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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ondas de calor desencadeiam “relação tóxica” entre ervas marinhas e microrganismos


As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes devido ao aquecimento contínuo do planeta, são já consideradas das maiores ameaças atuais à biodiversidade dos mares e dos oceanos por toda a Terra.

Uma investigação recente revela que os efeitos desses fenómenos não se limitam apenas a gerar águas mais quentes, mas que causam alterações importantes nas relações entres seres vivos que podem ter consequências nefastas para todo o ecossistema.

Quatro cientistas das universidades australianas de Sydney e da Nova Gales do Sul dizem que o stress térmico causado pelas ondas de calor marinhas desencadeia uma “relação tóxica” entre as ervas marinhas e “um ecossistema oculto de bactérias” que com elas normalmente coexiste, num arranjo que beneficia ambas as partes.

Tal como os microrganismos nos solos em terra firme são fundamentais para a vida das plantas, ajudando-as a manter-se saudáveis e a adquirir nutrientes, também na água as bactérias que vivem no leito aquático desempenham um papel semelhante em relação às ervas marinhas. Essas são plantas que vivem na água do mar e que dão flor, podendo formar extensas pradarias que servem de refúgio a muitos animais, purificam a água e ajudam a sequestrar carbono.

No que descrevem como uma “experiência de jardinagem subaquática”, os investigadores encontraram um ecossistema bacteriano de grande diversidade no solo e em torno das raízes das ervas marinhas. Num artigo publicado na ‘New Phytologist’, explicam que o aumento da temperatura da água, como durante uma onde de calor marinha, faz proliferar bactérias conhecidas por produzirem ácido sulfídrico, um composto que dizem ser tóxico para as ervas marinhas e que pode limitar o seu crescimento.

“Embora as ervas marinhas possam, à primeira vista, parecer bem, o que encontrámos no subsolo, em condições de temperatura elevada, revela uma realidade bem diferente”, avisa Renske Jongen, primeira autora do estudo.

“Sob stress térmico, as comunidades microbianas em torno das raízes das ervas marinhas alteram-se de formas que podem prejudicar a planta em vez de ajudá-la.”

domingo, 29 de março de 2026

Beata Belanszky-Demkó

O Brilho, 2023

Beata Belanszky-Demkó é uma artista plástica contemporânea de nacionalidade húngara, cuja trajetória de vida e formação académica refletem uma profunda dedicação às artes visuais. Nascida em 1976 na cidade de Satu Mare, na Roménia, no seio da comunidade húngara da Transilvânia, mudou-se para a Hungria em 1990. Foi neste país que consolidou o seu percurso escolar e artístico, tendo frequentado a Escola Secundária de Artes Visuais e Aplicadas de Budapeste, uma instituição de referência onde aprofundou as bases do desenho e da composição.

A sua formação académica prosseguiu a nível superior na Universidade de Óbuda, em Budapeste, onde se licenciou em Design Industrial. Esta base técnica e estruturada confere à sua obra uma compreensão singular da forma e do espaço, que mais tarde fundiu com a liberdade da pintura. Embora tenha formação em design, Beata optou por dedicar-se inteiramente às belas-artes, desenvolvendo um estilo que oscila entre o impressionismo moderno e a abstração lírica.

Atualmente a residir em Sóskut, a artista utiliza predominantemente a técnica da espátula e tintas a óleo para criar paisagens e figuras humanas que primam pela harmonia cromática e pela exploração da luz. O seu currículo inclui inúmeras exposições individuais e coletivas, sendo membro ativo de diversas associações de artistas, o que reforça o seu papel no panorama artístico húngaro contemporâneo.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Espetacular vitória dos ecologistas galegos: a Junta da Galiza rejeita o projeto da multinacional portuguesa Altri de construir uma celulose em plena Galiza verde


O governo da Galiza negou a autorização ambiental à Altri devido à recusa do governo central em conectar a fábrica de celulose à rede elétrica.

O governo de Alfonso Rueda admite que o projeto de uma fábrica de celulose em Palas de Rei (Lugo) é inviável, após o governo central tê-lo excluído do planejamento energético do estado.

Várias pessoas seguram cartazes após uma performance em Palas de Rei (Lugo) organizada na primavera passada por moradores contrários à Altri, juntamente com a construtora Concomitentes. 

O governo da Galiza decidiu não aprovar a autorização ambiental integrada para o projeto de macrocelulose que a multinacional de papel Altri e a empresa galega de eletricidade Greenalia pretendiam instalar na cidade de Palas de Rei, em Lugo, e que nos últimos anos provocou a maior reação social vista na Galiza desde o desastre da fábrica Prestige, em 2002.

A informação foi anunciada na sexta-feira pela Ministra da Economia e Indústria do Governo de Alfonso Rueda , María Jesús Lorenzana , que se baseou na inviabilidade do projeto da empresa dirigida por José Soares de Pina, após o Governo de Pedro Sánchez ter excluído a Altri, no ano passado, dos seus planos de desenvolvimento energético para os próximos anos, privando-a, assim, da ligação à rede elétrica necessária para o seu funcionamento.

"Cabia ao governo central fornecer a ligação à empresa. O arquivamento [do processo] e sua expiração estão ligados à falta de ligação; se não houver ligação à subestação, o projeto é arquivado ", afirmou Lorenzana, acrescentando que considera "difícil" reviver a ideia da fábrica de celulose de Palas porque a próxima revisão do planeamento energético do Estado só ocorrerá em 2030.

O governo galego (Xunta) tomou a sua decisão após meses de protestos em torno de um projeto que o governo de Alberto Núñez Feijóo tentou disfarçar como uma fábrica de fibras têxteis ecológicas, mas que causou indignação na sociedade galega quando se descobriu que se tratava de uma fábrica de celulose convencional, a ser instalada numa área protegida junto a um sítio Natura 2000 e ao Caminho de Santiago, que emitiria gases e partículas tóxicas através de uma chaminé de 75 metros, equivalente às emissões de CO2 de 21.500 carros , e que extrairia 46 milhões de litros de água do rio Ulla, dos quais 30 milhões de litros, purificados mas ainda contaminados, seriam devolvidos ao aquífero que desagua no estuário do rio Arousa .

Apesar de tudo, o governo galego (Xunta) emitiu um parecer favorável sobre o impacto ambiental da Altri no ano passado , um primeiro passo que foi posteriormente condicionado à exclusão do projeto do financiamento europeu através de fundos de descarbonização que a multinacional procurava. A Ministra da Indústria, Rueda, também indicou que "esta semana" informou a empresa de que ela tem três meses, o prazo legalmente estipulado, para "justificar a ligação" que apresentou na proposta do projeto, a qual o governo central negou. Caso não o faça, " o arquivamento formal do processo da Altri será automático ".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Dia Mundial das Zonas Húmidas: Expansão agrícola e urbana, alterações climáticas e invasoras continuam a pressionar estes ecossistemas vitais


Ambientes aquáticos costeiros ou interiores que albergam uma grande diversidade de formas de vida, que fornecem uma série de serviços críticos para o bom funcionamento dos ecossistemas e para a sobrevivência de humanos e não-humanos. Contudo, estão gravemente ameaçados, sobretudo devido à forma como temos lidado com eles, e a sua degradação custar-nos-á caro.

Para quem ainda não percebeu, falamos de zonas húmidas, pois esta segunda-feira, dia 2 de fevereiro, assinala-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas. Esta efeméride foi estabelecida com a adoção da Convenção de Ramsar, em vigor desde 1975, e que tem como missão basilar a conservação desses habitats, vitais para humanos e não-humanos, para a diversidade biológica e sociocultural, e também eles muito diversos.

As zonas húmidas podem ser pântanos, charcos, ou turfeiras, naturais ou artificiais, de água estagnada ou corrente, de água doce, salobra ou salgada, incluindo áreas de água do mar cuja profundidade não seja superior a seis metros. Além disso, podem incluir zonas ribeirinhas ou costeiras que a elas sejam adjacentes, como “ilhéus ou massas de água marinha com profundidade superior a seis metros durante a maré baixa”, especialmente de forem importantes como habitats para aves marinhas.

Apesar de apenas cobrirem 6% da superfície da Terra, estimativas apontam para que cerca de 40% de todas as espécies de animais e de plantas dependem das zonas húmidas, para viverem, para se alimentarem e para se reproduzirem.

Um estudo publicado em 2023 na ‘Nature’ revelava que, entre 1700 e 2020, o mundo perdera cerca de 21% das suas zonas húmidas devido às atividades humanas, uma extensão perto dos 3,4 milhões de quilómetros quadrados. Essas perdas foram sobretudo causadas pela conversão das zonas húmidas em áreas agrícolas, mas também pela poluição, pela expansão urbana e industrial e pelo turismo insustentável.Stanford-led study finds global wetlands losses overestimated despite high losses in many regions

À Green Savers, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) explica que, quando a essas ameaças juntamos os efeitos das alterações climáticas, “o cenário torna-se, de facto, mais preocupante”.

Por provocarem secas cada vez mais frequentes e intensas, as alterações climáticas são apontadas como umas das principais ameaças às zonas húmidas. Quando esses habitats, como as turfeiras, perdem a água que lhes dá vida, o carbono aí armazenado ao longo de muitos anos no solo e na biomassa pode acabar por libertar-se na atmosfera, “contribuindo de forma significativa para um aumento das emissões globais de dióxido de carbono” e também para a crise climática.

Atualmente, aproximadamente 25% das espécies que dependem das zonas húmidas (para se reproduzirem, para se alimentarem, como pontos de paragem importantes durante migrações) estão ameaçadas de extinção, diz o ICNF. E se a destruição desses habitats não for travada e se não se recuperar dos danos causados, essas espécies enfrentarão um risco ainda maior.

As zonas húmidas em Portugal
Em Portugal, as zonas húmidas estão também a sofrer uma série de pressões, à semelhança do que se passa no resto do mundo.

Diz-nos o ICNF que, de acordo com dados comunicado pelo país à Comissão Europeia no ano passado relativos ao período entre 2019 e 2024, 58,7% dos habitas de zonas húmidas de Portugal continental e regiões autónomas estão em bom estado de conservação. Em sentido inverso, 31,7% estão avaliados como em mau estado de conservação.

Por cá, as principais ameaças às zonas húmidas são a fragmentação, degradação e destruição, especialmente devido à intensificação da agricultura e da silvicultura, à expansão urbana e à “crescente pressão turística”, explica o instituto. A agravar esses fatores está a introdução de espécies exóticas invasoras “que afeta a estrutura das comunidades biológicas nativas destes ecossistemas”, e, claro, as alterações climáticas são mais um prego no caixão.

Portugal tem 32 zonas húmidas protegidas ao abrigo da Convenção de Ramsar, com uma área total combinada de perto de 134.000 hectares. A Lagoa de Óbidos foi a mais recente adição à lista portuguesa de Sítios Ramsar, com cerca de 6,9 quilómetros quadrados e fazendo fronteira com os concelhos de Caldas da Rainha e de Óbidos.

O ICNF assegura que quase todas as zonas húmidas listadas da Convenção de Ramsar estão sujeitas a algum tipo de proteção legal, seja por serem parte da Rede Nacional de Áreas Protegidas, por serem Zonas de Proteção Especial no âmbito da Diretiva Aves da União Europeia ou Zonas Especiais de Conservação da Diretiva Habitats, por estarem sujeitas aos Planos Diretores Municipais ou ainda por estarem incluídas nas reservas agrícola ou ecológica nacionais.

No relatório nacional submetido em fevereiro do ano passado à 15.ª Conferência das Partes (COP15) da Convenção de Ramsar, que aconteceu em Victoria Falls, no Zimbabué, Portugal diz que entre a COP15 e a COP14, de 2022, conseguiu-se aumentar a consciência das populações e das autoridades locais para o valor das zonas húmidas e para a sua importância na adaptação e mitigação das alterações climáticas.

O documento aponta ainda como conquistas nesse período de três anos o aumento do número de eventos e atividades realizados todos os anos no país para celebrar o Dia Mundial das Zonas Húmidas, o “aumento significativo” do número de projetos implementados de restauro de zonas húmidas, a crescente valorização da dimensão sociocultural e histórica desses habitats e o maior número de ações para gerir e controlar espécies invasoras que ameaçam esses ecossistemas.

Entre as principais dificuldades na implementação da convenção entre 2022 e 2025 Portugal indicou a falta de planos de gestão para a maioria dos Sítios Ramsar no país, a falta de um inventário nacional das zonas húmidas, o aumento dos impactos das alterações climáticas, o aumento da agricultura intensiva em algumas zonas do país e a “rápida expansão” das espécies invasoras.

Para o biénio 2026-2028, Portugal elencou como prioridades a continuação da gestão das invasoras, o desenvolvimento do inventário nacional, a criação de um órgão equivalente a uma comissão nacional das zonas húmidas e o reforço do envolvimento da população na conservação desses ecossistemas.

As pessoas e as zonas húmidas

O tema do Dia Mundial das Zonas Húmidas deste ano pretende destacar a íntima e longeva ligação entre as culturas humanas e esses habitats aquáticos, especialmente salientando os serviços culturais por eles prestados aos humanos.

“As pessoas coexistem com as zonas húmidas desde a pré-História, aproveitando os serviços que elas prestam, e desenvolvendo um valioso conhecimento tradicional”, diz-nos fonte do ICNF. Durante milénios, essa coexistência permitiu à nossa espécie desenvolver um amplo conhecimento tradicional, transmitido de uma geração para a seguinte, que sobre os aspetos mais científicos das zonas húmidas, mas também sobre as dimensões éticas e espirituais.

Esse saber alicerçado na convivência e interligação com esses habitats, e com a vida que neles se encontra, permitiu “uma gestão sustentável dos recursos naturais fornecidos pelas zonas húmidas ao longo de milhares de anos”, afirma o instituto, que considera que devemos olhar para o passado, aprender com aqueles que vieram antes de nós, para tentar solucionar os problemas com os quais nos deparamos no presente.

“A integração destas práticas e tradições ancestrais nas estratégias de conservação atuais é essencial para obter soluções eficazes, inclusivas e duradouras”, argumenta o ICNF, destacando como fundamental o envolvimento das comunidades locais e a valorização e aproveitamento do seu conhecimento e experiência para proteger, conservar e restaurar as zonas húmidas.

“Os conhecimentos locais, bem como a ciência cidadã, já são recursos inestimáveis para se conhecer o estado das zonas húmidas.”

Por tudo isso, a continuação da perda de zonas húmidas ameaça a sobrevivência de muitas espécies de plantas e de animais que delas dependem, põe em risco a subsistência de diversas comunidades humanas que nelas encontram a sua principal fonte de sustento, como pescadores e mariscadores, e podem fazer desaparecer tradições e costumes de séculos ou de milénios de existência, como festas e romarias, que ainda hoje são celebradas e que têm as zonas húmidas no seu cerne.

“A perda e degradação das zonas húmidas agrava o problema da perda da biodiversidade e coloca em risco as espécies dependentes destes habitats”, diz-nos o ICNF, e “ameaça não só a subsistência das suas comunidades locais, como também a sua identidade cultural”.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

O novo relatório Global Wetland Outlook 2025 apela a ação urgente para conservar as zonas húmidas


Principais conclusões

1. Perda e degradação em curso
Desde 1970, o mundo perdeu cerca de 22 % das zonas húmidas, o que equivale a 411 milhões de hectares, com uma taxa média anual de perda de 0,52 % ao ano .
Aproximadamente 25 % das zonas húmidas remanescentes já estão em pobre estado ecológico 

A degradação é mais severa em África, América Latina e Caraíbas, mas também em aceleração na Europa, América do Norte e Oceânia 

2. Valor económico colossal – mas vulnerável
Embora ocupem apenas cerca de 6 % da superfície terrestre, as zonas húmidas contribuem com até 7,5 % do PIB global, estimado entre 8 e 39 triliões de dólares por ano em serviços (filtragem de água, controlo de cheias, sequestro de carbono, pesca, cultura, etc.) 

Estima-se que a redução desses serviços até 2050 possa representar uma perda económica total acumulada (NPV) superior a 205 triliões USD, caso os ecossistemas sejam geridos de forma eficaz até lá 

3. Causas principais da degradação
A transformação das terras (agricultura, desenvolvimento urbano e infraestruturas) é o principal fator de perda nas zonas húmidas — especialmente em África, América Latina e Caraíbas 

Noutras regiões, os fatores dominantes variam: espécies invasoras na América do Norte e Oceânia; seca e alterações climáticas na Europa 

A mudança climática — subida do nível do mar, alterações hidrológicas, branqueamento de corais e secas — está a intensificar perdas e riscos 

4. Investimentos actuais insuficientes
O financiamento mundial para a conservação da biodiversidade representa apenas 0,25 % do PIB global, muito aquém do necessário 

O relatório sugere que são necessários entre 275 e 550 mil milhões de dólares por ano para travar a perda de zonas húmidas e promover a sua restauração sustentável 

Exemplos de sucesso: o projecto dos Kafue Flats (Zâmbia) começou com 300 000 USD e já entrega 1 milhão anual, suportando 1,3 milhões de pessoas — e um fundo regional de 3 mil milhões USD em rotas de migração de aves na Ásia, restaurando mais de 140 zonas húmidas 

5. Quatro caminhos estratégicos para a mudança
Integrar o valor das zonas húmidas no planeamento nacional, considerando-as como infraestrutura natural essencial (zonamento estratégico, regulação da água, políticas agrícolas) 

Reconhecer o papel central das zonas húmidas no ciclo hídrico global, valorizar a sua função de armazenamento e filtragem de água

Incorporar zonas húmidas nas finanças climáticas e da biodiversidade, usando instrumentos como créditos de carbono, obrigações resilientes e financiamento misto público‑privado 

Mobilizar investimentos públicos e privados para conservação e restauração, com capacidade local e participação comunitária nos projetos 

6. Custos e benefícios da gestão
Proteger zonas húmidas saudáveis é mais económico do que restaurar zonas degradadas: restauração pode custar entre 1 000 e 70 000 USD por hectare por ano, enquanto preservação requer menos recursos

O retorno estimado para cada dólar investido em restauração está entre 5 a 35 USD em benefícios ecológicos e sociais 

O relatório pode ser descarregado aqui


quarta-feira, 10 de abril de 2024

Poema - Saga

Saga
"No vasto palco do céu,
Uma saga de nuvens se desenrola,
Como actores dançantes num teatro celestial.
Cada nuvem, um poema em movimento,
Sussurrando segredos aos ventos,
Carregando consigo o aroma da terra molhada.
O terreno abaixo, um tapete a esperar,
A limpeza purificadora do ar,
Onde cada partícula de pó é abraçada pela chuva.
Gotas de cristal, como mensageiras do céu,
Caindo num ritmo suave e constante,
Desenhando linhas de vida nos campos sedentos.
E o céu, muitas vezes de chumbo,
Um aviso solene da tempestade iminente,
Mas também um convite para a contemplação serena.
Nas margens dos rios e mares,
Onde a água se mistura com o horizonte,
A poesia encontra sua morada eterna.
Assim é a dança cósmica da natureza,
Uma sinfonia de elementos entrelaçados,
Que inspira os poetas a tecerem as suas palavras."
Poema e foto de João Soares - 09.04.2024

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Organizações ambientalistas reivindicam 15 medidas urgentes pela água


Mais de 70 organizações de seis movimentos ambientalistas, de norte a sul do país, apresentaram esta quinta-feira um manifesto reivindicativo que apela aos partidos políticos para que olhem para 15 medidas consideradas urgentes para proteção dos rios e da água.

"Aquilo que se pretende é efetivamente pôr na agenda política as questões da gestão da água e do uso eficiente da água, por forma a que esse recurso, que é finito, seja bem usado e para aquilo que é efetivamente necessário", disse à Lusa Paulo Constantino, porta-voz do Movimento pelo Tejo -- proTEJO, com sede em Vila Nova da Barquinha (Santarém).

Segundo alertou o dirigente, "as práticas que se vislumbram e que têm vindo a ser propostas conduzirão ao seu esgotamento e a uma escassez contínua por um excessivo consumo".

Entre as 15 reivindicações apresentadas, a poucas semanas das eleições legislativas de 10 de março, estão, por exemplo, medidas de combate à seca, de proteção de rios e águas subterrâneas, ou contra os transvases e construção de novas barragens, açudes e dessalinizadoras.

"Não pode haver ofertas ilimitadas de água", afirmou Constantino, tendo defendido a importância de "gerir as necessidades e as disponibilidades de água em cada bacia hidrográfica, satisfazendo as necessidades humanas e as necessidades ecológicas".

'Não aos transvases entre bacias hidrográficas' é a primeira reivindicação que consta num documento que os signatários enviaram na quarta-feira aos partidos políticos com assento parlamentar na Assembleia da República e a que a Lusa teve acesso.

Na lista de 15 reivindicações apresentadas, divididas entre o sim e o não, do lado a combater, segundo os signatários, está o "não aos transvases entre bacias hidrográficas, ao desperdício de água, aos projetos sustentados num aumento do consumo de água (dessalinizadoras, barragens), à construção da dessalinizadora do Algarve, e "à proliferação de barragens e açudes".

Do lado positivo elencam o "sim à proteção das águas subterrâneas, ao cumprimento integral e urgente da legislação comunitária e nacional (Diretiva Quadro da Água, Lei da Água) e à implementação urgente das medidas previstas nos Planos de Bacia Hidrográfica (PGRH), à definição e implementação rigorosa de regimes de caudais ecológicos", e à "implementação de processos de recuperação ecológica".

Ainda do lado positivo está o "sim ao efetivo controlo físico-químico e biológico dos efluentes libertados nos meios hídricos", à redução dos valores limite de emissão dos efluentes libertados pelas estações de tratamento, à definição de políticas eficazes no sentido de regulamentar a proliferação de monoculturas, à disseminação da informação 'online' de acesso livre, a uma estratégia de desenvolvimento conduzida por planos nacionais de restauro fluvial, de eliminação de barreiras transversais, de erradicação de invasoras e de eficiência hídrica a par do "desenvolvimento de programas que de uma forma massiva combatam a iliteracia ecológica".

Os movimentos ambientalistas pedem a "introdução destas questões na campanha eleitoral", e a "observação de um discurso com pensamento estratégico que represente um projeto viável de ação coletiva e individual responsável e com sentido de justiça intergeracional".

As 15 reivindicações pelos rios e pela água são subscritas por mais de 70 organizações nacionais e locais - que incluem Organizações Não Governamentais (ONG, ONGA, associações e municípios -, bem como cidadãos a título individual que fazem parte de seis movimentos com representatividade nas principais bacias hidrográficas do país (AMORA, Mondego Vivo, #MovRioDouro, MUNDA, PAS e proTEJO).

"(...) Chegámos à situação que nos coloca no limiar da sobrevivência face à rapidez das alterações climáticas e, em particular, face à degradação da quantidade e qualidade das águas superficiais e subterrâneas e respetivos ecossistemas", alertam os movimentos subscritores, num documento em que pedem aos decisores políticos para se "agir prioritariamente sobre as causas como forma de combater os efeitos".
Fonte: DN

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

"Maré de plástico" em praias do Norte de Espanha pode chegar a Portugal na primavera


O investigador Bordalo e Sá considerou esta terça-feira que as autoridades devem vigiar a costa e “implementar um plano de contingência desenhado à medida” da “maré de plástico” das praias do Norte de Espanha que pode afetar Portugal. Tal como noticiou a CNN Portugal, a Autoridade Marítima Nacional está a preparar plano de ação, que envolve várias entidades, para remover os objetos caso cheguem à costa portuguesa.

“Neste momento as correntes dominantes são para norte. É provável que estas partículas cheguem a Portugal lá para a primavera, quando mudar a direção das correntes, e se não tiver dado à costa todo o conteúdo [dos contentores que transportavam o plástico] que caiu ao mar, embora com um impacto menor. O primeiro passo será acionar a vigilância das praias, usando também a sociedade civil, e o segundo passo será implementar um plano de contingência desenhado à medida e supervisionado”, explicou o hidrobiólogo da Universidade do Porto, em declarações à Lusa.

Bordalo e Sá observou que o granulado, usado como matéria-prima para produtos de plástico (designado por ‘pellets’ ou ‘nurdles’, em inglês), facilmente se transforma em nanoplástico, chegando à cadeia alimentar de peixes e bivalves e, consequentemente, à dos seres humanos, desconhecendo-se ainda todos seus os impactos.

As regiões do Norte de Espanha, da Galiza ao País Basco, ativaram ou elevaram hoje alertas ambientais por causa de toneladas de minúsculas bolas de plástico que caíram ao mar em dezembro em águas portuguesas.

Considerando que as praias do Norte espanhol estão perante “uma maré de plástico”, Bordalo e Sá notou que o problema está a ser enfrentado por “autoridades muito dinâmicas, porque Espanha é um país descentralizado”.

No caso português, “os primeiros 1.800 metros de mar da costa portuguesa integram os planos de bacias hidrográficas”, pelo que “deviam estar sob a alçada das administrações hidrográficas regionais, mas estão centralizados em Lisboa”.

“O grosso do conteúdo [das partículas de plástico] irá parar à Galiza e há de chegar a França. Temos a experiência da tragédia de Entre-os-Rios [em 2001, várias pessoas morreram na sequência da queda de uma ponte e houve corpos encontrados na Galiza e em França]. Mas sem dúvida que podem chegar a Portugal”, alertou.

Em causa estão, nas praias espanholas, “esferas de cinco milímetros de plástico” que facilmente se partem, passando a “microplásticos, quando tiverem menos de um milímetro, e depois ainda se fracionam mais, em nanoplásticos, do tamanho de micróns, e aí está o problema”, continuou.

“Essas partículas nano vão sendo progressivamente colonizados por seres vivos que se depositam à sua volta e, devido ao odor, muitos peixes vão pensar que é alimento e os bivalves vão filtrá-los indiscriminadamente”, descreveu.

O especialista notou ainda que “a perda dos contentores, que não é tão rara quanto isso, não foi junto da costa”, mas “numa das vias marítimas mais congestionadas do mundo”, o que faz com que o Norte de Portugal e a Galiza sejam “zonas altamente vulneráveis a acidentes no mar”.

Segundo informações divulgadas pelo governo espanhol, o armador do barco que em 08 de dezembro perdeu contentores da carga que transportava, a 80 quilómetros de Viana do Castelo, disse que caíram ao mar mais de mil sacos com cerca de 26,2 toneladas destas bolas com cerca de cinco milímetros de diâmetro, usadas para fabricar plásticos e que estão agora a dar à costa no norte de Espanha.

As informações anteriores, conhecidas até segunda-feira, estimavam 15 toneladas de bolas de plástico dentro de um dos contentores perdidos pelo barco.

Nos outros contentores caídos ao mar (pelo menos mais cinco) havia pneus, rolos de película aderente e barras de alumínio, segundo as informações fornecidas pelo armador do barco às autoridades espanholas.

Os primeiros sacos com as bolas de plástico foram identificados em 13 de dezembro em praias da Galiza, na fronteira com o Norte de Portugal.

No entanto, foi no final da semana passada que começaram a chegar à costa da Galiza, em quantidade, as bolas de plástico dispersas, fora de sacos.

Saber mais:

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

A amêijoa-japónica do Tejo, uma “experiência” que pode ser letal


Sacos de amêijoas de japonica apreendidos de uma rede criminosa durante uma operação em Maio de 2021

A amêijoa-japónica foi introduzida nas águas portuguesas do Tejo e do Sado como uma “experiência ambiental” para purificar “mercúrio, chumbo e cádmio”. Atualmente, esta espécie invasora, tóxica para os humanos, chega aos consumidores em Portugal e Espanha através de redes de caça furtiva.

A amêijoa-japónica absorve as biotoxinas das águas dos rios lisboetas, um vestígio de um passado industrial que se tornou agora num “problema de saúde pública”, explica à Efe o chefe da Divisão Técnica Ambiental da Guarda Nacional Republicana (GNR), o tenente-coronel Ricardo Vaz Alves.

Apesar da sua elevada toxicidade, pode ser consumida caso tenha sido sujeita a níveis adequados de purificação mas, na sua maioria, é obtida furtivamente, é frequentemente mal descontaminada e intoxica o consumidor, causando graves consequências que podem até levar à morte.

O problema tem crescido nos últimos anos. As redes de caça furtiva que traficam a amêijoa-japónica chegam a capturar até 14 toneladas por dia. Após um processo de limpeza insuficiente e documentos falsos, as amêijoas podem acabar em supermercados em Espanha e Portugal, apesar de não estarem aptas para consumo sem o tratamento adequado.

Experiência fracassada
“Foram introduzidas artificialmente para filtrar a toxicidade” da água, diz Vaz Alves sobre a ideia de que os bivalves reteriam nos seus corpos o mercúrio, chumbo, cádmio e biotoxinas presentes no estuário.

Esta “experiência” levou a amêijoa-japónica até ao Tejo, na sua passagem por Lisboa, e até ao rio Sado, em Setúbal, a cerca de 40 quilómetros da capital.
A eliminação é agora “quase impossível”, reconhece o tenente-coronel da GNR.

O desmantelamento do tráfico deste bivalve é “um foco prioritário” para as autoridades de Portugal e Espanha, razão pela qual a GNR e o Seprona, o serviço de proteção da natureza da Guarda Civil espanhola, estão a trabalhar em conjunto para pôr fim a este crime.

Numa das suas últimas operações, em maio passado, foram apreendidas 1,5 toneladas de amêijoa-japónica impróprias para consumo. Este é apenas um exemplo, uma vez que as rusgas se repetem ao longo de todo o ano.

Mesmo frente a Lisboa, na outra margem do Tejo, nas bacias do Seixal, Barreiro e Montijo, estima-se que existam 1.400 pescadores a colher amêijoas ilegalmente, segundo dados da GNR.

As imediações da ponte Vasco da Gama, a mais longa da Europa, que liga Lisboa a Alcochete, do outro lado do Tejo, é um dos locais mais frequentados pelos caçadores furtivos.

“Não são só os marisqueiros, há toda uma cadeia acima”, diz Vaz Alves, que explica que na operação conjunta com o Seprona foram apreendidos “carros de muito valor”, o que leva as forças de segurança a acreditar que o tráfico de bivalves é apenas uma “atividade paralela” destas organizações criminosas.

Alta toxicidade
Sob a ponte Vasco de Gama, as águas do Tejo têm um elevado nível de toxicidade, atingindo a “classe C”, de acordo com o instituto meteorológico português. O rio Sado, porém, tem menos poluição, categoria B, o que significa que “o nível de purificação e tratamento é muito mais barato e mais simples”, explica Vaz Alves.

Uma prática comum dos caçadores furtivos é “adulterar a origem” das amêijoas, ou seja, apanhá-las no Tejo e certificar que são do Sado, a fim de seguir um nível inferior de purificação.

A maior parte das capturas é transportada por intermediários para Espanha, principalmente para os portos de Vigo e Pontevedra, onde é entregue em estabelecimentos de aquacultura.

Muitos destes estabelecimentos “conhecem a origem dos bivalves”, segundo a GNR, e para os adquirir precisam que o documento de registo indique a “classe B”.

As redes criminosas falsificam os documentos de registo e as amêijoas partem para Espanha em carrinhas preparadas que fazem movimentos quase diários.

Desde Espanha são comercializadas para toda a Europa.

Em Portugal “não temos nenhuma instalação para fazer o tratamento de categoria C, todas as amêijoas do Tejo devem partir para Espanha ou outros países para poderem ficar aptas para consumo humano”, explica Vaz Alves, que defende que o controlo seria “mais eficaz” se o tratamento de classe C estivesse disponível no país luso.

Esta experiência de limpeza das águas industriais transformou-se num autêntico “problema de saúde pública”, resume.

E-livro:

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

UE chega a acordo sobre a Lei do Restauro da Natureza


O Parlamento, o Conselho e a Comissão da UE chegaram, no dia 9 de novembro, a um acordo sobre a Lei do Restauro da Natureza, que pretende recuperar 30% dos ecossistemas terrestres e marinhos degradados até 2030, e a totalidade desses habitats até 2050.

Esta Lei faz parte de uma proposta lançada pela Comissão Europeia em dezembro de 2022 para ir ao encontro dos acordos sobre biodiversidade alcançados na COP15 das Nações Unidas.

“É a primeira lei na Europa que não só protege a natureza como também a recupera, porque sabemos que estamos a perder, todos os anos, muitas espécies e habitats na Europa. Precisamos de contrariar esta situação, precisamos de recuperar a natureza”, disse à Euronews, o eurodeputado francês Pascal Canfin.

Até 2030, deverão ser plantadas três mil milhões de árvores e 25 mil km de cursos de água deverão ser limpos e voltar a correr livremente.

Uma das flexibilidades que foram introduzidas para finalizar o acordo foi o facto de se dar prioridade ao restauro das zonas da rede Natura 2000.

De acordo com dados da UE, 80% dos habitats naturais encontram-se num estado de conservação “mau ou medíocre” (como as turfeiras, dunas e prados) e até 70% dos solos estão em mau estado de conservação.


Ambientalistas resignados com concessões
Já as organizações não-governamentais ambientalistas congratulam-se com o acordo, mas lamentam o enfraquecimento das ambições e consideram que houve demasiadas concessões.

"A Comissão Europeia pode paralisar a aplicação do acordo durante um ano, em caso de crise de segurança alimentar, o que não faz qualquer sentido, uma vez que a ameaça à segurança alimentar tem origem no clima e no colapso dos ecossistemas. Quanto mais nos preocupamos com a segurança alimentar, mais urgente se torna a recuperação da natureza", explicou, à euronews, Ariel Brunner, diretor regional da BirdLife Europe.

Para Tatiana Nuno, responsável sénior pela política marinha da associação ambientalista Seas At Risk, o acordo "fica muito aquém do que é necessário para enfrentar a crise da biodiversidade, mas no que diz respeito ao oceano é um passo crucial para restaurar a preciosa vida marinha que este suporta".

Vera Coelho, vice-presidente adjunta da Oceana na Europa, afirmou: "Embora consideravelmente enfraquecidas pelo Conselho, as disposições relativas às pescas na lei representam uma tentativa, há muito esperada, de alinhar as políticas ambiental e das pescas".

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Habitats costeiros serão devastados se emissões poluentes não forem reduzidas



Há cerca de 17 mil anos, durante aquela que é considerada a última Idade do Gelo, era possível viajar a pé da Alemanha para Inglaterra e da Rússia até ao continente americano. Nesses tempos remotos, o nível do mar estava, em média, 120 metros abaixo do atual.

Contudo, com o fim dessa era gelada, os oceanos do planeta subiram rapidamente, quase um metro a cada 100 anos, uma tendência que tem vindo a ser intensificada pelas emissões de gases com efeito de estufa lançadas na atmosfera pelas atividades humanas, e que estão a provocar o degelo nos polos e noutras regiões.

Num artigo publicado esta quarta-feira na revista ‘Nature’, uma equipa internacional de cientistas, liderada pela Universidade de Macquarie, na Austrália, alerta que se as sociedades humanas não conseguirem manter o aquecimento da Terra entre os 1,5 e os 2 graus Celsius, relativamente aos níveis pré-industriais (1850-1900), a rápida subida do nível dos mares engolirá os habitats costeiros.

Recifes de coral, manguezais e sapais são alguns exemplos das zonas que poderão ser perdidas para o avanço das águas marinhas e os cientistas dizem que é preciso fazer mais para protegê-las, uma vez que são importantes sumidouros de carbono, refúgios para juvenis de várias espécies de animais, para a subsistência de comunidades humanas e para proteger a costa da erosão provocadas pelo mar e de tempestades, cada vez mais frequentes por causa das alterações climáticas. Nas Ilhas Salomão, no sul do Oceano Pacífico, a subida do nível do mar causou a morte de grande porção das florestas de manguezais, expondo a costa à erosão e à força devastadora de tempestades cada vez mais intensas e frequentes.

Tendo como referência milhares de anos de história da Terra, Neil Saintilan, primeiro autor do artigo, acredita que “estes habitats costeiros podem provavelmente adaptar-se, até certo ponto, ao aumento do nível dos mares”. No entanto, avisa que se os limites do aquecimento global forem excedidos, esses habitats “atingirão um ponto de viragem”.

Em comunicado, o investigador salienta que sem a redução das emissões de gases com efeito de estufa, a subida do nível dos mares “excederá a capacidade dos habitats costeiros para se adaptarem”, o que, segundo ele, resultará em “instabilidade e alterações profundas” desses ecossistemas.

Ainda que, por exemplo, os manguezais, espécies vegetais halófitas, tenham evoluído para singrar em ambientes que seriam inóspitos para outras espécies vegetais, existindo numa zona em que água doce e água salgada se fundem, essa capacidade de adaptação tem os seus limites.

Se, com a subida do mar, os manguezais ficarem permanentemente mergulhados em água salgada, acabam por morrer. “Este tipo de morte pode ser devastador para muitas florestas naturais de manguezal na Ásia”, explica Saintilan, em que o desenvolvimento urbanístico na costa impede que essas florestas recuem para zonas mais favoráveis ao seu desenvolvimento e sobrevivência.

E a ameaça também se estende aos recifes de coral, sobretudo àqueles que circundam ilhas de reduzida elevação. Chris Perry, da Universidade de Exeter (Reino Unido) e outro dos autores do artigo, aponta que esses recifes atuam como uma espécie de barreira, que protege a costa da erosão causada pelas ondas e impede que o mar ‘engula’ a ilha, e toda a vida que ela contém.

No entanto, se o nível do mar for suficiente para que as águas passem acima dos recifes, não haverá nada que proteja os habitats e ecossistemas insulares de desaparecem sob as ondas, e esse cenário pode tornar-se realidade se o aquecimento global for além dos 2 graus Celsius, o limite máximo definido no Acordo de Paris de 2015, e que alguns cientistas consideram que não será cumprido dada a ainda forte dependência que as sociedades humanas têm dos combustíveis fósseis.

“No curto-prazo, os ecossistemas costeiros podem ser vitais para ajudarem os humanos a mitigar as alterações climáticas, absorvendo dióxido de carbono da atmosfera e oferecendo proteção contra tempestades oceânicas”, diz Simon Albert, da Universidade de Queensland e que também assina o trabalho.

Mas para que esses serviços continuem a existir e possamos continuar a beneficiar deles temos também de ajudar os habitats costeiros, e isso passa por queimar menos combustíveis fósseis, transitar para modelos de produção e consumo de energia limpa e renovável e adotar soluções baseadas na Natureza que permitam combater os piores efeitos das alterações climáticas.

domingo, 16 de julho de 2023

ICNF interdita observação de golfinhos na entrada do estuário do Sado


A medida destina-se a proteger a população local de golfinhos roazes e aplica-se a partir deste sábado, 15 de Julho até ao final de Agosto, anunciou o instituto que tutela a conservação da natureza.

Desta forma, até ao próximo dia 30 de Agosto, “não é permitida a observação de cetáceos – nomeadamente de golfinhos – e a permanência de embarcações marítimo-turísticas e recreativas na entrada do estuário do Sado”, sendo possível apenas a circulação ou a passagem de embarcações no local.

A informação foi divulgada esta sexta-feira numa nota de imprensa do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), responsável pela decisão sobre este medida de exclusão, divulgada também em edital.

Esta nova medida, de carácter “experimental”, inclui-se entre várias propostas de acções a aplicar a curto prazo. Foi tomada com base nas conclusões e nas propostas de um estudo de reavaliação da capacidade de carga de observação de cetáceos no Estuário do Sado e na zona marinha adjacente, explica o instituto.

Para esta decisão, foi tomada também em consideração a “fragilidade” da população local de golfinhos. Em causa está o “número reduzido” de indivíduos e a “probabilidade de não ocorrer um aumento populacional até ao final de 2030”, acrescenta a nota de imprensa.

A população residente de golfinhos roazes (Tursiops truncatus) do estuário do Sado conta atualmente com cerca de 25 indivíduos, muitos dos quais com idade superior a 40 anos, adianta o instituto.

“Após a tendência de declínio observada na década de 90, seguiu-se um ligeiro incremento com a sobrevivência das crias nascidas a partir de 2010. Continuam, no entanto, a existir factores de risco que podem dificultar a capacidade de recuperação da população e a tornam especialmente vulnerável a perturbações causadas pelas atividades humanas.”

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Porque saltam os golfinhos?

Tejo. Lisboa

Se nada é por acaso, acha que os Golfinhos saltam só porque sim? Leia a descrição e descubra o porquê!
- Os saltos ajudam a caçar: seja para avistar cardumes ou como manobra de distração numa emboscada; 
- Para respirar: os golfinhos são mamíferos, têm pulmões e precisam de vir à superfície para respirar pelo espiráculo;
- Como forma de comunicação: os golfinhos são animais gregários e ao saltarem indicam o caminho ao bando ou procuram-no quando se perdem; 
- Para conservar energia: os golfinhos nadam constantemente e a longas distâncias. Saltar fora de água permite-lhes diminuir a fricção, pois a atmosfera é menos densa que o meio aquático;

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Limpar, dessalinizar, reciclar: há mais água a chegar aos europeus


Com o aumento da procura e as alterações climáticas, a Europa está a investir em novas formas de reaproveitar um dos recursos mais valiosos do mundo: a água.

A vida na Terra depende da água doce, um recurso sob pressão. A explosão da procura global e as alterações climáticas estão a torná-la cada vez mais preciosa. Mesmo na Europa, onde inundações e secas são cada vez mais brutais e estão a afetar a vida de milhões de pessoas.

Também corremos o risco de os químicos presentes no nosso quotidiano estarem a passar para o que bebemos e persistirem no ciclo da água.

Mas, por outro lado, a qualidade dos cursos de água está a melhorar, em geral, e o acesso à água potável é elevado, indo ao encontro da nova diretiva europeia sobre a água potável visa garantir o acesso de todos a uma água de qualidade.




O maior reservatório de água potável da Europa

O Lago de Constança, na região alemã de Baden-Württemberg, é o maior reservatório de água potável da Europa, bebida por milhões de pessoas. Orgulho da cidade, rege-se por um princípio simples: quanto menos poluída for a água, menos terá de ser limpa.

Marie Launay, uma cientista francesa radicada na Alemanha, trabalha na região, à frente de uma unidade dedicada à luta contra os micropoluentes, nocivos para os peixes, os ecossistemas e seguramente para os seres humanos.

"Estamos a usar cada vez mais químicos em casa, nos produtos domésticos. Estamos a usar mais medicamentos e também mais pesticidas. E estas substâncias, quando são persistentes, também persistem no ambiente. Por isso, é importante poder eliminá-las para preservar a qualidade da água”, afirma.

Parte da solução está nas estações de tratamento de águas residuais que tratam a água que usamos, antes de a devolver à natureza.

Várias estações deste estado federal alemão foram equipadas com um tratamento adicional, por ozono, em que os poluentes são decompostos.

A tecnologia deverá ser desenvolvida noutros locais, numa altura em que a regulamentação europeia sobre as águas residuais está a mudar e é provável que a lista de poluentes a eliminar aumente.

"Existem planos para eliminar os micropoluentes das grandes estações e das regiões sensíveis a nível da União Europeia. Está previsto que as indústrias farmacêutica e cosmética paguem o financiamento destas instalações de proteção ambiental.

Espanha aposta na rega com água do mar

Espanha, o nível das reservas de água é preocupante, sobretudo em algumas regiões como Valência, regularmente afetada pela seca.

Para fazer face a esta situação, o país criou instalações de dessalinização, que produzem água doce a partir da água do mar e são responsáveis por cerca de 9% da água doce consumida a nível interno.

Trata-se de uma tecnologia cara e que consome muita energia, mas necessária,

José Luis Zaplana, diretor da fábrica de dessalinização Cadagua, na zona industrial valenciana. explica que, por exemplo, a sua central "permite que a água do rio Jucar seja devolvida a outras populações que não dispõem deste recurso".

"Pode pensar-se que dessalinizar a água do mar é caro, mas é melhor do que não ter água", defende.

Também Mariola Dura, responsável pelas operações da companhia de saneamento Acuamed, reconhece as vantagens da tecnologia.

"Ajuda muito o motor económico, o turismo, a agricultura, neste caso a indústria. Não temos de nos preocupar tanto se chove, ou não".

Águas residuais contribuem para bebida local

Espanha é também campeã europeia na reutilização de águas residuais. Sobretudo para a agricultura, que capta muitos recursos.

Da horta, uma grande zona agrícola perto do centro da cidade de Valência, saem regularmente produtos frescos para os habitantes, por vezes regados na totalidade com águas recicladas na estação de tratamento de águas residuais.

A prática será incentivada e regulada através de novas regras europeias, que vão entrar em vigor este verão.

Mas as vantagens destas fábricas de reciclagem de água, lembra Juan Ángel Conca, diretor da Companhia Pública de Saneamento de Águas Residuais da Comunidade Valenciana (EPSAR), não se ficam apenas pela água para rega.

"Há lugares no mundo onde a água que sai das estações de tratamento de águas residuais pode ser bebida! Tudo isto, que parece uma fábrica, é uma fábrica de recursos. É uma fonte de água limpa para a agricultura, de água limpa para o ambiente, mas também de lamas, que são utilizadas para fazer fertilizantes para a agricultura. E, finalmente, uma fonte de energia, porque produzimos biogás que usamos nas nossas instalações".

A água é usada para regar diferentes frutas e legumes e em muitos casos, chufa, tubérculo típico de Valência, usado como principal ingrediente da orchata, a bebida local.

Enrique Aguilar é agricultor e lembra-se de como, no início, as águas tratadas deixavam os produtores de pé atrás. “No início, os agricultores tinham dúvidas. Mas já usamos esta água há mais de 25 anos e o resultado é muito positivo.

E será que com água reciclada a chufa sabe ao mesmo? Enrique não hesita na resposta: “Água é água. Ela tem todas as qualidades necessárias. Regamos com água reciclada há muitos anos e nunca ninguém notou nada".

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Algas: Um recurso subaquático oculto que vale mais do que se esperava



Os investigadores acabaram de calcular o valor que a sociedade obtém de um recurso subaquático comum, mas escondido, e descobriram que é muito mais elevado do que alguma vez se esperava.

As florestas de algas há muito que fazem tanto pela humanidade, operando sempre fora da vista sob as ondas.

Abraçando um terço das nossas costas, elas fornecem alimento e casas para grande parte dos nossos mariscos costeiros. Ao fazê-lo, estas vibrantes selvas oceânicas ajudaram a ousadas migrações humanas como a colonização das Américas a sul, há 20.000 anos.

Também comemos a própria algas, usamo-las para fertilizar culturas, adicionamo-las a medicamentos e cuidados com a pele, e respiramos o oxigénio que produz.

No entanto, as florestas de algas estão em declínio catastrófico, e não compreendemos bem a extensão, e muito menos o valor, do que estamos a perder. Assim, uma equipa de investigadores apresentou uma estimativa dos serviços que os ecossistemas de algas nos proporcionam.

“Pela primeira vez, temos os números que demonstram o considerável valor comercial das nossas florestas globais de algas”, diz o ecologista marinho da Universidade de New South Wales, Aaron Eger.

“Encontrámos 740 milhões de pessoas que vivem num raio de 50 quilómetros de uma floresta de algas. Portanto, estes sistemas têm um papel significativo a desempenhar no apoio à subsistência destas pessoas e vice-versa”.

Eger e colegas fizeram um levantamento de 1.354 peixes e invertebrados em seis tipos diferentes de florestas de algas em oito áreas oceânicas diferentes. Também tomaram medidas de utilização de nutrientes desde o carbono ao fósforo.

Contributo económico das algas para produção pesqueira é de 29.851 dólares

O valor económico da contribuição das florestas de algas para a produção pesqueira é em média de 29.851 dólares e 904 quilogramas por hectare por ano, relata a equipa.

Surpreendentemente, apenas 50 tipos de animais dos 193 identificados contribuíram com a maior parte do valor para a pesca, principalmente invertebrados como lagostas, ouriços-do-mar e abalone.

Estas “árvores” oceânicas não só fornecem habitat a milhares de espécies marinhas, como também desempenham um papel enorme nos ciclos globais de nutrientes. As algas são um tipo de algas que são protistas, não plantas, mas tal como as plantas, a sua fotossíntese coloca energia nas teias de vida que abrigam, removendo o dióxido de carbono do seu ambiente e produzindo oxigénio no processo.

A remoção de dióxido de carbono, por sua vez, eleva os níveis de pH e o fornecimento de oxigénio nas áreas imediatas – ajudando a mitigar os efeitos locais da acidificação dos oceanos.

As algas também absorvem outros nutrientes, como azoto e fósforo, para alimentar o seu rápido crescimento, com algumas espécies capazes de adicionar até 50 centímetros de altura num dia. Pesquisas anteriores descobriram que as florestas de algas são ainda mais produtivas em termos de crescimento do que as culturas intensamente cultivadas, como o arroz e o trigo.

“Dos três elementos, a remoção de azoto forneceu o maior valor económico por hectare por ano (média = $73.831, 620 quilogramas), seguida pela remoção de fósforo (média = $4.075, 59 quilogramas), e por último a captura de carbono (média = $163, 720 quilogramas)”, escreve Eger e colegas.

Embora a captação de carbono das algas possa não ser tão impressionante como a sua remoção de azoto, ainda é equivalente a florestas terrestres e ervas marinhas.

“Globalmente, estas florestas de algas produzem uma média estimada de 500 mil milhões de dólares por ano”, conclui a equipa. Isto é três vezes mais do que as melhores previsões anteriores e é apenas uma medida de base que tem ainda de considerar outras contribuições significativas para a nossa economia.

“Houve também muitos outros serviços que não avaliámos, incluindo turismo, experiências educativas e de aprendizagem, e algas como fonte de alimento, pelo que antecipamos que o valor real das florestas de algas no mundo seja mais elevado”, qualifica Eger.

A algas também têm um potencial incrível como biocombustível sustentável e ajudam a proteger as nossas costas contra a erosão.

Cerca de um terço de todas as florestas de algas sofreram perdas profundas

Mas, tal como em grande parte do mundo à nossa volta, as florestas de algas estão a ter dificuldades. Nas últimas décadas, cerca de um terço de todas as florestas de algas sofreram perdas profundas. Uma combinação de ondas de calor e de ouriços-do-mar invasivos e esfomeados provocou um declínio de 95% das algas ao largo da costa da Califórnia desde 2014. A meio mundo de distância, as florestas de algas da Austrália foram listadas como ameaçadas após declínios igualmente drásticos.

Também sofrem de poluição por actividades humanas, e à medida que estas florestas flutuantes diminuem, o mesmo acontece com lagostas, abalone, peixes, e todas as outras vidas que contam com a sua existência.

“Colocar o valor do dólar nestes sistemas é um exercício para nos ajudar a compreender uma medida do seu imenso valor”, diz Eger. “É importante recordar que estas florestas também têm um valor intrínseco, histórico, cultural e social por direito próprio”.

Os investigadores esperam que as suas descobertas chamem a atenção para este ecossistema há muito negligenciado. Eles estão a lutar para restaurar e proteger milhões de hectares a nível mundial em conjunto com a Kelp Forest Challenge.

quarta-feira, 22 de março de 2023

terça-feira, 14 de março de 2023

Dia Internacional de Ação pelos Rios

Esta data foi comemorada pela primeira vez em março de 1997, em Curitiba, no Brasil, no I Encontro Internacional dos Atingidos pelas Barragens, onde representantes de 20 países decidiram que o Dia Internacional de Ação seria a partir de então a 14 de março.

A partir dessa iniciativa, todos os anos, milhares de pessoas por todo o mundo comemoram esta data, exigindo melhores políticas e práticas, e lançando a atenção sobre as ameaças que os rios enfrentam.

A água é um recurso finito, pelo que a sua utilização deve ser regrada e consciente. A escassez deste bem tem afetado cada vez mais áreas no mundo, potenciando inclusive guerras entre alguns países. Para além da escassez, a poluição dos recursos hídricos leva a restrições na sua utilização, podendo causar problemas de saúde graves. Está nas mãos de todos a proteção da água como recurso essencial à vida.

Consulte o site do Dia Internacional de Ação pelos Rios para saber mais sobre as várias ações a decorrer.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A espuma do mar é mais valiosa do que parece. Fotografe-a e ajude os cientistas


O novo projecto FitoAvista quer detectar grandes concentrações de microalgas na costa portuguesa, visíveis nas espumas e nas colorações do oceano. A Wilder falou com a coordenadora, Alexandra Duarte Silva, e conta-lhe tudo.

Se estiver junto à costa e avistar espuma na praia ou no mar, ou então uma coloração diferente nas ondas – vermelha, laranja ou castanha, por exemplo – o mais provável é não ser poluição, mas sim a parte visível de um imenso mundo microscópico que habita as águas do mar: o fitoplâncton formado por microalgas unicelulares, que estão na base da teia alimentar marinha.

Concentração de espumas do mar em Vila Nova de Gaia. Foto: Maria Lobo

Agora, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tem um novo projecto para onde pode enviar o registo dessas observações, depois de as fotografar: o FitoAvista, irmão mais novo do GelAvista (dedicado aos gelatinosos), recorre tal como este a cidadãos cientistas para serem os “olhos” dos investigadores onde estes não conseguem chegar, explica a coordenadora da iniciativa, Alexandra Duarte Silva.

A partir das fotografias que recebe no email plancton@ipma.pt, a equipa do FitoAvista consegue perceber se há uma grande concentração de microalgas num determinado local, para aí recolher amostras e analisá-las em laboratório. Até porque o IPMA dispõe de várias estações ao longo da costa portuguesa e assim consegue chegar em pouco tempo aos locais.

Comuns na costa portuguesa

“O fitoplâncton está sempre presente na água e tem uma taxa de reprodução muito rápida, podendo atingir concentrações muito elevadas num curto espaço de tempo”, descreve Alexandra Duarte Silva, que é especialista em ecologia do fitoplâncton. Estas proliferações são comuns na costa portuguesa ao longo do ano, adianta.

Espuma observada numa praia de Peniche. Foto: Associação Mar à Deriva

Em causa estão duas razões principais. A primeira, é que “em Portugal temos um fenómeno no litoral chamado ‘upwelling’ ou afloramento costeiro, que acontece quando os ventos sopram de norte e trazem as águas do mar do fundo para a superfície, que são mais frias e ricas em nutrientes, o que acontece em especial na Primavera e no Verão”.

Em segundo lugar, “já entre o final do Inverno e a Primavera, o número destas algas aumenta muitas vezes com o enriquecimento das águas do mar devido aos nutrientes que são trazidos pelos rios”. Em causa estão as actividades urbanas e agrícolas e também a própria vida que existe nos cursos fluviais.

Espuma do mar avistada numa praia em Ovar. Foto: Raquel Chumbinho

O fitoplâncton é extremamente importante, tanto para a vida marinha como terrestre, mas quando acontecem proliferações muito grandes, podem ter “um impacto severo no sector aquícola e no turismo”, sublinha a mesma responsável. Por vezes, as águas do mar ficam com um aspecto estranho ou as praias podem mesmo encerrar, quando se trata de “marés vermelhas” – muitas provocadas por microalgas tóxicas para a saúde humana.

Noutras ocasiões, certas microalgas do grupo das diatomáceas têm o poder de “irritar e entupir as guelras dos peixes” nas explorações de aquicultura. Além do mais, quando se concentram grandes quantidades de microalgas, estas por vezes “apodrecem na água e privam de luz os bivalves que estão mais abaixo”, afectando a sua sobrevivência.

Uma das 20.000 espécies de diatomáceas conhecidas, fotografada ao microscópio. 
Foto: Alexandra Duarte Silva

Assim, se o IPMA analisar as amostras de água do mar e descobrir que estão em causa microalgas nocivas ou tóxicas, podem ser emitidos avisos. No caso de microalgas nocivas, estão em causa espécies que atacam as guelras dos peixes, por exemplo, pelo que a sua detecção pode ajudar a avisar os produtores para tomarem medidas.

Já as microalgas tóxicas prejudicam a saúde humana e também a dos mamíferos marinhos, e se forem encontradas podem levar à proibição de venda de bivalves em determinados locais da costa. É o que acontece por vezes durante o Verão, ajudando a impedir intoxicações alimentares e outras indisposições graves. É que algumas espécies de microalgas têm toxinas naturais que passam para as amêijoas e outros bivalves, que não são afectados, mas que concentram essas substâncias e podem afectar quem os ingere. “Não sabemos como o nosso organismo vai reagir a estas toxinas e, por isso, quando são emitidos alertas quanto ao consumo de bivalves, é importante termos todo o cuidado”, adverte Alexandra Duarte Silva.

Em poucos dias, 78 avistamentos

Entretanto, no espaço de uma semana, entre o último dia 17, quando foi lançado nas redes sociais, e a manhã de dia 25, o projecto FitoAvista já tinha recebido informação de 78 avistamentos de espumas e colorações no mar, de Viana do Castelo a Aljezur, enviada por cerca de 40 cidadãos cientistas.

Espuma observada na Praia Grande. Foto: José Azevedo

Este grande número de participações em pouco tempo surpreendeu a equipa e terá sido ajudado por uma parceria com o GelAvista, uma vez que uma parte dos observadores colaboram com os dois projectos. Além de Alexandra Duarte Silva, o FitoAvista é realizado por Antonina dos Santos, especialista em ecologia marinha de zooplâncton e coordenadora do GelAvista, e por Isabel Cruz, da área da comunicação.

“Temos várias pessoas que já incorporaram esta rotina [de reportar o que vêem] no seu dia-a-dia”, explica Alexandra, que adianta que essa consistência é muito importante para a análise dos dados. Ou seja, se registarmos diariamente concentrações de espuma num determinado local, e chegar um dia em que já não haja lá nada, esse “avistamento zero” também tem significado para os cientistas, sublinha. Entretanto, se tudo correr bem, o objectivo da equipa é dentro de algum tempo oferecer formação a quem queira participar na recolha de amostras de espuma e água do mar.

Agora é a sua vez.

Costuma passar junto ao litoral em passeio ou no caminho para o trabalho? Fotografe os avistamentos de fitoplâncton e envie-os, juntamente com o local, data e hora, para plancton@ipma.pt. Pode ver mais informações sobre o que é necessário nas páginas de Facebook e de Instagram do FitoAvista.