimento, Leonardo da Vinci cita explicitamente o voo das aves como inspiração directa para as suas máquinas voadoras, que nunca chegaram a ser construídas, fonte de inspiração essa que dizem ter sido comum também aos irmãos Wright que, no início do século XX, inventaram o primeiro avião controlado por um piloto.

Em 1851, Joseph Paxton cita as folhas dos nenúfares como inspiração para o padrão de vigas de metal cruzadas que suportam a estrutura do Palácio de Cristal construído para a Grande Exibição que ocorre nesse ano.

Quais são alguns exemplos relevantes da biomimética?
Muitos objectos que utilizamos no dia-a-dia tiveram inspiração directa da natureza. Uma das mais famosas é o velcro, uma invenção registada em 1955 pelo suíço Georges de Mestral que consiste em fitas de aspereza distinta que aderem uma à outra quando em contacto. O nome do invento entretanto tornado produto provém do francês velours (veludo) e de crochet (gancho) e teve como origem uma caçada em que o cão do futuro inventor ficou coberto de “ouriços”, pequenas sementes que aderem ao pelo dos animais a fim de se espalharem com mais eficiência. Mestral teve visão e decidiu, com sucesso, imitar o que observou na natureza.

Da mesma forma, um dos edifícios mais conhecidos de Londres, o Gherkin, teve como inspiração directa a esponja Euplectella aspergillum e o seu exoesqueleto silicioso (ver imagem no topo do artigo). Curiosamente, gherkin significa pepininho e a arquitectura do edifício da torre é apodada de neo-futurista, pós-moderna ou hi-tech.

Talvez se lembre também do sucesso da equipa olímpica de natação dos EUA nos Jogos Olímpicos de 2008, que conquistou 98% das medalhas possíveis, devida em grande parte aos seus fatos desenvolvidos com o apoio da NASA: estes tinham inspiração directa na pele dos tubarões, cujas escamas especializadas criam zonas de baixa pressão que aumentam a sua velocidade na água. Este material apresenta também propriedades físicas que fazem com que seja muito difícil a fixação de bactérias na sua superfície, o que o torna apetecível para, por exemplo, uso em hospitais.

No Zimbabwe, cientistas inspiraram-se nos sistemas de refrigeração naturais das termiteiras para construir edifícios que se autoarrefecem, poupando assim grandes quantidades de energia na refrigeração e, por isso, com efeitos ambientais positivos.

Em 2015, o microbiólogo holandês Henrik Jonkers desenvolveu uma solução inspirada no corpo humano para cimento auto-reparador, recorrendo à adição à massa de bactérias produtoras de calcário, que se tornam activas quando em contacto com água.

Que futuro para a biomimética?
Embora muitas invenções sejam fruto de processos biomiméticos, podemos dizer que ainda estamos no início de uma verdadeira revolução. As aplicações de replicação de processos ou soluções naturais aos problemas humanos são infinitas, e apenas limitadas pelo nosso conhecimento da natureza. No entanto, isto também reforça a importância da preservação da biodiversidade e do seu estudo: quantas soluções para os nossos problemas estarão já presentes na natureza, e quantas já terão desaparecido da face da Terra antes que sequer soubéssemos da sua existência?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Allan Savory's Holistic Management Theory Falls Short on Science



Our March/April cover story generated a passionate debate among our readers. Click here to read their letters to the editor and join the conversation.

Click here to read Jason Mark's letter from the editor with his thoughts on Allan Savory.

Before he became known as an apostate ecologist, Allan Savory was a soldier. Born in Zimbabwe to a family of British colonials, he commanded an elite government unit during the country's long, brutal civil war. He and his squad—men handpicked and trained by him—spent much of the 1960s fighting communist guerrillas in the veld, the savannas and grasslands where antelopes, elephants, and lions roam. It was hard, isolating, dangerous work. And it prepared him for the decades he has spent battling environmental orthodoxy, first as a farmer and rancher in Africa and then as an agricultural consultant in the United States.

Savory's apostasy is based on a controversial idea: that we need more cows—not fewer—grazing on the world's grasslands, prairies, and deserts, the arid and semiarid two-thirds of Earth's land surface where soil is especially susceptible to drying out and eroding as the climate warms and droughts worsen. This ruinous process is known as desertification, and it is estimated to be degrading an area the size of Pennsylvania worldwide each year. It ends with soil that has turned to dust.

Stopping desertification is Savory's obsession. He watched it spread across southern Africa over the course of decades, spawning poverty and migration, which contributed to war. Savory's big claim is that the science about desertification is wrong, notably the idea that cattle grazing always contributes to degradation in what he calls "brittle" landscapes. After laboring for years in relative obscurity, Savory eventually built up a significant international following. Today, according to Savory, tens of thousands of farmers and ranchers across the globe, managing some 40 million acres of land, adhere to his philosophy.

Savory's ideas catapulted into the mainstream in 2013, after he stood on a stage at the TED conference in Long Beach, California, and offered his grand theory about livestock. Savory told the audience that cows offered "more hope than you can imagine." The 22-minute talk was titled, ambitiously, "How to Fight Desertification and Reverse Climate Change." The presentation garnered millions of views—3,746,905 as of this writing—and quickly became notorious among scientists who study the ecology of grazing.

Savory's theory goes like this: Cows that are managed in the right way can replicate the beneficial effect on soil of the native herds that once covered the planet's grasslands. Wild herds lived in fear of predators, and for protection they traveled in tight bunches, moving quickly. If we keep cattle moving across the landscape to mimic this behavior, and if we preserve the ancestral grazer-soil relationship—the animals churning the soil with their hooves, fertilizing it with dung and urine, stomping grass, creating mulch, stimulating plant growth—we can re-green the arid lands and, at the same time, encourage soil microbes that eat carbon dioxide.

Savory's vision, in part, follows some of the emerging science of what's called soil carbon sequestration. With more grass and better topsoils, we can use biological processes to capture and store the carbon that drives global climate change. The most commonly recommended strategies for what's called "carbon farming" are adopting no-till or low-till methods; boosting soil organic matter with additions of compost; and better managing crop rotation, especially through the use of cover crops. Savory puts a twist on the idea by adding livestock to the mix and recommending that ranchers increase the number of cattle per acre.

In his TED Talk, Savory claimed that by deploying his method of "holistic management and planned grazing" to "take back" just half of the planet's arid grasslands, humanity could accomplish a stunning feat: the reduction of atmospheric carbon to preindustrial levels. "There is only one option—I'll repeat to you, only one option—left to climatologists and scientists," he told the audience, "and that is to do the unthinkable, and to use livestock, bunched and moving, as a proxy for former herds and predators, and mimic nature. There is no other alternative left to mankind."

The presentation offered a remarkable win-win vision: more cattle, more hamburgers to feed a growing population, more profit for stock growers. In the process, the planet gets healthier land that acts as a sink to absorb carbon, and climate change comes to a halt.

The audience erupted with cheering and whistling, and when the noise subsided, TED host Chris Anderson took the stage and told Savory that it was "an astonishing talk." Twitter echoed with the good news. Michael Pollan tweeted, "Eat MORE meat?" Discover magazine said it was "one of the most thought-provoking" TED presentations of the year. Michael Shermer, the founding publisher of Skeptic magazine, pronounced it "moral progress in climate change."

After Savory's breakout performance, the attention and the accolades kept coming. In 2015, Savory was the central subject in an episode of the PBS documentary series A New Wild. The series' host—M. Sanjayan, a well-respected researcher who is a senior scientist at Conservation International—visited Savory's Zimbabwe ranch and came away impressed. "Allan's results are spectacular," Sanjayan told PBS viewers, and "could revolutionize the way in which we live on the plains." Sanjayan continued: "Cows or wildlife, it actually may not matter that much. The message is an extraordinarily powerful one, and it could be the best thing—the absolute best thing—that conservation has ever discovered."

When I met with Savory last fall at his home in Albuquerque, New Mexico—from where he oversees the Savory Institute, a worldwide nonprofit enterprise—he had the same militarily erect posture that I'd seen in the TED video. It was the bearing of a man much younger than 81. His eyes were gleaming, lively, and critical, but his voice was soft, his manner reassuring, and his face handsomely weathered. We sat in his den next to a fireplace ornamented with the artifacts of war: a shrine of bullets and bayonets, worn rucksacks, old rifles. He compared himself, by sly inference, to Galileo. "For years we believed in a flat world, and now we know we're in a round world," he told me. "Now we're in another big paradigm shift. From reductionist management of the land to holistic management. From a mechanistic view to a holistic view."

Two hours later, things were not as pleasant. I'd come prepared with literature critical of his ideas and had been citing it. He rolled his eyes in exasperation and shook his head. He turned to his wife, Jody Butterfield, who is also his frequent coauthor and who had walked in to say hello. "Well, this is taking so very much longer than expected, because Chris"—he shot me a mischievous grin—"is just totally steeped in the conventional crap about cows, and I've had to go over and over this with him." Butterfield smiled and accepted this statement by saying nothing.

The counterevidence I had been referencing says this: When there are too many cows in places with intermittent or little rain, where the vegetation is brittle and the soil fragile, the animals spell trouble. Overgrazing denudes the soil and produces erosion, which leads to a landscape where plants can't revive and grow. At least 8.4 billion acres on the planet are grazed, and 73 percent of that land is suffering from some form of land degradation, according to the International Journal of Biodiversity. The problem is perhaps worst across arid lands where plants evolved with almost no exposure to large grazers, such as in the mountainous west of the United States—where Savory happens to live.

Cattle grazing produced such a transformation in the environment of the American West that its introduction, in the late 19th century, has been compared to a geologic event. Cattle have been implicated in the eradication of native plants, the loss of biodiversity, the pollution of springs and streams, the erosion of stream banks, the exacerbation of floods that carry away soil, the deforestation of hardwoods, and, in the worst cases, a reduction of living soil to lifeless dust. Two centuries of grazing on the Colorado Plateau catalyzed the most severe vegetation changes in 5,400 years, one study concluded. "The impact of countless hooves and mouths over the years," wrote the late environmental historian Philip Fradkin, "has done more to alter the type of vegetation and land forms of the West than all the water projects, strip mines, power plants, freeways, and subdivision developments combined."

Savory agrees that grazing as historically practiced has been disastrous. But this is only because stock growers and herdsmen have been ignorant of holistic management. "It was reductionist grazing they practiced, nothing of the holistic," he told me.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Holistic Management by Allan Savory


Savory’s core methodology, Holistic Management, is a time-tested framework for decision-making and grazing planning that is adaptable to anyone’s unique situation, while our Ecological Outcome Verification protocol provides the feedback to ensure your management is moving in the right direction.

O Holistic Management, desenvolvido por Allan Savory, é uma abordagem integrada de gestão de terras e tomada de decisões que procura restaurar ecossistemas, aumentar a produtividade agrícola e criar sistemas socioeconómicos resilientes. A base do método é a tomada de decisões holística, que obriga o gestor a considerar simultaneamente fatores ecológicos, económicos e sociais, avaliando sempre as consequências de longo prazo. Uma das componentes mais conhecidas é o manejo holístico de pastoreio, segundo o qual a degradação de muitas zonas áridas não resulta da presença de gado, mas sim da sua gestão inadequada. Savory defende que manadas densas, em movimento constante — imitando o comportamento dos herbívoros migratórios — podem estimular a regeneração da vegetação ao pisarem, fertilizarem e cobrirem o solo, desde que permaneçam em cada área por períodos muito curtos, seguidos de longos intervalos de descanso. Este tipo de gestão visa aumentar a cobertura vegetal, melhorar a infiltração da água, reduzir a erosão e reforçar a matéria orgânica do solo, contribuindo também para a captura de carbono. Para além dos aspetos ecológicos, o Holistic Management integra práticas económicas e sociais, promovendo uma visão completa dos custos, o envolvimento das comunidades e o desenvolvimento de competências locais. Apesar de existirem relatórios de campo positivos, sobretudo em ambientes semiáridos, o método é alvo de controvérsia científica, com estudos que apoiam os seus benefícios e outros que questionam a validade dos resultados ou alertam para riscos de sobrepastejo. Em suma, o Holistic Management propõe um modo de gerir terras e sistemas produtivos que procura alinhar a ecologia com a economia e a cultura, orientando decisões de forma sistémica e contextualizada.

Os 4 pilares desta teoria são: 
1. A natureza funciona como um todo integrado
Ecossistemas, economia e sociedade estão interligados; nenhuma decisão pode ser entendida isoladamente. Tudo está conectado e qualquer intervenção terá efeitos múltiplos, diretos e indiretos.

2. A importância do contexto
A mesma prática agrícola ou ambiental pode ter resultados completamente diferentes dependendo do contexto ecológico, social e económico. Assim, decisões devem ser tomadas tendo sempre em conta um contexto holístico, definido previamente.

3. O papel crítico dos grandes herbívoros e dos predadores
Savory argumenta que, em ambientes de zonas áridas e semiáridas, a interação entre grandes herbívoros em movimento e predadores é essencial para a saúde do solo. O pastoreio deve imitar esse ciclo natural: animais em alta densidade, movendo-se frequentemente.

4. O tempo, e não o número de animais, é o fator central
Segundo Savory, a degradação não resulta principalmente da quantidade de gado, mas do tempo de exposição do solo ao pastoreio e, sobretudo, do tempo de recuperação das plantas. O manejo deve focar-se no ritmo de pastoreio e descanso.